domingo, 28 de maio de 2017

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Recuando no tempo, o rei viera de Elvas para Salvaterra, daqui para Almada, escolhendo esta vila por ser cerca de Lisboa e a1i encontrar o sossego que tanta falta lhe fazia»

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«(…)
Morre o corpo fica a fama
Porque me fostes tão infiel?, quase implorou o monarca Fernando I quando a esposa entrou no aposento de Almada, onde o rei se refugiou para esconder o deplorável estado físico que a doença lhe provocava. Senhor, não é hora de falar de infidelidades, respondeu-lhe a rainha, sem vontade de alargar a conversa. Alguma vez vos abandonei? Isso é que conta. Não estive sempre do vosso lado? Sabeis bem o que digo. São infidelidades, senhora, não são opções, insistiu Fernando, sem já articular bem as palavras. Avisado pelo sofrimento, desde há algum tempo que o corpo do rei começara a mirrar, as dores e a febre a tomarem conta do sossego, até que viu nos sinais o fim dos seus ainda jovens dias. Após anos de frustrações militares e diplomáticas, Fernando I, cedendo ao sabor das contingências políticas e da fraqueza de carácter, estava agora no ocaso da sua existência a ser devorado pela doença, arrancando-lhe do fundo das entranhas manchas de um esverdeado pegajoso. Prostrado, estando acompanhado no aposento que lhe servia de enfermaria, na verdade era o homem mais solitário do mundo. Há meses que fugia do contacto do povo, dias e dias que não queria ver ninguém do seu serviço, a não ser as pessoas fundamentais que o ajudavam a sobreviver.
Recuando no tempo, o rei viera de Elvas para Salvaterra, daqui para Almada, escolhendo esta vila por ser cerca de Lisboa e a1i encontrar o sossego que tanta falta lhe fazia. Não é que a vila da margem esquerda do Tejo fosse um sanatório, não era isso. Escondia-se do mundo, encobria o belo aspecto que tivera, não queria que lhe vissem a carcaça ressequida de tanto vomitar as entranhas. A vida, para ele, resumia-se agora a pequenos períodos de vitalidade, pois já nem os chás nem as mezinhas tinham o efeito soporífero que os físicos desejavam. Sem vigor, sem esperança, em Setembro de 1383 decidiu voltar ao paço, a Lisboa que tanto amava, onde esperaria que a morte lhe fosse suavizada por um não sei quê de espiritualidade. Uma morte santa, talvez pensassem os seus servidores. No século XIV havia muito disto. Ainda não passara meio século desde que a Peste Negra derrubara um terço das almas na Europa conhecida, um castigo da divindade sobre os pecadores, por assim dizer uma ideia difundida pelos próceres mais sectários da Igreja. É que as mortes podiam ser invocações do Inferno ou requisições de Deus, e este rei, pelo seu percurso de vida, embora pecaminoso nos costumes, não deixava de ser uma alma inocente.
Em Almada, mestre Gil, o principal cirurgião do rei, perante a gravidade da doença, requisitou os bons ofícios de mestre Mohamad, um famoso cirurgião mouro, que não fez mais do que confirmar o que o português Gil afirmara. Sua majestade sobreviverá o tempo que os deuses deixarem. Em vista do estado crítico que o contaminava, já mal respirava e da sua garganta só saíam bocados dos pulmões embalados em viscosidade, Fernando transmitiu ao chanceler a necessidade de vir morrer a Lisboa. Ordem respeitada, o monarca Fernando quis um pouco mais: quando chegarmos, de noite, todas as luzes deverão estar apagadas, as ruas despidas de pessoas, as janelas e portas das casas cerradas.
Chegaria à capital sem darem por ele, uma toleima, pensariam os servidores, como se o mais alto magistrado do reino pudesse passar sem ser visto. Rei é rei, um pensamento que do mais humilde criado ao nobre mais notável tinha como divisa, e sendo assim, o melhor era respeitar os desejos do soberano. Mensagem recebida, mensagem transmitida. Foram enviados pregoeiros para percorrerem as ruas de Lisboa, em particular as que iam das Portas do Mar e da Porta Ferro ao Paço do Apar, avisando os moradores e passantes que deviam recolher às suas casas quando o crepúsculo assentasse sobre a cidade, ameaçando com pesadas penas aqueles que desobedecessem.
Qual seria o pensamento do rei? Nunca fora de grandes urdiduras, porquê tanto sigilo? Quereria ele apanhar Leonor Teles em flagrante delito de adultério? Não era a altura para isso. A rainha acabara de ter outra gravidez infeliz, por certo não se poria a derramar paixões adúlteras para cima do conde Andeiro, enquanto o marido se desprendia da vida. Não sendo por isto, que outra razão haveria? O povo perdera-lhe o respeito, desde o atribulado casamento com Leonor Teles, uma ideia consubstanciada pelo carácter fraco do rei, sem jeito para a guerra e menos ainda para a diplomacia, por isso talvez quisesse evitar encontros desagradáveis com a plebe». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.
                                                                               
Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Quantos mais fidalgos galegos Fernando recebia, e foram muitos, mais fantasias territoriais o rei concebia»

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«Do justo e duro Pedro nasce o brando
(vede da natureza o desconcerto)
remisso, e sem cuidado algum Fernando,
que todo o Reino pôs em muito aperto,
que vindo o Castelhano devastando
as terras sem defesa, esteve perto
de destruir-se o Reino totalmente,
que um fraco Rei faz fraca a forte gente».
In Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas.

«Em Janeiro de 1367, o rei Pedro I, cognominado O Justiceiro, morre em Lisboa deixando o reino para o seu filho primogénito, Fernando de seu nome. O novo rei de Portugal tem atributos pessoais louváveis, embora os mais cépticos o considerem fraco. A primeira imagem que o jovem de vinte e dois anos transmitia ao seu povo era a de um homem valente, ledo e namorado, amador de mulheres e achegador delas. As virtudes apontadas ao rei podiam fazer dele um monarca respeitado, talvez até invejado, ainda mais que estando cerca de muitos homens, posto que conhecido não fosse, logo o julgavam por rei dos outros. A questão tem mais o que se lhe diga. Nesse tempo, como em outros, gostar de mulheres ou ser bem-parecido não era condição para triunfar na vida, quanto mais para chefiar um país. Podia ajudar, mas se compararmos Fernando I a Pedro I, seu pai, também ele um grande amador, não só com Inês de Castro, também com Teresa Lourenço e dona Constança, verificamos que não sendo bonito como o filho, aliou bem os arrebatamentos amorosos a uma boa governação.
Amadores de mulheres somos todos, até de homens também, como insinua Fernão Lopes na crónica que escreveu de Pedro I. A interpretação do cronista é arriscada, transparece dela a ideia de que o pai de Fernando I teve um fugaz interesse por um seu escudeiro, uma relação que talvez nesse tempo não fosse assim tão extravagante, pois Fernão Lopes dá mais ênfase às consequências do que à suposta relação: el-rei Pedro I, ao saber que um seu escudeiro se insinuava nas graças de uma mulher casada, e como quer que ElRey muito (o) amasse, mais do que se pode aqui dizer, posto de parte todo
o bem-querer, e amor, mandou-o prender em sua câmara, e mandou-lhe cortar todos aqueles membros que os homens em mais preço e estima têm, de maneira que não lhe ficou carne até aos ossos.
Não era preciso tanto! Cortar pela raiz o elemento que entretinha o escudeiro e os amores dele, não se faz. Assim, tal como o cronista, somos levados a pensar que se tratou de uma manifestação de ressentimento do monarca Pedro e uma irresponsabilidade de Afonso Madeira, o jovem escudeiro que se esqueceu da exclusividade que devia ao rei. Não saberia ele que em questões de preeminência sua senhoria estava em primeiro?
Ao contrário do pai, não consta que Fernando I tivesse desvios de género, nem que fosse brutal como ele. Era um homem sensível, um cavaleiro sem sorte, alguém que corria atrás de quimeras à procura de honra e fama, ignorando a força dos adversários e as suas próprias debilidades. Era também de uma vaidade ingénua, deixando-se facilmente seduzir por bajulices oportunistas com que muitos nobres o enredaram. Quando Henrique de Trastâmara, filho bastardo de Afonso XI de Castela, venceu o meio-irmão, Pedro I de Castela e Leão, este sim, filho legítimo, primo direito de Fernando, os nobres que respondiam pelo rei vencido vieram ressabiados procurar apoio em Portugal e encher a cabeça de Fernando com juras, adesões, promessas de fidelidade, tudo fantasias que o jovem monarca não soube discriminar.
Quantos mais fidalgos galegos Fernando recebia, e foram muitos, mais fantasias territoriais o rei concebia. Levado por uma ambição construída por outros, começou logo a pagar por conta: permitia aos que vinham lisonjeá-lo vida sossegada e abastada, cedia-lhes bocados de Portugal, premiava a sabujice com somas consideráveis de dinheiro. Anos mais tarde, já depois de Fernando I perder as ilusões e Henrique governar Castela com mão de ferro, Afonso Mujica, um fidalgo menor que também veio louvar o rei, pedir guarida e prometer o que não tinha, comentou mordaz numa roda de outros nobres como ele, tudo quanto o rei lhe deu: trinta cavalos, trinta mulas, trinta corpos de armas de todas as peças, trinta mil libras de prata lavrada, quatro azémolas muito bonitas carregadas de tapeçarias e roupa de cama; e ainda uma provisão, pela qual lhe dava de juro a vila de Torres Vedras.
A guerra e a diplomacia foram duas das tarefas que o rei também não soube exercer; lutou contra adversários que não podia vencer, construiu alianças errando no tempo e nos protagonistas. Os erros foram muitos, mas aqueles que trouxeram ao rei uma vida desafortunada estão ligados ao período em que este invadiu a Galiza e se apaixonou por dona Leonor Teles, mulher de carácter forte e pensamento ambicioso, determinada a conquistar-lhe o corpo e sobretudo a autoridade». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 27 de maio de 2017

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme»

cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Meus soldados não, soldados da Nação, faz gestos apaziguadores o general Victoria. Calma, calma, senhor prefeito. O Exército lamenta muitíssimo o incidente com a sua cunhada e fará tudo o que puder para compensá-la. Agora chamam estupro de incidente?, se desconcerta o padre Beltrán. Porque foi isso o que aconteceu. Florcita foi dominada por dois homens uniformizados que vieram da chácara e a violaram no meio da trilha, rói as unhas, pula sem sair do lugar o prefeito Teófilo Morey. Com uma pontaria tão boa que agora está grávida, general. Agora vai identificar esses bandidos, senhorita Dorotea, resmunga o coronel Peter Casahuanqui. Sem chorar, sem chorar. Vai ver como eu ajeito isto. Acha que eu vou lá?, soluça Dorotea. Ficar sozinha na frente de todos os soldados? Eles vão desfilar por aqui, em frente à esquadra, esconde-se por detrás da treliça metálica o coronel Máximo Dávila. Fica espiando pela janela e os aponta para mim quando descobrir os salientes, senhorita Jesus.
Salientes?, salpica salivas o padre Beltrán. Depravados, canalhas e miseráveis, isto é o que eles são. Fazer uma infâmia dessas com dona Asunta! Macular assim o uniforme! Luisa Cánepa, minha faxineira, foi estuprada por um sargento, depois por um cabo e depois por um soldado raso, limpa os óculos o tenente Bacacorzo. Ela gostou da coisa ou sei lá, comandante, mas o facto é que agora se dedica à prostituição com o nome de Maminha e tem um veado chamado Milcaras como cafetão. Agora diga com qual destas pessoinhas se quer casar, senhorita Dolores, passeia em frente aos três recrutas o coronel Augusto Valdés. E o capelão faz o casamento neste instante. Escolha, escolha, qual deles prefere para pai do seu futuro filhinho?
Pegaram a minha esposa na própria igreja, permanece rígido na ponta da cadeira o carpinteiro Adriano Lharque. Na catedral não, na igreja do Santo Cristo de Bagazán, senhor. Pois é, queridos radiouvintes, brama o Sinchi. Esses sacrílegos lascivos não foram contidos pelo temor a Deus nem pelo respeito devido à Sua santa casa nem aos nobres fios grisalhos dessa digníssima matrona, semente já de duas gerações de loretanos. Começaram a puxar-me, ai meu Jesus, queriam jogar-me no chão, chora a senhora Cristina. Estavam caindo de bêbados e nem queira saber os palavrões que falavam. Na frente do altar-mor, juro.
É a alma mais caridosa de todo o Loreto, general, retumba o padre Beltrán. Foi ultrajada cinco vezes! E também a filhinha e a sobrinha e a afilhadinha, já sei, Scavino, sopra a caspa das ombreiras o Tigre Collazos. Mas esse padre Beltrán está connosco ou com eles? É ou não é capelão do Exército? Protesto como sacerdote e também como soldado, general, encolhe a barriga, estufa o peito o comandante Beltrán. Porque esses abusos fazem tanto dano à instituição quanto às vítimas. O que os recrutas pretendiam fazer com aquela senhora é muito errado, claro, contemporiza, sorri, faz vénias o general Victoria. Mas os parentes quase os mataram de pancadas, não se esqueça disso. Aqui está o laudo médico: costelas quebradas, hematomas, rasgão na orelha. Neste caso houve empate, doutorzinho. Iquitos?, pára de humedecer a camisa, levanta o ferro Pochita. Cruz, como nos mandam para longe, Panta.
Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme e a balsa em que atravessa o rio, paira sobre o bosque de cabeças imóveis, caras ofegantes e braços abertos o irmão Francisco. Com madeira você fabrica o arpão que pesca o peixe, a zarabatana que caça a capivara e o caixão onde enterra o morto. Irmãs! Irmãos! Ajoelhem-se por mim! É um grande problema, Pantoja, balança a cabeça o coronel López López. Em Contamana, o prefeito emitiu um comunicado pedindo à população local que deixe as mulheres trancadas em casa nos dias de folga da tropa. E, principalmente, como é longe do mar, solta a agulha, arremata o fio e o corta com os dentes a senhora Leonor. Será que lá na selva há muito pernilongo? Eles são o meu suplício, você sabe.
Olhe esta lista, coça a testa o Tigre Collazos. Quarenta e três grávidas em menos de um ano. Os capelães do padre Beltrán casaram umas vinte, mas, é claro, o problema exige medidas mais radicais que os casamentos forçados. Até agora, castigos e vinganças não mudaram o panorama: todo soldado que chega na selva vira logo um porra-louca. Mas você parece o mais desanimado com este lugar, meu amor, começa a abrir e sacudir as malas Pochita. Porquê, Panta? Deve ser o calor, o clima, não acha?, se anima o Tigre Collazos. Pode ser, general, gagueja o capitão Pantoja. A humidade morna, essa exuberância da natureza, passa a língua pelos lábios o Tigre Collazos. Sempre acontece comigo: é chegar na selva e começar a respirar fogo, sentir o sangue ferver». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Pecado Espanhol. Carlota Joaquina. «Fosse como fosse, o resultado destas provas de Carlota deu origem a uma Oración Gratulatoria publicada pela própria academia em finais de Fevereiro»

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«(…) Por causa dos problemas surgidos no passado com este tipo de pessoal estrangeiro, quando uma infanta espanhola se casava com um príncipe português (ou vice-versa), geralmente, os cortesãos do séquito permaneciam do seu lado da fronteira. Com isto, procurava-se uma mais rápida adaptação da recém-chegada aos costumes da nova corte, e evitar a formação de camarilhas suspeitas na câmara da recém-chegada. Até uma infanta conhecida pela sua prudência, como a imperatriz Isabel, casada com Carlos V, se viu obrigada a prescindir de muitos dos seus cortesãos portugueses pouco depois de chegar a Espanha, devido aos ciúmes que estes provocaram nos seus homólogos castelhanos, neste caso porque a remuneração que pagava o rei de Portugal, o Afortunado era muito mais elevada.
Indo contra este costume, a 26 de Fevereiro de 1785 Floridablanca escreveu a Louriçal informando-o de que Carlota iria acompanhada por uma camareira, uma moça de retrete e o padre Filipe, mais seis professores de Sua Alteza, dos quais não fornecia os nomes. É possível que esta excepção a uma regra estivesse relacionada com a pouca idade da infanta, se bem que no passado tenham ocorrido casos de algumas de 4 anos que passaram completamente sozinhas para o outro reino. Segundo o estipulado, todas as pessoas que formavam o séquito de Carlota podiam permanecer em Portugal por um período de dois anos ou o que fosse a vontade do rei (de Espanha), o qual continuaria a ser o responsável pelas remunerações que actualmente auferem e que continuarão a auferir durante a sua ausência, fórmula ambígua que acaba por não explicar se o monarca espanhol também lhes pagaria o que ganhavam em Portugal (algo que logicamente aumentava o controlo sobre eles e a dependência portuguesa).
No dia 28 de Fevereiro a infanta revalidou os seus exames perante os membros da Real Academia de História. Estas provas devem ser entendidas, antes de mais, como a exibição das qualidades da noiva que estava prometida ao infante português e, mas também como um tributo à moda, muito comum então em Espanha, de expor publicamente as capacidades intelectuais das mulheres da alta nobreza. Algumas delas eram membros da Academia, perante a qual costumavam dissertar sobre os mesmos temas que naquela altura mantinham ocupadas as salonières pertencentes à aristocracia francesa.
Um dos casos mais emblemáticos tinha sido recentemente o de dona Mariana Silva, mãe da décima terceira duquesa de Alba, nesse momento grande rival da rainha Maria Luísa de Parma. De facto, Teresa Cayetana Alvarez Toledo Silva tinha tido a sua iniciação cultural nessa academia, assistindo, quando ainda não tinha feito 6 anos, a uma conferência da sua mãe, dona Mariana, erudita, ensaísta e tradutora, de quem a filha tinha herdado o gosto pelo pensamento e a cultura espanhola, mas sem a profundidade intelectual e a paciência necessárias para se dedicar com seriedade aos estudos. A duquesa de Alba e o seu marido, o duque de Medina Sidónia, formavam assim parte do círculo mais íntimo do infante Gabriel, o mais culto, dos membros da família real e que em breve se iria converter no marido da infanta dona Maria Ana de Bragança.
É possível que a rivalidade que sentia face à duquesa tivesse feito aumentar em Maria Luísa o desejo de ostentar diante dela um bem que a Alba nunca tinha possuído, pois era estéril. Fosse como fosse, o resultado destas provas de Carlota deu origem a uma Oración Gratulatoria publicada pela própria academia em finais de Fevereiro, na qual se fazia referência à particularidade de ter tido o director... a honrosa responsabilidade de confirmar num exame privado o seu aproveitamento e singulares talentos em tão tenra idade, servindo de exemplo o cuidado dos seus augustos pais, e que deveriam imitar os particulares de todas as classes...» In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

Cortesia EdosLivros/JDACT

Vera Cruz. João Morgado. «À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo»

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«(…) Houve um alarido tremendo na costa e nas águas. A gentiaga acorreu à beira-mar e alguns mais afoitos foram de almadias até às novas embarcações, uns por curiosidade, outros mais arrojados a tentar escambo com os estranhos que pareciam de bolsa farta. Mas aqueles homens de além-mar tinham carrancas barbudas que davam mostras de pouca amizade. Só uns tantos saíram a terra. Degredados de pouca valia, gente ruim por quem ninguém verteria uma lágrima e outros tantos homens de armas. Saiu também Fernão Martins, que era o língua da armada, um homem de muitos falares. Ficaram deslumbrados com aquele estranho povo, uns escanzelados de barbas brancas e poucas vestes, outros anafados e de bons panos coloridos. Gente muito variada e muitos animais exóticos. Pelos adentros das narinas entrava um cheiro adocicado que indicava as praças de mercadores de especiarias. Os portugueses sorriram, mas por pouco tempo, pois a mourama era belicosa e as escaramuças aumentavam a olhos vistos. Depois de muito cruzar lâminas e injúrias, Fernão Martins lá encontrou um árabe que era mais senhor de falas que de espadas. E arabiando os dois, lá se entenderam e assim convenceram o dito a subir a bordo para falar com o capitão-mor. Sou Vasco da Gama, dizei ao samorim que quero falar-lhe. Trago uma missiva do meu rei e senhor, Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d’Além-Mar em Africa.
Moçaide, o árabe, era homem viajado. Tinha navegado no Mediterrâneo e conhecia a fama dos portugueses. No seu arengar meio-genovês, meio-castelhano, agradeceu as mordomias recebidas e prometeu ser célere em marcar audiência com o soberano daquelas terras. Mas o sultão era homem acautelado e, não sabendo dos intuitos daqueles forasteiros, tinha pegado no seu séquito e partido para um outro palácio, lá no anteparo da floresta, distante dos mares e do poder de fogo de tal gente. Por isso demorou tempo a resposta do soberano e muito tardou também a viagem dos portugueses pelo matagal adentro, sob um sol que matava e uma humidade que fazia gotejar os corpos; as fatiotas tiradas da arca húmida para tão especial ocasião estavam já encharcadas de um suor fétido. Os portugueses seguiram transportados em liteiras, mas sempre nervosos e desconfiados dos beberes e das poucas comidas que lhes eram dados. Só quando chegaram ao seu destino tudo esqueceram e abriram a boca num espanto sem fim, tinham chegado à terra dos seus devaneios. Por certo, nem em sonhos tinham estado num tão luxurioso lugar.
Todo o palácio era uma ilha de tesouros, nunca os portugueses tinham visto tal coisa: o debuxo ornamentado do edifício; os adornos de pedraria; o sem-fim de guerreiros e serviçais; um ror de gente coberta de sedas e pedras preciosas. Caminharam pelo palácio adentro em passo firme, orgulhosos, mas os presentes torciam o rosto e levavam lenços ao nariz. Uns serviçais foram borrifá-los com uns líquidos. Água benta por certo, devem ser cristãos, comentou Gama, escarrando no chão. Mas na realidade era perfume, pois o odor a esterco e suor estava-lhes apegado ao corpo. Por contraste, o samorim Manavikraman Rajá, homem de muitos anos, estava estirado num dossel bordado a ouro e reclinado em grande soma de almofadas cor de pérola. Convidou Gama a sentar-se e brindou a comitiva com fruta e beberagens frescas. Gama discorreu então sobre o reino de Portugal e seus egrégios antepassados, o seu poderio militar e económico, o seu agigantar nas aventuras do mar tenebroso. Fazia questão que das suas palavras emergisse a grandeza impressionante de um reino que a todos desse o mesmo pensar, melhor o ter por afeiçoado que por desavindo. O samorim ouvia a tradução das línguas mas não largava o lenço aromatizado sobre o nariz; desesperava com tal gente e mostrava cara de enfado. À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo.
Vasco da Gama sentia que o ambiente lhe era adverso, por isso lhe tremiam os termos e as ideias, o que maior desagrado causava entre os presentes,- não dizia iá coisa com coisa. Aquela era gente perfumada, de corpo depilado e pele tratada, carregada de jóias e sedas coloridas. Em toda a volta tudo era primor e riqueza, deslumbre e opulência. Só aquela gente que escarrava no chão parecia saída da imundície. Por isso lhe pediam que falasse com as mãos sobre a boca, para que o hálito não emporcasse mais ainda aquele ambiente luzidio.
Vasco da Gama sentia que tudo revoluteava à sua volta, como se estivesse ainda no cabo tormentoso onde a morte tinha chamado por ele. E se a água o não tinha tragado, sentia agora que este povinho efeminado e senhoril o queria esmagar com uma vaga de desprezo. Temeu então que se perdesse o encargo que o rei Manuel I lhe confiara. Não posso malograr esta missão, repetia de si para si mesmo. O futuro do reino está nas minhas mãos, não posso falhar». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

Noites de Jasmim. Julia Gregson. «Como foram as coisas em Rockfield?, dissera ela. Tudo o que ela sabia a seu respeito era que esse era o sítio para onde os rapazes queimados eram enviados»

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St. Briavels. Gloucestershire
«(…) Um táxi fora ao seu. encontro na estação. Quando atravessaram um rio Wye a cintilar ao brilho do sol primaveril, uma fila de cisnes, altivos e orgulhosos, avançava majestosamente sobre a água, e, no outro extremo do rio, um grupo de póneis galeses pastava, um deles com um pardal pousado na garupa. Ele pediu ao condutor do táxi para parar um momento. Disse que queria olhar para a vista, mas, na verdade, estava a sentir dificuldades em respirar. A sensação de asfixia, agora familiar, surgiu repentinamente como um animal a saltar do meio da escuridão, e fez-lhe o coração disparar e as palmas das mãos ficarem húmidas e frias. Ia passar. Apagou a beata do cigarro e deixou-se ficar sentado a respirar da forma mais pausada que conseguiu, tentando concentrar-se apenas em coisas boas.
Que maravilha, disse ele por fim, quando a sensação passou. É uma vista linda. É uma manhã perfeita para regressar a casa, senhor, disse o condutor, com os olhos firmemente virados para a frente. Está pronto para continuarmos? Sim. Estou pronto. À medida que o carro subia a colina íngreme, ele concentrou-se furiosamente no campo de gado negro galês à direita, e na dispersão de casinhas de campo rodeadas por primaveras e crocos de cores vivas. Estava a regressar a casa. Um longo caminho sulcado conduzia até à quinta; dali, ele via o estuário do Severn, a reluzir como a concha de um molusco à distância, e quando a quinta Woodlees ficou visível, os olhos dele encheram-se de lágrimas impotentes. Esta era a encantadora casa caiada para onde os pais se tinham mudado há vinte e cinco anos, quando o pai se tinha tornado cirurgião. Com tectos baixos, sem qualquer característica especial, para além das grandes janelas viradas a sul, erguia-se sozinha no meio de campos varridos pelo vento.
A pequena mata atrás dela fora onde ele brincara aos cowboys e índios com a irmã Freya em criança. Faziam igualmente corridas com os póneis ali, precipitando-se ao longo de trilhos enlameados e por cima de obstáculos improvisados. Ele nascera atrás da terceira janeia à direita no primeiro andar. O carro subiu, com um ruído seco, o caminho de entrada por entre a avenida de tílias que a mãe, uma entusiasta pela jardinagem, tinha plantado nos dias em que era uma rapariga com saudades da sua família na Provença. A cintilar com a chuva, gloriosas e verdes, limpas da poeira de Verão, surgiam como uma visão. Ele começara a odiar as sebes de alfena severamente aparadas que rodeavam os relvados do hospital. Para lá das árvores, relva nova, novos cordeiros no campo, toda uma terra na sua adolescência.
A mãe dele desceu o caminho de entrada a correr quando ouviu o táxi. Esperou-o sob as tílias e tomou o rosto dele entre as suas mãos. Meu querido Dom, disse ela. Estás novinho em folha. Enquanto caminhavam de volta para a casa de braço dado, cães andavam à roda das pernas deles e um velho pónei no campo esticou-se de forma inquisitiva por cima do portão. Como foram as coisas em Rockfield?, dissera ela. Tudo o que ela sabia a seu respeito era que esse era o sítio para onde os rapazes queimados eram enviados, para os adaptar de novo à vida real.
Surpreendentemente animado, disse ele. Ele falara-lhe da bonita casa perto de Cheltenham, emprestada por alguma senhora com posses, dos barris de cerveja, das enfermeiras bonitas, das festas incessantes, das queixas dos vizinhos, que diziam que estavam à espera de convalescentes, não de rufias. Ao ouvir o riso educado e ansioso da mãe, ele resistiu à tentação de deixar cair a cabeça como um rapaz culpado; naquela manhã, bem cedo, tinha estado três mil metros acima do Canal de Bristol, a subir a grande velocidade sobre ovelhas a pastar, pequenos campos em retalhos, as escolas, os campanários das igrejas, o mundo inteiro adormecido, e tinha sido estupidamente maravilhoso. Tiny Danielson, um dos últimos amigos que lhe restava da esquadrilha, conseguira deitar as mãos a um biplano Tiger Moth guardado num hangar perto de Gloucester. As mãos de Dom tinham tremido ao apertar o capacete de voo de pele pela primeira vez em meses, com o coração a bater violentamente enquanto deslizava cuidadosamente sobre a pista de descolagem com abrigos Nissen espalhados em ambos os lados, e depois, quando descolou rumo ao azul límpido lá em cima, ouviu-se a soltar um grito de alegria». In Júlia Gregson, Noites de Jasmim, Edições ASA, tradução de Ana Pereira, 2012, ISBN 978-989-231-964-3.

Cortesia ASA/JDACT

Noites de Jasmim. Julia Gregson. «Cara Saba, gostava de lhe dizer que achei que cantou de forma esplêndida quando a ouvi no Queen Victoria»

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St. Briavels. Gloucestershire
«(…) Minha cara Saba Tarcan: a primeira tentativa dele de uma carta de fã, escrita a partir da Casa de Convalescença Rockfieid no Wiltshire fora atirada para o cesto dos papéis. Era demasiado formal e paternalista para aquele pequeno rosto trocista. Conseguira a morada dela junto de uma das enfermeiras que organizava os entretenimentos e que prometera, assim que a carta estivesse escrita, fazê-la seguir para a parte interessada.
Cara Saba, gostava de lhe dizer que achei que cantou de forma esplêndida quando a ouvi no Queen Victoria. Oh, ainda pior! Isto soava àqueles velhadas tocados que fazem esperas à porta dos artistas. Oh, mer…! Maldição! Ele atirou-a com violência para dentro do cesto. Esperara seis semanas para lhe escrever, para se certificar de que estava em condições de ser visto e pensando que, assim que estivesse de novo em casa, e já não fosse um paciente, a antiga confiança regressaria e a carta fluiria de forma melíflua da sua caneta, mas quando muito, sentia-se ainda mais desorientado por aquilo que estava a tentar dizer, o que o deixava zangado, nenhuma rapariga o fizera sentir-se assim antes. Um poema surgiu-lhe na cabeça, um poema em que ele pensara ao lembrar-se dela.
Obrigado, aconteça o que acontecer. E depois, ela virou costas
e, tal como o raio de sol nas flores pendentes
esmorece quando o vento as ergue de lado,
partiu apressadamente. Não, aconteça o que acontecer
uma hora foi iluminada pelo sol e nem os sumos deuses
se podem vangloriar de algo melhor
do que ter observado aquela hora enquanto passava.
Ele copiara-o para o seu diário no hospital, seguro de que também não o iria enviar. A poesia tornava as pessoas desconfiadas quando não nos conheciam e, sinceramente, estava-se a marimbar para toda aquela ideia de uma-hora-que-foi-maravilhosa; ele queria ouvi-la cantar de novo, mais nada. Dom, queres café, querido? A voz da mãe deslizou suavemente desde a cozinha; ela parecia mais francesa quando estava nervosa.  Estou na sala de estar. Ele olhou discretamente o relógio. Raios! Tivera esperanças de terminar a carta primeiro. Vem cá e toma-o comigo, disse ele, tentando com todas as fibras do seu ser não parecer furioso de frustração.
A mãe dele tinha-se mantido sempre por perto. Ele sentira-a toda a manhã, a tentar passar despercebida. Magra como uma avezinha, elegante no seu velho fato de tweed, eis que entrava agora com um tabuleiro, se sentara na ponta do banco de piano e servia o café. Obrigada, Misou, disse ele, usando o nome que lhe chamava em criança. Ele pegou-lhe na mão. Está tudo bem. Ele gostava que ela deixasse de parecer tão preocupada. Já não me dói nada agora. Vê, agarra-a como deve ser. A pressão hesitante que sentiu da parte dela fez surgir uma vaga de ira. Ela balanceou a cabeça timidamente, sem saber o que dizer. Em tempos, tivera muito orgulho nele. Agora, os seus ferimentos pareciam ter trazido consigo uma sensação de vergonha comum: havia demasiado a dizer e a ocultar.
Durante os meses que passara no hospital, ele fantasiara estar exactamente onde estava hoje, neste sofá, nesta casa em St. Briavels, uma aldeia minúscula na fronteira entre Gales e o Gloucestershire. No comboio que o levara de Chepstow a Brockweir, ele estava decidido a dar à mãe pelo menos alguns dias de felicidade para compensar os meses de tormento e angústia que ela suportara. Não falaria de voar novamente; não falaria dos amigos, e talvez, dali a alguns dias, com um copo de vinho na mão, surgisse um relato bem-disposto da partida de Annabel». In Júlia Gregson, Noites de Jasmim, Edições ASA, tradução de Ana Pereira, 2012, ISBN 978-989-231-964-3.

Cortesia ASA/JDACT

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «O sultão Bahadur, do reino de Cambaia, na península do Guzarate, deu permissão ao capitão Martim Afonso Sousa e ao governador Nuno Cunha para construírem uma fortaleza»

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Cochim
«(…) Como pouco mais possuía além da roupa que tinha no corpo, precisava de ganhar depressa algum dinheiro para recomeçar a sua vida. Ninguém lhe emprestaria a maquia necessária à compra de mercadorias para fazer tratos e, por isso, dificilmente seria bem sucedido no Malabar, apesar dos numerosos reinos que se estendiam desde o monte Delhi ao cabo Comorim e cujos nomes já em Portugal o faziam sonhar: Cananor, Calecut, Tanor, Cranganor, Cochim, Repelim, Chembé (também chamado Reino da Pimenta), Porcá, Coulão ou Travancor. Em Goa talvez fosse mais fácil embarcar em um qualquer junco ou nau que andasse às presas em lugares longínquos como Malaca, Ceilão, Samatra ou Molucas, onde poderiam trocar ou vender o produto dos saques com muito proveito porque, sendo tomados no corso, esses bens ficavam fora da alçada da Coroa e não pagavam o quinto a el-rei de Portugal.
Por ora, nada mais podia fazer senão ouvir as conversas dos navegantes e colher informações sobre as derrotas comerciais, os lugares, as mercadorias e os mais desvairados sucessos ocorridos entre os portugueses e as gentes daquelas terras. Em todos os navios que percorriam os mares do Oriente, havia sempre veteranos de muitas campanhas, dispostos a contarem façanhas heróicas, a descreverem sítios maravilhosos por eles visitados ou a darem informações das cidades e fortalezas sob alçada d'el-rei de Portugal, indicando aquelas onde melhor se poderia fazer fortuna com menor risco e avisando contra as que eram verdadeiros cemitérios de portugueses, como Moçambique. A Cisne não fugia à regra, havendo sempre narradores de serviço, quer de noite, quer de dia, durante os longos períodos de ócio, sobretudo quando a nau pairava em calmaria. Ele próprio já fizera pasmar os seus companheiros de viagem com o relato do seu cativeiro pelo formidável Soleimão Dragut, seguido da revolta dos mouros em Mocaa sobre a venda dos cativos cristãos e, por fim, dos seus infortúnios como escravo de um renegado.
Enquanto viver, hei-de arrenegar do maldito grego, que quase me matou com trabalhos, pancadas e fome, concluíra, ufano da atenção da assistência, que durante o seu relato lhe fizera muitas perguntas sobre o mouro Dragut e os seus corsários. Nos três meses em que estive em poder daquele demónio, senti-me tão desesperado que, por oito vezes, me quis matar com peçonha, mas Nosso Senhor deu-me forças para resistir até o judeu Abraão Muça me resgatar e levar para Ormuz. Nessa noite, é Bento Castanho, homem já de cãs, discreto e bem criado, que tem a seu cargo o desenfadamento de um bom número de ouvintes, entre os quais se acha um mercador de Aveiro, a viver há mais de dez anos com a sua mulher em Cochim. Fernão junta-se ao grupo, na esperança de ouvir falar dessa colónia de casados e das oportunidades de fazer fortuna. O homem, porém, conta a história da fortificação de Diu, o porto de escala antes de Goa onde lançariam ferro.
O sultão Bahadur, do reino de Cambaia, na península do Guzarate, deu permissão ao capitão Martim Afonso Sousa e ao governador Nuno Cunha para construírem uma fortaleza em qualquer lugar de Diu à sua escolha, em troca da ajuda que recebera, e haveria de receber sempre que dela houvesse mister, contra os seus inimigos, os mogores (povo de raça mongólica, aparentados com os tártaros, que se estabeleceu no Indostão, reino de Deli, da palavra persa mughal) do reino de Deli. No dia vinte e um de Dezembro de mil quinhentos e trinta e cinco, vai fazer três anos, o governador lançou a primeira pedra para a sua construção, enterrando muitas moedas de ouro debaixo dela, para dar sorte. Trabalhámos que nem uns desalmados, todos os que vínhamos na armada (escravos, matalotes, soldados, oficiais e fidalgos), mas acabámos a obra em seis meses». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… se não houvera sofrimento, não houvera já mundo; e se não houvesse cavalos, não haveria guerra»

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Cochim
«Na boca deste rio [de Cochim] tem el-rei nosso senhor uma fortaleza mui formosa, derredor da qual está uma grande povoação de portugueses e cristãos naturais da terra, que se fizeram cristãos depois de assentada nossa fortaleza (…). [Na] povoação de Cochim há el-rei, nosso senhor corregimento de suas naus e outras se fazem de novo, assi galés e caravelas, em tanta perfeição como que se fizessem na ribeira de Lisboa. Aqui se carrega grande soma de pimenta e outras muitas especiarias e drogarias que de Malaca vêm e daqui se levam cada ano a Portugal. El-rei de Cochim tem muito pequena terra e não era rei antes que os portugueses descobrissem a Índia, porque todos os reis que novamente reinavam em Calecut tinham por costume e lei que, entrando em Cochim, tirado el-rei fora de seu estado, meterem-se em posse; e, se lhe prazia, tornavam-lho a dar ou não. El-rei de Cochim lhes dava cada ano certos elefantes, mas não podia fazer moeda, nem cobrir seus paços de telha sob pena de perder a terra. Agora que el-rei nosso senhor descobriu a Índia o fez rei isento e poderoso. (Livro em que dá relação das cousas que viu e ouviu no Oriente Duarte Barbosa, 1516)

Quem se senta ao fundo do poço para contemplar o céu, há-de achá-lo pequeno (hindu)
Carta de el-rei de Calecut a el-rei de Cochim:
Samorim, a ti Trimumpara, rei de Cochim, te faço saber que a mim é dito que tu recolhes e favoreces os cristãos em tua terra (...); e porque o [que] lhes fazes farás por não saber o nojo e destruição que deles tenho recebido, matando minha gente, queimando minhas naus, com outras coisas que calo, em que recebo grande pesar; pelo qual te rogo que olhes quanto amigos sempre fomos e como todos somos de uma terra e natureza; pela razão que para isso temos, não queiras perder a mim por homens que têm vida de ladrões roubadores, que andam para subjugar reis e terras em quem se perderá todo bem que neles se fizer. E estimá-lo-ei muito para to pagar em boas obras, quando as de mim houveres mister.

Carta de el-rei de Cochim a el-rei de Calecut:
Trimumpara, a ti Samorim, rei de Calecut, (…) ao que dizes que recebes nojo em eu recolher em minhas terras os cristãos e lhes dar carga para as suas naus e mantimentos por seus dinheiros, tu o não deves ter por mal, porque obrigado sou a isso. Dizes que são ladrões; não os conheço por tais, antes, neste pouco tempo que com eles tratei, os achei muito bons e verdadeiros, e de tal gente não deves haver por mal enobrecer minha terra e porto, pois sabes que todas disso vivemos. Eu folgo muito com a tua amizade, camo tu sabes e é razão. Rogo-te que te não agraves de mim, porque será sem nenhuma razão, que em tua terra os tiveste e dela os deitaste, matando-os. Eles, desacorridos, se vieram a mim, e comigo assentaram paz, ficando alguns deles sob a minha guarda e amparo e seria assaz de mau exemplo se, sem causa, os lançasse fora.

Com o corpo mais composto de carnes e de ânimo novamente esperançoso, porque tristezas não pagam dívidas, e quem não se quer aventurar não deve passar o mar, Fernão Mendes Pinto achava que as provações por si sofridas, enquanto cativo de mouros, tinham sido expiação mais que suficiente para todos os pecados que até então cometera, pelo que Deus lhe haveria de dar ocasião de enriquecer na Índia. Queria tentar a sua sorte em Goa, por isso embarcara na nau Cisne de Jorge Fernandes Taborda, que lá ia vender cavalos persas e arábios de Ormuz, um rico negócio, segundo dizia o capitão, apesar do dito dos mouros que naquelas partes se fizera anexim: se não houvera sofrimento, não houvera já mundo; e se não houvesse cavalos, não haveria guerra.
Se os ventos bonançosos e a boa navegação se mantivessem, não tardariam a chegar à vista da fortaleza de Diu, um desvio na sua derrota, rota, navegação, para deixar alguns soldados de reforço à fortaleza, por haver notícia de que se aprontava uma armada dos rumes (turcos de Constantinopla) contra os portugueses. Fora de Diu que partira, há quase um ano, para a sua primeira e desafortunada aventura no mar Roxo, que tivera tão bons começos, mas, como tudo na sua vida, acabara muito mal, lançando-o na mais negra escravatura. Apesar da beleza e riqueza de Ormuz, a Pedra do Anel da Pérsia, que o deixaram deslumbrado, jurou jamais volver aos mares da Arábia, para não correr o risco de cair de novo nas garras de mouros ou turcos». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

terça-feira, 23 de maio de 2017

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Ele observava-a como se ouvisse os seus cálculos mentais. Quer mesmo essa informação?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No que diz respeito às mulheres, os meus sentidos nunca me enganam. Pelo menos não nesse sentido. Ele se referia às flechas estúpidas e ao medo ofegante que ela sentia, à excitação chocante. Ele sabia. Pior, abordava o assunto em voz alta. Ele estudava-a, avaliando algo. O olhar dele a atraía e assustava ao mesmo tempo. Aquele sorriso outra vez, tentando deixá-la à vontade como se a elogiasse sem usar palavras. Não me atrevo a confidenciar o que tenho sem saber o papel que desempenha. Sua presença é inesperada. Se estou pagando, por que se interessa em quem ouve a sua história? Duvido que tenha dinheiro suficiente para pagar, ainda que eu vendesse. Ela temeu que ele tivesse razão. Tudo nele denotava a mais alta qualidade. Uma corrente de ouro pendia do colete bordado com bom gosto, presa a um relógio de ouro, sem dúvida. As dez libras e o medalhão de ouro que trazia escondidos na bolsa não impressionariam um homem daqueles. Sujeitava-se a ter feito aquela viagem toda, arriscando a pele e a reputação, e a acabar falhando só porque as exigências do Dominó seriam dispendiosas demais.
Ele observava-a como se ouvisse os seus cálculos mentais. Quer mesmo essa informação? É tão bonita que eu até lhe dava em troca de um beijo. Um beijo! Começo a pensar que é um charlatão, se aceita pagamento tão simples. Dá tão pouco valor aos seus beijos? É fugaz, o valor de qualquer beijo, por maior que seja. Que triste moral. É contrária à verdade, espero. Dizem os poetas que há beijos que sustêm a alma de uma pessoa para sempre. Os poetas são idiotas. A conversa havia tomado um rumo muito peculiar. Receio que tenha razão, mas espero que não. Daí a minha oferta. A minha alma me diz que pode ser aquela mulher cujo beijo terá valor eterno.
Que absurdo ridículo. Ambos sabiam que ele elogiava para servir os seus fins e que o beijo não era sequer o objectivo. A sua expressão denunciava o jogo ao mesmo tempo que ele descaradamente o jogava. Devia colocá-lo em seu lugar e fazê-lo ver que não era uma pateta qualquer que arquejava e desfalecia com as investidas de um homem belo de olhos desconcertantes e sorriso sedutor. Só que, apesar das repreensões mentais, sentia mesmo alguma tontura e excitação, para dizer a verdade. Saía quase um arquejo. Os elogios faziam o seu sangue correr e pulsar. Tenho que descobrir se você é essa mulher, obviamente, prosseguiu ele. Uma vez que não quer negociar, vejo-me forçado a roubar. A cabeça dele inclinou-se e mergulhou. Os seus lábios roçaram nos dela.
O choque paralisou-a. O coração bateu forte. As flechas provocadoras multiplicaram-se e espalharam-se por todo o corpo. Roger beijara-a algumas vezes, e embora os beijos tivessem sido muito agradáveis, o efeito não era comparável. Mas Roger também não era um estranho, e os beijos dele não tinham sido escandalosos, perigosos e deliciosamente proibidos. Os lábios dele não se limitaram a pousar nos dela. Brincavam e mexiam-se e insistiam subtilmente. Uma dentadinha inesperada fez o seu coração dar uma cambalhota.
Um novo toque a distraiu. Sobressaltou-a. Outra suavidade, húmida e endiabrada. Santo Deus, a ponta da língua dele fazia a zona sensível, provocando-lhe cascatas de arrepios pelo corpo abaixo. No meio do torpor, ela sentiu-o agarrar suavemente seu pulso, afastando o braço para virar a pistola para a parede à direita. A arma deixara de os separar, e de protegê-la. A mão dele controlava-a e à arma, mas este beijo interessava-a muito mais do que a voz da razão, que, em pânico, tentou emitir um protesto. Ele aproximou-se mais. Ela ficou com o coração na garganta. A mão direita dele deslizou lentamente pelo pescoço numa carícia de assombrosa ligação física. Cuidadosa, mas controladora. Calorosa, mas não completamente doce. A sensação da pele dele na dela e a ligeira aspereza do seu toque deixaram-na hipnotizada. A sua mão suscitava arrepios deliciosos. Ele segurou sua nuca e beijou-a novamente.
Mais impetuoso desta vez. Mais ávido. Mais agressivo. Ele brincava com a vulnerabilidade dela e manifestava um domínio ao qual, Deus lhe valesse, ela não sabia sequer como resistir. Havia deixado de reparar que era devassa por permitir, ou que se estupidificara inexplicavelmente. Um caos de sensações aprazíveis obscurecia pensamentos assim tão sensatos. A mão esquerda dele deslocou-se, envolvendo a dela, por cima da pistola. Com dedos carinhosos, cuidadosos, sedutores, retirou-lhe a arma. A mão subitamente vazia fez com que uma réstia de bom senso se afirmasse. O que ela estava fazendo? Abriu os olhos, literal e metaforicamente. O que viu arrancou-a de seu torpor. A porta estava aberta. E eles não estavam sozinhos. Outro homem estava atrás de Dominó. O sedutor interrompeu o beijo. Franzindo a testa, seguiu o olhar dela e olhou por cima do ombro. Atravessou-o uma sensação de alarme. Mas o que...?» In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ela observou com horror o desenrolar muito rápido dos eventos»

Cortesia de wikipedia e jdact

1357
«(…) Não se parece com uma cortesã para mim, Melissa. Eu sempre assumi que elas eram mulheres voluptuosas. Parece muito magra para essa ocupação. O seu cabelo é adorável, de uma cor não muito frequente. Muito clara, como a luz da lua, ele ainda sujeitava a ponta da longa mecha de cabelo, e ele a deixou escorrer entre os seus dedos como uma cinta de seda. O que chama magro, importantes lordes o consideram miúdo e delicado, sir Morvan. Além disso, as habilidades de uma cortesã fazem tais detalhes insignificantes. Por outro lado, é claro que é muito simples nas suas preferências. Retornarei e direi aos anciões da cidade que escolheram mau.
Não. É uma brilhante estratégia. Só há um problema com isto, e não é o seu tamanho. Ele ainda tocava seu cabelo. Eu não sou sir Morvan. Mas esta é a tenda maior, está no centro do acampamento. Fui informada que este exército pertence a Morvan Fitzwaryn. É assim, mas eu mando aqui. Morvan está ocupado noutro lugar. A parte principal do exército está em Harclow. Não era surpreendente então que nenhuma ajuda alguma vez viesse. Todos na torre assumiam que Morvan primeiro tinha sitiado esta fortaleça para ganhar uma posição segura antes de tentar tomar a formidável Harclow, mas o homem tinha atacado ambos os lugares ao mesmo tempo. E Clivedale, também? Quão grande era esse exército?
Ela rapidamente fez cálculos. Se este homem estava no comando aqui, o plano deveria funcionar tão bem com ele ou com seu lorde no comando. Se não é Morvan Fitzwaryn, quem é? Ian de Guilford. E, verdadeiramente, é quem manda aqui? Sim. O destino desta torre e a cidade perto daqui estão nas minhas mãos. Se a cidade te mandou para negociar, tem o nome equivocado, mas o homem correcto. Seu presente estava planeado para mim. Ele a observou de um modo óbvio o que a desestabilizou completamente. Seu olhar continha as consequências do fracasso no que ela cuidadosamente tinha evitado pensar.
A sua coragem desapareceu num segundo. É uma desgraça, então, que não me ache a seu gosto. Irei agora. Insisto em que fique. Perderá o seu dinheiro caso contrário, e viajaste desde muito longe. Foi rude de minha parte criticar um presente. Além disso, se foi treinada pela Famosa Dionysia, duvido que fique decepcionado. Ele caminhou para ainda mais perto, e o seu tamanho e masculinidade dominante se lhe impuseram. Ela procurou arrumar uma desculpa para partir. Estes homens parecem ser mercenários. Eles obedecem-lhe? Sem dúvida eles esperam ser pagos com um butim.
Eles são mercenários, mas eles são meus mercenários, e me obedecerão. Morvan Fitzwaryn paga com prata, não com promessas de saques. Eles provavelmente esperam algo mais, mas isso não é parte do acordo. E se algo acontece com você? Não me tinha dado conta de que as pessoas da cidade tinha enviado um advogado além de uma cortesã. Os seus favores exigem um contrato com a cobertura de todas as eventualidades? As suas palavras e o seu olhar lhe recordaram quem se supunha que era ela, e por que estava aqui. Pensou no perigo para os inocentes na torre se a fortaleza fosse invadida, e da morte horrível que a aguardava se não o fizesse. Seu plano era o único caminho para resolver ambos os problemas.
Vamos despir-nos, Melissa, de maneira que possa mostrar-me essa grande arte que aprendeste. Ele friamente observou a cama. Dificilmente adequada para uma cortesã. Preferiria algumas peles no chão? Haveria, mais espaço, então. Ele caminhou com passos largos para o outro lado da tenda e dispôs várias peles grandes. Sim, isso será melhor. Ian começou a desatar os cordões de suas calças. Ponha-se de quatro para a primeira vez. Ela observou com horror o desenrolar muito rápido dos eventos. Sir Ian, parece-me que não entende. Como te disse, eu não sou uma prostituta. Sou uma cortesã. Nós fazemos as coisas diferentes. Realmente? Eu gosto de fazê-lo em todas as posições. Mas sempre estou ansioso por aprender algo novo. OH! Sim, matar este homem arrogante não seria nada difícil. Não é o que quis dizer. As cortesãs não se acoplam como bestas. Nós criamos todo um novo ambiente e uma experiência distinta. Há muita preparação e relaxação prévia. As suas mãos deixaram os cordões». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, Edições ASA, 2012, ISBN-978-989-231-672-7.

Cortesia EASA/JDACT

Meia-noite ou O Princípio do Mundo. Richard Zimler. «Dormi com o livro e a carta debaixo do colchão durante meses. Os dois objectos tornaram-se-me tão inseparáveis»

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«(…) Questionei-me se As Fábulas da Raposa teriam sido um presente de Joaquim para Lúcia. Se calhar, ela tinha ficado aborrecida e vendera o livro ao senhor David, esquecendo-se de que escondera a carta do seu pretendente lá dentro. Uma vez que não tinha data, os dois apaixonados podiam muito bem já ser avós. Embora também pudesse dar-se o caso de ainda serem solteiros e estarem naquele preciso momento a planear o próximo encontro secreto no cimo da Torre dos Clérigos, a sessenta metros das ruas da cidade.
Meti a carta na algibeira dos calções, inspirei uma golfada de ar bafiento para ganhar coragem e avancei, resoluto, para o senhor David. Entregando-lhe o livro tão inocentemente quanto o meu coração acelerado permitia, depositei-lhe na enorme palma da mão todas as moedas de cobre que trazia naquele momento: quatro moedas de cinco réis. A julgar pelo seu nariz franzido, a bela maquia de vinte réis não andava sequer perto do valor do livro. Lançando-lhe um olhar desamparado, como fazia quando lidava com adultos, implorei-lhe que mo deixasse ir pagando todas as semanas.
Não posso, John, disse ele, abanando a cabeça. Se eu fizesse negócios a crédito, estaria na miséria. Por favor, por favor, por favor..., eu pago-lhe o resto num mês, choraminguei, sem fazer a menor ideia de como iria cumprir aquela promessa, mas sem querer ver as fábulas tão bem ilustradas fugirem-me. Claro que podia ter-me ido simplesmente embora com a carta na algibeira, mas não conseguia pensar em tê-la sem o livro. Isso para mim seria roubo. Sabendo que ele estava prestes a recusar novamente, recorri a todos os meus dotes teatrais e assumi a expressão de um órfão indigente. O senhor David soltou uma gargalhada, visto que já estava à espera disso. No entanto, como recompensa pelo meu esforço, acedeu ao negócio, dando-me uma palmadinha na cabeça, enquanto dizia, à laia de aviso: se não fores capaz de cumprir o nosso acordo, fico contigo como pagamento e depois, não tenhas ilusões, mando a minha mulher cozinhar-te para o jantar! Como sou quase só ossos e nariz, vou saber a gaivota, saiu-me como resposta, e esta tirada agradou tanto ao senhor David que voltou a rir-se e, puxando um banco, aconselhou-me a examinar a minha nova compra enquanto esperava que a tempestade passasse.
E foi assim que comecei a ler a primeira das fábulas, particularmente digna de ser recordada O Rato, a Rã e a Águia, cuja moral é: aquele que persegue o mal, persegue-o até à sua própria morte. Quando o sol voltou, meia hora mais tarde, agradeci ao senhor David, calcei as botas e corri para casa. Depois de grandes elogios da minha mãe por ter tomado tão bem conta do seu tecido, subi dois a dois os degraus da escada até ao meu quarto, onde eu e a carta podíamos estar sozinhos. Paguei os meus tesouros um mês depois, tal como havia prometido, com dinheiro ganho a ajudar o meu pai a limpar o escritório dele e a arrecadação.
Dormi com o livro e a carta debaixo do colchão durante meses. Os dois objectos tornaram-se-me tão inseparáveis como os próprios Joaquim e Lúcia. O mais provável era a minha mãe ter descoberto a carta enquanto arrumava o meu quarto, mas nunca o mencionou. Anos mais tarde, ofereci-a à minha noiva, juntamente com As Fábulas da Raposa como prenda de casamento. Quando ela morreu, agarrei-me a estes dois pertences como se me pudessem salvar de um naufrágio.
Desde o dia em que comprei As Fábulas da Raposa, tenho estragado a vista com milhares de noites a ler à lareira ou na cama à 1uz de uma vela. Uma longa familiaridade com a arte de contar histórias tornou-me consciente de que um conto como o que estou prestes a narrar deve incluir um homem, ou uma mulher, generoso ou com um coração particularmente corajoso. E, no entanto, sinto que me falta tudo para esse papel. Além disso, não confio nos meus talentos para fazer um relato exacto dos acontecimentos que me levaram de Portugal à América. Por isso, sinto que a forma mais adequada e honesta de começar é com um rapaz de doze anos chamado Daniel, que tive a sorte de conhecer por acaso há cerca de vinte e quatro anos. Foi ele que pôs em movimento as ondas que mais tarde me fariam atravessar o oceano Atlântico. Se mereço o papel central nesta história, é, em parte, graças ao exemplo corajoso que ele me deu». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

Meia-noite ou O Princípio do Mundo Richard Zimler. «Minha adorada, considerar-me-ias demasiado atrevido se dissesse que todas as noites caio nos braços do sono…»

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«Um vento violento trazia a chuva do mar enquanto me dirigia para casa pelas calçadas íngremes e escorregadias da minha adorada cidade do Porto. Estávamos em Maio de 1798, um mês depois do meu sétimo aniversário. Cuidadosamente arrumados dentro do cesto de verga, encontravam-se dois rolos de musselina azul-índigo que tinha concordado em ir buscar para a minha mãe, mas apenas em troca de um favor, devo confessar. Se esta chuva salpicasse um fio do seu tecido, ela iria resmungar toda a noite e recusar-se-ia a fazer o meu doce preferido. Daí que, não tanto para continuar a proteger as mercadorias, mas tendo em conta a minha gulodice, tenha procurado abrigo.
Uma certa desconfiança herdada em relação a todas as coisas religiosas levou-me a escolher como refúgio a velha livraria do senhor David, em vez da capela caiada mesmo ali ao lado. Quando transpus a porta baixa, o senhor David incitou-me a deixar o cesto atrás da sua escrivaninha e a descalçar as botas encharcadas, que pendurou por cima da grade de ferro ao pé da lareira. Senhor David,  perguntei, posso ir para as Ilhas Britânicas? Vai lá, rapaz!, acedeu, sorrindo. Corri pelo soalho rangente rumo à bafienta sala do fundo, onde o senhor David guardava o seu tesouro de livros ingleses, a que o meu pai e eu, desde que me consigo lembrar, chamávamos as Ilhas Britânicas.
Devo explicar que, embora eu tenha nascido no Porto, uma cidade provinciana com sessenta e cinco mil almas, no Norte de Portugal, o meu pai tivera a honra, como ele tantas vezes dizia, de ter nascido escocês. Eu ainda não me apercebera disso, mas, quando falava inglês, fazia-o com uma pronúncia claramente escocesa. Com estantes carregadas de livros, mofo e aranhas de patas fininhas, estas Ilhas Britânicas eram abençoadas pela abundância, mas, infelizmente, não se podiam gabar de ter uma janela decente, salvo a pequena claraboia octogonal no tecto baixo e curvo. A chuva fustigava o vidro amarelecido, provocando um tamborilar muito semelhante ao de ratos a correr.
Estava tão escuro que mal conseguia ver as minhas próprias mãos e pensava em pedir uma vela quando, repentinamente, o sol espreitou por entre as nuvens, iluminando uma estante encostada à parede. Aproximando-me, distingui um dos títulos gravado em letras douradas cintilantes, As Fábulas da Raposa. Visto que não havia nenhum nome de autor impresso na capa, e dado como eu era a voos de fantasia, imaginei que tinha sido uma raposa inteligente a escrevê-las. O sol desapareceu e ficou tudo escuro outra vez. Enxotei Hércules, o gato malhado do senhor David, sentei-me na serradura do chão e abri o livro. Lá dentro, as espessas páginas amarelecidas tinham desenhos coloridos de cães, gatos, macacos, elefantes e muitos outros animais, uma espécie de Arca de Noé. Fiquei tão excitado com aquela descoberta que só consegui ler as primeiras frases de cada história. Desejando perguntar o preço ao senhor David, mas temendo a perspectiva de uma quantia acima das minhas posses, levantei-me para ponderar as opções. Foi nessa altura que uma folha de papel azulado, qual asa de borboleta, caiu das páginas do livro, flutuando até pousar em cima do meu pé direito.
Apanhei-o e olhei sub-repticiamente em volta. O senhor David estava sentado à secretária a fumar cachimbo, esfregando distraidamente a careca enquanto estudava um mapa enorme. Hércules tinha-se enroscado no colo dele. Plantei-me no canto mais escuro da sala e percebi que aquele papel era, na verdade, uma carta, escrita numa letra elegante e dirigida a uma mulher chamada Lúcia. Começava: Minha adorada, considerar-me-ias demasiado atrevido se dissesse que todas as noites caio nos braços do sono imaginando a tua mão sobre o meu peito? A seguir, li sobre lábios húmidos, luar, desmaios e flores de laranjeira. Reconheci a palavra seios... Que emocionante aquilo parecia! Todavia, muitas outras palavras eram-me desconhecidas. Precisaria de um dicionário para saber quão chocante era a carta. Estava assinada com um grande floreado por um homem chamado Joaquim. Ele até fazia a pintinha do i com a forma de um coraçãozinho minúsculo». In Richard Zimler, Meia-noite ou O Princípio do Mundo, 2003, Porto Editora, 2017, ISBN 978-972-004-727-4.

Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 21 de maio de 2017

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido»

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«(…) Era óbvio, olhando para eles. que conheciam o amor, isto é. Tinham tido a experiência física. É curiosa a subtil mas inequívoca transmutação que ela provoca no corpo quer dos homens quer das mulheres: a mulher floresce, as suas formas ficam mais arredondadas, as formas angulosas atenuam-se, e a expressão torna-se ora ansiosa ora triunfante; o homem torna-se mais calmo, mais interiorizado, e o contorno dos ombros e das nádegas menos acentuado, mais hesitante. Com a emoção corporal, as duas irmãs quase sucumbiram ao poder estranho do macho. Mas rapidamente se recompuseram, encararam e emoção sexual como uma sensação e continuaram livres. Os homens, gratos às mulheres pela experiência física, deram-lhes um pouco da sua alma. Depois, pareciam por vezes mais uma pessoa que perde dez tostões e encontra cinco. O jovem de Connie tinha mau feitio e o de Hilda era trocista. Mas os homens são assim! Ingratos e sempre insatisfeitos; se não são aceites, odeiam a mulher por não os aceitar, se o são, odeiam-na por qualquer outra razão, ou nenhuma razão, porque são crianças descontentes e nada os satisfaz por mais que a mulher faça.
Todavia, a guerra rebentou e Connie e Hilda regressaram apressadamente a Inglaterra, depois de também aí terem passado o mês de Maio, quando do funeral da mãe. Antes do Natal de 1914 os dois jovens já estavam mortos, e as irmãs choraram-nos e amaram-nos apaixonadamente; mas no fundo já os tinham esquecido, eles já não existiam. Viviam então na casa do pai, ou melhor, da mãe. em Kensington. Davam-se com um jovem grupo de Cambridge, que defendia a liberdade e as calças, camisas de flanela abertas no pescoço, e uma espécie de anarquia saudável. Tinham uma voz murmurante de quem falava baixo. e eram ultra-sensíveis. Hilda, porém, casou de súbito com um homem dez anos mais velho, dos mais velhos desse grupo de Cambridge, um homem com bastante dinheiro e com um bom cargo oficial, que também escrevia ensaios filosóficos. Foi viver com ele para uma pequena casa em Westminster, e passou a frequentar aquele tipo de sociedade do meio governamental que não é exactamente o pináculo, mas que constitui, ou, pelo menos, deveria constituir, o poder realmente inteligente da nação: pessoas que sabem do que falam, ou falam como se assim fosse.
Connie teve um emprego de guerra e ligou-se aos intransigentes, de calças de flanela do grupo de Cambridge, que subtilmente troçavam de tudo. O seu amigo era Clifford Chatterley, um jovem de vinte e dois anos, que regressara apressadamente de Bona, onde estudava as técnicas da exploração mineira do carvão. Antes estivera em Cambridge dois anos e agora era primeiro-tenente num regimento de escol. Assim podia escarnecer de tudo, mais elegantemente no seu uniforme. Clifford Chatterley era da melhor sociedade que Connie. Esta pertencia à intelectualidade próspera, mas ele era da aristocracia, não da alta, mas da aristocracia, de qualquer modo. O pai era baronete e a mãe filha de um visconde.
Mas Clifford, apesar demais educado e de melhor sociedade do que Connie, era à sua maneira mais provinciano e mais tímido. Sentia-se à vontade no seu pequeno grande mundo, isto é, entre a aristocracia da terra, mas tímido e nervoso perante esse outro grande mundo que consiste nas hordas das classes média e baixa e dos estrangeiros. Para dizer a verdade, ele tinha um pouco de receio da humanidade da classe média e baixa e dos estrangeiros que não pertenciam à sua classe. Estava consciente da sua impossibilidade de defesa, embora possuísse a defesa do privilégio. É curioso, mas é um fenómeno do nosso tempo. Assim, a suave autoconfiança de uma rapariga como Constance Reid fascinava-o. Ela era muito mais senhora de si mesma naquele mundo caótico do que ele.
Todavia, também ele era um rebelde, rebelando-se até contra a sua classe. Rebelde talvez seja uma palavra forte demais. Ele apenas partilhava da aversão geral e popular dos jovens às convenções e a qualquer tipo de verdadeira autoridade. Os pais eram ridículos, o seu ainda mais por ser obstinado. E os governos eram ridículos, e o nosso principalmente por manter uma atitude de expectativa. E os exércitos eram ridículos, assim como os antiquados generais, o mais importante de todos o corado Kjtchner. Até a guerra era ridícula, embora matasse muita gente. De facto, tudo era um pouco ridículo, ou muito ridículo: tudo aquilo relacionado com autoridade, quer fosse no exército, no governo ou nas universidades, era muitíssimo ridículo. E, na medida em que as classes dirigentes tinham pretensões de governar, eram também ridículas. O pai de Clifford, sir Geoffrey, era bastante ridículo a deitar abaixo as árvores e a expulsar os homens da mina de carvão para os mandar para a guerra, sendo ele tão prudente e patriota, e ao mesmo tempo gastando mais dinheiro do que possuía para bem da pátria.
Quando miss Chatterley chegou a Londres, vinda dos Midlands, para trabalhar como enfermeira, era discretamente muito espirituosa quando falava de sir Geoffrey e do seu patriotismo decidido. Herbert, o irmão mais velho e herdeiro, ria abertamente, embora fossem as suas árvores que caíssem para fazer as trincheiras da propriedade, mas Clifford só sorria, um pouco constrangido. De facto, tudo é ridículo, mas quando nos começa a tocar de mais perto tornamo-nos também ridículos... Pelo menos, pessoas de outra classe, como Connie, eram honestas em alguma coisa, acreditavam em alguma coisa». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.

Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT