sábado, 8 de maio de 2021

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Eu estava presa dentro do labirinto do jardim do meu tio. Ele havia acabado de construí-lo e não se cansava de repetir que os monges que tinha contratado para desenhá-lo eram melhores do que os que o cardeal Wolsey usara. O labirinto tinha sido inaugurado naquele dia, 4 de Setembro, data da celebração anual do segundo duque de Buckingham, meu avô falecido havia tempos. Nós, os primos, fomos vendados e conduzidos até ao centro. Então nossas vendas foram retiradas, e mandaram que saíssemos correndo para ver quem chegaria primeiro. Percorram o labirinto! Percorram o labirinto!, gritava meu tio do lado de fora das sebes sinuosas. Eu era uma das mais novas e logo fiquei para trás. Em pouco tempo me vi sozinha. Corria de um lado para outro esperando ver as paredes verdes se abrirem para o jardim, mas o meu instinto estava sempre errado e eu só me embrenhava ainda mais no labirinto.

O que há com você, Joanna? Pense, menina, pense! As vozes foram ficando mais altas, mais impacientes. Joanna, deixe de ser boba!, gritou um dos meninos. Alguém mais velho o mandou calar a boca. Eu virara o centro das atenções, coisa que sempre detestava. Será que havia dobrado à direita naquela curva ou à esquerda? O pânico me fazia esquecer os caminhos que já tinha percorrido. Como minha cabeça girava com o aroma das rosas. Dúzias de roseiras vermelhas muito bem podadas se espalhavam pelo labirinto. A temporada dessas flores estava quase no fim e as suas pétalas já tinham murchado e caído. Além disso, já havia passado a hora do dia em que o seu frescor estava no auge.

Mas eram muitas roseiras, e eu passara por elas várias vezes. Quase podia sentir na boca o sabor pungente daquelas rosas altivas e cheias de pólen. Fiz uma curva bem rápido e trombei com Margaret. Caímos as duas no chão, rindo, com as contas de nossas mangas bufantes emboladas umas nas outras. Depois de nos soltarmos, ela me ajudou a levantar. Margaret era um ano mais velha e cinco centímetros mais alta que eu e sempre muito mais inteligente e bonita. Minha prima-irmã, minha única amiga. Margaret, onde se meteu?, gritou o duque de Buckingham. É melhor não ter entrado no labirinto de novo para buscar Joanna. Ah, ele vai zangar-se consigo, falei. Não deveria ter vindo. Margaret piscou para mim. Limpou a sujeira das nossas roupas de festa e me conduziu para fora do labirinto sem largar a minha mão em momento nenhum.

Estavam todos nos esperando na entrada, no que parecia ser uma reunião completa do clã dos Stafford e de todos os nossos criados. Meu tio, o duque, mais importante nobre da Inglaterra, usava roupas bordadas em prata e uma longa pena de avestruz no chapéu. Ao lado dele estava seu irmão mais novo, sir Richard Stafford, meu pai. Por pouco não os alcançava uma sombra comprida que se estendia pelo jardim, lançada pela torre quadrada que se erguia acima de nós. O castelo de Bornbury (?), em Gloucestershire, fora construído para fazer frente aos ataques. Não de algum inimigo estrangeiro, mas de muitas gerações de reis Plantagenetas cobiçosos de poder. Destemida, Margaret foi directamente até ao duque. Viu, pai, encontrei Joanna, disse ela. Já podem ir jogar ténis. Ele nos examinou com as sobrancelhas arqueadas enquanto todos aguardavam, tensos. Mas o duque de Buckingham riu. Beijou a filha adorada, sua filha ilegítima, criada junto com os quatro rebentos de sua submissa duquesa. Eu bem sei que você é capaz de tudo, Margaret, falou. Meu pai também me deu um abraço apertado. Ele havia passado o dia inteiro caçando, e me lembro do seu cheiro de suor, terra e relva seca esmagada. Eu me senti muito aliviada e feliz.

A carroça londrina deu uma travagem e estremeceu, derrubando-me por cima da palha. Foi o fim do meu devaneio.  Tínhamos deixado para trás os muros da cidade e viramos para uma rua lateral. As rodas da carroça estavam atoladas na lama. O carroceiro praguejou quando os cavalos relincharam, e os homens barulhentos se moveram para a parte de trás da carroça. Não faz mal, disse-me a mulher. Já estamos quase em Smithfield.

Segui o grupo até ao fim da rua e em seguida por outra via margeada por tabernas, que se abria para um imenso descampado plano apinhado de pessoas que já tinham chegado e aguardavam a execução do dia. Eram centenas: homens, mulheres, marinheiros e costureiras, além de crianças. Uma família me empurrou para passar, a mãe carregando um cesto de pão, o pai com um menino encarapitado nos ombros. Sem qualquer aviso, um cheiro fétido dominou minhas narinas, minha garganta e meus pulmões. Meus olhos lacrimejaram. Era o pior cheiro que eu já tinha sentido em Londres. Dei um grito e levei as mãos à garganta, que ardia. É o matadouro, que fica a leste daqui, explicou a mulher com quem eu viajara na carroça. Quando o vento sopra de lá, o cheiro de sangue e vísceras pode ser bem ruim. Ela tocou meu cotovelo. Estou vendo que você não está acostumada com Smithfield. Venha comigo, não saia de perto». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Nancy Bilyeau. Os Mistérios da Coroa. «Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«(…) Um rapaz sentado à minha frente abriu um sorriso e disse, em voz alta, para a carroça inteira escutar: estamos gratos ao rei por queimar uma bela jovem em Smith eld. A última pessoa a morrer na fogueira foi um falsário velho e feio. Um bolo de pão mastigado me subiu pela garganta e cobri a boca com a mão. Mas ela é bonita mesmo?, perguntou alguém. Um homem já idoso, de olhos azuis leitosos, enrolava com o dedo um pelo comprido que brotava do meio de seu queixo. Eu conheço uma pessoa que já viu lady Bulmer em carne e osso, e ela é bonita, sim, disse ele devagar. Mais do que a rainha. Que rainha?, gritou um dos homens. Todas as três, respondeu outro. Uma risada nervosa percorreu a carroça. Era crime zombar dos casamentos do rei, que se divorciara da primeira esposa e executara a segunda para dar lugar à terceira. Muita gente já tinha perdido mãos e orelhas por causa disso. O velho torceu o pelo do queixo com mais força.

Lady Bulmer deve ter ofendido muito o rei para ele mandar queimá-la em praça pública diante dos plebeus, em vez de mandar decapitá-la perto da torre ou de enforcá-la em Tyburn. Eles trouxeram para Londres todos os nobres e dalgos, todos os seguidores de Robert Aske, disse o rapaz. Para receber a justiça do rei. Ela vai ser apenas a primeira a ser executada.

Minha respiração se acelerou. O que aqueles londrinos iriam dizer, o que iriam fazer comigo se soubessem quem eu era e de onde vinha? Uma coisa era certa: eu jamais chegaria a Smithfield. Busquei nas minhas preces algo para me fortalecer. Senhor meu Deus, ajudai-me a ser obediente sem reservas, pobre sem servilidade e casta sem excepção. Essa tal de Margaret Bulmer é uma rebelde imunda!, gritou a mulher que tinha dividido o pão comigo. Uma papista do norte que conspirou para derrubar nosso rei. Humilde, alegre sem esbórnia, séria sem afectação, activa sem frivolidade, submissa sem amargura, verdadeira sem duplicidade. Com voz branda, o velho disse: no norte, as pessoas deram a vida pelas tradições. Queriam proteger os mosteiros. Todos soltaram exclamações de desprezo. Aqueles monges gordos escondendo potes de ouro enquanto os pobres morrem de fome do lado de fora dos seus muros.

Ouvi falar numa freira que pariu o bastardo de um padre. As freiras são todas pu… Ou então aleijadas..., ou estúpidas, desprezadas pelas famílias. Ouvi um ruído rascante. Foi minha própria risada, uma risada amarga, sem alegria, e que ninguém escutou, pois nesse mesmo instante ouviu-se um grito do lado de fora da carroça. Uma criança de rua passou correndo, tão depressa que ultrapassou os nossos cavalos. Um olhar de pânico por cima do ombro revelou que não era um menino, mas sim uma menina de rosto encardido, com os cabelos cortados curtos.

Um punhado de terra voou pelo ar e atingiu seu ombro. Ai!, gritou ela. Seus cachorros! Dois meninos grandes apareceram junto à lateral da carroça e riram. Iriam alcançá-la dali a um minuto. Os homens em cima da carroça atiçaram a perseguição. A menina saiu correndo pela rua em direcção às lojas. Outra garota acenou do vão de uma porta. Por aqui!, gritou. A moça entrou, e a porta se fechou atrás das duas. Os meninos chegaram segundos depois e começaram a esmurrar a porta, mas estava trancada. Fechei os olhos. Era outra menina quem corria. Aos 8 anos, sem ar, com a barriga doendo, eu corria por um caminho cercado por altas sebes de teixo, em busca de uma saída. Podia ouvir pessoas chamando meu nome, mas não conseguia vê-las. Rápido, Joanna, rápido... nós vamos jogar ténis depois!, gritavam meus primos, tão fortes, tão duros.

Vamos, menina, você consegue!, bradava o meu tio Edward Stafford, terceiro duque de Buckingham e chefe da família. Tem que encontrar a sua própria saída. Não podemos mandar ninguém atrás de vós e correr o risco de perder mais uma criança». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres, 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Os Mistérios da Coroa. Nancy Bilyeau. «Eu me recostei numa lateral da carroça. Passámos por um pequeno mercado que parecia não vender outra coisa que não especiarias e ervas. Agora que havia parado de chover, os vendedores retiravam as mantas que mantinham secas as suas bancadas estreitas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Londres, 25 de Maio de 1537

«Quando uma execução na fogueira é anunciada, as tabernas de Smith eld encomendam barris extras de cerveja, mas quando a pessoa a ser executada é uma mulher, e ainda por cima pertencente à nobreza, a bebida chega em carroças lotadas. Eu iria andar numa dessas carroças na sexta-feira de Pentecostes, no ano do reinado do rei Henrique VIII, para rezar pela alma de lady Margaret Bulmer, a traidora condenada. Pude ouvir o chamado do carroceiro enquanto seguia para a Cheapside Street, apertando na mão o mapa de Londres que, duas noites antes, eu copiara em segredo de um livro. Agora que eu tinha chegado a uma rua grande e calçada com pedras, conseguia andar mais depressa, mas minhas pernas latejavam. Havia passado a manhã inteira caminhando com dificuldade na lama. Smithfield! Está indo para Smithfield? A voz soava alegre, como se o destino ao qual se referia fosse uma feira do Dia de São Jorge. Logo à frente, diante de um curtume, vi quem tinha gritado: um homem grandalhão que açoitava o lombo de quatro cavalos atrelados a uma grande carroça. Meia dúzia de cabeças espiavam por cima da borda.

Espere!, gritei o mais alto possível. Eu quero ir para Smithfield! O carroceiro se virou e seus olhos vasculharam a multidão. Acenei, e seu rosto se iluminou com um sorriso caloroso. Conforme eu me aproximava, minha barriga se contraía. Eu tinha prometido não falar com ninguém naquele dia, nem pedir ajuda. O risco de ser descoberta era enorme. Mas Smith eld cava a norte e a oeste de Londres, fora dos limites da cidade, e ainda faltava muito para chegar lá. Quando me aproximei, o carroceiro me olhou de cima a baixo e seu sorriso desapareceu. Eu estava usando uma pesada túnica de lã, a única que consegui para a viagem. Era feita para o mais rigoroso dos invernos, não para a primavera, muito menos para um dia em que a névoa mantinha o clima abafado. A bainha amarfanhada da túnica estava encharcada de lama. Mas pelo menos eu me sentia grata por ninguém conseguir ver, através do tecido grosso, minha combinação molhada de suor.

Mas eu sabia que não eram apenas as roupas desarrumadas que estavam fazendo o carroceiro pensar duas vezes. Muitas pessoas achavam minha aparência estranha. Meus cabelos são negros como ônix polido e meus olhos são castanhos, salpicados de verde. Minha pele morena não era vermelha em Julho, nem pálida em Dezembro. Minha pele é como a de minha mãe espanhola, mas não tenho os seus traços delicados. O meu rosto puxou ao do meu pai, que era inglês: testa larga, malares saltados, queixo marcado. É como se a incompatibilidade do casamento dos meus pais travasse uma batalha no meu rosto, bem à vista de todos. Em uma terra de moças rosadas e brancas, eu me destaco feito um corvo. Houve um tempo em que isso me incomodava, mas agora, aos 26 anos, eu já não me preocupava com coisas tão bobas. Um xelim pela viagem, moça, disse o carroceiro. Pague e vamos indo.

Seu pedido me pegou de surpresa, embora eu devesse estar preparada para a cobrança. Estou sem moedas, gaguejei. O carroceiro soltou uma risada que foi como um latido. Acha que eu faço isso por diversão? Escute aqui, moça, me restou pouca cerveja... Ele deu um soco no barril de madeira atrás de si. …e tenho que ganhar o suficiente para pagar pela carroça. Por trás do barril, eu podia ver seus passageiros espichando o pescoço para me olhar. Espere, falei, levando a mão à bolsinha de pano dentro do bolso que eu havia costurado na parte interna da roupa. Agitando os dedos lá dentro, encontrei um anel. Não queria dar a ele nada de mais valioso. Tinha subornos importantes pela frente. Estendi o anel. Isto aqui serve? Num segundo, a cara feia do carroceiro se transformou numa expressão de deleite, e o anel de ouro de minha falecida mãe sumiu na palma suja da sua mão.

Ao subir na traseira da carroça, pude distinguir pena e desprezo no rosto dos outros viajantes. Meu anel devia valer bem mais do que o percurso. Encontrei um monte de palha limpa num canto, sentei-me e baixei os olhos, tentando evitar os olhares curiosos, enquanto a carroça retomava o seu curso. Senti um cotovelo me cutucar nas costelas. Uma mulher corpulenta escorregou para mais perto de mim. Era uma senhora de meia-idade, a única outra pessoa do sexo feminino naquela carroça. Sorrindo, ela me estendeu um pedaço de pão. Eu não comia nada desde a ceia da véspera. Em geral apreciava a sensação de fome, o facto de dominar minha carne mortal e fraca, mas aquela missão exigia certo vigor. Peguei o pão com um meneio agradecido da cabeça. Um bocado de comida e um gole de cerveja aguada do cantil de madeira da mulher fortaleceram meu corpo entorpecido.

Eu me recostei numa lateral da carroça. Passámos por um pequeno mercado que parecia não vender outra coisa que não especiarias e ervas. Agora que havia parado de chover, os vendedores retiravam as mantas que mantinham secas as suas bancadas estreitas. O odor de uma rica mistura de borragem, sálvia, tomilho, alecrim, salsa e cebolinha se espalhou pelo ar e se dissipou depois que passamos. Os cheiros da cidade voltaram a predominar. Avistei umas construções de quatro andares, mais prósperas do que quaisquer outras que eu já vira antes. A placa de um ourives pendia numa esquina». In Nancy Bilyeau, Os Mistérios da Coroa, Editora Arqueiro, 2012, ISBN 978-858-041-082-2.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Nancy Bilyeau, Literatura, Londres,

terça-feira, 4 de maio de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Não, Zarita. Não irei às favelas da cidade. Não podemos ter outro incidente no qual seu pai tenha de aplicar uma justiça rápida para impedir roubos e violência. Justiça!, exclamei»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Entre as pessoas que vieram à nossa casa apresentar seus pêsames nas semanas e meses após a morte de minha mãe estava a condessa Lorena de Braganza. Tinha 20 anos, somente cinco a mais do que eu, e era apenas uma conhecida distante de nossa família, mas acariciou o braço do meu pai como se fosse uma amiga íntima e ronronou condolências no seu ouvido. A princípio, prestei-lhe pouca atenção, pois estava concentrada nos meus próprios assuntos. Eu descobrira um propósito, uma missão especial de caridade para empreender. Acreditava que, se conseguisse encontrar a mãe do filho do mendigo e salvá-la da pobreza, eu poderia ser como minha mãe e, desse modo, estar perto dela ainda que tivéssemos sido separadas. Eu me via agora como um anjo de piedade e esperava que isso expiasse minha má acção e aliviasse um pouco da culpa que sentia pela morte do mendigo.

Eu sabia que teria de ir às áreas mais pobres da cidade e, por causa disso, precisaria de um acompanhante. Não pedi a Ramón Salazar. Não achei que ele concordaria. Em todo o caso, suas mais recentes visitas à minha casa costumavam coincidir com as de Lorena de Braganza, quando a atenção dele era desviada pela conversa e pelos comentários espirituosos da condessa, e não houve qualquer oportunidade para eu lhe falar em particular pelo menor período de tempo que fosse. Decidi pedir ajuda a Garci, o administrador de nossa fazenda. Estava segura da sua ajuda, pois, quando eu era pequena, ele não me recusava nada. Garci e sua esposa Serafina nunca tinham sido abençoados por um filho e de certa forma me adoptaram, de modo que podia lhe pedir qualquer coisa, que meu desejo era satisfeito. Portanto, fiquei surpresa quando lhe resumi minha proposta e ele sacudiu a cabeça.

Não, Zarita. Não irei às favelas da cidade. Não podemos ter outro incidente no qual seu pai tenha de aplicar uma justiça rápida para impedir roubos e violência. Justiça!, exclamei. Aquilo não foi justiça, Garci. Não pode querer desculpar o que meu pai fez, enforcando o mendigo sem um julgamento. Eu não estava lá, replicou Garci lentamente. Como sabe, estava na feira equestre de Barqua. Olhou-me severamente. E esse foi o principal motivo por ter conseguido deixar esta casa acompanhada apenas por Ramón Salazar. Se eu estivesse aqui, não teria aberto o portão para você ir às ruas do velho porto sem uma escolta armada e uma companhia feminina. Mudei de posição, incomodada. Garci adivinhara que eu me havia aproveitado do tumulto em casa naquele dia: meu pai, Ardelia e Serafina, nossa governanta, estavam ocupados com a mãe, de modo que consegui dar uma escapulida acompanhada apenas por Ramón.

Portanto, como não testemunhei a situação, prosseguiu, não julgarei os actos de seu pai. Ele é um homem rigoroso. Fez uma pausa. E agora que sua mãe faleceu, quem estará presente para lembrá-lo de que a piedade é uma virtude concedida por Deus? Garci mencionara minha mãe, e percebi o seu ponto fraco. A mãe teria desejado isso, disse-lhe. Ela teria ficado horrorizada com a morte do mendigo e providenciaria para que a esposa deste fosse cuidada. Alguns momentos se passaram antes de Garci responder. Tem razão, disse ele. Sua mãe teria feito o que diz. Irei consigo procurar essa pobre mulher.

Garci sabia que o pai não podia tomar conhecimento da nossa expedição, portanto esperamos até uma tarde quando ele estava ausente, visitando a casa do pai da condessa Lorena nas colinas vizinhas. Tive o bom senso de me vestir com simplicidade, sem usar roupas finas nem jóias, e cobrir completamente o cabelo e o rosto. Mas, antes mesmo de chegarmos aos arredores das barriadas da cidade, Garci quis voltar. Essas favelas não são lugar para uma pessoa decente, disse-me. Mesmo assim, pessoas decentes devem viver aqui, retruquei. Ou acha que a pobreza torna uma pessoa indecente?

Essa era uma das frases da mãe; ela defendia a sua caridade a meu pai quando ele declarava que, na sua opinião, os pobres causavam infortúnio a si mesmos. Garci não respondeu; apenas fez um ruído estalando a língua para demonstrar a sua desaprovação. Estou fazendo um acto de caridade, acrescentei para acalmá-lo, e então lembrei-lhe: a minha mãe teria aprovado. Ah, a sua mãe, disse Garci. Ela era a mais bondosa das mulheres. Suspirou, e eu soube que havia lágrimas nos seus olhos.

Depois disso ele se tornou mais submisso, batendo de porta em porta para perguntar sobre o paradeiro de uma mulher doente que agora devia estar sozinha, mas anteriormente tivera marido e filho cuidando dela. Contudo, não achamos qualquer vestígio da mulher. Um grande número de portas permaneceu fechada para nós, e as pessoas que abriam as suas eram hostis e desconfiadas. Finalmente, Garci parou no meio da rua. É inútil, afirmou. A mulher do mendigo pode estar em qualquer aposento deste emaranhado de construções, doente demais para se levantar e atender as nossas batidas à porta. Havia uma velha senhora sentada num batente. Fui até lá e me ajoelhei diante dela. Mãe, falei. Ela me olhou com leitosos olhos brancos de extrema velhice. Eu não tenho filha, rebateu. Tive três excelentes filhos, mas foram para a guerra e nunca mais os vi. Eu lhe chamei de mãe porque não tenho uma, disse-lhe baixinho. A velha estendeu a mão nodosa e tocou a minha. Perguntei-lhe se conhecia alguém que pudesse ser a mulher que procurávamos. Não conheço tal pessoa, respondeu.

Desesperada, sentei-me sobre os calcanhares. Então tateei dentro da bolsa, tirei uma moeda e lhe dei. Ela escondeu-a numa dobra da roupa, e fiquei imaginando quantos dias de pão ela teria com aquilo. Ao me levantar, a velha ergueu a cabeça e informou: talvez haja alguém que possa ajudar. Há um homem, um médico, que mora na casa do fim da rua. Ele cuida de quem está doente, mas não tem dinheiro». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Ele mencionou uma esposa, comentei. O quê? Ramón bebeu mais um pouco do cálice de vinho. Suas palavras eram indistintas. Quem tem uma esposa? O mendigo, repeti»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Menos de uma semana atrás, Ramón teria procurado qualquer desculpa para me envolver nos seus braços, mas agora ele me fizera um afago e deixara os braços caírem pelas laterais. Eu era tão feia assim na minha dor? Eu sabia que meus olhos estavam vermelhos de chorar, as faces manchadas, a mantilha torta por eu ter puxado e coçado o cabelo. Ardelia atraiu-me delicadamente para si.

Que bandos de anjos a conduzam ao Paraíso...

Chegara a hora da despedida. Os familiares próximos entraram no mausoléu. O cheiro de morte penetrou nas minhas narinas. As luzes bruxuleavam nas paredes.

Que lhe seja concedido o descanso eterno, Ó Senhor. Descanso eterno.

Eterno. Para sempre. Eu nunca mais veria a mãe novamente.

Meus sentidos pareceram flutuar, e um barulho atordoador percorreu minha cabeça. Então um braço forte estava nas minhas costas e dedos me apoiavam pelo cotovelo. Por um segundo vertiginoso pensei que fosse Ramón vindo em meu auxílio. Mas era a tia Beatriz que estava ao meu lado. Zarita, falou com firmeza no meu ouvido, comporte-se com dignidade. Sua mãe teria desejado isso. Mordi o lábio com força suficiente para sentir gosto de sangue. Endireitei-me e ergui bem alto a cabeça. No meu outro lado Ardelia apertou com sua enorme mão a minha e sussurrou palavras de encorajamento no meu ouvido.

Enterraram a mãe com o bebé que ela dera à luz; o bebé menino pelo qual meu pai ansiava tão desesperadamente para que seguisse os seus passos, cuidasse da fazenda, fosse um orgulhoso proprietário de terras como ele e perpetuasse seu nome.

Depois da cerimónia, o pai estava exausto; retirou-se para o seu quarto assim que voltámos do cemitério. Fui deixada para cuidar dos enlutados que tinham aceitado a oferta de comida e bebida em nossa casa. Ramón estava presente, mas não ficou ao meu lado, como deveria ter feito, para me ajudar a cumprimentar e depois agradecer aos convidados por terem comparecido para apresentar as suas condolências. Minha tia Beatriz foi embora mais ou menos uma hora depois. Ela me abraçou e me beijou.

Perder a mãe é uma dor esmagadora, Zarita. Saiba que compartilho seu pesar e que isso lhe sirva de consolo. Eu amava minha irmã, pois ela era linda tanto de aparência quanto de carácter. Ela se foi..., esperemos que para um lugar melhor do que este. Tia Beatriz fez o sinal da cruz em mim, tocando-me a testa, o coração e através do peito. Cada pessoa sobre esta terra tem o seu próprio Calvário para escalar, Zarita. Só posso dar-lhe um pequeno conselho. Faça como sua mãe teria feito. Continue o trabalho dela. Seja activa nos seus actos de caridade. Tenha interesse naqueles dentre nós que nada têm. Pense se há pessoas que podem precisar da sua ajuda. Talvez nem saiba quem são. Cabe-lhe encontrar tempo para procura-las.

As palavras de minha tia permaneciam na minha mente quando comecei a acender os lampiões contra a escuridão. Todos tinham ido embora, menos Ramón Salazar, que estava afundado numa poltrona junto à janela, um cálice pendendo da sua mão. Seu belo rosto estava afogueado de tanto vinho e me lembrei de como tínhamos sido felizes havia menos de dois ou três dias. Uma repentina lembrança do mendigo na igreja me surgiu, junto a outro pensamento. Fui até lá, sentei-me na poltrona defronte a Ramón e lhe perguntei se ele se lembrava das palavras que o homem pronunciara. Ramón, porém, não queria lembrar-se daquele dia. Tentou contornar minha pergunta e relutou em manter uma conversa sobre o incidente. Mesmo assim, insisti: a vergonha por minha falta de caridade para com o mendigo, que causara a sua execução, me fazia falar. Ele mencionou uma esposa, comentei. O quê? Ramón bebeu mais um pouco do cálice de vinho. Suas palavras eram indistintas. Quem tem uma esposa? O mendigo, repeti. Quando me pediu uma moeda na igreja, ele mencionou que sua esposa estava doente e que poderia morrer. E daí? Ramón bocejou. Eu estive pensando, falei bem baixinho, o que terá acontecido com ela?» In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Paramos diante da entrada da tumba, e notei que havia ali outra pessoa que não se dirigira a mim nem me dissera qualquer palavra gentil desde o dia da minha perda»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Não poupe despesas, ordenara. Quero o melhor para minha esposa e meu filho. A voz de pai falhara nesta última palavra, e Garci havia estendido sua mão a ele, mas a havia recolhido antes de tocá-lo. Agora o condutor da carruagem fúnebre puxou as rédeas para parar os cavalos, e o padre veio ao nosso encontro. E, de repente, tudo se tornou real para mim. Eu tinha passado os últimos dias chorando e soluçando através do que parecia um terrível pesadelo, mas, ao ver os homens erguerem o caixão de madeira que continha os corpos de mãe e do meu irmão recém-nascido, fui arrebatada pela emoção em toda a sua força. O sol ofuscante penetrou a renda negra de minha mantilha e crestou minha visão. Era tudo verdade; não se tratava de um sonho do qual eu acordaria. Minha mãe seria colocada naquele lugar frio e escuro, e não voltaria para casa, para nós.

Os cavalos mudaram de posição e seus arreios e tirantes tiniram. O padre Andrés começou a entoar as preces pelos mortos: das profundezas, eu clamo a ti, Ó Senhor. Senhor, escuta a minha voz. Ele liderou a procissão. Os homens com sua carga o seguiram, depois a família e os amigos. Eu mal conseguia mexer-me. Minha velha ama de leite, Ardelia, colocou o braço em volta de minha cintura para me apoiar. Ela chorava copiosamente, pois também fora ama de leite de minha mãe e a amava, assim como todos que a conheceram. Seus estremecidos soluços reverberavam através de mim. Lágrimas escorreram novamente de meus olhos. Havia anos, quando foi nomeado magistrado, meu pai mandou erigir nossa cripta funerária com colunas, estátuas e os elegantes adornos que achou de acordo com sua nova posição. Naquele momento ele parecia ter sido esculpido no mesmo mármore frio, e meu coração gelou quando vi seu rosto. Ele me dirigira menos do que uma dúzia de palavras desde a morte de minha mãe. Ardelia tentara explicar: não se aflija por causa dos modos de seu pai, dissera-me ela. É compreensível que ele haja dessa maneira. Você se parece tanto com sua mãe que olhá-la deve partir seu coração.

Nos meus pensamentos mais sombrios eu me afligia por isso. Se eu fosse homem, o pai teria ficado tão agoniado? Prantearia seu há muito desejado filho homem mais do que o fez por minha mãe? Ele não me demonstrara qualquer sinal de compaixão que me ajudasse a suportar minha perda. Naquela primeira noite após a mãe ter falecido, fui-me ajoelhar junto à sua cadeira, como costumava fazer à noite, quando ele afagava meu cabelo e conversava comigo. Eu pretendia compartilhar meus pensamentos com ele; talvez falássemos da mãe e nos consolássemos um ao outro. Quando, porém, me ajoelhei à sua frente para descansar a cabeça no seu colo, ele se levantou abruptamente e deixou a sala.

Lembre-se, homem, que és pó, e ao pó voltarás...

Paramos diante da entrada da tumba, e notei que havia ali outra pessoa que não se dirigira a mim nem me dissera qualquer palavra gentil desde o dia da minha perda. Ramón Salazar estava parado ao lado. Tentei atrair a atenção dele, mas seu olhar movimentava-se por entre o grupo de mulheres. Imaginei que ele não conseguia olhar para mim porque lhe seria doloroso ver-me aflita. Seu rosto exibia uma adequada expressão sombria. Contudo não pude deixar de notar que ele vestia um gibão bordado novo em folha com plissado pespontado ao estilo italiano. Era do mais escuro veludo e encimado por uma gola enrugada de renda branca, e fiquei imaginando se ele não o mandara fazer especialmente para a ocasião e escolhera o estilo para destacar as aristocráticas linhas angulares do seu rosto. De repente, senti a necessidade do calor de um homem, em particular daquele homem que frequentemente confessara seu amor eterno por mim. Desejava sua proximidade e almejava ter sua força para me apoiar. Impulsivamente, caminhei na sua direcção. Ele me olhou de relance e então examinou minha aparência mais detidamente, e percebi um vislumbre de leve desdém no seu rosto. Agarrei-o e tentei pousar a cabeça no seu peito. Ele deu um pequeno passo para trás». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Domingos Amaral. A Vitória do Imperador. «Simpática, afável e carinhosa, era uma menina dada a todos, homens e mulheres, mas sabíamos que nunca fora usada por ninguém, guardando-se como se fosse um tesouro valioso»

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Coimbra, Páscoa de 1131

«(…) Francês e antigo cónego na Sé, Bernardo fora nomeado bispo de Coimbra com um propósito: resistir aos desejos permanentes de hegemonia de Compostela e de Toledo. Ora, estando Anacleto em vias de vencer o cisma católico, o mosteiro apostólico apoiado por Afonso Henriques seria uma imprudência infantil! Inocêncio II não vai perder o papado, contrapôs meu tio Ermígio. Fosse como fosse, alegou o inflamado bispo, melhor seria que esperassem pela resolução do cisma! Se Inocêncio acabasse por vencer a luta contra o Antipapa Anacleto, o mosteiro poderia então ser erguido, pois já não representaria um perigo para Coimbra. Não voltarei com a minha palavra atrás, afirmou o príncipe.

A doação estava feita, o documento assinado, diziam-lhe pouco as subtilezas distantes da crise em Roma. Se Anacleto vencesse e Toledo nos quisesse prejudicar, cá estaríamos para lutar pelas nossas justas pretensões. Confrontado com esta firmeza, o bispo Bernardo lançou umas palavras finais reveladoras do seu mau perder: uma guerra com Toledo e com Roma, só para terdes uma sela? Que terrível tolice, sois um rapazola! O meu melhor amigo virou costas ao bispo sem lhe ripostar, o que levou meu tio Ermígio, já nos degraus exteriores da Sé, a gabar-lhe a serenidade. Aproximando-se da sua montada, Afonso Henriques limitou-se a olhar para a bonita sela e a exclamar: agora só me falta um cavalo decente!

Era uma das suas queixas recorrentes, estava sempre insatisfeito com os animais que cavalgava, que pareciam não ser capazes de o carregar. O meu melhor amigo era um gigante e quando embainhava a espada de seu pai, que só ele conseguia erguer, juntando-a ao escudo com que se armara cavaleiro em Zamora, o peso do conjunto era quase insuportável para os cavalos. Tendes razão, esta pileca não vos serve!, afirmou Gonçalo. Entretidos com o novo tema, esquecemos prontamente a polémica com o bispo Bernardo e as implicações do longínquo cisma de Roma. Foi um erro grave, que no futuro nos iria sair bastante caro. Os inimigos do ainda nascente reino de Portugal eram muito mais poderosos e numerosos do que pensávamos naqueles dias.

Coimbra, Páscoa de 1131

Mal nos afastámos da Sé, fomos surpreendidos pela aparição inesperada da princesa Zaida, que saía do edifício pela porta lateral da biblioteca. Era conhecido o gosto da rapariga pelas leituras e, anos antes, sua mãe Zulmira chegara a temer que tanto entusiasmo pelos Testamentos fosse uma predisposição para uma futura mudança de religião. Nada mais longe da verdade: Zaida não tencionava converter-se a Cristo, tinha era uma curiosidade infinita pelas histórias de um passado que o Islão e a Cristandade partilhavam. Ao vê-la surgir, Gonçalo exclamou, animado: Zaida, minha amada, finalmente encontro-vos! É hoje que casamos? A rapariga desatou a rir e todos nos congratulámos secretamente por vê-la de novo alegre. Já haviam passado quase dois anos sobre a tenebrosa morte de sua mãe Zulmira, mas durante muito tempo ninguém vira aquela bonita moura sorrir. Roliça e vivaça, era dotada de uns olhos negros brilhantes que faziam estremecer o coração de qualquer homem, e deslocava-se sempre num passo dançarino e saltitante, que conferia leveza a um corpo bem desenhado e redondo. Simpática, afável e carinhosa, era uma menina dada a todos, homens e mulheres, mas sabíamos que nunca fora usada por ninguém, guardando-se como se fosse um tesouro valioso. E levais-me para Córdova?, ripostou ela». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, História, Literatura, A Arte, 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A Vitória do Imperador. Domingos Amaral. «Não conheceis as divisões que grassam em Roma?, trovejou. O bispo Bernardo era um homem pequeno, magro e seco de carnes, mas cheio de genica e duro nas suas proclamações…»

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Coimbra, Páscoa de 1131

«(…) Realizados os cumprimentos, Afonso Henriques fixou o olhar na belíssima sela do animal de Telo e, não sendo capaz de conter a curiosidade, perguntou onde o outro a comprara. Em Montpellier, respondeu o religioso. Descreveu-nos o seu recente périplo por longínquas paragens, até à Cidade Santa de Jerusalém. Tinha ido com o prior Teotónio e a viagem fora inesquecível, embora ensombrada pelo desgosto sentido ao verificarem que, em Roma, acontecera um novo cisma. Anacleto, apoiado pelos arcebispos romanos, não aceita Inocêncio II como Papa. E parece que vosso primo Afonso VII e os leoneses dão suporte às suas maliciosas intenções, relatou o arcediago Telo.

As complexas divisões da cidade papal devem ter parecido ao príncipe de Portugal distantes e maçadoras, pois o seu olhar manteve-se pousado na garbosa sela ornamentada de Telo. Como a poderia ter?, perguntou. O proprietário da dita tinha fama de homem despojado, mas surpreendeu-nos quando revelou uma faceta de hábil negociador. Trocava esta sela, sem hesitar, por um terreno junto aos Banhos Régios, fora da muralha. O arcediago Telo apontou para o local em causa, mais frequentado por mouros ou moçárabes, que tinham hábitos de lavagem e higiene bem mais apurados do que a maioria dos cristãos. Agora os religiosos também vão a banhos?, interrogou-se Gonçalo Sousa, sempre jocoso. Com um leve sorriso, Telo explicou-nos que desejavam construir no local um mosteiro, chamado de Santa Cruz, onde viveriam os novos monges da vida apostólica, não fora, mas dentro da cidade, não fechados em clausura, mas presentes no mundo. A original ideia agradou ao meu amigo, que ainda mais contente ficou quando soube que Teotónio, antigo prior de Viseu, aceitara cargo idêntico no futuro mosteiro. Afonso Henriques admirava muito aquele homem, que considerava um santo e um protector.

Contudo, demonstrando que o talento comercial também lhe corria nas veias, o príncipe hesitava em conceder tantos terrenos em troca de uma única sela, o que levou meu tio Ermígio a incentivá-lo a realizar a doação, colocando-a por escrito em documento nobre, como um gesto de regência e não um mero negócio particular. Assim farei, concedeu, por fim, Afonso Henriques. O que ninguém esperava era que a generosa dádiva gerasse tanta polémica. Nos dias seguintes, quando se tornou pública a oferta da propriedade, o bispo de Coimbra revelou profundo desagrado com a instalação de um mosteiro daqueles na sua cidade. Alegou o bispo Bernardo ser ele quem devia autorizar a instalação de religiosos na região. Oferecer uma propriedade e aprovar um mosteiro, geridos pelo presbítero Telo e pelo prior Teotónio, sem sequer o consultar, era afrontar a sua posição! Numa reunião acalorada na Sé, apresentou argumentos requintados para esconder as suas verdadeiras motivações: o ciúme que lhe provocavam Telo e os seus monges em Coimbra, aliado à incomodidade por ter sido totalmente ignorado pelo príncipe de Portugal.

Não conheceis as divisões que grassam em Roma?, trovejou. O bispo Bernardo era um homem pequeno, magro e seco de carnes, mas cheio de genica e duro nas suas proclamações, não sendo muito estimado pela população, que o considerava por vezes injusto e demasiado ríspido, com uma moral exigente que muitos diziam não aplicar à sua conduta privada. Mas a sua pergunta era pertinente: o papado estava dividido por um cisma e havia quem tomasse já partido por Anacleto contra Inocêncio II, sendo uma das principais razões invocadas o excessivo apoio que este último dava aos monges apostólicos. Toledo e Compostela estão a alinhar contra Inocêncio II! Um mosteiro apostólico em Coimbra vai erguer contra nós a ira dos leoneses! Afonso VII, vosso primo, apoia Anacleto. Quereis que o Antipapa obrigue Coimbra a uma nefasta submissão a Toledo?» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Vitória do Imperador, Casa das Letras, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-461.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, História, Literatura, A Arte, 

Hélia Correia. Adoecer. «Queria estar entre iguais e anulava as mensagens de feminilidade. As estudantes olhavam-lhe para os pés que não se achavam escondidos pelas saias de balão como se olhassem um defeito de nascença»


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Manchester,1857

«(…) O edifício, todo em vidro e ferro, foi num instante erguido nos domínios dos Jardins Botânicos, em Old Trafford, um subúrbio longínquo. Era precisa muita raiva social para que os burgueses encarassem uma causa de objectos de arte como a sua própria causa. Os críticos puderam encontrar grosseria no facto de terem incluído música permanente, o que prejudicava a fruição. Trinta mil visitantes por dia provocavam uma barreira que a si própria se detinha, não deixando ninguém aproximar-se e apreciar um quadro em pormenor. Jornalistas estrangeiros, indiferentes ao snobismo da geografia, comparavam o acervo com o do Louvre. As pinturas dos Pré-Rafaelitas eram consideradas repugnantes pelo seu excesso de realidade e o seu desprezo pela perspectiva. Quem atender a certos textos críticos, pensará que ali estava o início do cubismo.

Para quem senhoreava a natureza, para quem lhe assentava a mão na nuca forçando-a a dobrar-se para entrar no domínio da fábrica, a distância era um obstáculo fácil de abater. A Câmara estendeu o caminho-de-ferro propositadamente até Old Trafford. Os visitantes viam o espectáculo dos dois milhares de chaminés, ao 1onge, olhando muito para além do arco triunfal. O negror daquele céu apavorava e tornava os londrinos indulgentes com o ar da capital. Um arrepio um tanto literário os percorria. O grupo que chegou em comboio especial vindo de Sheffield, certo dia de Setembro, distinguiu-se dos outros pelo facto de trazer Lizzie Siddal. Ela fora frequentar a Escola de Arles na cidade que era famosa pela cutelaria e que anos atrás tinha exportado com abundância para Portugal.

Havia ainda alguns familiares no negócio das pratas e do estanho. Tinham a vida assente numa história de sangue nobre e de riquezas usurpadas, como acontece a quase todos nós. Essa falsa memória ronda à volta de certa gente permeável à vaidade e assombra-lhes o olhar, como um fantasma. Pelo retrato de Charles, pai de Lizzie, percebemos que existe no seu corpo um agravo que o torna quase hostil. Mas na geração dela só restava finura de maneiras, o que de forma alguma proviria do baronato de província inglês. Não era o sangue mas a ilusão o que configurava esta família e isso tinha efeitos espirituais.

Lizzie despiu o guarda-pó que a protegera do fumo de carvão e os companheiros afastaram-se um pouco. Ela vestia com certa austeridade, usando saias sem armação, como as trabalhadoras. Só no segundo pré-rafaelismo, que estava justamente a começar, os trajes medievais fizeram estilo, mudando mulheres vivas em imagens. Na Escola de Artes onde, aliás, não fora oficialmente aceite, as raparigas sorriam, no seu modo de sorrir, enervado e cruel, da forasteira. A sua qualidade de londrina e de pintora aceite entre os famosos levava os homens a abrirem-lhe a passagem. Mas naquele mundo fortemente sexuado, a distinção que ela lhes merecia falava mais à ordem do desejo e a sua frieza massacrava-os.

Queria estar entre iguais e anulava as mensagens de feminilidade. As estudantes olhavam-lhe para os pés que não se achavam escondidos pelas saias de balão como se olhassem um defeito de nascença. Lizzie dispunha contra elas de um reduto, um trio que a rodeava Com deferência: a irmã Lydia que a acompanhara a Sheffield, a prima Sarah lbbitt e Annie Drury. Nunca deixou muitas mulheres entrarem na sua intimidade. Era quase forçosa uma conquista, à maneira do amor. Os homens duvidavam da doença que era uma espécie de atributo físico e atraía os românticos com a força que tinham os decotes noutro século. Duvidavam a ponto de, por vezes, se tornarem cruéis, como se houvesse uma armadilha oculta em qualquer tosse. A morbidez literária tinha eivado todas as percepções do erotismo e as eternamente moribundas, como era Lizzie, conheciam a vantagem. Ainda assim, certas mulheres estendiam-lhe os braços maternais. Eram mulheres robustas, de bom peito e que não viam nela uma rival». In Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-160-2.

Cortesia de RD’Água/JDACT

 JDACT, Hélia Correia, Literatura, 

Adoecer. Hélia Correia. «O segundo caixão que aqui desceu levava dentro Elizabeth Siddal em 1862. Sete anos mais tarde, no Outono, à luz de uma fogueira, o portuguee, como era designado com desprezo, mandou abrir a cova»

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Highgate Cemetery,2005

«(…) Durante muito tempo houve somente dois corpos lá em baixo. Gabriele, o pai, teve a cegueira a prepará-lo. Não custava deixar um mundo onde a leitura lhe faltara. Na sala que as elites liberais e os belos exilados frequentavam e onde aquele que viria a ser imperador de França tinha exposto os sonhos juvenis, as conversas perdiam o fulgor. O anfitrião já não iluminava. Os visitantes vinham, sobretudo, agora, por Christina que não deixava de os desconcertar. Eram então serões armadilhados em que o fervor literário dos Rossetti disfarçava mensagens sexuais que se autodestruíam com decência. Gabriele morria confortável, na boa idade, venerado e pobre. O seu trabalho de procriador fora bem sucedido, pelo menos a um primeiro olhar: dois filhos belos, duas filhas devotas. E o seu corpo que conhecera a energia do poema e a energia da revolução confundidas num único argumento gerara realmente, nos rapazes, uma formação de arte e rebeldia. Mas o impacto das ruas abrandava na saia das mulheres e todo o escândalo era domesticado antes de entrar.

O segundo caixão que aqui desceu levava dentro Elizabeth Siddal em 1862. Sete anos mais tarde, no Outono, à luz de uma fogueira, o portuguee, como era designado com desprezo, mandou abrir a cova. Ninguém, a não ser este Charles Howell, se atreveria a tanto. Descendia do marquês de Pombal e executava qualquer tarefa, como um jornaleiro.

 

Manchester,1857

A coisa é, em três quartos, lixo inglês, escreveu Engels a Marx. Do gigantesco número de obras expostas, pouco mais apreciou do que um retrato de Ariosto por Ticiano. Tinha o olhar impressionado pelas imagens da miséria real. Fora gerir as fábricas do pai. Manchester tinha feito novos ricos mas costumava segredar contra si própria a quem tivesse tempo para a ouvir. O cérebro alemão de Friedriech Engels compreendeu que havia um pensamento que acabava de achar um pensador. O dinheiro da família era bastante para sustentar também Marx e a mulher. Se for possível, passem cá no Verão, propõe, porém com clara displicência. A Grande Exposição não o distrai. A arte inglesa conhecia, é certo, alguns atrevimentos. A energia dos vitorianos vibrava contra eles e recolhia, com um suspiro de satisfação. O verdadeiro horror, o das ruelas, dos doentes e dos assassinos, mantinha-se na treva, de perfil. Exceptuando certas expedições de caridade, a cujo estilo não eram estranhos os massacres, só os livros de Dickens estabeleciam um pequeno contacto entre os dois mundos. Esperava-se, entre certos socialistas, que o encontro entre eles sucederia. Isso seria mais perturbador do que as ideias em que Darwin trabalhava. E, no entanto, o inglês comum olhava com cuidado para o chão, preocupado com a porcaria. Dentro do seu percurso, não previa nenhuma outra ameaça. Artistas e mulheres emancipadas apareciam por vezes nas conversas, enquanto se fumava. A digestão tornava-se difícil e interessante. Passava neles um frémito, a lembrança da voz das prostitutas nas esquinas. O génio de Wordsworth ficaria para sempre obscurecido se ele tivesse morado, nem que fosse uma semana, na bruma de Manchester, escrevera um jornalista. Em 1857, uma cidade negra e brutal negava essa má fama com a mais requintada das vinganças. Batia Londres no seu próprio campo. Seis anos antes, a capital organizara a grande exposição universal, que celebrava sobretudo o progresso da indústria. Manchester, com um gosto inesperado, chamou à sua Tesouros da Arte e dedicou-a unicamente às obras que as colecções privadas possuíam. Houve um entusiasmo nos empréstimos. A verdade é que as casas dos ricos mancunianos estavam cheias de preciosidades. A nobreza também se mostrou generosa. Conhece-se a excepção do duque de Devonshire que, em resposta, mandou os emissários ocuparem-se do que lhes competia e regressarem para os seus teares». In Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-160-2.

 Cortesia de RD’Água/JDACT

JDACT, Hélia Correia, Literatura,

domingo, 2 de maio de 2021

Los Amores de Nishino. Hiromi Kawakami. «De vez en cuando iba a verlo con Minami. Él mismo me pedía que la llevase. Si tuviera un hijo, querría que fuera niña, solía decir. Nishino nunca se había casado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Qué será el amor? Las personas tienen derecho a enamorarse de otros, no a que los demás las amen. Todas han amado a Nishino. Todas han sucumbido, aunque solo sea durante una hora, a ese hombre seductor, imprudente y salvaje como un gato, que se inmiscuía de manera natural en la vida de las mujeres a las que deseaba conquistar. Pero quién era Nishino? Ellas, que guardan en la memoria el vivo recuerdo de su cálido aliento, de sus silencios indescifrables y sus gestos de indiferencia, toman la palabra para recrear la figura llena de encanto de un hombre conmovedor e inalcanzable. A través de este retrato también ellas revelan quiénes son. Sus testimonios son variaciones llenas de humor, sensualidad, inteligencia y melancolía sobre ese extraño sentimiento llamado amor.

Minami tenía siete años en aquella época. Era una niña introvertida. Siempre estaba haciendo piezas de origami con sus finos dedos. Un piano. Una flor de campanilla. Un periquito. Una caja con pies. No se cansaba de hacer figuras, que guardaba delicadamente en una caja forrada con papeles de colores. Minami es la niña que di a luz siendo muy joven. Cuando ella tenía siete años, yo aún no había llegado a la treintena y, a veces, me resultaba un incordio. Acto seguido, sentía una punzada en el corazón y la abrazaba con fuerza. Quizá fuese porque la conjugación de mi juventud y de aquella blandura indefensa de Minami, semejante a la de un bebé, conseguía espantar la sensación de fastidio. Cuando la abrazaba con fuerza, Minami siempre se quedaba quieta y callada. De pequeña, Minami era muy callada.

En aquella época, me había enamorado. Qué demonios será el amor? Estaba enamorada de Nishino, un hombre que me sacaba doce años. Se había acostado conmigo en múltiples ocasiones. La primera vez que me rodeó el hombro, guardé silencio igual que Minami y dejé que lo hiciera. Simplemente me callé y dejé que me abrazara, sin pensar si aquello era cariño o amor. Cada vez que nos veíamos, me sentía más dispuesta a estar junto a él, pero los sentimientos iniciales de Nishino nunca cambiaron. Qué será el amor? Las personas tienen derecho a enamorarse de otros, no a que los demás las amen. Que yo estuviese enamorada de Nishino no significaba que Nishino tuviese que estar enamorado de mí. Aun sabiéndolo, me disgustaba que no me quisiera tanto como yo lo quería a él. Y como me disgustaba, cada vez lo necesitaba más y más.

Un día, Nishino me llamó cuando mi marido estaba en casa. Mi marido me pasó el teléfono en silencio. Lo hizo tan tranquilo, limitándose a decir: es de la aseguradora. Yo cogí el aparato y, en voz baja, respondí escuetamente: sí, vale, no, de acuerdo. Al otro lado de la línea se oía la voz de Nishino que, imitando el tono de un empleado de una compañía de seguros, intercalaba a propósito frases como quiero hacerte el amor ahora mismo, y yo me dije que a lo mejor aquel hombre en realidad no me gustaba. Mientras atendía la llamada, mi marido permaneció a mi lado en silencio, echando un vistazo a unos papeles. Quizá lo supiera todo o quizá no. Durante los casi tres años que pasaron desde que conocí a Nishino, me enamoré de él y, poco a poco, fue poniendo distancia de por medio hasta que dejamos de llamarnos, mi marido jamás me hizo pregunta alguna. Yo no dejaba de repetir sí, vale, tiene razón, mientras observaba su pulcra nuca. Tras hablar durante unos minutos, Nishino colgó de repente. Porque siempre era Nishino quien colgaba. Quizá no me gustase, pero estaba enamorada de él.

De vez en cuando iba a verlo con Minami. Él mismo me pedía que la llevase. Si tuviera un hijo, querría que fuera niña, solía decir. Nishino nunca se había casado. En aquella época ya debía de pasar de los cuarenta. Si bien era siete años mayor que mi esposo, no tenía ni una sola pizca de ese aire frío y sereno que poseía mi marido. Daba la impresión de que jamás encajaría en la sociedad, pero debía de ser un profesional muy competente; recuerdo haberme sorprendido cuando lo conocí y me entregó una tarjeta de presentación en la que figuraba un cargo importante. Nishino siempre le traía regalitos a Minami. Ábrelo, le decía, y Minami abría el envoltorio en silencio. Al desanudar el lazo rojo, se oía el roce de sus finos dedos sobre la tela.

Un elegante lapicero adornado con conchas rosadas. Un pisapapeles con forma de perro. Un bollo relleno de ankoes polvoreado con semillas de amapola. Una cajita de música que cabía en la palma de la mano. Minami miraba los regalos sin cambiar apenas de gesto y siempre inclinaba un poco la cabeza en señal de agradecimiento. Muchas gracias, decía en voz baja. Nunca me preguntó quién era Nishino. Simplemente, me agarraba de la mano y me acompañaba en silencio, como una sombra. Me asustaba que pudiera hablarle de Nishino a mi marido? No estaría deseando, en el fondo, que, como por casualidad, Minami dejase caer el tema en casa?» In Hiromi Kawakami, Los Amores de Nishino, 2003, Narrativa Internacional, Titivillus, 2017, ePub base r1.2.

 

Cortesia de NI/Titivillus/JDACT

 

JDACT, Hiromi Kawakami, Narrativa, Literatura,

Adoecer. Hélia Correia. «Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. À cripta dos Rossetti não se acede de modo confortável»

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Highgate Cemetery,2005

«Se a pátria assinalar uma pessoa como um cão assinala um candeeiro, a minha condição de portuguesa transporá os portões antes de mim e uma espécie de aviso subirá, fazendo com que as aves estremeçam. A lembrança do outro português que uma noite aqui veio abrir a campa pode ser acordada pelos meus passos? Conhecerá a terra o parentesco que liga a minha carne à carne dele, uma composição de sol e enchidos, de subserviência e fantasia? Esta não é a hora das visitas. Erguendo os olhos para a subida, vejo que a hostilidade do lugar levanta, exactamente como um nevoeiro. Precisa de repouso, a terra, e engana-se, supondo que fechou a sua entrada. No interior do círculo, estou eu. Passo furtivamente, receando que alguma identidade, não a minha, mas a do meu país, informe os mortos. O tempo andou aqui com o seu peso, esmagou, quebrou os selos. As encostas abriram fendas. E os caminhantes que parecem rezar dizem apenas em voz baixa a si próprios que a camada do solo superior ainda os protege, ainda isola os seus pés. Que não há perigo de comunicação.

O que está lá no fundo é transtornado pela luz, pelo ar onde circulam pequenas formações da biologia. Os roedores conhecem com certeza modos de comportar-se quando encontram esse súbito vácuo. Mas nós não. Um piedoso corte quebra a linha que vai dos olhos para o pensamento. E os turistas refugiam-se no grupo, amparam-se no braço do vizinho, antecipando algum desequilíbrio. Há um princípio de obscenidade que logo se recolhe sobre si. Se falam sobre Drácula, já baixam ligeiramente a voz. Mas incomodam. Têm um calor próprio, uma espantosa intensidade metabólica. Interpõem-se. Por isso eu espero que eles se retirem, que tomem o caminho para a vila, levando tudo o que não quero aqui, a carne, os seus recursos de alegria.

Eu venho a um encontro pessoal, desses que não consentem testemunhas. Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas onde teve as mãos. Dormi junto a lugares onde dormiu. Nada dela me é estranho. De algum modo, as nossas vidas já se confundiram pois o tema do duplo, o doppelganger, estava inscrito em nós como um padrão. Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. À cripta dos Rossetti não se acede de modo confortável. Eu não sei se o teixo que a ensombra é ainda o mesmo que foi plantado para o primeiro enterro. Os teixos são longevos, isso é certo. As inscrições nas lápides mantêm os nomes dos seus mortos bem legíveis. A humidade inglesa não foi tão implacável como é do seu costume. As chuvas deslizaram pelas pedras como se as respeitassem. Com excepção da que assinala Lizzie. O texto que o buril afundou nela ganhou alguma qualidade orgânica. Águas e águas se depositaram, chamando os musgos para a reprodução. Está deitada na terra, a sua laje, muito verde, marcando uma diferença na família que nunca foi a sua. Apesar de italianos, os Rossetti podiam dar lições de frieza aos londrinos, em especial no modo de tratar noras indesejadas. O único Rossetti que a amou, e, ainda assim, de singular maneira, foi sepultado longe, frente ao mar. Não quis que o enterrassem junto dela. Tinha a certeza de que não se morre e não era a certeza dos cristãos». In Hélia Correia, Adoecer, Relógio D’Água Editores, 2010, ISBN 978-989-641-160-2.

Cortesia de RD’Água/JDACT

JDACT, Hélia Correia, Literatura, 

sábado, 1 de maio de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… esbarrei num major e não captei muita coisa. Então ele parou para se despedir. Ah, sim! Outra coisa. Para os judeus, cinco fuzis é muito, vocês não têm homens suficientes»

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Toccata

«(…) A estrada de terra batida tinha sido desimpedida mas viam-se os vestígios das explosões, as grandes manchas de óleo, destroços amontoados. Depois vinham as primeiras casas de Sokal. No centro da cidade, alguns incêndios ainda crepitavam mansamente; cadáveres empoeirados, a maioria em trajes civis, obstruíam uma parte da rua, misturados aos escombros e ao entulho; em frente, na sombra de um parque, cruzes brancas cobertas por curiosos telhados alinhavam-se com precisão sob as árvores. Dois soldados alemães inscreviam nomes nas cruzes. Ficamos ali esperando enquanto Blobel, acompanhado por Strehlke, nosso oficial de intendência, ia até ao QG. Um cheiro agridoce, vagamente enjoativo, misturava-se à pungência da fumaça. Blobel não demorou a voltar: tudo certo. Strehlke vai cuidar dos alojamentos. Sigam-me. O AOK instalara-nos numa escola. Sinto muito, desculpou-se um intendente baixinho num feldgrau amarfanhado. Ainda estamos nos organizando. Mas mandaremos rações para vocês. Nosso segundo-comandante, Von Radetzky, um báltico elegante, gesticulou com uma mão enluvada e sorriu: nem precisa. Não vamos ficar. Não havia camas, mas tínhamos trazido cobertas; os homens sentavam-se em pequenas carteiras estudantis. Devíamos ser aproximadamente setenta. À noite, serviram-nos sopa de repolho e de batata-doce, quase fria, cebolas cruas e pedaços de um pão preto, grudento, que secava assim que o cortávamos. Eu estava com fome, tomei avidamente a sopa e devorei as cebolas cruas mesmo. Von Radetzky organizou uma patrulha. A noite correu tranquilamente.

Na manhã seguinte, o Standartenführer Blobel, nosso comandante, reuniu seus Leiter para irem todos ao QG. O Leiter III, meu superior directo, queria dactilografar um relatório e me mandou em seu lugar. O estado-maior do 6º Exército, o AOK 6, ao qual pertencíamos, ocupara um grande casarão austro-húngaro, com a fachada alegremente rebocada em laranja, realçada por colunas e decorações em estuque e crivada de pequenos estilhaços. Um Oberst, visivelmente íntimo de Blobel, nos recebeu: o Generalfeldmarschall está trabalhando do lado de fora. Sigam-me. Levou-nos para um vasto parque em declive que se estendia do prédio até um meandro do Bug. Perto de uma árvore isolada, um homem em trajes de banho dava grandes passadas, cercado por uma nuvem sibilante de oficiais em uniformes encharcados de suor. Voltou-se para nós: Ah, Blobel! Bom-dia, meine Herren. Nós o cumprimentamos: era o eneralfeldmarschall Von Reichenau, comandante-em-chefe do Exército. Seu peito estufado e hirsuto irradiava vigor; imerso na gordura em que, a despeito de sua compleição atlética, a delicadeza prussiana de seus traços terminava se afogando, seu monóculo brilhava ao sol, incongruente, quase ridículo. Ao mesmo tempo que formulava instruções precisas e meticulosas, continuava suas idas e vindas intermitentes; tínhamos que segui-lo, era um pouco desconcertante; esbarrei num major e não captei muita coisa. Então ele parou para se despedir. Ah, sim! Outra coisa. Para os judeus, cinco fuzis é muito, vocês não têm homens suficientes. Dois fuzis por condenado bastarão. No caso dos bolcheviques, veremos quantos há. Se forem mulheres, podem utilizar um pelotão completo. Blobel fez a saudação: Zu Befehl, Herr Generalfeldmarschall. Von Reichenau juntou seus calcanhares descalços e ergueu o braço: heil Hitler! Heil Hitler!, respondemos todos em coro antes de debandarmos.

O Sturmbannführer dr. Kehrig, meu superior, recebeu meu relatório com um ar amuado. É tudo? Não escutei muita coisa, Herr Sturmbannführer. Fez uma careta ao mesmo tempo que brincava distraidamente com seus papéis. Não compreendo. De quem devemos receber nossas ordens, afinal? De Reichenau ou de Jeckeln? E o Brigadeführer Rasch, onde está? Não sei, Herr Sturmbannführer. O senhor não sabe muita coisa, Obersturmführer. Vamos, debandar.

Blobel convocou todos os seus oficiais no dia seguinte. Mais cedo, uns vinte homens haviam partido com Callsen. Enviei-o a Lutsk com um Vorkommando. O conjunto do Kommando seguirá num ou dois dias. É lá que estabeleceremos nosso estado-maior por enquanto. O AOK também será transferido para Lutsk. Nossas divisões avançam velozmente, temos que começar a trabalhar. Estou esperando o Obergruppenführer Jeckeln, que nos dará instruções. Jeckeln, um veterano do Partido de quarenta e seis anos de idade, era o Höhere SS - und Polizeiführer para o sul da Rússia; por esse motivo, todas as formações SS da zona, inclusive a nossa, dependiam dele de uma maneira ou de outra. Mas a pergunta sobre a cadeia de comando continuava a martelar Kehrig: e então, estamos sob o controle do Obergruppenführer?» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

O Regresso do Desejado. Ricardo Costa Correia. «Meu tio, o que compreendeis vós sobre a política da Península Ibérica? Don Felipe não gostava de ser chamado à atenção. Poderíeis ter sido rei nas Espanhas…»

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Inquisição (maldita). Viena

«(…) Vejo que lá travaste conhecimento com o senhor bispo Martin de Utreque. O imperador, um homem altivo, com as costas ligeiramente curvadas pelo peso dos anos, mantinha a postura de quem comanda metade do mundo conhecido. Homem de poucas palavras, a sua frieza vienense tomava conta do que restava da sua naturalidade de Valladolid.

Já sim, meu tio. Também pedi que fosse portador de uma mensagem junto do nosso santo padre, levando até ele as minhas preocupações. Podemos falar a sós por um momento, don Felipe? O imperador chamava a atenção ao sobrinho, não o querendo repreender em púb1ico. Don Juan de Áustria e o bispo Martin compreenderam e deram um passo para o lado, afastando-se o suficiente para não perturbar a conversa. Don Fernando aparentava não estar satisfeito e fazia saber isso mesmo, repreendendo don Felipe como se fosse uma criança mal-comportada.

Don Felipe, quero que saibas que desde que o teu pai me entregou o trono onde me sento, nunca permiti que estes corredores se tornassem palco para conspiração de traições. Nestas mesmas salas, repreendi e fui repreendido pelo vosso pai, Deus o tenha e, não raras vezes, eu e o meu irmão Carlos discordámos sobre muitos assuntos de estado. Aqui mesmo, onde nos encontramos, tomámos a decisão de nos afastarmos porque a sua ideia de império contrariava as minhas ideias de liberdade. Decidi não mais o visitar, apesar das suas insistências. Sempre fui leal à sua posição e ao princípio de que a nossa família está sempre em primeiro lugar. Foi sob esse acordo que a minha filha Maria se tornou regente do conselho de Governadores de Aragão e permaneceu na capital aragonesa de Saragoça durante o vosso reinado, sempre fiel aos reinos das Espanhas.

Meu tio, o que compreendeis vós sobre a política da Península Ibérica? Don Felipe não gostava de ser chamado à atenção. Poderíeis ter sido rei nas Espanhas e, pela mão do meu pai, foi-vos concedido um exílio dourado aqui na velha capitai. Don Felipe desdenhava das palavras do tio. Ardiam-lhe memórias de outros tempos, de quando se tinham encontrado para decidir a separação do império e o lugar de Rei de Romanos que lhe deveria pertencer». In Ricardo Costa Correia, O Regresso do Desejado, 2019, EGO Editora, 2019, ISBN 978-108-871-222-1.

Cortesia de EGOE/JDACT

JDACT, Ricardo Costa Correia, Literatura, Espanha, Alcácer-Quibir,