sábado, 17 de novembro de 2012

O Maior Tufão de Macau. Pedro Fragoso Matos. «Entrava o temporal numa fase, em que mal se pode descrever o excesso de furor, com que o vento e o mar se precipitavam sobre esta cidade, como se a quisessem eliminar da superfície da terra. Um estrondo constante, furioso, e rugidor, composto das vozes mais temerosas que a natureza pode soltar na sua ira…»


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Com a amizade da LC e a memória do amigo APCM

(Continuação)
  • Em pouco tempo, com o aumento da tempestade, todos os juncos foram perdendo as suas amarrações, e as águas espadanando acarretaram essa mísera esquadra de barcos que se chocavam e destruíam mutuamente, em horrenda confusão, espalhando por toda a parte os seus destroços, e refervendo-se no desencadeamento frenético das ondas; era uma cena estupenda e lamentável, que representava ao vivo os fabulados rios das regiões infernais, cheios de desesperos, de destruições, de horrores sem nome, e principalmente quando, mais tarde, os incêndios da cidade espalharam o seu rubro clarão sobre este assombroso espectáculo. A escuna Príncipe D. Carlos, abolroada pela massa de juncos, que se despegara como as neves nos mares árticos durante um débâcle foi envolvida, arrancada da sua posição, e seguiu a mesma desesperada carreira, indo-se perder por fim, no interior das terras da ilha da Lapa; a Tejo, depois de receber terríveis choques, escapou milagrosamente de perder os seus ferros, a Camões foi parar pelo rio acima, numa várzea de arroz. Estes acontecimentos haviam principiado quando ainda a parte da cidade exposta a Leste pouco sofrera. Eram duas da manhã, e o barómetro descia com maior rapidez de que antes, quando de repente o vento mudou de Norte para Leste. Essa mudança foi súbita, quase instantâneo; houve um segundo de calma, e logo, com indiscritível violência, uma rajada ululante varreu toda a extensão do Mar de Lantau. Foi o sinal. Encapelando-se em montes sobrepostos, o mar levantou-se numa vaga medonha, e sopesando-se um instante, precipitou-se de chofre sobre toda a parte oriental da cidade, desde o forte de S. Francisco até à Barra. As portas das casas da Praia Grande foram arrancadas, e a água inundou os andares inferiores, as árvores arrancadas, as cantarias dos parapeitos desmoronadas vinham ferir as casas de envolta com as vagas, quais irresistíveis arietes. Peças de artilharia de muitas toneladas, foram desmontadas, e transportadas a grande distância, pela força da vaga, como depois se verificou na manhã seguinte com geral espanto (...) Entrava o temporal numa fase, em que mal se pode descrever o excesso de furor, com que o vento e o mar se precipitavam sobre esta cidade, como se a quisessem eliminar da superfície da terra. Um estrondo constante, furioso, e rugidor, composto das vozes mais temerosas que a natureza pode soltar na sua ira, estrugiam pelos ares; mal se podiam ouvir duas pessoas vizinhas, e de vez em quando, as vibrações mais fortes da tempestade, acompanhando o esforço aumentado dos elementos, infundiam espanto e terror nos infelizes que viam os seus abrigos ameaçando sepulta-los sob as ruínas (...) Quando o barómetro chegou a 706 mm (941 hPa, digo eu), julga-se que o ápice da voracidade do tufão estava passando por Macau. Com o ímpeto das rajadas, dos escarcéus e os choques do mar, o solo estremecia como se estivesse sofrendo um terramoto. O mar saindo do leito invadiu parte dos distritos de Quang-Tung, fazendo desaparecer para sempre aldeias marítimas populosas com todos os seus habitantes, entulhando grandes e férteis campinas com enormes volumes de areias, e arremessando navios sobre o alto dos outeiros no interior das terras (...) No porto interior haviam desaparecido inúmeras lorchas assim como os navios de guerra, a Príncipe Carlos e a Camões. Em volta da ilha Verde não se viam senão destroços, quilhas voltadas para o ar, e os restos de dois navios europeus sossobrados: o inglês White-Cloud, e o brigue Concordia. O vapor Poyang, da carreira de Hong-Kong, tinha a popa destruída, a Tejo contudo escapou quase ilesa, e estava em frente da Barra, que perdera o seu parapeito exterior com oito peças de artilharia (...)


O ilustre almirante João Braz Oliveira, um dos nossos mais brilhantes escritores militares, nos Anais do Clube Militar Naval, de Fevereiro de 1901, num artigo intitulado Um Tufão no Mar da China, depois totalmente reproduzido nas suas célebres Narrativas Navais, 1908, apresentou uma admirável descrição do tufão que estamos analisando, onde se foca, mais acentuadamente, a actuação da canhoneira Camões, talvez por ser baseada nas indicações de algum membro da sua guarnição, onde se evidenciam os aspectos técnico-navais deste infausto acontecimento». In Pedro Fragoso Matos, O Maior Tufão de Macau, Separata dos Anais do Clube Militar Naval, Lisboa, 1985.

continua
Cortesia de António Pedro (†)
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