domingo, 14 de agosto de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Aquela feira extravagante era habitual nas missas, fosse em Braga, mesmo com a Sé destruída; em Guimarães, em Zamora ou até em Compostela. Na Páscoa, todos aproveitavam para pôr a conversa em dia…»

 

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Soure, Sábado de Aleluia, Abril de 1126

«(… ) O almocreve estava cada vez mais baralhado e suspirou, desolado: Não compreendo o que dizeis. Ela olhou para o céu, onde uma ténue luz clareava já o longínquo horizonte a leste, e resmungou: Um dia ireis compreender. Depois, como se estivesse a falar consigo mesma, murmurou: Eram três, o que já morreu e mais dois, mas outro morrerá em breve. O último não me pode ver, senão vai recordar-se. Calou-se, espevitou a fogueira e foi buscar um vaso de água, por onde bebeu. Só depois voltou a falar, olhando para Mem como se lhe confidenciasse um segredo. Se perguntarem por mim, dizei que sou louca. Mem estava espantado. Aquela mulher sabia muito sobre ele e, no entanto, pedia-lhe ajuda, mostrando-se vulnerável, quase assustada. Curioso, interrogou-a: O homem que degolou o meu pai quer matar-vos? A mulher suspirou, mas não respondeu à pergunta dele, como se não a tivesse escutado, pois disse: Por uma razão ou por outra, todos vão querer matar-me, cristãos e mouros. Mas só um rei saberá a minha verdade, se as mouras não partirem daqui antes desse dia. Decidida, olhou para a fogueira e exigiu-lhe: Quando o fogo me chegar, tereis de me salvar. Prometei-me!

O almocreve tinha uma dívida de gratidão antiga para com ela e, apesar de desconhecer o que a incomodava, concordou com um aceno de cabeça. Então, a mulher lançou a mão na direção do fogo, num gesto rápido, e uma enorme labareda cresceu. Depois, atirou um pó para a fogueira, que se apagou em instantes. Mem teve a certeza de que ela era uma bruxa, embora parecesse aterrada com o futuro. Ouviu-a anunciar: A partir de agora, terei de viver no escuro. Sem nunca lhe dizer como se chamava, ou o que ele deveria fazer para a ajudar, a mulher afastou-se, contornando a torre tombada de Soure. Mem não a voltou a ver até partir para Coimbra. Foi isto que ele disse, anos depois, durante a minha investigação, quando me relatou o seu reencontro com a bruxa. E eu acredito nele. Apesar de tudo o que aconteceu, acredito nele.

 

O prior Teotónio, atrás do altar, semicerrou os olhos. Estava num daqueles dias, como ele dizia, em que os dragões negros o visitavam e o deixavam furioso com o mundo. Ao contrário dele, que reduzia ao mínimo as vestes, usando apenas uma alva branca e comprida, os nobres, em Viseu, faziam da Páscoa uma ocasião para se pavonear. Pregava constantemente que Jesus não era aquela explosão colorida e brilhante de roupas e jóias, mas sim a pobreza e o arrependimento, o despojo pelos haveres, o recato simples de uma oração, o coração puro e vazio de instintos menores. Mas o desejo de impressionar os seus semelhantes toldava os fiéis, e apresentavam-se na igreja luzidios, com os seus tecidos macios e os seus olhares invejosos, por descobrirem que alguém parecia melhor do que eles, uns bancos à frente. Com tantos mendigos nas ruas de Viseu, à fome... A igreja estava apinhada, lá atrás os populares acotovelavam-se, meio tontos devido ao cheiro a incenso. Viseu inteira comparecera, era Domingo de Aleluia, todos queriam celebrar a ressurreição de Cristo, e todos eram incapazes de se calar. Havia quem desse gargalhadas, quem trocasse argumentos em voz alta e ninguém ligava aos ritos visigóticos ou aos cânticos em latim. Afonso Henriques também sorria e falava com os amigos, enquanto o Braganção circulava alegremente entre os bancos, dando beliscões nos rabos das senhoras, fazendo Sancha Henriques espumar de raiva, com o descaramento do seu destinado esposo.

Aquela feira extravagante era habitual nas missas, fosse em Braga, mesmo com a Sé destruída; em Guimarães, em Zamora ou até em Compostela. Na Páscoa, todos aproveitavam para pôr a conversa em dia, para namoriscar, para comerciar, para rir. O que não era habitual era o que se passava no banco da frente! Desde que a missa começara, dona Teresa e Fernão Peres Trava não cessavam as ternuras. Davam o braço, faziam festas no cabelo um do outro, como jovens enamorados, acabados de casar. O prior Teotónio, como nos garantiu à saída, conhecia bem o significado daqueles mimos: Dona Teresa devia estar nos seus dias frutuosos, apesar da idade ainda os tinha. Aqueles salamaleques carinhosos não lhe causavam apenas repugnância física, mas também uma aguda dor moral. Teotónio considerava aquele casal o pior exemplo da depravação, da luxúria, da recusa de cumprir os preceitos da Igreja». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,