terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «No entanto, a instalação de todas estas gentes levantaria muitos problemas do ponto de vista social: a absorção de toda esta força de trabalho era difícil e o seu crescimento constante, desvalorizava o seu valor perante os potenciais empregadores»

Cortesia de wikipedia

Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais
«(…) A mitologia da criminalidade, da boémia, dos mundos do fado, da prostituição e da marginalidade é construída pelos seus detractores com mais vigor do que pelos seus próprios agentes. Exagerando o perigo, desmesurando os seus potenciais efeitos, justificava-se a necessidade de amplos meios para os prevenir e reprimir. O discurso, muitas vezes inebriado no seu próprio estilo, cria um universo colorido e sedutor, de tão sombrios que se traçam os seus contornos. Não deixa de ser significativo que os primeiros passos de todo este processo surjam no momento em que se afirma entre nós um tardio romantismo literário. E que, mais tarde, a descrição e análise destes fenómenos se torne um recurso comum na literatura com pretensões realistas e naturalistas, lado a lado com o desenvolvimento do entusiasmo estatístico na caracterização dos protagonistas e dos comportamentos presentes na sociedade. Resta-nos, agora, tentar reencontrar os protagonistas desse mundo, e espaços e momentos em que era possível encontrá-los em acção, sempre na convicção que muitas das imagens que é possível recolher se encontram diversamente distorcidas pelos olhares lançados sobre a realidade, tantas vezes enleados em todos os preconceitos e juízos de valor que previamente os condicionavam.

Os Protagonistas
Quem eram então os protagonistas desse mundo marginal, com regras de conduta alternativas ao da sociedade burguesa ideal? Os criminosos e as prostitutas eram as figuras mais conhecidas, mas na mesma categoria poderiam ser incluídos os boémios, de todas as origens sociais, assim como os indigentes, os vadios e todos os outros que não se enquadravam numa representação harmoniosa do mundo. De todos eles vinha o perigo, mesmo quando a sua condição resultava das circunstâncias de vida da sociedade que os excluía.

O Criminoso
Um dos maiores receios burgueses no século XIX prendia-se com o comportamento das classes populares que, incapazes de gerar riqueza e atingir um nível de vida que se pudesse considerar razoável e respeitável, insuficientemente desenvolvidas do ponto de vista moral, optavam em muitas situações pela via do crime, pelos atentados à propriedade alheia, pela desordem e pelo desacato. No século XIX a associação que se estabelece entre as camadas populares e o crime é muito rápida e parece óbvia, em especial quando se recorre à estatística para fundamentar as teorias sociológicas que tentam estabelecer tipologias para os agentes da desordem. A nova sociedade industrial, se a muitos permite insuspeitadas possibilidades de ascensão social, não deixa de lançar muitos outros para as fronteiras da marginalidade.
O grosso dos indivíduos que constituíam as fileiras das hordas da transgressão, do crime, da decadência moral, dos comportamentos desviantes, provinha das massas populares, em particular nas grandes cidades que cresceriam descontroladamente no século XIX, sem plano e sem a criação das estruturas mínimas para o acolhimento das dezenas de milhar de famílias em debandada dos campos, à procura de um mundo novo de oportunidades nas cidades onde se encontravam os pólos de desenvolvimento industrial. No entanto, a instalação de todas estas gentes levantaria muitos problemas do ponto de vista social: a absorção de toda esta força de trabalho era difícil e o seu crescimento constante, desvalorizava o seu valor perante os potenciais empregadores. Desta maneira, largas fatias do proletariado urbano, que se fixava nas periferias das cidades, não conseguiria alcançar níveis satisfatórios de subsistência e teria de recorrer aos mais diversos expedientes para sobreviver». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «À luz do dia em que se passeiam os senhores, senhoras, meninas e meninos da boa sociedade, opõem-se as trevas da noite onde se movem boémios, prostitutas e outros marginais»

Cortesia de wikipedia

Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais
«Como qualquer outra época, o século XIX foi povoado por personagens que de modo mais ou menos sistemático desafiaram as suas regras de boa convivência social. Com rituais, espaços e horários relativamente específicos, ora claramente distintos dos da população comum, ora em intersecção com eles, estes eram indivíduos ou grupos em situações que, de algum modo, entravam em ruptura com os valores da sociedade estabelecida, mesmo quando dela faziam parte integrante. A sociedade burguesa que caracteriza o século XIX no mundo ocidental, construiu uma representação moralista do seu mundo ideal que estava em choque com muitas das condições do quotidiano de grande parte das populações que então habitavam os campos e cidades das nações ocidentais. As severas regras de conduta propostas pela nova elite politico económica, se eram adequadas ao modelo de vida de uma estreita faixa da sociedade, familiar, sóbrio, racional, avesso à desordem, ao excesso e ao protesto, revelavam-se claramente desenquadradas das condições concretas de existência de muitos indivíduos das mais diversas origens. Os comportamentos alternativos ao modelo ideal que necessariamente se verificavam, podiam com ele entrar em mais ou menos frontal confronto. Os que de forma mais evidente chocavam com as propostas burguesas seriam associados a um universo comum de transgressão e marginalidade. Se na representação burguesa da sociedade oitocentista se reconhece a facilidade e rapidez com que procedia à catalogação dos fenómenos sociais e na caracterização de tipos, não é menos verdade que muitos deles eram remetidos, em conjunto, para uma amálgama comum de comportamentos associados a uma patologia social, de contornos vastos e protagonistas variados. No seu interior podiam mover-se prostitutas profissionais ou ocasionais, perigosos criminosos de delito comum reincidentes ou pequenos larápios de circunstância, velhos boémios em permanente busca de novas experiências ou jovens burgueses em iniciação nos prazeres da vida, marialvas, fadistas, operários em busca de diversão, que todos eram identificados com um universo comum que era essencial circunscrever, já que se verificaria ser impossível erradicar por completo.
Se estes fenómenos e indivíduos já tinham uma natural tendência para ocorrerem e se moverem em espaços e horários próprios da vida das comunidades, a sociedade burguesa não deixaria de vincar e reforçar todos os sinais de diferenciação entre o seu mundo, o da Ordem, e o de todos que cediam à tentação na queda no abismo da desordem. As elites políticas, um pouco por todo o lado, como em Portugal, quando estabilizam o seu modo de vida, nascido da quase generalizada vitória da ideologia liberal burguesa e do seu modo de vida específico, procuram ordenar o mundo onde vivem. Ordenar os indivíduos, depois de uma prolongada época de convulsão (em virtude das sequelas de 1789), refrear-lhes os excessos, atribuir-lhes uma função útil na sociedade, que se não é tão firmemente ditada pelo nascimento como nos tempos do absolutismo de origem feudal, não deixa de obedecer a um desejo de harmonia e estabilidade social, abertamente avessa a manifestações de contestação.
De acordo com este sistema de valores, a criminalidade, a prostituição, a boémia seriam crescentemente apresentadas como protagonizadas por indivíduos à margem dos valores da nascente cultura burguesa, oitocentista e, mais tarde por afinidade, dita vitoriana, em virtude da cristalização dos seus fundamentos verificada na sociedade britânica da segunda metade do século. As chamadas classes perigosas viriam a ser objecto, durante o século XIX, de sucessivos esforços de marginalização compulsiva, na tentativa do seu afastamento dos circuitos onde circulavam as classes abastadas e elegantes. Esses grupos viviam quotidianos alternativos ao ideal, que entravam em colisão com as regras da sociedade liberal que sobre eles exercia o seu poder e autoridade, tentando afastá-los dos seus itinerários correntes, para o que lhes procurava determinar espaços e horários próprios, simétricos aos seus, num sistema dicotómico, redutor e que nunca corresponderia verdadeiramente a uma realidade que se tentava, esforçadamente, enquadrar em tipologias.
Embora associassem à irracionalidade, à desordem e ao caos a amálgama de comportamentos dos grupos sobre os quais consideravam necessário um firme exercício da autoridade, por viverem quotidianos alternativos, criminais e perigosos para a ordem social, os analistas da sociedade oitocentista esforçavam-se insistentemente por categorizá-los e idealizá-los quase tanto como a (falsa) harmonia em que imaginavam viver as camadas dominantes de sucesso. Num quadro mental extremamente maniqueísta tudo se parece desenvolver em oposições simples de compreender: à respeitável família burguesa em que os progenitores fazem uma divisão de carácter sexual das respectivas funções no emprego e no lar, reunindo-se placidamente ao fim do dia para um serão em comum com os filhos obedientes, opõem-se núcleos familiares irregulares, lares desfeitos, crianças abandonadas, produtos e agentes de muitos dos comportamentos desviantes detectáveis na sociedade. Às ocupações profissionais de sucesso, (re)produtoras de riqueza, opõem-se as artes duvidosas do crime, em que se vive à custa de expedientes e do alheio. À luz do dia em que se passeiam os senhores, senhoras, meninas e meninos da boa sociedade, opõem-se as trevas da noite onde se movem boémios, prostitutas e outros marginais. Em Lisboa, às artérias da cidade elegante, do Rossio, ao Chiado, ao Passeio Público, antes, e à Avenida, depois, aos jardins da Estrela e de S. Pedro de Alcântara, onde a iluminação pública começava a avançar opõem-se os becos e vielas dos mais velhos bairros da cidade (Alfama, Mouraria, Madragoa), onde se amontoam, em emaranhados sujos, escuros e labirínticos, as tabernas, bordéis, hospedarias e habitações de duvidosa frequência». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

sábado, 16 de setembro de 2017

Tudo Começou com Maquiavel. Luciano Gruppi. «Com efeito, o pensamento de Maquiavel se molda numa Itália onde havia fracassado a revolução das Comunas (cidades-Estado), num país fragmentado em muitos Estados pequenos»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Concepção do Estado em Marx e Engels
«Antes de chegarmos à teoria do Estado em Marx e Engels, gostaria de dar uma ideia sobre a maneira como se desenvolveu anteriormente essa teoria; isto é, uma ideia, embora sumária, das grandes concepções, com que deparou Marx: a concepção liberal e a concepção democrático-burguesa do Estado. Na pesquisa, devemos proceder sabendo que uma primeira definição só pode ser provisória e que, mais adiante, ela pode demonstrar-se completamente errónea, devendo ser mudada. Considerado isso, vamos partir de uma definição do que se entende como Estado. Na Enciclopédia Trecani lê-se: com a palavra Estado, indica-se modernamente a maior organização política que a humanidade conhece; ela refere-se quer ao complexo territorial e demográfico sobre o qual se exerce uma dominação (isto é, o poder político), quer à relação de coexistência e de coesão das leis e dos órgãos que dominam sobre esse complexo. Portanto o Estado é um poder político que se exerce sobre um território e um conjunto demográfico (isto é, uma população, ou um povo); e o Estado é a maior organização política que a humanidade conhece. Talvez seja útil analisarmos essa definição. Ela nos diz, que no Estado estão presentes três elementos: poder político, povo e território. É necessária a presença desses três elementos para que se possa falar de Estado. Nesse sentido, por exemplo, o Vaticano não é um Estado no verdadeiro sentido da palavra. É um Estado por convenção, no sentido de que dispõe do poder e de um território (embora pequeno, mas isso não tem importância), mas não tem um povo. Essa é apenas uma descrição externa do Estado, não é uma explicação da sua natureza intrínseca. Em nossa pesquisa, vamos partir do Estado moderno. O Estado moderno, o Estado unitário dotado de um poder próprio independente de quaisquer outros poderes, começa a nascer na segunda metade do século XV na França, Inglaterra e Espanha; posteriormente alastra-se por outros países europeus, entre os quais, muito mais tarde, a Itália. Como sempre acontece, só quando se formam os Estados no sentido moderno da palavra é que nasce também uma reflexão sobre o Estado. Desde o começo de 1500 temos Nicolau Maquiavel, que é o primeiro a reflectir sobre o Estado. No Príncipe de Maquiavel encontramos esta afirmação: todos os Estados, todas as dominações que tiveram e têm o império sobre os homens foram e são repúblicas ou principados. Também aqui o Estado consiste na dominação (poder) e o que está sendo frisado é a dominação sobre os homens. O que interessa é esse grifo do elemento da dominação, e de uma dominação exercida mais sobre os homens do que sobre o território. Gramsci, em toda a sua longa e cuidadosa reflexão sobre Maquiavel, afirma que ele foi o teórico da formação dos Estados modernos. Com efeito, o pensamento de Maquiavel se molda numa Itália onde havia fracassado a revolução das Comunas (cidades-Estado), num país fragmentado em muitos Estados pequenos, e que está a caminho de perder a sua independência nacional desde a invasão das tropas do rei francês Carlos VIII, em 1494. Maquiavel, reflectindo sobre a experiência de outros países (Espanha, Inglaterra e, principalmente, França), analisa a maneira como se deveria construir na Itália um Estado moderno e unitário, graças à iniciativa do Príncipe. Maquiavel, na verdade, é um republicano e um democrata, ligado à experiência da República de Florença, da Comuna florentina; ele afirma que nenhum príncipe, mesmo dos mais sábios, pode ser tão sábio como o povo. Apesar disso, ao escrever O príncipe, Maquiavel parte da consciência do facto de que na Itália existe uma situação de crise de todas as velhas instituições e que só se poderá reconstruir o Estado, renovar a sociedade, se existir o poder absoluto de um príncipe que encabece esse movimento. Em outra obra de Maquiavel, onde faz comentários à história de Roma, encontramos uma reflexão sobre a lenda de Rómulo e Remo: ele afirma que Rômulo fez bem em matar Remo, pois no acto de fundar, ou de reconstruir, ou de reorganizar um Estado só uma pessoa deve mandar. Na Itália, tratava-se de fundar um Estado e de reconstituir uma organização política da sociedade italiana. Para tanto, Maquiavel pensa no poder de um príncipe, embora ele próprio seja republicano e democrata, ligado emocionalmente à República de Florença. Uma fase importante da formação do Estado moderno foi a rebelião da Inglaterra, mais exactamente de Henrique VIII, contra o poder do papa. A Igreja da Inglaterra separou-se da Igreja católica e Henrique VIII foi proclamado chefe dessa Igreja anglicana. Estamos em 1531. Claro está que é puramente circunstancial a questão do divórcio de Henrique VIII de sua esposa espanhola, Catarina de Aragão, para casar com Ana Bolena; esse divórcio foi recusado pelo papa por uma motivação política, pois ele não queria perder a amizade com a Espanha, que era então um grande império possuindo territórios também na Itália. Na verdade, as condições estavam maduras para a proclamação da plena independência inglesa, da plena soberania do Estado; e do rei que personifica, representa e realiza a soberania do Estado, declarando-se também chefe da Igreja anglicana. Com esse acto firma-se que o poder do Estado é absoluto, que a soberania estatal é absoluta e não depende de nenhuma outra autoridade, isto é, que não vem da autoridade do papa; a soberania do monarca vem da sua própria condição de monarca, este não a recebe do papa. Proclama-se, assim, a absoluta autonomia e soberania do Estado». In Luciano Gruppi, Tudo Começou com Maquiavel, L&PM Editores, 1980, ISBN 978-852-540-500-5.

Cortesia de L&PME/JDACT

As prostitutas na História. Patrícia Pereira. «O médico vai dizer que a mulher não tem muito prazer sexual, ela tem desejo de ser mãe. Já o homem tem e, por isso, precisa da prostituta»

Cortesia de wikipedia e jdact

As primeiras prostitutas da história. Demóstenes
«(…) Havia bordéis públicos, pequenos bordéis privados e também casas de tolerância, os banhos públicos. Além disso, continuavam a existir as prostitutas que trabalhavam nas ruas. Em tese, o acesso aos prostíbulos públicos era proibido para homens casados e padres, mas eles encontravam meios de burlar a legislação. Rossiaud escreve que as prostitutas não eram marginais na cidade, mas desempenhavam uma função. Nem eram objecto de repulsão social, podendo, inclusive, ser aceitas na sociedade e casar-se depois que deixassem a vida de prostituta.
A liberdade sexual só era tolerada para os homens. As mulheres casadas e suas filhas, de boa família, deviam temer a desonra. Mas, de acordo com Rossiaud, essa liberdade masculina não sobreviveu à crise do Renascimento. Houve uma progressiva rejeição da prostituição, que revelava nas comunidades urbanas a precariedade da condição feminina. Lentamente, a mulher conquistou uma parte do espaço cívico, adquiriu uma identidade própria, tornou-se menos vulnerável, explica Rossiaud. E houve uma revalorização do casal.
Prostituição e violência aparecem pela primeira vez associadas, devido a brigas, disputas e assassinatos nos locais públicos. Autoridades municipais, apoiadas pela igreja, passaram a coibir a prostituição que, a partir de então, aparecia como um flagelo social gerador de problemas e de punições divinas, afirma Rossiaud. Um após outro, os bordéis públicos foram desaparecendo. A prostituição não desapareceu com eles, mas tornou-se mais cara, mais perigosa, urdida de relações vergonhosas, diz Rossiaud. Para o autor, foi o duplo espelho deformante do absolutismo monárquico e da Contra-Reforma que fizeram parecer decadência escandalosa o que era apenas uma dimensão fundamental da sociedade medieval.
A prostituição nas cidades é como a fossa no palácio: tire a fossa e o palácio vai-se tornar num lugar sujo e malcheiroso. Na modernidade, segundo Margareth Rago, autora de Os Prazeres da Noite, a prostituição ganhou feições diferenciadas. Isso porque as mulheres conquistam maior visibilidade e actuação na sociedade. Surgiram novas formas de sociabilidade e de relações de género, com a criação de fábricas, escolas e locais de lazer e consumo. Foram outros modos de vida, nos quais a mulher vai ter maior participação, diz Margareth. Apesar da modernização dos costumes, a sociedade ainda é conservadora em relação às prostitutas.
Nesse contexto, nasceu o feminismo e a mulher reivindicou o direito de trabalhar e de estudar. O discurso sobre a prostituição ficou forte nesse período e virou debate médico e jurista. Há um uso, não consciente, da prostituição para dizer que mulher direita não fuma, não sai de casa sozinha, não assobia na rua, não goza. O médico vai dizer que a mulher não tem muito prazer sexual, ela tem desejo de ser mãe. Já o homem tem e, por isso, precisa da prostituta, afirma Margareth.
De acordo com Margareth, é nessa época que as prostitutas passam a ser condenadas como anormais, patológicas, sem-vergonhas; uma sub-raça incapaz de cidadania. E a justificativa vai vir de teorias médico-científicas. O que acontece é que a medicina do século XVIII usa os argumentos misógenos de Santo Agostinho e de São Paulo, e fundamenta cientificamente o preconceito contra a prostituta, explica Margareth. Diz que a prostituta é um esgoto seminal, uma mulher que não evoluiu suficientemente. São pessoas que têm o cérebro um pouco diferente, o quadril mais largo, os dedos mais curtos. Criam toda uma tipologia.
Para a autora de Os Prazeres da Noite, podemos diferenciar a imagem que se construiu da prostituta na modernidade para a visão que temos dela hoje em dia: nos últimos 40 anos, mudou muito. O sexo está deixando de ser patológico, de estigmatizar o que pode e o que não pode. Não sei se acontecem mais coisas na cama de casados ou de uma prostituta. A revolução sexual transformou os costumes. Mas a sociedade ainda é conservadora e há forte preconceito contra essas mulheres». In Patrícia Pereira, As prostitutas na História, Jacques Rossiaud, A Prostituição na Idade Média, 1991, Margareth Rago, Os Prazeres da Noite, 2008, Revista Leituras da História, wikipédia, 2009.

Cortesia de RLKdaHistória/JDAC

As prostitutas na História. Patrícia Pereira. «Falando de modo geral, a prostituição na antiga Roma era uma profissão natural, aceita, sem nenhuma vergonha associada a essas mulheres trabalhadoras»

Cortesia de wikipedia e jdact

As primeiras prostitutas da história. Demóstenes
Livres no império romano
«(…) Sob os olhos de dezenas de homens e escondendo o rosto, a mulher grega é julgada, talvez por traição: motivo que estigmatizava esposas infiéis, que optavam viver como prostitutas. Tela de Jean-Léon Gérome (1861). Frei São Tomás de Aquino, por frei Angélico: em sua vasta obra filosófica e moral do século XIII, ele defendeu a existência da prostituição, argumentado esse ser um mal necessário.
Roma foi diferente da Grécia. Até ao início da República, a prostituição não era tão disseminada no território romano. Roma ainda era muito provinciana, fechada, explica Ronald Rosa, historiador e pesquisador do NEA/UERJ. A prostituição apenas se difundiu com a expansão militar do império romano e a conquista de escravos. Antes desta expansão, há indícios de que entre os primeiros romanos, que eram povos agrícolas, existia a antiga religião da deusa. Ela também afirma que, em tempos posteriores, a prostituição religiosa estava ligada à adoração da deusa Vénus, que era considerada protectora das prostitutas.
Após a expansão militar e territorial, os escravos eram os prostitutos, tanto homens quanto mulheres. E não havia estigmatização, não era algo mal-visto. Era normal o uso comercial do escravo para a prostituição. E, muitas vezes, eles usavam esse dinheiro para conseguir a liberdade. De acordo com Nickie, Roma foi uma sociedade sexualmente muito permissiva. Eles escarneciam de qualquer noção de convenção moral ou sexual e desviavam-se de toda a norma que houvesse sido inventada até então, afirma. A grande expansão urbana favoreceu o crescimento da prostituição. A vida era barata, e o sexo, mais barato ainda, diz a autora. Prostituição, adultério e incesto permearam a vida de muitos imperadores romanos.
Falando de modo geral, a prostituição na antiga Roma era uma profissão natural, aceita, sem nenhuma vergonha associada a essas mulheres trabalhadoras, comenta Nickie. A vida permissiva levava mulheres a rejeitar o casamento, a ponto de o imperador Augusto estabelecer multas para as moças solteiras da aristocracia em idade casadoira. Muitas registaram-se como prostitutas para escapar da obrigação. O sucessor de Augusto, Tibério, proibiu as mulheres da classe dominante de trabalhar como prostitutas. Diferente da Grécia, os romanos não possuíam e nem operavam bordéis estatais, mas foram os primeiros a criar um sistema de registo estatal das prostitutas de classe baixa. Isso resultou na divisão das prostitutas em duas classes, explica Nickie: as meretrices, registadas, e as prostibulae (fonte da palavra prostituta), não registadas. A maior parte não se registava, preferia correr o risco de ser pega pela fiscalização, que era escassa. Suprimir a prostituição e a luxúria caprichosa vai acabar com a sociedade.
Com o declínio do Império Romano, começou a Idade Média. Os invasores, guerreiros bárbaros, organizam a vida não em grandes cidades e sim em aldeias agrícolas, que não favoreciam a prostituição como a vida urbana. As artes civilizadas do amor, do prazer e do conhecimento, o erótico e os demais, desapareceram durante a Idade das Trevas. (...) a antiga tradição de uma sensualidade feminina orgulhosa e exaltadora desapareceu para sempre, afirma Nickie Roberts. A igreja cristã perpetua-se e reprime a sexualidade feminina, ao censurar a prostituição.
Apesar de condenada, a prostituição foi tolerada pela igreja, que a considerou uma espécie de dreno, existindo para eliminar o efluente sexual que impedia os homens de elevar-se ao patamar do seu Deus, explica Nickie. A igreja condenava todo o relacionamento sexual, mas aceitava a existência da prostituição como um mal necessário. De acordo com Jacques Rossiaud, autor de A Prostituição na Idade Média, pode-se afirmar, sem receio de erro, que não existia cidade de certa importância sem bordel». In Patrícia Pereira, As prostitutas na História, Jacques Rossiaud, A Prostituição na Idade Média, 1991, Margareth Rago, Os Prazeres da Noite, 2008, Revista Leituras da História, wikipédia, 2009.

Cortesia de RLKdaHistória/JDACT

As prostitutas na História. Patrícia Pereira. «Muitas prostitutas eram cultas e instruídas, e cumpriam o papel de entreter os líderes daquela sociedade»

Cortesia de wikipedia e jdact

As primeiras prostitutas da história. Demóstenes
«(…) Prostituta com papel de destaque na história de Cristo, foi, inclusive, canonizada pela igreja católica, Maria Madalena poderia ter-se tornado um símbolo na luta pela aceitação da actividade. Mas o que ocorreu foi o contrário: como personificou o estereótipo de prostituta arrependida, acabou por disseminar uma imagem negativa sobre a prostituição, ao reforçar a ideia de que é preciso abandonar a actividade para redimir-se dos pecados e ser perdoada por Deus. Durante a Idade Média, as prostitutas actuantes eram excomungadas da igreja católica. Mas as que se arrependiam eram perdoadas e aceitas pela sociedade. Houve até um movimento de conversão, em que a igreja estimulou fiéis a recuperar prostitutas e casar-se com elas. Também surgiram comunidades monásticas de ex-prostitutas convertidas, que receberam o nome de Lares de Madalena. Elas proliferaram pela Europa, tendo sido financiadas, na sua maioria, pelo clero. Além de Maria Madalena, a igreja enalteceu diversas outras prostitutas que salvaram as suas almas pelo arrependimento, como Santa Pelágia, Santa Maria Egipcíaca, Santa Afra e outras. O curioso é que nenhuma passagem na Bíblia afirma que Maria Madalena foi prostituta. Os textos sagrados a mencionam como pecadora, de quem Jesus expulsou sete demónios, mas não especificam qual seria o seu passado. Provavelmente, o que a levou a ser vista como prostituta foi a identificação com um relato de Lucas sobre uma pecadora anónima, descrita de forma a sugerir ser uma prostituta, que em certa passagem unge os pés de Cristo. O relato de Lucas, a respeito de tal mulher arrependida, antecede a citação nominal de Maria Madalena. No Ocidente cristão, a versão de que Maria Madalena seria essa mulher foi a mais difundida. No Oriente, a mulher anónima e Maria Madalena são vistas como pessoas diferentes.
Foi também Sólon quem, percebendo os lucros obtidos pelas prostitutas, tanto as comerciais quanto as sagradas, organizou o negócio, criando bordéis oficiais, administrados pelo Estado. Neles, havia grande exploração das mulheres, que eram praticamente escravas. Junto com os bordéis oficiais, muitas meretrizes independentes exerciam o seu comércio, apesar da legislação de Sólon. Pela primeira vez na História, as mulheres estavam sendo catalogadas, oficialmente. (...) Assim, de mãos dadas, nasceram as estatais e privadas.
Maria Regina Cândido, lembra que foi a pressão sobre a terra, com o grande aumento da população grega, que levou Sólon a criar os primeiros bordéis. Isso porque ele trouxe para a região estrangeiros ceramistas, com o intuito de ensinar à população excedente uma nova actividade, já que a agricultura não absorvia mais a todos. Para que os estrangeiros não molestassem as esposas e filhas de cidadãos gregos, ele criou um espaço de prostituição oficial na periferia da cidade, os bordéis, explica a coordenadora. Segundo Maria Regina, as prostitutas ficavam em frente ao cemitério, na região do cerâmico, onde estavam instaladas as oficinas dos ceramistas, e também na região do Porto do Pireu, onde eram chamadas de pornes, daí vem a palavra pornografia.
As prostitutas dos bordéis eram estrangeiras, trazidas para a Grécia exclusivamente para cumprir esse papel. Mas muitas mulheres gregas, depois de casamentos desfeitos por suspeita de traição ou outros desvios de comportamento, não viam outro caminho a não ser prostituir-se. Essas, estigmatizadas, juntavam-se às estrangeiras nos bordéis oficiais. As prostitutas do templo de Afrodite deixaram de ser vistas como sacerdotisas e viraram escravas.
Muitas prostitutas eram cultas e instruídas, e cumpriam o papel de entreter os líderes daquela sociedade. Cobravam alto preço pela sua companhia e podiam ou não ceder aos desejos sexuais do cliente. São as hetairae, amantes e musas dos maiores poetas, artistas e estadistas gregos, explica Maria Regina. As hetairae conduziam os seus negócios abertamente em Atenas, trabalhando independentemente tanto dos bordéis do Estado quanto dos templos. A prostituição sagrada também sobreviveu, embora timidamente, durante o período da Grécia clássica. Havia templos em toda a Grécia, especialmente em Corinto, dedicado à deusa Afrodite. As prostitutas do templo não eram vistas como sacerdotisas, eram tecnicamente escravas. Mas, por serem consideradas criadas da deusa, mantinham a aura de sacralidade e eram homenageadas pelos clientes. Demóstenes pagava caro por essas prostitutas. Ele ia de Atenas até Corinto só para ter relações sexuais com elas, diz Maria Regina». In Patrícia Pereira, As prostitutas na História, Jacques Rossiaud, A Prostituição na Idade Média, 1991, Margareth Rago, Os Prazeres da Noite, 2008, Revista Leituras da História, wikipédia, 2009.

Cortesia de RLKdaHistória/JDACT

As prostitutas na História. Patrícia Pereira. «Sólon, que governou Atenas na virada do século VI a. C., foi o principal deles, tendo institucionalizado os papéis das mulheres na sociedade grega»

Cortesia de wikipedia e jdact

As primeiras prostitutas da história. Demóstenes
«(…) A autora explica que a forma patriarcal de casamento, em que o marido literalmente é dono da esposa e dos filhos, aprofundou mais ainda o abismo entre a esposa e a prostituta, na medida em que as instituições religiosas e políticas masculinas foram crescendo. Ao mesmo tempo, as leis que cercavam as prostitutas e o seu trabalho tornaram- se mais opressivas, conta Nickie. Segundo ela, durante toda a história da Mesopotâmia e do Egipto, o sexo era ainda considerado sagrado e, apesar das leis, não havia uma moralidade puritana a estigmatizar as mulheres que se sustentavam vendendo sexo.
A Suméria criou a segregação feminina ao colocar em lados opostos a esposa obediente e a prostituta má. Júlio Gralha, lembra que a visão sobre as prostitutas da época é pouco documentada de forma escrita, mas pode ser inferida pelas imagens das iconografias. Pela análise da iconografia, a prostituta existia no Egipto e actuava de forma remunerada. Há contos iconográficos, cómicos, em que a prostituta é vista como poderosa, o homem não aguenta. Como aparecem o colar e outros símbolos ligados à deusa, elas são vistas como protegidas. A prostituição não era algo repulsivo ou condenado pela religião.

Um negócio organizado na Grécia
Com o passar do tempo, a independência sexual e económica da prostituta tornou-se uma ameaça à autoridade patriarcal. Por isso, a religião da deusa foi combatida pelos sacerdotes hebreus e, aos poucos, suprimida. Os rituais sexuais viraram pecados graves e as sacerdotisas, pecadoras. As principais religiões patriarcais que se seguiram, o cristianismo e o islamismo, reconheceram o impacto devastador do estigma da prostituta na divisão e regulamentação das mulheres. A Grécia antiga foi uma típica sociedade patriarcal. As mulheres não podiam participar da vida política e social. No entanto, como aconteceu a todas as sociedades antigas, os primeiros habitantes da Grécia foram povos adoradores da deusa, afirma Nickie. Os deuses masculinos só vieram mais tarde, por volta de 2.000 a.C., com os invasores indo-europeus. As duas culturas fundiram-se e produziram o híbrido que chegou até nós. Basta lembrar que Zeus, divindade suprema indo-europeia, casou-se com Hera, poderosa deusa sobrevivente do culto anterior. A negação total do poder da mulher na sociedade grega é decorrente do governo de uma série de ditadores homens. Sólon, que governou Atenas na virada do século VI a. C., foi o principal deles, tendo institucionalizado os papéis das mulheres na sociedade grega. Passaram a existir as boas mulheres, submissas, e as outras.

Símbolos às avessas
Maria Madalena, famosa prostituta arrependida da Galileia, representa que, para ser salva, a mulher precisa abandonar a profissão. Conhecida como a ex-prostituta da Galileia, Maria Madalena foi uma das mais fiéis seguidoras de Jesus Cristo. De acordo com a Bíblia, ela estava presente na sua crucificação e no seu funeral. Foi ela quem encontrou vazio o túmulo de Jesus, ouviu de um anjo que ele havia ressuscitado e foi dar a notícia aos apóstolos. Segurando duvidosamente um crucifixo, o quadro Madalena penitente, de Francesco Hayez (1825), mostra Maria Madalena fugindo da morte e culpada, por intermédio da religião». In Patrícia Pereira, As prostitutas na História, Jacques Rossiaud, A Prostituição na Idade Média, 1991, Margareth Rago, Os Prazeres da Noite, 2008, Revista Leituras da História, wikipédia, 2009.

Cortesia de RLKdaHistória/JDACT

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Alexandre VI manteve-se obstinado na sua posição, mas Della Rovere e os cardeais que o apoiavam pressionavam constantemente o rei para que afastasse da Santa Sé um papa tão cheio de vícios»

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«(…) Antes da chegada dos franceses, as batalhas tinham coreografado em grande medida os assuntos em Itália, dirigidas por condottieri rivais sem o mais pequeno desejo de infligir ferimentos nos mercenários seus adversários, que bem poderiam ser os aliados na época seguinte. Quando uma das partes era empurrada para uma posição indefensável (quer dizer, uma posição da qual não pudesse fugir rapidamente), admitia a derrota, e os dois comandantes rivais chegavam a um acordo mútuo satisfatório. O pesado exército medieval francês não conhecia essas subtilezas. As batalhas eram travadas com um vigor sedento de sangue e terminavam com frequência com o massacre de todos os que não conseguiam fugir. Era assim que a guerra era travada na Europa do Norte, e o exército francês estava bem treinado neste tipo de actividade, pois a Guerra dos Cem Anos, contra os ingleses, tinha acabado apenas umas décadas antes. Ao mesmo tempo, o exército francês levava para Itália uma arma nova: o grande canhão móvel. Os italianos dispunham de canhões mais pequenos, puxados por bois pesadões, e cujas munições consistiam em pequenas balas feitas de pedra, que geralmente se despedaçavam contra os muros sólidos das fortalezas. Os enormes canhões franceses estavam montados de modo a serem puxados rapidamente por parelhas de cavalos através do país, e disparavam enormes balas de ferro capazes de abrir buracos nos mais impressionantes muros das fortalezas. A medida que Carlos VIII marchava em direcção ao sul, as fortalezas situadas no seu caminho capitulavam uma após outra, muitas vezes sem ser preciso disparar um único tiro, tal era o terror que o exército francês infundia mesmo antes da sua chegada.
Ao papa Alexandre VI, em Roma, chegava a notícia de que o cardeal Ascanio Sforza tinha persuadido os seus aliados Colonna a fugir e a tomar os portos costeiros de Óstia e Civitavecchia em nome dos franceses. Roma ficava assim isolada das suas fontes de abastecimento. Quando Carlos VIII se virou para Roma, as forças dos Orsini desertaram também para o lado dos franceses. Alexandre VI compreendeu que a resistência armada seria inútil e enviou as poucas tropas que ainda lhe restavam para Nápoles, no Sul. No dia 14 de Dezembro de 1494, Carlos VIII e o seu exército entraram em Roma sem encontrar resistência. As suas tropas eram tão numerosas que as colunas de soldados de infantaria franceses, mercenários suíços e esquadrões de cavalaria levaram desde as 15 até às 21 horas a passar pelas ruas. À procissão aparentemente interminável seguiu-se o troar dos 36 canhões montados rolando por cima das pedras da calçada, arrastados por cavalos. As multidões pasmavam aterrorizadas ao velem os canhões de quase 2,5 metros, cada um pesando 2700 quilos, os seus canos de bronze a luzir à luz das tochas, as bocas negras suficientemente grandes para lá entrar a cabeça de um homem.
Ainda assim, Alexandre VI recusou-se a uma rendição pública. Junto com o cardeal César Bórgia, seu filho, fugiu através do túnel secreto do Vaticano para a velha e maciça fortaleza de Castel Sant'Angelo. Naquele momento, as ruas estavam em tumulto. Carlos VIII mandou montar cadafalsos públicos, para dissuadir os seus homens de actos de pilhagem, mas os soldados franceses e suíços tentaram trepar os muros barricados dos palazzi, em busca de bens para saquear. Nem a residência da mãe de César, Vannozza, escapou: os mercenários suíços conseguiram entrar e saqueá-la, levando 800 ducados. Por aquela altura, já o inimigo jurado de Alexandre VI, o cardeal Giovanni della Rovere, se juntara a Carlos VIII e encorajava-o a pedir que o papa se submetesse a um concílio que procedesse à reforma do papado. Nas palavras do historiador contemporâneo Guicciardini, para Alexandre VI, a ideia de fazer reformas era um pensamento tão terrível que não havia palavras que o descrevessem.
Alexandre VI manteve-se obstinado na sua posição, mas Della Rovere e os cardeais que o apoiavam pressionavam constantemente o rei para que afastasse da Santa Sé um papa tão cheio de vícios e abominações e elegesse outro. Por fim, Carlos VIII perdeu a paciência e mandou alinhar os canhões frente aos muros do Castel Sant'Angelo; mas, antes que fosse disparado um único tiro, uma grande secção de quase dez metros das muralhas antigas desabou sozinha, arrastando os soldados que guardavam as ameias e sepultando-os num monte de escombros. Mal a nuvem de poeira tinha assentado, já Alexandre VI concordava em reunir-se com Carlos VIII». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Alexandre VI recebeu mais reforços, mas estes dificilmente foram suficientes para resistir à forte máquina de guerra francesa, com 60 000 homens, que em breve iniciaria o seu avanço para sul»

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«(…) Ao iniciar o seu pontificado, o novo papa prometera uma reforma completa das finanças papais, um assunto caro ao seu coração, e, para espanto de muitos, estas reformas foram de imediato levadas a cabo. Depois, em 1494, Alexandre VI emitiu uma bula papal que teve possivelmente mais efeito em todo o mundo do que nenhuma outra, antes ou depois. Com a descoberta do Novo Mundo pela Espanha e as navegações portuguesas a passar além dos Açores, à volta de África e chegando ao oceano Índico, a perspectiva de um conflito entre estas duas poderosas nações cristãs tornou-se maior do que nunca. O problema foi resolvido pela bula de Alexandre VI, que traçou uma linha de norte para sul através do Atlântico, 100 léguas a ocidente das ilhas de Cabo Verde. Todas as terras que fossem descobertas a ocidente dessa linha pertenceriam a Espanha, as que fossem descobertas a leste pertenceriam a Portugal (esta linha seria mais tarde desviada para 370 léguas a ocidente dos Açores; embora a intenção fosse que o Novo Mundo pertencesse a Espanha, esta nova demarcação significou que, quando o Brasil foi descoberto, situava-se a leste da nova linha e, como tal, caberia aos portugueses; uma herança duradoura desta alteração é o facto de no Brasil se falar português, enquanto no resto da América do Sul o espanhol continua a ser a língua oficial).
A intervenção de Alexandre VI nesta disputa potencialmente desastrosa foi muito apreciada por ambas as partes, embora talvez mais pela Espanha, país ao qual a adjudicação do papa independente atribuía à partida a parte de leão. Como reconhecimento deste favor, o rei Fernando de Espanha estava na disposição de ignorar o seu desprezo pelo filho do papa, Juan Bórgia, o arrivista duque de Gândia. Fernando anunciou que estava preparado para receber Gândia na corte e até permitiu os esponsais de Gândia com a sua prima de sangue real María Enríquez. Mais ou menos por esta altura, Alexandre VI também conseguiu arranjar uma noiva real de prestígio para o seu filho Jofre, que ficou noivo de Sancia, filha ilegítima de Alfonso, filho do rei de Nápoles. O poder imediato dos Bórgia terminaria assim que Alexandre VI deixasse de ser papa, mas tendo os seus filhos casados com mulheres pertencentes a duas famílias reais, era evidente que Alexandre VI alimentava ambições maiores e mais duradouras para a família Bórgia. Com este objectivo, a crescente teia de influência do novo papa estendia-se por toda a Itália e além dela, desde os Sforza em Milão até aos Medici em Florença, do rei de Nápoles ao rei de Espanha.
No entanto, em 1494, os planos de Alexandre VI desmoronaram-se, quando Ludovico Sforza convidou Carlos VIII a entrar em Itália para reclamar o trono de Nápoles. O tosco rei francês era encarado com horror pelos sofisticados italianos; de acordo com Guicciardini: os seus membros tinham umas tais proporções que ele parecia mais um monstro do que um homem. Quando o seu exército varreu tudo no seu avanço para sul, começou a perturbar o equilíbrio precário da política italiana. Quando Pisa foi tomada, libertou-se de Florença. No meio das convulsões, Piero de Medici fugiu de Florença, a qual sofreu a humilhação de ser ocupada pelo exército francês. Antes de retirar o seu exército, Carlos VIII insistiu em que a Signoria assinasse um tratado de amizade, obrigando Florença a apoiar a causa francesa.
No entanto, tudo isto era uma humilhação de pouca monta quando comparado com o que haveria de se seguir. Para chegar a Nápoles, Carlos VIII e o seu exército precisavam de atravessar território papal. Alexandre VI convocou as poucas forças que tinha à sua disposição, muitas delas recrutadas nos exércitos das principais famílias de Roma, como os Orsini e os Colonna. Após um apelo desesperado aos seus aliados napolitanos, Alexandre VI recebeu mais reforços, mas estes dificilmente foram suficientes para resistir à forte máquina de guerra francesa, com 60 000 homens, que em breve iniciaria o seu avanço para sul». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

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Por Amor a uma Mulher Domingos Amaral. «Por essa razão, Taxfin tinha decidido vir em conjunto até Coimbra tomar a cidade cristã que resistia há tantos anos, e tentar matar os descendentes do imperador Afonso VI»

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Coimbra, Julho de 1116
«(…) A hostilidade entre os dois grupos de muçulmanos era evidente. Taxfin, tal como Zulmira e Abu Zhakaria, era um cordovês, um árabe da Andaluzia, enquanto Ali Yusuf e os seus berberes eram uns brutamontes dos desertos africanos, sanguinários e primitivos. Aquela era uma aliança forçada e desagradável, embora necessária. Para vencer os cristãos, os andaluzes precisavam dos berberes e da sua energia bélica. Os governadores das taifas, os walis de Córdova, Sevilha ou Badajoz, apesar de contrariados, aceitavam o jugo de Ali Yusuf, o califa de Marraquexe, mesmo que fosse apenas temporariamente. Por essa razão, Taxfin tinha decidido vir em conjunto até Coimbra tomar a cidade cristã que resistia há tantos anos, e tentar matar os descendentes do imperador Afonso VI, dona Teresa e seu filho Afonso Henriques. Ali Yusuf, que antes já matara o único varão do monarca cristão, queria aniquilar o resto da família. Taxfin era apenas um wali, e precisava ainda do califa, pois não tinha assim tantos homens, só em Córdova a sua palavra e as suas ordens eram aceites. Talvez por isso, o azedume dos andaluzes contra os berberes transformara a empresa numa tormenta. Havia quezílias permanentes e as escaramuças só se suspenderam quando chegaram aos arrabaldes de Coimbra e atacaram os cristãos das redondezas.
O intervalo pacífico durou pouco tempo: o califa tinha dúvidas sobre o ataque à cidade, e mais nervoso ficou quando Taxfin voltou triunfante de Soure, dizendo que a povoação fora arrasada. Cuidado, meu marido, Ali Yusuf é ciumento, murmurara Zulmira. Tinha razão: vinte e cinco dias depois de cercarem Coimbra, Ali Yusuf começou a dar sinais contraditórios. Falava em combates em Saragoça, em Valência, em Toledo, e Taxfin regressara à tenda da família, sempre acompanhado de Abu Zhakaria, a vociferar que o califa era um cobarde e um tolo! Devíamos matá-lo aqui, às portas de Coimbra! Pendurar a cabeça do estúpido berbere nas muralhas cristãs, antes de tomar a cidade! Zaida, de cinco anos apenas, olhou-o, pálida, enquanto Zulmira o repreendia levemente: esposo, não faleis assim, assustais as minhas filhas. Taxfin sorriu às meninas, colocou mais uma vez o dedo em frente à boca, e nessa noite adormeceu-as a contar histórias da serra Morena, do castelo de Hisn Abi Cherif para onde a família se retirava no Verão, e onde duas criadas os brindavam com os seus suculentos escabeches e os seus saborosos ensopados. Contudo, pouco antes de cair no sono, na cama e de mão dada com a sua amada esposa, reconhecera-lhe em surdina que desejava matar o califa, pois estava farto daquele aberrante ser. É cedo, Taxfin, contrapusera Zulmira.
No seu coração, ela também ambicionava o fim de Ali Yusuf, ainda mais do que Taxfin. Considerava-o um usurpador, e não aceitava as leituras literais e abusivas do Corão feitas pelos almorávidas, que classificava de odiosos e sanguinários! Ela e as filhas, tal como Taxfin e Abu Zhakaria, pertenciam a uma civilização diferente, eram os herdeiros da esplendorosa Córdova do passado. Incapaz de adormecer, Zulmira deixara o seu espírito divagar. Taxfin era o seu segundo marido, e o casamento deles, quatro anos antes, fora o início de uma longa caminhada, onde se aliavam o sangue real dela e das filhas, e a habilidade militar e política dele. No presente, já governavam Córdova, e sem pressas, mas também sem pausas, estavam a construir uma rede de alianças e cumplicidades para no futuro se rebelarem contra Ali Yusuf». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Por Amor a uma Mulher Domingos Amaral. «Fátima e Zaida espantavam-se a olhar para Taxfin, enquanto ele apoucava o califa e lhes sorria, colocando um dedo na boca e soltando um aviso: não repitam o que eu disse»

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Astorga, Maio de 1112 
«(…) Mas, desde a morte do imperador Afonso VI, as lutas na Hispânia eram permanentes, instáveis e confusas. O conde Henrique, mesmo sem ter o apoio de sua esposa, dona Teresa, alimentava desejos de grandeza que chocavam frontalmente com os da cunhada. Teria sido eliminado por causa disso? Nada era impossível naquela barafunda trágica que atingia a Península. Dona Urraca era má e traiçoeira, imprevisível e cobarde, uma mulher que só servia para baralhar os adultos e meter medo às crianças. Mandar envenenar o conde não surpreenderia ninguém, já tentara o mesmo com o próprio marido, Afonso I de Aragão. Sempre que me mandava pentear, meu pai relembrava também que fora ali, naquele quarto escuro e triste de Astorga, que o reino de Portugal começara a nascer. Lourenço Viegas, meu filho, a morte do conde Henrique foi o princípio de tudo! Com ele vivo, o príncipe Afonso Henriques não teria ficado órfão de pai; Paio Soares não se teria afastado para a Maia; os Trava não teriam dominado dona Teresa; Chamoa não casaria com quem casou e a relíquia seria encontrada! Curiosamente é também essa a conclusão da minha investigação sobre o desaparecimento da famosa relíquia, que fiz a pedido do meu melhor amigo, Afonso Henriques. Esta longa história começou ali, naquele quarto, com a morte prematura e criminosa de seu pai. Se ele fosse vivo, Portugal não teria nascido assim. Quem tem razão é Zaida, a princesa moura de Córdova, que me disse um dia: os órfãos de pai ou são brutos ou génios. Ou as duas coisas. Coimbra, Julho de 1116 À súbita retirada das tropas do califa All Yusuf estava a gerar uma desordem inesperada no acampamento muçulmano. Zulmira, à porta da sua tenda, de mão dada com as filhas Fátima e Zaida, parecia atarantada com o que via. Mantas e esteiras sacudidas à pressa, panelas de sopa a serem despejadas na lama, cavalos a trote cruzando-se com criadas de sacas à cabeça, dançarinas do harém de Yusuf, seminuas e aos gritinhos, à procura dos alifafes e dos colares no meio do pó, estandartes antes orgulhosos que eram atirados para o chão com desleixo. Um caos patético e perigoso envolvia-as. A notícia de que o califa de Marraquexe estava febril e indisposto, talvez doente, propagara-se como fogo na erva, e um receio geral contaminava os espíritos daquela multidão acéfala e desnorteada. Mãe, de quem fogem?, perguntou Fátima. Zulmira suspirou: a desorganização era um hábito do califa almorávida. Ali Yusuf devia a força mais ao número dos seus homens do que ao engenho das suas estratégias. Aquele imenso exército de milhares de almas movera-se pelas estradas das taifas de Córdova, Sevilha e Badajoz de forma lenta e custosa. Faltavam alimentos, água, ordem e moral aos berberes arrogantes que tinham vindo de África e que só a brutalidade qualificava. Taxfin, marido de Zulmira e governador de Córdova, queixara-se permanentemente durante a viagem. Estúpido berbere! Ditos daqueles, só os libertava quando estavam na tenda da famí1ia, tendo apenas o fiel Abu Zhakaria como testemunha. Fátima e Zaida espantavam-se a olhar para Taxfin, enquanto ele apoucava o califa e lhes sorria, colocando um dedo na boca e soltando um aviso: não repitam o que eu disse». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2. 

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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Disse chamar-se Julião e Johann animou-se ao constatar que o homem conseguia realmente entender algumas palavras isoladas de latim, embora nunca tivesse aprendido tal língua»

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«(…) Nada mais lhes restava do que seguir viagem. Apanharam outro susto no mar traiçoeiro da costa galega, ao dobrar o Cabo Finisterra. Deus poupou-os contudo a nova tempestade e puderam atracar nas margens do rio Tambre, perto de Santiago de Compostela, aonde se dirigiram em peregrinação, a fim de visitar o túmulo do Apóstolo. Rezaram, assistiram às missas..., e eis que se dá algo, por muitos considerado um milagre: aos poucos, iam-se-lhes juntando os outros barcos. Quando a 15 de Junho partiram em direcção a Portugal, a armada estava quase completa. No dia seguinte, avistaram a foz do rio Douro. Debaixo de um sol radioso, uma extensão infinita de praias estendia-se de Norte a Sul. A cidade do Porto situava-se a menos de uma légua de distância, mas no seu cais apenas havia lugar para as naus dos comandantes e dos prelados. As restantes embarcações tiveram que atracar na zona da foz, a de Konrad ancorou numa pequena enseada, a meia hora de marcha do Porto. Arnulf de Aarschot, Christian de Gistell, os comandantes ingleses e franceses e os clérigos foram recebidos pelo bispo, Pedro Pitões, que regia sobre a cidade.
Sentado sobre a sua manta, ao lado do prostrado Johann, Konrad olhava com inveja para os companheiros de viagem que se preparavam para ir dar uma volta à cidade. Gunther, um ruivo baixote mas encorpado, perguntou-lhe: não queres vir? Não precisas também de divertimento? O Johann está tão mal, suspirou Konrad. Passou o dia enjoado, sem comer nada. E logo hoje custa-me deixá-lo sozinho. É o dia do seu aniversário. Como é que sabes isso?, admirou-se o ruivo. O meu pai fazia questão dessas coisas. Ah é verdade. A gente até se esquece de que éreis filhos de um cavaleiro. E, já agora, quantos anos faz o fedelho? Dezasseis. Mais uma razão para que venhais os dois connosco! Ele não está em condições de... Sabes do que é que ele precisa? De uma mulher! Nem imaginas com que velocidade ele depois desabrocha. Se calhar tens razão,  replicou Konrad, com um sorriso. Já vai sendo tempo. Levanta-te, rapaz!, bradou Gunther. Não posso. Estou doente. E eu conheço o remédio que te há-de curar!
Anoitecia, quando Konrad, Johann, Hadwig e Gunther se puseram a caminho da cidade. O tempo ameno dispensava capotes, bastavam as suas túnicas de linho, que, por cima das calças, lhes chegavam aos joelhos. Como era costume, levavam punhais enfiados nos cintos. Os cabelos castanho-claros de Konrad caíam-lhe pelos ombros, os outros três usavam-nos curtos. As colinas eram cada vez mais altas, tanto numa como na outra margem, o Douro revelava-se um lutador que criara o seu próprio caminho por entre o desfiladeiro. Pescadores trabalhavam nas suas redes e conversavam à porta das suas cabanas. A passagem dos estrangeiros, chamavam o resto da família, para que todos pudessem lançar um olhar aos cruzados vindos de longe. Depois de mais uma curva, a cidade surgiu no cimo de um cerro de uns duzentos e cinquenta pés de altura, rodeada pelas muralhas. Também do outro lado do rio se via uma povoação, com o castelo no alto e várias casas espalhadas pelas escarpas. As construções escuras de granito junto ao cais do Porto não pareciam convidativas, mas, assim que os quatro entraram numa das tabernas, envolveu-os uma atmosfera hospitaleira. Não só os locais se divertiam por lá, também muitos dos estrangeiros. Apesar do entendimento ser difícil, estabeleciam-se conversas entre os homens de várias nacionalidades. Os locais estarreceram quando Hadwig surgiu, provavelmente nunca tinham visto cabelos e sobrancelhas tão claros. Os quatro sentaram-se à volta de uma mesa e o empregado, um rapaz magro de caracóis escuros, desejou-lhes as boas-vindas e serviu-lhes vinho tinto. Todos se apressaram a esvaziar as suas canecas, excepto Johann, que parecia um condenado à morte sentado à mesa da sua última refeição. Um portuense aproximou-se, pois a mesa deles era das poucas em que sobrava uma cadeira. O indivíduo era atlético, embora não tão alto como Konrad e Hadwig. Usava os cabelos pretos curtos e um bigode farfalhudo dominava-lhe o semblante. Sentou-se e começou logo a conversar com eles; a bem da verdade, gesticulava mais do que falava. Disse chamar-se Julião e Johann animou-se ao constatar que o homem conseguia realmente entender algumas palavras isoladas de latim, embora nunca tivesse aprendido tal língua». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

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A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Todavia, dos quase duzentos barcos que haviam partido de Inglaterra, só lá chegaram cinquenta. Que era feito dos outros?»

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«(…) Debruçado sobre a balaustrada da nau, Johann vomitava mais uma vez. Konrad, que o observava preocupado, sentiu uma mão sobre o ombro e ouviu a voz de Hadwig: não te apoquentes, estamos a chegar. E pensar que optei pela rota marítima, com medo de que ele não aguentasse a viagem por terra. O pior já passou, lembrou o companheiro, cujo cabelo e sobrancelhas eram tão louros, que pareciam brancos. Até já dobrámos esse Cabo a que chamam de Finisterra. E o Mar Mediterrâneo será mais calmo. Espero bem que sim. Desconfio que nenhum de nós sobreviveria a uma segunda tempestade como a que enfrentámos no Golfo da Gasconha. Johann quase não se aguentava nas pernas e os dois ajudaram-no a alcançar a manta que lhe servia de cama. Se ele ao menos tivesse um tecto sobre a cabeça..., queixou-se Konrad. Só o capitão possuía aposentos fechados, todos os outros se arrumavam pelo convés, a não ser que tivessem de remar, debaixo deste, quando o vento não soprava de feição. Ainda bem que a cidade do Porto não é longe, comentou Konrad. Por mais que me custe ter que fazer uma pausa nesse Portugal, ficarei contente pelo rapaz. A viagem, na nau abaulada de um único mastro, não corria como ele imaginara. Além do desconforto e dos perigos que haviam enfrentado, faltava espaço para se treinarem no combate. O comandante Arnulf de Aarschot havia reunido os seus homens em Colónia, aos quais se juntaram muitos peregrinos e voluntários, como Konrad, Johann e Hadwig. Este era um rapaz bem constituído, de cabelo e sobrancelhas quase brancos e olhos de um azul desmaiado. Pertencia à baixa nobreza, o pai dele tinha, nas suas dez jeiras de terra, alguns camponeses a seu cargo. Mas Hadwig era o filho mais novo, sem direito a herança, e tentava a sua sorte nas cruzadas, como tantos outros. Partiram a 27 de Abril, navegando Reno abaixo, até à foz, na costa flamenga. Aí, juntaram-se-lhes franceses, frísios e flamengos, dirigidos por Christian de Gistell, de maneira que já eram sete mil quando se dirigiram ao porto inglês de Dartmouth. Os ingleses estavam há anos envolvidos numa guerra civil e entre eles não houvera muita pregação pelas cruzadas. Clérigos e comandantes locais tinham, ainda assim, entre combatentes, monges e outros peregrinos, conseguido reunir oito mil homens.
Apesar dos violentos enjoos, Johann arranjava tempo para impressionar os companheiros de viagem com os seus conhecimentos de latim. Dizia-se que os hispânicos falavam uma língua parecida e muitos interessavam-se pelas lições do rapaz. Konrad achava que era uma perda de tempo: não estais bons da cabeça, se pensais que vamos mesmo lutar por esse rei português! Na verdade, a maioria dos cruzados também não se entusiasmava com a ideia, mas os seus comandantes tencionavam, pelo menos, ouvir quais as recompensas que os portugueses lhes destinavam. Konrad esperava naturalmente que as negociações com Afonso Henriques falhassem. Ele queria alcançar a glória ao lado do seu rei. Só assim poderia regressar em triunfo à sua terra e vingar-se em todos aqueles que tinham virado as costas a ele e ao irmão. Em fins de Maio, enfrentaram uma grande tempestade no Golfo da Gasconha. Durante esses momentos infindáveis de terror, em que a nau, fustigada pelos ciclones e chuvas, mais não era do que um joguete nas mãos de ondas gigantescas, Johann limitava-se a rezar, encolhido a um canto, e Konrad maldizia a sua sorte, arrependido de não ter deixado o miúdo a salvo no convento. Deus parecia, no entanto, ter ouvido as preces do rapaz: a 30 de Maio aportaram sãos e salvos em Gijón, no norte da Hispânia. Todavia, dos quase duzentos barcos que haviam partido de Inglaterra, só lá chegaram cinquenta. Que era feito dos outros?» In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A Cruz de Esmeraldas. Cristina de Torrão. «Na verdade, Amir agradava-lhe tanto, que ela se achava incapaz de ter que esperar até Junho para se casar»

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«(…) O rosto de Rashid era inconfundível: os olhos esverdeados, que brilhavam no meio da pele escura, perturbavam e encantavam ao mesmo tempo. Mais ninguém na família fora presenteado com um olhar daqueles, só a mãe dele, Tarube, tivera um avô com a mesma cor de olhos exótica. Rashid trouxe-a até à mesa. Também os outros lhe dirigiram semblantes amigáveis, excepto Zubaida, que mal parecia dar conta do que se passava à sua volta, e naturalmente Abu, o irmão mais velho, que, ao contrário de Rashid, nunca desenvolvera simpatia por Aischa. A jovem contudo não se incomodou, pois estava habituada, tanto à apatia da mãe, como à animosidade de Abu. Arriscou um olhar a Amir e, perante a avidez que transparecia no rosto do noivo, deu graças a Alá por o véu lhe esconder o rubor que se lhe apoderava das faces. De resto, o rapaz agradou-lhe: não obstante a ansiedade com que a fitava, o brilho dos olhos negros espelhava a bondade do seu coração.
Aischa sentou-se entre Rashid e o pai. Achava-se incapaz de proferir palavra, enquanto se conversava sobre os preparativos do casamento. Assim que Malik Ibn Danaf considerou o momento oportuno, dirigiu-se-lhe com as palavras: autorizo Amir a admirar a tua beleza! Ela desfez-se do véu, na esperança de que ninguém notasse a tremura das suas mãos. Os caracóis negros espalhados pelos ombros eram encantadores, mas o rubor regressara com mais intensidade às faces delicadas e as longas pestanas cobriam o brilho dos seus olhos, onde se reuniam vários tons de castanho, como numa pedra de âmbar. Gerara-se silêncio e ela perguntava-se se estariam à espera que dissesse alguma coisa. Porém, o medo que tinha em desiludir Amir mantinha-a muda, quase a asfixiava. De repente, o rapaz falou: ouvi dizer que Aischa canta muito bem e gostaria de a ouvir. Certamente, respondeu o pai dela e mandou vir um alaúde. A moça sentiu um certo alívio, sabia que a sua voz agradava. O alaúde chegou-lhe às mãos e ela cantou um muwashshahat, um género musical andalusino baseado na repetição de estrofes. Estas tanto eram cantadas no árabe regional de al-Andalus, como no dialecto latino da região. A melodia cantada pela moça envolveu os versos do poeta Ibn Bassâm de Shantarin:

Porque é que não sentes piedade
por quem te devota tanto amor?
Por mais que te cante o meu fervor
vais-te, deixas-me o gosto da saudade.
Ó dona única da consolação,
tem dó! Não tarda a separação.

No fim, foi tão elogiada, que os seus lábios se abriram num sorriso, mostrando os dentes cintilantes. A descontracção permitiu-lhe demorar-se no rosto de Amir. Os cabelos que o turbante dele cobria não brilhariam dourados ao sol, mas já há algum tempo que ela não ligava a fantasias dessas. De volta ao recolhimento do seu quarto, Aischa regozijava-se com o facto de lhe agradar o noivo que o pai escolhera para ela. Na verdade, Amir agradava-lhe tanto, que ela se achava incapaz de ter que esperar até Junho para se casar». In Cristina Torrão, A Cruz de Esmeraldas, Edição Ésquilo, 2009, ISBN 978-989-809-261-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Por Amor a uma Mulher Domingos Amaral. «O alferes, leal comandante das tropas do conde, era incapaz de aceitar que aquele homem de quarenta e seis anos, e ainda na força da vida, fosse abatido de uma forma tão impiedosa»

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Astorga, Maio de 1112
«(…) O alferes agitou-se, engolindo em seco: ele falou convosco?, perguntou. Depois de pedir a Egas que lhe guardasse a sua grande espada, que um dia teria de entregar ao filho, o conde Henrique apenas dirigira algumas palavras a este último, em francês, pois era nascido na Borgonha e nunca aprendera bem a língua do Condado Portucalense. Pediu ao menino que lutasse contra os mouros, defendesse as suas terras. No fim, falou em Jerusalém, no túmulo de Cristo... Não o compreendi, já estava a finar-se, contou Egas Moniz. Observou Afonso Henriques, que permanecia sentado no colchão e de olhos muito abertos, mirando o corpo inerte do pai. Pobre criança, murmurou. A meio da tarde, perto de soçobrar, o conde perguntara pelo alferes. O que vos queria ele?, questionou Egas. Paio Soares ia responder, mas nesse momento a porta abriu-se e por ela entraram a rainha dona Urraca e sua irmã, a condessa dona Teresa. Com os olhos brilhando de uma curiosidade assaz suspeita, a primeira aproximou-se, e Egas Moniz vislumbrou um sorriso instantâneo de contentamento, que logo desapareceu, coberto por uma cara compungida, falsa mas solene.
Que alma sofredora. Desde que meu pai o baniu de Toledo, nunca mais sossegou – sentenciou, Urraca. Atrás dela, Teresa declarou: tenho de o levar, será enterrado em Braga, era o seu desejo. A rainha suspirou e depois perguntou a Paio Soares: haveis acompanhado o conde desde que voltou da Terra Santa? Nervoso, o alferes bateu as pestanas e declarou que assim era. A rainha quis saber se ele ouvira falar de uma relíquia trazida de Jerusalém, que o conde teria escondido. Paio Soares, cada vez mais aflito, voltou a negar, e então Urraca avisou-o: cuidado, alferes, a mentira tem a perna curta. Tal como a afronta. Olhou de soslaio para o morto e depois deu meia-volta, seguida de dona Teresa. Ao ver o pequeno príncipe, perguntou à irmã: é o vosso aleijadinho? Dona Teresa atrapalhou-se: a deficiência física de Afonso Henriques, que viera ao mundo com as pernas tortas e definhadas, embaraçava-a. Junto à cama, um incomodado Egas Moniz exclamou: está muito melhor, até já corre! Urraca limitou-se a murmurar, como se dele tivesse imensa pena: coitadito. Depois, saiu do quarto, enquanto Teresa mirava o filho com um ar ressentido, nem lhe retribuindo o sorriso que o menino lhe abriu, antes de a ver partir também. Egas Moniz, em voz baixa, comentou, desolado: pobre príncipe. Nem pai, nem mãe...
Paio Soares, com os caracóis morenos despenteados e aina molhados da chuva, abanou a cabeça, pesaroso, como se carregasse na alma todas as desilusões do mundo. Desde esse dia, dizia-se, passou a ter pesadelos, temendo que dona Urraca o mandasse prender e torturar. Vinte anos mais tarde, meu pai, Egas Moniz, que Deus o guarde, sempre que me via desgrenhado, exclamava: Lourenço Viegas, meu filho, pareces o Paio Soares quando chegou a Astorga, no dia da morte do conde! Por vezes, são estes detalhes que as pessoas melhor recordam, e assim era com meu pai, embora naquela noite em Astorga ele soubesse perfeitamente que o grotesco desalinho dos caracóis morenos de Paio Soares não se devia a desleixo, pois até era um homem vaidoso, mas sim à chuva e, sobretudo, à turbulência das suas emoções. O alferes, leal comandante das tropas do conde, era incapaz de aceitar que aquele homem de quarenta e seis anos, e ainda na força da vida, fosse abatido de uma forma tão impiedosa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/JDACT