sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O Último Judeu. Noah Gordon. «Espina tinha ouvido alguns judeus chamar os convertidos de los marranos, isto é, os porcos, afirmando que estavam eternamente condenados e não ressuscitariam…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Primeiro Filho.

Toledo. Castela. 23 de Agosto de 1489.

Um Judeu Cristão

«(…) O prior era o mais perigoso dos seres humanos, um sábio, mas ao mesmo tempo um tolo, Bernardo Espina dizia irritado para si mesmo enquanto se afastava. Ele sabia que era o menos indicado para descobrir qualquer coisa de judeus ou cristãos, pois era desprezado pelos membros de ambas as religiões. Bernardo sabia a história da família Espina. Segundo a lenda, o primeiro ancestral a se estabelecer na Península Ibérica fora um sacerdote do templo de Salomão. Os Espina e outros tinham sobrevivido sob os reis visigodos e sob conquistadores ora mouros, ora cristãos. Conforme as instruções dos seus rabinos, tinham sempre seguido escrupulosamente as leis da monarquia e da nação. Os judeus haviam conseguido chegar aos mais altos estratos da sociedade espanhola. Tinham servido aos reis como vizires e prosperado como médicos e diplomatas, agiotas e financistas, colectores de impostos e comerciantes, agricultores e artesãos. Ao mesmo tempo, quase em cada geração, foram massacrados por turbas passiva ou activamente encorajadas pela Igreja. Os judeus são perigosos e influentes, induzindo à dúvida os bons cristãos, dissera severamente a Bernardo o padre que o convertera.

Durante séculos, os dominicanos e os franciscanos tinham manobrado as classes mais baixas (que chamavam de Pueblo menudo, arraia miúda), de vez em quando atiçando-as para um implacável ódio aos judeus. Desde os assassinatos em massa de 1391 (cinquenta mil judeus massacrados!), uma conversão em massa, sem paralelo na história judaica, levou centenas de milhares a aceitarem Cristo, alguns para salvar a vida, outros para não perder suas carreiras numa sociedade anti-semita. Alguns, como Espina, tinham realmente admitido Jesus de coração; muitos, no entanto, formalmente católicos, continuaram a cultuar secretamente o Deus do Velho Testamento. Na realidade eram tantos que, em 1478, o papa Sisto IV aprovou o estabelecimento de uma Comissão para destruir católicos apóstatas.

Espina tinha ouvido alguns judeus chamar os convertidos de los marranos, isto é, os porcos, afirmando que estavam eternamente condenados e não ressuscitariam no Dia do Juízo. Com mais caridade, outros chamavam os apóstatas de anusim, os forçados, insistindo que o Senhor perdoava os que estavam sendo coagidos, pois entendia sua necessidade de sobrevivência. Espina não estava entre os coagidos. De início, como menino judeu, ficara curioso a respeito de Jesus, aquela figura na cruz que via pelas portas abertas da catedral e a quem o pai e os outros às vezes se referiam como o pendurado. Quando procurava mitigar o sofrimento humano como jovem médico aprendiz, ele se deixou comover pelo sofrimento do Cristo; aos poucos, esse interesse inicial foi-se transformando numa fé, numa convicção ardente e, por fim, na ânsia de atingir uma pureza pessoal cristã, um estado de graça.

Uma vez comprometido, apaixonou-se pela divindade. Um sentimento muito mais forte que o amor eventual de uma pessoa simplesmente nascida dentro da cristandade. A paixão de Saulo de Tarso por Jesus não teria sido mais poderosa que a sua: inabalável, convicta, mais absorvente que qualquer anseio de um homem por uma mulher. Tinha procurado e recebido a conversão para o catolicismo aos vinte e dois anos, um ano após se tornar médico habilitado. Sua família entrara de luto, rezando o kadish, como se ele tivesse morrido. O pai, Jacob Espina, que fora tão cheio de orgulho e amor, passara por ele na praça sem responder a seu cumprimento, como se nem o conhecesse. Nessa época, Jacob Espina estava no último ano de vida. E já fora enterrado há uma semana quando Bernardo soube da sua morte. Espina ofereceu uma novena pela alma, mas não pôde resistir à tentação de rezar também o kadish, chorando sozinho enquanto recitava no quarto, sem a confortadora presença do rabino, a oração fúnebre». In Noah Gordon, O Último Judeu, 2000, Uma História de Terror na Inquisição, Editora Rocco, 2000, ISBN 978-853-251-171-6.

Cortesia de ERocco/JDACT

JDACT, Literatura, Século XV, Noah Gordon, Judeus, Escrita, 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O Diamante de Jerusalém. Noah Gordon. «As paredes, os tapetes e os móveis eram negros sem brilho ou cinza forte. A iluminação, uma bela luz branca que dava à Coleção Hopeman um brilho sem igual…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Perda

Genizah

«(…) Descobriu a resposta durante uma intensificação da sua doença, quando a dor cortava a sua respiração no peito e ele viu as próprias mãos transformadas em garras azuis. Jeremiah tinha visto Malakh ha-Mavet, o anjo negro, pairando acima dele, como uma promessa. Sua morte iminente era parte da sua responsabilidade. Os sacerdotes Bukki recusavam ainda admitir que seu mundo podia mudar, mas todos os outros sentiam a aproximação da guerra. Madeira foi armazenada ao lado dos muros para fazer fogo, com o óleo para ser fervido e derramado sobre os atacantes. As primaveras em Jerusalém eram boas, mas a comida não era suficiente. Juntaram todos os cereais da cidade e armazenaram em lugares seguros e todos os rebanhos foram confiscados à espera do horror que se anunciava.

Os que teriam de viver durante o cerco eram os dignos de pena, portanto Baruch não desperdiçou piedade por si mesmo. Porém, finalmente a dor o deixou tão fraco que ele não podia mais erguer a sovela nem a marreta. Outra pessoa teria de terminar seu trabalho. Dos outros treze homens, Abiathar o Levita era o mais bem equipado para servir de escriba, mas Baruch começava a pensar como Jeremiah e escolheu Hezekiah. Era um encargo pesado para o soldado sem prática de escrita, mas ele liderava um grupo de homens armados de espada e sem dúvida morreria na defesa da cidade e os segredos morreriam com ele. Na manhã seguinte à armação das barricadas nos portões, ajudaram Baruch a chegar ao muro e ele viu que o inimigo havia chegado durante a noite e suas tendas estavam armadas, como pedaços de um mosaico que se estendia até ao horizonte. Ele e Hezekiah voltaram para a caverna e terminaram a lista dos esconderijos. No poço sob o Sakhra, ao norte do Grande Encanamento, num cano que se abre para o norte, foi escondido o documento com explicação e inventário de cada objecto e sua localização. Baruch esperou Hezekiah gravar a última letra e enrolou a folha de cobre. Fora dos muros, estrangeiros com barbas curtas e chapéus altos e pontudos já galopavam nos seus pequenos póneis em volta da cidade de David. Agora, esconda o rolo de cobre, disse ele.

O Homem dos diamantes

No seu escritório, no segundo andar, Harry Hopeman podia ver, por meio de um espelho de duas faces, lá em baixo, a opulência discreta da Alfred Hopeman & Son, Inc. As paredes, os tapetes e os móveis eram negros sem brilho ou cinza forte. A iluminação, uma bela luz branca que dava à Coleção Hopeman um brilho sem igual, como se toda a loja fosse uma caixa forrada de veludo. Seu visitante era um inglês chamado Sawyer. Harry sabia que ele estava comprando acções de companhias para os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Era também do conhecimento geral que a compra era apenas parte do trabalho de Sawyer. Ele ajudava a manter a lista negra da OPEP das firmas americanas que negociavam com Israel. Tenho clientes interessados em comprar um diamante, disse Sawyer. Oito meses antes, um cliente do Kuwait havia encomendado um colar a Hopeman & Son, e então o pedido foi cancelado de repente. Desde então, não tinham vendido nada para os países árabes. Terei prazer em mandar mostrar o que nós temos, disse ele, intrigado.

Não, não. Eles querem um diamante em particular, oferecido à venda na Terra Santa. Onde? Sawyer levantou a mão. Em Israel. Eles querem que o senhor vá a Israel comprar o diamante. É bom saber que precisam de mim. Sawyer deu de ombros. O senhor é Harry Hopeman. Quem são eles? Não tenho permissão para dizer. O senhor compreende. Não estou interessado, disse Harry. Sr. Hopeman. Será uma viagem breve que abrirá uma porta muito importante e muito dinheiro para o senhor. Nós somos negociantes. Por favor, não deixe que a política... Sr. Sawyer, se seus empregadores querem que eu trabalhe para eles, devem-me pedir pessoalmente». In Noah Gordon, O Diamante de Jerusalém, 1979, Bertrand Editora, 1998, ISBN 978-972-251-041-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Noah Gordon, Literatura, Religião, Conhecimento,

Alberto S. Santos. O Segredo de Compostela. «Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império»

 

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«(…) Esta foi a primeira lição que Prisciliano aprendeu quando o pai trouxe para a Villa Aseconia um pedagogo para providenciar a sua instrução. Até então, o próprio Lucídio se encarregara de o formar com o que julgava mais adequado, embora o petiz apreciasse bem mais as fantásticas histórias que Valéria lhe contava sobre a Galécia. Como vês, se gostas da tua cabeça em cima dos ombros e pretendes viver muito tempo, não queiras ser imperador, brincava o jovem mestre de Prisciliano, para ganhar a sua confiança. O rapaz ria-se e deitava-se a adivinhar que imperador seria o próximo a perder a cabeça. E outra coisa: quando um imperador morre às mãos de outro, o mal não chega só para quem perde a vida! Como assim, magister? É penalizada a família, os amigos e, se o poder for tomado por usurpação, os mais próximos colaboradores do antigo imperador. Eaté mesmo aqueles a quem as suas decisões, por alguma forma, beneficiaram podem perder a cabeça ou, pelo menos, o prestígio.

Prisciliano, na inocência da infância e do mundo perfeito da villa, procurou compreender os ensinamentos do pedagogo, enquanto o ouvia discorrer sobre a forma como estava organizado o império, apontando para um desenho feito num papiro. O Império Romano divide-se em quatro prefeituras, governadas pelos prefeitos do pretório: o Oriente, o Ilírico, a Itália e as Gálias, que é a nossa. Roma e Constantinopla são um caso à parte, cada uma com os seus exclusivos prefeitos. Estas prefeituras dividem-se, por sua vez, em dioceses. A das Gálias é composta pela Britânia, pela Gália e pela Hispânia, governadas por um vigário do prefeito. Por sua vez, cada diocese é dividida em províncias, cada uma com o seu governador. Diz lá então quais são as províncias da Hispânia, Prisciliano? Mas a cabeça do petiz viajava por outras paragens. O pai já lhe havia explicado a geografia e a divisão do império. Por isso, o seu pensamento pousara na procissão mágica em que participara, pela primeira vez, no dia anterior. O progenitor comandou, à frente, de mão dada com Prisciliano. Atrás de ambos, uma grossa coluna de colonos e escravos. Todos percorriam, a pé e completamente descalços, os limites dos campos de cultivo, com archotes na mão, proferindo os ritos propiciatórios da fecundidade da terra. O petiz apertava a mão do pai, impressionado com a experiência. Seguia encantado com a exuberância da procissão, pois sabia, isso era certo desde incontáveis gerações, que aqueles ritos afastariam o granizo, as geadas e as tempestades. Daquela forma, o pequeno Danígico experimentava a emoção de se ver intimamente ligado à sua linhagem. Imaginava-se um pequeno aprendiz de feiticeiro, dos que sabiam dominar os elementos nocivos à vida e à fertilidade das terras da família.

Prisciliano!, gritou o pedagogo, com ar sério e reprovador. Onde está a tua cabeça?! Em cima dos ombros, magister! Onde haveria de estar?! Não sou nenhum imperador… O professor desmanchou-se num riso incontrolável. O pequeno surpreendeu-se com a repentina mudança de humores e perguntou: de que te ris, Pacato? Ó Prisco, eu perguntava-te se sabias quais são as províncias da Hispânia… Prisciliano percebeu então que a cabeça, mesmo em cima dos ombros, também podia viajar através da imaginação, por montes e vales, espaços próximos e longínquos, mundos mágicos e reais, sem que o corpo, ou quem lhe estiver à frente, disso se apercebesse. E, a qualquer momento, poderiam voltar a reunir-se, como o faziam agora, respondendo com um aberto sorriso: Tarraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia e a nossa querida província: a Galécia! Muito bem! E em quantos conventos se divide a Galécia? Essa é muito fácil: o asturicence, o lucense, onde residimos, e o bracarense, onde se encontra Bracara Augusta, a capital do convento e de toda a Galécia.

Naquela noite, o jovem discípulo dormiu mal. As lições do pedagogo e as recentes vivências nos pagi da villa transportaram-no para novas aventuras oníricas, sonhando com intermináveis viagens por cidades, vici, castela e villae do império, e com um imperador que usurpou o poder, mandou cortar cabeças e perdeu a sua depois de causar tanta desgraça ao mundo presente e futuro». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, A Escrita, Alberto S. Santos, Galiza,

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Depois de o investir de toda a autoridade para o tocante ao cristianismo de Terra Santa, acrescentou-nos grandes ofertas da sua parte e mandou que nos fosse entregue um rico ornamento para as cerimónias…»

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Roma... Veneza... Trento

«(…) Mas eu, reverendíssimo padre, não estou para ir à Terra Santa!, exclamei. Não desejais ir? Por Deus, sim! Quem o não deseja? Também eu gostaria, mas o pastor não deve abandonar as suas ovelhas e este é o meu cuidado de dia e de noite. Logo que possa regresso a Braga. Vós, porém, não tendes rebanho. Podereis ir à Terra Santa. Ireis certamente, não é verdade? Quem dera! Ireis. Tornava eu a sentir que o barco da minha vida era governado por um invisível timoneiro e que me rodeavam pessoas sabedoras da minha identidade. Que espécie de sigilo calaria as suas bocas? Punha-me a seriar os géneros de sigilos que conhecia: o da confissão, o de certas profissões como a do médico e do advogado, o da razão de Estado, certos sigilos morais, casuísticos... E que quereria dizer essa antecipada certeza numa minha peregrinação à Terra Santa?... Dias depois a certeza confirmava-se e de que maneira! Uma viagem que eu tinha por impossível poder para mim alcançar-me chegou em condições de a poder facilmente negociar para outros. O nosso reverendíssimo padre geral, frei Francisco Zamora, nomeara guardião de Monte Síão ao insigne padre frei Bonifácio Aragusa, pregador apostólico e leitor de sagrada Teologia, e havia necessidade de revezar a família de frades que estavam na Terra Santa, como era costume de três em três anos, a fim de que pudessem regressar às suas províncias. Frei Bonifácio, veio à Cúria procurar-me. Era um homem de grande estatura e muito venerável presença e acatamento.

Olhos enormes e formosos. A barba muito comprida e quase toda branca. Conversação delicada e afável, ainda que temeroso quando mostrava gravidade. Amado de quase todos, de muitos temido. Não poucas vezes mais tarde, lembra-me bem, indo ele na rua, ao passar eu surpreendia pessoas que o ficavam a ver exclamando. Oh! Que bel’ fradaço! Insistiu comigo para que aceitasse ser seu companheiro nas diligências que se impunha fazer por conventos franciscanos de Itália para constituir a nova família de frades. Antes, porém, dizia-me ele, iríamos tomar a bênção a Sua Santidade Pio IV, que teria certamente recomendações a fazer-nos. Não lhe iria frei Pantaleão dizer que não, verdade? Frei Bonifácio, respondi eu, não sei a que devo uma tão imerecida atenção e tenho o vosso convite por uma bem particular mercê, como cada uma das muitas que da Divina Majestade tenho recebido. Sua Santidade acolheu-nos com mostras de entranhável amor, deu-nos a sua bênção e, em nos despedindo dele, pôs a mão familiarmente no ombro de frei Bonifácio e recomendou: não era a primeira vez que frei Bonifácio se encarregava da guarda de Monte Sião. Sabia como confiava no saber e experiência, na diplomacia dele para tratar não só com os turcos, que por mal de nossos pecados têm em seu poder aquele chão sagrado, mas também, o que por vezes era ainda mais difícil, com as outras comunidades cristãs que têm assento junto do túmulo de Cristo. Recordava-lhe que não ordenasse cavaleiros do Santo Sepulcro senão a pessoas muito nobres e ilustres.

Depois de o investir de toda a autoridade para o tocante ao cristianismo de Terra Santa, acrescentou-nos grandes ofertas da sua parte e mandou que nos fosse entregue um rico ornamento para as cerimónias solenes da Semana Santa em Jerusalém. A mim fez-me confessor apostólico. Entrava Março de quinhentos e sessenta e dois e a natureza benigna começava a anunciar a Primavera. Não havia tempo a perder. Partimos de Roma e fomos correr algumas províncias franciscanas mais cercãs buscando frades. Não se tornava fácil a escolha, dado o particular teor da missão a que se destinavam. Cumpria que fossem os mais devotos, virtuosos e quietos que se podiam achar. Portanto, sobre o seu feitio e comportamento se fazia secreto exame com que muito se sobrecarregavam as consciências dos prelados locais e padres velhos dos conventos. Fomos assim juntando até cerca de sessenta frades. Dávamos-lhes as obediências para que com elas nos fossem esperar a Veneza, onde se estava preparando a nau dos peregrinos que haviam de ir à Terra Santa. É este um velho costume da Senhoria de Veneza, o de todos os anos mandar aparelhar uma nau das melhores que tem, para, juntamente com ir negociar seus tratos a terras do Oriente, levar também os peregrinos que vão a Jerusalém». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

A Arte da Escrita, Fernando Campos, JDACT, Literatura, 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Domingos Amaral. A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. «Os nazis eram uma máquina poderosa de medo e destruição, o povo de Paris estava a fazer a coisa certa, fugir deles. Também me vou embora»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Quase todos os dias, ao regressar das aulas, Carol passava em frente à montra repleta de instrumentos, e o professor Katzenberg acenava-lhe com a batuta. Certa vez, ouvira pacientemente a triste história dele, a mulher morrera cinco anos antes, de uma pneumonia, sorrindo sempre que o solitário homem lhe dizia estar à procura de noiva em Paris, que, segundo Katzenberg, era a cidade certa para a encontrar. Caroline, onde vai?, perguntou o professor. Ela hesitou, como se não soubesse a direcção a tomar depois daquela frustrante espera. A universidade estava vazia, não conseguira entregar o trabalho e em Paris nascia um caos. É a palavra certa, concordou Katzenberg. Pesaroso, recordou os massacres a que assistira na Alemanha, durante a tenebrosa Noite de Cristal. Os nazis eram uma máquina poderosa de medo e destruição, o povo de Paris estava a fazer a coisa certa, fugir deles. Também me vou embora. Vão perseguir as pessoas como eu. Comprara um bilhete de comboio para Bordéus e partiria ao final da tarde, até já fizera a sua pequena mala, não tinha muito para levar. Quando lá chegasse, pensava no futuro, talvez pudesse ser professor numa escola. Só tenho pena de uma coisa…, afirmou tristemente. Já não será em Paris que vou encontrar noiva!

Quando a minha prima lhe disse que iria com as freiras do Saint-Sulpice para Clermont-Ferrand, onde esperaria o fim da guerra, ele avisou, coçando a barba: não será assim tão rápido, depois, esboçou um sorriso. Noutra vida, a Caroline seria a minha noiva! Ela despediu-se, constrangida, acelerando o passo até à porta do colégio. Mal a atravessou, o seu coração pulou. Um rapaz montava a Hirondelle, como se fosse o proprietário. Carol desatou a correr, gritando que a bicicleta era dela, não a podia roubar. Fê-lo de forma tão agressiva que o ousado estudante desmontou e deixou-a cair, afastando-se assustado, como se um animal perigoso e de grande porte se aproximasse. Estúpido! gritou-lhe Carol, agarrando com firmeza a Hirondelle. Em dois anos, ninguém lhe havia tocado, quanto mais tentado roubá-la! O que estava a acontecer às pessoas naquela cidade? Irritada, deu aos pedais, acalmando-se ao ouvir os pneus pisarem o saibro, como se o triturassem.

Se aquela surpresa desagradável não teve consequências, a que se seguiu abalou-a profundamente. Meia hora depois, estava à porta do prédio onde vivia Jean-Luc, perto da Place des Vosges, do lado de lá do Sena. Subiu as escadas até ao segundo andar e tocou à campainha várias vezes, mas ninguém lhe abriu a porta. O namorado dormia até tarde, teria ido almoçar? Mademoiselle Caroline! Quem a chamava era a porteira, madame Félix, que atirava olhares de reprovação às suas visitas namoradeiras. A minha prima desceu, recebendo das mãos dela um envelope. Surpreendida, abriu-o e desdobrou uma única folha. Jean-Luc desculpava-se por partir sem se despedir, mas fora para Lyon no comboio da uma da tarde. Uma súbita raiva subiu-lhe pela alma. O idiota! O cobarde! Fugir assim, sem falar com ela? Que miserável! Cerrando os dentes, ignorou o cínico sorriso de madame Félix e saiu». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

 Cortesia CdasLetras/JDACT

 JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Seres em mudanças, atravessando o passeio, agitados até pararem junto a um veículo, onde arrumavam os pertences enquanto davam instruções apressadas aos familiares»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Nessa manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, na cozinha, Carol notou a enorme agitação das noviças, que cochichavam pelos cantos e lançavam olhares alarmados aos armários. Como madre Mary já lhe explicara a causa do alarido, bebeu o leite, agarrou numa baguete, barrou o interior com manteiga e saiu a trote, a caminho da porta da residencial. No pátio, montou na Hirondelle, depois de envolver os livros numa cinta protectora e de os pousar no cesto, à frente do guiador. Começou a pedalar e avançou para o Boulevard Saint-Germain, onde virou à direita, na direcção da universidade, constatando rapidamente que algo de anormal se passava em Paris. Parecia Julho, mês em que a maioria da população rumava às províncias para passar o verão. Num dia habitual, a cidade tinha muito movimento. Carros, motos, bicicletas, carroças puxadas por cavalos, pequenos e grandes autocarros circulavam nas principais ruas e avenidas, enquanto nos passeios centenas de pessoas entravam e saíam das lojas, dos bistrôs, das boulangeries ou das pharmacies.

No entanto, hoje o que via era gente a carregar os carros com malas, baús, sacos e caixotes. Seres em mudanças, atravessando o passeio, agitados até pararem junto a um veículo, onde arrumavam os pertences enquanto davam instruções apressadas aos familiares. Homens e mulheres, rapazinhos de calções ou meninas de saiotes, idosos cautelosos e muitas empregadas corriam de volta até à porta de casa, como se tivessem esquecido de algo essencial, observados pelas espantadas porteiras dos prédios, de mãos enfiadas nos bolsos das batas.  Carol começou a pedalar mais depressa na Hirondelle, com uma certeza incómoda a assentar no seu espírito: Paris ia debandar em manada. Os habitantes tinham escutado o cair das bombas nocturnas e já conheciam o desfecho lamentável da batalha de Dunquerque. Uma desconfiança visceral atingira-os, o terror dos panzers tornara-se insuportável e a cidade entrara em pânico. Horas depois de madre Mary, milhões já sabiam que a força militar francesa desmoronara-se e que o seu pouco respeitado Governo era um tigre de papel. A França ia ajoelhar em breve, talvez a Linha Maginot ainda resistisse uns dias, mas o desfecho da guerra estava traçado. Quando Carol chegou à Sorbonne, não viu as habituais centenas de estudantes em grupos, à roda dos bancos, trocando piadas. Só um ou outro rapaz de cabeça baixa se afastava, com um ar ensimesmado. Parecia domingo de manhã, quando os universitários curavam a ressaca.

Mas ela tinha de entregar um ensaio sobre a Odisseia. Homero, o autor clássico que mais admirava, fora a sua escolha. Fascinara-a a longa viagem de Ulisses e a paciente sabedoria de Penélope, bem como a mitologia fantástica que percorria a narrativa. Como lhe saíra bem o texto, estava confiante, embora o seu francês escrito não possuísse ainda a precisão e a riqueza a que aspirava. Depois de encostar a Hirondelle à parede, entrou pela porta principal do colégio, dirigindo-se aos gabinetes dos professores, no primeiro andar, onde contava encontrar não só alguns colegas de turma, pois todos tinham de apresentar os trabalhos, mas sobretudo o seu professor de literatura grega, monsieur Sautierre, uma autoridade indisputada naquela área de estudos. Com sessenta e tal anos, o lente francês escrevia grego desde os sete e garantia conhecer todos os filósofos na intimidade. Sócrates, Platão, Aristóteles, Xenofonte, durmo na cama com eles há sessenta anos!, dizia, encantando os alunos com a sua retórica enleante e elegante. Porém, não estava no seu gabinete, nem havia à sua porta qualquer estudante ansioso. Eram onze da manhã, o que se passaria? Durante a hora seguinte, a minha prima esperou a chegada do eminente especialista na Grécia Antiga, mas este não deu sinal de vida. Apenas por lá passou um colega cuja cara lhe era vagamente familiar, mas que rapidamente lhe virou costas. Então, pouco depois do meio-dia, desistiu e caminhou para a saída com lentidão desmotivada. A sua Paris, onde era tão feliz, desmoronava-se. Uma noite de bombas nos arredores e uma saraivada matinal de más notícias tornaram possível o impensável.

Ainda no hall, cruzou-se finalmente com alguém que estimava, Max Katzenberg, um senhor barbudo e de nariz curvo, dos seus sessenta anos e sempre enfiado nuns fatos coçados, exibia um olhar entristecido, que só se iluminava ao falar de música, especialmente de compositores cujo nome começava com a letra B, como Bach, Beethoven ou Brahms. Contudo, em Paris não era professor de música, mas sim de literatura germânica, uma matéria que não dominava e que lhe fora entregue por favor, pois era judeu. Chegado à pressa dois anos antes, vindo da Alemanha e em fuga às perseguições nazis, a universidade sugerira-lhe aquela cadeira para leccionar pagando-lhe uns raquíticos cobres. Para compor os rendimentos, trabalhava à tarde numa loja de música perto da Residencial de Saint-Sulpice, onde tentava vender violinos, pianos ou flautas». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris,

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A 25ª Hora. Virgil Gheorghiu.«O padre lhe desejou boa sorte. Lamentava sua partida. Iohann Moritz era jovem, bom trabalhador. Apesar de pobre, era generoso e honesto»

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«(…) Iohann Moritz despejou água nas mãos do padre. Observava os dedos daquelas mãos, compridos e fusiformes, dedos de mulher de pele branca. Observava com prazer o velho fazer espuma na barba, no pescoço, na testa. De tanto admirá-lo, esquecia-se de despejar a água. O padre aguardava, estendendo as mãos cobertas de espuma. E Moritz sentia-se culpado e ruborizava. O padre Koruga era o pope da aldeia. Tinha apenas cinquenta anos, mas a sua barba e cabelo já eram brancos feito prata. Seu corpo comprido, esguio, descarnado, lembrava o dos santos que vemos nos ícones das igrejas ortodoxas. Um autêntico corpo de ancião. Porém, encontrando seu olhar, ouvindo-o falar, percebia-se que era um homem mais jovem. Assim que acabou de se lavar, o padre enxugou o rosto e o pescoço numa toalha grossa. Moritz continuava em pé, com a cumbuca na mão, à sua frente. Eu gostaria de conversar com o senhor, meu padre, disse ele. Espere eu me vestir, respondeu o padre. E, pegando de volta a cumbuca das mãos de Iohann Moritz, entrou em casa. À soleira da porta, virou-se. Também tenho um assunto para conversar consigo, disse, sorrindo. Vai gostar. Enquanto isso, coloque os cestos na carroça e atrele.

A manhã inteira, Iohann Moritz e o padre Koruga colheram maçãs e encheram cestos. Trabalhavam em silêncio. Quando o sol dardejou seus ombros, o padre parou e estendeu os braços, cansado. Descansemos um pouco! Descansemos, concordou Moritz. Dirigiram-se até os sacos cheios de maçãs e sentaram-se em cima deles. Mantinham-se calados. O padre procurou nos bolsos o maço de cigarros que sempre levava para os dois e o estendeu para Moritz. Queria conversar?, inquiriu o padre. Sim, queria. Moritz acendeu o cigarro. Jogou o fósforo na relva e observou-o apagar-se. Era difícil para ele comunicar sua partida ao padre. Preferiria esperar um pouco mais. Primeiro, quero lhe dar a minha notícia, disse o padre. Moritz ficou contente por não ter de falar primeiro.

O quartinho junto à cozinha está vago, informou o padre, e me perguntei se não gostaria de se mudar para lá. Minha mulher acabou de caiar e colocou cortinas nas janelas e roupa de cama limpa. Sua casa é muito apertada. Você e seus pais possuem apenas um quarto. Amanhã, quando vier trabalhar, traga suas coisas. Não virei amanhã. Então, depois de amanhã, disse o padre. A partir de hoje o quarto é seu. Não virei nunca mais, disse Moritz. Amanhã viajo para os Estados Unidos. Amanhã?, O padre esbugalhou os olhos. Amanhã bem cedo. A voz de Moritz era firme, embora velada pelo remorso. Recebi uma carta, o navio está em Constança, só tenho três dias. O padre sabia perfeitamente que Moritz queria ir para os Estados Unidos. Muitos jovens camponeses partiam para lá e, dois, três anos depois voltavam com dinheiro e compravam terras e as casas mais bonitas da aldeia. O padre estava contente por Moritz. Em poucos anos, ele também teria belas terras. Mas surpreendia-se com a premência da viagem. Moritz jamais tocara no assunto com ele, e eles haviam trabalhado o tempo todo lado a lado, diariamente. Só ontem recebi a carta, disse Moritz. Vai sozinho? Com Ghitza Ion. No navio, trabalharemos como operários. Trabalharemos nas caldeiras, assim não precisaremos pagar quinhentos lei por pessoa. Ghitza tem um amigo em Constança que trabalha no porto e providenciou tudo.

O padre lhe desejou boa sorte. Lamentava sua partida. Iohann Moritz era jovem, bom trabalhador. Apesar de pobre, era generoso e honesto. Não possuía um alqueire de terra. Os dois homens trabalhavam de sol a sol. O velho falava dos Estados Unidos. Moritz escutava. Em diversas ocasiões, suspirou. Agora estava quase arrependido de sua decisão. À noite, depois de receber seu salário, Moritz permaneceu de olhos baixos diante do padre. Conservou-se assim ainda por um momento. Não tinha forças para ir embora. O velho deu-lhe um conforto no ombro. Escreva-me assim que chegar, pediu. Amanhã de manhã, passe para pegar o farnel que prometi. Terá o que comer durante a viagem. Ainda lhe deu cinco cédulas de cem lei e prosseguiu: chegue bem cedo. Bata discretamente na janela. É preferível que minha mulher não ouça; mulheres costumam ser avarentas, você sabe. Deixarei tudo preparado hoje à noite. Quando pretende partir? Devo encontrar Ghitza Ion na saída da aldeia, ao amanhecer. Justo o tempo de passar lá em casa. Caso contrário, eu lhe diria para vir esta noite. Prefiro amanhã, disse Iohann Moritz. Imaginava que Suzanna o esperaria naquela noite. Em seguida, partiu». In Virgil Gheorghiu, A 25ª Hora, 1949, Bertrand Editora, ISBN 000 […] W16.

Cortesia  de BertrandE/JDACT

JDACT, Virgil Gheorghiu, Grécia, Guerra, 

Virgil Gheorghiu. A 25ª Hora. «Pensou então na mulher que acabava de deixar. Pensou em Suzanna. Arrependeu-se de não ter sorrido para ela. Suas histórias de estrelas...»

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«Não posso acreditar que esteja de partida!, disse Suzanna a Iohann Moritz, abraçando-o. Levou as mãos à cabeça do homem e acariciou-lhe os cabelos pretos. Ele deu um passo para trás. Porque não acredita?, respondeu ele, num tom de voz seco. Partirei depois de amanhã, ao amanhecer. Eu sei!, murmurou ela. Permaneciam de pé, junto à sebe. Fazia frio. Passara da meia-noite. Iohann tomou as mãos da mulher, deixou-as cair e disse: então, até logo! Fique um pouco mais!, suplicava ela. Porque deseja que eu fique? Sua voz era firme, decidida. Está tarde. Amanhã tenho que trabalhar. Ela não respondeu, mas o apertou ainda mais nos braços. Entreabrindo a camisa do homem, ela pousou a face no seu peito e ergueu os olhos. As estrelas são lindas!, disse. Ele, por sua vez, esperava algo importante. Acreditava que ela o retivera por isso. E ela vinha falar de estrelas.

Desvencilhou-se, quis ir embora. Mas se lembrou da sua partida iminente e de que ficaria ausente no mínimo três anos. Então, para agradá-la, também contemplou as estrelas. É verdade que todo homem tem a sua estrela no céu? É verdade que ela vira uma estrela cadente quando ele morre? E eu lá sei?, respondeu ele. Agora estava decidido a partir. Até logo! Será que também temos estrelas lá no alto?, perguntou ela. Como todo o mundo, respondeu Moritz. Lá no alto ou dentro de nós. Pegou a cabeça da mulher entre as mãos e afastou-a do seu peito. Em seguida, partiu. Ela o acompanhou até ao caminho, segurando-lhe a mão. Olhava para as estrelas, depois para ele. Espero-o amanhã à noite!, disse ela. Se não chover.

Suzanna gostaria de não deixá-lo ainda, de suplicar que ele viesse, mesmo se chovesse. Mas ele se afastava a passos largos. Desapareceu na curva do caminho, atrás do jardim. A mulher permaneceu por um momento no mesmo lugar. Alisou o vestido na altura do quadril, para retirar os carrapichos agarrados ao tecido. Antes de voltar ao quintal, observou o capim amassado sob a nogueira, onde se haviam deitado um perto do outro. Ainda sentia nas narinas o cheiro do corpo de Moritz, um cheiro de capim amassado, tabaco e caroço de cereja. Assobiando, Iohann Moritz atravessou o campo e tomou a direcção de casa. Usava compridas calças pretas de soldado e uma camisa branca com o colarinho aberto. Estava descalço. Às vezes parava de assobiar para bocejar. Pensou então na mulher que acabava de deixar. Pensou em Suzanna. Arrependeu-se de não ter sorrido para ela. Suas histórias de estrelas...

Mulheres são iguais a crianças. Fazem um monte de perguntas inúteis, ruminou. Pensou então na viagem que ia fazer dali a dois dias. Pensou na América. Depois não pensou em mais nada. Voltou a assobiar. Tinha sono. Queria já estar em casa, dormindo. Devia acordar bem cedo. Era o seu último dia de trabalho. E estava prestes a amanhecer. Dali a poucas horas, o dia teria nascido. Iohann Moritz apertou o passo.

Raiava o dia quando Iohann Moritz parou diante da fonte da aldeia e, abrindo amplamente a camisa, pegou a água com as mãos e esfregou-a no rosto e no pescoço. Foi então até ao meio da rua e secou as mãos, passando-as no cabelo. Ajeitou o colarinho da camisa sem fechá-lo e observou a aldeia. A cerração leitosa se dissipava. Era a aldeia de Fântâna, na Roménia. Iohann Moritz nascera ali, vinte e oito anos atrás. E agora, enquanto contemplava aquela aldeia, com as suas pequenas casas e os três campanários das suas três igrejas, a ortodoxa, a católica e a protestante, lembrou-se de que, na véspera, Suzanna lhe perguntara se ele não iria morrer de saudades dali. Na hora, ele rira, achando graça da pergunta, e respondera que era um homem. Apenas as mulheres podiam sentir saudades. Mas agora sentia como se um vago arrependimento o invadisse. Voltou a assobiar e desviou os olhos.

A casa do padre Alexandru Koruga ficava na beira da estrada, não longe da igreja ortodoxa. A porta estava fechada. Iohann debruçou-se e pegou a chave escondida sob o capacho para que pudesse entrar de manhã, quando chegasse para trabalhar. Abriu a pesada porta de carvalho, sem pressa, e adentrou o quintal. Os cães correram ao seu encontro, pulando à sua volta. Conheciam-no bem, pois já fazia seis anos que Iohann Moritz trabalhava para o padre Alexandru Koruga; todos os dias dos últimos seis anos: lá, sentia-se em casa. Mas aquele era seu último dia de trabalho. Passaria o dia colhendo maçãs. Depois receberia o que lhe era devido e comunicaria a sua partida. O padre ainda não sabia de nada. Iohann Moritz entrou no celeiro, pegou os cestos e os acomodou na carroça. O padre apareceu na sacada. Vestia apenas uma camisa de linho branco e calças compridas. Acabara de se levantar. Moritz, sorrindo, cumprimentou-o. Colocou o cesto no chão, esfregou as mãos, subiu até à sacada e tomou das mãos do ancião a cumbuca cheia d’água. Espere, vou despejar». In Virgil Gheorghiu, A 25ª Hora, 1949, Bertrand Editora, ISBN 000 […] W16.

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domingo, 3 de janeiro de 2021

Catarismo. Thaynná Atheniense Bráulio. «Barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras, riquezas e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul…»

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Fé e Guerra no Pays d’Oc

«De acordo com o historiador Lucien Febvre, a Europa só se tornou possível após a queda do Império Romano do Ocidente, ocorrida no ano de 476 d.C., sendo ela uma mistura dos romanos com o que chamamos comumente de bárbaros, que na verdade eram povos que habitavam locais na fronteira do antigo império, e que com o tempo só vieram a enriquecer a cultura da futura Europa e seus Estados Nacionais. Em Março de 1208, o papa Inocêncio III convocou uma cruzada contra a seita de cristãos no Languedoc. Hoje em dia, seus membros são geralmente conhecidos como cátaros. Eles chamavam a si mesmos de bons chrétiens; Bernard de Clairvaux os chamava de albigenses, e os registos inquisitoriais se referem a eles como heretici. O objectivo do papa Inocêncio era expulsar os cátaros da região do Midi e restaurar a autoridade religiosa da Igreja Católica. Barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras, riquezas e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul, conhecida pela sua feroz independência.

A Idade Média e a Europa

Tal enriquecimento ocorreu durante o período que chamamos de Idade Média, ou pejorativamente de Idade das Trevas, que compreende do século IV ao XVI, e foi um período de transformações importantes no que hoje chamamos de Europa, ao contrário do que os renascentistas pensavam, foi um tempo de invenções, de arte e cultura muito ricas, no qual vemos em diversos pontos do continente surgir as mais diversas formas linguística-culturais que ainda hoje são marca de certas regiões. Com a invasão dos bárbaros, e a tomada das terras do antigo Império Romano, a única instituição, que poderia dar respaldo àqueles que viviam nos locais conquistados, era a Igreja Católica que se considerava a herdeira natural do império, e que provém das articulações entre romanos e germânicos, com sua hierarquia bem definida e forte. Logo os invasores já estavam se convertendo, por vezes porque viam ali uma verdadeira fé, por outras (e nesse caso maioria), pois viam vantagens em ter a Igreja como aliada para sua nação, tanto foi assim que quando da subida de Clóvis ao trono Merovíngio é baptizado pelo bispo de Reims e tem a Igreja ao seu lado, e vice-versa, um apoio mútuo, em épocas conturbadas.

Outra questão importante, observada pelo medievalista Jacques Le Goff, além das invasões bárbaras, para a formação da Idade Média e da Europa, são as heranças que da antiguidade. A primeira foi grega e o ideal de herói, muito difundido na mitologia, que se transforma na época medieval nos mártires do cristianismo, e os templos dos deuses em igrejas; a segunda é a herança romana, muito rica, que compreende a linguagem, cultura, arte de guerrear, que passa para os cavaleiros medievais, arquitectura, a oposição entre cidade e campo, e acima de tudo a ideologia trinfuncional indo-europeia, que nada mais é que a divisão clássica de classes medievais: os que oram, os que guerreiam e os que trabalham. A última herança é a bíblica, transmitido pelos judeus, dos quais os cristãos vão-se afastando cada vez mais. É por intermédio do cristianismo que Deus entra na Europa, sendo a Bíblia considerada por muito tempo como enciclopédia que contém todo o saber de Deus.

A Igreja Católica

Santo Agostinho teve uma influência marcante no cristianismo medieval, são dele as ideias de livre-arbítrio e graça, e no século V o papa Gelásio fundou a doutrina que chamamos de gelasiana, na qual afirmava sobre quem teria mais poder, os clérigos ou os leigos: dos dois, o sacerdócio tem o valor mais alto, na medida em que deve prestar contas dos próprios reis em matérias divinas. A Igreja era bem divida, tinha dioceses em vários cantos da Europa, tais dioceses tinham a seguinte hierarquia de cima para baixo: arcebispos, bispos, padres e monges. Sendo que cada uma deveria responder ao Papa em Roma. No século XI é fundada a Ordem Monástica de Cluny no território que hoje chamamos de França, reforçando a influência do papado na região, junto com a Reforma Gregoriana, que define a separação entre os clérigos e leigos, cada qual com suas funções, além das definições do baptismo de crianças, a definição de paróquia, de célula familiar, matrimónio cristão, disciplina sacramental, regulação dos costumes, e orações pelos defuntos. A Igreja Medieval alastrou seu poder pelas terras europeias, com seus dogmas, e ideias de castigos se as pessoas não fossem boas cristãs. Importante já mencionar aqui, que o que chamamos de heresia, ou seja, as dissidências que ocorrerão no seio do cristianismo europeu vêm de encontro a essa Reforma, e ao grande poder que os padres, bispos, e mesmo o Papa detém.

A Igreja dominava o saber da época. Era ela quem traduzia os livros do grego para o latim, tinha controle absoluto da interpretação da Bíblia, ensinava aos monges copistas (normalmente filhos não herdeiros de senhores de terras) a escrever, e assim quando se viu ameaçada pelas heresias, principalmente devido a livre tradução e interpretação dos Evangelhos, logo se colocou alerta para acabar com as doenças que se alastravam e deviam ser erradicadas de acordo com os monges do mosteiro de Cluny.

De acordo com Marc Bloch: o mundo europeu, enquanto europeu, é uma criação da Idade Média, tal afirmação, quando pensamos nos Estados Nacionais e nos dias actuais é verdadeira, tudo de facto começou a se formar na Idade Média, a ideia forte de estamento já mencionada, os que trabalhavam os que oravam e os que lutavam, além das obrigações para com um senhor de terras, como terá mais a frente à obrigação para com um rei ou governo, além do facto das leis que hoje regem muitos países virem da mestiçagem das leis germânicas (dos bárbaros) e das leis romanas. O que conhecemos hoje como poesia, estórias de amor, enfim o romantismo, também provém da época medieval, principalmente da Provença, e do sul de França, objecto principal do seguinte estudo». In Thaynná Atheniense Bráulio, Catarismo, Fé e Guerra no Pays d’Oc, UF Juiz de Fora, 2013.

Cortesia de UFJuizdeFora/JDACT

JDACT; Cátaros, Thaynná Atheniense Bráulio, Conhecimento, 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Inês da Minha Alma. Isabel Allende. «Deixei dinheiro suficiente à igreja para que uma vez por semana, durante trezentos anos, rezem uma missa pelo descanso da alma do nobre fidalgo don Rodrigo Quiroga…»

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Crónicas de dona Inés Suárez, entregues à Igreja dos Dominicanos para sua conservação e resguardo pela sua filha, dona Isabel de Quiroga, no mês de Dezembro do ano de Nosso Senhor de 1580. Santiago da Nova Extremadura. Reino do Chile.

«(…) A verdadeira razão pela qual decidiu partir sozinho é que não queria deixar-me assistir ao triste espectáculo da sua doença, já que preferia ser recordado a montar a cavalo, comandando os seus corajosos homens, combatendo na região sagrada a sul do rio Bío-Bío, onde as ferozes hostes mapuche se preparavam então para a guerra. Estava no seu pleno direito de capitão, por isso aceitei as suas ordens como a esposa submissa que nunca fui. Levaram-no até ao campo de batalha numa maca e, uma vez lá chegado o seu genro, Martin Ruiz Gamboa, amarrou-o ao cavalo, tal como fizeram com El Cid, o Campeador, para assustar o inimigo com a sua presença. Lançou-se para a frente dos seus homens como um perfeito demente, desafiando o perigo e com o meu nome nos lábios, só que não encontrou a tão desejada morte. Trouxeram-mo de volta muito doente, num catre improvisado; o veneno do tumor já tinha invadido o seu corpo. Qualquer outro homem já teria morrido há muito, devido aos malefícios que a doença lhe provocara e ao cansaço da guerra, mas Rodrigo era forte. Amei-te desde o primeiro momento em que te vi e vou amar-te para sempre, Inés, disse-me, no meio da sua agonia, acrescentando que queria ser enterrado sem grande alarido e que devíamos mandar rezar trinta missas pelo descanso da sua alma. Vi a Morte, um pouco desfocada, tal como vejo as letras desta folha, mas inconfundível. Então chamei-te, Isabel, para que me ajudasses a vesti-lo, uma vez que Rodrigo era demasiado orgulhoso para mostrar os destroços da sua doença às criadas. Só a ti, sua filha, e a mim, nos permitiu colocar-lhe a armadura completa e as botas de rebites. Depois, sentámo-lo no seu cadeirão favorito, com o elmo e a espada sobre os joelhos, para que pudesse receber os últimos sacramentos e partir com dignidade, tal como tinha vivido. A Morte, que não tinha saído do seu lado e aguardava discretamente que acabássemos de o preparar, envolveu-o então nos seus braços maternais e fez-me sinal para que me aproximasse e sentisse o último suspiro do meu marido. Inclinei-me sobre o seu corpo e dei-lhe um beijo na boca, um beijo de amante. Morreu nesta casa, nos meus braços, numa tarde quente de Verão.

Não pude cumprir as instruções de Rodrigo para que o seu funeral fosse discreto, porque era o homem mais querido e respeitado do Chile. A cidade de Santiago mobilizou-se inteira para chorar a sua morte e, de outras cidades do reino, chegaram incontáveis manifestações de pesar. Anos antes, o povo tinha saído para as ruas para celebrar a sua nomeação como governador com chuvas de flores e salvas de mosquete. Foi sepultado com as honras que merecia na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, que ele e eu mandáramos erigir para glorificar a Virgem Santíssima e onde em breve repousarão também os meus ossos. Deixei dinheiro suficiente à igreja para que uma vez por semana, durante trezentos anos, rezem uma missa pelo descanso da alma do nobre fidalgo don Rodrigo Quiroga, bravo soldado de Espanha, alcaide, Adelantado (Designação arcaica utilizada pelos Conquistadores espanhóis durante os séculos XVI e XVII para a categoria de governador ou responsável máximo de uma província, cuja responsabilidade seria, entre outras, agir como representante da Coroa espanhola junto das colónias. (N. da T.) e duas vezes Governador do Reino do Chile, Cavaleiro da Ordem de Santiago, meu marido. Estes meses sem ele foram uma eternidade.

Não devo antecipar-me, pois, se narrar os feitos que recheiam a minha vida sem qualquer rigor nem ordem, corro o risco de me perder pelo caminho; uma crónica deve seguir a ordem natural dos acontecimentos, mesmo que a memória seja uma perfeita barafunda sem lógica. Escrevo de noite, sobre a mesa de trabalho de Rodrigo, enrolada na sua manta de alpaca. A guardar-me o quarto está Baltasar, bisneto do cão que viajou comigo até ao Chile e me acompanhou durante catorze anos. O primeiro Baltasar morreu em 1553, o mesmo ano em que mataram Valdivia, mas deixou-me os seus descendentes, todos enormes, de patas desajeitadas e pêlo rijo. Esta casa é fria, apesar das carpetes, cortinas, tapeçarias e braseiros que os criados mantêm cheios de carvão incandescente. Queixas-te muitas vezes, Isabel, que não se consegue respirar de tanto calor; deve ser porque o frio não está verdadeiramente no ar, mas dentro de mim. Consigo anotar as minhas memórias e pensamentos com tinta e papel graças ao clérigo Gonzalez Marmolejo, que se deu ao trabalho, entre os seus múltiplos esforços para evangelizar selvagens e consolar cristãos, de me ensinar a ler. Na altura, era apenas um capelão, mas chegou a ser o primeiro bispo do Chile e também o homem mais rico deste reino, como contarei mais adiante. Morreu sem levar nada para a cova, mas deixou um rasto de boas acções que lhe valeram o amor da população. Ao fim e ao cabo, só se tem verdadeiramente aquilo que se deu, como dizia Rodrigo, o mais generoso dos homens.

Comecemos pelo princípio, pelas minhas primeiras memórias. Nasci em Plasencia, no Norte da Extremadura, cidade fronteiriça, guerreira e religiosa. A casa do meu avô, onde cresci, ficava a um passo da catedral, a que carinhosamente chamavam de La Vieja, uma vez que datava apenas do século XIV. Cresci à sombra da sua torre invulgar coberta de escamas trabalhadas. Nunca mais vi a ampla muralha que protege a cidade, a esplanada da Plaza Mayor, as suas ruelas sombrias, os palacetes de pedra e as galerias de arcos, nem o pequeno solar do meu avô onde ainda vivem os netos da minha irmã mais velha. O meu avô, um artesão que trabalhava o ébano, pertencia à Confraria de Vera Cruz, uma honra muito superior à sua condição social. Sedeada no convento mais antigo da cidade, essa confraria encabeça as procissões da Semana Santa. Vestido com o hábito roxo, cinto amarelo e luvas brancas, era um dos que levavam a Santa Cruz. Na sua túnica havia manchas de sangue, sangue dos chicotes com que se flagelava para partilhar do sofrimento de Cristo a caminho do Gólgota». In Isabel Allende, Inês da Minha Alma, 2006, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-004-749-6.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, Isabel Allende, Literatura, Cultura, Chile, 

Poesia. Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar… Ary dos Santos. «Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia era tarde demais para haver outra noite…»

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Estrela da Tarde

«Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite
Para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde

Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza

Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite
Uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde

Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza

Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, ou se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto

Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto»

Poema de Ary Dos Santos / Fernando Tordo

No Teu Poema

«No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro»

Poema de José Luís Tinoco

Cortesia de Wikipedia

JDACT, Ary dos Santos, Fernando Tordo, José Luís Tinoco, Poesia,

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Inês da Minha Alma. Isabel Allende. «A rainha Joana, ainda uma jovem e bela mulher, percorreu Castela durante mais de dois anos, transportando o esquife de um lado para o outro…»

 

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«Inés Suárez (1507-1580) Espanhola, nascida em Plasencia, viajou para o Novo Mundo em 1537, onde participou na conquista do Chile e na fundação da cidade de Santiago. Teve grande influência política e poder económico. As façanhas de Inés Suárez, referidas pelos cronistas da sua época, foram quase esquecidas pelos historiadores durante mais de 400 anos. Nestas páginas, narro os acontecimentos tal como foram documentados. Limitei-me a interligá-los através de um exercício mínimo de imaginação. Esta é uma obra de intuição, mas qualquer semelhança com acontecimentos e personagens da conquista do Chile não é casual».

Crónicas de dona Inés Suárez, entregues à Igreja dos Dominicanos para sua conservação e resguardo pela sua filha, dona Isabel de Quiroga, no mês de Dezembro do ano de Nosso Senhor de 1580. Santiago da Nova Extremadura. Reino do Chile.

«Meu none é Inés Suárez, habitante da leal cidade de Santiago de Nova Extremadura, no Reino do Chile, neste ano de Nosso Senhor de 1580. Não tenho certeza da data exacta do meu nascimento, mas a minha mãe assegura que nasci depois da grande fome e do tremendo surto de peste que assolou a Espanha logo após a morte de Filipe, o Belo. Não creio que tenha sido a morte do rei a provocar a peste, como aliás dizia o povo ao ver passar o cortejo fúnebre que deixou no ar, durante dias, um aroma a amêndoas amargas, mas nunca se sabe. A rainha Joana, ainda uma jovem e bela mulher, percorreu Castela durante mais de dois anos, transportando o esquife de um lado para o outro, abrindo-o de vez em quando para beijar os lábios do marido, na vã esperança de que pudesse ressuscitar. Apesar dos unguentos do embalsamador, o Belo fedia. Quando eu vim ao mundo, já a infeliz rainha, louca de todo, estava recolhida no palácio de Tordesilhas com o cadáver do seu consorte; o que significa que tenho, pelo menos, setenta Invernos às costas e que hei-de morrer antes do Natal. Podia dizer-vos que, nas margens do rio Jerte, uma cigana adivinhou a data da minha morte, mas essa seria uma daquelas mentiras que se costumam espetar nos livros e, que por estarem impressas, parecem verdadeiras. A cigana só me augurou uma vida longa, que é o que sempre nos dizem em troco de uma moeda. O que me anuncia a proximidade do fim é o meu coração desordenado. Sempre soube que havia de morrer velha, em paz e na minha cama, como morrem todas as mulheres da minha família; por isso não vacilei quando precisei de enfrentar o perigo, já que ninguém se vai deste mundo antes da sua hora. Tu vais morrer de velhinha, de nada mais, senoray, tranquilizava-me Catalina, no seu castelhano afável do Peru, quando o persistente galope de cavalos me enchia o peito e me deitava ao chão. Já me esqueci do nome quíchua de Catalina e também já é demasiado tarde para lho perguntar, enterrei-a no pátio de minha casa há muitos anos, embora tenha plena confiança na precisão e veracidade das suas profecias. Catalina começou a servir-me na antiga cidade de Cuzco, verdadeira jóia dos Incas, na época de Francisco Pizarro, aquele bastardo corajoso que, dizem as más-línguas, guardava porcos em Espanha e acabou transformado em marquês Governador do Peru, cansado da sua ambição e de múltiplas traições. São assim as leis deste novo mundo das índias, onde as leis tradicionais nada podem e tudo é possível: santos e pecadores, brancos, negros, pardos, índios, mestiços, nobres e lavradores. Qualquer um pode andar por aí a arrastar correntes, ser marcado com ferros em brasa e, no dia seguinte, num golpe de sorte, ver a sua vida mudada num ápice. Vivi mais de quarenta anos no Novo Mundo e ainda não me habituei a esta desordem, ainda que também eu tenha beneficiado dela; se tivesse ficado na minha terra natal, hoje seria uma idosa pobre e cega de tanto bordar à luz das candeias. Lá seria a Inés, costureira da rua do Aqueduto. Aqui, sou dona Inés Suárez, senhora de grande importância, viúva do Excelentíssimo Governador don Rodrigo Quiroga, conquistadora e fundadora do Reino do Chile. Como disse, tenho pelo menos setenta anos, bem vividos, mas a minha alma e o meu coração, ainda agarrados aos resquícios da juventude, perguntam-se o que diabo terá acontecido com o corpo. Ao ver-me no espelho de prata, o primeiro presente que Rodrigo me ofereceu quando nos casámos, não reconheço aquela avó de cabelos brancos que o espelho me devolve. Quem é esta que se faz passar pela verdadeira Inés? Examino-a de perto, com a esperança de poder encontrar, bem no fundo do espelho, aquela menina de tranças e joelhos esfolados que já fui um dia, a jovem que fugia pelos pomares para fazer amor às escondidas, ou a mulher madura e apaixonada que dormia abraçada a Rodrigo Quiroga. Tenho a certeza de que, algures, estão ali escondidas, mas não as consigo ver. Já não consigo montar a minha égua, não uso cota de malha nem espada, não por falta de vontade, que vontade sempre tive de sobra, mas porque o corpo me trai. Faltam-me as forças, doemme as articulações, tenho os ossos gelados e a vista nublada. Se não usasse os óculos, que mandei vir do Peru, nem sequer conseguiria escrever estas páginas. Quis acompanhar Rodrigo, que Deus o tenha em seu Santo Descanso, na sua última batalha contra os índios mapuche, mas ele não me quis levar. Estás muito velha para isso, Inés, disse a rir. Estou tão velha como tu, respondi-lhe, apesar de não ser verdade, já que Rodrigo era uns anos mais novo que eu. Ambos acreditávamos que não nos veríamos mais, mas despedimo-nos sem lágrimas, certos de que nos encontraríamos na outra vida. Há muito tempo que sabia que Rodrigo tinha os dias contados, apesar do seu esforço para me esconder os factos. Nunca o ouvi queixar-se, aguentava as dores com os dentes cerrados e só o suor que lhe escorria pela testa o denunciava. Partiu febril, rumo ao Sul, pálido, com uma chaga coberta de pus numa perna que nenhum dos meus remédios e orações conseguiu curar; partiu para cumprir o seu desejo de morrer como um soldado no alvoroço do combate e não como um velho prostrado entre os lençóis do seu leito. Eu queria estar com ele para, nos momentos finais, lhe segurar na cabeça e agradecer o amor que me dedicou durante as nossas longas vidas. Olha, Inés, disse-me, mostrando os nossos campos, que se estendem até ao sopé da cordilheira. Deus colocou tudo isto, mais as centenas de almas dos índios que aqui trabalham, ao nosso encargo. Tal como eu tenho por obrigação combater os selvagens em Araucanía, é tua obrigação proteger a fazenda e esta gente». In Isabel Allende, Inês da Minha Alma, 2006, Porto Editora, 2019, ISBN 978-972-004-749-6.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, Isabel Allende, Literatura, Cultura, Chile,