sexta-feira, 12 de agosto de 2022

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulconelli. «Sabei, meu irmão, escreve Filalet, que a preparação exacta das Águias voadoras é o primeiro grau da perfeição e para conhecê-lo é necessário um génio industrioso…»

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«(…) Encontramos nessa imagem o hieróglifo da primeira conjunção, a qual só se opera a pouco e pouco, à medida que se desenrola este labor penoso e fastidioso que os Filósofos chamaram as suas águias. A série de operações cujo conjunto conduz à união íntima do enxofre e do mercúrio tem também o nome de Sublimação. É pela reiteração das Águias ou Sublimações filosóficas que o mercúrio exaltado se despoja das suas partes grosseiras e terrestres, da sua humidade supérflua e se apodera de uma porção do corpo fixo que dissolve, absorve e assimila. Fazer voar a águia, segundo a expressão hermética, é fazer sair à luz do túmulo e trazê-la à superfície, o que é próprio de toda a verdadeira sublimação. É o que nos ensina a fábula de Teseu e de Ariana. Neste caso, Teseu é a luz organizada, manifestada, que se separa de Ariana, a aranha que está no centro da sua teia, o calhau, a casca vazia, o casulo, os despojos da borboleta (Psique). Sabei, meu irmão, escreve Filalet, que a preparação exacta das Águias voadoras é o primeiro grau da perfeição e para conhecê-lo é necessário um génio industrioso e hábil... Para atingi-lo, muito suamos e trabalhamos; passamos até noites sem dormir. Assim, vós que começais agora, persuadi-vos de que não tereis sucesso na primeira operação sem um grande trabalho... Compreendei então, meu irmão, o que dizem os Sábios, ao sublinhar que conduzem as suas águias para devorarem o leão, e quanto menos se empregam as águias mais rude é o combate e mais dificuldades se encontram para alcançar a vitória. Mas para aperfeiçoarmos a nossa Obra necessitamos, pelo menos, de sete águias, e deveria mesmo empregar-se até nove. E o nosso Mercúrio filosófico é o pássaro de Hermes a quem se dá também o nome de Ganso ou de Cisne e

algumas vezes o de Faisão. São estas sublimações que Calímaco descreve no Hino a Delos quando diz, falando dos cisnes:

É uma variante da procissão que Josué fez andar sete vezes à volta de Jerico, cujas muralhas caíram antes da oitava volta. Para assinalar a violência do combate que precede a nossa conjunção, os Sábios simbolizaram as duas naturezas pela Águia e pelo Leão, de igual força mas de compleição contrária. O leão traduz a força terrestre e fixa, enquanto a águia exprime a força aérea e volátil. Postos em presença, os dois campeões atacam-se, repelem-se, despedaçam-se mutuamente com energia até que, por fim, tendo a águia perdido as suas asas, e o leão a juba, os adversários constituem apenas um só corpo, de qualidade média e de substância homogénea, o Mercúrio animado.

No tempo já longínquo em que estudando a sublime Ciência, nos debruçávamos sobre o mistério repleto de pesados enigmas, lembramo-nos de ter visto construir um belo edifício cuja decoração, reflectindo as nossas preocupações herméticas, não deixou de nos surpreender. Acima da porta de entrada, duas crianças, um rapaz e uma rapariga, enlaçados, afastam e levantam um véu que os cobre. Os seus bustos emergem de um emaranhado de flores, folhas e frutos. Um baixo-relevo domina o coroamento angular, mostrando o combate simbólico da águia e do leão de que acabamos de falar e adivinha-se facilmente que o arquitecto teve alguma dificuldade em situar o embaraçador emblema, imposto por uma vontade intransigente e superior...» In Fulconelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos Símbolos Herméticos, Edições 70, 1975, Lisboa, Colecção Esfinge.

Cortesia de E70/JDACT

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