quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «… a mulher vinda de Lisboa com o bebé de surpreendentes íris verdes para viajar com ele para o mato, sua boca quase mulata a sorrir comestível na almofada»

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«(…) Havia ainda uma quarta espécie, a das criaturas, que englobava cabeleireiras, manicuras, dactilógrafas e enteadas de sargentos, as quais rondavam os homens da tribo tecendo à sua volta uma pecaminosa teia de soslaios magnetizadores. As «riaturas não se casavam: registavam-se, não iam à missa, não se afligiam com o ingente problema da conversão da Rússia: consagravam as suas existências demoníacas a prazeres que eu entendia mal em terceiros andares sem elevador de onde os meus tios regressavam à socapa risonhos de juventude recuperada, enquanto as fêmeas do clã, na igreja, se dirigiam para a comunhão de olhos fechados e língua de fora, camaleões prontos a devorarem os mosquitos das hóstias numa gula mística. De vez em quando, a meio da refeição, se o psiquiatra, então garoto, mastigava de boca aberta ou pousava os cotovelos na toalha, o avô apontava para ele o indicador definitivo e profetizava cavernosamente: hás-de acabar nas mãos da cozinheira como o peru.
E o tremendo silêncio que se seguia avalizava com o seu selo branco a iminência dessa catástrofe. Responda, ordenou o colega. Vê-se a comer à mesa com um carpinteiro? O médico tornou a ele no esforço de quem ajusta a imagem de um microscópio desfocado: do alto de uma pirâmide de preconceitos quarenta gerações burguesas contemplavam-no. Porque não?, disse ele desafiando os cavalheiros de pêra e as damas de abundante busto boleado ao torno que se tinham trabalhosamente cruzado entre si, num crochet complexo, atrapalhados pelos suspensórios e pelas barbas do corpete, para produzirem, ao cabo de um século de deveres conjugais, um descendente capaz de revoltas tão impensáveis como a de uma dentadura postiça que pulasse do copo de água em que sorria à noite para morder o próprio dono. O colega recuou dois passos, siderado: porque não? Porque não? Homem, você é um anarquista, um marginal, você pactua com o Leste, você aprova a entrega do Ultramar aos pretos. Que sabe este tipo de África, interrogou-se o psiquiatra à medida que o outro, padeira de Aljubarrota do patriotismo à Legião, se afastava em gritinhos indignados prometendo reservar-lhe um candeeiro da avenida, que sabe este caramelo de cinquenta anos da guerra de África onde não morreu nem viu morrer, que sabe este cretino dos administradores de posto que enterravam cubos de gelo no ânus dos negros que lhes desagradavam, que sabe este parvo da angústia de ter de escolher entre o exílio despaisado e a absurda estupidez dos tiros sem razão, que sabe este animal das bombas de napalm, das raparigas grávidas espancadas pela Pide, das minas a florirem sob as rodas das camionetas em cogumelos de fogo, da saudade, do medo, da raiva, da solidão, do desespero? Como sempre que se recordava de Angola um roldão de lembranças em desordem subiu-lhe das tripas à cabeça na veemência das lágrimas contidas: o nascimento da filha mais velha silabado pelo rádio para o destacamento onde se achava, primeira maçãzinha de oiro do seu esperma, longas vigílias na enfermaria improvisada debruçado para a agonia dos feridos, sair exausto a porta deixando o furriel acabar de coser os tecidos e encontrar cá fora uma repentina amplidão de estrelas desconhecidas, com a sua voz a repetir-lhe dentro. Este não é o meu país, este não é o meu país, este não é o meu país, a chegada às quartas-feiras do avião do correio e da comida fresca, a subtil e infinitamente sábia paciência dos luchazes, o suor do paludismo a vestir os rins de cintas de humidade pegajosa, a mulher vinda de Lisboa com o bebé de surpreendentes íris verdes para viajar com ele para o mato, sua boca quase mulata a sorrir comestível na almofada. Nomes mágicos: Cuíto-Cuanavale, Zemza do Itombe, Narriquinha, a Baixa do Cassanje coberta pelas altas pestanas dos girassóis em manhãs limpas como ossos de luz, bailundos empurrados a pontapé para as fazendas do norte, São Paulo de Luanda imitando o Areeiro encostado à valva da baía. Que sabe este palerma de África, interrogou-se o psiquiatra, para além dos cínicos e imbecis argumentos obstinados da Acção Nacional Popular e dos discursos de seminário das botas mentais do Salazar, virgem sem útero mascarada de homem, filho de dois cónegos explicou-me uma ocasião uma doente, que sei eu que durante vinte e sete meses morei na angústia do arame farpado por conta das multinacionais, vi a minha mulher a quase morrer do falciparum, assisti ao vagaroso fluir do Dondo, fiz uma filha na Malanje dos diamantes, contornei os morros nus de Dala-Samba povoados no topo pelos tufos de palmeiras dos túmulos dos reis Jingas, parti e regressei com a casca de um uniforme imposta no corpo, que sei eu de África? A imagem da mulher à espera dele entre as mangueiras de Marimba pejadas de morcegos aguardando o crepúsculo apareceu-lhe numa guinada de saudade violentamente física como uma víscera que explode. Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Os polícias, ocupados a transportarem o ajudante de notário num cuidado de moços de fretes carregando um piano esquisito que tocava sem cessar a sonatina crivada de notas erradas do seu delírio…»

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«(…) Passou o gabinete do dentista despovoador de gengivas a lutar aos ganidos contra um molar tenaz, e julgava-se já miraculosamente intacto na Urgência, porta de vidro fosco que lhe acenava como a bandeira de pano da chegada de uma corrida de bicicletas, quando um dedo perverso lhe tocou imperioso no intervalo das omoplatas, ossos salientes e triangulares que atestavam pela forma o seu passado de anjo oculto sob a fazenda do casaco num modesto pudor de origens divinas, como os bem-nascidos arrotam no fim do almoço por benévola concessão social a um mundo de silvas.
Meu caro, questionou uma voz nas costas dele, que me diz à conspiração dos comunistas?
Os polícias, ocupados a transportarem o ajudante de notário num cuidado de moços de fretes carregando um piano esquisito que tocava sem cessar a sonatina crivada de notas erradas do seu delírio de grandeza, abandonaram vilmente o médico junto ao arquivo onde habitava uma dama míope, de óculos da espessura de pisa-papéis, que lhe aumentavam os olhos até às proporções de hirsutos insectos gigantescos cercados de enormes patas de pestanas, à mercê de um colega baixinho à deriva no lago de cheviote do sobretudo, de chapéu tirolês cravado na cabeça à maneira de uma rolha num gargalo no intuito vão de impedir a tempestuosa fuga de bolhinhas gaseificadas das suas ideias. O colega trouxe à superfície o gancho de mão e em vez de acenar por socorro dependurou-se-lhe da gravata como um náufrago impaciente abraçado por engano a uma cobra de água azul com pintas brancas que se lhe desfazia no punho numa inércia mole de atacador. O psiquiatra pensou que toda a gente nesse dia o queria separar de um dos últimos presentes que a mulher lhe dera no desejo inútil de melhorar a sua aparência de noivo de província congelado numa postura hirta de fotografia de feira: desde a adolescência que trazia consigo, colado à assimetria das feições, o ar postiço e triste dos mortos de família nos álbuns de retratos, de sorrisos diluídos pelo iodo do tempo. Meu amor, falou dentro de si mesmo apalpando a gravata, sei que isto não alivia nem ajuda mas de nós dois fui eu o que não soube lutar: e vieram-lhe à memória longas noites na praia desfeita dos lençóis, a sua língua desenhando devagar contornos de seios iluminados de uma rede de veias pela primeira luz da aurora, o poeta Robert Desnos a agonizar de tifo num campo de prisioneiros alemão murmurando É a minha manhã mais matinal, a voz de John Cage a repetir Every something is an echo of nothing, e a forma como o corpo dela se abria em concha para o receber, vibrando tal as folhas dos cumes dos pinheiros agitados por um vento invisível e tranquilo. O colega pequenino, com a pluma do chapéu tirolês a oscilar à laia de agulha de um contador Geiger que encontrasse minério, obrigou-o a encalhar numa esquina de parede, caranguejo doente filado pela teimosia de um camaroeiro tenaz. Os membros pulavam no sobretudo movimentos brownianos sem objectivo definido de moscas na mancha de sol de uma cave, as mangas multiplicavam-se em gestos consternados de orador sacro: os gajos avançam, hã, os comunistas?
Na semana anterior o médico vira-o procurar de cócoras microfones do KGB ocultos sob o tampo da secretária, prontos a transmitirem para Moscovo as decisivas mensagens dos seus diagnósticos. Avançam, garanto-lhe eu, balia o colega a rodopiar de inquietação. E esta choldra, a tropa, o zé-povinho, a igreja, ninguém se mexe, borram-se de medo, colaboram, consentem. Por mim (e a minha esposa sabe) o que me entrar em casa leva um tiro de caçadeira pelos cor… Olarila. Você já leu os cartazes que puseram no corredor com o retrato do Marx, o Catitinha da economia, a despejar as suíças em cima da gente? E chegando-se mais, confidencial: eu topo que você anda lá por perto se é que não alinha com a cambada, mas pelo menos lava-se, é correcto, o seu pai é professor da Faculdade. Conte-me cá: vê-se a comer à mesa com um carpinteiro? Na minha infância, pensou o psiquiatra, as pessoas escalavam-se em três categorias não miscíveis rigorosamente demarcadas: a das criadas, dos jardineiros e dos choferes, que almoçavam na cozinha e se levantavam à sua passagem, a das costureiras e das senhoras de tomar conta, com direito a mesa à parte e à consideração de um guardanapo de papel, e a da Família, que ocupava a sala de jantar e velava cristãmente pelos seus mujiques (pessoal, chamava-lhes a avó) oferecendo-lhes roupa usada, fardas, e um interesse distraído pela saúde dos filhos». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente»

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Pic de Soularac. Montes Sabarthés
(…) Um pilar de fogo em movimento, branco, dourado e vermelho, vergando-se em todas as direcções, mudando constantemente de forma. Por instinto, Alice ergue as mãos para proteger o rosto do calor intenso, embora não consiga senti-lo. Pode ver rostos presos nas chamas que dançam, bocas contorcidas em silenciosa agonia enquanto o fogo as acaricia e devora. Alice tenta parar. Precisa parar. Os seus pés estão feridos e sangrando, a sua longa saia está molhada, atrapalhando os seus movimentos, mas quem a persegue está logo atrás dela e algo além de seu controle a está conduzindo para o abraço fatal do fogo. Ela não tem outra escolha senão pular, para evitar ser consumida pelas chamas. Lança-se no ar em espiral como uma coluna de fumaça, flutuando bem alto acima dos amarelos e laranjas. O vento parece sustentá-la, liberando-a da terra. Alguém está chamando o seu nome, uma voz de mulher, embora a pronúncia seja estranha. Alaïs. Ela está segura. Livre.
Então sente a conhecida pressão de dedos frios nos seus tornozelos, prendendo-a ao chão. Não, não são dedos, são correntes. Alice então percebe que está segurando alguma coisa nas mãos, um livro, fechado por tiras de couro. Entende que é aquilo que ele quer. Que eles querem. Ê a perda desse livro que os deixa zangados. Se ao menos ela conseguisse falar, talvez pudesse fazer um acordo. Mas sua cabeça está vazia de palavras, e a sua boca é incapaz de falar. Ela debate-se, chuta tentando escapar, mas está presa. A pressão inflexível nas suas pernas é forte demais. À medida que é arrastada de volta para o fogo, ela começa a gritar, mas tudo é silêncio. Ela grita de novo, sentindo a voz lutar bem dentro de si para ser ouvida. Dessa vez, o som sai num jacto. Alice sente o mundo real voltar a toda velocidade. Som, luz, cheiro, o gosto metálico do sangue na sua boca. Até que, por uma fracção de segundo, ela pára, subitamente, envolta por um frio translúcido. Não é o frio conhecido da caverna, mas algo diferente, intenso e brilhante. Dentro dele, Alice consegue distinguir com dificuldade o turvo contorno de um rosto, bonito, indistinto. A mesma voz torna a chamar seu nome.
Alaïs.
Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente.
O sonho começa a se dissipar, libertando-a. Hora de acordar. Preciso acordar. Então ouve outra voz na sua cabeça, diferente da primeira. A sensação retorna aos seus braços e pernas, os seus joelhos esfolados ardendo e a sua pele arranhada e dolorida no ponto onde ela caiu. Pode sentir alguém segurar o seu ombro com força, sacudindo-a de volta à vida. Alice! Alice, acorde!

A Cité na Colina. Carcassone. 1209
Alaïs acordou sobressaltada, arregalando os olhos. O medo pulava no seu peito como um passarinho preso numa rede que luta para se libertar. Ela apertou as costelas com as mãos para sossegar o coração disparado. Por um instante, não ficou nem dormindo nem acordada, como se alguma parte dela mesma houvesse sido deixada para trás no sonho. Sentiu que flutuava, e olhava para si mesma de uma grande altura, como as gárgulas de pedra que faziam caretas para os passantes do telhado da catedral de Sant-Nasari. O quarto tornou a entrar em foco. Ela estava sã e salva na sua própria cama, no Château Comtal. Gradualmente, os seus olhos foram-se acostumando ao escuro. Estava a salvo das pessoas magras, de olhos negros que a assombravam à noite, seus dedos afiados arranhando-a e puxando-a. Elas não podem alcançar-me agora. A linguagem esculpida nas pedras, mais imagens do que palavras, que nada significava para ela, tudo se dissolveu como colunas de fumaça no ar outonal. O fogo também se tinha apagado, deixando apenas uma lembrança na sua mente. Uma premonição? Ou apenas um pesadelo?
Ela não tinha como saber. Tinha medo de saber. Alaïs estendeu a mão para as cortinas penduradas ao redor da cama, como se ao tocar algo concreto ela própria fosse se sentir menos transparente e abstrata. O tecido surrado, repleto da poeira e dos cheiros conhecidos do castelo, reconfortou-a com a aspereza sob seus dedos». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.
                                                                              
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «Tenho fé no Senhor, e amarás um cavaleiro. Tremerão os alicerces do convento. Que o cavaleiro corra do convento ao bordel…»


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«(…)
Gabrielle de Strées
Amante de Henrique IV, morreu em 1599. Sabe-se que ela tentou casar com o rei. Estava grávida pela quarta vez, e vivia na casa de Zamet, famoso homem da finança... Quando passeava no jardim, teve um grave ataque de coração. Passou uma má noite, e no dia seguinte foi acometida de tão assustadoras convulsões que ficou completamente negra e a sua boca torceu-se tanto que ficou na nuca. Expirou no meio de grandes tormentos e horrorosamente desfigurada... Várias pessoas atribuíram ao diabo este acto caridoso. Diziam que o diabo a estrangulara para evitar um escândalo e mais incómodos.

E o que faremos, madre Abadessa, que faremos?
Não houve pão para nós à mesa dos homens.
Se todos os corpos fossem para casamento, baixaria
A valorização do dinheiro, equilibra-se a procura
Com o convento, enfeita-se no bordel o tédio
Para uso. Sem senhores, nem cavaleiros, nem
Bordel, nem convento. Os homens
Dividem-se em homens
E senhores. Mas das mulheres todos os homens
São senhores. Nas casas
De senhores, e homens,
E cavaleiros, damos-lhe o sentido porque opostamente
Se definem. Damos-lhe o alicerce e a espessura; fora
Destas casas erraremos. Nenhuma casa
É nossa. Ninguém é nosso irmão ou irmã. De irmandade
Só o convento. De solidariedade
Ninguém, casadas e vendidas de nós próprias.
Não houve pão para nós à mesa dos homens.

Cecília
Pelos meados do século dezasseis, uma mulher chamada Cecília atraiu as atenções em Lisboa. Possuía a arte de modular a sua voz de tal forma que esta parecia sair do seu cotovelo, às vezes, outras vezes dos seus pés, ou ainda de um sítio que seria impróprio nomear. Ela mantinha uma conversa com um ser invisível..., que respondia a todas as suas perguntas. A mulher foi reputada de bruxa e de possessa do diabo; contudo, como graça especial, em lugar de ser queimada, foi apenas exilada para sempre na ilha de S. Tomé, onde morreu em paz.

E o que faremos, Madre Abadessa, que faremos?
Dir-te-ei que faremos com corpo
E com cavaleiro. Nossa paixão será o corpo
E exercício o mundo, e objecto
O cavaleiro. Nosso corpo forte
Ao cavaleiro daremos, à noite, mas o corpo
Do cavaleiro tomaremos. A troca
Será rompida na madrugada.
Diremos Cavaleiro, quero o meu corpo para que eu possa
Seguir o meu dia. Chamar-te-ão
Amazona. Mas não corras
O mundo até ao inferno. No convento
Amarás o cavaleiro. E disso darás testemunho
E pedirás justiça. Na casa de cavaleiro marido
Amarás cavaleiro amante. E disso darás
Testemunho, e pedirás justiça
E dar-te-ão convento. No bordel dirás
Tenho fé no Senhor, e amarás
Um cavaleiro. Tremerão os alicerces
Do convento. Que o cavaleiro corra
Do convento ao bordel, e daí
À sua casa, sem nunca te encontrar
A ti fugida na tua paixão».

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Achei que essa fosse a sua função, disse Drake. Walsingham ficou mais tenso e disse: faço o melhor que posso com o que está ao meu dispor»

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Isabel. Maio de 1588
«(…) Toda a frota?, perguntou Charles Howard. Isso nos deixaria desprotegidos. Se a Armada conseguir escapar, entrará aqui sem resistência alguma, afirmou, arqueando as sobrancelhas para expressar a sua preocupação. Charles era um homem calmo, diplomático, que conseguia lidar com personalidades difíceis, o que fazia dele um alto comandante ideal. Mas Drake era difícil de ser controlado e acalmado. Nós os encontraremos, disse. E, quando o encontrarmos, não poderemos ter poucos navios. Robert Dudley, conde de Leicester naquele ambiente formal, irritou-se com a afirmação e disse: preocupa-me mandar todos os navios de uma só vez. V parece uma velhota falando!, bradou Drake. Então somos duas velhotas, disse Knollys. Ele era reconhecidamente cauteloso e tinha muitos escrúpulos. Se fosse um monge, usaria uma camisa de silício com frequência para punir a si mesmo. A sua militância pelo protestantismo foi um bom substituto. Somos três, disse Burghley, unindo-se aos demais. William Cecil sempre defendeu uma estratégia defensiva, tentando manter tudo dentro das fronteiras inglesas. Tudo depende de recebermos informações precisas sobre quando a Armada sairá de Lisboa, disse o secretário Walsingham. Caso contrário, será um risco inútil e perigoso.
Achei que essa fosse a sua função, disse Drake. Walsingham ficou mais tenso e disse: faço o melhor que posso com o que está ao meu dispor. Mas não há meios para transmissão instantânea de notícias. Os navios são mais rápidos do que meus mensageiros. Ah, posso ver portos distantes, disse Drake com uma risada.
V não sabia disso? Sei que os espanhóis creditam a El Draque, o dragão, esse feito, disse Walsingham. Mas eles são ingénuos e simplórios em geral. Concordo! Chega dessa conversa. Quais são as outras opções de defesa? Proponho dividirmos a frota em duas: esquadrão oeste para vigiar a entrada do Canal e esquadrão leste para vigiar o estreito de Dover, explicou Charles Howard. Sei qual é o plano do inimigo, disse Drake, interrompendo Charles. A Armada não está vindo para lutar. O exército de Parma de Flandres fará isso, a Armada os escoltará pelo Canal. Vão vigiar os barcos cheios de soldados a fim de encurtar a travessia. São somente trinta e poucos quilómetros. O exército inteiro poderia fazer a travessia entre oito e doze horas. Esse é o plano deles! Drake bradou, olhando em redor com os olhos claros penetrando nas dúvidas dos conselheiros, e continuou a argumentar: devemos desarmar a frota. Devemos impedi-los de aportar na Costa de Flandres. Os nossos aliados holandeses nos ajudarão. Eles já vêm impedindo Parma de conseguir um porto para ancorar há anos e podem atrapalhar quando tentarem usar os canais menores. A imensa frota da Armada, destinada a assegurar uma travessia segura, pode ser também a sua ruína.
Ele fez uma pausa e continuou a dizer: claro que um plano alternativo seria conquistar a Ilha de Wight do nosso lado do Canal e construir uma base lá. Mas, se passarem por ela, só avistarão um porto novamente quando chegarem a Calais. O nosso papel é apressá-los. Isto é, obviamente, supondo que consigam chegar lá. Agora, se seguirmos o meu plano original para interceptá-los... Levantei a mão para calá-lo por um instante e disse: mais tarde. Por enquanto temos que decidir a implantação dos nossos recursos gerais. Assim, almirante Howard, V recomenda dois esquadrões separados de navios? Não seria melhor posicioná-los todos na entrada do Canal?» In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Procurai a Minha Face. John Updike. «A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com a sua entrecortada voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direcção de Hope…»

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«Deixe-me começar lendo para V, diz a jovem vestida de preto, uma figura esguia, sentada tensa e empertigada na beira da espreguiçadeira de um tecido xadrez grosseiro e desbotado, os braços de carvalho cor de laranja envernizados, que Hope conheceu inicialmente no solário em Germantown, onde seu avô se instalava para ler o jornal, com a cabeça reclinada para trás para usufruir as vantagens das grossas bifocais, sim, isso há mais de setenta anos, uma declaração sua tirada do catálogo ds sua última exposição, em 1996. Quando criança Hope sentava-se na cadeira tentando sentir como era ser adulta, apoiando seus pequenos cotovelos nos braços largos, espalhando os dedos, um anel de gordura em volta de cada articulação, na ponta da cavilha, que era encaixada no braço ligeiramente curvo, uma espécie de cunha de madeira com uma barra, a extremidade do assento fixando a cavilha. Os braços da cadeira eram separados demais para ela apoiar mais de um cotovelo e uma mão ao mesmo tempo. Devia ter, quanto?, uns cinco, seis anos. Mesmo quando nova, na década de 1920 ou ainda antes, a cadeira devia ter sido uma coisa desajeitada, deselegante, um tipo de mobília de verão torrando no calor do fundo do solário envidraçado, com o filodendro plantado no vaso e o descanso inclinado para os pés, e a parte de cima dividida como uma torta em longas fatias de couro triangulares de diferentes cores.
Quando a morte da avó nos anos 1950 provocou, por fim, a desmancha da casa de Germantown, Hope desejou a velha cadeira e, não havendo objecção do seu bem-humorado irmão sobrevivente, trouxe-a para Long Island, onde foi colocada no andar superior, no seu assim chamado estúdio, no qual às vezes ela tentava ler junto à janela que dava para o norte, a janela corrediça que deixava penetrar o vento que vinha do estreito de Block Island, enquanto lá em baixo Zack ouvia discos de jazz, Armstrong, Benny Goodman, um arranhado Beiderbecke, alto demais; e de lá para o apartamento com Guy e as crianças na East Seventy-ninth, no quarto extra dos fundos com as suas paredes pardas, ao lado do aquecedor que estalava como um prisioneiro demente enquanto ela tentava determinar o seu próprio ritmo com o pincel carregado de tinta; e dali para Vermont, onde ela e Jerry haviam comprado e reformado uma casa e lá se enfurnado no seu último reduto na vida, uma cadeira transportada da mormacenta Pensilvânia para um clima mais frio, mais alto, todavia dificilmente incongruente nesta saleta da frente despojada, afectada, de tecto baixo, os pés dianteiros redondos da cadeira pousados sobre o tapete oval de retalhos trançados em espiral, os pés traseiros quadrados sobre as tábuas do piso colorindo o reluzente preto-avermelhado de cerejeira, os marrons, os verdes e os estreitos carmins do tecido xadrez desbotando ainda mais num tom pálido, aqui na esparsa luz montanhosa do começo de Abril. Estranho, Hope pensava, como as coisas nos seguem de lugar em lugar, mais leais que amigos de carne e osso, que nos abandonam quando morrem. A casa de Germantown tornara-se grande demais nos últimos e solitários anos da sua avó, as suas grossas paredes de pedra foram abocanhadas até os peitoris do segundo andar por um sombrio matagal, hortênsias e azevinho e um pau-rosa cujos galhos se quebravam a cada tempestade de gelo ou neve, a caiação descascando e o reboco caindo em longos fragmentos quebradiços que se perdiam entre os caules de peónias, as raízes do pau-rosa. Ela tinha adorado morar lá quando pequena, mas depois que seus pais se mudaram para Ardmore, as visitas à casa davam uma sensação estranha, a gigantesca cicuta de ramos caídos ficara sinistra, o quintal com sua relva macia com um cheiro quente e estagnado, como o ar de uma estufa, a balança que o seu activo avôzinho, a primeira pessoa cuja morte Hope conheceu, tinha pendurado no galho de uma nogueira apodrecendo, as cordas e a tábua de um jeito eternamente negligenciado que a assustava.
A jovem, uma lâmina fina e nova no velho e fofo revestimento da cadeira, lê com a sua entrecortada voz nova-iorquina, uma voz que se inclina na direcção de Hope com uma pressão de ansiedade mas também com o que parece ser, sob esta luz trémula de um período tardio da vida, uma espécie de afectação filial, por um longo tempo vivi como reclusa, temendo as muitas evidências da não existência de Deus abundantes no mundo. O mundo veio-me lentamente, é a colcha de retalhos do Diabo, colorida em vez de imaculada. Restrinjo minhas atuais telas a tons de cinza cada vez mais juntos um do outro, como que na pré-aurora, antes de a luz começar a alçar as arestas para a existência. Estou tentando, pode ser, pintar a santidade. Suponho que deveria ficar lisonjeada quando alguns críticos chamam esta de minha melhor fase, eles escrevem que finalmente me livrei da sombra do meu primeiro marido. Mas miraculosamente, pode-se dizer, parei de me importar com o que eles pensam, ou que imagem tenho aos olhos de estranhos. Fim da citação. Isso foi há cinco anos. V diria que isto ainda é verdade? Hope tenta desacelerar a jovem, arrastando a sua própria voz como se fosse um pensamento. Bastante verdade, diria eu, apesar de soar num tom de autodramatização. Talvez temer seja forte demais. Sentir horror e desgosto em relação a ter sido mais acurado, e apropriado.
Hope sente um nó na garganta com a presença dessa intrusa nervosamente agressiva, com a sua face urbana branca, suas longas mãos de unhas escuras e o seu traje dogmaticamente preto, gola preta, jaqueta de couro sintético preta com um grande zíper central, cabelos pretos presos acima das orelhas por dois pentes curvos prateados e que caíam sobre as costas como um leque solto e sedoso, e o sinistro acabamento de um calçado grosseiro de bico quadrado, os cadarços passando por uma dúzia ou mais de ilhoses como duas escadinhas pretas subindo e sendo cobertas pelas bocas largas das suas calças, as quais eram feitas de um tecido finamente canelado, um pouco brilhante, que Hope nunca viu antes, um tecido sem nome. As botas, com aquele novo tipo de salto alto, largo para os lados mas estreito no sentido do comprimento, não aparentavam ser muito confortáveis, a não ser que agora o aspecto masculino fosse considerado confortável». In John Updike, Procurai a Minha Face, 2002, Civilização Editora, 2015, ISBN 978-972-262-409-1.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

domingo, 15 de setembro de 2019

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «Ou uma cópia do famoso Pergaminho de Chinon, documento que prova que o papa Clemente V absolveu secretamente o último grão-mestre, Jacques de Molay»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
A abertura dos Arquivos
Depois pela própria importância histórica dos documentos lá guardados. Afinal, onde mais há ainda conservada uma cópia da carta de Henrique VIII ao papa Clemente VII, de 1530, pedindo a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão? Ou uma cópia do famoso Pergaminho de Chinon, documento que prova que o papa Clemente V absolveu secretamente o último grão-mestre, Jacques de Molay, e os demais líderes dos Templários, em 1308, das acusações feitas pela Inquisição (maldita) de heresia e que levou ao fim da Ordem dos Templários? É claro que, justamente pelo seu alto valor histórico, o Vaticano aproveita para levantar recursos à custa dos interessados em manter esses documentos em colecções particulares ou mesmo em acervos de bibliotecas e museus espalhados por vários países. Por exemplo, a carta de Henrique VIII teve 200 cópias produzidas e vendidas pela módica quantia de 50 mil euros, o que significou uma soma considerável para os cofres do Vaticano. O anúncio da venda das cópias da carta ganhou a imprensa internacional. Abaixo a reprodução da notícia publicada em 2009 pela BBC Brasil:

O Arquivo Secreto do Vaticano anunciou que irá publicar cópias da carta de 1530 em que nobres e religiosos ingleses pedem ao papa para anular o casamento do rei inglês Henrique VIII com Catarina de Aragão para que ele pudesse se casar com Ana Bolena. O documento original, arquivado no Vaticano com o nome de Causa Anglica, O atribulado caso matrimonial de Henrique VIII, contribuiu para desencadear o cisma entre a Igreja Anglicana e a Igreja Católica. O original e um fac-símile, a partir do qual serão feitas outras cópias, foram apresentados para a imprensa na última terça-feira, na sede do Arquivo Secreto do Vaticano. O lançamento oficial das cópias do documento está marcado para o dia 24 de Junho, durante as comemorações dos 500 anos da ascensão de Henrique VIII ao trono da Inglaterra. O texto é considerado uma das páginas fundamentais da história inglesa. Nele, 85 nobres e religiosos ingleses se dirigem ao papa Clemente VII pedindo a anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão, a primeira das seis esposas de Henrique VIII. Para se casar com Catarina, o rei da Inglaterra, que subiu ao trono em 1509, já tinha pedido uma autorização especial do pontífice, porque ela era viúva de seu irmão. A primeira cópia da carta vai ser dada ao papa Bento XVI, que deve visitar a Inglaterra até ao final do ano. As demais publicações serão vendidas a museus, institutos de cultura e coleccionadores privados. Os interessados deverão desembolsar cerca de 130 mil reais (??? no Brasil) para comprar uma das cópias e, provavelmente, comprometer-se a expô-la a um público mais amplo. Até agora, o documento podia ser visto apenas por chefes de Estado, ou outras autoridades, em visita oficial ao Vaticano. Segundo o director do Arquivo Secreto do Vaticano, monsenhor Sergio Pagano, o dinheiro arrecadado com as vendas vai ser usado para restaurar parte do acervo da instituição, um dos mais ricos do mundo.

O imaginário popular pensa que se documentos históricos tão importantes encontraram um lar na sede mundial da Igreja Católica, o que mais poderá haver por lá para precisar de ser tão bem guardado?» In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Da Inquisição à renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «No século XVII os arquivos foram retirados da biblioteca do Vaticano, até então seu local sede, e permaneceram fechados para pessoas não autorizadas até ao fim do século XIX, quando passaram a ser abertos parcialmente pelo papa Leão XIII»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
Indexação das informações
Entre 1781 e 1782, a história dos Arquivos foi dominada por Giuseppe Garampi, o principal criador, entre outras coisas, do famoso sistema de índice que leva o seu nome. Ele manteve muitas aquisições, depósitos e conseguiu muitas transferências de material, inclusive cerca de 1.300 livros da câmara. Em 1783, tudo o que ainda restava em Avignon foi levado para o Vaticano, incluindo uma série de registos chamados de Regista Avenionensia. Em 1798, os registos que estavam no Castelo Sant’Ângelo também foram transferidos para lá, e Garampi já havia assumido como arquivista do Vaticano e do castelo. Assim, o acervo foi acrescido de 81 documentos com selos de ouro, entre os quais constava um diploma de Friedrich Barbarossa ou Frederico I, sacro imperador romano-germânico (1122-1190), que datava de 1164. Em 1810, por ordem de Napoleão Bonaparte, quando da sua invasão à Itália, os arquivos foram levados para Paris e apenas voltaram para o seu local original entre 1815 e 1817, o que causou a perda de vários documentos. Quando as tropas italianas conquistaram Roma, em 1870, os arquivos encontrados fora dos muros vaticanos foram confiscados pelo então recém-nascido estado italiano, que assim formou o núcleo dos arquivos de estados de Roma.
No século XVII os arquivos foram retirados da biblioteca do Vaticano, até então seu local sede, e permaneceram fechados para pessoas não autorizadas até ao fim do século XIX, quando passaram a ser abertos parcialmente pelo papa Leão XIII. Desde então, o acervo tornou-se um dos mais importantes do mundo. Em 1892, uma parte enorme da Dataria Apostolica, um dos cinco Ufficii di Curia, órgão da cúria romana anexo à chancelaria apostólica, foi criada no século XII e extinta no século XX durante o pontificado de Pio X. Durante o século passado, bem como em partes modernas dos arquivos da Secretaria de Estado, apareceram também arquivos da secretaria de comunicados da rota romana, tribunal com lei própria, também chamado de tribunal da rota romana ou tribunal rotae romanae, que funciona como instância superior no grau de apelo junto à sé apostólica para tutelar os direitos na Igreja de várias congregações, do palácio apostólico, do primeiro Concílio do Vaticano e até de famílias ligadas à história da cúria, incluindo Borghese, Boncompagni, Rospigliosi, Ruspoli, Marescotti, Montoro, entre outras.
No ano 2000, o arquivo completo sobre o Concílio do Vaticano II foi transferido pelo papa Paulo VI (1897-1978), que abriu o acesso a cientistas e investigadores num limite além do normalmente imposto para consultas. Hoje em dia, a documentação mantida nos Arquivos Secretos está em constante crescimento e cobre cerca de 800 anos de história, de 1198 em diante, com alguns documentos isolados pertencentes aos séculos X e XI. O item mais antigo conservado pelo arquivo é o Liber Diurnus Romanorum Pontificum, um antigo livro com as declarações da chancelaria papal que remontam ao século VIII.

A abertura dos Arquivos
Talvez não haja um anúncio de maior expectativa, principalmente para o mundo dos cientistas, que a abertura total ou parcial dos Arquivos Secretos do Vaticano ao público. Imagine-se ter acesso a milhares de documentos históricos, num acervo que é comparável ao de grandes museus do mundo, como o Museu Britânico ou o Louvre, mas composto apenas e tão-somente por papéis inéditos, que não veem a luz do dia há séculos. Não é à toa que, a cada anúncio de abertura de uma parte dos Arquivos Secretos do Vaticano, o mundo noticia esse facto com destaque. O Vaticano conhece o fascínio que os seus arquivos exercem nas pessoas. Os últimos períodos de abertura foram:

Em 1966: textos do período do pontificado de Pio XI, de 1846 a 1878;
Em 1978: textos do período do pontificado de Leão XIII, de 1878 a 1903;
Em 1985: textos do período dos pontificados de Pio X, de 1903 a 1914, e de Bento XV, de 1914 a 1922.

Em 2003, o papa João Paulo II abriu a documentação referente ao arquivo histórico da Secretaria de Estado (segunda seção), que possui textos que narram as perigosas interacções do Vaticano com a Alemanha durante o nazismo. O meio académico sempre se interessou, motivo pelo qual Pio XI se manteve de certa maneira inerte à perseguição realizada contra os judeus, o que levou à especulação de que o papa teria alguma espécie de acordo secreto com Hitler. A abertura total dos Arquivos Secretos do Vaticano seria um acontecimento ímpar. Primeiro, por ter um dos acervos mais antigos e em excelente estado de conservação, graças aos esforços dos especialistas que lá trabalham, em geral ligados à Igreja ou ao próprio clero». In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Da Inquisição à renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez. «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo»

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«Considerado um dos melhores livros de literatura latina já escritos, a sua história passa-se numa aldeia fictícia e remota na América Latina chamada Macondo. Esta pequena povoação foi fundada pela família Buendía–Iguarán. A primeira geração desta família peculiar é formada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. Este casal teve três filhos: José Arcadio, que era um rapaz forte, viril e trabalhador; Aureliano, que contrasta interiormente com o irmão mais velho no sentido em que era filosófico, calmo e terrivelmente introvertido; e por fim, Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século XIX. A estes, juntar-se-á Rebeca, que foi enviada da antiga aldeia de José Arcadio e Ursula, sem pai nem mãe. A história desenrola-se à volta desta geração e dos seus filhos, netos, bisnetos e trinetos, com a particularidade de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula (que viveu entre 115 e 122 anos). Esta centenária personagem dará conta que as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estão associadas a um nome: todos os José Arcadio são impulsivos, extrovertidos e trabalhadores enquanto que os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu próprio mundo interior. Os Aurelianos terão ao longo do livro a missão de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, que foi amigo de José Arcadio Buendía. Estes pergaminhos têm encerrada em si a história dramática da família e apenas serão decifradas quando o último da estirpe estiver às portas da morte». In Wikipédia

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando-se desencravar, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. As coisas têm vida própria, apregoava o cigano com áspero sotaque, tudo é questão de despertar a sua alma.
José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível servir-se daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: para isso não serve. Mas José Arcadio Buendía não acreditava, naquele tempo, na honradez dos ciganos de modo que trocou o seu jumento e um rebanho de cabritos pelos dois lingotes imantados. Úrsula Iguaráni, sua mulher, a que contava com aqueles animais para aumentar o raquítico património doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. Muito em breve vamos ter ouro de sobra para assoalhar a casa, respondeu o marido. Durante vários meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas conjecturas. Explorou palmo a palmo a região, inclusive o fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o conjuro de Melquíades. A única coisa que conseguiu desenterrar foi uma armadura do século XV, com todas as suas partes soldadas por uma camada de óxido, cujo interior tinha a ressonância oca de uma enorme cabaça cheia de pedras. Quando José Arcadio Buendía e os quatro homens da sua expedição conseguiram desarticular a armadura, encontraram um esqueleto calcificado que trazia pendurado no pescoço um relicário de cobre com um cacho de cabelo de mulher. Em Março os ciganos voltaram. Desta vez traziam uns óculos ao alcance e uma lupa do tamanho de um tambor, que exibiram como a última descoberta dos judeus de Amsterdão. Sentaram uma cigana num extremo da aldeia e instalaram o binóculo na entrada da tenda. Mediante o pagamento cinco reais, o povo aproximava-se do binóculo e via a cigana ao alcance da mão. A ciência eliminou as distâncias, apregoava Melquíades. Dentro em pouco, o homem poderá ver um assunto em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa. Num meio-dia ardente, fizeram uma assombrosa demonstração com a lupa gigantesca: puseram um montão de seco na metade da rua e atearam fogo nele pela concentração dos raios solares». In Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, 1967, Edições dom Quixote, Colecção Ficção Universal, ISBN 978-972-206-388-3.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

sábado, 14 de setembro de 2019

Amantes de Buenos Aires. Alberto S. Santos. «Cleide tinha um volume no regaço e chamou a neta para junto de si. Raquel reparou que as mãos o afagavam como se fosse algo precioso, uma parte da avó»

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Buenos Aires, 2009
«Sempre que podia, Raquel Contreras recolhia-se no gabinete de trabalho a observar as novidades. Era um ritual que repetia desde o primeiro dia em que fora admitida na livraria El Ateneo Grand Splendid para se tornar numa simples vendedora de livros. Comovia-se cada vez que chegava um título novo dos seus autores preferidos. Afagava a capa, passava os olhos pela sinopse e abria uma página ao acaso. Lia-a e ficava a pensar no modo como o texto se relacionava com a sua própria vida e nos ensinamentos que poderia recolher para aquele dia ou para o futuro. Era algo que a avó Cleide lhe havia ensinado desde criança. Naquela manhã de Março de2009, quando desembrulhou as novidades, sentiu um aperto no estômago. Estremeceu, enfeitiçada pela capa da reimpressão da primeira edição de Cem Anos de Solidão, do autor que mais amava. A memória logo voou para aquela tarde primaveril, na casa de veraneio da avó, sobranceira ao imenso rio da Prata. Quando não lia, a avó Cleide, já muito entrada na idade, passava horas a fio a olhar para o imenso lago salgado, o rio que, afinal, era estuário, como se esperasse que ele lhe trouxesse respostas a algo que a vida não revelara. Pensou na avó e naquele momento que gravara para sempre na memória. Fechou os olhos e recordou-o, com saudade
Cleide tinha um volume no regaço e chamou a neta para junto de si. Raquel reparou que as mãos o afagavam como se fosse algo precioso, uma parte da avó. Acabei de ler este livro. Gostaria de oferecer-to, minha querida. A neta pressentiu que os olhos da avó lutavam para reprimir que a emoção transbordasse em lágrimas. De que fala esse livro, avó? Da solidão, como revela o título. A solidão é uma doença que, quando ataca, nos impede de ser completos e felizes. Imagina uma família inteira, geração atrás de geração, condenada a sofrer deste mal, explicou a anciã, com a voz trémula Raquel pegou no livro com delicadeza. Tratava-se da mítica primeira edição. Virou a capa e deteve-se na dedicatória escrita em letra elegante e firme: Para Cleide, com afecto, para que nunca sintas as dores da solidão nem ouses viver mais de cem anos. Naquele momento, apetecera-lhe interrogar a avó com a pergunta que lhe queimava a garganta: se ela também sofria ou sofrera de solidão, apesar de nunca a ter visto isolada de gente. Família e amigos balanceavam habitualmente, e muitos, à sua volta. Gostaria ainda de saber porque Gabriel García Marquez lhe escrevera tão estranha dedicatória. Mas não o fez, e arrependeu-se para sempre de não lhe ter perguntado. Desde os primórdios da infância, Raquel achava que a avó escondia um grande segredo, um mistério insondável, como o dos Buendía, a gente que povoava o livro que a anciã ternamente lhe oferecera naquele momento e cuja memória não mais se lhe apagara. Abre ao acaso, minha filha! Vamos lá ver o que dá...

O sobressalto de Raquel na sala da livraria El Ateneo não podia ser maior. Cheirou o papel e acariciou a capa dura, fascinada com o galeão azul a navegar contra um bosque espectral e os lírios amarelos. Antes de o abrir numa página à sorte, fechou os olhos e lembrou-se da curta conversa, anos antes, com o seu autor, na Feira do Livro de Buenos Aires. Não mais esquecera as palavras eternas que gravara no coração durante a palestra, quando ele afirmou que a vida não era como uma pessoa a vivera, mas como ela a recordava, ou como a recordava para a poder contar. Desde esse dia, jurou que jamais aderiria aos livros electrónicos, pois não concebia uma mostra onde os volumes não se pegassem com as mãos, não entendia livros que não pudessem ser acariciados, folheados e cheirados, ou que não fossem guardados na mesinha de cabeceira, ou empilhados por vários recantos da casa. Livros que se podiam perder no metropolitano e ficar com a esperança de que tocassem o coração de quem os encontrasse. Receava ainda que o fim dos livros de papel provocasse a extinção das feiras do livro, e os autógrafos dos autores que guardava como as relíquias mais preciosas». In Alberto S. Santos, Amantes de Buenos Aires, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-003-177-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

A Maldição de Afonso II. Maria Antonieta Costa. «O rei manteve-se afastado. Nem sequer cheirastes os seus pés fedidos!, gracejou. Entre duas dores, a jovem soberana continuou, com dificuldade: se o meu primeiro filho tivesse nascido varão...»

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«Querida Toda, cessai já com esse rodopio, por favor! Fico terrivelmente agoniada só de olhar para vós..., como se não me bastasse esta dor excruciante que me trespassa as entranhas... Não olheis, senhora. Concentrai-vos na vossa bem árdua tarefa e deixai-me com a minha, respondeu-lhe a condessa, que não parava de cirandar pela alcova. Dulce fechou os olhos. Vivera sete dos nove meses daquela gravidez na penumbra dos seus aposentos privados, quase como se fosse cega. Nada de horrível poderia ser vislumbrado. Topar com um cadáver caído algures causaria a morte do feto, deparar com um ser humano feio e repugnante provocaria o mesmo efeito. As janelas haviam sido cobertas com tapeçarias de forma a bloquear ao máximo a luz do exterior, um perigo para os olhos da futura mãe. O essencial, para que a gestação fosse bem-sucedida; era manter o ventre quente, no escuro e no silêncio. No dia em que fora afastada e da convivência, o bispo de Coimbra celebrara um elaborado serviço litúrgico em que pedira a Deus a bênção para o nascimento de um varão. Depois do culto e das orações do clero, haviam-na fechado. Rigorosamente igual aos partos anteriores. Gerar um filho era um tormento! Sempre que o físico lhe dava a certeza de estar de novo prenhe, privavam-na da liberdade. E nas seis últimas semanas reduziam-lhe ainda mais o movimento, obrigando-a a permanecer deitada.
Um novo desconforto fê-la abrir os olhos, que se cravaram no tapete pendurado frente ao leito, como se fosse uma abertura para o mundo. Aquela cena de caça de volataria, uma bela paisagem bordada em tons suaves, constituíra a única visão permitida durante todo aquele tempo. Um maravilhoso azul-celeste, que preenchia grande parte da sua dimensão, era cruzado por um ágil e nobre falcão que tentava apoderar-se de uma lebre fugitiva. Era um jogo, masculino a embelezar um espaço feminino onde os homens, incluindo o rei, estavam proibidos de entrar, porque aquilo era um assunto de mulheres. De mulheres que os físicos pensavam ser homens cujo sexo não se formara convenientemente, permanecendo embutido nas entranhas, tornando-as uma versão inferior. E eram esses seres mal-acabados que pululavam pela câmara real: as amas da rainha, a parteira e serviçais.
Aaaaghhh!, gemeu dona Dulce, rebolando-se no leito. A condessa Toda Palacín continuava às voltas pelo aposento. Liderava as servas no manuseamento dos castiçais, dos panos, das caldeiras de água quente. Tinha muita experiência em partos. Com duas filhas, assistira a muitos nascimentos, inclusive ao das primeiras infantas resultantes da união entre o ainda infante Sancho, primogénito de Afonso Henriques, e Dulce de Aragão, de quem era dama de companhia, uma infanta formosa e doce, como o nome indicava. Toda!, chamou de novo a parturiente. E se for outra menina? O seu rosto e colo transpiravam suor, como se pulverizados por pequenas gotas de orvalho. Tinha a tez pálida pela exaustão de tantas horas de sofrimento, de desgaste. Mas, naquele momento, as suas pupilas, muito negras, exprimiam o receio que tal desilusão causaria ao real esposo, coroado há poucos meses, e, sobretudo, ao reino. Não! Desta vez não!, assegurou-lhe a aia em tom exaltado. O rei manteve-se afastado. Nem sequer cheirastes os seus pés fedidos!, gracejou. Entre duas dores, a jovem soberana continuou, com dificuldade: se o meu primeiro filho tivesse nascido varão..., teria agora dez anos. Sou uma má esposa...
A rainha sabia bem a importância da continuidade do poder na Península dos cinco reinos cristãos. Conflitos políticos envolviam as relações entre Portugal, Leão, Castela, Navarra e Aragão. A ascensão do califado almóada, comprometido em revigorar a hegemonia muçulmana na Ibéria, ocupava já grande parte do Al-Andalus. Sois fecunda, senhora..., sois fecunda, rematou a dama, em voz baixa, mas encorajadora. A criança já está formada, é homem e vai nascer, não tarda. E se fiz alguma coisa mal?, lastimou-se ainda». In Maria Antonieta Costa, A Maldição de Afonso II, 2019, Clube do Autor, 2019, ISBN 978-989-724-483-4.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Poesia. Matilde Campilho. «… o pássaro suspenso olhando a via rápida e catando caca debaixo da unha temendo o gira girar da pequena roda que circula sorte e azar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Explicação do sopro
«(…) Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel
porque nos lugares anónimos é muito possível ficar encosta-
do numa parede branca vendo a água correr no chão do chu-
veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro-
centos e vinte quilómetros até achar a costa. Ao alcançá-la,
tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lom-
bar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada
do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro
horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um
conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um
dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de
Deus. O motorista do autocarro sabe perfeitamente que dentro
da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias
que contém uma caixa de medicamentos que contém uma
caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba
está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura
de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está
consciente também de que todo o desenho acha sua acústica
perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza,
o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em
posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por
acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos,
podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca
a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete
anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio
rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos esco-
lher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó d
e arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois
passos a galope.

um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a….
eu a….-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento
da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta».

In Matilde Campilho, Jóquei, Coordenador da colecção Pedro Mexia, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2014, ISBN 978-989-671-213-6.

Cortesia de ETintadaChina/JDACT