quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Viriato. A Luta pela Liberdade. Maurício Pastor Muñoz. «A acção de Viriato, tanto militar como diplomática, fez com que todos os povos vizinhos se mobilizassem contra Roma. Durante oito anos duraram as suas campanhas e não houve nenhum caso de indisciplina entre as tropas»

Estátua em Viseu
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As Fontes
«A fonte fundamental para o estudo de Viriato é Apiano, que nasceu em Alexandria mas viveu em Roma no século II d.C. A sua obra baseia-se na de Políbio, historiador contemporâneo e ligado à casa dos Cipiões por laços de amizade. Políbio é um bom conhecedor de assuntos militares e portanto revela grande objectividade ao falar da guerra lusitana, salientando a má condução da mesma por parte de Roma, e a grande coragem e habilidade militar e guerreira de Viriato.
Outra fonte fundamental é Diodoro de Sicília, que embora se baseie em Posidónio, que certamente usou Políbio, segue, contudo, uma outra via relativamente aos detalhes da descrição das matérias em questão, nomeadamente pela análise minuciosa e reflexão acerca da culpabilidade política. Posidónio adultera a exposição dos factos para favorecer as suas amizades: por exemplo, quando atribui a culpa do assassinato de Viriato não a Cepião mas aos seus assassinos materiais.
Ambas as descrições se apoiam no conhecimento directo e são especialmente relevantes. A descrição de Políbio conserva-se em Estrabão, e a de Posidónio em Diodoro.
Temos acesso à versão oficial romana da guerra pelos Annales de Tito Lívio, dos quais, infelizmente, apenas se conservam resumos e algumas referências nos seus comentadores Floro e Orósio. Para além de dados isolados que podemos encontrar em alguns autores clássicos, como Justino, Eutrópio, Veleio Patérculo, Cícero, Aurélio Vítor, Frontino ou Sílio Itálico, temos acesso a uma versão independente em Dião Cássio, que escreveu em grego no século II da nossa era.
Consequentemente, para o estudo de Viriato apenas podemos recorrer a fontes da parte dos romanos, ou seja, dos seus inimigos políticos. Na tradição oral ibérico-lusitana, ou nalguma escrita desconhecida, não há nada sobre a sua pessoa e se alguma coisa houvesse, teria sido, certamente, modificada e manipulada pelos romanos.

Tela do mestre Carlos Alberto Santos
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Nome e Origem
Habitualmente, o nome Viriato escreve-se apenas com um t, embora também apareça com th, Viriatho, grafia derivada do nome em grego Oúriathos, de que se encontram múltiplas variantes; variantes da versão latina, pelo contrário, são raríssimas e devem-se, sobretudo, a corrupções.
O nome Viriato deriva do ibérico viria, que significa pulseira, uma abreviatura do celta viriola. Nada tem a ver com o termo latino vireshomem’, ‘varão’, como alguns gramáticos sustentaram, e a derivação a partir desse termo latino é pura ficção. Viriato corresponde, portanto, ao termo latino Torquatus, que teria o mesmo significado. O nome é mais céltico do que ibérico como provam os topónimos e inscrições que foram encontrados nas províncias do Danúbio, da Gália Cisalpina e na Provença, e é frequente na Lusitânia Setentrional e Meridional, onde havia população celta. Segundo Estrabão e Diodoro, os celtas gostavam muito de pulseiras de ouro e de prata. As estátuas dos guerreiros galaico-lusitanos aparecem com estes adornos. Em Portugal, também foram encontradas, com frequência, esculturas de figuras com pulseiras.
No que se refere ao seu local de nascimento, ou seja, à sua pátria, devemos partir do que nos é dito por Schulten, igualmente adoptado pela historiografia posterior. Schulten escreveu o seguinte:
  • Viriato é originário da Lusitânia Ocidental que confina com o Oceano, e mais precisamente da montanha. A sua pátria parece ter sido a Serra da Estrela, que domina a região situada entre o Tejo e o Douro. A Lusitânia propriamente dita, o Mons Herminius, era desde há muito o local onde se concentrava a guerrilha lusitana que nestes desfiladeiros selvagens continuava a resistir a César Ainda hoje vive nesta região uma raça livre e selvagem com as suas ovelhas e cabras, no meio da solidão e das privações’.
Schulten fundamenta as suas afirmações em Diodoro de Sicília que atribui a Viriato uma origem lusitana, mais concretamente, que nascera na parte ocidental do território, perto do Oceano. Na realidade, todas as fontes antigas aceitam o carácter lusitano de Viriato. Mas nem todos admitiam que Viriato fosse de origem lusitana». In Maurício Pastor Muñoz, Viriato La Lucha por La Liberdad, Viriato, A Luta pela Liberdade, Alderabán, Ediciones,SL, 2000, Ésquilo, Lisboa, 2003, ISBN 972-8605-23-4.

Tela do mestre Carlos Alberto Santos
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Cortesia de Ésquilo/JDACT