domingo, 29 de agosto de 2010

O Museu Calouste Gulbenkian: A Arte do livro

Cortesia da FCG

Instruções de Marino Grimani a Zuanne Lippomano
A encadernação que reveste o texto manuscrito sobre velino é decorada à maneira oriental, com enquadramentos em relevo, que se entrelaçam, formando compartimentos entalhados. A superfície destes compartimentos, que se desenvolvem a partir de medalhões centrais circulares, está coberta de madrepérola, ornamentada por elegantes ramagens e florões. No plano superior, o medalhão central é decorado com o leão alado de São Marcos, segurando um livro, símbolo da cidade de Veneza, enquanto no plano inferior o espaço correspondente é preenchido pela representação das armas de Lippomano.

Veneza, século XVI, 1 Vol. in-4º
Velino, 24 x 17 cm, Inv.º L.A. 151
Costesia da FCG
Na lombada, junto do pé, um cordão entrançado suspendia a bula dogal, agora inexistente. Nesta peça é patente o esplendor que a arte da encadernação alcançou na Veneza renascentista, sobretudo graças ao contacto com novas técnicas e novos motivos ornamentais trazidos do Oriente.

Flavii Iosephi Opera 
Esta colectânea da obra do historiador grego, Flavius Josephus (século I), pertenceu a Marcus Fugger, grande mecenas das artes e membro de uma importante família de mercadores-banqueiros alemães.
À semelhança de outros livros que Maccus Fugger mandou encadernar em Paris, nos começos de 1550, também este exemplar se reveste de uma encadernação profusamente decorada e por ele assinada na contracapa superior. Sobre um fundo de marroquim verde escuro ponteado a ouro, desenvolve-se uma composição de ramagens e bandas coloridas, delimitadas por filetes dourados, que se entrelaçam em torno de uma cartela central com as armas dos Fugger. A lombada, sem nervos, com coifas reforçadas à la grecque, apresenta os mesmos ornamentos dos planos. Os três cortes, de acordo com o gosto renascentista, são dourados, cinzelados e pintados.
Magnífico exemplo do livro do Renascimento, este volume é bem o testemunho do interesse dos humanistas pelos textos dos autores clássicos e pelo livro como objecto de arte.

Encadernação em marroquim, Paris, c. 1550
Basileae: Froben, 1544, Papel, 968 pp
34 (34,2) x 23 cm, Inv.º L.A. 251
Cortesia da FCG


Cortesia da FCG/JDACT

O Museu Nacional de Arte Antiga: Exposição - A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana

Cortesia do MNAA
«Situado na rua das Janelas Verdes que faz ligação com o contíguo largo de Santos-o-Velho, a nascente, e com o sítio da Pampulha, a poente, da onomástica desta rua lhe vem o nome pelo qual é popularmente conhecido, o de Museu das Janelas Verdes. Característica artéria, ainda hoje semeada pela memória de antigos palácios, igrejas e conventos, convertidos na actualidade nos mais diversos fins, a sua localização, alcantilada sobre o rio e a zona portuária, confere-lhe uma envolvência cenográfica invejável.
A meio da rua, frente à primitiva entrada principal do museu, abre-se um pequeno largo de planta em U, denominado largo do Dr. José de Figueiredo (primeiro director do Museu) cujo projecto é da responsabilidade de Reinaldo Manuel dos Santos (1731-1791), datável de 1778. Também de sua autoria é o desenho do pedestal do chafariz cuja parte superior recebe um grupo escultórico representando Vénus e Cupido, executado pelo escultor António Machado (-1810)».

Até ao pf dia 12 de Setembro de 2010 está a decorrer a Exposição - A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana.

Cortesia do MNAA
A exposição «A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana» reúne pela primeira vez em Portugal os quatro monumentais panos, tecidos em Tournai por encomenda de D. Afonso V, conservados na Colegiada de Pastrana desde o século XVI e recém-restaurados sob o patrocínio da Fundação Carlos de Amberes. Peças de extraordinária monumentalidade e absolutamente únicas em termos da produção borgonhesa, relatando as conquistas de Arzila e Tânger, a sua encomenda e produção — ainda envolta em sombras — enquadra-se num programa mais vasto, de construção mítica da História, que o conjunto de obras em seu redor agora reunidas procura enquadrar e problematizar.
A exposição destas tapeçarias em Lisboa, integrada nas comemorações do 25º Aniversário da Assinatura do Tratado de Adesão de Portugal e de Espanha às Comunidades Europeias, beneficiou do solidário apoio da Embaixada de Espanha em Portugal e de outras entidades, como sejam, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Batalha de Aljubarrota, Lusitânia, de entre outras.

Cortesia do MNAA
«Mais adiante, na extremidade ocidental do edifício, abre-se um pequeno jardim construído sobre a chamada Rocha do Conde de Óbidos, formação rochosa sobre a qual se situavam outrora, de um lado o palácio dos condes de Óbidos (actuais instalações da Cruz Vermelha) e do outro um antigo convento feminino, o designado convento das Albertas. Este convento já não existe e no seu lugar ergue-se, hoje em dia, a ala do museu edificada no final dos anos de 1930, enquanto a pequena cerca do convento foi transformada num jardim público – o Jardim 9 de Abril – que dá acesso à entrada principal e que liga, através de duas longas escadarias que tiram partido da topografia, com a avenida 24 de Julho, toponímia do antigo Aterro oitocentista». In MNAA. 

Ao abrigo do Programa de Recuperação do Património Classificado, do Ministério da Cultura, o Museu Nacional de Arte Antiga vai beneficiar da recuperação das fachadas frontal e laterais, Jardim 9 de Abril, Rua das Janelas Verdes e jardim do Museu, tal como da recuperação, tratamento e impermeabilização da cobertura da Capela das Albertas que, após uma campanha de conservação e restauro cujo financiamento deverá ser também encontrado, poderá abrir ao público em toda a sua magnificência. A recuperação vai realizar-se com a doação de um cheque-obra, pela OPWAY.

Cortesia do MNAA
http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/Data/Documents/Exposições%20Temporárias/Tapeçarias%20Pastranas/Indice%20Catalogo%20Pastranas.pdf

Assalto a Arzila, em 1471, pelas tropas de D. Afonso V (pormenor)
Lã e Seda, Pastrana (Guadalajara)
Colegiata de Nuestra Señora de la Asunción
Cortesia do MNAA

Cortesia do MNAA/JDACT

sábado, 28 de agosto de 2010

Camões e a Infanta D. Maria: Parte I, «Ó meus altos pensamentos, Quão alto que vos pusestes. E quão grande queda destes!». Camões, Redondilhas

(1521-1577)
Cortesia de publicacoes.foriente

Com a devida vénia a José Maria Rodrigues, (3 1761 06184643 2), Coimbra, 1910.  

Entre as encantadoras redondilhas de Camões figuram as duas voltas ao mote:

Perdigão perdeo a penna",
Não ha mal que lhe não venha.

Dizem elas, num tom de acentuada melancolia:

Perdigão, que o pensamento
Subio a um alto logar,
Perde a penna do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar, nem no vento,
Asas com que se sostenha.
Não ha mal que lhe não venha !
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado ;
E vendo-se depennado.
De puro penado morre.
Se a queixumes se soccorre,
Lança no fogo mais lenha.
Não ha mal que lhe não venha !

O pobre perdigão depenado, que nem ao menos se podia queixar, sem lançar mais lenha no fogo, sem agravar a sua situação, era o próprio Camões. O alto lugar até onde subiu o seu pensamento, a alta torre a que quis voar, era uma das mais nobres e mais simpáticas figuras femininas que têm vivido sob este belo Sol de Portugal: era a filha mais nova del-rei D. Manuel, a infanta D. Maria (1).

Cortesia de arscives
Como o genial doido, que tanto sofreu e tanto fez sofrer com os seus erros, com a sua má fortuna (2), como o genial doido, ao comparar-se com o perdigão desasado, se devia recordar, com amarga saudade, do tempo, não muito afastado, em que julgava pôr o pensamento em tão alto lugar!

Num tão alto lugar, de tanto preço,
Este meu pensamento posto vejo,
Que desfalece nele inda o desejo,
Vendo quanto por mi o desmereço.
Quando esta tal baixeza em mi conheço,
Acho que cuidar nele é grão despejo,
E que morrer por ele me é sobejo
E mór bem para mi, do que mereço.
O mais que natural merecimento
De quem me causa um mal tão duro e forte,
O faz que vá crescendo de hora em hora.
Mas eu não deixarei meu pensamento,
Porque, inda que este mal me cause a morte,
Un bel morir tutta la vita honora.
(Soneto 282).

_____________________________________________
(1) É muito interessante a monografia da Sra D. Carolina Michaelis de Vasconcellos a respeito da infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas damas (Porto, 1902). Dela transcrevo aqui a seguinte passagem: «De sangue real, herdeira da coroa, se não morresse um ano antes da catástrofe de Alcácer-Quibir, pertence à história e teve biógrafos conscienciosos. Em criança e na flor da idade viu refulgir diante de seus olhos a coroa de França; foi escolhida repetidas vezes para o trono imperial — orbis destinata império — e outras tantas para o império de Espanha. Acariciando sempre, no intimo do coração, este ultimo projecto, ficou ainda assim innupta, uma triste sempre-noiva. Este estado tragicómico que lhe foi imposto, mas que afinal aceitou com sublime altivez, aparentando tê-lo escolhido livremente, despertou a dolente simpathia dos coevos. E ainda hoje é capaz de suscitar a dos posteros» (pag. 4).
(2) Basta citar por agora os sonetos 27 e 193:
Males, que contra mim vos conjurastes,
Quanto ha de durar tão duro intento ?
Se dura, porque dure meu tormento,
Baste-vos quanto já me atormentastes.
Mas, se assi porfiais, porque cuidastes
Derribar o meu alto pensamento,
Mais póde a causa delle, em que o sustento,
Que vós, que delia mesma o ser tomastes.
E, pois vossa tenção com minha morte
É de acabar o mal destes amores,
Dai já fim a tormento tão comprido.
Assi de ambos contente será a sorte:
Em vós, por acabar-me, vencedores;
Em mim, porque acabei de vós vencido.

Erros meus, má fortuna, amor ardente.
Em minha perdição se conjuraram.
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mi bastava amor somente.
Tudo passei. . . Mas tenho tão presente
A grande dôr das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o decurso de meus annos ;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh ! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro genio, de vinganças!

O desvairado sonhador queria tanto ao seu pensamento que se julgaria feliz morrendo por ele. E com que enlevo não repetiria, a cada passo, o belo verso de Petrarca! Com que intensidade não sentiria o conceito nele expresso! O cantor de Laura nunca teve, por certo, quem, neste ponto, melhor o interpretasse.
______________________________________
Continuando:

Como se desvaneceu num momento, e foi substituído pela triste realidade, o doce sonho de que seria amado pela infanta!

Doce sonho, suave e soberano,
Se por mais longo tempo me durára!
Ah! quem de sonho tal nunca acordára,
Pois havia de ver tal desengano!
Ah! deleitoso bem! ah ! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganára!
Se então a vida misera acabára,
De alegria e prazer morrera ufano.
Ditoso, não estando em mi, pois tive.
Dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhae com que me paga o meu destino !
Emfim, fóra de mim ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
Pois sempre nas verdades fui mofino.
(Soneto 279).

Mais tarde, depois de ter chegado o cruel desengano, seguido de tantos trabalhos e de tantos sofrimentos, — mais tarde, com que dolorosa impressão não seria relido pelo atribulado poeta aquele audacioso soneto 129, escrito num estado de verdadeira alucinação:

Crescei, desejo meu, pois que a ventura
Já vos tem nos seus braços levantado;
Que a bella causa de que sois gerado
O mais ditoso lim vos assegura.
Se aspiraes por ousado a tanta altura,
Não vos espante haver ao sol chegado,
Porque é de águia real vosso cuidado.
Que, quanto mais se sobe (1), mais se apura.
Animo, coração ! que o pensamento
Te pode inda fazer mais glorioso.
Sem que respeite a teu merecimento.
Que cresças inda mais é já forçoso.
Porque, se foi ousado o teu intento.
Agora de atrevido é venturoso.

Quantas lágrimas não teria evitado o grande devaneador, se em seu espírito houvesse prevalecido a sensata consideração, expressa no final do soneto 137!

O filho de Latona esclarecido,
Que, com sei raio, alegra a humana gente,
Matar pôde a Pythonica serpente,
Que mortes mil havia produzido.
Ferio com arco e de arco foi ferido.
Com ponta aguda de ouro reluzente.
Nas Thessalicas praias docemente
Por a nympha Penea andou perdido.
Não lhe pôde valer contra seu dano
Saber, nem diligencias, nem respeito
De quanto era celeste e soberano.
Pois se um deos nunca vio nem um engano
De quem era tão pouco em seu respeito.
Eu que espero de um ser, que é mais que humano!

A ardente paixão do tresloucado poeta pela formosa, instruída e sisuda filha do Rei Venturoso constitui, como a priori se pôde presumir, o ponto culminante da sua atormentada vida. Dessa paixão derivaram factos que ainda não foram cabalmente explicados. É, além disso, ela que nos ministra, por assim dizer, a chave da maravilhosa obra lírica de um dos maiores poetas de todos os tempos.
Recorrendo ao Parnaso (2) do imortal Camões, verdadeiro diário da sua alma apaixonada, vou procurar fornecer alguns elementos para o capítulo mais importante da nossa história literária.
_________________________________________________
(2) Informa Diogo do Couto : «E aquelle inverno que (Camões) esteve em Moçambique... foi escrevendo muito em um livro que ia fazendo, que intitulava Parnaso de Luiz de Camões, livro de muita erudição, doutrina e philosophia, o qual lhe furtaram. E nunca pude saber no reino delle, por muito que o inquiri. E foi furto notável». (Década VIII, c. 28). Seja-me permittido dar o nome de Parnaso ás admiráveis composições lyricas que nos restam do genial poeta e suppôr que foi elle próprio que fez correr lhe haviam sido furtadas. Uma boa parte dellas, com effeito, não podiam, sem grave escândalo, ser publicadas durante a vida, quer da infanta, quer mesmo do poeta. Não pretendo, porém, com isto dizer que possuamos hoje toda a lyra de Camões. E a que nos resta foi baralhada, a meu ver, intencionalmente e pelo próprio poeta.
___________________________________________

Lisboa, no século XVI
Cortesia de biclaranja
Em Lisboa
Cronologicamente, a primeira poesia em que Camões se ocupa da filha de D. Manuel é, me parece, o soneto 134. Apresentado à excelsa e gentil senhora e por ela afavelmente acolhido, o modesto escudeiro ficou deslumbrado! No dia seguinte, o seu amigo João Lopes Leitão, pagem da lança do malogrado príncipe herdeiro, e pessoa muito apreciada na corte, recebia estas confidências:

Senhor João Lopes, o meu baixo estado
Ontem vi posto em grau tão excellente,
Que, sendo vós inveja a toda a gente,
Só por mi vos quiséreis ver trocado.
O gesto vi, suave e delicado,
Que já vos fez contente e descontente (3),
Lançar ao vento a voz tão docemente,
Que fez o ar sereno e sossegado.
Vi-lhe em poucas dizer quanto
Ninguém diria em muitas… Mas eu chego
A espirar, só de ouvir a doce fala!
Oh! Mal haja a Fortuna e o Moço cego!
Elle, que os corações obriga a tanto!
Ella, porque os estados desiguala!
____________________________________
(3) O poeta alude, naturalmente, a algum facto análogo (se não é o mesmo) ao que deu ocasião a uns conhecidos versos de Andrade Caminha e á resposta de Lopes Leitão. Diz a rubrica, que precede esses versos: «A João Lopes Leitão, estando preso em sua casa, por entrar uma porta a ver as damas contra vontade do porteiro». P. de Andrade Caminha, Poesias, p. 36, (Lisboa, 1791). Eis como termina a resposta do jovial amigo de Camões:

Estou-me agora doendo
De quem tiver para si
Que é melhor andar vendo
Verduras, que estar aqui.

Ninguém haja dó de mi.
Por me ver nesta prisão;
Hajam de meu coração.
Que vê tanto dano em si.
__________________________________________________
Para bem se compreender a impressão sentida pelo jovem poeta, que bebera

O veneno amoroso de menino, (Canção II, V. 65)

e que já então se tinha na conta de galanteador emérito, que roubava vontades alheias e as matava com amor, que não tinha (1), para bem se compreender, digo, a impressão sentida pelo jovem, mas já afamado poeta, transcreverei algumas passagens de obras e documentos coevos e de escritores modernos, as quais constituem o melhor comentário ao soneto que fica reproduzido, especialmente aos versos 5 a l0.
Começarei pela informação que, em carta de 21 de Janeiro de 1557, enviava a Carlos V o seu embaixador, D. Sancho de Córdova, que tinha vindo a Lisboa tratar da entrega da filha de D. Manuel a sua mãe, a rainha D. Leonor, já então viúva também de Francisco I. Repare-se que o diplomata espanhol chega até a empregar palavras que também se leêm no soneto. «(La senora Infanta) es persona de grande entendimiento y cordura, y mui reposada, y de pocas palabras y bien dichas y de las valerosas personas que he visto».

Catorze anos mais tarde, em 1571, recebia a infanta a visita do cardeal Alexandrino, legado e sobrinho de Pio V. Eis como um dos membros da comitiva do prelado romano começa a narrativa dessa visita : «Tendo anoitecido, acompanhados com vinte tochas adiante fomos ao palácio da infanta D. Maria, irman de D. João III, a qual, tendo ficado orphan em tenra edade, não quis jamais casar, posto que fosse robusta, formosa e procurada. Era alta e teria de edade cincoenta annos, posto que não pareça á primeira vista».

Agora o testemunho de Jorge Ferreira de Vasconcellos, que teve muitas ocasiões de ver a infanta. Ao dar pormenorizada noticia do célebre torneio, realizado em Xabregas, no ano de 1552, diz o escritor cortesão que «a infanta D. Maria…. se mostrava a fermosa Minerva, com que pôde contender com divida confiança, assi em rara gentileza e sotil engenho, como toda outra sobre humana perfeyção.
Vejamos agora o que se lê em duas obras modernas. O conde de Vila Franca, que preparava um estudo acerca da filha de D. Manuel, apresenta-no-la assim : «Alta, de esplêndidas formas, elegantíssima,... alliava á gentileza majestática do porte, denotando grande energia e isenção de caracter, uma formosura suavissima, bem revelada na alvura da pelle, no azul celeste dos olhos vividos e na cor loira dos cabellos que lhe coroavam de ouro a espaçosa e ampla fronte, onde o talento espontâneo evidentemente se espandia. Este talento era ainda abrilhantado por muita erudição, incessante amor ao estudo e ininterrupto trato, não já com os livros clássicos, senão ainda com os múltiplos escritos do tempo, considerado, como se sabe, a idade de ouro da literatura portuguesa».

Transmitindo-nos as suas impressões a respeito do retrato da infanta, existente em Madrid, no museu do Prado, e executado pelo celebre pintor António Moro, escreve a Sra D. Carolina Michaelis de Vasconcellos: «D. Maria contava então trinta annos... Chegada apparentemente ao termo dos seus desejos,… officialmente desposada ao futuro senhor do immenso império hispânico, a princesa fulgurava como nunca dantes, em toda a plenitude das suas faculdades, em todo o esplendor da sua gentileza majestática, acariciando a fugidia esperança de ver afinal acabadas as intrigas intermináveis e deprimentes de que fora alvo. Ainda assim, Antonio Moro não pôde varrer completamente as sombras de uma dolorosa meditação d'aquella testa alta, espaçosa e geralmente plácida. E que, entristecida por repetidas decepções, a filha de D. Manuel mal ousava dar credito ás mais solemnes promessas. Como symbolo de magoas, fora envolvendo o rosto gracioso, de feições tão regulares e puras, e parte do formoso cabello, castanho-claro ou louro-escuro, que o emmoldura, num veo ténue que desce ao peito. A mão direita, de afilados dedos aristocráticos, segura uma pérola que lhe serve de firmal. Uma lagrima reprimida ? Talvez. Todavia o pintor vio e reproduziu apenas uns olhos azues muito limpidos, com expressão serena e franca, suavemente perscrutadora, nos quaes se reflecte uma intelligencia lúcida, altiva rectidão e principalmente um coração valente. Aos lábios finos, cerrados por inviolável sigillo, e ao terço inferior da cabeça não falta energia... O trage, cujos tons sombrios dão realce á singular alvura das mãos e do rosto, finamente modelado, está em harmonia, na sua singeleza distinctissima, com a nobreza natural do porte e com a melancholica suavidade da physiognomia»

Releia-se o soneto 134 e, dada a compleição amorosa do moço poeta, veja-se como está bem traduzida a impressão que nelle devia ter produzido o gesto suave e delicado da filha do Rei Venturoso, a doce falla da gentil senhora, que então se achava na plena posse de todas as suas graças femininas, aureoladas pelo prestigio da ascendência real.
……………….Eu chego
A espirar, só de ouvir a doce fala!

exclama Camões, pondo em confronto o seu baixo estado com a amabilidade com que fora recebido por tão elevada personagem. E o predestinado do amor, em quem

As lagrimas da infância já manavam
Com uma saudade namorada,
(Canção II, 52-53)

O predestinado do amor não pôde conter-se que não se queixe do moço cego e da fortuna. Daquele, porque a doce fala da infanta o deixou como morto; desta, porque lhe não permite amar quem tão profundamente lhe havia abalado o coração.

Oh! Mal haja a Fortuna e o Moço cego!
Elle, que os corações obriga a tanto!
Ella, porque os estados desiguala!

Poucos dias depois, dominado por estas ideias, o poeta foi assistir ás solenidades da semana santa na igreja do mosteiro de Santa Clara, onde tinha a certeza de ver a infanta. Com um simples olhar da angélica figura, que

Parece... tinha forma humana,
Mas scintilava espíritos divinos,
(Canção II, 75-76)

ficou cego de todo!

Todas as almas tristes se mostravam
Pela piedade do Feitor divino.
Onde, ante seu aspecto benino,
O devido tributo lhe pagavam.
Meus sentidos então livres estavam
(Que até hi foi constante seu destino),
Quando uns olhos, de que eu não era dino,
A furto da razão me salteavam.
A nova vista me cegou de todo!
Nasceo do descostume a estranheza
Da suave e angélica presença.
Para remediar-me não ha hi modo?
Oh! Porque fez a natureza humana
Entre os nascidos tanta differença?
(Soneto 303).

Ficou cativo, com a razão perturbada:

O culto divinal se celebrava
No templo, donde toda a creatura
Louva o Feitor divino, que a feitura
Com seu sagrado sangue restaurava.
Amor ali, que o tempo me aguardava
Onde a vontade tinha mais segura.
Com uma rara e angélica figura
A vista da razão me salteava.
Eu, crendo que o lugar me defendia
De seu livre costume, não sabendo
Que nenhum confiado lhe fugia,
Deixei-me captivar. Mas hoje, vendo,
Senhora, que por vosso me queria.
Do tempo que fui livre me arrependo.
(Soneto 77).

Ficou como o passarinho, morto por traiçoeiro caçador:

Está o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as pennas ordenando,
O verso sem medida, alegre e brando.
Despedindo no rústico raminho.
O cruel caçador, que do caminho
Se vem, calado e manso, desviando.
Com pronta vista a seta endireitando,
Lhe dá no Estygio lago eterno ninho.
Desta arte o coração, que livre andava.
Posto que já de longe destinado.
Onde menos o temia, foi ferido,
Porque o frecheiro cego me esperava,
Para que me tomasse, descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.
(Soneto 30).

Havia certo, um obstáculo que, desde logo, se apresentaria ao poeta como insuperável —o abismo entre a sua situação e a da infanta:

Oh! Porque fez a natureza humana
Entre os nascidos tanta differença!

Mas a voz da razão foi suplantada pelo mágico fulgor dos admiráveis olhos azuis da filha de D. Manuel:

Tomou-me vossa vista soberana
Adonde tinha as armas mais á mão,
Por mostrar a quem busca defensão
Contra esses bellos olhos, que se engana.
Por ficar da victoria mais ufana,
Deixou-me armar primeiro da razão.
Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão;
Que contra o ceo não vai defensa humana.
Com tudo, se vos tinha promettido
O vosso alto destino esta victoria,
Ser-vos ella bem pouca está intendido.
Pois, inda que eu me achasse apercebido.
Não levais de vencer-me grande gloria:
Eu a levo maior de ser vencido.
(Soneto 36)

De que valia a razão, para que servia o juízo sossegado, em presença de tanta gentileza?


(Continua, numa próxima oportunidade! JDACT)
Cortesia do Arquivo Histórico/Universidade de Coimbra/PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/JDACT

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Panegírico da Infanta D. Maria: Uma obra (de João de Barros) que bem merecia ser revisitada pelos cultores da história da Mulher. Uma das mulheres mais cultas do seu tempo

Infanta D. Maria, filha de D. Manuel I
(1521-1557)
Lisboa
Cortesia de purl

Com a devida vénia a António de Oliveira (t. 27, RPH, 1992, p. 215-220) e ao seu brilhante trabalho A Infanta D. Maria e o «senhorio» de VISEU: Uma precisão cronológica, publico algumas palavras.

Como introdução, faço referência a panegírico. Um panegírico é uma palavra derivada do grego, cujo sentido geral é o de um discurso, em prosa ou verso, em louvor de uma pessoa, de um acontecimento, ou de um lugar ou objecto. A função do panegírico foi sempre política. Toda a ênfase do panegírico recaía sobre os valores que estavam supostamente na base da prática governativa ou no «modo-de-estar» da pessoa em causa. A ideia era conferir um sentido de legitimidade e segurança ao detentor do poder estabelecido, de um modo que o persuadisse a tornar-se melhor governante. Por isso, João de Barros, um dos mais importantes panegiristas portugueses, sugeria que a eloquência laudativa se dirigia em geral aos homens que não mereciam louvor.

Inicio o trabalho de António de Oliveira.
1. O Panegírico da Infanta D. Maria, de João de Barros, é uma das obras que bem merecia ser revisitada pelos cultores da história da Mulher. Ao mesmo tempo, no enquadramento do sexto centenário do nascimento dos infantes D. Pedro e D. Henrique, pelos que estudam o humanismo.
Com efeito, é nestes infantes e, sobretudo, em o Magnânimo Afonso V de Aragão e Nápoles, cunhado do rei D. Duarte, que João de Barros entronca uma das linhas ascendentes da infanta D. Maria, a qual, «não havendo respeito à sua criação», se submeteu a decorar «aqueles primeiros e enfadonhos rudimentos da gramática, que a força da palmatória aos outros engenhos ensina». Aprendizagem que lhe proporcionou «inteiro conhecimento da língua latina» e lhe permitiu tornar-se uma das mulheres mais cultas do seu tempo.

Cortesia de arqnet
Sabedoria, repisa João de Barros, «ganhada por sua indústria e trabalho» (1). Sapiência que lhe permitiria, uma vez senhora de vassalos, exercer o melhor dos governos, o domínio do sábio, realizando uma das utopias do primeiro duque de Coimbra (2), mártir, no entanto, em Alfarrobeira, do poder das Casas e do emergente poder do moderno estado do rei.

2. O Panegírico da Infanta D. Maria, impresso pela primeira vez, como se sabe, em 1655, não está explicitamente datado (3). Em 1962, porém, Alexandre de Lucena e Vale, ao indagar os titulares  do senhorio de Viseu, deparou com a data da sua elaboração, paralela à doação de Viseu à infanta D. Maria (4).

Lucena e Vale
Cortesia de viseu
E poucos anos depois, partindo do conhecimento que tinha da história local, extraiu do referido Panegírico a confissão da naturalidade de João de Barros (5). Até então, a cidade de Viseu era dada «como possível e até provável» (A. Baião) para berço de João de Barros. A partir da leitura de Lucena e Vale, a probabilidade virou certeza. Certeza reforçada em virtude de todos os indícios e de Torres Vedras nunca ter reclamado para si a pátria do autor das Décadas da Ásia.

3. Lucena e Vale colocou em 1544 a redacção do Panegírico da Infanta D. Maria (6). A data foi extraída de um dos borrões prévios à elaboração da minuta do contrato entre D. João III e a irmã, cumprindo-se assim uma das cláusulas do casamento de D. Manuel com D. Leonor, infanta de Castela e mãe de D. Maria (7). O contrato do último casamento de D. Manuel estipulava, com  efeito, entre outras convenções, que a filha maior, no caso de não haver filho varão, receberia, a partir dos 16 anos de idade, 400.000 dobras castelhanas, pagas nos primeiros quatro anos (8). Este quantitativo estava avaliado, em 1544, em cinco contos de réis de renda anual. Para satisfazer parte desta importância, D. João III doou à irmã a cidade de Viseu e a vila de Torres Vedras «com todos os seus termos e limites e com todas as suas rendas». Ao mesmo tempo, a infanta ficou senhora da «jurisdição cível e crime mero e místico império» (com a natural ressalva de correição e alçada) e dadas dos ofícios, para além de outras particularidades, como certos padroados régios e o poder chamar-se senhora das referidas terras (9).

Cortesia de livrariasantiago
A «minuta» localizada por Lucena e Vale, bem identificada entre as actuais quatro espécies documentais contidas na Gaveta XVII, m. 5, doc. 20, dos AN/TT, menciona o ano de 1544. Não foi nesta data, porém, que formalmente se realizou o contrato, o qual se encontra registado na Chancelaria de D. João III, liv. 25, fls. 25-27 v., e datado de Évora aos 26 de Janeiro de 1545, notação cronológica já existente na minuta final (ou cópia do contrato) conservada nos AN/TT, Gaveta XVII, m.5, doc. 21. É esta, então, a data a partir da qual a infanta D. Maria se passou  a chamar senhora de Viseu e de Torres Vedras (10). É esta data, também, que deve servir de referência para a redacção do Panegírico da Infanta D. Maria, obra de um seu admirador e vassalo por ter nascido num dos seus senhorios, embora se tenha de ter presente que, em 15 de Setembro de 1544, o infante D. Luís é nomeado curador da infanta, acto certamente propiciatório da celebração formal do futuro contrato de 1545. Data, em todo caso, que merece ser fixada por Viseu e, certamente, por Torres Vedras.

4. O diploma registado na chancelaria (11), para além de alguns aspectos que aproveitámos no ponto n.° 3, contém na margem diversas anotações oficiais. Por elas ficamos a saber, por exemplo, o modo como a infanta D. Maria obtinha dinheiro antecipado, vendendo juro sobre os cinco contos de renda e quais os compradores. Juro vendido, acentue-se, sobretudo no momento em que se tornou herdeira da riqueza da mãe em França e, quem sabe, precisamente para litigar tão grande e complicada herança (12).

Cortesia de leiloes
Entre Agosto de 1556 e Junho de 1577, com efeito, a infanta D. Maria vendeu por quatro vezes quantitativos que somaram um conto e meio. Próxima do fim da vida, portanto, a infanta tinha reduzido os seus proventos em Portugal, assentados em Viseu, Torres Vedras e diversas instituições, em cerca de um terço (13). Havia antecipadamente recebido, porém, um quantitativo próximo dos dois contos e 400.000 réis, calculados ao preço a que foi vendido o juro em 1577, a 16 mil o milheiro, isto é, a 6,25% ao ano.

Um forma comum, de resto, da nobreza obter dinheiro, para além dos censos. Mas entre os compradores há gente de Dom, sendo certamente alguns deles da própria casa da infanta (14). In António de Oliveira, t. 27, 1992, p. 215-220.

Anotações: 
(1) João de Barros, Panegíricos, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1943, 2.ª ed., pp. 179-181 e 190-195. Explicita, por sua vez, Frei Miguel Pacheco: "Tengo en mi poder cartas originales, todas de su letra, en estremo bien formada, y distinta, y sobre esso, con las divisiones, puntos, y comas en las clausulas, que pudiera poner la mano mas diestra en aquella facultad. En la paran comuumente las personas de su Estado, que teniendo por inescusable saber leer, y escrivir jugzan por escusado el passar mas adelante". (Fr. Miguel
Pacheco, Vida de la serenissima infanta Dona Maria [. . . ] , Lisboa, 1675, fl. 88). Mas estava já em curso "a fusão social da cultura e da nobreza no quadro único de um Estado forte e de uma sociedade hierárquica". (José Sebastião da Silva Dias,A política cultural da época de D. João III, vol. I, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1969, p. 738). Para uma bibliografia (não completa) sobre a infanta D. Maria, vide Isaltina das Dores Figueiredo Martins, Bibliografia do Humanismo em Portugal no Século XVI. Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanistas, 1986.
(2) Francisco Elias de Tejada, Ideologia e utopia no "Livro da Virtuosa Benfeitoria", "Revista Portuguesa de Filosofia", III (fasc. I), 1947, pp. 5-19. Os panegíricos quinhentistas retomam o tema dos reis-filósofos, fazendo nascer "um estilo político-literário", iniciado por Erasmo em 1504: "Erasme affirmera qu'aucune
méthode n'est plus efficace pour corriger les princes, que celle qui consiste à leur présenter un modèle idéal sous forme d'éloge". (J. Poujol, 1515. Cadre idéologique du développement de l'absolutisme en France à l'avénement de François 1er", in "Théorie et pratique politiques à la Renaissance", XVII Colloque International de Tours, Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1977, p. 265).
(3) Manuel Severim de Faria, Notícias de Portugal, Lisboa, Oficina Craesbeckiana, 1655. pp. 306-342. Título por extenso: "Panegirico a mui alta, e esclarecida princesa infanta dona Maria nossa Senhora". Quanto a este texto, MSF, em "Aos Leitores", informa: "Foi composição do nosso grande João de Barros; o qual como seu pay era morador de Viseu, celebrou com este Panegyrico a boa sorte daquella cidade, quando el
Rey D. João a deu á Senhora Infanta com título de Duquesa delia". MSF tinha já, assim, na primeira metade do século XVII, proposto uma naturalidade para João de Barros e uma autoria e cronologia para o Panegírico, embora a infanta não tivesse sido duquesa de Viseu. Do panegírico impresso existe uma cópia nos AN/TT, assinalada por Maria do Rosário Themudo Barata de Azevedo Cruz,As regências na menoridade de D. Sebastião. Elementos para uma história estrutural, vol. I, Lisboa, INCM, 1993, p. 275. A autora, porém, atribuiu o panegírico a Frei Francisco Barreiros, o sobrinho de João de Barros, de nome Gaspar Barreiros antes de se tornar franciscano. (AN/TT, Colecção S. Vicente, tomo XV, título I, fls. 86-94, na actual numeração e arranjo da miscelânea). O rápido confronto que fiz do texto impresso com o texto manuscrito, socorrendo-me apenas da memória, leva-me a concluir tratar-se do mesmo padrão, embora seja necessário verificar as possíveis variantes. Atente-se, porém, que o título do panegírico impresso contém um aposto a D. Maria que não se encontra no ms., cujo enunciado é o seguinte: "Panegirico. a mui alta & excellente princesa a iff.te dona Maria". Nada na miscelânea, no estado actual, permite mecanicamente concluir pela autoria. Na miscelânea há textos de diversos autores, para além dos de Frei Francisco Barreiros (Livro da verdadeyra nobreza, Geografia da antiga lusitania, etc.), de Manuel Severim
de Faria e outros. Podemos bem estar em presença de um dos vols. ms. pertencentes a MSF, referidos nas Notícias de Portugal, ou ao próprio Manuel Azevedo de Barros, sobrinho de Gaspar Barreiros, indicado já por MSF. De qualquer modo, o autor do panegírico deve ser um leigo e não um frade franciscano e muito menos jesuíta. Compete à Professora Maria do Rosário Themudo elucidar melhor o seu ponto de vista. Mantenho, por tudo isto, a autoria que tem sido seguida. Para além do panegírico da infanta D. Maria, João de Barros é autor, como é do conhecimento geral, do panegírico de D. João III. Outro elogio do referido monarca deve-se a António de Castilho, obra igualmente publicada por MSF nas Notícias.
(4) Alexandre de Lucena e Vale, "Príncipes, titulares do senhorio de Viseu", Anais da Academia Portuguesa da História, II série, vol. 12, Lisboa, pp. 167-197. Múltiplos autores haviam anteriormente reivindicado, mas com menos evidência, a naturalidade visiense. (Cf. António de Oliveira, A mundividência heróica de João de Barros, Coimbra, 1959, diss. de l i c , d a c . p . 8).
(5) Como mostrou no seu trabalho No quarto centenário de João de Barros. Da verdadeira interpretação do "Panegírico da Infanta " à naturalidade visiense do grande historiador, Viseu, Junta Distrital de Viseu, 1970.
(6) "Podemos desde já haver por assente que o senhorio de Viseu foi, por D. João III, dado à Infanta D. Maria nesse mesmo ano de 1544, e assim que é este o ano da redacção do panegírico de João de Barros". (P. 104 do trab. cit. na nota n.°4).
(7) A "minuta" publicada por Lucena e Vale, tanto em "Príncipes, titulares do senhorio de Viseu" como depois, No quarto centenário de João de Barros, tem a cota dos AN/TT, Gaveta VII, m.5, doc. 20, o que não está correcto, por gralha de revisão, provavelmente. A actual Gaveta VII só tem 6 documentos. Pelo menos hoje (1992), a "minuta" pertence à Gaveta XVII, m.5, doc. 20, o qual contém quatro espécies documentais que são "rascunhos" para a minuta final. Esta, ou uma cópia do contrato, é o documento n.° 21 do referido maço. (Distinção de cota já assinalada na obra referida na nota seguinte, rubrica Gaveta XVII, 5-20 e 21).
(8) Cf., por exemplo, As Gavetas da Torre do Tombo, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1968, vol. II, pp. 413-419, 554-562. Deste casamento teve D. Manuel dois filhos: D. Carlos e D. Maria. O infante morreu com pouco mais de um ano, em 1521, antes do nascimento de D. Maria, a qual herdou, por cláusula contratual, metade do que teria recebido o irmão.
(9)Alteração à tirada na chancelaria régia do regimento dos tabeliães, em favor da chancelaria de D. Maria, em AN/TT, Chancelaria de D. João III, liv. 43, fl. 9 v., 2 de Novembro de 1545. (10) Lucena e Vale alvitrou a data compreendida entre 1544e 1546 para a doação de Viseu à infanta. Cf. No quarto centenário de João de Barros, p. 15, nota 15.
(11) Nos registos de 21 de Fevereiro de 1545.
(1 2 ) O segundo codicilo do testamento da mãe, datado de 15 de Fevereiro de 1558, estipula "que a infanta de Portugal possa tere gozar nosso dito dote que temos em França". Cf., sobre toda a matéria da herança, Joaquim Veríssimo Serrão, A Infanta Dona Maria (1521-1577)e a sua Fortuna no Sul da França, Lisboa, Revista" Ocidente", 1955; Gomes de Brito, As Tenças Testamentárias da Infanta D. Maria, "Archivo Historico Portuguez", V(1907),pp. 103-128,228-234; 307-314;367-383; VI(1908),pp.2Ml; 138-149; 202-224; 285-292. Sobre a infanta como "reserva política", vide Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata de Azevedo Cruz, ob. cit., p. 275.
(13) Os cinco contos de réis de 1544-1545 eram superiores à renda de um bom bispado em Portugal e às despesas de funcionamento da Universidade de Coimbra. A renda da mesa arcebispal de Braga (assim como a episcopal de Coimbra), andaria então à volta de uma pesada pensão em 1540 (1,5 conto) e a erecção da diocese de Miranda (1545). (Cf. DHIP, vol. II, pp. 475 ss.; João José Alves Dias, Gentes e Espaços (Em torno da População Portuguesa da Primeira Metade do Século XVI), Lisboa, 1992, p. 445). Em 1555, as rendas da Universidade de Coimbra andariam pelos cinco contos e meio, depois da união de bens do priorado de Santa Cruz (1545), no valor de cerca de 3,5 contos. Por volta de 1557, a despesa da Universidade orçava entre quatro e quatro e meio contos de réis. (Cf. Mário Brandão e Manuel Lopes de Almeida, A Universidade de Coimbra, Esboço da sua História, Coimbra, 1937, p. 194).
(14) São explicitamente nomeados, em 1572, D. Pedro da Guerra (150.000 réis) e D. João Pereira (100.000 réis). Os outros "juristas": João Gomes, tesoureiro da Casa da índia, compra 400.000 réis em 1556; em 1572: Francisco de Sá, 200.000 réis; Luís de Brito, 50.000 réis; João de Mendonça, 100.000 réis; 1577: João de Mendonça, 300.000 réis; Jorge de Mendonça, 150.000 réis; Fernão de Mendonça, 50.000 réis.

Cortesia de Miscelânea/Estudo Geral/Sib/UC/Tomo XXVII da Revista Portuguesa de História, 1992/JDACT 

Furacão, Categoria 4 (Hurricane) DANIELLE: III Informação. Centrado a 26,9N e 59,8W às 15UTC de hoje (27 de Agosto de 2010)

Cortesia da UnisysWeather

Furacão DANIELLE, Categoria 4  (21-27 AUG)
Storm - Max Winds: 115 Kt (nós); Min Pres: 946 hPa; Category: 4
Current - Max Winds: 115 Kt (nós); Min Pres: 946 hPa.

Furacão (Hurricane) DANIELLE FORECAST/ADVISORY NUMBER 25

Comunicado das 15:00 UTC,  FRI AUG 27, 2010

Cortesia de UnisysWeather
Os meios de salvaguarda de vidas humanas das Bermudas devem acompanhar a evolução deste furacão. Por outras palavras, a Protecção Civil das Bermudas deve acompanhar o «desenrolar» deste evento meteorológico.
HURRICANE CENTER LOCATED NEAR 26.9N 59.8W AT 27/1500Z

Apresenta um movimento para Noroeste, aproximadamente 305º, com uma velocidade de 10 Kt (nós). A pressão mínima estimada no seu centro é de 946 hPa ou mb. Os ventos máximos são de 115 Kt com vento máximo instantâneo (rajadas) de 140 Kt.
64 KT....... 50NE 40SE 30SW 45NW.
50 KT....... 90NE 60SE 60SW 90NW.
34 KT.......180NE 120SE 110SW 140NW.
12 FT SEAS..330NE 270SE 250SW 240NW.
WINDS AND SEAS VARY GREATLY IN EACH QUADRANT. RADII IN NAUTICAL MILES ARE THE LARGEST RADII EXPECTED ANYWHERE IN THAT QUADRANT.

Cortesia de NOAA

A previsão da sua localização e os ventos máximos prováveis:
INITIAL 27/1500Z 26.9N 59.8W 115 KT
12HR VT 28/0000Z 27.9N 60.8W 115 KT
24HR VT 28/1200Z 29.5N 61.2W 115 KT
36HR VT 29/0000Z 31.5N 60.3W 110 KT
48HR VT 29/1200Z 34.3N 57.6W 95 KT
72HR VT 30/1200Z 38.0N 52.0W 80 KT
96HR VT 31/1200Z 40.5N 43.0W 65 KT
120HR VT 01/1200Z 46.0N 28.0W 60 KT...POST-TROP/EXTRATROP

Cortesia de UnisysWeather

Cortesia de UNISYS/NWS TPC/NOAA/NATIONAL HURRICANE CENTER MIAMI/JDACT

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nicolau Maquiavel: Os conceitos desenvolvidos por Maquiavel rompem com a tradição medieval teológica e também com a prática, comum durante o Renascimento, de propôr Estados imaginários perfeitos. Reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna

(1469-1527)
Florença, Itália)
Cortesia de wikipédia
Nicolau Maquiavel, em italiano Niccolò Machiavelli, foi um historiador, poeta, diplomata e músico italiano do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, pelo facto de ter escrito sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser. Os recentes estudos do autor e da sua obra admitem que o seu pensamento foi mal interpretado historicamente. Desde as primeiras críticas, feitas postumamente por um cardeal inglês, as opiniões, muitas vezes contraditórias, acumularam-se, de forma que o adjectivo maquiavélico, criado a partir do seu nome, significa esperteza, astúcia.

Nicolau Maquiavel viveu a juventude sob o esplendor político de Florença durante o governo de Lourenço de Médici e entrou para a política aos 29 anos de idade no cargo de Secretário da Segunda Chancelaria. Nesse cargo, Maquiavel observou o comportamento de grandes nomes da época e a partir dessa experiência retirou alguns postulados para sua obra. Depois de servir em Florença durante 14 anos foi afastado e escreveu as suas principais obras. Conseguiu também algumas missões de pequena importância, mas jamais voltou ao seu antigo posto como era seu desejo.

Cortesia de wikipédia
Como renascentista, Maquiavel utilizou-se de autores e conceitos da Antiguidade Clássica de um modo novo. Um dos principais autores foi Tito Lívio, além de outros lidos através de traduções latinas, e entre os conceitos apropriados por ele, encontram-se o de virtù e o de fortuna. Os conceitos de virtù e fortuna são empregados várias vezes por Maquiavel em suas obras. Para ele, a virtù seria a capacidade de adaptação aos acontecimentos políticos que levaria à permanência no poder. A virtù seria como uma barragem que deteria os desígnios do destino. A idéia de fortuna em Maquiavel vem da deusa romana da sorte e representa as coisas inevitáveis que acontecem aos seres humanos. Não se pode saber a quem ela vai fazer bem ou mal e ela pode tanto levar alguém ao poder como tirá-lo de lá, embora não se manifeste apenas na política. Como a sua vontade é desconhecida, não se pode afirmar que ela nunca lhe favorecerá.

Florença
Cortesia de defesabr
Durante o Renascimento, as cinco principais potências na península Itálica eram:
  • o Ducado de Milão;
  • a República de Veneza;
  • a República de Florença;
  • o Reino de Nápoles;
  • os Estados Pontifícios.
A maior parte dos Estados da Península era ilegítima, tomados por mercenários chamados «condotiere».

Foram incapazes de se aliar durante muito tempo estando entregues à intriga diplomática, às disputas e  pelas riquezas. Eram atractivos para as demais potências europeias, principalmente Espanha e França. A política italiana era muito complexa e os interesses políticos estavam sempre divididos. Batalhando entre si, ficavam à mercê das ambições estrangeiras, mas a influência de alguém como Lourenço de Médici havia impedido uma invasão. Com a morte deste em 1492, e a inaptidão política de seu filho, a Itália foi invadida por Carlos VIII, causando a expulsão dos Médici de Florença.

Savonarola
Cortesia de commons
Anunciando a chegada de Carlos VIII como a de um salvador e com grande apoio popular, o pregador Girolamo Savonarola tornou-se a figura mais importante da cidade dando ao governo um viés teocrático-democrático. Com crescente autoridade e influência, Savonarola passou a criticar os padres de Roma como corruptos e o Papa Alexandre VI por  imoral. O Papa excomungou o frade, mas a excomunhão foi declarada inválida por ele. No entanto, Savonarola acabou preso e executado pelo governo provisório em 23 de maio de 1498. Com a demissão de seus simpatizantes, 5 dias depois da morte do frade, Maquiavel, com 29 anos, foi nomeado para o cargo de secretário da Segunda Chancelaria de Florença.
 
Cortesia de jusfacto
O «Príncipe» é provavelmente o livro mais conhecido de Maquiavel e foi completamente escrito em 1513, apesar de publicado postumamente, em 1532. Teve origem com a união de Juliano de Médici e do Papa Leão X, com a qual Maquiavel viu a possibilidade de um príncipe finalmente unificar a Itália e defendê-la contra os estrangeiros.
Está dividido em 26 capítulos. No início ele apresenta os tipos de principado existentes e expõe as características de cada um deles. A partir daí, defende a necessidade do príncipe se basear nas suas forças em exércitos próprios e não em mercenários.Conclui a obra fazendo uma exortação a que um novo príncipe conquiste e liberte a Itália. Numa carta a Francesco Vettori, datada de 10 de Dezembro de 1513, Maquiavel comenta sobre o escrito:
  • E como Dante diz que não se faz ciência sem registar o que se aprende, eu tenho anotado tudo nas conversas que me parece essencial, e compus um pequeno livro chamado De principatibus, onde investigo profundamente o quanto posso cogitar desse assunto, debatendo o que é um principado, que tipo de principados existem, como são conquistados, mantidos, e como se perdem.
Os conceitos desenvolvidos por Maquiavel rompem com a tradição medieval teológica e também com a prática, comum durante o Renascimento, de propôr Estados imaginários perfeitos, os quais os príncipes deveriam ter sempre em mente. A partir da observação da política de seu tempo e da comparação desta com a da Antiguidade vai formular o seu pensamento por acreditar na imutabilidade da natureza humana.
Túmulo
Cortesia de wikipédia
 
Morreu obscuramente, talvez por efeito de veneno, e foi enterrado no túmulo da família na Basílica de Santa Cruz em Florença.
 
Cortesia de wikipédia/JDACT

António Pinheiro: Um testemunho jurídico-político na corte quinhentista portuguesa. Parte I. Dados Biográficos

Cortesia de historicachilena

Com a devida vénia a Isabel Graes e a Cuadernos de Historia del Derecho, publico algumas palavras. 
 
La figura de este político portugués personifica el humanismo portugués del Siglo XVI. Educado en París, cuando regresa a la Corte portuguesa en 1540 desempeña diversos cargos para el rey, todo ellos relacionados con la cultura: en el archivo real, visitador, reformador de la Universidad de Coimbra, educador de Príncipes o traductor de textos clásicos. Su obra puede clasificarse en tres grupos: textos políticos, textos clásicos y escritos varios. En ellos se traslucen las teorías jurídico-políticas del siglo XVI.
PALABRAS CLAVE: Portugal, siglo XVI, Juan III, António Pinheiro, Humanismo.
 
(1510?-1582)
Porto de Mós
Cortesia de ucm
I. Introdução
Iniciado em 1521 e caracterizado por momentos de esplendor jurídico e cultural, o reinado de D. João III todavia cedo entraria na sua fase crepuscular. Não era apenas um rei, cujo reinado se revelava agonizante, moribundo, tendo a seu lado permanentemente um leito de morte, era um reino que sucessivamente se via órfão e que desesperado procurava um sucessor.
Ao descrever o período que antecede o desastre de Alcácer Quibir, J.P. de Oliveira Martins (1) define o reinado de D. João III, a quem atribui o epíteto de faraó, como um período onde a ambição deixara de existir, onde havia apenas a «sombra da velhice, o cansaço depois da grande obra, e as consequências dela» (2). Em suma, o reino ávido do poder de outrora, estava agora apático e facilmente se tornava uma presa fácil da corrupção.
É neste contexto e enquanto símbolo de uma corte elitista, receptiva e conhecedora dos ideais do humanismo que surge a figura de D. António Pinheiro.


D. João III
Cortesia de br500tripod
Humanista, estadista, hábil na retórica e na eloquência, mestre de príncipes, capelão e pregador régio, figura presente nos momentos cruciais da política portuguesa do reinado de D. João III ao entrega do poder a Filipe II de Espanha, D. António Pinheiro revelar-se-ia como profundo conhecedor e divulgador do ideário político do século XVII capaz de enaltecer o Venturoso e o Piedoso, mas também persuasivo o suficiente para justificar não só os anseios de um jovem e inexperiente monarca como de fazer aceitar em Portugal o herdeiro de Carlos V.

II. Dados biográficos
Integrado numa corte de validos, de onde se destacam D. Frei Diogo da Sylva, D. Francisco de Portugal, Frei Gaspar do Casal e D. António de Ataíde, evidencia-se o filho de Pedro Braz do Couto e Leonor Alvares Pinheira, nascido supostamente em 1510, na localidade de Porto de Mós. O neto paterno de Braz Annes do Couto, e de Álvaro Fernandes Pinheiro, cedo revelaria uma total aptidão pelas letras o que leva D. João III (3) a decidir enviá-lo para o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, onde é reitor Diogo de Gouveia para aí desenvolver os seus conhecimentos na área das ciências humanas.

Tal foi a ascensão do aprendiz que rapidamente se vê a comentar os textos de Quintiliano, situação que não sendo do desconhecimento do monarca português vem a determinar o regresso do humanista ao reino. Não se conhece o momento exacto do seu regresso, apenas se sabe que em 1541 já se encontra em Portugal, pois nesse ano dedica ao monarca, a tradução do Panegírico de Plínio a Trajano. O apreço que o rei lhe tem é notório sendo traduzido com a atribuição de algumas funções, como a de mestre dos jovens fidalgos que então residiam na corte, e em especial a de acompanhar o estudo do príncipe herdeiro, D. João. Tamanha graça régia, não voltaria a ser-lhe concedida, facto que o deixará deveras inconformado.

Capelão, conselheiro e pregador de D. João III, ao lado de Simão Rodrigues, D. Fernando de Meneses e Vasconcelos, D. António torna-se mesmo um dos colaboradores mais próximos do monarca o que lhe permite a presença e intervenção em alguns dos momentos mais determinantes não só da política interna mas também externa neste reinado na medida em que acompanha já a celebração de alguns tratados com a Santa Sé, num período em que os cismas se sucedem. Do mesmo modo, também por alguns autores, como Inocêncio José da Silva, é indicado ter D. António desempenhado as funções de guarda mor do arquivo real, visitador e reformador da Universidade de Coimbra, cujo ministério exercita no ano de 1565, ainda que em relação às primeiras não existam dados conclusivos a esse respeito. Aliás, tudo parece indicar que não terá desempenhado o cargo de guarda mor, pois numa carta que lhe é dirigida de Almeirim por D. Catarina, datada de 19 de Março de 1569 (4) esta pede-lhe notícias do estado em que se achava a crónica de D. João III e lhe promete as cópias dos documentos do arquivo que lhe fossem necessárias, para a prossecução da mesma.

Universidade de Coimbra
Cortesia de agenda
As funções que desempenha na corte não são apenas as de educador de príncipes ou de tradutor de textos clássicos já que são reconhecidos os dotes do exímio mestre na eloquência portuguesa, sendo intitulado o Cícero Português na expressão de Manuel de Faria e Sousa (5), ou de Oráculo daquela idade na classificação de Jorge Cardoso (6). A si se devem algumas das orações de obediência enviadas ao Sumo Pontífice e a intervenção em alguns dos momentos de maior melindre político verificados no reino como sucede em 1562; ou ainda textos em que o teor político acaba por se mesclar com uma redacção epistolar mais pessoal, como ocorre com a prática consolatória que o Humanista dedica ao monarca em virtude do falecimento da sua tão amada filha D. Maria, mulher do príncipe D. Filipe de Espanha.

No entanto é pela construção e divulgação do pensamento político presente em alguns dos seus textos que ora o analisaremos. Os momentos de maior destaque político em que à envolvência teatral, faustosa e aparatosa da cerimónia se associam peças de oratória politica não são muitos, e a sua participação neles denota a importância que o bispo de Leiria tem na corte.
Assim:
  • é D. António Pinheiro quem profere a oração solene por ocasião do juramento do príncipe D. João, nas cortes de Almeirim (a 30 de Março de 1544);
  • a pregação fúnebre na trasladação dos ossos de D. Manuel e da rainha D. Maria para o Mosteiro dos Jerónimos (1551);
  • aquando das exéquias de D. João III;
  • à prática na aclamação de D. Sebastião (1557);
  • a fala que dirige a D. Catarina para que não se afaste da regência, em 1561;
  • a oração nas primeiras cortes celebradas por este monarca, ainda durante a regência de D. Catarina, 1562 (7);
  • autoria não só da arenga inicial mas também a resposta que seria proferida pelo Doutor Lopo Vaz (esta segundo a indicação de Bento Farinha);
  • a oração dita no capítulo geral da Ordem de Cristo que o rei faz celebrar em Santarém em 1573;
  • a pregação na bênção da bandeira por ocasião da partida de D. António Prior do Crato para Tânger (1574);
  • a oração de abertura das cortes de Almeirim (1580);
  • as orações no auto do levantamento de Filipe II ao trono português e do juramento do príncipe D. Diogo nas Cortes de Tomar (1581).

A sua importância e destaque enquanto figura política no reino rapidamente se revelam. Assim, no ano de 1553 assina como testemunha na escritura pública de renúncia da princesa D. Joana, mãe de D. Sebastião, lavrada em Lisboa a 20 de Dezembro por altura do casamento com o príncipe D. João. Influente, não só junto do monarca mas também da corte, D. António será incumbido pelo infante D. Luís no seu testamento para que proceda à análise do texto daquele documento e verifique se o mesmo está conforme com a razão cristã e segurança da sua consciência, e tudo em que tivesse excedido, ou faltado ao que devia, o corrigisse e emendasse como melhor fosse a serviço de Deus.

Em 21 de Outubro de 1551, prega na trasladação dos ossos d’el rei D. Manuel, sua mulher D. Maria e dos infantes D. Afonso, D. Duarte, D. Maria, D. António e D. Carlos no Mosteiro de Belém; e por determinação de D. João III o fará também nas exéquias deste mesmo rei que se celebrarão no mesmo mosteiro em 14 de Junho de 1557. No âmbito político falará em nome do povo de Lisboa à rainha D. Catarina no ano de 1561 para que não abandone o governo da regência; a que se segue a sua presença nas cortes de Lisboa reunidas a 12 de Dezembro do ano seguinte onde ora em nome do estado eclesiástico e lê a declaração da mesma rainha, a qual se afirma demitir-se do governo da regência.

Vagando o bispado de Miranda pela mudança que D. Sebastião fez de D. Julião d’Alva para seu capelão mor em 1564, o mesmo rei nomeia como bispo daquela cidade o mestre de seu pai. Aí passa a residir, sendo no ano de 1566, convocado pelo arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires, que lhe determina na qualidade de seu representante que assista ao concílio de Braga a 23 de Junho (8). Deste período é também conhecido o empenho com que procede a obras de caridade. Tal nomeação visava recompensar D. António por não lhe ter sido atribuído o acompanhamento da educação de D. Sebastião, ao contrário do que D. João III havia feito. A recompensa não o iria satisfazer como faz questão de mostrar à rainharegente (9).

Recorde-se ainda que a este acontecimento não foi alheia a intervenção do confessor de D. Henrique, o jesuíta castelhano Miguel de Torres nem tampouco a da sua camareira mor, D. Joana de Eça, os quais determinaram que a escolha tenha recaído no padre Luís Gonçalves da Câmara, então assistente da província de Portugal em Roma. A 4 de Abril de 1573, estando o cardeal em Salvaterra, este remete uma carta a D. António Pinheiro para que em virtude da bula de motu proprio de Pio V sejam por ele examinados os religiosos e aprovados para confessores. A 8 de Dezembro do mesmo ano profere a oração no capítulo geral da Ordem de Cristo que D. Sebastião fez celebrar em Santarém na igreja de Santa Maria de Marvila; e no seguinte por ocasião da bênção do estandarte que D. António, prior do Crato leva para Tanger, faz a pregação na igreja do Mosteiro de Belém em 15 de Julho.

Cardeal D. Henrique
Cortesia de wikipédia
Em 12 de Setembro acompanha o mesmo monarca na primeira jornada que este faz a África e aí tece considerações não muito do agrado de D. Sebastião o que parece ter-lhe custado o bispado pois a eleição recai sobre Frei Marcos de Lisboa. No entanto, D. Rodrigo da Cunha refuta a ocorrência de tal episódio (10). Transferido Frei Gaspar do Casal para a igreja de Coimbra no ano de 1579 passa D. António Pinheiro para a mitra de Leiria, que por ele vagara, por nomeação do rei cardeal D. Henrique, de quem era especial valido, sendo um dos juízes que assinaram a anulação da sentença que D. António prior do Crato obteve da sua legitimidade. A sua proximidade relativamente ao cardeal-rei explica o chamamento a Almeirim onde vem a proferir a oração de proposição nas últimas cortes convocadas por este monarca. D. António também tomaria parte na questão que tinha por objecto a escolha do sucessor de D. Henrique sendo notória a sua preferência pelo filho da infanta D. Isabel e de Carlos V ao serviço de quem diz ter colocado lealdade, amor e verdade (como refere numa carta dirigida a Filipe II, que se encontra datada de 21.09.158 (11).

Gravura da batalha
Cortesia de prosimetron
Assim, e após o desastre de Alcácer Quibir e na qualidade de declarado partidário de Filipe II, cedo se torna alvo de algumas sátiras. Todavia, não altera a opção tomada sendo a sua lealdade reconhecida nas arengas proferidas nas cortes convocadas para a vila de Tomar, bem como no levantamento de rei a 16 de Abril, nas cortes a 20 e no juramento do príncipe D. Diogo a 23 do mesmo mês e ano de 1581.

A data do seu falecimento, tal como a do seu nascimento não são conhecidas, apenas se pode enunciar que terá ocorrido entre 1581 e 1583, pois não se encontra entre os presentes nas cortes que neste ano jurariam o príncipe D. Filipe. Recorde-se ainda que segundo disposição testamentária, era seu desejo ser sepultado na capela de S. Sebastião na igreja paroquial de S. Pedro da Vila de Porto Mós, ainda que o catálogo dos bispos de Leiria informe que jaz na catedral de Leiria.

1 In Temas e Questões, Antologia de Textos, pág. 161 e ss.
2 In História de Portugal, Imprensa nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1988, livro V.
3 Sobre este monarca, vide ANDRADE, Francisco de: Crónica de D. João III, Jorge Rodriguez, Lisboa, 1613; BRANDÃO, Mário: Documentos de D. João III, Casa Tipográfica Alves & Mourão, Coimbra, 1937.
4 In IANTT: parte I do Corpo cronológico.
5 In Comentário de Camões, cantoI, est. 33.Cortesia de Cuadernos de Historia del Derecho, 2008, 15 345-382/JDACT
6 In prefácio do tomo 3 do Agiologio Lusitano.
7 Vide CRUZ, Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata de Azevedo: As regências na menoridade de D. Sebastião, temas portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1992.
8 No mesmo sentido se refere Damião de Góis no capítulo 37, parte IV da Crónica de D. Manuel.
9 Vide BPMP, cód. 678; de que há cópia na BGUC, cod. 166, fls. 1-7 e na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, ms. Série vermelha 1, 169, fls. 31-36v. Vide ainda a este respeito Diogo Barbosa Machado: Memórias para a História de Portugal que comprehendem o governo d’el rei D. Sebastião, Lisboa Occidental, Officina de António da Sylva, 1736, parte I, livro I, caps. XV e XVI.
10 In Part. II dos bispos do Porto, cap. 39.
11 In BN, códice 3.767, fol. 1v-2; e, Joaquim Veríssimo Serrão: “Fontes de direito para a história da sucessão de Portugal”, in Boletim da FDUC, XXXV, 1960, pp. 195-196. Inocêncio Francisco da Silva: Diccionario bibliographico portuguez, Lisboa, Imprensa Nacional, vol. I, p. 236.

Cortesia de Cuadernos de Historia del Derecho 2008/JDACT