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segunda-feira, 25 de março de 2019

Redescobrir Manuel da Fonseca. Paula Graça Rodrigues. «Após ter conhecido um enorme êxito em Espanha, o romance picaresco expandiu-se por toda a Europa através de traduções…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à dra Paula Rodrigues

Resumo
«O principal objectivo desta dissertação é aprofundar o conhecimento do romance Cerromaior, da autoria de Manuel da Fonseca, perceber a sua importância e significado no contexto histórico-literário do neorrealismo português, assim como evidenciar que o referido romance se enquadra nas características do subgénero literário romance de formação. Demonstra-se que, para além de se tratar de um romance que se enquadra nos pressupostos da ficção neorrealista tradicional, Cerromaior já traz também uma perspectiva mais aberta do próprio conceito de realismo, o que lhe permite dialogar com a tradição modernista (sobretudo na valorização de aspectos estéticos), sem trair o compromisso social, ético e político, essencial ao neorrealismo dos anos 40. Voltado para a problematização de aspectos psicológicos, Cerromaior, ao centrar-se numa personagem em evolução que vai desafiando a narrativa conforme a sua tomada de consciência, pode ser considerado como romance de formação. A nível estrutural, esta dissertação é constituída por três capítulos. No primeiro capítulo, apresenta-se a fundamentação teórica do romance de formação/bildungsroman, a sua origem, evolução e caracterização. No segundo capítulo, estabelecendo a relação entre a obra de Manuel da Fonseca e o seu contexto histórico-literário, apresenta-se as principais coordenadas estéticas e ideológicas do neorrealismo português, enquadrando Cerromaior como romance de formação. No último capítulo, faz-se uma análise estrutural de Cerromaior dialogando com a perspectiva lukacsiana sobre o romance de formação. São destacados ainda os aspectos histórico e social, a representação da sociedade rural no universo da narrativa, tendo em conta os valores, atitudes e comportamentos das personagens e a sua influência no percurso formativo/de aprendizagem do herói».

Romance de formção / bildungsroman: campo conceptual
Origem e evolução do conceito
«Desde os horizontes da literatura picaresca até ao bildungsroman, o romance de formação é herdeiro de uma longa filiação de textos narrativos. Como tal, é importante determo-nos um pouco na evolução deste subgénero literário, de modo a compreender os elementos fundadores da obra que será objecto do nosso estudo. Tal como as noções de romance de educação ou romance de aprendizagem, a noção de romance de formação é de emprego relativamente recente na pena dos críticos de obras literárias, surgindo estas noções pela primeira vez no século XVIII. É importante referir que estes géneros romanescos só passaram a ser utilizados a partir do século XIX e entraram em uso corrente a partir de 1945. Explorando a plurissignificação do conceito, podemos dizer, por exemplo, que um exame atento do léxico francês apresenta as três noções utilizadas como sinónimos. A nível diacrónico, no decurso do século XVI surge em Espanha o romance picaresco, caracterizado, inicialmente, pela presença da personagem de um jovem que narra na primeira pessoa as aventuras de uma vida airada, que se desenrolam muitas vezes em façanhas nada abonatórias. Reforçando o lado transgressor do herói do romance picaresco, ao longo da narrativa multiplicam-se encontros e farras de uma personagem destituída de estatuto social, geralmente um mendigo, cuja pobreza impede de se fixar num lugar ou numa sociedade definida. Deste modo, como observam os especialistas deste subgénero, o romance picaresco aparece marcado pela mesma instabilidade da personagem da qual narra múltiplas aventuras. Após ter conhecido um enorme êxito em Espanha, o romance picaresco expandiu-se por toda a Europa através de traduções, de imitações, ou actualizações paródicas. Deste modo, numerosos romances de formação reivindicam uma filiação picaresca.
Contudo, estabelecendo as diferenças entre os subgéneros já citados, enquanto a personagem pícara experimenta uma série de aventuras, de encontros, de mudanças de estado ou de destino sem a preocupação de reflectir sobre o que lhe está a acontecer, o herói do romance de formação, por sua vez, é marcado pelo espírito reflexivo. Esforça-se por gerir o seu destino e está dotado de capacidade de análise psicológica que falta à personagem pícara. Assim, o romance de formação, contrariamente ao picaresco, introduz, por vezes, pausas narrativas (redacção de uma carta, exames de consciência, etc.), ao longo das quais a personagem reflecte sobre o modo como deve ou pode comportar-se. Tal como o pícaro, o herói do romance de formação também é um homem jovem que, preso à tutela da sua família, percorre o mundo e a sociedade ao sabor de numerosas aventuras. Da tradição picaresca, este subgénero actualiza, portanto, uma temática de viagem e, sobretudo, as características de uma personagem socialmente móvel, dotada de grande profundidade psicológica, qualidade que, como já foi sublinhado, falta ao pícaro da tradição espanhola. Quem pela primeira vez utiliza a designação de romance de formação ou Bildungsroman são os críticos que fazem da literatura alemã o seu domínio de estudo privilegiado e servem-se do conceito para designar obras germânicas como Les années d’apprentissage de Wilhelm Meister, de Goethe, Heinrich d’Ofterdingen, de Novalis, Henri le vert, de Keller.
A primeira dificuldade com que se confrontam os estudiosos do romance de formação é, precisamente, a questão da sua origem. De facto, apesar de surgirem, como já referimos, no início do século XVIII as primeiras referências ao termo, este subgénero só se afirmará no século XIX, com a já citada obra Wilhelm Meister, de Goethe, vista por muitos críticos como o seu modelo regenerador. É o caso de Morgenstern que, em 1820, caracteriza o Bildungsroman como um subgénero romanesco ocidental. Segundo ele, a ideia central de Bildung (formação, criação) retoma e seculariza a ideia de criação divina aplicando-a ao homem: formar-se e educar-se em contacto com a realidade é, no século XVIII, o dever essencial do indivíduo, levado a expandir as suas potencialidades à luz da sua razão visando, sobretudo, uma perfeita harmonia entre a sua alma e o seu corpo». In Paula da Graça Rodrigues, Redescobrir Manuel da Fonseca, Cerromaior como Romance de Formação, Dissertação apresentada à Universidade Autónoma de Lisboa, Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, Tradução e Interpretação, para a obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses, Lisboa, 2012.

Cortesia de UAdeLisboa/JDACT

segunda-feira, 16 de março de 2015

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «O ‘Monge de Cister’, festejado como a nossa primeira novela histórica aquando da sua publicação, constitui o segundo quadro de O Monasticon e conta a luta íntima entre uma violenta paixão de vingança e o preceito cristianíssimo do perdão»

jdact

O romance histórico no primeiro romantismo português
Herculano
«(…) Quando o carácter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o novelista pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que é vivo, o génio do povo que passou pelo do povo que passa. Desde o aparecimento de Mestre Gil, da Abóbada e da Morte do Lidador, Herculano conquistara um público que lhe ficou fiel e discípulos que o não negaram. Testemunham-no não só as sucessivas reedições dos seus romances, como também o seu discípulo Rebelo Silva, que em 1848 escrevia no jornal A Época: … esse nome escrito no rosto da Harpa do Crente, da História de Portugal, do Presbítero, e ultimamente no Monge de Cister é tão conhecido na casa patriarcal das províncias como no faustoso aposento da cidade.
Em 1840, Herculano escreveu o seu primeiro romance histórico, o Monge de Cister, que só veio a ser publicado em volume em 1848, para entretanto dar a primazia de estampa ao Eurico (1844), elaborado durante o ano de 1843. O Monge de Cister está composto dentro dos princípios estéticos e dos objectivos que o seu autor adoptara para o género novelístico cujas primícias lhe ficaram a pertencer na literatura portuguesa. O Monge faz parte de uma série romanesca intitulada O Monasticon, concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assinalar, e que o autor, depois de escrito o Eurico, deixou apenas em díptico. O Eurico, porém, já não é só uma crónica-romance mas, principalmente, uma crónica-poema, lenda ou quer que seja dos presbítero godo. Esse hibridismo elevou, pela poesia do eu romântico, o Eurico à categoria de uma das obras representativas do Romantismo. A densa atmosfera de fatalidade nos amores de Eurico e Hermengarda, a solução pela morte de um e loucura da outra estavam na índole da concepção do amor mais generalizada entre portugueses: amor louco, morte por amor.
Outra virtude romântica que explica o lugar que o Eurico veio ocupar na produção literária do romantismo português, direi até peninsular, foi a época escolhida, que tanto satisfez ao gosto da época pelo exotismo no tempo, talvez a mais atraente sedução a que o romântico sucumbia. No Eurico, Herculano foge já ao cânone por ele próprio estabelecido, dominado pela feição do seu temperamento poético, elegíaco e soturno. De resto, só os medíocres são ortodoxos na escola literária; os grandes e os maiores não se sujeitam ao constrangimento da regra. Castilho, ao apreciar o Eurico na Revista Universal Lisbonense condena-lhe a originalidade dizendo: … o Eurico, em nossa particular e respeitosa opinião, é um livro mui notável para ser lido, muito impróprio para ser inculcado como vade mecum. Os seus desenhos são severos, grandiosos e todos a negro. Foi uma valente mão a que os perfez; só outra valente mão os poderia copiar, e faria mal se o fizesse. São como as poesias de Ossian: maravilham, e largam-se. O que hoje principalmente carecemos, o que pedimos, e o que esperamos virá aparecendo, são obras correntes, acessíveis a todos os entendimentos, adaptáveis a todos os gostos, espelhos do mundo, da alma e do coração, três coisas em que há sempre misturada toda a sorte de cores e de tons.
Assim, Castilho já então aparecia a propugnar por uma novelística divulgadora de conhecimentos, de moral acomodada às conveniências, acessível a todos os entendimentos, aquilo que viria a ser o romance histórico do segundo romantismo. O Monge de Cister, festejado como a nossa primeira novela histórica aquando da sua publicação, constitui o segundo quadro de O Monasticon e conta a luta íntima entre uma violenta paixão de vingança e o preceito cristianíssimo do perdão. Pretende ressuscitar a época do rei João I e está recheado de erudição arqueológica suficientemente adequada a um romance. Neste particular, o poder descritivo do autor é incomparavelmente maior do que o evocativo. Herculano não possuía em grande medida o poder de criação novelística e o Monge de Cister, no que respeita a acção e personagens, foi todo descrito em tons sombrios e, se na parte histórica, em vários lances, rivaliza com Scott, na elaboração da parte fictiva ficou aquém das obras do romancista escocês». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do ICamões/JDACT

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «… Parece-nos que nesta cousa chamada hoje romance-histórico há mais histórias do que nos graves e inteiriçados escritos dos historiadores. Nesta breve nota encontra-se estabelecido o cânone do romance histórico tal como o concebeu e praticou»

jdact e wikipedia

O romance histórico no primeiro romantismo português
Herculano
«(…) Respondendo a críticas que o increpavam por haver alterado a verdade histórica nas suas crónicas-romances publicadas no Panorama, Herculano respondia nas colunas da mesma revista: Nós procuramos desentranhar do esquecimento a poesia nacional e popular dos nossos maiores: trabalhamos por ser historiadores da vida íntima de uma grande e nobre, e generosa nação, que houve no mundo, chamada Nação Portuguesa. Termina a sua resposta: Alargámo-nos nesta nota, porque alguém nos increpou de havermos alterado a história em várias crónicas-romances que temos publicado, principalmente no Mestre Gil e na Abóbada; era-nos lícito fazê-lo; mas cremos que não o fizemos em cousa essencial; nisto demos crónica, no vestuário com que o enfeitámos demos romance. Não confundamos ideias; o extra-histórico não é contra-histórico. Vivem acaso naquelas duas… novelas, se quiserem, as épocas a que aludem? Não teremos tanto orgulho, que sem receio, o afirmemos. Mas se com efeito aparece, em uma o modo de existir português, do tempo de João II, noutro o crer e sentir robustíssimo do reinado de João I, diremos sem hesitar que saímos com o nosso intento. Preso por mil, preso por mil e quinhentos, diz o velho adágio. Vá aqui mais uma humilde opinião nossa. Parece-nos que nesta cousa chamada hoje romance-histórico há mais histórias do que nos graves e inteiriçados escritos dos historiadores. Nesta breve nota encontra-se estabelecido o cânone do romance histórico tal como o concebeu e praticou Herculano:
  • Revivescência da poesia nacional e popular; 
  • Representação, com base erudita, da vida íntima das épocas passadas; 
  • Ressurreição estética da vida social da época histórica em que decorre a acção novelística, expressando o modo de sentir e existir do povo.
Este cânone é, mutatis mutandis, aquele que se pode deduzir da leitura dos romances de Scott. Mas a lição que Herculano recebeu do grande novelista escocês não foi apenas a que assim se pode esquematizar. Também nas obras de Scott apreendeu Herculano o princípio da não apresentar as figuras com existência histórica como personagens centrais do enredo. O romance histórico não comporta heróis que tivessem tido existência histórica, com destaque singular, sob pena de impossibilitar a representação social múltipla e vária que necessariamente há-de compor o quadro histórico em que se insere a acção imaginada. Não é possível saber se o interesse de Herculano pelos estudos históricos e sua consagração a eles, proveio da leitura apaixonada que fez dos romances de Scott. Houve já quem conjecturasse, não me recordo quem, que a vocação de Herculano para os estudos de natureza histórica se revelara no tempo em que ele frequentara a aula de diplomática, antecedentemente ao exílio.
É muito verosímil; mas se não foi Scott quem nele despertou o interesse por tais estudos, foi ele certamente quem lhe revelou o que eles têm de sedutor. Estava-se então numa época em que o interesse pela História constituía não só o fundo da cultura mas também um dos mais vastos e ricos recursos ao divertimento dos espíritos. Em quase todas as épocas da história se verifica, em cada uma delas, a criação da sua utopia própria, geralmente prospectiva. A utopia romântica teve a particularidade de se projectar sobre o passado, de ser uma utopia retrospectiva. Toda a utopia se cria como uma compensação das realidades presentes; os românticos, porém, antes de a visionarem no futuro, fizeram-na transitar pelo passado, e esse foi o toque de genialidade de Scott e a verdadeira causa da quase universal aceitação da sua obra. Augustin Thierry, na sexta das suas Lettres sur l’Histoire de France escreve: A leitura dos romances de Scott fez voltar muitas imaginações para a Idade Média, a qual, anteriormente, por menosprezo, era desconhecida; e se presentemente se está realizando uma revolução na maneira de ler e escrever a história, isso se deve principalmente à leitura dessas composições aparentemente frívolas.
Herculano parece ter considerado a História e a novela histórica como dois elementos de actuação convergente. Mais: no entusiasmo pelo romance histórico, na admiração pela obra de Scott, modelo e desesperação de todos os romancistas, equiparava a História ao ficcionismo da história ao escrever no Panorama: Novela ou História qual destas duas causas é a mais verdadeira? Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «’Romana é a raiz das nossas leis’; ‘romano o princípio de bom número dos nossos costumes’; romana e romaníssima uma boa parte dos acidentais do nosso culto; ‘romanas muitas das nossas superstições’; e ‘até romana a nossa língua’, em palavras»

jdact

Oposições e Objecções
«(…) De resto, em Portugal, os próceres da nova escola apresentaram-se desde o início mais como renovadores do que como revolucionários: renovadores da linguagem literária, ressuscitadores da tradição nacional, iniciadores da nova estética e novos géneros e mais libertadores da tirania imitativa do clássico do que propriamente da literatura clássica. Castilho, ao prefaciar em 1841 a sua tradução de As Metamorfoses de Públio Ovídio Nasão, opõe justificadas razões ao medievalismo romântico: Mas (objectarão alguns) não são estas antigualhas greco-romanas, as que hoje valem e se procuram no mercado intelectual, mas sim as da idade-média; é isto: primeiro, porque as da Idade Média, com estarem mais próximas, estão por ora menos averiguadas, e ainda as não reduziram, como as romanas e gregas notícias, a dissertações, tratados e lexicons amplíssimos; ainda não tiveram seus Grevio, Gronovio, Heinsio, Petisco, Rosin, Winckelmann, etc.; segundo, porque a Cavalaria, com sua profissão de fé para com Deus, lealdade para com os homens, amor, galantaria, e protecção para com as mulheres, vem, muito mais do que o Paganismo, com as opiniões e costumes do nosso tempo; e terceiro, porque por esta mesma segunda razão, e por serem superstição e barbaria da Idade Média muito mais fecundas em terror, de necessidade haviam de prevalecer, como prevaleceram, para moda.
Não dirão que enfraqueço ou dissimulo os argumentos contrários; mas são eles por ventura invencíveis? Examinai-os de perto. O primeiro terá grande força por parte dos autores, mas nenhuma por parte dos leitores, que são infinitamente maior número. Para um escritor, que entre os do seu país quer, pode, e deve primar, facilmente concordo em que o explorar minas virgens lhe há-de ser muito mais agradável trabalho, do que lançar mão das riquezas já por outros amontoadas. Mas desses verdadeiros criadores da história íntima da sua Pátria, e lidos por todos, quantas dúzias me apontareis? Teve a Inglaterra um Walter Scott; poderia ter a França um Vítor Hugo; começou e há-de chegar a ter Portugal um Herculano. Quanto ao restante dos escritores e escrevinhadores, e a todo o comum do Público, especialmente entre nós, tão nosso é o que nos livros dos Gronorios está averiguado, como o que anda nas crónicas fradescas e cartórios do Reino jaz escondido. Tão nova lhes será, e por isso tão grotesca, a descrição da ceia de Trimalcião miudada por Petrónio, como o de um jantar de homens de armas à roda da caldeira e à sombra do Rico Homem Egas Moniz. Tão insólita e divertida coisa a relação que Apuleio lhes fará das posses e malefícios das feiticeiras da Tesalia, como a lenda das diabruras do santo frei Gil.
O segundo argumento, que versa sobre a maior analogia que dizem ter com este mundo da Liberdade o mundo feudal, por ser cristão, cavaleiro e namorado, por negação se contraria; porque se bem lançarmos as contas, achar-se-á que não temos nós, ainda hoje, menos daqueles remotíssimos Pagãos, do que destes Cristãos afastados. Romana é a raiz das nossas leis; romano o princípio de bom número dos nossos costumes; romana e romaníssima uma boa parte dos acidentais do nosso culto; romanas muitas das nossas superstições; e até romana a nossa língua, em palavras, em figuras e tropos, sem alusões e reminiscências, sem rifões e anexins e até pela diuturnidade do trato, com que ainda há dois dias, frequentávamos romanos e romaníssimas ficaram as feições das nossas virtudes e o carácter guerreiro e vagabundo da nossa glória. A citação foi longa, mas tão ignorados estão hoje os escritos de Castilho que ela se justifica, porque ele foi o mais esclarecido e o mais elegante dos opositores que o nosso primeiro romantismo encontrou à sua estética. Castilho considerou o maravilhoso romântico como muito menos expressivo e muito menos belo que o maravilhoso pagão. Castilho não acreditava no popularismo estético dos nossos românticos e com uma razão muito sólida, uma vez que Portugal contava então mais de 90 % de analfabetos. Para o tempo que ia noveleiro e dramático, em que o sublime da arte consistia, segundo Castilho, em estender o ânimo dos leitores sobre uma ideia, como sobre um potro de martírio, dar-lhe tratos e queimá-lo a fogo lento consistindo a sua principal missão em entristecer,
aterrar e desanimar a espécie humana.
Quanto à moral, Castilho considerava que, na literatura antiga, cada atentado contra ela só tinha o seu próprio nome, ao passo que na novela e no drama românticos o adultério, o roubo, o homicídio aparecem sedutoramente atractivos. Para ele era falsa toda a arte literária que não tivesse por escopo a beleza e por fim a dignidade humana. Não teve Castilho impugnação, nem, que fosse notório, houve romântico que levantasse a luva. Os românticos portugueses só se bateram na guerra civil, no campo das letras não lutaram e, em verdade, mesmo que o desejassem, não tinham com quem». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do I.Camões/JDACT

sábado, 12 de janeiro de 2013

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «Os reparos polémicos ficavam reservados, faziam-se na intimidade da epístola ou da palestra. Na imprensa, apenas um ou outro folhetinista mais rabugento, ocultando o nome em pseudónimo ou inicial»

jdact

Oposições e Objecções
«Em Portugal não houve batalha romântica, nem os românticos do Primeiro Romantismo encontraram oposições que os tornassem aguerridos e polémicos. José Agostinho Macedo, o único capaz de lhes sair ao caminho, estava morto e não havia mais ninguém disposto ao combate. Certamente muitas das figuras acreditadas da cultura portuguesa de então relutaram em aceitar a nova escola, mas não saíram a combate-la. Conhece-se uma carta de frei Francisco de S. Luís, o futuro cardeal Saraiva, datada de 23 de Fevereiro de 1839, que é reveladora dessa posição.
Escreve o erudito:
  • O toque de que acima falo é o romântico, sobre o que julguei conveniente explicar-me. Devo confessar que ouvi e li muitas vezes esta palavra, sem poder conhecer bem o que ela significava, e tendo vergonha de o perguntar. Um dia lembrou-me de ir consultar o Diction. français portugais et portug.-franc., que me dizem ser feito por alguns portugueses doutos e impresso em Paris em 1812 ou 1816. Achei com efeito este artigo: Romantique, adj. m. et. femin., que lembra novelas, situações delas, etc. Diz-se dos sítios. V. S.ª julgará se esta definição é clara e adequada: eu pouco aproveitei com ela. Quando ouvia falar em certas peças de Teatro, que agora se fazem em quadros, diziam-me: é romântica. Quando li algures versos que eu não entendia à primeira leitura, dizia eu: Camões, Ferreira, Sá de Miranda não escreviam assim; a resposta era: é estilo romântico. A isto instava eu: romântico dizem que é o que lembra novelas… Eu tenho lido com gosto, por exemplo, o Palmeirim, e entendo-o bem; logo o estilo romântico não é que se esvanece em elevações místicas ininteligíveis. Um dia apertei, um pouco de mais, um apaixonado das romanticidades e ele não achou refúgio, disse-me por último, que em tudo havia modas, e que esta era actualmente a moda da linguagem. Daqui para diante não podia o argumento dar mais passos; porque quem se opõe à moda é jarreta, é tonto, é do tempo dos Afonsinhos, e eu não queria nenhum destes sobriquets. Veio enfim de Paris um meu amigo e bom literato, e pedi-lhe que me dissesse o que lá entendiam por romântico. Respondeu-me que era o desprezo das regras estabelecidas pelos clássicos em todos os géneros de literatura. Veja V. S. se eu podia ser amigo do romântico, entendido neste sentido.
Mais adiante, na mesma carta, acrescenta:
  • Em resumo: escrevam-se embora novelas; escrevam-se histórias pitorescas; escrevam-se belas descrições de lugares, sítios, de vistas de países; pintem-se com cores próprias os grandes quadros da natureza, as suas obras grandiosas e magníficas, os seus ornamentos, os seus brincos, todas as suas lindezas; mas faça-se tudo isto em português inteligível, casto, fluido, lúcido, - no português de Camões, de fr. Luís de Sousa, de Lucena, de Fernão Mendes, de Francisco de Morais etc, etc. E, finalmente: Não sou tão dos tempos antigos que me reduza a só laudator temporis acti; não queria reprimir os esforços, os arrojos, os felizes atrevimentos de uma imaginação viva, ardente, às vezes impetuosa, etc. O que só quero, ou desejo, é que em tudo isto haja modo e regra e temperança.
Há tolerância neste desacordo e a crítica é tímida e os propósitos pacíficos. Frei Francisco de S. Luís não se apercebeu do problema de linguagem que se impunha à expressão da nova literatura, errando rotundamente ao julgar que era com estrita fidelidade à linguagem de Camões ou de Francisco de Morais que a nova poesia, o novo drama, a nova novela se podiam realizar. Mais tarde, Camilo Castelo Branco usaria de critério semelhante na apreciação da obra de Eça de Queirós.
Também Francisco Freire de Carvalho repudiava o Romantismo, considerando-o o novo gongorismo da actual Escola Francesca; e se é certo que anunciou, com propósitos impugnadores, uma Memória sobre o género de poesia denominado romântico e sua comparação com o denominado clássico, é também certo que nunca o publicou.
Os reparos polémicos ficavam reservados, faziam-se na intimidade da epístola ou da palestra. Na imprensa, apenas um ou outro folhetinista mais rabugento, ocultando o nome em pseudónimo ou inicial, saía a despique. Cito, como exemplo frisante, um que no Correio de Lisboa, no número de 15 de Fevereiro de 1839, não podendo conter a sua indignação pela revolução que o género romântico fez na sociedade, na literatura, na política e até na religião, terminava o seu folhetim, assinado apenas pela inicial Z, com a seguinte síntese que não é brilhante mas significativa:
  • Romanticismo, é a luz que alumia o actual século, é a demagogia da literatura e do coração, seus terríveis efeitos são, a anarquia literária, e o egoísmo sentimental.
In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «… alargada para além do essencial, julgamos ser suficiente para dar o ambiente de audiência ao género de ficção literária que com o Monge de Cister vai aparecer em Portugal, com um êxito até aí desconhecido em aceitação de obras literárias originais»


jdact

«Nas revistas e jornais literários de então, eram frequentes os artigos sobre o romancista escocês e as dissertações acerca do género por ele criado. Em notícia crítica das duas traduções de Quintino Durward aparecidas em 1839, lê-se no volume do Panorama desse ano:
  • Parece a muitos que a tradução de uma novela é a coisa menos importante e talvez a mais escusada do mundo, em tese poderá ser isto verdade, em hipótese nem sempre. Pegar ao acaso em uma dessas mil novelas que os franceses atiram à imprensa anualmente, como mercadoria para o comércio, e traduzi-la em português choco e bastardo, entra na tese; mas trasladar uma novela, como algumas de Walter Scott, onde às vezes se aprende mais história que nos livros dos historiadores, porque estes narram sucessos, e aqueles juntam época e gerações, e trasladá-la em português corrente e limpo, longe de ser coisa inútil, é um bom serviço que se faz à literatura portuguesa. São as novelas os livros que por maior número de mãos correm, e, quando instrutivas e vertidas em boa linguagem, podem, por isso mesmo, fazer grande benefício, não só instruindo e deleitando, mas habituando o vulgo dos leitores a pouco e pouco se aborrecerem dos desconcertos, barbarismos e neologismos escusados, de que anda inçada essa linguagem de novelas e conversações, a que chamam, cremos que por escârneo, língua portuguesa. Nesta hipótese entra, em nosso entender, a tradução de Quintino, feita pelo Ramalho. Todas as pessoas que têm lido no original as obras de Walter Scott, sabem quão grande dificuldade achava quem quiser traduzir com primor qualquer das suas novelas, e poemas. Essa dificuldade venceu-a o Ramalho excelentemente, dando-nos a sua tradução, com toda a energia, natureza e verdade, as galas nativas com que o escritor escocês adornou o seu Quintino. Infelizmente, não podemos dizer o mesmo da versão feita em Paris: o Moura, posto que mais aprimorasse esta obra do que a tradução de Ivanhoe, ainda está longe de merecer os elogios que de bom grado lhe daríamos, se nossa consciência nos não obrigasse a ser justos. Serviu-se, segundo nos parece, da versão francesa de Defauconpret, que por certo não é a mais fiel. Foi por isto, talvez, que a sua tradução tem o gravíssimo defeito de estar incompleta, faltando-lhe a conclusão da obra, que o autor escreveu muito depois de ter publicado o seu livro, e que se acha nas edições inglesas mais modernas, bem como na versão francesa de Montemont que, a não traduzir do original, o Moura devia antes ter seguido»
E, no Panorama, Herculano não só preparava o público para o novo género de novela como também acumulava informações eruditas para ilustração dos futuros novelistas, seja sobre a arquitectura gótica, situação das diversas classes sociais na Idade-Média, antigos foros e costumes, milícia, monumentos, cronistas portugueses, etc., etc..
Em 1837, O Panorama publicou, sem nome de autor, uma narrativa intitulada Quadros de História Portuguesa - Morte do Conde Andeiro e do Bispo de Lisboa - 1383. É apenas um esboço daquela narrativa que, mais tarde, Herculano intitulou Arrhas por foro de Espanha. Em 1838 o mesmo jornal literário publicou uma outra narrativa: O Castelo de Faria e pouco depois O Mestre Assassinado, Crónica dos Templários - 1320, ambas anónimas. Nesta última pretendeu o autor, sugestionado pelo Ivanhoe,pintar um quadro das violências dos Templários. Tentativa tosca.
Seguiu-se, na série, Mestre Gil, também sem nome a autorizá-lo, mas que Herculano confessou pertencer-lhe. Nesta Crónica do Século 15.º transparece a imitação do Quintino Durward de Scott, cujo tempo histórico, como é sabido, é o da luta entre Luís XI e o duque de Borgonha. No trabalho de Herculano o fundo histórico é o da luta de João II com os duques de Viseu e de Bragança. Aí, já o diálogo tem vivacidade e os personagens, embora pouco individuados, são recortados com certo jeito pitoresco. Além disto, a narrativa aparece já com alguns laivos da cor local requerida em tal género de escritos. Mestre Gil é quase um sósia do barbeiro de Luís XI, e o nosso João II não deixa de lembrar o rei francês tal como Scott o pintou no seu romance. É também deste mesmo ano A Abóbada, já autorizada com o nome de Herculano, onde os progressos técnicos, linguísticos e cor histórica revelam o nosso primeiro romancista histórico.
Em 1839, Herculano publica no Panorama a narrativa O Cronista - Viver e Crer de outros tempos. A acção passa-se no reinado de João III, quando começaram a correr as notícias da chegada da bula papal que concede ao rei a autorização para o estabelecimento do tribunal da fé em Portugal. Ao compilar as Lendas e Narrativas enjeitou Herculano esta narrativa que lhe saíra da pena inferior à Abóbada e à Morte do Lidador. Também Cunha Rivara tentou por esta altura (1840), nas colunas do Panorama, cultivar o género; Um Feiticeiro (Crónica da Inquisição), é uma narrativa dialogada em que se descrevem os trabalhos por que passou Luís de la Penha, mágico e feiticeiro, a contas com a Inquisição (maldita) até à realização do auto de fé em que figurou na cidade de Évora. Esta fastidiosa enumeração, que podia ser bastante alargada para além do essencial, julgamos ser suficiente para dar o ambiente de audiência ao género de ficção literária que com o Monge de Cister vai aparecer em Portugal, com um êxito até aí desconhecido em aceitação de obras literárias originais». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Inês de Portugal. Pequenos Prazeres. João Aguiar. «Há já dois dias que vieram mensageiros suados e exaustos, montando cavalos cobertos de espuma, com novas de Castela que somente diziam: “é feita a vontade de El-Rei de Portugal”»

jdact e wikipedia

“Por que semelhante amor, qual elrei Pedro ouve a dona Enes, raramente he achado em alguuma pessoa”. In Fernão Lopes.

De profundis clamo ad te, domine
«Depois dos quarenta anos entra num homem o gelo da idade, pensa Álvaro Pais enquanto as suas mãos percorrem numa carícia friorenta o gibão que o cinge e cujo tecido lhe parece demasiado fino. O fogo da lareira não consegue aquecer a sala. Ou sou eu que não consigo aquecer, rumina sombriamente enquanto acena a um dos moços-de-câmara, que logo se apressa a lançar um tofo de carvalho sobre as achas que se consumiram e formam agora um pequeno leito de brasas bom para atear novo tronco.
Mas, prossegue o chanceler no discurso silencioso que tem consigo, se neste dia o meu corpo não aquece sei eu bem a razão e não cabe doer-me com a idade. Hoje, não é o seu frio que me arrepia nem são os anos que me pesam. Ainda não. Hoje este frio é de ansiedade, porque eles hão-de chegar.
É esta certeza que lhe arrefece o sangue. Há já dois dias que vieram mensageiros suados e exaustos, montando cavalos cobertos de espuma, com novas de Castela que somente diziam: é feita a vontade de El-Rei de Portugal. Nada mais os homens sabiam, tal a pressa de quem os enviara, contudo cabe esperar que chegarão em breve. E há-de ser hoje, repete Álvaro Pais a si mesmo. Sei-o, sinto-o.
El-Rei também o sabe, ou também o sente. Li-lho nos olhos, que esta manhã eram raiados de vermelho e pareciam arder. Se tarda tanto na montaria é porque não lhe sofre a ânsia ficar-se entre as paredes da alcáçova. Porém não andará longe da cidade e quando houver sinal logo será aqui. Como a pontuar-lhe o pensamento, soam, na distância, os toques das longas. Álvaro Pais estremece, o corpo sacudido por novo arrepio. Bem o dizia eu ou bem o pensava. Não foi muito longe de Santarém. A caça que o atrai não corre pelos campos, há-de quedar-se neste castelo, à sua espera. E eu também, diz ainda para si mesmo. Eu também aqui me quedo à espera, para tentar... O quê?
Sacode a cabeça num gesto de irritação preocupada. Agora, incomoda-o o olhar estudadamente inexpressivo e atento dos dois moços-de-câmara, que seguem os seus movimentos. Despede-os com um gesto do braço. Logo que saem, inspira profundamente, retém o ar por instantes e depois expele-o tentando imaginar que os cuidados do momento o abandonam, transportados naquele longo suspiro. Assim pudessem desaparecer todos os cuidados!
Senta-se num escabelo, procura o apoio da parede para repousar as costas. Sente o frio, outra vez o frio, da pedra que lhe trespassa o gibão e o pelote e lhe toca a pele num contacto duro. Mas não, insiste para si mesmo; não é a pedra nem é a idade, é este constante cuidado dentro de mim.
É bom servir um bom rei que tanto olha pelos seus, e tão generoso que usa dizer: afrouxai-me a cinta por que se me alargue o corpo para mais espaçosamente eu poder dar. E com isto, mau grado acrescentar sempre o seu tesouro, fá-lo com bom governo, sem agravar o povo. Um bom rei e bem-amado, por certo.
Contudo, um bom rei deve ter boa fama e palavra inteira. Um bom rei jamais quebra os seus juramentos… Porque ele jurou. Ele jurou e eu estava l, vi-o e ouvi-o. Foi num dia como hoje, recorda o chanceler, fechando os olhos. Foi num dia como hoje, de sol e de vento». In João Aguiar, Inês de Portugal, pequenos Prazeres, Edições ASA, 1997, ISBN 972-41-1822-3.

Cortesia de ASA/JDACT

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Eu Subi a Grande Muralha. Jaime Roseira. «As portas da China estão abertas aos estrangeiros, incluindo os Portugueses. Desembarcou com um cartão de estudante, disposto a trocar dinheiro no câmbio negro e aproveitar a ingenuidade sincera que ainda caracteriza os Chineses. Os Portugueses não viajaram tudo no século XVI e a China fica mais perto do que a Lua»

Jiuquan, uma vendedora de gelados, disfarçada de mulher invisível
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‘As portas da China estão abertas aos estrangeiros, incluindo os Portugueses. O autor desembarcou com um cartão de estudante, disposto a trocar dinheiro no câmbio negro e aproveitar a ingenuidade sincera que ainda caracteriza os Chineses. As personagens são imaginárias, mas as situações rigorosamente verdadeiras. A China é suficientemente criativa para dispensar a ficção. O livro pretende servir como um guia de viagem e mostrar que pode ser fácil e barato, acabando com a principal desculpa para não ir. Os Portugueses não viajaram tudo no século XVI e a China fica mais perto do que a lua. É o maior espectáculo do mundo, em cena há dois mil anos, com um bilião de figurantes presentes todos os dias para representar o papel das suas vidas’. In Jaime Roseira.

Hong Kong
«Cruzaram a baía cinzenta à procura da pista no meio dos arranha-céus. Rasando a água o avião abriu caminho pelo aglomerado de casas incaracterísticas da zona residencial. Nada tornava evidente que a China ficava ali mesmo ao lado. A Pérola do Oriente cristalizara nos contornos de uma imagem exótica que exigia materialização, como se fosse possível um paraíso de cinco milhões de habitantes concentrados em pouco mais de um quilómetro quadrado.
Pelo trânsito denso, não se lembravam que os tivessem alertado para a imagem de congestionamento que os apanhava de surpresa. O autocarro virou na Nathan Road, espinha dorsal que alinha as ruas e os homens de Kowloon. Forrada de lojas, a avenida é um imenso centro comercial onde os anúncios luminosos se debruçam como trepadeiras luxuriantes sobre a faixa de circulação. Suspensos dos altos edifícios, transformam Hong Kong numa feira popular de néon vertical onde é Natal todo o ano e as luzes comunicam ao passante a alegria de um brilho fugaz. Foi a vista do primeiro andar do autocarro que aos poucos os reconciliou com a cidade.
João olhou a multidão escura e anónima que enchia os passeios com o movimento cruzado de duas massas compactas. Com o cortejo interminável de montras, descobriu em cada vulto um citadino igual aos de qualquer urbe industrial. Vir encontrar o Ocidente tão longe, escondido no meio da Ásia, trouxe-o de novo para uma disposição depressiva. Hong Kong revelava-se uma caixa de esferovite a flutuar no Mar da China, atulhada de maquinaria electrónica e todos os contrabandos do Ocidente ao preço mais baixo do mundo.
Era a Disneylândia do comércio, o reino da caixa de cartão, e o desapontamento de João teria continuado se não fosse o sinal do condutor para descerem. Passeando numa China Town à escala natural, Rita sentia-se feliz. Hong Kong acendera para ela todas as luzes e nem o frio cortante do anoitecer lhe diminuía o prazer de estar enfim na China, ou pelo menos no meio de Chineses.

‘Oitenta dias à volta na China, soltos como pássaros numa gaiola com o tamanho de um continente, João e Rita arrancaram as raízes à beira-mar plantadas para percorrer um itinerário romanceado que conta a China. Vendo-a desdobrar-se como um rolo pintado, subindo a Grande Muralha e realizando a viagem dos anos oitenta, o roteiro de dezasseis mil quilómetros descreve trinta cidades e deixa-se surpreender pela sensação de descoberta que a China proporcionou aos primeiros visitantes depois de meio século de isolamento’.

Aproximando-se de João segurou-lhe na mão e respondeu ao apertar intenso com que ele recebeu os seus dedos, esquecido da apreensão que sentia. Se não fosse a mochila ter-lhe-ia passado o braço à volta do pescoço e beijado com paixão. Beijar Rita no meio do néon de Hong Kong, agora que a ideia lhe tinha surgido, tornou-se uma necessidade imperiosa mas com as mochilas iria sair desajeitado e guardou o beijo contrariado para quando fossem jantar.
Quase no fim de Nathan Road, Chunking Mansions é um conglomerado de edifícios onde à mistura com escritórios, comércios e habitações superlotadas, alguns apartamentos foram forrados a beliches. Nestes quartos interiores onde uma noite de sossego se adquire por poucos dólares, vêm arrumar-se os Ocidentais que de mochila desembarcam na cidade. João perguntou esperançado se havia quartos de casal e dispunha-se a procurar outro sítio mas a determinação implacável de Rita em ficar sempre no alojamento mais barato forçou-o a mudar de ideia. O melhor que arranjaram foi camaratas em extremos opostos do mesmo quarto e não seria nessa noite nem nas seguintes que a componente romântica da estada em Hong Kong teria lugar para materialização.
Com o fechar das lojas as ruas esvaziaram, deixando passar livremente o frio intenso de Março que depressa os trouxe de volta ao hotel. Virados para a televisão, o grupo de refugiados ocidentais suportou um após outro os débeis programas, afinal os mesmos que nos países de cada um. Só os anúncios em chinês lhes recordavam que estavam na China.


Vista de Kowloon a ilha é um fabuloso horizonte eriçado de betão, como um anel luminoso que se esbate contra as colinas íngremes e descarnadas. De noite, brilhando ao longe como um clarão, atrai aos milhares as populações fronteiriças de camponeses que pensam escapar ao rigor de uma vida de trabalho. Na impossibilidade de obter passaporte e não podendo sem consequências regressar ao continente, a hipótese de sair não existe para a maioria. Desprevenidos, vêm acumular-se numa prisão cujos muros têm o contorno sinuoso do Mar da China, condenados a circular sem descanso como no recreio de uma cadeia». In Jaime Roseira, Eu Subi a Grande Muralha, Um Guia Romanceado da China, Edição do Autor, Viseu-Tipografia Guerra, Lisboa, 1988.

continua
Cortesia de Jaime Roseira/JDACT

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «Mas enquanto Herculano se adestrava na novela histórica, publicando em O Panorama e no Cronista as suas primeiras tentativas no género, sucediam-se as traduções em língua portuguesa das novelas do Walter Scott»


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«Já dissemos que Garrett estabelecera em doutrina e na prática o que havia de constituir a estética literária do primeiro romantismo português e suas sequelas: estudo do Portugal medievo, onde, segundo ele e Herculano, existia em potência o autêntico Portugal com as suas vigorosas forças criadoras, que só o povo guardava ainda nos seus costumes, crenças e tradições. Mas Garrett, batalhador social e político, não podia limitar-se a tão pouco e proclamava também que a literatura moderna havia de ser pedagógica, esclarecendo e educando pela poesia, pelo drama e pelo romance.
Aconteceu assim, como sempre tem acontecido desde então, que este nacionalismo, esta pureza castiça vinha toda feita de fora, talhada pela moda europeia mais recentemente conhecida. Entre o aparecimento dos poemas ‘românticos’ de Garrett e as primeiras tentativas de novela histórica, em 1839, mediaram cerca de dez anos. Rebelo da Silva notou o facto e justificou-o:
  • ‘…sem a língua se achar aperfeiçoada a ponto de se domar à narração flexível e variada do romance, sem o estilo familiar se ter formado, e se prestar as inversões, reticências e laconismos do diálogo, era preciso apropriar à novela todos os géneros, desde o epistolar até ao épico, porque ela abrange todos, exercitando-os repetidas vezes. Além da forma literária, tornava-se indispensável recorrer às fontes originais, refazendo a história, restituindo os caracteres e estudando os costumes. No meio de tais dificuldades quem pode pois estranhar que o lavor improbo de sujeitar a inspiração e enfezar o talento meses e anos a cegarem-se sobre pergaminhos apodrecidos entre vermes e pó, obstasse ao desenvolvimento desta manifestação de arte, e tanto tempo mediasse entre o poema romântico e a publicação da novela histórica?’
A vencer tais dificuldades se consagrou Herculano, já então devotado com predilecção aos estudos da história pátria, à leitura dos velhos cronistas e às andanças para conhecimento dos arquivos e cartórios do país. Em 1835 fizera no Repositório Literário a sua profissão de fé romântica:
  • ‘Diremos somente que somos românticos, querendo que os portugueses voltem a uma literatura sua, sem contudo deixar de admirar os monumentos da grega e da romana; que amem a pátria mesmo em poesia; que aproveitem os nossos tempos históricos, os quais o Cristianismo, com sua doçura, e com seu entusiasmo, e o carácter generoso e valente desses homens livres do norte, que esmagaram o vil império de Constantino, tornaram mais ledos que os dos antigos: que desterrem de seus cantos esses numes dos gregos, agradáveis para eles, mas ridículos para nós e as mais das vezes inarmónicos com as nossas ideias morais; que os substituam por nossa mitologia nacional na poesia narrativa; e pela religião, pela filosofia, e pela moral na lírica. Isto queremos nós e neste sentido somos românticos’.
Mas enquanto Herculano se adestrava na novela histórica, publicando em O Panorama e no Cronista as suas primeiras tentativas no género, sucediam-se as traduções em língua portuguesa das novelas do Walter Scott; de 1836 a 1838 pelo menos treze traduções. Nas revistas e jornais literários de então, eram frequentes os artigos sobre o romancista escocês e as dissertações acerca do género por ele criado». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Romance Histórico no Romantismo Português. Castelo Branco Chaves. «Ora a literatura que o primeiro romantismo português oferecia à burguesia indígena, estava acondicionada ao grau da sua cultura e, pelos temas e motivos, lisonjeava-lhe a dignidade política e social em que se considerava investida»


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Generalidades e Antecedentes
«Os dois poemas ‘românticos’ de Garrett não obtiveram, ao seu aparecimento, grande aceitação do público, tendo a primeira edição de Dona Branca levado cerca de vinte anos a esgotar-se, o que denota a lentidão com que a literatura romântica em Portugal ia formando o seu público. Mas não era então o que importava mais; interessava principalmente que as jovens vocações literárias se tomassem da novidade. Essas, efectivamente, foram conquistadas e não exagerou Garrett quando, ao traçar a sua autobiografia publicada no Universo pitoresco, afirmou:
  • ‘Da sua publicação (Camões e Dona Branca) data e procede quanto até hoje se está fazendo para ilustrar a nossa história, os nossos usos, as cousas da nossa terra'.
A formação, desenvolvimento e mutação do público ledor nas várias épocas da literatura estão a reclamar um estudo. É tarefa que mais incumbirá aos estudos de história social do que aos de natureza propriamente literária, embora sob este aspecto hajam de trazer esclarecimentos que interessam a alguns problemas de história literária.
No estudo do que podemos chamar ‘o fenómeno romântico’ e particularmente no da evolução e vasta expansão do romance no século XIX, impõe-se o estudo do público que recebia com interesse crescente essas produções da arte literária e muito particularmente o da variação dos seus níveis de qualidade consoante os vários sectores sociais desse público.
A massa de leitores que havia de constituir o público do romance histórico em Portugal, é ao romance histórico que nos havemos de cingir, particularmente desde 1840 a 1860, vinha preparada desde muitos anos antes pela leitura das traduções, geralmente infiéis, da novelística estrangeira, abundantemente editadas. José Agostinho Macedo em O Desaprovador, 1818, denunciava essas novelas como corruptoras e escrevia:
  • ‘… as mulheres, os mancebos, e a maior parte das pessoas que têm alguma tintura de educação, leem avidamente Novelas Francesas; este é um dos mais vastos e mais poderosos canais por onde se tem derivado a torrente da corrupção em Portugal… As novelas produzem todos os males, e nenhum bem, e deste naufrágio universal se salvam unicamente duas, Argenis de Barclay e o Telémaco de Fenelon. As mais estragam o espírito, corrompem o coração, pervertem a vontade, envenenam os costumes, e têm todo o poder de dar cabo da língua Portuguesa’.
E não eram só as novelas francesas que caíam sob a férula de Macedo, eram também as inglesas, o Tom Jones, os romances de Richardson que ele, aliás, admirava, e até ‘um maldito Werther, apóstolo do suicídio, não faltando Quixotes que se queiram matar por amor de uma mulher de quem se aborreceriam logo se com ela casassem, e ela se começasse a queixar de flatos histéricos, vapores, frieiras e indigestões…’
Além deste público que a novela histórica vinha encontrar em Portugal predisposto à sua leitura, concorriam a aumentá-lo e a desenvolvê-lo os emigrados que regressavam à pátria, já iniciados em França e na Inglaterra na nova literatura.
Contribuíam também, e destacadamente, para a divulgação do gosto pelo novo género literário as traduções das novelas de Walter Scott, bem como os periódicos literários cujo aparecimento se multiplicava, cabendo, entre eles, a primazia ao Panorama.
Além de todos estes factos, há a considerar o fenómeno económico-social do incremento da pequena burguesia portuguesa que se vinha revelando desde as invasões francesas e a que a vitória liberal animara a aspirações de maior lustro e melhor ilustração. Ora a literatura que o primeiro romantismo português oferecia à burguesia indígena, estava acondicionada ao grau da sua cultura e, pelos temas e motivos, lisonjeava-lhe a dignidade política e social em que se considerava investida.
Já dissemos que Garrett estabelecera em doutrina e na prática o que havia de constituir a estética literária do primeiro romantismo português e suas sequelas: estudo do Portugal medievo, onde, segundo ele e Herculano, existia em potência o autêntico Portugal com as suas vigorosas forças criadoras, que só o povo guardava ainda nos seus costumes, crenças e tradições». In Castelo Branco Chaves, O Romance Histórico no Romantismo Português, Instituto de Cultura Português, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, oficinas Gráficas da Livraria Bertrand, 1980.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Leituras. Os meus amores contos e baladas. Trindade Coelho. «Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags»


Cortesia de wikipedia

Nota: De acordo com o original

Os Meus Amores
‘Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
vivo enxame das minhas alvoradas,
tenho zelos de vós, folhas sagradas,
as Desdémonas sois de um outro moiro.
As brancas horas que eu em sonhos doiro,
essas horas febris, illuminadas,
eil-as fugindo, em tristes debandadas...
Levaes nas azas todo o meu thesoiro.
Folhas: subi, voae ao céo tão alto,
que o ceo em estrellas vos converta e mude,
lá nas longinquas illusões que exalto;
como as frementes aguas d'um açude,
levae a Deus, no derradeiro salto,
o derradeiro adeus da juventude...’
In Luiz Osorio.

Idyllio Rustico
A Fialho d'Almeida
«Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma esturdia, a deshoras...
Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a banda, n'uma grande pacificação de templo adormecido. Nem viv'alma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céo azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manhã era calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas hervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente á mercê do pequeno pastor, parando se elle parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de novo elle se punha a caminhar.
Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro, que o echo levou para longe.
-Não gastes polvora, Antonio!-recommendou o pastor.-Ouviste?
E logo a voz do guardador:
-Madrugas hoje, Gonçalo!
-P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.
-Está bem. Adeus!
-Saudinha.
A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na côr. Invadia a amplidão da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'além, entravam de fazer-se nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se repentinamente, em vôo perpendicular, e cortavam ares fóra, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeços.
De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens seccas, onde algum reptil passasse vagaroso.
-Busca, Turco!-fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo ás cobras.-Busca, valente!
Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se, mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciencia,- reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, á frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle céo ainda estrellado,
o Gonçalo desabafou:
-Uff! até que emfim!-E pensava aliviado:-Nada mais facil do que terem-me sahido os lobos!... Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe afflictivo. A margem de lá, especialmente, era toda accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um descuido involuntario--simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara.
E então, cabeços enormes d'um lado e d'outro, projectando sobre o largo leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, fazendo limitada a paizagem. A todo o comprimento da margem, o rebanho pôz-se então a beber manso e manso, e sem o minimo ruido. Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem.
-Táte, Gonçalo! Aquella chocalhada...
E immovel, remordendo o labio, com o ouvido á escuta, pensava:
-Ora se será ella?... Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um clarão de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como elle, com quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.
-Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo.
E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pôz-se atentamente á escuta do tilintar dos chocalhos na margem opposta.
«O rebanho parecia o mesmo, lá isso... Agora o pastor é que podia ser
outro que não a Rosaria...»
Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para deante o bornal, feito da pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua flauta e pôz-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rustica». In Trindade Coelho, Os Meus Amores, Contos e Baladas, Projecto Gutenberg, ISSO 88589-1, 2006, produção de Carla Ramos e Ricardo Diogo e edição de Rita Farinha, Os Meus Amores, 2ª edição, Lisboa, Livraria de António Pereira, 1894.


Cortesia de P. Gutenberg/JDACT