quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

No 31. João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Estávamos em Abril, a 25 de Abril, e o Rei Afonso resolveu dar o poder ao filho para reger, governar e proteger o reino»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) Minha mãe chegou a casa acompanhada por uma amiga, mulher de um mercador que tinha o seu estabelecimento na Rua Nova, e disse, esbaforida, sentando-se sobre a arca da roupa: está tudo louco. É a guerra. Rainiero, que viera buscar dois rolos de papel grosso, a oficina do pai ficava perto, protestou: como pode ser? Não há guerra com Castela há..., há. muitos anos! Mas era verdade. Jorge Costa participara nos preparativos diplomáticos e nas conversações prévias para a empresa, já depois de lhe ser concedida a abadia de Alcobaça, e o mundo não se encontrava em bom estado também, o resto do mundo. Por Inglaterra, Eduardo IV apoiava o primo do nosso Rei, Carlos de Borgonha, e desembarcava em Calais não tardaria muito. Depois, como o filho de dona Isabel não chegou a horas ao encontro, não perdeu tempo. Fez as pazes com o raposão do Luís XI de França, em Piquigny. E, durante o acto de assinatura de paz, um aventureiro português que eu cheguei a conhecer, Edward Brampton, aliás o judeu Duarte Brandão, por 1á assistiu. Existem no mundo homens sem raiz e sem pátria que participam em tudo sem pertencerem a partido nenhum...
Estávamos em Abril, a 25 de Abril, e o Rei Afonso resolveu dar o poder ao filho para reger, governar e proteger o reino. O Príncipe iria, pela primeira vez, já homem feito, com vinte anos, mostrar o seu valor nas rédeas do governo e no campo militar, não como em Arzila, mas como estratego e homem de diplomacia. Em Maio, já nos derradeiros dias desse mês, Afonso partiu para a fronteira com vinte mil homens de cavalo e infantaria. Entretanto, em Lisboa, a 18 de Maio, nascia-lhe um neto, Afonso. Mais uma peça no tabuleiro para ser movida pelo pai, então um orgulhoso jovem, Príncipe e progenitor de estirpe, no futuro jogo do poder peninsular. Afonso limitava-se a defender as pretensões de sua sobrinha, filha de Henrique IV, e os seus interesses como futuro senhor das duas coroas. Henrique IV era um homem pesadão, enorme, barrigudo, louro, de olhos muito claros e pele branca de leite. Olhava as pessoas com os olhos esbugalhados, salientes, redondos, espantados, como se as visse sempre pela primeira vez. Casou pela segunda vez, por questões políticas, com uma das mais belas mulheres do seu tempo, Joana, filha mais nova de Duarte de Portugal e de Leonor de Aragão e Transtâmara. Dona Joana vivera com a mãe no exílio de Toledo e era a mais nova, querida e pouco sensata irmã de Afonso V. Morena, gaiata, alegre, azougada, vestindo luxuosamente, mostrando, sempre que podia, os seus encantos a que nenhum homem resistia, entrou mal e saiu pior ainda do leito daquele marido que não amava mulheres, diziam as más línguas, e se as amava pouco ou nada conseguia porque (de novo as viperinas informações da Corte) era impotente.
Por debaixo daquela barriga mole não existia nada a não ser gordura e um pénis de criança e a verdade é que, após catorze anos de casamento com Branca de Navarra não houvera filhos e o casamento fora considerado nulo. E só ao fim de sete anos dona Joana teve aquela filha muito parecida com todos menos com o pai. Ora este, embora as suas relações com a Rainha tivessem sempre sido excelentes, tinha certos amigos de preferência, a quem tudo oferecia e as más-línguas coruscavam pelos corredores envenenando o bom ambiente que deveria ter a Corte. Possuía os seus validos e, de entre eles, precisamente o belo e vicioso Beltran de la Cueva. Quando as relações entre o valido e a Rainha se tornaram mais íntimas e ela engravidou, obviamente que todos se prontificaram a atribuir a paternidade da pobre criança nascida a Beltran e como a Rainha persistia com a sua costumada leviandade, pelo menos aparente, porque à política e aos interesses da facção oposta de Isabel e de Fernando de Aragão convinha que essa aura de malignidade e de barreguice envolvesse a Soberana, todos encontraram para a criança tantos pais quanto os gostos. A aleivosia de muitas das mulheres da Corte, invejosas da bela Joana de Portugal, ajudou sempre a criar mau estar à Rainha. A pequenina neta de Duarte esteve noiva de várias cabeças coroadas, de João de Portugal, aos três anos, de Luís XI de França, do duque de Berry, que morreu envenenado, talvez pelo irmão... Henrique de Castela, com a sua estúpida cabeça a estoirar de dúvidas que só ele certamente poderia conhecer, chegou a negar a paternidade da Princesinha. Depois, já doente, em Madrid, declarou a Princesa sua filha legítima e única herdeira e pediu ao Rei Afonso de Portugal que aceitasse o governo dos Reinos de Castela e os defendesse se quisesse casar com a Princesa. Entretanto, finava-se o pobre e inútil Soberano e a jovem Beltraneja, infeliz desde o berço, nunca se libertando do nome que os inimigos dos pais lhe deram e da desonra dessa origem, ficou entregue aos cuidados do marquês de Vilhena e do arcebispo de Toledo. Como político, Afonso de Portugal não valia nada. Como cavaleiro, era exímio defensor dos princípios sublimados de generosidade e elevação espiritual postulados pelas leis da cavalaria antiga». ?» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

No 31. As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte XII. «Com boa visibilidade para a vila e sobranceira à estrada para Ouguela, esta forca aparece referida numa planta da vila de Campo Maior, datada do século XVII»

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«(...)
Campo Maior
A forca de Campo Maior situava-se no cerro denominado actualmente por Cabeça Gorda, onde se levanta um marco geodésico. A curta distância para Su1 do marco, observa-se uma irregular plataforma de terra que teria servido de patíbulo, local onde se teria erguido a forca de Campo Maior. Com boa visibilidade para a vila e sobranceira à estrada para Ouguela, esta forca aparece referida numa planta da vila de Campo Maior, datada do século XVII.
O loca1 onde se situava a forca possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0666682; Y - 4321137.


Localização da forca de Campo Maior

Planta de Campo Maior, assinalando-se com o nº 33 o Sítio da Forca

Marco geodésico da Cabeça Gorda, junto do qual se localizava a forca

Cano
A forca do Cano situava-se na Tapada da Forca, a norte do núcleo mais antigo da vila, no prolongamento da Travessa dos Nocturnos, a cerca de 300 metros do actual limite da povoação. Da forca, hoje já nada subsiste. A Tapada da Forca é uma parcela de terra agrícola aplanada, numa cota levemente elevada à vila.
A Tapada da Forca possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS:
X - 0607590; Y - 4314113.


Localização da forca do Cano

Tapada da Forca

Castelo de Vide
A forca de Castelo de Vide situava-se no Outeiro da Forca, na linha de cumeada que se situa a SE da vila e que acompanha a estrada que liga esta vila a Marvão. No local da forca, existe ainda hoje uma rua denominada Outeiro da Forca. Por informação oral, a forca de madeira estaria levantada em frente ao velho moinho que ainda hoje aí se conserva. Contudo, esta informação parece-nos algo estranha, considerando que a idade do moinho o faria contemporâneo da utilização da forca e não nos parece que fossem consentâneas as duas coexistências em espaço tão reduzido.
Provavelmente, a forca situar-se-ia algumas dezenas de metros para SE do moinho, para os lados da Matosa.
O local provável da forca de Castelo de Vide possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0633656; Y - 4363855».


Localização da forca de Castelo de Vide

Moinho no Outeiro da Forca

Rua do Outeiro da Forca


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

João II no 31. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «E havia ainda a legislação sobre os rendimentos e minas de ouro, pois era necessário um forte plano material de apoio ao grande esquema de expansão que começava a germinar…»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) As conquistas ao longo da costa, fruto da expansão portuguesa, iam de Ceuta e Tânger até ao Cabo de Santa Catarina. Tudo os navegadores portugueses tinham ultrapassado: o Cabo Não, o Bojador, o Branco, St.ª Ana, Mesurado, Palmas, Formoso, as Ilhas de Fernando Pó, São Tomé e Príncipe, Ano Bom... Abravanel, Isaac, tinha trinta e sete anos e governava as finanças, residindo numa bela casa apalaçada perto da do duque de Bragança, por cima da rua a norte do Picadeiro. Foi por ele que soubemos que as coisas iam mal por Castela e a irmã do Rei não conseguia o apoio desejado, do ponto de vista político e militar, para as suas justas pretensões. Antes disso, o Príncipe e o Rei ocupavam-se da construção naval e das leis que permitiam a continuidade desse trabalho. E havia ainda a legislação sobre os rendimentos e minas de ouro, pois era necessário um forte plano material de apoio ao grande esquema de expansão que começava a germinar na fronte do Príncipe que continuava, mas agora dentro de um plano de concepção imperial, as conquistas e dilatação da fé, perpetradas pelo tio-avô Henrique. João reunia médicos, físicos, matemáticos, cosmógrafos, astrólogos, estes todos judeus, como mestre Moisés, José Vecino ou Vizinho, Rodrigo. Mestre José estudara em Salamanca com o rabi Zacuto... Um ano antes de João tomar conta do projecto já Abraão Zacuto escrevia o Almanaque Perpétuo. João escreve para Itália, para a Alemanha. Quer saber em pormenor as teorias de Toscaneili... Mas o Príncipe sabia mais que ele. Os Portugueses têm um conhecimento profundo do Oceano até onde o desbravaram e João resolve não ir mais para Ocidente, mas procurar contornar a África, ir devagar mas com certezas, sem cair em aventuras que custam caro e, quantas vezes!, se tornam irremediáveis! Só que Afonso, seu pai, estava muito perto de o arrastar e ao Reino para longe do Oceano, para Castela, para um desastre que, se não fosse a argúcia do herdeiro do trono, teria sido incomensurável, apesar do jovem o ter apoiado no Conselho.
O ano de 1474 manifestou-se pouco fértil em acontecimentos. Não fora a decisão das Cortes reunidas em Coimbra determinar que os corregedores entrassem nas terras dos nobres e o marquês de Montemor demover o Rei de tal decisão, e as mortes em Dezembro, de Henrique IV em Madrid e ainda, pouco antes, a de um amigo do tio Gil, e com certo escândalo que a opinião popular levantou, pois frei João Sobrinho, carmelita, de cuja ordem foii Provincial, morreu e, dizia-se, envenenado por judeus. Frei João morreu velho, fora mestre de El Rei Duarte I e bebera uma mistela qualquer para sobreviver..., o que não resultou como sucede muitas vezes. Apenas isso.
Com a morte de Henrique IV em 1474 e da Rainha morena em Junho de 1475, as coisas toldaram-se por Castela e por cá. Dona Joana, a bela Rainha morena, viera à Guarda pedir auxílio ao irmão, mas este não ligara importância, só que agora reunia o Conselho. Tinha de ajudar a sobrinha, dona Joana, também, pobre jovem indefesa, a quem os partidários da tia Isabel, casada com Fernando de Aragão, irmã do pai, chamavam, a Beltraneja, ignominiosamente. Ora essa tia Isabel, jovem ainda, de fraco queixo, feiota mas inteligente, que casara com o primo de Aragão, Fernando, que era um marrano de sangue real, descendente de uma avó judia, intitulava-se Rainha de Castela... O que se passara entretanto?» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «… o forte vermelho que fica sobre a cidade para a proteger e o lindíssimo palácio escondido dentro das suas muralhas, o Alhambra, foram entregues a Fernando e a Isabel»

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«(…)
6 de Janeiro de 1492
Com o passar dos dias, os Mouros perderam a coragem. A escaramuça da rainha acabou por ser a sua última batalha. O seu líder estava morto, a cidade cercada, estavam a morrer à fome nas terras que os seus antepassados haviam tornado férteis. Pior, o apoio prometido da África falhou, os Turcos haviam jurado amizade, mas os janíçaros não chegaram, o rei enlouquecera, o seu filho estava retém dos Cristãos, e diante deles estavam os príncipes da Espanha, Isabel e Fernando, com todo o poder da Cristandade por trás de si, com uma guerra santa declarada e uma cruzada cristã que ganhava forma com o odor do sucesso. Alguns dias após o confronto dos líderes, Boabdil, o rei de Granada, acordara as condições de paz, e alguns dias depois, numa cerimónia planeada com toda a graça típica dos mouros da Espanha, desceu a pé até aos portões de ferro da cidade, com as chaves do palácio de Alhambra sobre uma almofada de seda e entregou-as ao rei e à rainha da Espanha, numa rendição total. Granada, o forte vermelho que fica sobre a cidade para a proteger e o lindíssimo palácio escondido dentro das suas muralhas, o Alhambra, foram entregues a Fernando e a Isabel.
Vestidos com as maravilhosas sedas do inimigo derrotado, turbantes, chinelos, gloriosos como califas, a família real espanhola, brilhando com o espólio da Espanha, assumiu o controlo de Granada. Nessa tarde. Catarina, a Princesa de Gales, percorreu com os pais o caminho íngreme e as curvas através das sombras das árvores altas, até ao mais belo palácio da Europa. Dormiu essa noite no harém coberto de ladrilhos maravilhosos e acordou ao som da água ondulante das fontes de mármore e imaginou-se uma princesa muçulmana, nascida para o luxo e a beleza, assim como Princesa de Gales. A família espanhola com os seus oficiais na dianteira e a guarda real atrás, gloriosos como sultões, entrou no forte pela enorme torre quadrada, conhecida como Porta da Justiça. Quando a sombra do primeiro arco da torre incidiu no rosto voltado para cima de Isabel, os trompeteiros tocaram um grito de desafio, tal como Josué diante dos muros de Jericó, como se afastassem assim os demónios do infiel que aí permaneciam. De imediato se ouviu um eco da explosão de som, um suspiro estremecedor de todos os que estavam reunidos depois da porta de entrada, empurrados contra as paredes douradas, as mulheres semi-veladas nas suas túnicas, os homens de pé orgulhosos e em silêncio, observando, na expectativa do que os conquistadores fariam a seguir. Catarina olhou por cima do mar de cabeças e avistou as formas fluidas da escrita árabe gravadas nas paredes resplandecentes. O que diz?, perguntou a Madilla, a sua ama. Madilla olhou de soslaio para cima. Não sei, afirmou mal-humorada. Negava sempre as suas raízes muçulmanas. Sempre tentara fingir que não sabia nada sobre os Mouros ou as suas vidas, apesar de ter nascido e sido criada como moura e de só se ter convertido, segundo Joana, por conveniência. Dizei-nos, ou beliscamos-vos, propôs Joana docemente. A jovem mulher franziu o sobrolho na direcção das duas irmãs. Diz: Deus permita que a justiça do Islão prevaleça aqui dentro. Catarina hesitou por um momento, ouvindo a aura orgulhosa da certeza, uma determinação para imitar a voz da mãe.
Bem, Ele não permitiu, comentou Joana de modo inteligente. Alá desertou de Alhambra e Isabel chegou. E se vocês, Mouros, conhecessem Isabel como nós conhecemos, saberiam que o maior poder está a chegar e o poder menor está a sair. Deus abençoe a rainha, respondeu Madilla prontamente. Eu conheço suficientemente bem a rainha Isabel. Enquanto falava, as grandes portas à sua frente, de madeira negra enfeitada com pregos negros, abriram-se nas suas dobradiças negras, e com mais um toque de trompetas, o rei e a rainha entraram a passos largos no pátio interior. Como dançarinos que tivessem ensaiado até obterem uma coreografia perfeita, a guarda espanhola dividiu-se entre o lado direito e esquerdo, no interior das muralhas da cidade, verificando se o local era seguro, e se não haveria soldados desesperados a preparar uma última emboscada. O grande forte de Alcazaba, construído como a proa de um navio, projectando-se sobre a planície de Granada, ficava à esquerda, e os homens afluíram aí, correndo pela praça da parada, rodeando as muralhas, subindo e descendo às torres, a correr. Por fim, Isabel, a rainha, levantou o olhar para o céu, protegeu os olhos com a mão onde retiniam as pulseiras de ouro muçulmanas, e riu-se bem alto ao ver o estandarte sagrado de Santiago e a cruz prateada da cruzada a esvoaçar, onde antes estivera o crescente». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.

Cortesia Civilização/JDACT

A Princesa Determinada. Catarina de Aragão. Philippa Gregory. «O seu pequeno exército e o grupo atacante dos mouros estavam frente a frente, prontos para a batalha»

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«(…) Isabel, se Deus o protege, então, como pode estar em perigo? Isabel olhou para baixo, para a irmã mais nova. Deus não facilita o caminho daqueles que ama, disse num murmúrio seco. Envia-lhes provações para os pôr à prova. Aqueles a quem Deus mais ama, são os que mais sofrem. Eu sei. Eu, que perdi o único homem que alguma vez amarei. Tu sabes. Pensa em Job, Catarina. Então, como poderemos vencer?, perguntou a rapariguinha. Se Deus ama a Madre, não vai enviar-lhe as piores provações? E se for assim, como é que alguma vez vamos vencer? Silêncio, pediu a mãe. Vejam. Vejam e rezem com fé. O seu pequeno exército e o grupo atacante dos mouros estavam frente a frente, prontos para a batalha. Então. Yarfe avançou no seu grande cavalo negro. Algo de cor branca oscilava junto ao chão, preso à cauda negra brilhante do cavalo. Ouviu-se um grito sufocado, enquanto os soldados na fileira da frente reconheciam o que transportava. Era o cartaz, com a Avé-Maria que Hernán fixara com um punhal no chão da mesquita. O mouro amarrara-o à cauda do cavalo, como um insulto calculado, e fazia andar a criatura enorme para a frente e para trás, diante das fileiras de cristãos, sorrindo ao ouvir os seus gritos de raiva. Herege, sussurrou a rainha Isabel. Um homem amaldiçoado com o Interno. Que Deus o fira de morte e castigue o seu pecado.
O defensor da rainha. De la Vega, voltou o cavalo e cavalgou na direcção da pequena casa onde os guardas reais rodeavam o pátio a minúscula oliveira e a porta da entrada. Parou o cavalo ao lado da oliveira e retirou o elmo, olhando para cima, para a sua rainha e princesas, que estavam no terraço. O seu cabelo escuro estava encaracolado e suado devido ao calor, os olhos escuros faiscavam de raiva. Vossa Alteza, tenho a vossa permissão para responder a este desafio? Sim, respondeu a rainha, nunca hesitando. Ide com Deus, Garallosco de la Vega. Aquele homem enorme vai matá-lo, afirmou Catarina, puxando a manga comprida da mãe. Dizei-lhe que não pode ir. Yarfe é muito maior. Vai matar De la Vega! Será feita a vontade de Deus, manteve Isabel, fechando os olhos em oração. Mãe! Vossa Majestade! Ele é um gigante. Vai matar o nosso defensor. A mãe abriu os olhos azuis e olhou para baixo, para a filha, vendo que o seu rosto estava vermelho de aflição e os olhos cheios de lágrimas.
Será feita a vontade de Deus, repetiu firmemente. Tens de ter fé de que estás a cumprir a vontade de Deus. Por vezes, não compreenderás, por vezes duvidarás, mas se estiveres a cumprir a vontade de Deus, ele não te enganará, nem tu te podes enganar. Lembra-te disso, Catarina. Se ganhamos este desafio ou se o perdemos, é indiferente. Somos soldados de Cristo. És um soldado de Cristo. Não importa se sobrevivemos ou se morremos. Morreremos pela fé, isso é tudo o que importa. Esta é a batalha de Deus. Ele enviar-nos-á uma vitória, se não for hoje, será amanhã. E seja quem for a vencer hoje, não duvidamos de que Deus vencerá e de que venceremos no final. Mas De la Vega... Catarina protestou, com o seu grosso lábio inferior a tremer. Talvez Deus o leve para junto de Si, esta tarde, respondeu a mãe decididamente. Devíamos rezar por ele. Joana fez uma cara na direcção da irmã mais nova, mas quando a mãe se ajoelhou de novo, as duas meninas deram as mãos para se confortarem. Isabel ajoelhou-se ao seu lado, com Maria junto de si. Todas olhavam de soslaio, por entre as pálpebras cerradas, para a planície onde o cavalo baio de batalha de De la Vega se afastava da linha dos espanhóis, e o cavalo negro do mouro trotava orgulhosamente diante dos sarracenos». In Philippa Gregory, Catarina de Aragão, A Princesa Determinada, Livraria Civilização Editora, 2006, ISBN 978-972-262-455-8.

Cortesia Civilização/JDACT

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte XI. «Torna-se estranha esta informação, quando a muito curta distância se situa Nisa, a sede de concelho, e aí se levantava também uma forca»

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Cabeço de Vide
«A forca de Cabeço de Vide é a que se encontra em melhor estado de conservação, de todas as conhecidas no distrito de Portalegre. A sua não destruição intencional terá ficado a dever-se à extinção do concelho de Cabeço de Vide, no século XIX, e à prolongada indefinição da jurisdição municipal deste território, que era disputado entre Alter do Chão e Fronteira. Pensamos que a principal causa da destruição da maioria das forcas se ficou a dever a deliberações camarárias, logo após a abolição da pena de morte, em 1867.
A forca de Cabeço de Vide é formada por dois pilares em alvenaria. O do lado sul, que se encontra completo, é encimado por uma pirâmide que se sobrepõe a um paralelepípedo. A altura, desde o actual solo ao vértice da pirâmide, é de 333 centímetros, e a largura média dos pilares é de 77 centímetros. O afastamento entre os dois pilares é de 222 centímetros. Na face poente dos dois pilares, a cerca de 130 centímetros do solo, abrem-se dois orifícios simétricos, de secção quadrangular, com cerca de 15 cm de lado e uma profundidade que quase atinge a face oposta dos pilares. Estes orifícios destinar-se-iam a montar uma qualquer estrutura, provavelmente de madeira, com o objectivo de apoiar o condenado antes de ser suspenso pelo pescoço. Nas faces internas dos dois pilares, na base das pirâmides, identificam-se dois orifícios quadrangulares com cerca de 20 cm de lado, destinados a apoiar a trave de madeira que suportaria os enforcados.
Os dois pilares, obtidos em pedra e argamassa, terão sido, na origem, totalmente rebocados e, atendendo a alguns leves sinais ainda visíveis, terão sido, igualmente, caiados. No solo, junto à face nascente da forca, parece existirem sinais de um murete que avançaria dos pilares e limitaria um curto espaço de terreno. Eventualmente, este murete destinar-se-ia a resguardar os corpos dos condenados, quando em morte perpétua, dos animais necrófagos. Atendendo ao aterro que se verifica junto aos pilares da forca, uma eventual escavação arqueológica viria a possibilitar a compreensão desta estrutura.
A forca de Cabeço de Vide, como todas as outras, implanta-se na face nascente de uma colina sobranceira à vila e nas imediações da estrada principal, não muito distante do antigo Rossio. A forca de Cabeço de Vide assinala-se na Carta Militar de Portugal e encontra-se envolta em lendas que os mais idosos da vila constantemente repetem. Possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0621196;Y - 4332920.


Localização da forca de Cabeço de Vide


Forca de Cabeço de Vide


Cacheiro
Houve a informação que, nas imediações de S. Matias do Cacheiro, povoação situada a curta distância de Nisa, existia um local denominado Cabeço da Forca. Na pequeníssima povoação de Cacheiro, que nunca foi sede de concelho, imediatamente nos indicaram onde se situava o lugar da forca. A cerca de 1500 metros para nascente da povoação, num suave outeiro, ali se teria erguido, quando era preciso, uma forca. Segundo informação recolhida entre os idosos que à soalheira de uma tarde de Primavera se sentavam à porta da igreja de S. Matias, soubemos que noutros tempos, quando o juiz por ali passava e havia criminosos presos, enforcavam-nos no alto do cabeço para que todos vissem. Torna-se estranha esta informação, quando a muito curta distância se situa Nisa, a sede de concelho, e aí se levantava também uma forca. Contudo, com a  presença do topónimo e as afirmações peremptórias dos mais idosos da povoação, deslocámo-nos ao sítio da forca, onde nada foi possível observar que se relacionasse com o monumento.
Pelas informações locais, esta forca seria de madeira. O local possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X - 0611184;Y - 4379709.


Localização da forca de Cabeço da Forca do Cacheiro


Cabeço da Forca


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

As Forcas do Distrito de Portalegre. Parte X. «Para a construção desta antena, foi destruída, na face poente e Norte, uma estrutura de alvenaria, de forma quadrangular…»

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Barbacena
«A forca de Barbacena situava-se na margem esquerda da Ribeirinha, a nascente do castelo. O local é hoje um amplo largo junto a oficinas de mecânica. Por informação oral, sabemos que a forca era de madeira. Dela hoje já nada resta.
O local possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0648232; Y – 4314182.


Localização da forca de Barbacena


Local onde se implantava a forca


Belver
A forca de Belver situava-se no topo de um cerro sobranceiro à vila, a norte da ermida da Sra do Pilar. O local foi profundamente afectado pela instalação de uma antena de telefones móveis. Para a construção desta antena, foi destruída, na face poente e Norte, uma estrutura de alvenaria, de forma quadrangular, que poderia ter pertencido ao patíbulo onde se levantaria a forca. Atendendo à quantidade de pedras com argamassas que aí ainda se conservam, é provável que esta forca fosse de pedra e cal.
A forca de Belver possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0589804; Y – 4372601.


Localização da forca de Belver


Vista de Belver e topo do Outeiro da Forca, vendo-se a estrutura destruída


In Jorge Oliveira e Ana Cristina Tomás, As Forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da Pena de Morte, Edições Colibri, 2007, ISBN 978-972-772-767-4.

Cortesia de EColibri/JDACT

domingo, 28 de janeiro de 2018

A Filha do Conspirador. Philippa Gregory. «Margaret estende o vestido sobre uma cadeira, para ser empoado e escovado no dia seguinte, e Isabel veste a camisola, permitindo, em seguida, que Margaret penteie e trance os seus cabelos»


jdact e wikipedia

Torre de Londres. Maio de 1465
«(…) Eu sou a rainha Anne da Inglaterra. O rei Eduardo me escolheu. Ele nunca faria isso, você é a mais nova, disse Isabel. Ele escolheu! Ele escolheu! Sinto meu humor mudar e sei que vou estragar a nossa brincadeira, mas não posso suportar dar precedência a ela mais uma vez, mesmo quando se trata de uma brincadeira em nosso quarto. Nós duas não podemos ser rainhas da Inglaterra ao mesmo tempo, diz ela de maneira bastante razoável. Você pode ser a rainha da França. A França é simpática o suficiente. Inglaterra! Eu sou a rainha da Inglaterra. Eu odeio a França! Bom, você não pode ser rainha da Inglaterra. Eu sou a mais velha. Eu escolho primeiro, eu sou a rainha da Inglaterra e Eduardo está apaixonado por mim. Fico muda de raiva diante do hábito de Isabel de reclamar o seu direito sobre tudo, reforçando de repente o facto de ser mais velha e transformando, de súbito, uma brincadeira alegre em animosidade. Bato o pé, o meu rosto enrubesce com o meu mau humor, e sinto lágrimas quentes nos meus olhos.
Inglaterra! Eu sou a rainha! Você sempre estraga tudo porque é uma bebezinho. Ela se volta para a porta quando esta se abre atrás de nós. Margaret entra no quarto e diz: é hora das duas estarem dormindo, miladies! O que fizeram com as suas mantas? Isabel não me deixa…, começo a dizer. Ela está sendo má… Não importa, interrompe Margaret. Para a cama. Podem dividir o que quer que seja amanhã. Ela não quer dividir! Engulo lágrimas salgadas. Ela nunca quer. Nós estávamos brincando, mas então… Isabel dá um breve sorriso, como se a minha mágoa fosse cómica, e troca um olhar com Margaret, como se dissesse que o bebé está fazendo birra mais uma vez. Isso é demais para mim. Solto um gemido e me jogo de bruços na cama. Ninguém se importa comigo, ninguém consegue ver que estávamos brincando juntas, como iguais, como irmãs, até que Isabel reivindicou algo que não era seu. Ela deveria saber que tinha de dividir. Não é certo que eu tenha de ceder sempre, que eu seja sempre a última. Não é certo!, digo com a voz entrecortada. Não é justo comigo! Isabel vira-se de costas para Margaret, que desamarra o vestido dela e o abaixa para que a minha irmã possa despi-lo desdenhosamente, como a rainha que ela fingia ser. Margaret estende o vestido sobre uma cadeira, para ser empoado e escovado no dia seguinte, e Isabel veste a camisola, permitindo, em seguida, que Margaret penteie e trance os seus cabelos.
Levanto o meu rosto enrubescido do travesseiro para assistir à cena, e Isabel olha de relance para os meus grandes olhos trágicos e diz bruscamente: deveria estar dormindo. Você sempre chora quando está cansada. É uma criancinha. Não deveriam tê-la deixado ir a um jantar. Ela olha para Margaret, uma mulher de 20 anos. Diga para ela. Durma, lady Anne, recomenda Margaret delicadamente. Não há motivo para continuar com isso. Eu viro-me de lado e volto o meu rosto para a parede. Margaret não deveria falar comigo assim; ela é dama de companhia de minha mãe e nossa meia-irmã, e deveria tratar-me de forma mais amável. Mas ninguém me trata com respeito algum, e minha própria irmã odeia-me. Escuto a cama ranger quando Isabel se deita ao meu lado. Ninguém a obriga a dizer as suas preces, ainda que ela certamente vá para o inferno. Boa noite, durmam bem, Deus as abençoe, diz Margaret. Ela apaga as velas e sai do quarto.
Estamos a sós no quarto à luz da lareira. Sinto Isabel puxar as cobertas para o seu lado e permaneço imóvel. Pode chorar a noite toda se quiser, mas eu ainda serei a rainha da Inglaterra e você não, sussurra ela com uma malícia cortante. Eu sou uma Neville!, digo em voz alta. Margaret é uma Neville, argumenta Isabel. Mas ilegítima. A filha bastarda do pai. Então ela nos serve como dama de companhia e vai casar-se com algum homem respeitável, enquanto eu vou-me casar, no mínimo, com um duque rico. Agora que estou pensando nisso, acho que você também deve ser ilegítima, e terá de ser minha dama de companhia. Sinto um soluço subindo pela garganta, mas cubro a boca com as mãos. Não darei a ela a satisfação de me ouvir chorar. Abafarei os meus soluços. Se pudesse parar de respirar, eu o faria, e então escreveriam para o meu pai para lhe dar a notícia de que eu estava fria e morta, e ela se arrependeria por eu me ter sufocado por causa de sua crueldade». In Philippa Gregory, A Filha do Conspirador, 2012, A Guerra dos Primos, volume IV, Civilização Editora, 2013, ISBN: 978-972-263-519-6.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

A Filha do Conspirador. Philippa Gregory. «Ela arruma a coberta como uma capa ao redor dos ombros, joga a cabeça para trás, empertiga-se no seu metro e cinquenta e caminha pelo pequeno aposento de cabeça erguida»

jdact e wikipedia

Torre de Londres. Maio de 1465
«(…) Quando Isabel finalmente entra no quarto, estou ajoelhada junto à janela estreita contemplando o reflexo do luar no rio, pensando nos sonhos do rei. Você deveria estar dormindo, diz ela de forma autoritária. Ela não pode vir atrás de nós, pode?, pergunto. A rainha má? Isabel reconhece imediatamente o horror contra Margarida Anjou, que assombrou a nossa infância. Não. O pai derrotou-a de uma vez por todas em Towton. Ela fugiu. Não pode voltar. Tem a certeza? Isabel põe o seu braço em volta dos meus ombros franzinos. Você sabe que eu tenho a certeza. Você sabe que está a salvo. O rei louco dorme, e a rainha má foi derrotada. Isso é apenas uma desculpa para você ficar acordada enquanto deveria estar dormindo. Obediente, eu viro-me e sento-me na cama, puxando os lençóis até ao queixo. Vou dormir. Não foi maravilhoso?, pergunto a ela. Não muito. Não acha que ela é linda? Quem?, pergunta Isabel, como se realmente não soubesse, como se não fosse óbvio quem era a mulher mais bonita da Inglaterra nessa noite. A nova rainha, Elizabeth. Bem, não acho que ela tenha jeito de rainha, responde a minha irmã, tentando soar como nossa mãe, cheia de desdém. Não sei como irá comportar-se durante a coroação e no torneio de justas; afinal, ela era apenas a esposa de um escudeiro e a filha de um ninguém. Como ela poderia saber comportar-se? Por quê? Como se comportaria?, pergunto, tentando prolongar a conversa.
Isabel sempre sabe muito mais do que eu; ela é cinco anos mais velha, quase uma mulher, é a favorita dos nossos pais, e certamente tem um casamento brilhante pela frente. Enquanto eu sou apenas uma criança. Ela menospreza até a rainha! Eu me portaria com muito mais dignidade. Não ficaria cochichando com o rei nem me humilharia, como ela fez. Não enviaria pratos para outras mesas nem acenaria para as pessoas, como ela fez. Não levaria todos os meus irmãos e irmãs para a corte, como ela fez. Seria muito mais reservada e fria. Não sorriria para ninguém, não me curvaria diante de ninguém. Seria uma verdadeira rainha, uma rainha de gelo, sem família ou amigos. Sinto-me tão atraída por essa imagem que já estou quase fora da cama novamente. Tiro a manta de pele de nosso leito e estendo-a para ela. Como assim? Como seria? Mostre-me, Izzy! Ela arruma a coberta como uma capa ao redor dos ombros, joga a cabeça para trás, empertiga-se no seu metro e cinquenta e caminha pelo pequeno aposento de cabeça erguida, acenando com um gesto distante para cortesãos imaginários. Assim, diz ela. Comme ça, elegante e nada amistoso. Dou um pulo para fora da cama, pego um xale, jogo-o por cima dos ombros e a imito, copiando o seu aceno, parecendo uma rainha tanto quanto Isabel.
Como vai?, digo para uma cadeira vazia. Faço uma pausa, como se esperasse o pedido de algum favor. Não, de modo algum. Lamento, não poderei ajudá-lo. Já dei esse posto à minha irmã. Ao meu pai, lorde Rivers, acrescenta Izzy. Ao meu irmão Anthony. Tão bonito. Ao meu irmão John, e dei também uma fortuna para as minhas irmãs. Não sobrou nada para o senhor. Tenho uma família grande, diz Isabel, como uma nova rainha na sua fala arrastada e arrogante. E todos eles precisam ser acomodados. Ricamente acomodados. Todos eles, completo. Dúzias deles. O senhor viu quantos entraram no grande salão atrás de mim? Onde poderei achar títulos e terras para todos eles? Nós andamos em grandes círculos, passando uma pela outra com uma indiferença magnífica. E quem é você?, pergunto friamente. Eu sou a rainha da Inglaterra, responde Isabel, mudando a brincadeira sem avisar. Eu sou a rainha Isabel da Inglaterra e da França, recém-casada com o rei Eduardo. Ele se apaixonou por mim por causa da minha beleza. É louco por mim. Enlouqueceu completamente e esqueceu-se dos seus amigos e dos seus deveres. Nós nos casamos em segredo, e agora serei coroada rainha. Não, não, eu era a rainha da Inglaterra, digo, tirando o xaile e virando-me para ela». In Philippa Gregory, A Filha do Conspirador, 2012, A Guerra dos Primos, volume IV, Civilização Editora, 2013, ISBN: 978-972-263-519-6.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

A Bibliotecária. Logan Belle. «Tratava-se mais de que estava dolorosamente consciente de que cada festa que ia era uma noite que perdia de estudo, e cada rapaz que gostava, ameaçava-a…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Despertou com um barulho que a fez pensar que alguém estava arrombando o apartamento. Ao menos, isso lhe pareceu. Logo se deu conta de que só era a cabeceira da cama de Carly batendo contra a parede. O ruído chegava acompanhado de uns gemidos da sua colega e sem dúvida desnecessário grito de: fo…-me! Mais gemidos, dessa vez masculinos. O ruído da cabeceira se fez mais forte e mais rápido e o tom das vozes pareceu de repente mais indicativo de violência do que prazer. Logo silêncio. Regina respirou com dificuldade, embora ela não sabia se devia ao sobressalto ou à natureza do que tinha ouvido. Era perturbador e excitante ao mesmo tempo e isso a preocupou mais do que o facto de que a vida sexual da sua companheira de apartamento estivesse roubando as suas horas de sono. Sabia que estava muito desactualizada em todo o tema de sexo; ser virgem na sua idade era impensável para a maioria das pessoas. Mas era a sua realidade, uma realidade que a preocupava desde que se mudou para Nova Iorque e se deu conta de que era a última a chegar na festa. Não é que pensasse não praticar sexo. Não tinha feito voto de castidade, muito pelo contrário. Era porque não tinha aparecido oportunidade. As suas amigas diziam que passou pela vida sem perceber que os rapazes sempre se fixavam nela e que lhe pediriam para sair mais frequentemente e se esforçasse mais por relacionar-se e fazer as coisas. É sempre tão séria..., diziam-lhe.
Não é que não queria divertir-se. Tratava-se mais de que estava dolorosamente consciente de que cada festa que ia era uma noite que perdia de estudo, e cada rapaz que gostava, ameaçava-a, desviar a sua atenção do que era importante para ela: aprender, trabalhar duro, conquistar um futuro. Determinação. Era o pensamento da mãe, que não demorou em prevenir Regina de que os rapazes não eram nada mais do que uma distracção, um modo muito eficaz de impedir o seu futuro. Tinha-lhe passado, advertiu-lhe com tom solene. Regina tinha ouvido a história dezenas de vezes, mas a sua mãe sempre lhe contava como havia tinha renunciado aos seus sonhos para apoiar o pai de Regina, enquanto este estudava arquitectura e logo nos primeiros anos de luta... E mais tarde veio a sua gravidez. Depois o pai morreu e deixou-me com toda a responsabilidade. Ninguém pensa em imprevistos, Regina. Olhou o relógio. Eram duas da manhã. Faltavam cinco horas para que soasse o despertador. Ouviu risadas e outro gemido de Carly.
Deitou–se de barriga para cima, desesperada para dormir de novo. A camisola, um objecto folgado de algodão cinza da marca OldNavy, enroscou-se na cintura. Regina soltou-o, mas a deixou por cima dos quadris. Acariciou o estômago tentando relaxar para recuperar o sono. E então, como se movesse por vontade própria, a sua mão desceu até a borda da cueca. Deteve-se. Do quarto ao lado só chegava silêncio. Colocou a mão por debaixo da roupa íntima e acariciou-se levemente com os dedos entre as pernas. Pensar que havia um homem a poucos metros de distância, do outro lado da parede, excitou-a e a distraiu ao mesmo tempo. Fazia muito tempo que um rapaz não a tocava e as poucas experiências que tinha tido até ao momento, tinham sido vergonhosas e não valia a pena recordar. Agora resultava-lhe impossível imaginar a mão de outra pessoa naquele lugar íntimo e sensível, alguém que a acariciasse até que se humedecesse e logo entrasse e saísse de seu corpo do modo adequado para provocar aquela potente libertação. Moveu a mão depressa, as paredes de sua vagina palpitaram contra o seu dedo, e quadris balançaram-se ao mesmo ritmo. Experimentou a familiar onda de prazer e logo ficou quieta sob o enrugado edredom. O coração pulsava com força. Como seria ter alguém com ela nesse momento de clímax? Começava a perguntar-se se algum dia saberia». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Bibliotecária. Logan Belle. «Os rapazes da biblioteca estão comportando-se?, brincou. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) É obvio, Regina procurou no Google Mark Ronak e descobriu que o pai de Carly era o fundador da gravadora de hip-hop mais importante do país. Esse pequeno detalhe serviu para aumentar ainda mais a distância que já havia entre as duas. Era impossível imaginar seu pai ou sua mãe escutando hip hop, ou qualquer música pop. O pai de Regina rondava os trinta e cinco anos quando ela nasceu e morreu oito anos depois. Era arquitecto e a única música que escutava era ópera. A mãe de Regina era uma violoncelista que só gostava de música clássica e insistia que na sua casa só se ouvisse esse tipo de música. Enquanto Alice Finch estava em causa, as únicas formas de música, pintura e literatura aceitáveis eram os clássicos, por isso Regina tinha crescido sem música pop, arte moderna, nem ficção barata. Como foi o seu primeiro dia?, perguntou-lhe Carly, levantando a vista da revista W. Os rapazes da biblioteca estão comportando-se?, brincou. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas. Vestia uma calça jeans perfeitamente descolorida e queimados, um pulôver de caxemira que lhe chegava logo abaixo do peito e prendeu o cabelo loiro dourado num descuidado coque. A sala cheirava ao seu perfume, Chanel Allure.
Muito bem. Obrigada!, respondeu Regina, enquanto deixava a sua pesada bolsa no chão e ia à cozinha pegar uma Coca-Cola. Nunca sabia se Carly estava realmente interessada em falar com ela ou era só um gesto automático por ser ela a única pessoa que havia ali. Regina sabia que a garota não compreendia que pôr livros em estantes, segundo as suas próprias palavras, pudesse ser o sonho da vida de alguém. Mas isso era exactamente para Regina. Desde que tinha seis anos e seu pai tinha começado a levá-la à biblioteca todos os sábado à tarde, embora não fosse a de Nova Iorque, e sim a pequena biblioteca no Gladwynne, Pensilvânia, Regina sabia que esse era seu lugar. Nunca passou por uma fase em que queria ser professora, veterinária ou bailarina. Para ela o seu sonho tinha sido sempre tornar-se uma bibliotecária. Desejava trabalhar rodeada pelo cheiro dos livros, ser responsável por fileiras e mais fileiras de ordenadas prateleiras, e de uma meticulosa catalogação e de ajudar às pessoas a descobrir um grande romance, ou o livro que os ajudaria no projecto de uma pesquisa com o qual obteriam o seu título ou solucionariam um enigma intelectual.
Sabia desde que era pequena, e nunca tinha perdido de vista o seu objectivo. E agora o seu sonho virou realidade, por muito insignificante e ridículo que pudesse parecer para alguém como Carly Ronak. Fico feliz, comentou. Vou receber a visita de um amigo. Espero que não a incomodemos. O que realmente lhe estava a dizer era que esperava que ficasse no seu quarto e não incomodasse. Não se preocupe. Tenho muito que ler. Ah e sua mãe ligou. Duas vezes, comentou Carly, dando-lhe uma nota com a mensagem ilegível rabiscada com marcador permanente. Para reduzir despesas na sua mudança para Nova Iorque, Regina tinha excluído o telefone móvel da sua vida. Isso foi óptimo já que ficou impossível para sua mãe contactá-la as vinte e quatro horas do dia, mas, infelizmente, qualquer pessoa que tivesse um relacionamento com Regina e possuísse uma linha fixa pagava o preço. Dobrou a nota e meteu-a no bolso». In Logan Belle, A Bibliotecária, tradução de Bruh Santos, Editorial Planeta, 2013, ISBN 978-989-657-440-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

sábado, 27 de janeiro de 2018

As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «… atardando-me na perda, na falta, na falha; cheiro a ferrugem dos sangues ou a ferro agoirento: das espadas, das armaduras, das viseiras…»

jdact

1754-1758
«(…) Enquanto Brites está de conversa com as irmãs cozinheiras, Leonor passeia devagar os olhos gulosos ao longo de duas grandes mesas de mármore, uma repleta de sopeiras fumegantes, de terrinas de caldo de galinha gorda, de travessas de arroz de coelho, e a outra só com sobremesas: covilhetes de marmelada, pratinhos de rebuçados de ovos e caramelos, pratos de louça da Índia com cogulos de pão-de-ló e bolo podre, taças de vidro coalhado com leite de sericaia e ovos moles. De súbito, porém, algo indefinível muda à sua roda, e ela detecta um novo perfume a libertá-la da roda de doces ainda quentes, do cheiro macerado da carne em vinha-d’alhos, do acre das especiarias, da aspereza da erva cidreira. Essência de chuva que a deixa perplexa e a leva a seguir-lhe o rasto, que se tinge primeiro de romã e em seguida de lápis-lazúli. Poalha dourada a levantar-se, esparsa por uma aragem equívoca, espécie de mansa corrente de ar que a faz virar-se e olhar para trás receosa. Quando volto a cabeça vejo-a: nimbada de luz a fitar-me imóvel à entrada da porta.
Vestido de linho de um tom de pérola recolhido, descendo liso e solto ao longo do corpo magro de ossos miúdos; saia cingindo a cintura estreita, mangas compridas que mal deixam a descoberto os pulsos frágeis. Tem olhos amarelos acusando a linhagem de bruxas e feiticeiras, a pele de uma palidez exaltada e os cabelos do recôndito tom do mel acrisolado. Olhamo-nos devagarinho, como quem cuida do que vai encontrar e, porque ela hesita, acabo por ser eu a dar o primeiro passo. Aproveitando a distracção das freiras que trocam segredos de receitas com a dama de companhia de minha Mãe, deslizo sem ruído pelas lajes da entrada e na tijoleira da copa, perseguindo-a no seu recuo, cada vez mais fora do meu alcance, a tentar apagar-se na sombra de pedra do corredor sombrio. No entanto, a claridade loura que emana sublinha-lhe o vulto esquivo e tímido, que agora se detém, parado e hirto, limitando-se a ver-me aproximar com receio, até ao momento em que também se entrega e corresponde, ambas de diferente altura, mãos a tactear o ar como se fôssemos cegas, mas apenas encandeadas pela aura uma da outra; e quando os nossos dedos se encontram o luzimento é tanto que nos obriga a franzir as pálpebras transparentes. Como te chamas?, consigo perguntar-lhe, temendo vê-la desvanecer na própria ausência. Lilias Fraser, responde-me muito baixo, numa voz rouca e entumescida, como se as palavras teimassem em não querer sair-lhe dos lábios descoloridos. Detive-me encostada ao umbral da porta da grande cozinha do convento, onde ia buscar o chá de tília pedido por soror Theresa. Andar descuidado o meu, de quem não espera encontrar surpresa em coisa alguma, esgueirando-me das adivinhações e das alucinações por entre os interstícios do medo, tentando reparar apenas naquilo em que seria óbvio reparar. Mas, sem aviso, o improvável surgiu à minha frente na figura de uma menina muito composta, capinha de fazenda cinzenta, mãos escondidas num regalo de arminho, cabelos claros e ondeados debaixo do chapéu enfeitado com penas marfinadas de peito de pomba. Estupefacta, parei sem perceber se ela seria real ou imaginária, de tal maneira me parecia improvável estar ali, à mistura com as irmãs cozinheiras, com as noviças estouvadas, com as velhas enregeladas agachadas ao pé do fogo. Fascinada, vi-a imóvel junto à mesa dos doces, olhar vidrado de gulodice, a língua rosada e húmida a passear ao de leve ao longo do indeciso contorno dos lábios, enquanto ia tomando o gosto aos odores da encharcada, dos melindes, dos fios de ovos soltos, cheiros que se evolavam, encorpados de açúcar em ponto, das taças de vidro delicado, das tigelinhas de compota.
Senti-me estremecer diante de tamanha volúpia incontida, de tanto vacilo à beira do capricho que estranhei no desconhecimento do suspiro contido, da determinação em aceitar o desejo, do êxtase da entrega; enquanto eu me distancio das pessoas, temendo adivinhar-lhes a morte, a sombra, o seu decomposto interior, a vida de que vejo os limites, o fundo, o lodo, as rachas, na voraz roedura do corpo. Dom maldito que arrasto em silêncio, conhecendo o peso da sua asfixia, da sua secura obsessiva que me afasta dos outros, atardando-me na perda, na falta, na falha; cheiro a ferrugem dos sangues ou a ferro agoirento: das espadas, das armaduras, das viseiras, a recordarem a crueldade de um campo de batalha». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

As Luzes de Leonor. Maria Teresa Horta. «Leonor consegue a muito custo que a mãe a deixe ir com Brites buscar os doces encomendados ao Convento das Inglesinhas»

jdact

1754-1758
«(…) Como se chama, senhor meu Pai, aquela estrela com asas? Pó de estrela a fazer-se voo, poalha de luz a fazer-se sinal. E eu, espreitando pelo óculo sem observar o que ela, apenas no reparo a esmo, distingue a olho nu, reinvento o que penso conhecer, tentando adivinhar a partir da sua descrição, confundindo o que ela julga ver com aquilo que inventa. Mas a predilecção da minha filha vai para as estrelas cadentes, precipitando-se na sua vertigem e queda de chama lá no alto. Onde a Estrela Polar nos guia pelos caminhos da terra e do mar, a última da cauda da Ursa Menor afastada da sua floresta de árvores apagadas depois do escurecer. E Leonor ri encantada com aquela aventura, melhor do que as histórias de fadas, estrelas como espelhos onde o sol se reflecte, garante-se, e ela acreditando em mim aceita, crendo saber eu tudo o que diz respeito aos orbes celestes. Como se chama, senhor meu Pai, aquela estrela com asas? Tento em vão sossegar a sede de instrução da minha filha, sem poder imaginar ser de Saturno que ela fala. Isso só entenderei muitos anos mais tarde, com a ajuda do telescópio de Dollon, encomendado por mim a França para a quinta de Almada. Com ele varrerei de Norte a Sul os caminhos imbricados do céu. Deste modo a fingir enganar a solidão da velhice.
Leonor consegue a muito custo que a mãe a deixe ir com Brites buscar os doces encomendados ao Convento das Inglesinhas. Batem com a pesada aldraba do grande portão que dá para a Rua de Buenos Aires, distraindo-se a menina, enquanto esperam, a olhar as corvetas, as galeotas e as faluas transportando barris de madeira, a cruzarem as águas encapeladas do Tejo, empurradas pelo vento agreste que trepa as colinas com desembaraço, limpando os ares dos fedores e dos miasmas, para se precipitar de seguida onde as duas se encontram a enrodilhar-lhes as saias, quase levando consigo o chapéu que Leonor sente a ameaçar soltar-se dos pregos de prata e do enredo enriçado dos seus cabelos revoltos. Mas a mão de Brites é mais lesta a tomá-lo pelas fitas que já deslaçam o nó de cetim escorregadio, e com elas volta a dar um laço de borboleta junto ao queixo da criança. Depois, sem mais palavras, faz soar de novo o batente de ferro na madeira velha da porta, da qual a irmã hortelã, depois de ter espreitado pelo postigo, abre as pesadas portadas a chiarem nos gonzos enferrujados, deixando-as entrar: lugar espaçoso onde o pomar e o jardim benignamente se misturam.
Seguem as três pela área mais estreita, ladeada de arbustos magros, de murta, de madressilva e avenca. Mais adiante ficam os regos das laranjeiras, das pereiras, dos limoeiros, não muito longe dos canteiros das roseiras e dos jacintos, do amaranto púrpura. Em cima do muro baixo que ladeia o mosteiro, onde se vê o portãozinho que dá para o beco das traseiras, estão vasos de amores-perfeitos, de miosótis e de sardinheiras. A Leonor, que segue cuidando evitar a gravilha para não magoar os pés mal defendidos pelos finos sapatos, chega um persistente cheiro adocicado, numa mistura de suor, de mênstruo e de fruto sovado, que a jovem freira à sua frente solta ao ondular o hábito com o passo ligeiro. Mal entram na largueza espaçosa da cozinha são apanhadas de chofre pela intensidade de novos aromas entre si entrançados: o do arroz-doce a cozer devagar no leite encorpado, o do empadão de lebre a sair do forno e o do guisado de aves. Odores a contrastarem com a delicadeza da água de rosas a ferver com açúcar, o do manjar branco e dos queijinhos do céu acabados de saírem do fogo». In Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, Publicações dom Quixote, 2011, Prémio D. Dinis I, ISBN 978-972-204-733-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

As Egípcias. Christian Jacq. «Merit-Neit é o terceiro faraó da primeira dinastia e o primeiro faraó do sexo feminino»

Cortesia de wikipedia e jdact

Merit-Neit, a primeira faraó do Egipto?
«(…) Eis o enigma: uma mulher, Merit-Neit, a amada da deusa Neit, possui o túmulo Y em Abidos e o túmulo 3503 em Sacara. Ora, só um faraó podia ter este privilégio. Além disso, estas duas sepulturas são muito semelhantes às dos outros soberanos da dinastia. O túmulo de Merit-Neit em Abidos (19 m por 16 m), construído no fundo de um poço com paredes revestidas de tijolos, é uma das maiores e mais bem construídas sepulturas reais desta época. Entre as paredes de tijolos existem oito capelas de forma alongada onde estavam colocados objectos rituais como ânforas e outros recipientes. No solo da câmara funerária havia uma espécie de parquete e era protegida por um telhado de madeira. Não faltavam esteias erigidas em memória do defunto. Tanto em Sacara como em Abidos, a última morada de Merit-Neit encontra-se rodeada de sepulturas de funcionários e artífices que formavam a sua corte, sem esquecer setenta e sete servas, se é que podemos confiar no relatório das escavações. Concluindo: Merit-Neit é o terceiro faraó da primeira dinastia e o primeiro faraó do sexo feminino.
Uma objecção, porém: nas esteias de Merit-Neit falta a representação do falcão Hórus, protector do faraó. De facto, todos os faraós ostentavam a denominação Hórus. Cremos que a presença da deusa Neit no nome de Merit-Neit pode paliar esta ausência. Vamos tentar compreender porquê. Exceptuando Menes, o antepassado fundador, o primeiro faraó da primeira dinastia foi Aha, o Guerreiro. A sua esposa, a primeira rainha do Egipto, chamava-se Neit-Hotep, a deusa Neit está em paz. Um faraó guerreiro, uma rainha pacífica; por certo a expressão de um desejo de equilíbrio. Eis pois esta enigmática deusa Neit, que presidiu aos destinos da primeira rainha do Egipto e da primeira mulher faraó. Os textos explicam-nos a razão desta escolha. Símbolo do vento e da inundação, Neit é a imensa superfície aquática que gerou o que existe, que criou as divindades e os seres, a grande mãe que tornou as sementes fecundas; tudo o que nasce provém dela. Grande antepassada do começo dos tempos, veio ao mundo por si só: foi a primeira mãe, deus e deusa ao mesmo tempo. Andrógina, dois terços homem e um terço mulher, macho capaz de desempenhar o papel de fêmea e fêmea capaz de desempenhar o papel de macho, Neit criou o mundo com sete palavras. Gerando o seu próprio nascimento, qualificaram-na como pai dos pais e mãe das mães. Sob a protecção de Neit, uma mulher que ascenda ao poder é pois uma personalidade autónoma, tanto mais que o próprio faraó é definido como um poder divino cujas orientações regem a nossa vida, o pai e a mãe, único e sem igual.
Pai e mãe: eis a natureza do faraó. Na ordem humana, esta natureza exprime-se num casal formado pelo rei e pela rainha. Afirma Aton, o princípio criador: eu sou Ele-Ela; de resto, ele une-se à sua própria expressão feminina, Atumet, simbolizada por uma serpente. Esta constatação é importante: é um casal que governa o Egipto, análogo ao primeiro casal divino formado por Chu e Tefnut, por vezes simbolizado por um casal de leões. Não existe nenhum templo dedicado a faraós do sexo masculino e solteiros, porque uma grande esposa real revela-se indispensável para celebrar os ritos e manter a ligação entre o céu e a Terra. Em contrapartida, um faraó do sexo feminino não precisa de marido humano, pois tem em si o princípio masculino, como Ísis tinha Hórus. Mas continua a ser faraó, pai e mãe. As rainhas participaram de maneira efectiva no governo do país. Longe de serem primeiras damas apagadas e sem consistência, desempenhavam funções de Estado e foram escolhidas de acordo com a sua capacidade para as exercerem. Daí os textos enaltecerem tanto o seu sentido de autoridade como a sua beleza. Estamos longe de qualquer feminismo, pois o que é valorizado e praticado é o papel espiritual da mulher, a sua participação activa na criação espiritual. Após o desaparecimento da instituição faraónica, a ideia perdeu-se e podemos falar mais de regressão do que de progresso».


In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.
                                                                                                                            
Cortesia de EASA/JDACT