domingo, 18 de novembro de 2018

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Não estava mais ninguém em Astorga?, insistiu a minha cunhada. Como meu pai baixou os olhos, cansado de tanto falar, Teresa Celanova pediu-nos que terminássemos…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Lamego, Agosto de 1146
«(…) Egas Moniz morreu no terceiro dia do mês de Agosto desse ano e no seu enterro, em Lamego, além do meu melhor amigo e da rainha Mafalda da Sabóia, compareceram os principais notáveis da corte portucalense: Peres Cativo, Gonçalo Sousa, João Peculiar, os bispos de Coimbra e do Porto, o prior Teotónio, Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, e muitos outros nobres portucalenses. Durante as solenes exéquias, causou-me curiosidade ver, perto do túmulo, um monge do Mosteiro de Cárquere. Quando questionei a viúva de meu pai, Teresa Celanova, esta disse-me que o indivíduo era uma presença habitual em Lamego, sendo o confessor de meu pai, a quem dera a extrema-unção. Observei-o com atenção, sabendo já que se chamava Leopoldo. Com cerca de quarenta anos, apresentava um andar curvado e um aspecto assaz frágil. Não tinha idade para conhecer o conde Henrique, mas, por ser tão próximo de Egas Moniz e monge em Cárquere, reacendeu as minhas dúvidas, que meu pai tentara extinguir dois dias antes.
Cientes de que a saúde de Egas Moniz estava imparavelmente degradada, Chamoa e eu tínhamos corrido a Lamego. Quando nos aproximámos da cama de meu pai, notei que, mesmo moribundo, se desagradava com a presença da minha cunhada. Que faz ela aqui?, gemeu Egas Moniz. Desculpei-me por ter de sujeitá-lo a uma série de perguntas e, com amável serenidade, expliquei-lhe a dúvida que Afonso VII lançara sobre a identidade de Afonso Henriques. Diz que não é o filho do conde Henrique e de dona Teresa. Meu pai encolheu-se, siderado com o que ouvia. Lourenço Viegas, que falsidade! Sem esmorecer, insisti. A criança nascera aleijadinha, tolhida de pernas, mas o meu melhor amigo era agora um gigante. O rei dos Cinco Reinos não acreditava em tal transformação e suspeitava de que o débil menino tivesse sido trocado por um saudável e viçoso. E que sabe ele disso, acaso vivia por cá?, indignou-se meu pai. Apesar das dificuldades em respirar, logo ali nos garantiu que essa infame patranha fora inventada pela mãe do imperador, dona Urraca, cuja malícia era infinita.
Sempre nos quis prejudicar, espalhou esse disparate para tramar dona Teresa! A custo, interrompendo cada frase para ganhar forças, Egas Moniz contou-nos que, no próprio dia da morte do conde Henrique, em Astorga, a rainha de Leão insinuara que o pequeno Afonso Henriques não era o filho da irmã e do conde. Só que ninguém dera qualquer importância às suas maldosas aleivosias. Dona Urraca envenenou o conde Henrique, matou-o com peçonha! E mesmo depois disso continuava a denegri-lo! Era uma criatura vil!, barafustou meu pai. E o filho dela sai à mãe! Depois de uma pequena pausa, que lhe permitiu acalmar a respiração, perguntei-lhe quem mais estava em Astorga e ele nomeou Martinho de Soure. Mas o último confessor do conde nunca quebrara o silêncio a que estava obrigado pelas leis da Igreja. E o meu primeiro marido?, perguntou Chamoa. Egas Moniz olhou-a de soslaio, garantindo que Paio Soares só chegara a Astorga já com o conde morto. Além disso, meu pai nunca havia falado com ele sobre a vil intriga lançada por Dona Urraca.
Não estava mais ninguém em Astorga?, insistiu a minha cunhada. Como meu pai baixou os olhos, cansado de tanto falar, Teresa Celanova pediu-nos que terminássemos, pois ele precisava de repousar. Contudo, não me afastei. Urgia confrontá-lo com os meus terrores íntimos, mas foi de coração apertado que declarei: o imperador Afonso VII suspeita de que haveis sido vós a trocar as crianças. Não acredita no milagre de Cárquere! Magoado, Egas Moniz olhou-me: Lourenço Viegas, achais-me capaz de tal fraude?» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. « A seu lado, Mem orgulhou-se da amiga, a mais bela da igreja, envolta numa dalmática púrpura lindíssima, com os cabelos longos a caírem-lhe pelas costas e um decote ousado…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Coimbra. Páscoa de 1146
«(…) Mulheres..., riu-se o rei, fazendo uma careta de desdém. Nunca se pode confiar nelas! Ajustadas estas contas de alcova, Afonso Henriques quis motivar o almocreve. Se ele convencesse Chamoa, oferecia-lhe uma propriedade e um novo estatuto. Sereis Mem Ramires, cavaleiro de Almourol, um castelo que podereis recuperar! Era uma doação irrecusável. Anos antes, Mem pensara em tornar-se cavaleiro, mas a sua turbulenta vida não o permitira. Agora, para sê-lo, bastava-lhe persuadir Chamoa. Com vinho e cantiga acalma-se qualquer amiga!, exclamou o eufórico almocreve, de forma surpreendente, pois costumava guardar os ditos espirituosos só para si. Assim, no Domingo de Páscoa, lá estava Chamoa na Sé, numa fila secundária para ninguém dar por ela, como se tal fosse possível. A seu lado, Mem orgulhou-se da amiga, a mais bela da igreja, envolta numa dalmática púrpura lindíssima, com os cabelos longos a caírem-lhe pelas costas e um decote ousado, que obrigava os homens a mirá-la e o bispo Bernardo a franzir a testa, em desaprovação extática.
Peitos gostosos, incomodam os religiosos.
Apesar de apetitosa por fora, Chamoa estava destroçava por dentro, obrigada ao castigo extremo de assistir àquele matrimónio, que a derrotava em definitivo como candidata a rainha de Portugal. E ainda mais desagradada ficou quando, durante a ceia, que decorreu no pátio da Sé, debaixo da enorme tenda ali montada para o efeito, os bobos da corte a escolheram como alvo principal de gozação.
Piadas maldosas, mulheres ardilosas.
No final da festa, Mem soube que fora a rainha Mafalda, em conluio com Gonçalo Sousa, a industriar os cómicos para uma representação teatral infame, onde uma mulher meio enlouquecida dormia com vários homens e também com uma moura. Depois de tanta desbragada folgança, da barriga dela saíam seis rapazes aos pulos, enquanto um indivíduo alto e forte, vagamente semelhante a Afonso Henriques, coçava uns cor… que tinha pousados na testa, e outro, parecido com Afonso VII, se masturbava sentado num trono.
Filho a proteger, mãe a sofrer.
Era evidente em quem se inspirava tamanha boçalidade, mas Mem valorizou o facto de Chamoa se ter humilhado calada, em nome do futuro de Pêro Pais. Terminada a festa, o almocreve acompanhou-a a casa, seguido pelo filho. A estaferma da francesa vai fazer-me a vida negra!, barafustou Chamoa, sofrendo com a chalaça. Mem aconselhou-a a ser resiliente e a esquecer as parvoíces dos bobos, pagos para espalharem enormidades. A serenar aos poucos, Chamoa disse ao filho que ele podia ir-se. E vós, ficais aqui?, perguntou Pêro Pais, olhando Mem de soslaio. Calmo e sério, o almocreve colocou-lhe a mão no ombro. Talvez devêssemos trocar de casa. O filho de Chamoa atrapalhou-se. Nunca lhe passara pela cabeça que Mem sabia das suas ternuras com as três moçárabes. Porém, logo se sentiu aliviado, pois o almocreve não o hostilizara. Pelos vistos, não levava a mal. Assim seja, aceitou Pêro Pais, que depois se virou para a mãe e a relembrou de algo essencial. Tendes de falar com Egas Moniz antes que ele morra! Com um suspiro, Chamoa prometeu ao filho uma ida a Lamego, na minha companhia. Satisfeito, Pêro despediu-se e ela caiu por fim nos braços de Mem.
Menina abalada, sempre muito dada.
Um momento ímpar, o mais grave da minha vida, aproximava-se. Meu pai morria, era imperioso falar com ele. Egas Moniz tinha de nos contar a verdade! Ele estivera em Astorga com Martinho de Soure, os dois haviam assistido à morte do conde Henrique, eram os únicos com quem este falara antes de falecer. Por mais que o admirasse e considerasse íntegro, tornava-se por demais evidente que meu pai conhecia segredos muito antigos e tinha de os revelar antes do seu encontro com Deus. Mais que não fosse, para me acalmar. Fora o meu melhor amigo quem vencera a batalha de São Mamede; quem ousara declarar-se independente de Afonso VII depois de o vencer em Cerneja; fora ele a ser reconhecido rei em Zamora e quem derrotara cinco emires mouros, em Ourique! Como seria possível, num golpe absurdo do destino, alguém declará-lo um reles usurpador?
Esta ideia arrepiava-me, mas pior ainda era a possibilidade de carregar com o peso do nome dele. Não me sentia preparado para herdar o seu cargo e as suas responsabilidades! Não o desejava, pois não tinha qualquer vocação para rei! E nem me queria sequer zangar com ele, era o meu melhor amigo, não o ia trair ou decepcionar! Por tudo isto, que era já tanto, só as palavras de meu pai, sempre sereno e seguro, podiam fechar a ferida aberta no meu peito». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Crianças de Cárquere. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Mem, garanto-vos que o Pêro não petisca só a Ília! Com requintada maldade e evidente gozo, o nosso esperto rei executou assim a sua fria vingança…»

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As Crianças de Cárquere. 1146
Coimbra, Março de 1146
«(…) Tantos homens me desejaram, até o imperador! De súbito, Chamoa sentiu uma inesperada revolta. Não aceitava aquele desatino submisso, tanta perna aberta para nada! Prometeu agir e dona Justa franziu a testa, preocupada.

Coimbra. Páscoa de 1146
Uma semana antes do casamento real, Chamoa anunciou que não iria comparecer, pois tencionava rumar ao Mosteiro de Pombeiro para passar o Domingo de Páscoa com o pai, Gomes Nunes, que lá se exilara a mando de Afonso VII. Antes assistir à tristeza de meu pai do que presenciar o triunfo da francesa! Logo que Afonso Henriques soube destas intenções, mandou chamar à sua presença Mem e pediu-lhe: tendes de convencê-la a assistir à boda! De início, o almocreve recusou. Mas o rei de Portugal não foi em conversa fiada. Mem, escusais de fingir, sei que a filhais! Espantado, arqueei as sobrancelhas e por momentos temi que Afonso Henriques fosse soltar as suas lendárias fúrias, sentindo-se encornado por Mem. No entanto, a cólera não lhe surgiu, pelo contrário. Compreendia Chamoa, que necessitava de um ombro onde carpir as mágoas, agora que ele ia casar. E Mem era amigo dela há muitos anos. Ela contou-me o que se passou durante o cativeiro, na serra Morena, adiantou Afonso Henriques, como se aceitasse algo inevitável. Nunca soube estar sozinha. Aceitava a existência de um amante, mas não que se ausentasse do casamento real, pois isso ofenderia a francesa, que jamais a deixaria voltar a Coimbra.
Chamoa sempre quis ser rainha, não podeis obrigá-la a assistir ao vosso casamento!, contestou Mem. Isso é uma tolice!, ripostou o rei de Portugal. O matrimónio real não passava de um arranjo para agradar ao Papa e lhe dar a ele uma descendência legítima. Bem mais importantes seriam as semanas seguintes! Egas Moniz está a morrer...
Subitamente pesaroso, Afonso Henriques recordou o agravamento da doença de meu pai, que não voltara a sair de Lamego. A sua esperada morte impunha mudanças na corte e para substituir o mordomo do reino o candidato mais consensual era Peres Cativo, nascido na Galiza, coisa que provocava desconforto em alguns. Sobretudo em Gonçalo Sousa. Vai levar a mal!, avisei.
O nosso alferes sempre fora dado a amuos intempestivos. Embora tivesse recebido inúmeros castelos no Entre Douro e Minho, como paga pelos préstimos guerreiros, não tinha os desejos de grandeza satisfeitos e iria revoltar-se se fosse preterido na nomeação para mordomo, demitindo-se prontamente do cargo de alferes. Também me parece, murmurou Afonso Henriques. Seria, portanto, necessário escolher um novo comandante das tropas e a tradição portucalense apontava para a nomeação de um jovem. Pêro Pais tem dezanove anos, é bom com a espada e sabe comandar. Será o próximo alferes, anunciou o rei. Mas, se Chamoa ofendesse a rainha com a sua ausência no casamento real, a nomeação do filho tornar-se-ia impossível.
Assim, cabia a Mem a tarefa árdua de a convencer, para a qual podia contar com um relevante aliado. Pêro Pais deseja o posto de alferes. E também quer permanecer em Coimbra por razões menos nobres..., afirmou o rei, com um sorriso matreiro. O filho mais velho de Chamoa, a despontar como macho impetuoso, aproveitara a prolongada ausência de Mem para alimentar uma forte amizade com as irmãs moçárabes, Ália, Élia e Ília. Ele não se amigou com as três, só o fez com a Ília! enxofrou-se o almocreve. Afonso Henriques soltou uma sonora gargalhada. Mem, garanto-vos que o Pêro não petisca só a Ília! Com requintada maldade e evidente gozo, o nosso esperto rei executou assim a sua fria vingança, mostrando ao rival que, se o encornava às escondidas, tal não o livrava de ser também enganado pelas moçárabes e por um jovem». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

sábado, 17 de novembro de 2018

A Conquista de Santarém. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Queridos filhos e netos, os dias que antecederam a partida rumo a Santarém foram confusos para mim. Hoje, quando os recordo, concedo que a minha intranquilidade…»

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Santarém. Fevereiro de 1147
«(…) No salão, o wali saudou-o com cordialidade e Fátima, mulher de Abu Zhakaria, apresentou-lhe a filha, também chamada Fátima e com menos de um ano. Devo-a aos conselhos de Chamoa!, recordou ela. Enquanto se deliciavam com tâmaras e presuntos, Mem contou que Zaida vivia infeliz em Silves, sob o jugo intolerante de Ibn Qasi. Sabedor de que Ibn Wasir preparava um ataque ao palácio do sufi, o cavaleiro de Almourol tencionava raptar a princesa nesse momento. Quero roubá-la ao marido, declarou Mem, antes de perguntar: aceitais vossa irmã aqui, se eu a trouxer? Depois de suspirar, Fátima respondeu que o seu antigo acinte contra Zaida desinflamara. Haviam sido Afonso Henriques, primeiro, e depois Ismar e Raimunda a intrometerem-se entre elas, mas esses tempos já lá iam. Agora, desejava a paz familiar e aprovou o regresso da irmã. Quando ides buscá-la?, perguntou. O ataque de Ibn Wasir a Silves é esperado para o Verão, disse Mem. Desejo-vos boa sorte, rematou Fátima. Despediram-se com abraços genuínos, mas mal passou a porta do palácio um agudo desconforto apoderou-se de Mem. Mentir não lhe estava na natureza e enganara o wali e a esposa. Viera falar-lhes de Zaida e em breve estaria a trepar as muralhas daquele castelo. Ajudaria os portucalenses a conquistar Santarém e depois correria a Silves, donde traria Zaida. Mas não para a entregar à irmã.
Em tempo de guerra, a verdade se enterra.

Coimbra. Março de 1147
Queridos filhos e netos, os dias que antecederam a partida rumo a Santarém foram confusos para mim. Hoje, quando os recordo, concedo que a minha intranquilidade interior: dramatizava qualquer situação, mas os comportamentos alheios também não ajudaram. Nos últimos tempos, Afonso Henriques mantivera-me à margem das decisões guerreiras, e foi só através do meu sobrinho Pêro Pais que soube estar para breve uma segunda tentativa de tomar Lisboa. Os cruzados estão a caminho?, espantei-me. O meu melhor amigo já não me incluía no seu grupo de conselheiros, agora formado por Peres Cativo, Pêro Pais e o arcebispo João Peculiar. Tantos anos de lealdade haviam terminado sem uma explicação razoável. Teria sido o novo mordomo-mor, um galego, a colocar-me de fora? Ou o arcebispo de Braga determinara o meu afastamento? Foi Chamoa quem finalmente me explicou as razões da distância real: dona Mafalda não gosta de vós! Desde Dijon que antipatizara com a rainha, destinando-lhe apenas frios cumprimentos. Agora, pagava o preço: para acalmar a esposa, o rei de Portugal afastara-me. Descansai, Lourenço Viegas, não sois o único que a francesa abomina!, garantiu-me a minha cunhada». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Conquista de Santarém. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Como tinha falta de braços em Almourol, Mem decidiu aceitar o repto de Giraldo, mas avisou-o de não queria um assassino descontrolado, tinha de cumprir ordens»

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Santarém. Fevereiro de 1147
«(…) Rabinho solteiro, sonha com parceiro.
Foi tal o corrupio de gente a cumprimentá-lo que Mem teve de reter-se em conversas demoradas e de provar repastos oferecidos, numa ou noutra casa. Porém, o seu olho atento não parou de mirar as muralhas na tentativa de descobrir uma fraqueza. A dada altura, enquanto examinava uma frecha por reparar, escutou uma voz inesperada, que lhe provocou temor de ter sido descoberto. É por ali que se ataca! Quando se virou para trás, Mem viu um jovem, talvez com vinte anos, de cabelos longos. Musculado e alto, de olhar vivo, o indivíduo transbordava confiança, mas também uma espécie de intensidade enlouquecida, própria dos amantes da violência. Era irrequieto e mexia muito os braços, como se precisasse constantemente de os exercitar. E devia ser pouco dado à prudência, pois logo perguntou: sois Mem, o cavaleiro de Almourol?
Sempre que o chamavam assim, o antigo almocreve sentia que a vida lhe sorrira. O outro apresentou-se: Giraldo, guerreiro e moçárabe como vós! De imediato, começou a gabar-se, lamentando que Abu Zhakaria não estivesse a mobilizar exércitos, pois precisava de espadeirar e cortar cabeças. Via-se que gostava disso e o sabia fazer. Era um animai impetuoso, difícil de ser domesticado. E Afonso Henriques? Junta tropas? perguntou. Mem referiu que os cristãos estavam sempre precavidos. A Andaluzia andava a ferro e fogo, olho vivo era essencial. Até ele, em Almourol, reconstruíra um agora sólido castelo. Precisais de um bom punho por lá?, questionou Giraldo. Sem parar para ouvir a resposta, garantiu mestria no uso da espada. Mostrou os reluzentes dentes e jurou a Mem que já degolara mouros e cristãos, acrescentando: mas os sarracenos vão perder, já não vale a pena lutar por eles.
Como tinha falta de braços em Almourol, Mem decidiu aceitar o repto de Giraldo, mas avisou-o de não queria um assassino descontrolado, tinha de cumprir ordens. Assim farei, se me deres guarida e comida, jurou Giraldo. Combinaram encontrar-se no dia seguinte, quando Mem regressasse a Coimbra. Antes de abalar, sempre com os olhos de águia bravia a brilharem, o outro apontou para o local na muralha que vira Mem observar e repetiu: é por ali que se ataca!
Um ligeiro incómodo apoderou-se do cavaleiro de Almourol ao ver Giraldo afastar-se. Aquele agitado exibia uma alegria facínora e precipitada, que facilmente se sobreporia a qualquer lealdade. Só que um castelo de fronteira precisava de homens duros, para quem a decência não existia. Tinha de arriscar.
Cavaleiro vencedor, precisa de um matador.
Nessa noite, Mem foi ao castelo de Abu Zhakaria. Fosse quem fosse que tivesse construído a alcáçova, era gente merecedora de admiração. O palácio de Santarém assentava no topo de uma elevação e, devido à espantosa situação, alguém o baptizara como o Ninho das Águias. Inatacável do lado do rio, onde uma empinada escarpa funcionava como uma defesa natural, do alto das suas torres topava-se qualquer movimento de tropas a enorme distância. A única forma de tomar aquele íngreme fortim era um ataque às muralhas a partir da estrada principal, mas uma operação dessas, se fosse mal preparada, daria tempo aos habitantes de se refugiarem na alcáçova, onde podiam aguentar-se durante meses.
Povo avisado, ataque malparado». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Conquista de Santarém. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «O antigo almocreve chegou a Santarém ao final de uma manhã e descobriu uma cidade vibrante, onde abundava o comércio. A paz com os cristãos e a distância das guerras…»

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Santarém. Fevereiro de 1147
«Regressado a Coimbra, Mem notou a forte agitação bélica que sacudia Afonso Henriques, claramente preparado para iniciar uma importante campanha. Embora ele e eu ainda não o soubéssemos, o nosso rei já tinha informações seguras de que uma armada de cruzados, vinda do Norte da Europa, iria ajudar-nos a tomar Lisboa, no Verão. João Peculiar, arcebispo de Braga, encontrara-se novamente com Bernardo de Claraval, patrono dos templários e grande promotor das cruzadas, que o avisara dos preparativos. E o forte empenho do nosso rei crescera também, pois Afonso VII conquistara Calatrava e aproximava-se de Almeria. Se o primo direito atingisse o mar mediterrânico, Afonso Henriques precisava de um troféu semelhante, para não se deixar ofuscar.
Rival em esplendor, provoca muita dor.
Mem pressentia que tomar Lisboa era agora possível, pois a convulsão andaluza, cujo zénite sangrento se atingira com a morte de Ismar, resultara num vasto território dividido por inúmeros e fracos emires, que dominavam pequenas taifas independentes. Granada, Almeria, Cáceres, Sevilha, Córdova, Badajoz e Mértola viviam de costas voltadas, facilitando a vida aos cristãos.
Desunião a alastrar, derrota a chegar.
No Al-Gharb, por exemplo, o regressado Ibn Qasi, marido da princesa Zaida, dominava Mértola e Silves, mas o férreo jugo religioso que impunha não seduzia os locais, tornando a sua expansão para norte impossível, pois, centrado em Badajoz e dominando Évora e Beja, o hábil Ibn Wasir caíra nas boas graças dos almóadas africanos.
Ao esperto traidor, muitos dão valor.
Em Santarém, também o governador Abu Zhakaria se encontrava numa situação de fragilidade evidente. Não dispunha de exércitos vastos, nem conseguira impor a sua autoridade em Lisboa, que se governava a si própria, embora os fanáticos Mantos Vermelhos tivessem perdido a sua aura letal, pois Orimar, a Pústula, estava doente e só lhe restavam Raimunda e três feddayins.
Erva daninha, morre sozinha.
Com tanta trapalhada muçulmana e sem um poder forte e capaz de as auxiliar, Santarém e Lisboa estavam à mercê dos cristãos. Há longos meses que Afonso Henriques o sabia, mas só agora ficara em condições de lançar um ataque demolidor, como confirmou a Mem no dia em que nomeou Pêro Pais alferes portucalense. É tempo de guerra.
A primeira prioridade era, no entanto, Santarém, e antes de romper as tréguas com Abu Zhakaria, acordadas no ano anterior, Afonso Henriques desejava ter fiáveis informações sobre as defesas da cidade. Como Mem se dava bem com o governador e sua mulher, Fátima, o rei de Portugal atribuiu-lhe uma missão especial. Ide e falai com o wali, mas abri bem o olho, ordenou.
O agora cavaleiro e dono de Almourol, cujas obras estavam praticamente terminadas, tinha uma adicional razão para visitar Santarém: queria relatar a Fátima a infelicidade que assolava a existência da irmã, a princesa Zaida.
Mulher de um louco, vive muito pouco.
Corriam rumores de que os almóadas se preparavam para apostar apenas em Ibn Wasir, deixando cair Ibn Qasi, e esse era o pretexto de que Mem precisava para sondar Fátima sobre a possibilidade de Zaida, depois de fugir de Silves, se refugiar, em Santarém, junto da irmã. Irei raptá-la, declarou Mem. O rei de Portugal relembrou-o de que não podia esquecer o objectivo último da ida a Santarém. Os seus desejos privados não se podiam sobrepor às necessidades do reino. Descansai, assim farei, prometeu o novo cavaleiro.
O antigo almocreve chegou a Santarém ao final de uma manhã e descobriu uma cidade vibrante, onde abundava o comércio. A paz com os cristãos e a distância das guerras da Andaluzia haviam permitido a bonança e a prosperidade. Viam-se alguns soldados, nos portões e na muralha, mas pelas ruas da agitada almedina poucos caminhavam, pois os exércitos de Zhakaria tinham sido desmobilizados. Se o ataque portucalense fosse furtivo e intenso, dificilmente Santarém poderia sustê-lo.
Com esperta manha, atinge-se uma façanha.
Pelas ruas e ruelas, muitos o reconheceram. Como almocreve, Mem construíra uma excelente reputação de fornecedor fiável, sendo também recordado pelas mulheres corno um meigo galanteador. Algumas, ao verem-no vestido de cavaleiro, agitaram-se, esperançadas». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Princesas de Córdova. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Se perco Chamoa, o rei de Portugal dá cabo de mim. Foi isso que Zhakaria explicou a Ismar, nos claustros do Azzahrat, tendo apenas Malik como testemunha»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
«(…) Sibilino, Ibn Qasi afirmou que uma princesa não andava nua em frente de soldados, mas desta vez ela não lhe replicou. Apenas sorriu, convencida de que a cidade onde nascera o obrigaria a engolir aquele moralismo enervante. Porém, o sufi surpreendeu-a, mostrando-lhe que possuía bons espiões. O vosso amigo Mem está preso em Córdova. Ou fazeis o que eu mando, ou mato-o quando lá chegar!

Córdova, Janeiro de 1145
Ao passear pelos corredores do Azzahrat, Abu Zhakaria teve a premonição de que os dias gloriosos de Ismar estavam a terminar.
Já nem os criados o respeitam...
Dois anos antes, ele e Fátima tinham-no deixado nos píncaros do poder, mas no presente, mesmo depois da vitória obtida em Soure, a autoridade de Ismar já era curta. O povo de Córdova não estimava aquele príncipe e muitos na Andaluzia já recusavam o seu mando. Na opinião largamente maioritária dos súbditos, Ismar fizera um acordo inaceitável com o imperador Afonso VII e esse dramático momento marcara o início da sua lenta degradação. Dois meses antes, Almeria e Granada haviam-lhe virado as costas, e mesmo os sevilhanos, normalmente leais, tinham-se recusado a manter as tropas em Córdova, impondo a desmobilização habitual do Inverno, o que nas circunstâncias equivalia a uma traição.
Ibn Qasi está a chegar...
Abu Zhakaria receava que o marido de Zaida se apoderasse de Chamoa, de Mem e de Martinho de Soure, presos nas masmorras do Azzahrat, o que o prejudicaria, pois os reféns portucalenses eram a única garantia de que Afonso Henriques não atacaria Santarém.
Se perco Chamoa, o rei de Portugal dá cabo de mim.
Foi isso que Zhakaria explicou a Ismar, nos claustros do Azzahrat, tendo apenas Malik como testemunha. Para que pudesse usá-la numa futura negociação com o rei de Portugal, tinha de levar Charnoa para Hisn Abi Cherif, antes que fosse tarde! Temeis a minha derrota?, questionou-o o príncipe. Abu Zhakaria recordou que as tropas de Ibn Qasi e Ibn Wasir eram mais numerosas do que as de Córdova. Sem a ajuda de Sevilha, Granada ou Almeria, Ismar podia ser derrotado. Zaida não me vai vencer!, ripostou este. O wali de Santarém admirou-o em silêncio, impressionado com a transformação que notava nele. Os seus olhos raiados de sangue eram um sinal claro de que dormia pouco, aflito com a situação vulnerável em que se encontrava. Era já um príncipe perdido, mas não o aceitava, continuava convencido da sua aura.
Onde estão as tropas que vos exigi?, perguntou ele. Abu Zhakaria justificou-se: mantinha três mil soldados a defenderem Santarém, pois temia uma investida vingativa de Afonso Henriques. Em Córdova, permaneciam apenas os trezentos homens que trouxera. Chamoa e Mem são meus prisioneiros!, insistiu Abu. Enervado, Ismar ameaçou-o: prometi-vos um vasto território no Oeste. Parti hoje e destituo-vos do cargo de wali de Santarém! Receoso, Abu Zhakaria tentou acalmá-lo. Não vou fugir! Vou levá-los para Hisn com a Fátima. Tenho de proteger a minha mulher! E de defender Santarém. Porém, Ismar contestou-o: a princesa Zaida jamais mataria a irmã, não era uma sanguinária! E Ibn Wasir estava do seu lado, preparava-se para trair Ibn Qasi. Wasir é um falso e um frouxo!, lembrou o desconfiado Abu Zhakaria. Tal como o governador de Sevilha!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

As Princesas de Córdova. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Os soldados falavam, entusiasmados, da piscina de mercúrio do Azzahrat, onde se iriam espelhar, e foram envoltos nesse entusiasmo tolo que chegaram a Mértola, onde Zaida se espantou com a vastidão das tropas de Ibn Wasir»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
«(…) Filha, bico calado!
Se o marido ouvisse falar em Mem, nem a deixaria sair de Silves, quanto mais ir a Córdova! Tinha de chegar até lá em silêncio, aguentar o que via à sua frente com inquietação crescente. A cidade transbordava de soldados malcriados, que assustavam as mulheres solteiras, as casadas e mesmo os maridos destas. Havia tensão e confusão, contudo, não era essa a sua maior preocupação.
Filha, cuidado, IbnWasir é um impostor.
O marido gabava os feitos do farsante de Mértola, mas ela não dissipara os receios. Lembrava-se dele, baixote e falsete, cheio de salamaleques parvos e dúvidas religiosas. Ismar era mais rico do que Ibn Qasi, facilmente compraria a lealdade do asqueroso senhor de Mértola. Porém, o marido confiava no alcaide. Unidos seremos invencíveis!, exclamara Ibn Qasi. Quanto mais o sufi se iludia, mais Zaida temia o pior. Ibn Wasir facilmente os venceria, se passasse para o lado de Ismar. Ou, pior ainda, podia conquistar Córdova, tornando-se o senhor da capital.
Filha, nunca deixeis sozinha a vossa filha.
Pegou em Maryam ao colo e deu-lhe um beijo. Ia levá-la, não aceitaria deixá-la em Silves. Inquieta, dirigiu-se às cozinhas, entregou a menina às criadas e rumou à sala onde o marido lia, muito concentrado. A barba dele estava bem aparada, decerto um criado a cortara nessa manhã.
Filha, parece outro homem...
Zaida suspirou. Houve tempos em que o considerara bonito, mas agora achava-o feio, agressivo e consumido. O delírio bélico e religioso envelhecera-lhe o rosto. Quando partimos?, perguntou ela. Ibn Qasi ergueu a cabeça, mas não lhe sorriu. Outra coisa que há muito não fazia. Em breve. Vamos para Mértola, ao encontro de Ibn Wasir, adiantou Qasi, resmungando de seguida: infelizmente, ele não atacou Badajoz! E julgais que irá até Córdova?, perguntou Zaida. Ibn Qasi acenou com a cabeça, todo ele convicção. Com os dele, somamos cinco mil homens. São suficientes para tomar o Azzahrat de surpresa. Zaida fechou os olhos. O marido falava como se a guerra não fosse imprevisível, nem o inverno caprichoso. Os exércitos deles iam passar perto de Sevilha sem serem vistos? Que tolice! Ismar era o senhor da Andaluzia, os aliados sevilhanos não o iam abandonar. A estrela de Ismar empalideceu, continuou Ibn Qasi.
Presta tributo ao imperador cristão, os muçulmanos andaluzes já não acreditam nele. Ibn Wasir considera-o um frouxo! Sempre desconfiada, Zaida insistiu: confiais no alcaide de Mértola? O sufi não lhe chegou a responder, pois entraram na sala os seus ajudantes. Nunca mais falaram de guerra, nem durante a viagem para Mértola. Na gaziva, junto à filha e às escravas, Zaida foi apreciando as paisagens, com a certeza aguda de que era cedo de mais para tomarem Córdova.
Filha, vai ser uma desgraça!
Os soldados falavam, entusiasmados, da piscina de mercúrio do Azzahrat, onde se iriam espelhar, e foram envoltos nesse entusiasmo tolo que chegaram a Mértola, onde Zaida se espantou com a vastidão das tropas de Ibn Wasir.
Filha, o emir tem menos guerreiros do que o alcaide?
No dia seguinte, compareceu num repasto, oferecido pelo anfitrião da cidade. Zaida vestiu um belo alifafe, laranja e transparente, mas quando entrou no palácio de Mértola, o mesmo onde estivera seis anos antes, teve a estranha sensação de que a sua situação não melhorara quase nada. E a sua incomodidade só aumentou, quando Ibn Qasi lhe gritou: que vestes são essas? Sem hesitar, o marido ordenou-lhe que se tapasse, caso contrário regressaria de imediato à tenda! E o sempre acanalhado alcaide de Mértola adiantou, com óbvio gozo: posso oferecer-vos o manto de uma escrava! Furiosa, Zaida deu meia-volta e retirou-se da sala, regressando à sua tenda, onde, quando a noite caiu, apareceu Ibn Qasi. Em tom solene, disse-lhe que jamais perdoaria a vergonha por que o fizera passar. Só não a mandava de volta para Silves porque precisava dela em Córdova. Quando chegar à cidade, será a mim que o povo respeitará!, ripostou ela, irritada». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Massacre dos Templários. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «No seu coração, uma fúria imensa levantou-se e foi então que ela disse, em frente daquela assembleia, que Afonso VII andava a espalhar uma malícia sórdida sobre o seu primo»

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Guimarães e Coimbra, Agosto de 1144
«(…) A zanga fatal entre Afonso Henriques e Chamoa só ocorreu depois de eu ter regressado da viagem a Roma e a Cluny. Até ao final de Julho, e apesar de já saberem que os preparativos para o matrimónio com Mafalda da Sabóia estavam em andamento, os dois fingiram que nada se passava, continuando a dormir juntos. Não havia, aliás, qualquer pressa, pois o casamento só aconteceria dali a quase dois anos, assim impusera Mafalda e aceitara seu pai. Além disso, de novo agradado com a recuperada fogosidade de Chamoa, Afonso Henriques suspendera os encontros com Elvira Gualter, que permaneceu em Coimbra com as duas filhas, enquanto o meu amigo e a minha cunhada subiram a Guimarães para passar o Verão, que se adivinhava tranquilo, feliz e sem história.
A situação geral da Hispânia, da Andaluzia moura e do reino de Portugal mantinha-se calma e não se previam combates durante o tempo quente. Ismar encontrava-se em Córdova, Afonso VII em Toledo, Ibn Qasi em Silves, não se notando movimentações suspeitas de exércitos no Norte ou no Sul. Embora existissem escaramuças entre os templários de Soure e grupos de muçulmanos, estávamos convencidos de que a Ordem do Templo dava conta desse recado. O nosso doce remanso foi, no entanto, estilhaçado quando Chamoa recebeu a notícia de que seu pai, Gomes Nunes, fora banido pelo imperador, cujas tropas o tinham ido prender a Tui, expulsando-o do território de Toronho, onde era conde. Desgostosa e ferida, Chamoa rogou pragas ao monarca infame, culpando-o da desgraça do pai.
Maldito sejais, nunca me darei a vós!
Mas como Afonso VII não estava por perto, rapidamente o coração daquela filha extremosa se virou contra Afonso Henriques, a quem exigiu uma imediata retaliação. Provai que sois um verdadeiro rei!, exigiu ela. O repto da minha cunhada caiu em saco roto. Mais de três anos depois da vitória em Valdevez, a raiva dos portucalenses contra galegos e leoneses dissolvera-se. Os condados da Galiza a norte do rio Minho eram nossos, o príncipe fora reconhecido rei de Portugal pelo primo, a paz tinha sido acertada em Zamora, não havia razão para uma nova luta. Banir Gomes Nunes de Toronho era uma injustiça, mas não era ilegítima, pois nos territórios da Galiza o poder imperial de Afonso VII sobrepunha-se ao de Afonso Henriques. Ide buscar vosso pai, posso oferecer-lhe um castelo, propôs este, mas nem essa oferta generosa pacificou Chamoa. Minha mãe e meu tio estão a rir-se de vós, portucalenses!, recordou ela, inflamada de ira.
Ninguém se incomodou. Quando Chamoa pediu ajuda a Peres Cativo, este encolheu os ombros e alegou que seu meio-irmão, Fernão Peres de Trava, já fora a Jerusalém penitenciar-se dos pecados que cometera. E, à direita dele, Gonçalo Sousa mostrou que não esquecera o afrontamento de Lisboa. Recordado por Chamoa das vilezas de que fora alvo em Tui, o alferes ripostou: depois do que haveis dito de mim, não podeis esperar milagres! Furiosa, Chamoa apontou-lhe o dedo e preparava-se para o insultar quando um furioso Afonso Henriques interveio: calai as vossas aleivosias!
Em desespero de causa, a minha cunhada olhou para meu pai e lançou-lhe uma ameaça velada: Egas Moniz, irei obrigar-vos a contar a verdade! O mordomo-mor do reino de Portugal manteve-se calado, mas Afonso Henriques perdeu a paciência e gritou: quem sois vós, para atacar os meus conselheiros? Ide para Tui e voltai quando a cabeça vos esfriar! O abalo de Chamoa foi imediato. O rei de Portugal acabara de mandá-la partir, não a queria ali e não a iria ajudar, nem ao pai dela!
Já não me ama!
No seu coração, uma fúria imensa levantou-se e foi então que ela disse, em frente daquela assembleia, que Afonso VII andava a espalhar uma malícia sórdida sobre o seu primo. Chama-vos impostor e usurpador! Ficámos todos calados, os que sabiam e os que nada sabiam. Só Afonso Henriques perguntou a que se referia ela. Sustive a respiração: iria finalmente Chamoa contar ao rei de Portugal a intriga de Compostela? Um dia, ireis agradecer-me, afirmou ela, misteriosamente. E provarei que ninguém nesta sala vos ama tanto como eu!» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Massacre dos Templários. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Durante a viagem de regresso a Portugal, uma dolorosa e fria dúvida percorreu a minha alma. Saberia Egas Moniz mais do que dizia?»

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«(…) Vozes amigas dizem-me que Afonso VII anda a espalhar um boato pela península..., murmurou o patrono dos templários. Reparei que meu pai empalideceu. A seu lado, João Peculiar, mais frio e sempre mais preparado para as torpezas humanas, contou o que sabíamos sobre a maliciosa intriga de Compostela. Foi a mãe dele, dona Urraca, quem inventou essa trapaça, resmungou Bernardo de Claraval. Mais por temor do que por lucidez! Fosse como fosse, a ressurreição da tramóia era perigosa, uma mácula no nosso rei, uma perda de legitimidade que iria diminuí-lo, impedindo Portugal de nascer como reino. Temos de combater tamanha safadeza, comentou Bernardo de Claraval. Cada um à sua maneira! Uma desagradável aflição assaltou-me, pois notei os olhos do abade de Claraval pousados em mim. Com um tom frio, o patrono dos templários questionou meu pai: este é o primeiro dos vossos filhos?
Egas Moniz confirmou, com um aceno de cabeça, mas senti-me na obrigação de acrescentar uma informação mais precisa. Sou quase um ano mais velho do que Afonso Henriques. Contudo, o abade nada me disse, perguntando antes a meu pai: é verdade que Martinho de Soure foi padre no Mosteiro de Cárquere? Meu pai confirmou que, aquando jovem, o pároco professara naquela localidade. Só anos mais tarde rumara a Coimbra, onde se integrara no cabido da Sé até ser nomeado prior de Soure, vila onde ainda ministrava sacramentos, acompanhando a Ordem do Templo. Devíamos falar com ele mal cheguemos a Portugal, murmurei de súbito. Afonso VII disse a Chamoa que o padre Martinho de Soure conhecia um segredo do conde Henrique...
Bernardo de Claraval franziu a testa, intrigado, mas meu pai enervou-se, alegando que a minha cunhada não era de fiar. Faria de tudo para chegar a rainha, mas não possuía nem carácter, nem reputação intocável, para ascender a tal estatuto. Essa mulher é uma trapalhona!, rematou Egas Moniz. Em breve ocupará o lugar secundário que merece! O abade de Cluny olhou-o de esguelha, como se assim o avisasse do que esperava dele, e acrescentou que iria escrever uma missiva ao padre Martinho de Soure. Se ele sabe de algo que nos ilumine, terá de o revelar! Egas Moniz recordou então que o pároco de Soure fora o último confessor do conde Henrique, em Astorga. Sentindo a morte a chegar, o pai de Afonso Henriques mandara-o chamar. Mas, lembrou o meu progenitor com uma voz tensa e profunda, uma confissão era um segredo entre o padre e o pecador, nada transpirara dela. Enquanto o escutava, o abade de Cluny e Cister permaneceu preocupado, como se algo lhe pesasse na alma. E no final libertou uma frase misteriosa, que me gelou o sangue nas veias. Todos os homens têm segredos. O conde Henrique também os tinha.
Durante a viagem de regresso a Portugal, uma dolorosa e fria dúvida percorreu a minha alma. Saberia Egas Moniz mais do que dizia? Seria possível que aqueles homens, todos mais velhos e experientes do que eu, considerassem que alguns segredos dos pais não deviam tornar-se conhecidos dos filhos? E porque perguntara Bernardo de Claraval se eu era o filho mais velho de meu pai? Tê-lo-ia feito por mera curiosidade, ou queria certificar-se de que estava perante o outro envolvido na suposta troca de crianças? Meus queridos filhos e netos, foi a partir desta viagem que a minha sólida negação interior daquela historieta aberrante sofreu um fatal abalo. A intriga de Compostela iniciou o seu sinistro caminho dentro de mim, perturbando-me e desequilibrando-me. Assim começou o meu tormento, a minha via-sacra». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A Paz de Zamora. 1143. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. « A minha cunhada sorriu lisonjeada, enquanto Ibn Qasi nos apontava os almofadões e nos sentávamos à sua volta, exceptuando Mem, que discretamente ficara lá fora»

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A Paz de Zamora. Coimbra 1143
«(…) No entanto, ainda hoje me pergunto porque não aproveitou Chamoa esses dias de desilusão para revelar a intriga de Compostela. Porque preferiu uma artimanha mais primitiva? Se tivesse contado o que sabia, sabotaria o casamento com Mafalda da Sabóia. Mas não o fez. Qual jovem tola enganada pelo enamorado, preferiu enfiar-lhe um par de cor… a promover uma golpada política. Mulheres, vá um homem entendê-las...

Rio Arade. Agosto de 1143
Depois de entrar na foz do Arade, o pequeno barco dirigiu-se para a margem direita, lançando âncora perto da praia. Rindo, os quatro saltámos para a água, que nos dava pelos joelhos. Ao chegarmos à areia seca, dirigimo-nos a uma tenda, armada a cem passos, à volta da qual se viam vinte guerreiros cobertos por mantos castanhos, nenhum deles preocupado connosco, pois sabiam quem éramos. Pouco depois, Zaida saiu da tenda e olhou para Mem. Estava ainda mais bonita do que eu a recordava, envolta numa bela túnica azul-clara, ligeiramente transparente. Apanhara os cabelos escuros numa trança longa, que lhe caía pelas costas, e os seus olhos negros, como azeitonas brilhantes, revelavam uma excitação esfuziante e quase infantil. Saudou-nos com curtas vénias, mas não se conteve e abraçou o almocreve, emocionada. Mem querido... Este corou, disse que folgava em sabê-la bem e perguntou-lhe pela filha. A princesa moura anunciou que ela se chamava Maryam, nome de uma antiga poetisa de Silves. Depois, olhou para Chamoa e sorriu: sei que também haveis tido dois meninos! Comovida, enlaçou a minha cunhada, que, de olhos molhados, revelou os nomes dos rebentos mais novos, acrescentando: estou certa de que se dariam bem com a Maryam.
Soltando-a, Zaida olhou finalmente para Afonso Henriques e adiantou que talvez um dia as crianças de ambos se pudessem conhecer. O príncipe sorriu-lhe, mas logo perguntou por Ibn Qasi, de quem há muito ouvia falar. Zaida apontou a porta da tenda, por onde o príncipe entrou, enquanto ela me abraçava fortemente. Senti os seus seios apertados contra o meu peito e corei, ouvindo-a dizer: é bom ver-vos também, amigo Lourenço Viegas. A bela princesa era muito bonita e calorosa e mentiria se dissesse que não houve um dia em que a desejei. Nunca deixei que isso acontecesse, por amor à minha Maria, mas, se alguma vez a infidelidade me apanhasse, teria sido com Zaida. Entrai também, disse-me ela.
A tenda era espaçosa e existiam vários almofadões e esteiras pousados no chão, sendo que Ibn Qasi estava sentado num deles, mas logo se levantou para nos receber. De cara alegre e confiante, barba bem afiada e turbante na cabeça, cumprimentou-nos um a um, sorrindo a Chamoa e gabando a sua extrema beleza. É verdade o que Zaida me disse, sois um astro luminoso!
A minha cunhada sorriu lisonjeada, enquanto Ibn Qasi nos apontava os almofadões e nos sentávamos à sua volta, exceptuando Mem, que discretamente ficara lá fora. Após um bater de palmas do anfitrião, dois criados entraram pelas traseiras da tenda, cada um com duas travessas nas mãos. Em cima delas, vi regueifas, sopas, açordas, pedaços de atum e javaii, mel, alfaces e espinafres, azeitonas, bananas e cerejas, laranjas e arroz, bem como vinhos brancos e tintos. Com deleite, comemos e bebemos, ouvindo Ibn Qasi resumir-nos a história de Silves, famosa pelos seus poetas e pelas suas flores». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                     
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Paz de Zamora. 1143. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Julgo que foi nessa noite que deixou de admirá-lo. O príncipe de Portugal desistira dela. Que desprezo me tem...»

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A Paz de Zamora. Coimbra 1143
«(…) Nessa mesma tarde, encontrei Chamoa a passear pela almedina de Coimbra, acompanhada por seu filho Pêro Pais e pelo amigo deste, Gualdim Pais. Bonita como sempre, com os seus cabelos loiros apanhados num carrapito, a minha cunhada parecia melancólica. Quando lhe perguntei a que se devia o seu semblante carregado, respondeu: Lourenço Viegas, sabeis bem o que se planeia. Incomodado com a minha cara de falsa perplexidade, Pêro Pais, que por esta altura já tinha dezasseis anos, questionou-me: minha mãe será enviada para Tui antes ou depois do casamento de Afonso Henriques com Mafalda da Saboia? Tentei tranquilizá-los, nada estava ainda decidido, as negociações matrimoniais iriam iniciar-se. Mas Chamoa não se animou. Será que valho quatro onças de ouro por ano? Esclareci que tal pagamento teria sempre de ser feito, era assim que os reis ajudavam os papas, recebendo em troca as bênçãos deles, mas ela ripostou que não valia a pena criar-lhe ilusões. Enquanto caminhávamos de regresso ao castelo, enumerou os seus fortes opositores. Meu pai, que apesar de tudo estimava, defendia claramente uma ligação matrimonial com uma princesa estrangeira. E o arcebispo de Braga, João Peculiar, sempre moralista e hábil, só pensava em satisfazer o Papa. Por fim, também Gonçalo Sousa, o alferes, desejava o afastamento dela da corte, pois nunca esquecera, nem as atribulações do passado, nem a afronta em Lisboa. Ainda por cima, acrescentou Chamoa, Afonso Henriques deleita-se no colo quente da normanda Elvira Gualter! Não lhe chego...
De lágrima ao canto do olho, recordou-me de que dera a vida por Afonso Henriques e esta era a injusta paga. A sua infelicidade era evidente, mas também existia nela uma espécie de desilusão caprichosa, pois sonhara desde criança em ser rainha e essa fantasia esfumava-se. Se Lisboa tivesse caído, se não tivéssemos perdido a relíquia..., relembrou Chamoa, olhando para mim. Aqueles olhos verdes estavam a culpar-me pelo seu infortúnio. Fora eu quem deixara roubar o tesouro da Terra Santa, em Ourique. Se o houvesse guardado bem, o artefacto já teria sido entregue ao Papa, Afonso Henriques já seria rei e certamente não era obrigado a casar com uma princesa qualquer da Sabóia, podendo desposá-la a ela! Porque não atacamos Lisboa outra vez?, perguntou Pêro Pais.
Aquele filho faria qualquer coisa para ajudar a mãe, mas todos sabíamos que uma segunda tentativa de conquistar Lisboa era inviável. Talvez não, disse uma voz, nas nossas costas. Era o almocreve Mem, regressado da sua missão ao Su1, donde trazia resposta positiva. Ibn Qasi aceitara encontrar-se com Afonso Henriques. Ansiosa, Chamoa perguntou: Onde? Só na presença do príncipe é que Mem revelou as novidades, e logo ali ficou decidida uma ida secreta às terras de Silves. Apenas eu acompanharia o almocreve e o meu melhor amigo, mas no dia seguinte acabou por se juntar a nós mais um viajante. Já no leito conjugal, Chamoa consumira-se de desconfiança, paixão negra que tudo ensombra. Ides casar com Mafalda da Sabóla?, perguntara ela. Afonso Henriques voltou a negar a intenção, o que a entristeceu fortemente, pois já sabia o que ele aceitara na Sé. Julgo que foi nessa noite que deixou de admirá-lo. O príncipe de Portugal desistira dela.
Que desprezo me tem...
Furiosa, levantou-se, anunciando que ia dormir noutro quarto. Porém, Afonso Henriques obrigou-a a parar e logo ali aceitou que ela fosse connosco a Silves, pois desejava-a! E ela deu-se. Agoniada, mas deu-se.
Na noite seguinte, Chamoa, o príncipe e eu acompanhámos Mem, envoltos em mantos e capuzes. Cavalgámos até à povoação de Montemor, onde nos esperava um pequeno barco, no qual descemos o Mondego e entrámos no mar. Tanto tempo depois, íamos rever a bela Zaida e era óbvio o frenesim que assolava três dos viajantes. Afonso Henriques admitira casar com a princesa, Mem fora amante dela e Chamoa era sua grande amiga. Certamente porque essas memórias os agitavam, fui o primeiro a adormecer, enquanto a embarcação velejava, silenciosa. E obviamente dormi sem saber que, no espírito atormentado da minha cunhada, germinava uma enorme vontade de vingança». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                     
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O Assassin de Lisboa (1142-1143). Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Abraçada por ele e encantada com tais palavras, a minha cunhada sentiu-se subitamente eufórica. Afinal, com Lisboa e uma lança sagrada…»

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O Assassin de Lisboa 1142-1143
Lisboa, Abril de 1142
«(…) Já podeis descer, estais salvas!, disse. Com desenvoltura, fez um gesto com a mão, convidando-as a deixar o veículo em segurança, coisa que as três raparigas não fizeram, pois Ília comentou com as irmãs que ele, apesar de dotado com o punhal, não passava de um rapazola. Com uma careta brincalhona, insinuou: se tivesse mais uns anitos... Sem esmorecer, Pêro Pais sorriu e recuou uns passos, o que levou Chamoa a comentar com Mem: vai longe, este meu filho. De seguida, o almocreve anunciou o desejo de ir falar com Afonso Henriques, e os outros acederam. O grupo atravessou a porta da cidade de Coimbra e dirigiu-se ao castelo, onde só o almocreve e a minha cunhada entraram, aparecendo de rompante na sala onde eu estava, junto ao príncipe de Portugal. Mem!, exclamei.
Espantado mas contente, abracei o almocreve. Gostava genuinamente dele. E também Afonso Henriques o estimava, desvanecido um certo ciúme que sentira, pois aquele era o único homem que, primeiro do que ele, tinha filhado Chamoa e Zaida. A princesa propõe-vos um pacto com Ibn Qasi, anunciou ele. Mem contou que Zaida casara com o emir de Silves e esperava já um filho, novidade que levou Afonso Henriques a suspirar: podia ser meu... Irritada, Chamoa enxofrou-se: não vos chega o filho que me haveis feito? O meu melhor amigo pacificou-a, amava-a só a ela. Mas Zaida era especial. Piscando o olho à minha cunhada, acrescentou: minha amiga e vossa!
Enciumada primeiro, Chamoa encolheu os ombros, mas depois, para equilibrar a situação, sorriu ao almocreve e disse: que bom que estais cá, Mem querido... Afonso Henriques incomodou-se e, por conhecer bem a mulher com quem dormia, regressou ao tema inicial, afirmando que uma aliança com Ibn Qasi seria desnecessária. Numa missiva chegada dias antes, Bernardo de Claraval, abade de Cluny e patrono dos templários, informara-o de que estava a caminho uma frota de cruzados, a qual, antes de seguir para Jerusalém, iria ajudar os portucalenses a conquistarem Lisboa. Sabeis o que lá vi?, alvoroçou-se Mem. - A Lança de Cristo, nas mãos de Orimar, o chefe dos sinistros Mantos Vermelhos! Estais certo disso?, perguntei.
Ainda me sentia responsável pela perda da sagrada relíquia em Ourique e por isso impus aquela confirmação. Quando o almocreve o garantiu, um também entusiasmado Afonso Henriques rejubilou, pois, se conquistasse Lisboa e recuperasse a relíquia sagrada, o Papa seria obrigado a reconhecê-lo rei de Portugal! Os seus olhos brilhavam de alegria quando proclamou: primeiro, Lisboa, depois, Chamoa! Se conquistar a cidade, o Papa far-me-á rei, e eu vos farei rainha!
Abraçada por ele e encantada com tais palavras, a minha cunhada sentiu-se subitamente eufórica. Afinal, com Lisboa e uma lança sagrada, ele seria rei e ela rainha, as sombras do futuro iam desaparecer! Não seria necessário revelar a infame intriga de Compostela. Chamoa queria ser rainha e, no momento em que isso voltava a ser possível, não ia arruinar estupidamente aquela caminhada empolgante e épica em direcção ao trono de Portugal.
Primeiro, Lisboa, depois, Chamoa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                                                                                                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

O Assassin de Lisboa (1142-1143). Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Mas, de repente, viu Chamoa levantar-se num pulo, olhando para o embarcadouro onde atracava uma barcaça, enquanto exclamava: por Santiago, não posso crer!»

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O Assassin de Lisboa 1142-1143
Lisboa, Abril de 1142
«(…) A seu lado, Gualdim Pais aprovou a declaração de fidelidade do príncipe de Portugal com um aceno de cabeça, mas Chamoa perguntou se não tinham dúvidas, depois do que haviam ouvido sobre a intriga de Compostela. Ora, ora, isso é uma tolice leonesa!, indignou-se o filho. Quem vai acreditar numa patranha tão tosca? Chamoa lembrou que já dona Urraca e o arcebispo Gelmires haviam duvidado do príncipe aleijado, tal como agora fazia o imperador. Mãe!, interrompeu-a Pêro Pais. Esse diria qualquer coisa, todos sabem que vos quer filhar! A minha cunhada ficou tão surpreendida com as palavras dele que soltou uma gargalhada. Pêro, que dizeis? Sou vossa mãe! Com uma óbvia admiração, o filho ripostou-lhe: sei bem o quão bela sois e o quanto os homens vos desejam! Ela franziu a testa, lisonjeada como mulher, mas também ligeiramente preocupada como mãe. Dizem que sois um atrevido com as senhoras. É assim, Gualdim?
O amigo do filho corou, dividido entre o respeito que devia a Chamoa, que impunha uma confirmação do rumor, e a lealdade fraternal ao amigo, que exigia uma defesa da honra deste. Sobre isso ele nada sabe, antecipou-se Pêro Pais. O Gualdim defende a castidade, quer entregar-se a Deus. Disse-o sem maldade, não considerava um erro a escolha do amigo, mas deixou claro que era diferente. Orgulhosa, Chamoa aprovou-o: tendes a quem sair. Vosso pai e eu sempre fomos muito soltos! O filho sorriu, cúmplice e agradado. Mas, de repente, viu Chamoa levantar-se num pulo, olhando para o embarcadouro onde atracava uma barcaça, enquanto exclamava: por Santiago, não posso crer! A minha cunhada desatou a correr para o rio e Pêro e Gualdim seguiram-na, surpreendidos, até ela estacar à frente de uma carroça com dois jumentos, onde vinham um homem de cabelos claros e três raparigas morenas. Mem!, gritou Chamoa.
O almocreve saltou para o chão e ela abraçou-o demoradamente, com enorme carinho. Não contente com isso, colocou as mãos na cara dele e deu-lhe um beijo rápido na boca, o que espantou Pêro, Gualdim e as três raparigas. Mem!, repetiu Chamoa. Que saudades! O almocreve sorria, um pouco atarantado, enquanto ela o cobria de perguntas. Donde vinha? Por onde andara? E Zaida, onde estava? E quem eram aquelas raparigas? Tivemos de fugir de Lisboa, contou Mem. A grande cidade onde o Tejo desaguava estava nas mãos de um bando de facínoras, que matava cristãos e moçárabes. Por isso, trouxera com ele as três irmãs, Ália, Élia e Ília, órfãs de pai e mãe, cuja vida corria perigo. Os Mantos Vermelhos chegaram a atacá-las, justificou-se Mem. Chamoa, que o conhecia muito bem, comentou: sempre um bom pastor das ovelhinhas... O almocreve sorriu, mas logo perguntou: e vós? Sei que haveis tido um filho de Afonso Henriques! A minha cunhada suspirou, desalentada: sou feliz no presente, mas não no futuro.
Nesse momento, uma das raparigas moçárabes deu um pequeno grito, apontando para o chão e gritando cobra!, e logo Pêro Pais puxou de um punhal que trazia ao cinto. Pegando-lhe pelo cabo, atirou-o com a mão direita, num movimento rápido e preciso que atingiu a cabeça da pequena víbora, a qual ficou a estremecer, moribunda, enquanto as três irmãs aplaudiam. Que moço tão hábil!, gabou Ália. Que destreza de mãos!, apreciou Élia. Por fim, Ília, que descobrira o réptil, exclamou: e que belo rapaz!
Chamoa observou a forma firme e rápida como o filho recuperou o punhal. Era a arma que Gonçalo Sousa lhe devolvera em Arcos de Valdevez, depois de humilhar Fernão Peres Trava. Dera-a ao filho, pois fora do pai dele, Paio Soares. O rapaz limpou a lâmina e mirou a carroça, onde se multiplicavam os risinhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Em Nome D’El Rei. Luís Barriga. «Era uma obra grandiosa, profusamente ilustrada, reunindo o saber cartográfico existente nas diversas capitais da Europa. Há muito que o infante recorria à erudição estrangeira…»

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Início de uma vida épica
Lisboa. Maio de 1459
«(…) Aproveitando uma sombra, uma comitiva a cavalo procurava evitar a calmaria e pôr a conversa em dia. O chefe do grupo interrompeu o rol de preocupações devido às alterações que se antecipavam na vida da capital, ao vislumbrar o estrangeiro que, naquele momento, estava estático em pleno porto, rodeado de malas e criados. Dando ordens aos que o acompanhavam, aproximaram-se do sujeito com os cavalos pelas rédeas, apresentando-se e dialogando em véneto, a língua da Sereníssima República de Veneza. O diálogo foi rápido, as bagagens carregadas e, a cavalo, o distinto senhor foi conduzido pelas ruas empoeiradas da cidade. O Paço Real da Alcáçova, resguardado pelos muros do castelo, aguardava o visitante, não por ele propriamente, mas pela encomenda de que era portador. Stefano Travisan transpôs a porta de acesso à sala e deparou-se com um aposento ricamente decorado, de duas naves apartadas por arcos em ogiva com arestas em bisel, apoiados em colunas oitavadas. Aguardava-o uma figura trajada de negro, aspecto envelhecido, sentado numa confortável cadeira de encosto, rodeado dos seus homens. O veneziano sentiu um baque no coração por, finalmente, estar perante tão grandiosa personagem, de quem muito ouvira falar. O infante Henrique, duque de Viseu e grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo, herdeira da Ordem do Templo, por iniciativa d'el-rei Dinis I, criada, a 14 de Março de 1319, pela bula pontifícia Ad ea ex-quibus do papa João XXII, aguardava-o impacientemente, manifestando na expressão o anseio que o corroía.
Stefano Travisan vergou-se perante o seu anfitrião, estendendo a missiva que acompanhava a encomenda, dirigida ao grande Infante Henrique. O tio d’el-rei Afonso V recebeu e desenrolou o pergaminho com alguma dificuldade, a respiração acelerada, eventualmente pela excitação ou pelo cansaço físico. A leitura da carta trouxe-lhe alguns esgares, que pareceram sorrisos. A epístola encorajava o infante a não desistir das viagens de exploração, prestando um enorme serviço à cristandade. O silêncio era ensurdecedor, as moscas enchiam o ar de um zumbido incomodativo, só perturbado pela respiração pesada de Henrique, que se erguia a custo. O mensageiro de Fra Mauro terminava aqui a sua tarefa, sendo dispensado pelo infante, depois que recebeu o último pagamento respeitante à encomenda.
O enorme mapa-mundo foi desenrolado sobre a mesa que dominava o centro da sala, arrancando aos presentes expressões de espanto. Um sopro de admiração varreu o ar em volta do planisfério, atingindo Alvise Cadamosto, Diogo Gomes, António Noli, magníficos navegadores ao serviço do infante. A tábula rectangular, agora colorida por mares nunca navegados, prendia a atenção destes bravos marinheiros. O planisfério representava os continentes cercados de água, o topo do mapa correspondia ao sul, ali mesmo onde terminava a África e se pressagiava a passagem do oceano Atlântico para o Índico. O infante Henrique buscou as respostas às demandas que há muito o assaltavam e os seus olhos pousaram sobre as distantes terras das especiarias. As respostas vinham nas legendas que Fra Mauro colocara sobre os locais de interesse, sobre os quais havia algumas notícias.
Era uma obra grandiosa, profusamente ilustrada, reunindo o saber cartográfico existente nas diversas capitais da Europa. Há muito que o infante recorria à erudição estrangeira, sobretudo veneziana, florentina e genovesa, para aprofundar os seus conhecimentos de cosmografia. Pôde assim somar à perícia portuguesa a experiência de navegadores estrangeiros e, em conjunto, demandar a costa de África. A latitude das ilhas de Cabo Verde era, até este momento, o ponto mais a sul conhecido e alcançado pelos navegadores ao serviço do infante Henrique. As lágrimas marejaram os olhos do velho infante, a emoção avassalou-lhe o espírito e a voz saiu-lhe embargada: meus senhores..., estamos perante um excelso trabalho, que já reflecte o conhecimento adquirido pelos nossos mareantes. Vamos entrar numa nova fase!, afirmou, olhando nos olhos dos presentes, enquanto tentava esconder o contentamento. As descobertas encaminham-se agora para a derradeira etapa, atingir a Índia, resgatando o comércio das especiarias das mãos dos infiéis. Apontou para o ponto do mapa onde estava representada a passagem do oceano Atlântico para o oceano Índico». In Luís Barriga, Em Nome D’El Rey, Clube do Autor, Lisboa, ISBN 978-989-724-448-3.

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