«Já mais crescido, o menino transformou-se num adolescente de 11 anos,
inteligente e estudioso. Nessa altura teve de comparecer noutra cerimónia tradicional
que iniciaria o jovem brâmane na segunda fase da sua educação. Depois desta
cerimónia, chamada ‘cerimónia da linha’,
era hábito o estudante ir viver para o ashram, a escola do seu guru
(mestre), por um longo período de doze anos. Embora esse costume já não exista,
a solenidade da ocasião permanece ainda como uma expressão de continuidade. O jovem
tinha então de decorar os nomes de mil deuses hindus, várias orações e, no
momento da cerimónia, um mantra secreto, o Gayatimantra, que lhe era recitado
ao ouvido pelo pai para que o repetisse, baixinho, palavra a palavra, e o
retivesse na memória para sempre.
Antes da cerimónia, a cabeleira do rapaz tinha de ser completamente rapada,
excepto uma pequena madeixa de cabelo na parte superior da cabeça. Tinha também
de vestir um dhoti branco e, passando transversalmente ao longo do torso nu
do ombro à cintura, o dzànaw, constituído
por três fios enrolados num só, cada um deles feito de outros três fios finos.
Quando a cerimónia começou, sentado no chão de pernas cruzadas ao lado
do pai e ambos em frente do oratório, o filho de Mangueshbab dirigiu uma prece
aos deuses, recitando em sânscrito: Eu, Pundlik Sharma, descendente de Kaushik
Rishi…
O som do nome de Lica foi aberta e claramente ouvido
pela primeira vez por todos em casa, pois, segundo a tradição, não era
permitido ouvir-se pronunciar em família o nome do pai nem o do filho
primogénito, em sinal de respeito. Na linha de sucessão, tinham de ter os
primeiros nomes de geração em geração, alternando-os consecutivamente. Assim,
sendo o nome do pai Dattatray Pundlik, o do filho tinha de ser Pundlik Dattatray.
Por essa razão, os primeiros nomes eram considerados com certa reverência e
outros apelidos, nicknames, eram geralmente usados em família ou entre amigos.
A cerimónia que marcava o fim de uma juventude tinha terminado. Daquele
dia em diante Lica seria considerado ‘renascido’,
e estava pronto para continuar os estudos em qualquer lugar. Conforme a velha tradição,
era dado ao estudante um cajado para a sua defesa e um saco a tiracolo para a
colheita de dádivas. O jovem saudou primeiro os pais, curvando-se num namaste
e tocando nos pés de cada um, como que a pedir a bênção. Depois repetiu o mesmo
com todos os membros da família e amigos, recebendo os presentes que cada um
lhe ia oferecendo». In Edila Gaitonde, As Maçãs Azuis. Portugal e Goa 1948 – 1961,
Editorial Tágide, F. Oriente, 2011, ISBN 978-989-95179-9-8.
Cortesia de E. Tágide/JDACT