quarta-feira, 26 de abril de 2017

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «O que vos traz à minha presença, com essa perna tão magoada? Uma notícia funesta. Vejo, porém, que estais ocupado, e não desejo ser inoportuno»

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A pedra do exílio
Planalto de Crécy. 26 de Agosto de 1346
«(…) Dois homens conversavam na sacristia da igreja abandonada, sob a luz filtrada por uma janela geminada. O rei Filipe VI de Valois era o mais alto. Ainda trazia a armadura vestida e a sobreveste azul com as flores-de-lis douradas de França e gesticulava como que à beira de um acesso de raiva. O aristocrata que se encontrava consigo, de modos mais pacatos, estava por sua vez envolvido num elegante capote escuro que destacava a carnação clara e os cabelos ruivos. Maynard tentou lembrar-se de onde já o havia visto, embora a sua principal preocupação, naquele momento, consistisse em manter um porte digno na presença, do soberano. Para isso recusara apoiar-se no rapaz e procurara um cajado, de modo a caminhar erecto, sem forçar a perna esquerda. Empresa nada simples, sobretudo tendo de enfrentar as escadas no interior da igreja.
Ao ver o monarca envolvido numa conversa, pensou recuar e procurá-lo mais tarde. Depois lembrou-se de que a sua presença poderia ter sido notada. Vossa majestade, disse, com uma vénia embaraçada, peço audiência. Rocheblanche, o rei fez-lhe sinal para que avançasse, pensávamos que tivésseis caído em batalha. Estou vivo por milagre, majestade. O monarca examinou-o dos pés à cabeça. O que vos traz à minha presença, com essa perna tão magoada? Uma notícia funesta. Vejo, porém, que estais ocupado, e não desejo ser inoportuno.
Não façais cerimónia. Filipe VI apontou para o homem a seu lado. Este é o nobre Karel, conde do Luxemburgo. O filho do rei da Boémia. Podeis falar livremente na sua presença. Maynard observou com atenção o rosto do homem de cabelos ruivos e recuou um passo. Nem ao meu filho, intimara Jang de Blannen. Karel do Luxemburgo conservava os mesmos traços do pai, embora menos altivos e decerto não tão harmoniosos. Tinha um nariz demasiado grande, a testa descoberta pela calvície e as maçãs do rosto excessivamente pronunciadas. Contudo, foram os olhos azuis, arregalados e salientes, a deixá-lo de pré-aviso.
Então, Rocheblanche?, incitou-o o rei, contrariado pela sua hesitação. Que notícia nos trazeis? O cavaleiro manteve o olhar fixo no príncipe Karel, envolvido numa inesperada sensação de desconforto. João I da Boémia está morto, e baixou a cabeça em sinal de luto. Filipe VI cruzou os braços sobre o peito. Tendes a certeza, senhor? Nós pensamos que terá caído nas mãos dos ingleses. Infelizmente, mais do que a certeza, confirmou Maynard. Dei com o seu corpo martirizado enquanto tentava abandonar o campo de batalha. Karel interveio sem denunciar qualquer emoção. Era já cadáver? Antes de responder, o cavaleiro teve a impressão de que o príncipe se afastava lentamente do feixe de luz, como que para se esconder.
Ainda não, alteza. Falou-vos? Poucas palavras, mentiu Maynard, apenas para encomendar a alma a Deus. Algo na inflexão daquela pergunta deixara-o de sobreaviso. Sim? O rosto de Karel eclipsava-se na sombra. O meu nobre pai era um homem de muitos segredos. É estranho que não vos tenha confiado nenhum quando estava prestes a morrer. Rocheblanche encolheu os ombros. Embora ardesse de vontade de referir as palavras de Jang de Blannen, um pressentimento incitou-o a calar-se. E se se encontrasse precisamente diante do artífice da conspiração? O príncipe encostou um punho ao queixo, enrugando a testa.
Então dizeis que expirou rezando, continuou, pensativo. Como um homem comum. Como um valoroso guerreiro, precisou Maynard, dirigindo-se ao rei de França para interromper um discurso potencialmente insidioso. Um homem corajoso de quem devemos tirar o exemplo. É uma referência à nossa retirada?, replicou o rei, irritado. Salientava apenas a lição de coragem, majestade. A coragem não é sinónimo de inteligência estratégica, comentou o monarca. E creio que Karel do Luxemburgo está pronto a admitir que o seu nobre progenitor se sacrificou para concretizar uma proeza estúpida.
Não por uma proeza, inflamou-se Maynard, sentindo desprezar os valores com que crescera. Mas para incitar os homens ao ataque. Filipe VI abanou a cabeça. Conduziu-os ao massacre quando os dados já estavam lançados. Expôs a cavalaria aos arqueiros de Eduardo III. Sei-o perfeitamente, mas... E sabeis também quantos caíram, Rocheblanche?, gritou o rei, desdenhoso. Mais de quatro mil! Quatro mil cavaleiros vossos irmãos! Os ingleses dizimaram a nossa nobreza». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Conheces Sancho? Maria Helena Ventura. «Os mais novos ainda foram a tempo. Recebeu-os daí a um ano e meio em terras de Villafáfila, depois de casar com Ferrán Pérez, porteiro de dona Mecia»

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«(…) As aias partiam de Coimbra para Leão e Laredo, onde as famílias viriam, ela era encontrada em Ourém para servir a que fugazmente fora rainha de Portugal. Levada à sua presença não via rainha nenhuma, só uma mulher formosa desfeada pelo desgosto, com os olhos inchados de chorar. Daí a dias chegava Iñigo, futuro alcaide da vila, para fazer crer aos que resistiam ao infante usurpador que dona Mecia não estava cativa senão da sua vontade. Até escolhera um nobre da Vizcaya para governar o castelo da que era vila sua. O povo, escondido pelas furnas, temeroso dos vendavais da guerra, passava a acreditar no que se vinha repetindo à boca calada: a bruxa enfeitiçou el-rei e agora vira-lhe as costas. Mas o tempo em Ourém seria escasso. Em breve era obrigada a viajar sem que ninguém suspeitasse. Era a hora de assumir o curador do reino recomendado pelo papa, não havia tempo para dedicar ao sumiço da rainha. E lá partia uma manhã fria de Inverno, acompanhada pela nova aia que já muito bem lhe queria. Também, de que servia querer ficar na sua terra, junto dos seus? O pai baixara à gafaria mais próxima, a mãe e os irmãos, menores do que ela, catavam a bolota e os bagos da videira para não morrerem à fome. Partisse a filha, e haveria esperança de salvação para todos.
Os mais novos ainda foram a tempo. Recebeu-os daí a um ano e meio em terras de Villafáfila, depois de casar com Ferrán Pérez, porteiro de dona Mecia. Os pais acabaram os dias na gafaria de Coimbra, a melhor e mais humana do reino, onde criavam patos e vendiam ovos. Limpa as lágrimas rebeldes. A tristeza do passado pode ser pesado fardo se não for aliviada com uma vida ditosa. Levanta-se em direcção à parede, sob a janela do quarto. Apura o ouvido, distingue a voz miúda da ama a encadear a conversa. Só muito de longe-em-longe Pelayo se atreve a interromper, para controlar o caudal de um relato adormecido.

Memórias. Poalha de ouro do tempo
Era uma tarde na corte da rainha dona Beatriz da Suábia... De dona Berenguela, quereis dizer, não é, senhora? De dona Beatriz, sei o que digo. A rainha-mãe nunca me viu com bons olhos, ou não sabeis que minha avó, Inez lñiguez Mendoza, pariu minha mãe no ano em que dona Berenguela se casou com meu avô, rei de León? Padre Pelayo mastiga em seco. Talvez dona Mencia esteja mais lúcida do que Elvira lhe fizera crer. O melhor é deixá-la falar à vontade, diga o que disser. Haverá tempo, depois, para filtrar o sentido das palavras. Meu tio, el-rei Fernando III, propôs à mãe que eu e minhas irmãs ficássemos com as damas de dona Isabel, a sua Beatriz, que era sorridente e doce. Quando trouxe Sancho a Zamora, naquela Primavera em que firmaram o tratado do Sabugal, estava lá eu com a rainha e o infante Afonso. Nessa altura seríeis uma donzela...
Ia fazer dezasseis anos, estava casada com Alvar há mais de dois. Então vosso esposo também lá estava convosco. Não, partira essa manhã para Jérez de La Frontera com Diego Pérez Vargas, que então armou cavaleiro. E Sancho acabava de chegar, dizíeis vós... Sancho aparecia com meia dúzia de privados. Era rei e em nada o semelhava, tão tímido, tao modestamente vestido. Seria ainda novo, nessa altura.» In Maria Helena Ventura, Conheces Sancho? Edições Saída de Emergência, 2016, ISBN 978-989-637-951-3.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

terça-feira, 25 de abril de 2017

As Obras do Diabinho da Mão Furada. António José Silva. «… destes, por ser singular o mentir pelo seu prazer, podemos nós aprender a mentir e a enganar»

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«(…) O castigo que se lhes dá é dobrarem-se-lhes os tormentos que padecem. E eu não sei que antipatia tem a fortuna com a poesia, que tão pouco favorece os poetas apesar de ser tão aplaudida por eles, e que simpatia tem a poesia com a miséria e a pobreza, que não houve professor seu, por mais talentoso que fosse, que não acabasse na maior miséria. E por isso, com muita razão, está naquele canto o pai de Ovídio a açoitá-lo, por este fazer versos, mas enquanto leva com o chicote, promete, em verso, emendar-se, porque é tal a doença da poesia, que, por mais que procurem os génios que a professam deixá-la, não se podem livrar dela.

Não tinha o Diabinho acabado de dizer as razões referidas, quando o Soldado viu muitos homens montados em mulas, vestes longas, com anéis de bispos e luvas fechadas nas mãos, vindo a fugir de uma grande multidão de gente que os seguia, dizendo-lhes: esperai, infames verdugos da morte, que vós pagareis aqui o que nos destes a beber com tantas sangrias e beberagens! E o pior foi que, quando estávamos a morrer, vocês diziam-nos que estávamos sãos, e por isso descuidávamos do arrependimento da nossa salvação. E, por nos chegar a morte de repente, não podemos tratar dele. São vocês, malditos, os responsáveis por termo vindo para aqui com este epigrama: e assim com razão pagais, com pena e rigor tão forte, serem na vida e na morte gadanhas universais.

Seguiam também este grupo, mais dois tumultos de gente, uns atirando-lhe com redomas, almofarizes e espátulas, e outros com violas e jogos de tábuas. Os primeiros diziam-lhes: falsos Galenos, vós haveis de pagar por terem sido o instrumento da nossa perdição com a porcaria das vossas receitas! Já os segundos diziam que eles tinham a culpa das inumeráveis execuções resultantes das suas sangrias. Não ignorou o soldado Peralta que os cavaleiros nas mulas eram médicos e os das redomas e guitarrinhas barbeiros e boticários, e por isso não perguntou nada ao Diabinho, mantendo-se a ver no que dava aquela revolta. Quando apanharam todos aos doutores, deitaram-nos das mulas abaixo e arrastaram-nos por uns metros; depois deram aos boticários asquerosas beberagens e aos barbeiros fizeram muitas sangrias com lancetas de fogo ardentíssimo.

Ocupado estava o Soldado a ver estas coisas, quando apareceu outra grande multidão de gente, uns com sovelas e outros com tesouras nas mãos, dando uns nos outros soveladas e tesouradas, fazendo uma barafunda de todos os diabos; e a causa da disputa era sobre quem tinham sido na vida mais mentirosos. E, como os das sovelas eram sapateiros e os das tesouras alfaiates, não se atreveram os demónios que os acompanhavam a resolver a questão, limitando-se a dizer-lhes este quarteto: destes, por ser singular o mentir pelo seu prazer, podemos nós aprender a mentir e a enganar.

E logo atrás desses demónios viu o Soldado que estavam outros maiores e traz desses ainda outros tantos, que traziam pessoas de rasto e lançavam-nas num lago de água suja, fedorenta e turva, para que bebessem nele a mesma porcaria que tinham posto nos vinhos que venderam por serem taberneiros. Os taberneiros gritavam para que não os lançassem dizendo que o vinho não merecia tão grande castigo pois ia assim baptizar-se e fazer-se cristão; e os demónios em paga de uma tão boa vontade, como eram missionários baptizantes de Baco, respondiam-lhes: bebei nessa eternidade, velhacos de infame ser, dessa água mais quantidade que a que fizestes beber aos homens contra a vontade!» In António José Silva (1705-1739), As Obras do Diabinho da Mão Furada, 1861, A Primeira Novela Sobrenatural Portuguesa, Luso Livros, Nova forma de Ler, ISBN 978-989-817-496-3.

Cortesia de LLivros/JDACT

No 1º Centenário de o Criacionismo. Pinharanda Gomes. «Assim o período de 1901 a 1911 foi calmo, a satisfação do Curso pela reforma tão intensa [...] e a criação da Faculdade de Letras»

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Uma tese vencida, não refutada
«Leonardo Coimbra, após os estudos de Física e Matemática em Coimbra, depois das experiências na Escola Naval (1903-1905), e do curso de Matemática na Escola Politécnica do Porto (1906-1909), decidiu habilitar-se pelo Curso Superior de Letras (1909-1910), ano em que obteve a licenciatura para docente, sendo colocado no Liceu Central do Porto. Com residência na Rua do Monte Olivete, na encosta do antigo Sítio da Cotovia (Escola Politécnica) para S. Bento da Saúde, o percurso de casa para o edifício onde o Curso Superior de Letras estava instalado (antigo Convento de Jesus, actual Rua da Academia das Ciências) era de proximidade, o principal troço do percurso sendo o ocupado pelo Jardim do Príncipe Real. Os professores do Curso tinham-se envolvido em repetidas instâncias em vista de uma reforma dos estudos, os quais foram objecto de dois Decretos, em 1901 e 1902, que reorganizaram o currículo escolar. Assim o período de 1901 a 1911 foi calmo, a satisfação do Curso pela reforma tão intensa [...] e a criação da Faculdade de Letras, não preocuparam tanto os professores, que repousavam, depois duma luta tão árdua e persistente, só satisfeita pela República. Em frequentes lugares, Teófilo Braga aparece como Director do Curso nesta época. De facto, além de ter sido Secretário, só foi Director no biénio de 1877-1879, não mais sendo professor1. Em 5 de Outubro de 1910 assumiu as funções de Presidente da República, mas o Director do Curso era o seu apaniguado Consiglieri Pedroso, a quem logo sucedeu, no ano lectivo de 1910-1911, o erudito Queiroz Veloso, que, na nova Faculdade de Letras, foi Director até 1929, quase sempre eleito por unanimidade.
Num ambiente pelos vistos pacificado, Leonardo Coimbra, aluno da secção de Ciências, obteve notas brilhantes, tendo recebido elogios de pelo menos dois professores, Francisco Adolfo Coelho e Joaquim António Silva Cordeiro que, não obstante, veio a constituir-se como seu inimigo. Enquanto Leonardo exercia a docência liceal no Porto, o Governo da República prosseguiu a actividade legislativa de carácter reformista envolvendo o ensino, promulgando, pelo Decreto de 19.4.1911 as Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto e, criando, pelo Decreto de 9.5.1911, as Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa. No Outono deste ano, melhor, a 27 de Outubro de 1911, tomou posse do cargo de Director do Colégio dos Órfãos de Braga, substituindo o padre Francisco Cruz, que viria a encontrar-se no itinerário religioso de Leonardo, quer presidindo ao seu matrimónio católico, quer sendo padrinho de baptismo do filho Leonardo Augusto, na época natalícia de 1935.Pouco mais de um mês Leonardo serviu o Colégio, pois em 15 de Dezembro já concedia uma entrevista ao jornalista Oldemiro César, dando conta das razões que o levaram a abandonar a Directoria. Livre, decidiu-se a concorrer ao Concurso para professor assistente do 6.º Grupo de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa.
Pela reforma de 24 de Dezembro de 1901, os estudos filosóficos abrangiam as cadeiras de Psicologia e Lógica (1.º ano) e História da Filosofia (2.º ano). Pelo Decreto com força de lei de 19 de Agosto de 1911, o 6.º Grupo do currículo facultativo é o de Filosofia, com as cadeiras de Filosofia (Psicologia, Lógica e Moral), História da Filosofia Antiga, Medieval e Moderna, Psicologia Experimental e Estética e História da Arte, distribuídas por 4 anos. O painel com as efigies magistrais decerto se representava na imaginação de alunos e de candidatos. O Director era José Maria Queiroz Veloso (falecidoem 1952), de Barcelos, médico pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, adversário de uma educação eivada de puras e abstractas noções teóricas, professor de História da Civilização no C.S.L. desde 1901, que tinha como prioridade a formação de professores, bibliófilo sistemático, cujo lema foi sem documentos não há história. Era professor ordinário. Professores eram também: Francisco Adolfo Coelho (falecido 1919), desiludido do ensino oficial, seguiu uma carreira autodidáctica, aceitando influências de Comte, Spencer, e dos idealistas alemães. De carácter racionalista, preferiu as disciplinas de Filosofia, Etnografia e Educação, seguindo os modelos germânicos, sendo autor de obras eruditas e teorético-práticas, com teses que ordenou nos dois volumes de Questões Pedagógicas (Coimbra, 1911-1912). Por assimilação dos linguistas alemães, introduziu a filologia científica no país, sendo considerado personalidade menos dominada pelo dogmatismo positivista». In Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XX, nº 1120, 2º Semestre 2012, Leornardo Coimbra nos 100 anos do Criacionismo, Pinharanda Gomes.

Cortesia de RNÁguia/JDACT

domingo, 23 de abril de 2017

Terra Inquieta. Manuel Faria. «Subo a Avenida da Liberdade, devagarinho, cogitando na inconsciência e injustiça dos homens, e nesta verdade, biologicamente insofismável»

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De profundis…
«(…) Agora é o amplo terreiro da Senhora da Abadia que se me apresenta, imerso na densa bruma de um longínquo passado de piqueniques, sob o copado dossel das tílias perfumadas. Pantagruélicas merendas, com meia dúzia de comparsas, de que dois, saudosamente, já se encontram do outro lado da vida... Talvez os seus espíritos andem pairando por entre os ramos contorcidos destas árvores seculares, à espera de se evolarem para sempre, quando a serra mecânica de uma autarquia assassina as venha a abater. Espicaçado pela natural curiosidade, fui ver. O dia estava bonito. Algumas nuvens vogavam no ar, como lenços brancos, a anunciarem tréguas de bom tempo, após a caudalosa pluviosidade de ontem, teimando encher albufeiras vazias. Pisei charcos de água, saltariquei pequenos regatos, mas cheguei, finalmente, à desolação do Parque da Ponte, onde jazem, em desalinho de funeral selvagem, os melhores exemplares de tílias da cidade, toda vestida de crepes naquele órgão vital do seu corpo, já de si degradado pela incúria dos seus filhos espúrios.
Cada árvore derrubada, um monumental escombro; cada tronco, um epitáfio votivo encimado por uma cruz. E são oito esses epitáfios, oito gritos ecológicos no adro de morte da capelinha do Profeta, que anunciou a vinda do Redentor do Mundo d’Aquele que nos trouxe a Ressurreição e a Vida... Os epitáfios rezam: para que serve o dia da Árvore? De pé dou saúde, no chão dou dinheiro. É isto justiça? Que mal fiz eu? Venham ver a Natureza destruída! Vejam a maldade dos homens! Quem foi o autor do crime?
Depois de eu ter autopsiado, com minúcia cirúrgica, as características estradiváricas do seu líber, e a compacidade, firmeza e brandura do seu lenho, que torna a madeira das tílias óptima para o fabrico de instrumentos de música, vencilhos, esteiras, celhas, formas e obras de torno, depeço-me das tílias tombadas, com a alma torturada e os olhos rasos de água.
Fico-me a pensar no meu velho, professor de Botânica, Gonçalo Sampaio, cujo busto de bronze existia ali, ao lado, e no íntimo desgosto que lhe vai na alma. Subo a Avenida da Liberdade, devagarinho, cogitando na inconsciência e injustiça dos homens, e nesta verdade, biologicamente insofismável: O cemitério da árvore é a antecâmara da morte do Homem. Braga, 13 de Fevereiro de 1992.

Naquele meu saudoso tempo de Tolentino, em que ensinava do alto da minha cadeira de pinho bravo aos alunos irreverentes as provas da redondeza da Terra, contei-lhes muitas vezes a memorável viagem de Fernão de Magalhães. Ao serviço do rei de Espanha, partiu o sábio marinheiro de Sanlúcar de Barrameda em direcção ao Ocidente, encontrando, exactamente, as mesmas ilhas das especiarias que os portugueses haviam descoberto rumando em sentido contrário, ou seja, pelo Oriente. Viagem penosa foi essa, sulcando tempestuosos mares, padecendo sede e forne, sofrendo avitaminoses pestilentas comendo ratos e larvas, e até o próprio couro dos mastros... Desânimo, homicídio fratricida, nostalgia da pátria distante, choques de etnias diferentes, emboscadas, candentes distúrbios do sexo e outros tantos males que a oceanalidade arrasta consigo, quantas e quantas vítimas ocasionaram nessa longa e árdua viagem que Fernão de Magalhães levou a cabo até às Índias, embora aí ficasse, trespassado pelas setas envenenadas dos indígenas. Gloriosa peregrinação oceânica, sem regresso!» In Manuel O. Faria, Terra Inquieta, APPACDM, Braga, 1994, ISBN 972-8195-10-9.

Cortesia de APPACDM/JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Histórias Brejeiras. Artur Azevedo. «O último a sair foi o bacharel Pinheiro, proprietário e redator principal d’A “Opinião Pública”, órgão do partido conservador»

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Pobres Liberais
«(…) Foi no tempo do Império. O notável político Francelino Lopes, sendo presidente de uma província cujo nome não mencionarei para não ofender certas susceptibilidades, aliás mal entendidas, resolveu, aquiescendo ao desejo dos chefes mais importantes do partido conservador (era o que estava de cima), fazer uma grande excursão por todo o interior da província, visitando as principais localidades. A notícia dessa resolução abalou necessariamente a população inteira, e por toda a parte, não só as câmaras municipais como os cidadãos mais importantes, correligionários do governo, se prepararam para receber condignamente o ilustre delegado do gabinete imperial. Na primeira cidade visitada por Francelino, foi S. Exa. recebido na estação de caminho de ferro, que se achava ricamente adornada, ao som do hino nacional, executado por uma indisciplinada charanga, e das bombas dos foguetes estourando no ar e das aclamações do povo, cujo entusiasmo, se não era real, era, pelo menos, espalhafatoso e turbulento.
Estavam presentes todas as autoridades locais. Houve três discursos, cada qual mais longo, a que S. Exa. respondeu com poucas mas eloquentes palavras. Da estação de caminho de ferro, seguiu o presidente, a carro, acompanhado sempre pelas autoridades e grande massa de povo, para a câmara municipal, onde o esperava opíparo banquete, a que fez honra o estômago de S. Exa., o qual estava a dar horas como se fosse o estômago de um simples mortal. À mesa, defronte do presidente, sentou-se a baronesa de Santana, esposa do chefe do partido dominante, abastado fazendeiro, que se reservara a honra e o prazer de hospedar o grande homem.
Este, que era bem parecido, que não tinha ainda 40 anos, e gozava na capital do império de uma reputação um tanto donjuanesca, sentia-se devorado pelos olhares ardentes da baronesa, de idade digna de um príncipe. Eram 9 horas da noite quando terminou o banquete pelo brinde de honra, erguido por S. Exa. à sua majestade, o Imperador. Como a charanga estivesse presente e as moças manifestassem o desejo de dançar, improvisou-se um baile, e o Francelino Lopes dançou uma quadrilha com a baronesa, apertando-lhe os dedos de um modo que nada tinha de presidencial. A essa inócua manifestação muscular limitou-se, entretanto, o esboçado namoro, que não prosseguiu por falta absoluta de ocasião.
Como o presidente se queixasse da fadiga produzida pela viagem, a festa foi interrompida, e as autoridades conduziram S. Exa. aos aposentos que lhe estavam reservados em casa do barão, na mesma praça onde se achava o edifício da Câmara. Nessa casa que, apesar de baixa, era a melhor da cidade, haviam sido preparadas duas salas e uma alcova para o ilustre hóspede. Qualquer dos três compartimentos estava luxuosamente mobiliado e o leito era magnífico. Os donos da casa, o presidente da Câmara, o juiz de direito, o juiz municipal, o vigário, o delegado de polícia e outras pessoas gradas, mostraram a S. Exa. Os seus cómodos, pedindo-lhe mil desculpas por não ter sido possível arranjar coisa melhor, e todos se retiraram fazendo intermináveis mesuras.
O último a sair foi o bacharel Pinheiro, proprietário e redator principal d’A Opinião Pública, órgão do partido conservador. Peço permissão para oferecer a V. Exa. o número do meu jornal publicado hoje. Traz a biografia e o retrato de V. Exa.. V. Exa. me desculpará, se não achar essa modesta manifestação de apreço à altura dos merecimentos de V. Exa. O Francisco Lopes agradeceu, fechou a porta e soltou um longo suspiro de alívio.
Logo que se viu sozinho, o presidente lembrou-se do seu criado de quarto, que ali devia estar... Onde se meteria ele? Provavelmente adormecera noutro cómodo da casa. Felizmente o dorminhoco tivera o cuidado de desarrumar a mala de S. Exa. E pusera à mão a sua roupa de cama e os seus chinelos. O hóspede descalçou-se, despiu-se, envergou a camisola de dormir, deitou-se, e abriu A Opinião Pública, disposto a ler a sua biografia antes de apagar a vela. Apenas acabara de examinar o retrato, detestavelmente xilografado, sentiu S. Exa. uma dolorosa contracção no ventre, e logo em seguida a necessidade imperiosa de praticar certo acto fisiológico de que nenhum indivíduo se pode eximir, nem mesmo sendo presidente da província. Ele saltou do leito e começou a procurar o receptáculo sem o qual não poderia obedecer à natureza; mas nem no criado-mudo nem debaixo da cama encontrou coisa alguma. Farejou todos os cantos: nada!» In Artur Azevedo, Histórias Brejeiras, 1962, Projecto Livro Livre, nº 519, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «Aquele monte é a Ambição de subir de que fala António Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças»

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Carta III
«(…) Isto ainda não é tudo. Há tragédias misteriosas, mortes ignoradas, casos frustes, que, se forem-se desvendar, aterrorizariam um comissário de polícia. A mulher é o crime. É mentirosa, é cínica. Mente por vaidade, crucifica por prazer. São os seus encantos, a carne palpitante, os cabelos, os beijos, os gozos que amolecem a energia, a espinha, a cabeça, o orgulho e o dinheiro. É aquela chaga original, a vergonhosa ferida sempre aberta que sangra e que cheira mal... (d’Annunzio).
Há homens orgulhosos que pedem de joelhos perdão às mulheres. Mulheres orgulhosas que sofrem em silêncio as pancadas dos maridos, dos irmãos, dos amantes. E como o amor tudo transfigura, das rameiras faz santas, dos feios faz belos e arma em fortes os fracos; livra-te pois do Amor para que não sejas desgraçado. Lembra-te sempre de que ele é a pior e a mais enganosa das realidades, a mais disfarçada das ciladas.
Ai de ti se nele acreditares! Quem ama morre, quem ama avilta-se tão baixo que a própria lama tem ainda que descer muito para lá chegar.

Carta IV
Há uma tela de Rochegrosse intitulada Agoisse humaine. É um quadro que representa a vida. No primeiro plano muitas criaturas erguem o braço para chegar mais alto. Homens de casaca tão correctos como se fossem para um baile. Há mulheres decotadas vestidas em rigor. Homens condecorados e homens banais, velhos e moços, misturam-se e empurram-se, disputando-se numa agonia pavorosa, num combate sem nome.
Aquele monte é a Ambição de subir de que fala António Vieira. Atrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, aparece uma maré cheia de cabeças ululantes, estranguladas pela ambição, correndo, empurrando-se, pisando os que ficam, agarrando-se de pés e mãos, como se após viessem também correndo numa perseguição fantástica, as ondas de um novo dilúvio.
Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. O lugar é disputado a soco, a murro, a dente. O caminho que na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que mais parece a fuga de uma derrota. Todas aquelas cabeças têm o ricto de um Tântalo supremo. São gastas, cansadas, lívidas. Os rostos são pálidos, suados, cor de terra, um não sei quê de loucura e de pesadelo; os olhos brilhantes, emoldurados no bistre das insónias e dos tormentos, as mãos crispadas, rapaces, em foice, os vultos rembrandtescos. São ferozes e são cruéis.
A tela é violenta e verdadeira. A vida é aquilo, assim enérgica, sinistra, brutal. Não há trégua, não há descanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita se ele cai, e tripudia, espreita se ele sobe, e inveja-o. Há um homem de peitilho engomado e cabelo colado sobre as frontes que, sentado, morto, segura na mão inerte e suicida a coronha de um revólver.
Um grande homem brutal, de camisola, pulou, destruiu o último tapume, frágil afinal como uma convenção, e continua avançando sempre. Toda aquela populaça, todas aquelas criaturas cuidam só em subir. A certa altura a Morte fixa-se com suas pupilas de aço, hipnotizantes, e elas caem, rolam, afundam-se lá em baixo, onde as espera uma cova aberta, algumas sem terem chegado, outras que pararam finalmente, levando nos olhos um pavor incerto, qualquer coisa de espantoso e indescritível que faz parar o sangue nas artérias.
Para cada um que tomba avançam mil. Trava-se um combate em que o mais cruel, o mais forte, o mais canalha, é que triunfa. Nada de piedade nem de compaixão. Se não esmagares serás esmagado. Não há tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar seja como for, custe o que custar». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

Poesia. Eróticas, Satíricas e Burlescas. Bocage. «… essa da Rússia imperatriz famosa, que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta) entre mil pi… expirou vaidosa»

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Soneto de todas as …

«Não lamentes, ó Nize, o teu estado;

p… tem sido muita gente boa;

pu… fidalgas tem Lisboa,

milhões de vezes p… têm reinado;



Dido foi p…, e p… de um soldado;

Cleópatra por p… alcançou a coroa;

tu, Lucrécia, com toda a tua proa,

o teu co... não passa por honrado:




que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta)

entre mil pi… expirou vaidosa;



Todas no mundo dão a sua gre…;

não fiques pois, ó Nize, duvidosa

que isso de virgem e honra é tudo peta».



Soneto de todos os cor…

«Não lamentes, Alcino, o teu estado,

Cor… tem sido muita gente boa;

Cor… fidalgos tem Lisboa,

milhões de vezes cor… têm reinado.



Siceu foi cor…, e cor… de um soldado;

Marco António por cor… perdeu coroa;

anfitrião com toda a sua proa

na fábula não passa por honrado;



Um rei Fernando foi cab… famoso

(segundo a antiga letra da gazeta)

e entre mil cor… expirou vaidoso;



tudo no mundo está sujeito à gre…;

não fiques mais, Alcino, duvidoso,

pois isto de ser cor… é tudo peta».



In Bocage, Poesia, Eróticas, Satíricas e Burlescas, Projecto Livro Livre, livro 270, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes, 2014.


Cortesia de IMendes/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Quando Francisco, bêbado espantoso, que em copo, frasco, taça é eminente, se ajuntou…»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…]

Festas bacanais. Argumento

«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



XVII

De Castela se veem nessa morada

águas de duas cores deleitosas,

quando a nossa cidade está esgotada,

inda que o gesso as faz menos gostosas;

c’o licor novo espera ser tirada

a reima das entranhas sequiosas,

porque esse é o que aquenta a velha idade

desterrando a água-pé desta cidade.



XVIII

Mas em quanto com novo não me alento,

reparti com os pobres que o desejam;

ide largando dele, com intento

que seus poucos reales vossos sejam.

assim recolhereis o nosso argento,

e de todos aqueles que festejam

por tal ordem a Baco celebrado,

que costumam beber cada bocado.



XIX

Já de lá d’Alcochete caminhavam,

as formosas borrachas apertando,

e depois de vazias as largavam,

outras doutro licor melhor tomando,

de branca escuma os copos se mostravam

cobertos ao beber não lhe assoprando;

mas as águas nem doces, nem salgadas

delas vistas não foram nem provadas.



XX

Quando Francisco, bêbado espantoso,

que em copo, frasco, taça é eminente,

se ajuntou em conselho, desejoso

de dar favor a toda aquela gente.

Pisando esse caminho tão famoso

da rua das adegas prestemente,

convocados da parte do entornante

por um já n’outro tempo bom tocante».

[…]


In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.


Cortesia de IbaMendes/JDACT

Maria Adelaide. M Teixeira-Gomes. «Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe…»

jdact

«(…) O mês que durou a nova instalação foi encantador. Maria Adelaide transformava-se e assumia uma individualidade que a extremava do resto da família. Mas o arranjo do quintal, onde ela dava largas à sua fantasia, delineando planos de jardinagem e arborização que mal caberiam num grande parque, esse, então foi um poema. Eu ouvia-a embevecido, achando graça em tudo quanto dizia e facilitando quanto podia a realização do seu sonho.
Tão contente andava que não recusou, como até ali fizera, as lições de ler e escrever que eu pretendia dar-lhe. Ela andara na escola mas nem as letras do alfabeto conhecia. Nessa fase é que lhe descobri o inexaurível fundo de superstição em que a sua alma assentava, e até nisso lhe achava chiste: sonhar com flores eram penas remediadas; excrementos, dinheiro certo; as mãos dentro de água, lágrimas, etc. Uma vez, antes de nos deitarmos, eu queria que se fosse pentear e repartisse o cabelo em bandós, mas ela recusou porque era de noite e não sabia se o pai andava no mar, o que seria de mau agoiro. Uma vizinha dos Fumeiros, andando o marido na lancha, fora da barra, pôs-se a pentear uma noite, e apenas atirava à rua o molhinho de cabelos caídos, vem uma refega de vento que por pouco não mete a porta dentro. Nesse mesmo instante o marido caía no mar e por pouco não se afoga...
Também se não devem despejar os cântaros da cantareira quando há em casa algum doente em perigo de vida. As almas, tão depressa largam os corpos, e antes de seguir ao seu destino, precisam de água pronta para se lavar, e preferem a água dos cântaros por serem fundos. Outra mulher, também dos Fumeiros, estando o marido agonizante, despejou, de propósito, a água que havia em casa, deixando apenas uma gota na bacia do lavatório. Morreu o marido e logo ouviu ruído no quarto do lavatório: foi ver e achou tudo em volta salpicado de água, sem que lá estivesse alguém...

Bairro dos pescadores
A respeito destas crendices Maria Adelaide não admitia dúvidas, e se eu delas zombava, a sua testa curta, de cinco pontas, enrugava-se, com uma expressão obstinada que a tornava sombria, opaca, e os recortes perdiam toda a graça como inestético desenho tosco. Mas eu não teimava. Uma grande ternura me invadia o coração à lembrança de que a pobrezinha sofrera frios e fome e andara descalça e levara, sem dó, pancadas da mãe, e mais da mestra naquela escola de torturas onde nada aprendera e onde as lunetas da professora, sábia e solerte, a espavoriam. Agora era ela que sustentava generosamente os seus, matando-lhes fomes e frios, e a ternura penetrava-me ainda mais fundo à lembrança dos seus primeiros arranjos, no seu primeiro quarto: a cómoda pobre mas vistosa; a cama fofa, larga e limpa, e o aroma especial que ali pairava e que era natural do seu próprio corpo, da sua própria carne...
E os pitorescos episódios da sua meninice. A miúdo referia-se a uma rapariga que fora sua vizinha, era muito má e gostava de morder nas companheiras. E contava: uma vez estava ela à porta de casa, a armar uma loja em cima de uma cadeira com muitas coisas já em ordem: conchas de coquinhas, latas velhas de sardinhas, dois fundos de copos, e um grande ramo de loiros, quando eu chego e digo: Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe, dê-me um pedacinho de pão para ir brincar com a filha da vizinha Antónia. Pão a estas horas, moça? O que tu precisas é uma boa data de açoites. Volto à Francisca: a mãe não me dá pão, mas tu deixas-me brincar, deixas? Mas ela, muito má, responde: não, não e não; se quiseres traz pão. E a mim deu-me logo uma grande raiva; emborco a cadeira com toda a loja e atiro o ramo de loiros para a lama da regueira. Então a moça atira-se a mim e prega-me uma mordedela que me fez ver as estrelas e de que ainda aqui tenho o sinal. Fujo para casa mas daí a nada já ela lá estava com a sua mãe a queixar-se à minha de mim. Tiveram as duas uma assanhada guerreia de língua, mas quando tudo serenou apanhei uma sova de sapato de que me hei-de lembrar toda a minha vida... O que estas historietas me entretinham!» In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Macau Histórico CA Montalto Jesus. «O procurador era, ao mesmo tempo, tesoureiro colonial, superintendente das Alfândegas e director dos Serviços Públicos»

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«(…) A pseudo-embaixada foi recebida com grande pompa; e, conduzidos à sala dourada do palácio vice-real, os humildes estrangeiros depuseram os presentes ante o velho magnata que exultante de satisfação, aceitou os adornos e os cristais, na condição de os pagar no acto da entrega, ainda que depois, em privado, desse a entender que o dinheiro se destinava a mais presentes. Como se esperava, não havia necessidade de mais justificações. Que os portugueses permaneçam em Macau, bons e leais amigos, disse o vice-rei, que se governem o si mesmos como até aqui e obedeçam aos mandarins. O motivo por que os portugueses não reivindicaram os seus direitos é explicado em Oriente Conquistado a Jesu-Christo: tão dependente estava Macau dos mandarins que bastava estes cortarem as provisões e os portugueses não poderiam manter-se no local. O expediente, contudo, resultou satisfatório tanto para a colónia como para os jesuítas e, zeloso como era Macau pelo trabalho de evangelização, foi com grande alegria que o competente Ricci começou a fundar a missão que, científica ou religiosamente, resultou tão gloriosa para o prestígio ocidental na China. Para a precária colónia o sucesso dos jesuítas foi uma dádiva de Deus, de tal maneira dependia do seu tacto e da influência que eles, em breve, viriam a adquirir sobre os mandarins.
Entretanto, chegaram a Macau, em 1582, as tristes notícias de que, em consequência da morte do monarca Sebastião na desastrosa batalha de Alcácer Quibir, a coroa de Portugal havia sido usurpada, em 1580, por Filipe II de Espanha. Ao mesmo tempo, Gozalo Ronquillo, governador de Manila, enviou um emissário jesuíta, Alonso Sanchez, para promover a aclamação do novo monarca em Macau, onde chegou após um naufrágio e subsequente detenção na China. Deparando-se-lhe um ardente e inquebrantável patriotismo, o emissário usou de grande circunspecção ao relatar o cruciante desastre sob a suave aparência da união das coroas de Portugal e de Espanha. Primeiro, assegurou o assentimento do clero e das autoridades. Depois, dirigiu as suas eloquentes exortações aos fiéis patriotas. Por fim, a colónia, seguindo o exemplo da desgraçada pátria e das demais, tristemente jurou vassalagem ao rei castelhano.
Mas enquanto um jesuíta administrava suavemente o jugo, outro lutava patrioticamente para colocar a colónia fora do alcance dos governadores espanhóis. Por desejo do bispo Belchior Carneiro os colonos reuniram-se, em 1583, para deliberar sobre qual a forma de governo que melhor se adaptaria às novas circunstâncias. A assembleia, presidida pelo digno prelado, decidiu a favor de uma administração senatorial baseada nos privilégios municipais adquiridos, nos dias de antigamente, por concessão real a várias cidades de Portugal. Por isso, o Senado de Macau instituiu-se com a sanção de Francisco Mascarenhas, vice-rei da Índia.
A eleição do Senado era trienal. Todos os portugueses residentes em Macau tinham direito a voto. Convocados pelo ouvidor, os residentes reuniram-se e por votação escolheram seis eleitores. Depois de terem legalmente jurado os seus cargos, estes organizaram-se em três grupos, entre os quais não podia haver qualquer relação. Recolhidos na casa do Senado, cada grupo redigiu uma lista de vinte e um cidadãos elegíveis para as honras de senador. O ouvidor, promotor de justiça, compilou numa só os nomes das três listas eleitas e enviou-a ao vice-rei de Goa, que novamente organizou três listas e as devolveu a Macau, em sobrescritos selados, para que no final do último ano de cada triénio fosse aberto um deles. Cada lista continha a nomeação de dois juízes, três vereadores e um procurador, os senadores. A presidência cabia alternadamente aos vereadores. Os juízes exerciam a sua jurisdição em casos sumários sujeitos a apelo ante o ouvidor ou o Tribunal Supremo de Goa, presidido pelo vice-rei, cuja decisão era definitiva. O procurador era, ao mesmo tempo, tesoureiro colonial, superintendente das Alfândegas e director dos Serviços Públicos, assim como o representante do Senado em todos os assuntos relativos aos chineses. Em questões importantes os homens-bons, como eram chamados os ex-senadores, o capitão-de-terra, o bispo, o clero e os cidadãos em geral eram convocados a deliberar com os senadores sobre as medidas a adoptar, sendo tal assembleia chamada Conselho Geral». In CA Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, colecção História, 1ª edição em português, 1990, Livros do Oriente, Macau, Fundação do Oriente, ISBN 972-941-801-2.

Cortesia se LdoOriente/JDACT

Macau Histórico CA Montalto Jesus. «A feira era, a princípio, celebrada de cinco em cinco dias, periodicidade depois alargada para de quinze em quinze»

jdact

«(…) A barreira foi construída, em 1573, claramente como uma delimitação de fronteira, mas servia também para controlar o aprovisionamento da colónia, embora o objectivo declarado fosse apenas o de evitar a incursão dos negros fugitivos de Macau. O portão-barreira, conhecido pelos portugueses como Porta do Cerco, era aberto periodicamente para abastecer a colónia de provisões, numa feira, celebrada num espaço cercado para além da barreira, após a qual esse portão era fechado e selado com seis papéis carimbados. Sobre o portão havia uma inscrição chinesa: Temei a nossa grandeza e respeitai a nossa virtude, e nas proximidades foram estacionadas tropas chinesas, um vergonhoso grupo de arruaceiros, maus, molengões e mal armados, que perseguia os carregadores das provisões para a feira, e por cuja queixa o capitão-de-terra mandou, certa vez, prender e açoitar, em Macau, quarenta desses soldados, após o que foram mandados embora, chorando como crianças, como narrou um missionário contemporâneo. A feira era, a princípio, celebrada de cinco em cinco dias, periodicidade depois alargada para de quinze em quinze. O resultado desta alteração não prevista foi a escassez de comida, em consequência da qual os pobres de Macau morreram de fome.
Ainda que assumindo outras formas, não era a primeira vez que a colónia experimentava o maldito jugo dos mandarins. A princípio os direitos chineses de ancoragem eram exigidos aos barcos portugueses em Macau. Depois, o que originariamente não era mais do que um suborno, ao qual se alude numa das narrativas chinesas, foi transformado numa anuidade para o tesouro imperial. O modo como este presente para o Cérbero veio a ser legalizado como anuidade em forma de foro do chão, é assim explicado: numa acção ou citação, que, nos princípios do século XVII, os jesuítas fizeram para atestar os direitos dos portugueses sobre Macau, parece que depois de lhes ter sido dado o Porto e a Península de Macau, os portugueses pagaram, além de direitos de ancoragem, uma certa soma como renda que todavia, não era registada no tesouro imperial, sendo gasta pelo hai-tao, a quem era usualmente remetida, e que era por esta razão conhecido pelos portugueses como o hai-tao subornado.
Isto durou dez ou doze anos. Em 1572, ou por volta disso, quando os portugueses se dirigiam para uma feira, os mandarins, ataviados de vermelho, saíram de um portão para receber os direitos habitualmente trazidos, oferecendo aos portugueses bolos e um jarro de vinho como era seu costume; após o que, o intérprete Pedro Gonçalves, um mestiço, em conversa com o hai-tao, informou que os portugueses também traziam os quinhentos taéis a pagar como renda da colónia. Como isto foi dito na presença de outros mandarins o hai-tao, vendo-se comprometido, respondeu apressadamente que o dinheiro devia ser enviado ao te-quei porque se destinava ao tesouro imperial. Desde então, foi pago e recebido como tal.
Assim, um simples suborno deu origem ao foro do chão, pago não em virtude de qualquer pacto formal, mas meramente através de condescendência indevida, calculada para libertar a colónia das medidas vexatórias por parte dos mandarins. É a esta renda que Ljungstedt e outros chamam tributo, evidentemente para rebaixar ainda mais a situação da colónia. Neste ponto, contudo, o pagamento do foro não é menos humilhante do que o de um tributo, talvez até mais, porque enquanto o foro implica, pelo menos, uma renúncia tárcita ao direito de conquista, um tributo, neste caso, está na categoria daqueles que, nos tempos passados, mesmo as mais importantes potências marítimas da Europa pagavam aos estados bárbaros para protecção das vidas e do comércio dos seus súbditos, sem afectar de maneira alguma e soberania destas potências, embora o tributo fosse, por vezes, imposto por meio de tratados concluídos para esse efeito.
Com o decorrer do tempo, as extorsões a Macau deixaram de ser um exclusivo dos mandarins distritais. Um velho e ganancioso magnata de Foquien, mal assumiu o cargo de vice-rei de Cantão, em 1582, mandou que se apresentassem perante ele as principais autoridades civis, legais e eclesiásticas de Macau para que lhe fosse explicado por que direitos governavam a colónia, porque, alegava ele, o imperador, ao dar-lhes Macau, não lhes outorgara qualquer jurisdição sobre o território. As autoridades em questão não terão concordado com esta prepotência descarada. No entanto, era evidente que para segurança da colónia, alguém teria que resolver os assuntos em Shao-king-foo, então a sede vice-real. Como observa Du Halde, a conversa do vice-rei deu a entender aos portugueses que movido pela cupidez característica dos vice-reis chineses, este assumia uma atitude agressiva na esperança de ser apaziguado pela complacência e alguns ricos presentes. E Macau, relata um historiador português, sabia que a melhor justificação era na forma de camlets de seda, veludos e cristais, então de alto preço na China. Um homem de leis chamado Penella, de excelentes relações com os mandarins, foi designado pela comunidade para seguir para Shao-king-foo com estes presentes, sendo acompanhado por dois jesuítas italianos, que avidamente se aproveitaram desta oportunidade para fundar a sua missão na China». In CA Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, colecção História, 1ª edição em português, 1990, Livros do Oriente, Macau, Fundação do Oriente, ISBN 972-941-801-2.

Cortesia se LdoOriente/JDACT

terça-feira, 18 de abril de 2017

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «O que é significativo, de qualquer modo, é que também nesta leitura o Mundo Romano e o Mundo Medieval são mostrados um tanto como planetas estanques»

jdact e wikipedia

«(…) Consideradas as simplificações e complexidades possíveis a esta primeira leitura, consideraremos agora que, em radical oposição à tese de que a civilização romana é destruída pelas invasões ou migrações dos povos germânicos, teremos os historiadores que defendem a ideia do declínio do Império Romano. Opondo-se à frase de Piganiol de que o Império Romano foi assassinado, um dos defensores da hipótese do declínio, propõe a frase de que o Império Romano morreu de morte natural. Aqui, além da ideia do acontecimento que produz o corte ou a ruptura definitiva, teremos a ideia do processo que conduz à decrepitude de toda uma civilização. O acontecimento-ruptura é aqui, ainda mais necessariamente, substituído pelo acontecimento-processo. De qualquer forma, em um caso ou outro, ainda teremos a ideia de algo que termina, e não de algo que se transforma. Na análise de Lot, as crises sociais, económicas e políticas do século III teriam gerado uma nova resposta política assinalada por um estado interventor, corrupto e burocratizado que substitui a antiga autoridade senatorial. A esta crise, da qual o Império Romano jamais teria se recuperado, também se somaria o novo tipo de organização militar onde os povos germânicos incorporados ao Império desempenhariam um papel cada vez mais destacado, por vezes à maneira de mercenários. Estes e outros processos são mostrados como os sintomas de um declínio. O que é significativo, de qualquer modo, é que também nesta leitura o Mundo Romano e o Mundo Medieval são mostrados um tanto como planetas estanques: um começa onde o outro já se foi, e são bastante minimizadas as interpenetrações entre estes dois mundos. Podemos indagar sobre o que nos revela, acerca das concepções historiográficas que a sustenta, a dicotomia que permeia a ideia de que o Império Romano morre como um grande Ser, ora assassinado, ora definhando como um velho moribundo que ao final de sua vida vê esvair-se gradualmente a sua energia vital enquanto se desbotam os principais traços que lhe compunham a identidade. A ideia de um acontecimento-ruptura que teria presidido a morte do Império através da violência dos povos germânicos se adapta, por exemplo, a uma historiografia que tem importantes desenvolvimentos no século XIX, e que anseia delimitar com precisão o acontecimento, situando-o por vezes em uma data bem-definida, e de qualquer modo sempre enfatizando o acontecimento político, político no sentido antigo, do macro poder que se estabelece ao nível dos grandes estados, instituições e confrontos militares. Ao mesmo tempo, na outra ponta da dicotomia, a ideia de queda ou de declínio ampara-se em muitos casos, embora por um caminho distinto, nesta mesma velha história política que se orienta tendo como perspectiva central a ser analisada a capacidade de uma civilização manter ou não uma unidade imperial mais ampla. Perder a unidade política, deste ponto de vista, é morrer, envelhecer, decair em vigor. É aliás oportuno lembrar as considerações do historiador francês Jacques Le Goff sobre as apropriações historiográficas do conceito de decadência, um conceito que acrescenta um tom ainda mais depreciativo à ideia de declínio, e que também pode eventualmente ser direccionado para questões meramente políticas relacionáveis à desintegração da estrutura política.
Vale lembrar que o conceito de decadência foi colocado também em pauta pelas próprias gerações de pensadores que vivenciaram e se seguiram à desarticulação do Império Romano em favor das novas unidades políticas e territoriais que introduzem o período medieval. É assim que, em um célebre estudo sobre O fim do Mundo Antigo que é também já um clássico, Santo Mazzarino (1916-1987) busca historiar precisamente as trajectórias da ideia de decadência na produção literária e na cultura latina como um todo, reinserindo-a no confronto ideológico entre cristianismo e paganismo que eclode na época e se estende também por períodos posteriores. A ideia de decadência, e essa é uma chave importante para a compreensão do uso do conceito pelos próprios autores da época, implica sempre uma comparação do período que se considera como decaído ou decadente em relação a um período anterior, necessariamente visto como melhor. Assim, na ideia de decadência está sempre explícita, de algum modo, uma exaltação ao passado. A consideração acerca de qual seria o elemento que produz ou produziu a decadência, obviamente, transmuta-se conforme a perspectiva do analista, que na época dificilmente escaparia de um posicionamento em relação à questão da dicotomia entre paganismo (ou humanismo clássico) e cristianismo». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

Relicário. Douglas Preston e Lincoln Child. «O primeiro esqueleto, quando chegou à superfície no meio das águas agitadas, ainda estava coberto de imundices»

jdact

Ossos velhos
«(…) No convés da lancha da polícia, o tenente D’Agosta observava, com um interesse desprendido, a ascensão do mergulhador novato à superfície. Era um espectáculo digno de se ver: o desgraçado esperneava, com os berros meio abafados pela lama e torrentes de fluidos cor de ocre a sangrarem do fato de mergulho e a mancharem as águas com a cor do chocolate. Devia ter perdido o contacto com a corda de segurança; de facto tivera muita, mas mesmo muita sorte em ter conseguido encontrar o caminho de regresso. D’Agosta aguardou pacientemente enquanto o mergulhador histérico era trazido a bordo, lhe despiam o fato estanque, o lavavam e acalmavam. Viu o homem a vomitar por cima da borda, não no convés, notou D’Agosta com aprovação. Tinha encontrado um esqueleto. Ou mesmo dois, aparentemente. Claro que não era aquilo que lhe tinham mandado fazer, mas mesmo assim não estava mal, para um primeiro mergulho. Havia de escrever uma recomendação qualquer, em nome do desgraçado. Tudo bem, desde que o puto não tivesse ingerido ou respirado nenhuma daquela mer… que ainda se lhe colava à boca e ao nariz. E mesmo que fosse esse o caso, bom, os antibióticos que havia por aí costumavam fazer milagres.
O primeiro esqueleto, quando chegou à superfície no meio das águas agitadas, ainda estava coberto de imundices. Um mergulhador que nadava ao lado arrastou-o até junto do casco da lancha de D’Agosta, embrulhou-o numa rede e subiu ao convés com um certo esforço. A rede, a pingar e a raspar em tudo quanto era sítio, passou por cima da borda e foi poisada sobre uma lona, junto aos pés de D’Agosta, como os restos de uma pescaria macabra. Céus, bem podiam ter passado isso por água!, disse D’Agosta com o nariz franzido por causa do cheiro a amónia. Agora que fora trazido à superfície, o esqueleto passava a fazer parte da sua jurisdição. Quem lhe dera que aquela coisa voltasse à procedência! Era notório que não havia nada no lugar onde era suposto encontrar-se a cabeça.
Dou-lhe uma mangueirada, chefe?, perguntou o mergulhador estendendo a mão para a bomba hidráulica. Lava-te primeiro. O mergulhador tinha um aspecto ridículo, com um preservativo colado à cabeça e lodo a escorrer-lhe por entre as pernas. Dois outros mergulhadores subiram a bordo e começaram a puxar por uma nova corda, enquanto um terceiro trazia à superfície o segundo esqueleto, sustentando-o com a mão livre. Quando o esqueleto foi parar ao convés, e toda a gente pôde confirmar que também este não tinha cabeça, gerou-se um silêncio pesado. D’Agosta passou os olhos pelo enorme tijolo de heroína que entretanto também tinha sido recuperado e que se encontrava agora devidamente selado num saco de provas. Era como se o tal tijolo tivesse de súbito perdido toda a importância.
Puxou uma baforada do charuto e desviou a vista na direcção da Cloaca. Os olhos acabaram por poisar na ancestral boca do esgoto West Side Lateral. Umas quantas estalactites pingavam do tecto como se fossem uma fiada de dentinhos. O West Side Lateral era um dos maiores da cidade, drenando praticamente todos os fluidos do Upper West Side. Cada vez que havia chuvadas em Manhattan, a central de Tratamento de Esgotos do Lower Hudson atingia a capacidade máxima e descarregava milhares de litros de desperdícios não reciclados no West Side Lateral. Precisamente na Cloaca. Com um suspiro profundo deitou os restos do charuto por cima da borda. Sinto muito, mas vocês vão ter de se molhar outra vez! Quero essas duas cabeças!» In Douglas Preston e Lincoln Child, Relicário, O inferno fica debaixo da terra, tradução de João Barreiros, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-989-637-126-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

A Trança Feiticeira. Henrique Senna Fernandes. «Ultrapassadas as pausas iniciais, a conversa tomou uma direcção que não tinha planeado. Que conversa podia ter uma aguadeira…»  

jdact

«(…) A insistência dele, porém, removeu os escrúpulos. Cortando-lhe o caminho da estrada, à vista dos transeuntes curiosos e da A-Sâm, desconfiada, aceitou o primeiro encontro a sós. Este realizou-se, à falta de melhor, no escuro do Jardim de Vasco da Gama, onde não alumiava candeeiro, num banco entre buchos cerrados que os abrigaram de olhos indiscretos. A-Leng apareceu trémula e nervosa, relanceando o olhar para todos os lados. Não estava à vontade, qualquer ruído a sobressaltava, como se fosse seguida pelos zaragateiros de Cheok Chai Un. Sentaram-se, ela num extremo do banco e ele no outro. No princípio, mal respondeu às perguntas, num descoroçoante laconismo. Adozindo não tentou aproximar-se. Tratava-se duma mulher de mentalidade e educação de que não fizera a perfeita avaliação. Era um animal bravio e assustadiço, na defensiva, pronto a desaparecer, ao mínimo gesto incorrecto. Era preciso paciência, muita paciência. Tudo uma questão de tempo.
Ultrapassadas as pausas iniciais, a conversa tomou uma direcção que não tinha planeado. Que conversa podia ter uma aguadeira, se não as coisinhas do seu bairro, o comesinho do seu quotidiano, o poço e a avó, o templo de Tou Tei? Mas fora o primeiro passo. Ela falara e era tudo. Uma escassa meia-hora e ela ergueu-se. Justificou-se. Dormia cedo, saltava do catre, mal o sol despontava, e era o resto do dia, numa lufa-lufa, acarretando água para muitas casas, em correria até o anoitecer. Punha ênfase nas palavras, para demonstrar que não cedia facilmente. Podia ser uma ignorante, mas tinha a sua honra e o seu pudor. Não era barata... Foi cansativo marcar um novo encontro. Ele suspirou, assinalando tristeza, a pedir que não fosse má. Persistiu e, por fim, ela consentiu: depois de amanhã, à mesma hora. Paciência, muita paciência, porque a paciência era o segredo da vitória. Num ápice, a silhueta esbelta diluíu-se na escuridão. Adozindo rilhou a decepção, puxou dum cigarro que fumou lentamente. Preparou a desculpa da demora à viúva ciumenta, que o esperava no Baixo-Monte.
A-Leng estava mais confiante e serena, no segundo encontro. Chegara pontualmente, usando das mesmas cautelas. A conversa girou, outra vez, sobre o Cheok Chai Un, mais esmiuçado em pormenores. Era pobre, muito pobre, mas não ambicionava muito mais. Contentava-se com o que já possuía. Gostava, apesar de tudo, do ofício, a única coisa que afinal cumpria bem. Adozindo pouco disse da sua casa, para não frisar o contraste do teor de vida de cada um deles, mal desconfiando que ela já o avaliara. Procurou factos e eventos da escola, assuntos que a dispunham bem. No escuro do banco, soniram gargalhadinhas repesas. Tudo caminhava bem. Não a tocou, embora a distância entre ambos fosse menor. Paciência, muita paciência.
Quando deram pelo tempo, tinham decorrido cinquenta minutos. A-Leng saltou, com pressa doida. Faltara ao serão da Abelha-Mestra. Haviam de estranhar e comentar a sua ausência. Não compareceu ao terceiro encontro, mas ele permaneceu fiel, à espera dela, noutras noites. Mal dominava a irritação. Levara a paciência até ao exagero, contra os seus hábitos e temperamento. Com outras, não actuara assim. Vexava-o não avançar mais, para além daquela estúpida adoração platónica. Uma aguadeira! Mas apostara na posse do seu corpo e da sua trança. Agiu com astúcia, não a perseguindo, em pleno dia. O trajecto dela para a sua casa estava repleto de curiosos e pressentia falatório no ar. A criada A-Sâm surpreendera qualquer coisa e pusera-se de atalaia, para observar as idas e vindas da rapariga. Não devia, pois, embaraçá-la e ganhava mais confiança. Paciência, muita paciência.
Mas tudo isto esgotava-lhe os nervos. Era uma obsessão. Descontava a sua frustração na viúva ciumenta que, pela primeira vez, já exigia cartas na mesa. Lucrécia não queria manter-se viúva eternamente, quando já não havia razão para isso. Como sempre acreditou, A-Leng regressou para o escuro do banco, à mesma hora. Vinha ofegante, não resistira, movera-se catapultada por um fogo interior e uma mola invisível. Arranjara desculpas, saíra do bairro, alongara o caminho, por ruas e vielas, para despistar quem possivelmente a seguisse». In Henrique Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-9440-80-8.

Cortesia da FOriente/JDACT