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sábado, 9 de novembro de 2019

Um Arcebispo Maiato na Independência de Portugal. Joaquim José M. Santos. «Nas inquirições de Afonso II (1220), as terras concorrem com termos e julgados. Mas, nas inquirições de Afonso III (1258), só aparecem os julgados»


Cortesia de wikipedia e jdact

Portugal: do Condado ao Reino
«(…) O facto de o arcebispo de Toledo estar também interessado na primazia eclesiástica, com o aumento da influência de São Tiago de Compostela, na Hispânia também favoreceu a autonomia portucalense.

A Maia
Admitindo como válida a conclusão de que o vocábulo MAIA provém de madequia madeia madia, a Maia, circunscrição territorial, situada no Condado Portucalense. Desde o Parochiale Suevicum ou Divisio Theodomiri, a província da antiga Galécia (do rio Douro à costa cantábrica) dividia-se em duas dioceses (Braga e Lugo). As dioceses dividiam-se em paróquias. As invasões muçulmanas (século VIII) perturbaram a normalidade desta situação, sobretudo em relação aos bispos, que se ausentaram das suas dioceses, refugiando-se no norte. Com a reconquista, estabelecem-se os condados: Condado Portucalense (868), Condado Conimbricense (878) e outros. Nos documentos do século XI, o território (territorium) funciona como a principal e mais vasta referência toponímica, para situar igrejas (basilicae), casais e herdades: territorium Portucalense, territorium Bracharense, territorium Conimbricense, territorium Anegia… O rei Fernando Magno promove a organização do espaço geográfico-administrativo em terras, referenciadas a um castelo principal, unidade militar de defesa das populações locais e dos seus bens. Assim, nos meados do século XI, nasceu a Terra da Maia, sendo entregue a sua administração aos senhores da Maia. Soeiro Mendes da Maia, o Bom, foi a figura mais ilustre desta linhagem.
Nas inquirições de Afonso II (1220), as terras concorrem com termos e julgados. Mas, nas inquirições de Afonso III (1258), só aparecem os julgados. A segunda alçada começa os seus inquéritos pelos julgados da anterior terra da Maia: a primeira freguesia a ser inquirida é a de São João da Foz do Douro do Julgado de Bouças; os inquiridores passam ao Julgado da Maia, de Refojos de Riba de Ave e de Gondomar (e outros). Os julgados da Maia, de Bouças, de Refojos de Riba de Ave e de Gondomar cobriam a administração civil da Terra da Maia, com dois funcionários: o juiz da Maia, administrador judiciário, e o mordomo da Maia, administrador fiscal (a administração local do que ficou na história como terra da Maia, depois do domínio muçulmano, passou dos condes do primeiro Condado Portucalense para o infanção, rico-homem terra-tenente, da linhagem da Maia; depois, foi entregue a dois magistrados, o juiz e o mordomo do Julgado da Maia; e, finalmente, coube a administração ao concelho da Maia entidade que ainda se conserva. A unidade territorial e administrativa do concelho foi sujeita à sanha da política liberal, sendo retalhada e até extinta desde 10 de Dezembro de 1857 até 14 de Janeiro de 1868).

Os limites da Maia. A Maia primitiva situava-se entre a Foz do Douro e a Foz do Ave e entre a foz do Sousa e Santo Tirso. Uma linha ideal entre a foz do Sousa e Santo Tirso passava pelos cumes de Santa Justa, em Valongo, da serra da Agrela e de Monte Córdova. Este quadrado litoral foi sempre reduzido, até à extinção do concelho, decretada pelos liberais: de 10 de Dezembro de 1857 a 14 de Janeiro de 1868 (durante dez anos, um mês e quatro dias). Foi então ressuscitado o concelho da Maia, com o território actual.

Os Mendes da Maia
Os Mendes da Maia constituíam uma família radicada na terra da Maia, desde o século X. A lenda de Gaia, ou do rei Ramiro II, toma a cabeceira desta narrativa. Mas Aboazar Lovesendes é o seu antepassado remoto mais conhecido (segunda metade do século X). Ele e a esposa, Unisco Godins, decidiram fundar o mosteiro de Santo Tirso, em 978 (o mosteiro foi fundado por Unisco Godins e seu marido Abunazar Lovesendes, considerado como o primeiro senhor da Maia e ancestral desta família, em 978, conforme documento publicado por António Caetano de Sousa). Ao filho Trastemiro Abunazar, sucedeu, na família, Gonçalo Trastemires, que conquistou Montemor-o-Velho aos Mouros, em 1034; e viria a ser morto em Avioso, em 1038. Gonçalo Trastemires tinha casado com Unisco Sisnandes, proprietária do mosteiro de Lavra (o mosteiro de Lavra foi herdado pela filha Gontrode Gonçalves, falecida em 1114). O sucessor do antecedente, Mendo Gonçalves, foi tido como uir illustris et magne potentie in toto Portugal o varão ilustre e de grande poder em todo o Portugal (o papa Pascoal II concedeu a categoria de arcebispo a São Geraldo, que em Braga reuniu para se assumir os ritos litúrgicos romanos, em desfavor dos ritos moçárabes, até então em uso: in quo convento presens adfuit prepotens et nobilissimus omnium portugalensium Suarius Menendiz, heres ac potius dominus et defensor supra dicti monasterii, coram cuius archiepiscopus tulit supra dictam cartam que post juramentum pueri fuerat inventa, na qual reunião esteve presente o mais poderoso e nobre de todos os portucalenses…; documento do mosteiro de Santo Tirso, de 1092). Mendo Gonçalves da Maia tem as terras de Refojos de Riba de Ave e de Vermoim. Deixa esta última a outras famílias, mas transmite a da Maia em linha recta a Soeiro Mendes, este a Paio Soares, este a Pêro Pais e este a João Pires (esta série de sucessores, na família da Maia, ainda não cobre o problema gerado pela homonímia dos Soeiros Mendes. É que entre Soeiro Mendes da Maia, o Bom, e o neto, Soeiro Mendes da Maia, irmão de Gonçalo Mendes da Maia e de Paio Mendes da Maia, arcebispo de Braga, situa-se Mendo Soares, que faleceria muito novo e estaria na dependência económica do pai, in José Mattoso)». In Joaquim José M. Santos, Um Arcebispo Maiato na Independência de Portugal, Revista da Maia, Nova Série, Ano II, Número 1, Janeiro/Junho 2017, ISSN 2183-8437.

Cortesia da CMMaia/Revista Maia/JDACT

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Um Arcebispo Maiato na Independência de Portugal. Joaquim José M. Santos. «1139 (25 de Julho). A batalha de Ourique simboliza a vitória sobre a hegemonia dos mouros, no sul de Portugal, que só viria a concluir-se em 1249»

Cortesia de wikipedia e jdact

Portugal: do Condado ao Reino
«Da presúria do Porto (868) resultou a formação do primeiro Condado Portucalense, sob a chefia do presor Vímara Peres, que se acantonou na área da futura Guimarães. A derrota do seu derradeiro sucessor, Nuno Mendes, em 1071, em Pedroso, junto a Braga, deixou vazio o Condado Portucalense, até ao conde dom Raimundo (1092). Sucedeu-lhe o primo, o conde dom Henrique (1096-1112), que casou com Teresa, filha bastarda de Afonso VI de Leão e Castela e de Ximena Moniz Bierzo. Após a morte do marido (1112), a condessa dona Teresa assumiu o governo portucalense, até à sua derrota, na batalha de São Mamede, em Guimarães, a 24 de Junho de 1128. Durante o governo do Infante dom Afonso Henriques, o Condado vai converter-se em Reino, primeiro reconhecido pela sua cúria e pelo seu exército, com a vitória de Ourique (25 de Julho de 1139), depois, pelo rei de Leão e Castela, no Tratado de Zamora (1143) e, finalmente, pelas instâncias internacionais, com a bula Manifestis Probatum, do papa Alexandre III (1179).
Em 1086, devido às boas relações que Afonso VI, rei de Leão e Castela, tinha com dom Hugo, o abade de Cluny, veio participar na luta pela reconquista cristã, na Península Ibérica, o conde francês Raimundo de Borgonha. Em 1092, Afonso VI, concedeu o governo da Galiza ao conde Raimundo, aliás já seu genro desde 1090, devido ao casamento deste com a filha legítima do rei Afonso VI, dona Urraca. Estabeleceu-se, assim, uma relação de suserania, que controlava as pretensões autonomistas da Galiza, como havia acontecido, em 1087, com a revolta do conde local Garcia Oveques. Para se entender a razão da formação do Condado Portucalense, deve igualmente analisar-se a questão da volatilidade da posse do espaço físico do território, sujeito aos resultados de vitórias ou derrotas entre as forças cristãs e mouras e das famílias emergentes, como os senhores da Maia.
Em 1093, o rei de Badajoz colocou-se sob a protecção de Afonso VI, de Leão, entregando-lhe Santarém, Lisboa e Sintra. Logo no ano seguinte, esses territórios foram perdidos pelos cristãos. Parece lógico que a Afonso VI de Leão se tenha colocado a questão de nova descentralização de poder, com o fim de uma maior e mais eficaz consolidação dos territórios conquistados aos mouros. E assim, em 1096, concedeu ao conde  Henrique o governo do Condado Portucalense, associado ao casamento realizado, no ano anterior, com sua filha ilegítima, dona Teresa. A doação do Condado foi a título hereditário, isto é, sem restituição após a morte dos titulares. Nessa altura, os limites do Condado confinavam-se, a sul, em Coimbra e, a norte, no Rio Minho. O espírito de autonomia do conde Henrique mudou de direcção durante o governo da esposa, dona Teresa. A corte dela ficou rodeada de fidalgos galegos, sob a estratégia de Fernão Peres Trava. A esta circunstância negativa para a autonomia portuguesa, juntaram-se as ambições do arcebispo de Compostela, Diego Gelmirez. Esta nova corrente política gerou uma forte oposição por parte dos grandes nobres portucalenses, que ergueram, como bandeira da recuperação da sua importância, os direitos do Infante Afonso Henriques. Em conjunto com o Infante, formou-se um exército, para pôr em prática o projecto de autonomia do Condado Portucalense, quer face ao poderio galego, quer às aspirações de Leão e Castela.
A família da Maia tomou o lugar da dianteira no programa de autonomia do Condado Portucalense, embrião do Reino livre de Portugal. Como atrás apontámos, o processo de autonomia de Portugal, que transformou o Condado Portucalense em Reino de Portugal, desenrolou-se em quatro momentos cruciais, na superação do confronto de poderes:

(a) 1128 (24 de Junho). A batalha de São Mamede assegurou a autonomia do Condado Portucalense, face à ingerência da nobreza galega. Trata-se do reconhecimento local e Regional; o condado portucalense autonomiza-se da Galiza do Norte, representada pelo arcebispo de Compostela, Diogo Gelmires (poder religioso), e por Fernão Peres Trava
(poder político);
(b) 1139 (25 de Julho). A batalha de Ourique simboliza a vitória sobre a hegemonia dos mouros, no sul de Portugal, que só viria a concluir-se em 1249, com a conquista definitiva do Algarve; trata-se do reconhecimento interno do Reino de Portugal;
(c) 1143 (5 de Outubro). O tratado de Zamora reconheceu o Reino de Portugal como um entre outros reinos na Península Ibérica. Trata-se do reconhecimento ibérico: mais um reino entre reinos ibéricos;
(d) 1179 (23 de Maio): E, finalmente, a bula papal Manifestis Probatum concluiu o processo do reconhecimento internacional da autonomia do Reino de Portugal. Trata-se de reconhecimento internacional.

Em torno da família da Maia, conhecedora da importância simbólica do Infante Afonso Henriques, foi planificado e executado um programa eficaz, que conduziu à vitória de São Mamede, em Guimarães (1128), e à autonomia definitiva do Condado Portucalense, embrião do Reino de Portugal». In Joaquim José M. Santos, Um Arcebispo Maiato na Independência de Portugal, Revista da Maia, Nova Série, Ano II, Número 1, Janeiro/Junho 2017, ISSN 2183-8437.

Cortesia da CMMaia/Revista Maia/JDACT