domingo, 3 de maio de 2015

O Arquivo Mitrokhine. Christopher Andrew e Vasili Mitrokhine. «O desertor do KGB tinha trazido consigo para a Grã-Bretanha pormenores não sobre algumas centenas, mas sim sobre milhares de agentes soviéticos e funcionários do serviço de informações em todos os pontos do globo»

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«Este livro baseia-se no acesso sem precedentes e sem restrições a um dos mais secretos e mais rigorosamente guardados arquivos do mundo do ramo da informação no estrangeiro do KGB, a Primeira Direcção Principal (PDP). Até aqui, o actual serviço russo de informações no estrangeiro, o SVR (Slujba Vnechnei Razvedki), esteve supremamente confiante em que um livro como este não pudesse ser escrito. Quando a revista alemã Focus informou em Dezembro de 1996 que um antigo funcionário do KGB tinha desertado para Inglaterra com os nomes de centenas de espiões russos, Tatiana Samolis, porta-voz do SVR, ridicularizou instantaneamente toda a história, classificando-a como absoluto disparate. Centenas de pessoas! Isso é coisa que não acontece!, declarou. Qualquer desertor podia obter o nome de um, dois, talvez três agentes, mas não de centenas! Os factos, porém, são de longe ainda mais sensacionais do que a história classificada como impossível pelo SVR. O desertor do KGB tinha trazido consigo para a Grã-Bretanha pormenores não sobre algumas centenas, mas sim sobre milhares de agentes soviéticos e funcionários do serviço de informações em todos os pontos do globo, alguns deles clandestinos a viver sob forte cobertura, disfarçados de cidadãos estrangeiros. Ninguém que tenha espiado a favor da União Soviética em qualquer período entre a Revolução de Outubro e as vésperas da era de Gorbachev pode confiar agora em que os seus segredos estejam seguros. Quando o Serviço Britânico de Informações Secretas (SIS) tirou o desertor e a sua família da Rússia em 1992, também trouxe seis caixas contendo as copiosas notas que ele tinha tomado quase diariamente durante doze anos, antes da sua reforma em 1984, sobre processos secretos do KGB que remontam até 1918. O conteúdo das caixas é descrito desde então pelo FBI americano como a mais completa e extensa informação jamais recebida de qualquer origem. O funcionário do KGB que reuniu este extraordinário arquivo, Vassili Mitrokhine, é actualmente cidadão britânico. Nascido na Rússia Central em1922, iniciou a sua carreira como funcionário do serviço soviético de informações no estrangeiro em 1948, numa altura em que os ramos de informação no estrangeiro do MGB (o futuro KGB) e do GRU (serviço de informação militar soviética) estiveram temporariamente combinados na Comissão de Informação. Na altura em que Mitrokhine foi enviado para a sua primeira colocação no estrangeiro em 1952, a Comissão tinha-se desintegrado e o MGB tinha retomado a sua tradicional rivalidade com o GRU. Os seus primeiros cinco anos nos serviços secretos foram passados na atmosfera paranóica gerada pela fase final da ditadura de Estaline, quando as agências de informação receberam ordens para realizar caças às bruxas em todo o Bloco Soviético contra conspirações titistas e sionistas, na sua maioria imaginárias.
Em Janeiro de 1953, o MGB foi oficialmente acusado de falta de vigilância, na caça aos conspiradores. A agência noticiosa soviética TASS fez o sensacional anúncio de que, nos últimos anos, agências de informação do sionismo mundial e do Ocidente conspiravam com um grupo terrorista de médicos judeus para liquidar a liderança da União Soviética. Durante os últimos dois meses de governo de Estaline, o MGB tentou demonstrar a sua acrescida vigilância perseguindo os perpetradores dessa inexistente conspiração. A sua campanha anti-sionista foi, na realidade, pouco mais do que um pogrom anti-semita mal disfarçado. Pouco antes da súbita morte de Estaline em Março de 1953, Mitrokhine recebeu ordens para investigar as alegadas ligações do correspondente do Pravda em Paris, Iuri Jukov, que se tinha tornado suspeito por causa das origens judaicas da sua mulher. Mitrokhine teve a impressão de que o brutal chefe supremo da segurança de Estaline, Lavrenti Beria, planeava implicar Jukov na suposta conspiração dos médicos judeus. Poucas semanas depois do funeral de Estaline, porém, Beria anunciou repentinamente que a conspiração nunca tinha existido, e isentou de culpa os alegados conspiradores. No Verão de 1953, a maioria dos colegas de Beria no Presidium estavam unidos pelo receio doutra conspiração, de que ele pudesse estar a planear um golpe de Estado para se pôr no lugar de Estaline. Ao visitar uma capital estrangeira em Julho, Mitrokhine recebeu um telegrama altamente secreto com instruções para ser ele próprio a decifrá-lo, e ficou espantado ao descobrir que Beria tinha sido acusado de actividades criminosas contra o partido e contra o Estado. Só mais tarde é que Mitrokhine soube que Beria tinha sido preso numa reunião especial do Presidium em 26 de Junho, depois duma conspiração organizada pelo seu principal rival, Nikita Kruschev. Da sua cela na prisão, Beria, escreveu cartas a implorar aos seus antigos colegas, pedindo-lhes pateticamente que lhe poupassem a vida e arranjassem o mais humilde dos empregos para mim: verão que daqui a dois ou três anos me terei endireitado e ainda lhes serei útil. Peço aos camaradas que me perdoem por escrever algo desconexamente e mal por causa da minha situação, e também por causa da má iluminação e de não ter o meu pince-nez». In Christopher Andrew e Vasili Mitrokhine, o KGB na Europa e no Ocidente, tradução de Freitas Silva, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999/2000, ISBN 972-201-900-7.

Cortesia PDQuixote/JDACT

sábado, 2 de maio de 2015

Poesia. As Fábulas. Três Rostos. Epístolas e Memorandos. Fiama Pais Brandão. «Depois, mundo maior foi a presença e a ausência, a alegria e as dores de outros que não eu. E um dia, no alto da catedral de Gaudí, chorei de horror da queda, como os caídos anjos…»

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Estradas
«Por giestas, tojo e trevo
um dia abandonei-me. A medo,
na giesta roçar a espádua,
e no tojo a pele dos artelhos.
Dor, mágoa nesse caminho,
um dia seco entre montes.

Alcantilado amarelo,
crua miragem, passei
crente do amor e alma
que haviam de jorrar
para os inocentes.
Mas quem me dava
inocência ou magia?

Quem me conduzia
em caminhos de soleiras
de casa a casa vivas,
entre a giesta e o tojo?
Só o trevo me salva
da cega dor. Delíquio
entre flores minhas
que na Primavera
recobrem toda a estrada.

Eu vi, andei, e o meu pacto
de andar caminhos pobres
mais pobre foi no tojo.
Mais belo, alto, na giesta
o corpo consolou-se
e aceitou essa via
ao longo da estrada amarga».
Poema de Fiama Hasse Pais Brandão, in ‘Cenas Vivas, Relógio d´Água’




Foz do Tejo, um país
«O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma».
Poema de Fiama Hassa Pais Brandão, in ‘Cena Vivas, Relógio d´Água, 1997’

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O Anjo Negro. Nieves Hidalgo. «No final da Primavera, os seus dois filhos, Miguel e Diego, engrossaram a tripulação do navio Castilla, que batalhou contra dois navios de bandeira inglesa perto dos Açores»

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«Miguel Torres e seu irmão são exilados da Espanha para sempre por traição. Tentam refazer a sua vida em Maracaíbo, mas o pirata Morgan ataca a cidade, captura-os, e são vendidos como escravos em Port Royal. Kelly Colbert viaja a Jamaica como castigo por negar-se a um casamento arranjado. Em Promise, terá que lutar contra as normas de uma sociedade apoiada na tirania. Mas, sobretudo, combaterá a paixão que um arrogante escravo espanhol desperta nela. Escapando de Promise, Miguel une-se a piratas franceses. Amargurado e vingativo, jura fazer todos os ingleses pagarem pela sua humilhação. E, quando o navio no qual Kelly retorna a Inglaterra cai nas suas mãos, encontra a vítima propícia para dar rédea aos seus mais baixos instintos. O capitão do Anjo Negro tem dinheiro, poder e rancor. Mas não tem em conta o amor, uma arma muito mais poderosa que o ódio.

Corte de Madrid. Inverno de 1667
Alejandro Torres andava de um lado a outro da pequena sala em que aguardavam a decisão do Tribunal da Corte. Com as mãos cruzadas nas costas e o semblante sério, ia dando voltas pelos últimos acontecimentos e não podia acreditar que o destino fosse tão injusto. No final da Primavera, os seus dois filhos, Miguel e Diego, engrossaram a tripulação do navio Castilla, que batalhou contra dois navios de bandeira inglesa perto dos Açores.
Alguns homens morreram em combate e, entre eles, dom Esteban de Albadalejo, personagem muito estimado no palácio. Embora a notícia daquela morte consumisse todos em dor, só era uma mais das que chegavam, de vez em quando, aos ouvidos públicos, dado que os galeões espanhóis eram constantemente abordados por piratas franceses, holandeses e ingleses, nas suas viagens de ida ou volta às costas caribenhas, onde a Espanha mantinha posses.
Os galeões eram navios de grande peso, sem equipamentos de batalha; por isso, convertiam-se presas fáceis para os embusteiros e corsários que atacavam sob bandeira estrangeira. E embora, nos últimos tempos, o soberano doasse grandes somas para a sua protecção, o Castilla viajava sozinho.
Não, de facto, a notícia da morte de dom Esteban não foi mais que uma má notícia para a Espanha. Até que acusações secretas sussurradas em certos ouvidos colocaram os dois filhos de dom Alejandro no banco dos réus no tribunal: segundo o Tribunal, acusados de alta traição, por fornecer aos piratas ingleses a rota que o Castilha seguiria. Alejandro Torres era um homem influente, ostentava o título de duque de Sobera, e era latifundiário proprietário de extensos imóveis em Salamanca, Toledo e Sevilha; amigo de advogados, ministros e inclusive cardeais. Nada disso libertou os seus filhos das acusações nem do julgamento que foram submetidos.
Nem o libertou da tortura de ter que voltar para casa e consolar a sua esposa, Mariana, que se desfazia em lágrimas. Nesse momento, depois de um longo mês de espera, de entrevistas com uns e outros e apoiado por seu irmão Daniel, de buscas incansáveis de testemunhas, devia aguardar, como qualquer outro, que o Tribunal da Corte do rei Carlos emitisse seu julgamento». In Nieves Hidalgo, O Anjo Negro, Laromântica/booket, Wikipédia.

Cortesia de LBooket/JDACT

sexta-feira, 1 de maio de 2015

História do Pudor. Jean-Claude Bologne. «São as autoridades que condenam os banhos nus, fecham os bordéis, regulamentam os gestos permitidos e os proibidos. Fácil é ver nesta oposição o resultado de tão diferente educação artística e do acesso ao segundo grau, que oculta…»

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Pudores individual e social.
«(…) Francamente paradoxal, por fim: uma mulher nua no século XVII pode ser mais púdica que uma mulher vestida. Paradoxo aparente, uma vez que o pudor feminino é então natural. Desde Plutarco que se repete que a mulher, quando tira a camisa, veste o pudor. Num Dialogue de la mode et de la nature de 1662, esta última acusa a sua interlocutora de ter tornado as mulheres de tal modo imperiosas e afectadas que nelas já se não reconhece qualquer traço de pudor. A afectação das preciosas, as mosquinhas, os ricos tecidos parecem muitas vezes mais perigosos que um decote um pouco audacioso. Tais as principais ciladas a evitar quando se quer fazer a história de um sentimento e não de uma palavra. Quando se lida com uma realidade por vezes confusamente sentida, há que preservar-lhe a espontaneidade, definindo-lhe rigorosamente o alcance.

Origens do pudor
A história de um sentimento só pode ser feita através da história de atitudes e de comportamentos. Mas estes são muitas vezes ambíguos. Deveremos pois penetrar previamente, para além do gesto e da reacção visíveis, nas motivações e nas mentalidades que lhes estão subjacentes. Na origem de comportamentos púdicos encontram-se muitas vezes realidades sociológicas que escapam à história. Assim, através dos séculos, registam-se pudores de classe social. As classes populares são em geral hostis ao nu artístico. As esculturas do Renascimento, florescem as de Miguel Ângelo, encontraram mais hostilidade junto do povo que entre as autoridades civis ou religiosas e vão ter que ser vestidas para serem expostas em fontanários ou praças públicas. No século XVIII, são os pequeno-burgueses quem mais se perturba com as pinturas indiscretas dos artistas da corte. Napoleão III exige que sejam expostas num Salão dos Rejeitados as obras censuradas pelo pudibundo júri do salão oficial e, ainda hoje, a censura popular é bem mais severa para com os filmes ousados do que a tesoura de Anastasia.
Inversamente, as classes dominantes, aristocracia e depois burguesia, mostram-se hostis ao nu quotidiano. São as autoridades que condenam os banhos nus, fecham os bordéis, regulamentam os gestos permitidos e os proibidos. Fácil é ver nesta oposição o resultado de tão diferente educação artística e do acesso ao segundo grau, que oculta com uma aura artística a mais provocatória nudez. A nudez de primeiro grau, a que o homem da rua adere com mais facilidade, sendo facilmente vulgar àqueles que se gabam de a ter ultrapassado. Em todas as épocas, enfim, a marginalidade fala a linguagem da nudez. A provocação é obra dos heréticos nos séculos de absolutismo religioso: adamitas, abelitas, turlupianos, abandonam a roupa e a religião oficial. Nos séculos da moral burguesa, os artistas, os hippies recebem o testemunho; num mundo cada vez mais industrializado, os naturistas confundem nudez com retorno à natureza. A história da nudez voluntária não interessa ao pudor, não mais que essa outra forma de meter entre parênteses o nu que é a arte erótica. Para o estudo, atenderei apenas às mentalidades partilhadas pelo maior número de pessoas, o que não impede que se consagre um apêndice aos principais movimentos nudishs que atravessaram a história». In Jean-Claude Bologne, Histoire de la pudeur, Olivier Orban, 1986, História do Pudor, Editorial Teorema, Círculo de Leitores, 1996, ISBN 972-42-1374-9.

Cortesia de CL/JDACT

Da Sedução. Pablo Picasso. Bertolt Brecht. «O homem deve trazer um livro sempre consigo. Para que à mão possa ter o seu porto de abrigo. Cansado de infeliz ser que começou a pensar…»

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Canção de Baal
«Se a mulher tem coxas gordas, na relva dou-lhe um encosto
a saia e calça arejo as bordas, ao sol, porque é assim que eu gosto.

Se a mulher morde feliz, na relva eu esfrego o rosto
o ventre, os dentes e o nariz limpinhos, que é assim que eu gosto

Se a mulher entra num jogo fogoso, mas descomposto
eu rio e dou-lhe a mão, logo: amável, que é assim que eu gosto».


Sobre a vitalidade
«0 principal é a vitalidade
que depois de aguardente está em alta
mulher sadia e moça é uma maldade
p'ra vitalidade, que ela quer sem falta.

P'ra a cama com as mulheres levai chicote
se se enroscam em desconformidade!
Ao ar livre também dá: e sem fricote
com a necessária vitalidade.

A vitalidade também opera
no anjo mais tolo. A vitalidade.
Que de bruços deitado, como fera
coisas extremas suplicar-vos há-de.

Nem alma, nem carácter são o lema
da vitalidade, ou alavanca
e antes a cara de trás o tema
e a mulher como potranca.

A vitalidade é puro animal
a vitalidade dá-se à boa vida.
E desenfreada. Por exemplo, Baal
era uma pessoa desabrida.

(Por isso rogo a Deus, à saciedade
por vitalidade.)»
Poemas de Bertolt Brecht, in ‘Da Sedução

In Bertolt Brecht, Da Sedução, Poemas Eróticos, Gravuras de Pablo Picasso, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2004, ISBN 972-53-0018-1.

Cortesia da EBizâncio/JDACT

A Costureira. Kate Alcott. «Acha que ela está fugindo de alguém? Talvez da polícia? De um homem? Não tenho como saber, mas com certeza tu vais tecer uma bela história com isso, disse Lucy, acenando para Cosmo, que se aproximava…»

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Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«(…) As docas estavam escorregadias por causa das algas. Com o coração acelerado, ela encolheu-se entre o burburinho e o caos ao seu redor e inspirou o ar penetrante e salgado que vinha do mar. Mas onde estavam as placas anunciando os empregos? Ela abordou um homem metido num uniforme com grandes botões de metal e perguntou num francês hesitante, e depois num inglês urgente, quem estava encarregado de contratar funcionários para a limpeza e a cozinha daquele novo e grande navio. Chegou tarde, minha jovem, os serviçais já foram todos contratados e os passageiros logo estarão embarcando. Má sorte a sua, receio. Ele deu-lhe as costas. Não importava quanto ela sorrisse, seu plano estava ruindo. Que idiota... ,ela deveria ter ido antes. E agora? Engoliu o sentimento vazio de não saber o que viria a seguir e tentou pensar. Encontre famílias; procure crianças pequenas. Ela daria uma boa ama. Então ter sete irmãos e irmãs menores não contava como experiência? Ela estava pronta para isso, sem problema nenhum; só precisava encontrar a pessoa certa e dizer as coisas certas para conseguir o que queria. Ela não iria desistir, não seria mesmo. Iria embora de qualquer jeito. Mas ninguém lhe deu a mínima. Um casal inglês de idosos recuou quando ela perguntou se eles precisavam de companhia para a viagem. Quando se aproximou de uma família com crianças e ofereceu seus serviços, eles a olharam com desconfiança, sacudiram a cabeça com educação e se afastaram. O que ela esperava? Ela devia estar parecendo desesperada, com os cabelos desgrenhados e tudo o mais. Lucy, olha aquela garota ali. Elinor apontou um dedo delicado e bem cuidado para a frenética Tess. Ela é uma beldade. Linda, de olhos grandes. Olha só ela correndo para falar com as pessoas. Creio que está tentando entrar no navio. Acha que ela está fugindo de alguém? Talvez da polícia? De um homem? Não tenho como saber, mas com certeza tu vais tecer uma bela história com isso, disse Lucy, acenando para Cosmo, que se aproximava. Ele parecia, como sempre, meio alheio ao ambiente. Olhos frios, expressão calma; sempre no comando. Seguindo-o, vinha um mensageiro tímido. Lucile, houve um problema... Cosmo iniciou. Eu sabia, interrompeu Lucile, enrijecendo a mandíbula. Foi Hetty, não é? Ela disse que não pode vir. A mãe está doente, informou o mensageiro. Ele inclinou-se para a frente, quase numa reverência nervosa, o melhor que pôde, porque Lucile agora estava furiosa. Diga a essa garota que ela não pode desistir na hora de partirmos! Quem ela pensa que é? Se não embarcar connosco, está despedida! Você lhe disse isso? Ela olhou carrancuda para o homem. Sim, madame, ele arriscou-se a responder.
Tess ouviu a confusão e parou, atraída pela visão das duas mulheres. Seria possível? Sim, uma delas usava o mesmo chapéu grandioso com a belíssima fita verde que ela vira da janela; e estava bem ali, distraidamente dando leves batidas no chão com a ponta daquela mesma sombrinha. A voz aguda da outra mulher captou a sua atenção. Que desculpa miserável!, vociferou ela. Alguém não tinha aparecido para a viagem, alguma espécie de empregado, e aquela ‘pessoa’ de cabelo ruivo vivo e batom cor de carmesim estava furiosa. Que aparência formidável tinha ela. O rosto de ossos marcantes, imóvel, não admitia concessões, e os seus olhos arregalados pareciam capazes de mudar de suaves para duros numa questão de segundos. Naquele momento, não havia nenhuma suavidade neles. Quem é ela?, perguntou Tess a um rapaz que se juntara ao grupo. A sua voz tremia. Nada estava certo. Tu não sabes? Ela olhou de novo para a mulher e notou como as pessoas diminuíam os passos ao se aproximar, sussurrando, lançando-lhe olhares de admiração. Sim, havia algo familiar. Não acredito..., disse ela num fio de voz. É Lucile Gordon.
Óbvio. Couture, você sabe. E a outra mulher é a irmã dela, Elinor Glyn. Ela é de Hollywood, escreve romances. Alguns bastante escandalosos, na verdade.  Tess mal ouviu o que ele dizia. Aquela personagem irada era a estilista mais famosa do mundo, alguém cujos lindos vestidos ela havia visto nos jornais, e agora estava a poucos metros de distância. Era a sua chance, era a sua chance. Lady Duff Gordon, não acredito no que estou vendo!, irrompeu Tess, abrindo caminho. Eu a admiro tanto! A senhora é tão talentosa. Já vi fotos dos seus vestidos que me fizeram sonhar. Ela estava matraqueando, mas não se importava. A única coisa que queria era a atenção de Lucile. A estilista a ignorou. Eu adoraria trabalhar para a senhora, implorou. Conheço o ramo. Sou costureira, faço trabalhos muito bons, poderia ser de grande ajuda para a senhora. Ela pensou, enlouquecida: e agora, o que dizer?  Sou óptima com casas de botões, qualquer coisa que a senhora necessite. Por favor... Ela está desesperada, murmurou Elinor com um risinho enquanto endireitava o seu chapéu elaborado. Lucile virou-se na direcção de Tess. Você sabe de que trabalho se trata?, inquiriu ela. Tess hesitou. É para ser minha empregada pessoal. E agora, continua interessada? Tudo bem. Qualquer coisa, qualquer coisa para entrar nesse navio. Trabalhar com lady Lucile seria uma oportunidade inacreditável. Onde trabalha? O que faz? Eu..., trabalho numa casa em Cherbourg. E faço vestidos. Tenho clientes muito satisfeitos. Uma servente, nenhuma surpresa, murmurou Elinor. Lucile a ignorou. O seu nome? Tess Collins. Tessie. Ah, sei. Não. Tess. Que seja. Sabe ler e escrever? Mas é claro!, Tess estava indignada. Os olhos de lady Duff Gordon reviraram-se com admiração diante daquele arroubo». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

Sonetos Completos. Antero Quental. «Quem, no meio do lidar da vida, roçando os braços pelas arestas cortantes que a erriçam de ângulos, pousar o olhar da alma sobre um soneto e não sentir o que os sequiosos sentem…»

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Ignoto Deo
«Que beleza mortal se te assemelha,
ó sonhada visão desta alma ardente,
que reflectes em mim teu brilho ingente,
lá como sobre o mar o Sol se espelha?

O mundo é grande, e esta ânsia me aconselha
a buscar-te na Terra: e eu, pobre crente,
pelo mundo procuro em Deus clemente,
mas a ara só lhe encontro…, nua e velha…

Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és aqui? Olhar de piedade,
gota de mel em taça de venenos…

Pura essência das lágrimas que choro
e sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
descobre-te, visão, no céu ao menos».
Soneto de Antero de Quental, in ‘Sonetos Completos


In Antero de Quental, Sonetos Completos, 1886, Grandes Clássicos da Poesia, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.

Cortesia de PEAmérica/JDACT