Entrada de Filipe II de Castela
«(…) A 5 de Dezembro de 1580,
quase um ano depois da morte do cardeal Henrique, Filipe II de Castela, o
filho da portuguesa, enfraquecido por grave doença e pela morte da sua
quarta mulher, a sobrinha Ana de Áustria, deixou Badajoz e entrou em Elvas.
Elvas hesitou, mas não opôs resistência. Campo Maior, Estremoz e Vila Viçosa
também se entregaram. O duque de Bragança foi a Elvas prestar obediência.
Filipe convocou as Cortes do Reino de Portugal. Recomendava às vilas e cidades
que se não receba voto para procuradores..., em pessoa que nas alterações
passadas seguisse o Prior do Crato dom António. A 11 de Fevereiro de 1581,
o núncio apostólico Alexandre Riario, em nossa Corte (Elvas), ameaçava de
excomunhão os muitos religiosos, frades e clérigos, assim seculares como
regulares, que sem temor de Deus e em grande dano e perigo de suas almas e escândalo
de muitos deste reino de Portugal e dos Algarves, saindo de seus mosteiros e
igrejas, tomaram armas, e muitos deles, com deixar seu hábito regular,
assistiram nas guerras e perturbações deste reino em favor de dom António, Prior
do Crato. E ainda agora andam vagabundos. E alguns, estando nos seus conventos,
assistem e acompanham ao dito dom António, dando-lhe ajuda e favor com que as ditas
guerras podem perseverar e ir por diante. Daqui em diante, nas pregações e nas
confissões, não falem do estado do reino de Portugal, salvo aquilo que pertencer
à paz e quietação dele, para maior serviço de Deus.
A 27 de Fevereiro o rei espanhol
arrancou a caminho de Tomar. Acompanhavam-no os Grandes da Corte e a sua guarda
a cavalo. Tomou o caminho de Vila Boim para visitar a duquesa Catarina de
Bragança, sua prima, que lhe disputara a herança do reino. O duque veio ao encontro
do monarca. Filipe vinha no seu coche, falou-lhe da janela e mandou-o entrar. As
três casas do castelo de Vila Boim estavam ornamentadas com riquíssimas tapeçarias
de Arras e cadeiras de brocado e veludo. A duquesa pôs um joelho em terra mas Filipe
levantou-a fugindo-lhe com a mão. Falaram a sós. Cristóvão Moura segurava a porta.
A duquesa mandou servir, em mesas dispostas ao ar livre, muitos pratos de peixe
frito, pescada seca, bacalhau, azeitonas e muitos odres de bom vinho. A fruta era
melhor do que em Castela.
A 1 de Abril, o monarca entrou em
Tomar. Demorara-se em Portalegre, no Crato, em Ponte de Sor e em Abrantes. Em Tomar
juntaram-se os arcebispos de Lisboa, Braga e Évora, os bispos de Coimbra, Leiria,
Portalegre, Porto, Lamego, Viseu, Miranda e Elvas, menos o da Guarda que seguia
dom António, e o do Algarve, Jerónimo Osório, que falecera. A alta nobreza estava
em peso: os duques de Bragança, Barcelos e Aveiro; o marquês de Vila Real e o barão
de Alvito; os condes de Tentúgal, Castanheira, Portalegre, Vidigueira, Linhares;
os membros do Conselho de Estado; o chanceler-mor, os desembargadores e os escrivães
da Câmara; e os procuradores de noventa e quatro cidades e vilas.
Cortes
de Tomar
Lido pelo Estatuto de Tomar,
o país parecia disposto a virar a página de anos de perturbações e conflitos.
No entanto, se os representantes dos povos, admitidos pelo novo poder, aceitavam
o meio português Filipe I como rei de Portugal, não queriam perder a sua identidade
como nação, isto é, não queriam perder a sua língua, as suas instituições, as suas
leis, o seu governo, o seu império e, se possível, ganhar mais privilégios. Em
Tomar, todos pareciam filipinos mas o grosso da população das cidades e das vilas,
enquadrado pelos frades e pelos clérigos, chorava por dom António. E em Lisboa e
nas fortalezas das principais cidades e vilas onde estacionavam guarnições militares
castelhanas, estalavam motins com feridos e mortos. O conquistador general Sancho
Ávila escrevia ao rei Filipe: o Prior é tão querido como o foi o príncipe de
Orange em Flandres. Os trabalhos do parlamento iniciaram-se a 16
de Abril de 1581». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN
978-972-212-740-0.
Cortesia de Caminho/JDACT