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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Ao Encontro de Espinosa. António Damásio. «E o que é o ‘conatus’ de Espinosa em termos biológicos contemporâneos? É o agregado de disposições presentes em circuitos cerebrais que, uma vez activados, levam à procura da sobrevida e do bem-estar»

Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções.. Nos Ramos Médios
«(…) Não contente com as benesses da sobrevida, a natureza tratou de nos proporcionar uma mais valia: o equipamento inato da regulação da vida não está desenhado para produzir um estado neutro, a meio caminho entre a vida e a morte. Pelo contrário, a finalidade do esforço homeostático é produzir um estado de vida melhor do que neutro, produzir aquilo que nós, seres pensantes, identificamos com o bem-estar. A colecção inteira de processos homeostáticos governa a vida, de momento a momento, em cada célula dos nossos corpos. Esta governação é conseguida por meio de um arranjo simples. Primeiro, opera-se uma mudança no ambiente de um organismo, internamente ou externamente. Segundo, as mudanças podem alterar potencialmente o curso da vida de um organismo, constituindo uma ameaça para a sua integridade ou uma oportunidade para a sua melhoria. Terceiro, o organismo detecta a mudança e responde de forma a criar uma situação mais benéfica para a sua auto-preservação. Todas as reacções homeostáticas funcionam desta maneira e constituem, por isso mesmo, meios de avaliar as circunstâncias internas ou externas de um organismo, de modo a permitir uma actuação que corresponda a essas circunstâncias. As reacções homeostáticas detectam dificuldades ou oportunidades e resolvem, por meio de acções, o problema de eliminar as dificuldades ou aproveitar as oportunidades. O que difere, a esse nível, é a complexidade da avaliação e da resposta, maiores do que nas simples reacções a partir das quais as emoções-propriamente-ditas foram construídas no curso da evolução biológica. Está bem de ver que a tentativa contínua de conseguir um estado de vida equilibrado é um aspecto profundo e definidor da nossa existência. É o que nos diz Espinosa, que vai mais longe e chama a esta tentativa a primeira realidade da nossa existência, uma realidade que ele descreve como o esforço implacável da auto-preservação presente em qualquer ser. Espinosa designa esse esforço implacável com o termo conatus, a palavra latina que pode também traduzir-se como tendência, no sentido em que aparece nas Proposições VI, VII e VII da Ética, Parte III. Nas palavras de Espinosa: cada coisa na medida do seu poder, esforça-se por perseverar no seu ser e, o esforço através do qual cada coisa tende a perseverar no seu ser nada mais é do que a essência dessa coisa.
Interpretada à luz do conhecimento actual, a noção de Espinosa implica que um organismo vivo está construído de forma a lutar, contra toda e qualquer ameaça, pela manutenção da coerência das suas estruturas e funções. O conatus diz respeito não só ao ímpeto de auto-preservação, mas também ao conjunto de actos de auto-preservação que mantêm a integridade de um corpo. Apesar de todas as transformações por que um corpo vivo passa, à medida que se desenvolve, substitui as suas partes constitutivas e envelhece, o conatus encarrega-se de respeitar o mesmo plano estrutural em todas essas operações e, deste modo, de manter o mesmo indivíduo. Os sentimentos suportam o nível de regulação homeostática que se segue ao das emoções-propriamente-ditas. Os sentimentos são a expressão mental de todos os outros níveis da regulação homeostática. E o que é o conatus de Espinosa em termos biológicos contemporâneos? O conatus é o agregado de disposições presentes em circuitos cerebrais que, uma vez activados por certas condições do ambiente interno ou externo, levam à procura da sobrevida e do bem-estar. As variadas actividades do conatus estão representadas no cérebro por sinais químicos e neurais. Os numerosos aspectos do processo da vida são continuamente representados no cérebro em mapas constituídos por células nervosas que se encontram em diversos locais do cérebro». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Piratas em Buarcos. 1629. Digressão Épica na Oração de Sapiência do padre Francisco Machado. Carlota Urbano. «… foi logo dado rebate em Coimbra, donde acudiram com suma presteza o Corregedor com a gente da cidade, de Infantaria por mar, e os de Carvalhos / em que estavãom os fidalgos, e nobres / por terra»

Cortesia de wikipedia

Reavaliação dos Critérios de Produção Literária do Século XVI
«(…) Um segundo ataque a Buarcos vem demonstrar que só a Sabedoria soube fazer frente à ofensiva protestante, provando assim que foi mais forte o poder das Letras que o poder do dinheiro. Vejamos porquê: a Academia soube do assalto e lança-se Mondego abaixo sob o comando do próprio Reitor. Era tal o terror que inspirava este exército de Sabedoria que o próprio Gerião, monstro que domina o Mondego, se rende e entrega as suas armas para auxílio do combate (curiosamente o ano da entrada de Francisco Machado no noviciado da Companhia em Coimbra, Gerião é o gigante dominado por Hércules algures no extremo Ocidente, região por muitos identificada com uma parte da Península Ibérica; segundo o artigo, a acção passa-se na região entre Lisboa e Coimbra, representadas pelos rios Tejo e Mondego. Monda prologus é precisamente o símbolo da região dominada por Gerião, tirano de toda a Hispânia; em Maio de 1629, o Colégio das Artes dedica uma representação desta écloga ao Reitor da Universidade; estaria portanto viva na memória do orador e dos seus ouvintes, a imagem deste monstro do Mondego, dominador do académico promontório). A este exército não faltavam a coragem nem vontade de lutar, o que não chega a fazer, porque o inimigo, à visão de tais forças, desiste do combate e deita-se ao mar em fuga.
[…]

O testemunho de Manuel Severim Faria vem confirmar a existência deste ataque bem como a origem dos piratas. Com efeito, Joaquim Veríssimo Serrão na sua História de Portugal fala-nos de um ataque de ingleses a Buarcos em fins de Maio, mas nas fontes que indica não encontrámos qualquer referência à origem das quatro naus inimigas (que) botaram gente em Buarcos. A obra de Faria vem pois confirmar o testemunho de Francisco Machado segundo o qual os inimigos eram holandeses. A este ataque, como afirma Machado a custo alguém houve que (...) fizesse frente; por isso, a série de questões que o orador levanta ao auditório para que este conclua que a Sabedoria é o nervo da guerra, tem o seu fundamento. Com efeito, a população da costa não se defendeu devidamente, como afirmam António Santos Rocha e Veríssimo Serrão. Houve gente que não quis combater e por isso foi castigada.
António Santos Rocha e Veríssimo Serrão fazem-nos crer que teria havido somente um ataque a Buarcos no ano de 1629, o que transformaria a secunda irruptio de que nos fala Machado em um artifício literário bem excogitado, para comprovar que, com a assistência da Sabedoria, da Academia em pessoa, todas as guerras seriam vitoriosas. Mais uma vez, porém, o manuscrito de Faria faz luz sobre esta questão e confirma a versão de Francisco Machado, referindo uma tentativa de ataque a 7 de Junho e o pronto auxílio de Coimbra de onde acudiram o Corregedor com gente da cidade, fidalgos e nobres e o Reitor da Universidade com alguns mestres por capitães de 420 estudantes. Foi a este segundo ataque, e não ao de Maio, como afirma Veríssimo Serrão, que acorreu a Academia.
Contudo logo aos 7 de Junho, vendo outra semelhante bonança, deram mostras de querer sair em terra, porem como já o mal passado nos tinha feito vigilantes, foi logo dado rebate em Coimbra, donde acudiram com suma presteza o Corregedor com a gente da cidade, de Infantaria por mar, e os de Carvalhos / em que estavãom os fidalgos, e nobres / por terra. O Reytor da Universidade Francisco Brito Meneses se embarcou também em quize barcas com os estudantes que então havia, que por ser no fim do anno erão já poucos, mas ainda assy passarão de 420 de que forão por Cappitães André Almeida, o Doutor Francisco Roiz Valladares, António Silveira, Francisco Cabral, e Nuno Cunha, Estêvão Cunha; sargentos Gaspar Pinto Fonseca, e Jerónimo Silva: o General de todos era o mesmo Reytor que ia diante em corpo com um bastão na mão. In Faria»
In Carlota Miranda Urbano, Piratas em Buarcos, Digressão Épica na Oração de Sapiência do padre Francisco Machado, 1629, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Piratas em Buarcos. Digressão Épica na Oração de Sapiência do padre Francisco Machado. 1629. Carlota Urbano. «Ε calcaram eles a seus pés todo o poderio dos portugueses. Ninguém há que se atreva contra as sua máquinas de guerra? Ninguém!»

Cortesia de wikipedia

Reavaliação dos Critérios de Produção Literária do Século XVI
«(…) Para demonstrar que a Sabedoria é o nervo da guerra e é, por isso, fundamental à nação, Francisco Machado evoca então um caso que havia poucos meses sucedera envolvendo a Academia. Trata-se de um ataque de piratas holandeses a Buarcos, que devastou o lugar e profanou as igrejas. Depois de captar a atenção do auditório, Francisco Machado confronta-o com a crueza do sacrilégio infligido aos altares, sacrários e imagens de santos, movendo-o à indignação contra a desonra das imagens, descrevendo a sua destruição como se de corpos vivos se tratasse. A atenção que Machado dá ao quadro das imagens destruídas é, de resto, compreensível, pois a sua profanação era um rito habitual nos ataques de piratas protestantes à nossa costa (radicado em purismos bíblico-fundamentalistas, era usual o comportamento iconoclasta dos reformados ante a religiosidade católica nos conflitos religiosos da Reforma. Ficou paradigmático deste comportamento o saque de Roma (1527) às mãos dos lanzichenechi do, embora catolicíssimo Carlos V. Também entre nós se registara o mesmo comportamento contra a imagem; é o que sucede, por exemplo, no ataque de 1602, conforme o relato de Nicolau, na Crónica da Ordem dos Cónegos regrantes do Patriarca St-Agostinho , Lisboa 1688, & assi forão roubando tudo muito a seu salvo, & depois fizerão o mesmo nas Igrejas, e onde quebrarão todas as Imagens; este comportamento repete-se depois em 1629 como relata Francisco Machado e confirma o testemunho de Faria, saquearam os hereges a villa, deixando os sinaes desta impiedade nos templos e imagens). Dando largas à expressão do seu horror pelas atrocidades que os piratas cometeram, Francisco Machado lança invectivas sobre os batavos e apela às emoções do auditório lançando sobre ele uma série de interrogações retóricas para concluir que o povo não lutou nem ofereceu resistência por meio da guerra porque faltou a Sabedoria.
Ainda há meses, bem pouco há, disso vistes um claro exemplo. Vós que o não vistes, prestai-me os ouvidos ignaros; mas vós, também, que o vistes; quiçá lembrá-lo vos aproveite. Expugnam os inimigos, para suma desonra do nosso nome, a praça de Buarcos; aos telhados dos moradores se lançaram chamas; nem com as igrejas houve temperança. Ó desmedida ousadia! Entra a caterva desavergonhada dos batavos, a bem dizer, flagelo das nações, pelos templos consagrados; sujam pés profanos as sagradas capelas dos santos, arrombando, violando, desnudando aquelas paredes de seus ornamentos e preciosos ex-votos, depredando altares, delapidando aras, despojando sacrários. Aquelas imagens dos santos que eu, por sua tão alta dignidade, por religião, não ouso nomear, arrogantemente deitam por terra decepando-lhes as mãos, destroncando-lhes as cabeças, dispersando-lhes os membros. O flagelo imundo! Ousaste entrar em aquelas santas moradas, transpor aqueles sagrados umbrais; ostentar a face imunda aos santos imaculados, deitar as ímpias, malvadas mãos a tão santas e formosas imagens de santos? Tu, entre os mortais a mais vil, iníqua, criminosa gente, (se é que entre os homens és digna de algum lugar) ousaste decepar os corpos da corte celestial que ninguém sem horror poderia tocar, que ninguém sem religião poderia contemplar? Ó execrável torpeza! Ó malvadez que por sua atrocidade nunca há-de ser expiada.
Não é, senhores, algum crime imaginário que estou lembrando, mas um verdadeiro, não de que se ouviu, mas que se viu, não são quaisquer as testemunhas que invoco, mas de nomeada; e que, se posso eu mesmo citar-me como testemunha? Sou-o, não pelo que ouvi, mas pelo que vi. Com estes olhos, com estes próprios olhos vi apagadas as luzes dos santos, vi-lhes soltos os membros decepados; com estas mãos, com quanta devoção pude, tomei as mãos dos santos nossos patronos, e em que estado as tomei! Ó Deus imortal, porque não vingais tão torpe injúria arremessada aos vossos santos? Aquelas mãos santíssimas que tantas vezes sentira era meu favor pias, generosas, liberais, meio queimadas as tomei, quebradas, profanadas. Que fazeis, Portugueses? Que esperais ainda? Ó vergonha! Onde está a glória invicta de Portugal? Onde a força dos vossos maiores? Ninguém há que abata a cabeça desses arrogantes, desses malvados?! Ninguém! Ε calcaram eles a seus pés todo o poderio dos portugueses. Ninguém há que se atreva contra as sua máquinas de guerra? Ninguém! Em todos tolheram a coragem. A custo alguém houve que aos malvados fizesse frente. Porquê? Faltava dinheiro? Dinheiro havia. Então porquê? Desertaram soldados? Alguns pelejaram. Então? Não havia armas? Logo as houve. Que faltou então? A Sabedoria». In Carlota Miranda Urbano, Piratas em Buarcos, Digressão Épica na Oração de Sapiência do padre Francisco Machado, 1629, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 12 de setembro de 2015

Piratas em Buarcos. Digressão Épica na Oração de Sapiência do padre Francisco Machado. 1629. Carlota Urbano. «… assim como o corpo é mantido e suportado pelos nervos, também a guerra o é pelo dinheiro. … a Sabedoria é o nervo da guerra…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Reavaliação dos Critérios de Produção Literária do Século XVI
«Escritas sob a influência de um conjunto de preceitos e lugares-comuns vigentes no meio humanista do renascimento português, as orações de Sapiência do século XVI que têm vindo a ser estudadas constituem um corpus vasto e riquíssimo, contributo notável para o estudo da evolução do ensino, da sociedade, do pensamento e da cultura no Portugal do seu tempo. Revisitar esta produção literária, bem como os estudos feitos a seu propósito será sempre útil ao investigador do humanismo. As orações de Sapiência do século XVII, porém, mais distantes da observância daqueles preceitos, não foram ainda objecto de um estudo sistemático. Talvez porque não foram publicadas e decerto porque são menos conhecidas, estas orações permanecem copiadas em volumes manuscritos como tanta outra literatura novilatina, mas valeria a pena conhecê-las mais profundamente pois documentam a evolução dos gostos e critérios de produção literária do seus contemporâneos e oferecem por vezes iluminação e esclarecimento sobre factos, acontecimentos e pessoas do seu tempo.
O que à partida desperta mais interesse nestes textos é a sua evidente diferença em relação aos textos congéneres do século XVI. Podemos agora falar com mais propriedade da Oração de Sapiência do mestre de Retórica, Francisco Machado, da Companhia de Jesus proferida na Universidade de Coimbra em 1629. Mesmo uma leitura superficial desta Oração nos permite admirar a sua originalidade e apreciar agradavelmente as diversões que o autor nos oferece. Habituado à unidade partilhada pelas orações de quinhentos que o modelo ciceroniano inspira, o leitor de hoje não pode deixar de se surpreender com o texto de Machado que, sem dúvida, nos revela o cansaço do estereótipo daqueles textos e a procura da novidade, quer no conteúdo, quer na forma. O discurso de Francisco Machado não cede o habitual destaque ao louvor de cada disciplina, e pouco ou nada diz de novo acerca de cada campo do saber. O que impressiona o leitor não é, pois, o tema, mas a argumentação. Na verdade, as disciplinas não constituem a matéria fundamental do discurso, elas são apenas o pretexto para descrições ou episódios mais ou menos longos que, esses sim, impressionam o leitor.
A diferença deste texto decorre, pois, de uma opção do orador que, não isoladamente, mas no contexto da sua geração, denuncia a valorização do mouere e do delectare em prejuízo do docere. Sem o sacrifício, porém, da unidade e coerência da oração que os princípios da harmonia, brevidade e equilíbrio clássicos inspiram, Francisco Machado revela uma clara preferência pelo recurso dos exempla e entre estes opta sobretudo pela narratio, evitando o abuso e o cansaço destas formas pelo recurso pontual à forma breuis e à descriptio. Optando pela forma narrativa do exemplum Machado introduz autênticas digressões que lhe permitem revelar o seu talento e virtuosismo na capacidade de imaginar e compor os episódios. Um destes é o episódio do ataque de piratas holandeses à vila de Buarcos socorrida depois por um exército de mestres e alunos da Universidade de Coimbra. Este é um caso típico de argumentação absolutamente exterior à demonstração em causa.
O tema que confere unidade à oração é o louvor das riquezas da Sabedoria e a demonstração de como elas são superiores a todas as outras e as únicas que devemos ter por verdadeiras. Vejamos como Francisco Machado estabelece a sua ligação com o episódio com que nos quer brindar. Depois do louvor do Direito no qual Francisco Machado usa o tópico já recorrente segundo o qual os estados prosperam e vivem em paz quando respeitam as leis sagradas e civis, e o aplica a Portugal a quem não faltaria a fazenda se guardasse o tesouro de sabedoria da justiça, o autor segue para uma digressão que aproveita o ensejo da alusão ao estado crítico do reino e à grandeza perdida de Portugal. A fuga para este excurso não é gratuita, Machado não perde a oportunidade de, por meio deste artifício, trazer ao auditório, não um exemplum clássico, nem um outro inteiramente inaudito, mas um episódio conhecido da comunidade universitária que decerto se interessaria vivamente pela narrativa de um acontecimento que recentemente a envolvera.
O excurso é anunciado por uma máxima que Machado se propõe reformar: se os antigos diziam que o dinheiro é o nervo da guerra, com mais propriedade o mesmo se diria da Sabedoria, pois já muitas guerras terão começado sem dinheiro mas nenhuma sem Sabedoria. Veteres belli neruos pecuniam appellarunt, nec immerito. Quemadmodum enim corpus neruis continetur, ac sustentatur, sic bellum pecunia. Rectius tamen belli neruos dicerent sapientiam, guia sine pecunia nonnunquam bellum inferri poterit, non uero sine sapientia. Tollite stipendia, uectigalia, commeatus, praemia, dona militaria; si una supersit sapientia, nihil eorum desiderabitur. Tollite signa, hastas, gládios clypeos: tollite reliquum armorum genus, si unus tantum sapientiae thesaurus non deficiat, haec omnia dimicabunt. Os antigos chamavam ao dinheiro, e não sem fundamento, o nervo da guerra. Com efeito, assim como o corpo é mantido e suportado pelos nervos, também a guerra o é pelo dinheiro. Com mais razão, porém, diriam que a Sabedoria é o nervo da guerra, pois sem dinheiro, não poucas vezes poderá alguém ter começado uma guerra, não porém sem Sabedoria. Acabai com os soldos, com as rendas, com os lucros, com os prémios, com as recompensas militares; se apenas a Sabedoria subsistir, não se sentirá a falta de nenhuma destas coisas. Deitai mão dos estandartes, das lanças, das espadas afiadas, deitai mão de tudo o mais que são armas. Se somente o tesouro da Sabedoria vos não faltar, todas elas vos servirão». In Carlota Miranda Urbano, Piratas em Buarcos, Digressão Épica na Oração de Sapiência do padre Francisco Machado, 1629, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Amizade. Amor. Eros na Ilíada. Maria Helena Pereira. «Será que dentre os homens mortais somente os Atridas amam as suas esposas? Ora todo o homem de bem e com senso ama a sua própria mulher, e com ela se preocupa…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Quando, no princípio do Canto XVI, Pátroclo se prepara, vertendo lágrimas escaldantes, para lhe pedir que o deixe ir, com os Mirmidões, em socorro dos outros Aqueus, a primeira pergunta do herói é se terão vindo algumas notícias tristes da Ftia; mas logo procura tranquilizar-se:

Mas está ainda vivo, ao que se diz, Menécio, filho de Actor,
e vivo está Peleu Eácida entre os Mirmidões;
de ambos esses nos afligiria a morte, acima de tudo.

Este valor supremo da amizade encontra paralelos mais esbatidos na relação entre os dois jovens príncipes da Lícia, Glauco e Sarpédon, na cena patética em que o primeiro suplica a Apolo que o cure dos seus ferimentos, para impedir que o cadáver do segundo caia nas mãos dos Aqueus, ou mesmo na bonomia do símile em que os dois Ajantes, na sua actuação sempre concertada, são comparados a uma junta de bois que nunca se afastam um de outro; ou ainda na dedicação fraternal entre os dois Atridas, quer na ocasião em que Agamémnon, na aflição de ver Menelau ferido, lhe pega na mão a soluçar e só descansa quando Macaão vem tratá-lo, quer quando o rei de Esparta chega à assembleia dos chefes mesmo sem ser preciso chamá-lo, pois sabia no seu coração que o irmão estava a sofrer. Voltando a Aquiles, e reafirmando a ausência de conotações eróticas na sua relação com Pátroclo, as quais, tanto quanto sabemos, não entraram no mito anteriormente ao século V a.C., será a altura de perguntar qual a natureza, e sobretudo a profundidade dos seus sentimentos para com Briseida, e desta para com ele.
A revelação é feita aos poucos, discretamente, e no momento relevante, como é característico da arte homérica. Assim, quando os arautos de Agamémnon vão buscar Briseida à tenda de Aquiles, estão presentes, além daqueles, que não ousam sequer falar, Pátroclo, que cumpre as ordens do amigo, de entregar a jovem, e o próprio Aquiles. Apenas a voz deste se ouve, após o que:

… Pátroclo obedeceu ao seu querido companheiro.
Trouxe para fora da tenda Briseida de rosto formoso,
e entregou-a. Eles seguem ao longo das naus dos Aqueus.
Com eles avança a mulher, mau grado seu…

Mau grado seu, em grego, uma única palavra, que diz tudo. Só iremos ver de novo Briseida, e agora ouvi-la também, na sua lamentação ao avistar o cadáver de Pátroclo, que beija a chorar, lembrando, como tantos outros, a sua doçura. Fora ele que a consolara, no próprio dia em que principiara o seu cativeiro, prometendo-lhe que Aquiles faria dela sua esposa legítima e a levaria para a Ftia. Uma vã consolação, poderá perguntar-se? A resposta está no discurso com que Aquiles replica a Ulisses, por ocasião da embaixada por este conduzida:

Será que dentre os homens mortais somente os Atridas
amam as suas esposas? Ora todo o homem de bem e com senso
ama a sua própria mulher, e com ela se preocupa; tal como
eu a amava a ela de todo o coração, apesar de ser uma cativa.

Embora haja outras interpretações, julgo que os sentimentos pessoais de Aquiles já estavam a descoberto desde o momento do Canto I em que, a seguir à partida de Tétis, se diz que ele ficara irado, a pensar na mulher de bela cintura. O passo do Catálogo das Naus em que se refere a inactividade do herói e as razões que a determinam confirmam a existência deste tipo de motivação para o afastamento do combate. Lugar de primeiro plano ocupa, no entanto, o amor conjugal vivido em toda a sua plenitude. É o caso daquele que tem por protagonistas Heitor e Andrómaca. Num dos passos mais célebres do poema, o herói de casco faiscante, que fora a Tróia pedir à mãe que fizesse súplicas e oferendas a Atena, tal era a gravidade da situação do exército troiano, dirige-se a casa, à procura da mulher e do filho, pois não sabe se poderá tornar a vê-los. Encontra Andrómaca na muralha, nas Portas Ceias, perscrutando, ansiosa, o campo de batalha. Logo que o avista, vem ao seu encontro, seguida da ama com o filho nos braços. Ao ver a criança, Heitor sorri em silêncio. Andrómaca detém-se a chorar, junto dele. A cena vai decorrer, precisamente, entre risos e lágrimas, as duas faces da expressão dos sentimentos que unem os dois esposos em volta da figura da criança, semelhante a uma formosa estrela. Andrómaca implora-lhe que se lembre dela e do filho, pois em breve os Aqueus o derrubarão, impiedosos, e então:

…melhor seria para mim,
de ti privada, ir para debaixo da terra...

In Maria Helena Rocha Pereira, Amizade, Amor e Eros na Ilíada, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Amizade. Amor e Eros na Ilíada. Maria Helena Pereira. «... Mas agora quero alcançar uma nobre glória, e que as Troianas e Dardânidas de bela pintura, enxugando com ambas as mãos as lágrimas nas tenras faces, solucem profundamente, e se apercebam de quanto tempo me abstive do combate…»

Cortesia de wikipedia

«(…) É precisamente isso o que sucede no Canto I do poema. Agamémnon rejeita, desabridamente e com ameaças, o pedido de resgate de Criseida, que o pai desta lhe faz, revestido das insígnias de sacerdote de Apolo, pelo que o deus o castiga, e a todo o exército, lançando a peste no acampamento. Revelada a causa da epidemia pelo adivinho dos Aqueus, vê-se na obrigação de restituir a cativa, mas para isso reclama a sua substituição por outra. No calor da discussão com Aquiles, é a deste último, Briseida, que ele acaba por exigir. Ora as cativas eram presente de honra, e este lexema atravessa, como um signo ameaçador, a longa discussão na primeira parte da assembleia dos chefes, em que Aquiles é desfeiteado na presença de todos (oito ocorrências da palavra em 87 versos). Certos comentadores antigos, que tentaram emendar o verso 6 da proposição do poema: desde o momento em que se separaram, discordando um do outro, lendo uma referência causal, onde estava um verbo no dual acompanhado de um particípio suplementar, cujo sujeito é o Atrida, senhor dos homens e o divino Aquiles, além de inventarem uma palavra, mostraram não compreender o alcance da ofensa, reduzindo-a a uma simples questão de rivalidade por uma mulher. Numa das suas acutilantes réplicas a Agamémnon, o rei dos Mirmidões acentua que não está em Tróia para vingar afrontas pessoais de depredação dos seus bens (que eram afinal as causas correntes de guerras), mas para prestar serviço aos Atridas: é que eu não vim lutar para aqui por causa dos Troianos belicosos, pois eles nada me fizeram; jamais me tiraram bois ou cavalos, nem destruíram as colheitas na Ftia de solo fértil, criadora de heróis, pois muitos são os acidentes que ficam de permeio, as montanhas umbrosas e o marulhante mar. Mas seguimos-te, grande descarado, para teu prazer, para vos granjear honra, a Menelau e a ti, ó cara de cão, junto dos Troianos; Disso não curas nem pensas tu! Mais tarde, ao replicar ao discurso com que Ulisses, em nome de Agamémnon, tenta convencê-lo a regressar ao combate, Aquiles insiste em que não ajudará o rei de Micenas, nem com o conselho, nem com a acção  e exclama: é que ele já me decepcionou e ofendeu; não vai iludir-me de novo com palavras! Que se contente com o que fez!
O seu discurso rebate depois, uma por uma, as vantagens das ofertas de Agamémnon: não aceita nem riquezas, nem cidades, nem uma das filhas em casamento. Regressará à Ftia, e aí encontrará uma nobre esposa, porque, continua, nada existe que possa pagar a vida. Sabedor, através da mãe, a deusa Tétis, do duplo destino que pode aguardá-lo, morrer cedo, com glória, ou gozar de uma velhice apagada, só tem que aconselhar a todos o regresso ao seu país. Este não é o pensar verdadeiro do herói por excelência, momentaneamente disfarçado sob a capa do homem comum. É o do herói ofendido que desdenha esta tentativa de aproximação. Mas a profecia de Tétis vai regressar na altura própria: quando, após a morte de Pátroclo, tiver começado aquilo a que Dieter Lohmann, num livro que fez época, chamou a segunda fase, aquela que o leva a ir para o combate, sem atender a nada, para castigar Heitor. Ao ouvir a decisão do filho, Tétis esclarece melhor: logo após a morte de Heitor, a sua estará preparada. Reconhece-se agora o fogoso guerreiro na resposta impetuosa e desesperada: que eu morra de imediato, já que não me era dado defender da morte o companheiro!... Mais adiante, o tema da morte e da glória entrelaçam-se de novo nesta tirada cheia de exaltação: ... Mas agora quero alcançar uma nobre glória, e que as Troianas e Dardânidas de bela pintura, enxugando com ambas as mãos as lágrimas nas tenras faces, solucem profundamente, e se apercebam de quanto tempo me abstive do combate. Por muito que me ames, não me afastes da luta: não me convencerás.
Mas, ao lado destes, o tema da amizade vai ter um valor fundamental, pois é essa, afinal, a razão última do sacrifício da vida de Aquiles. Quando Pátroclo cai ferido por Heitor e os outros chefes guerreiros tentam impedir a todo o custo a consumação suprema do príncipe troiano, ficar de posse do cadáver do inimigo, Ajax lembra a Menelau que é preciso prevenir Aquiles de que perecera o companheiro que, de longe, ele mais estimava. O espectáculo da dor de Aquiles, do seu imenso desespero, com Antíloco a segurar-lhe as mãos, para o impedir de se matar, o lamento das cativas e o do coro das Nereidas, que vêm das profundezas marinhas acompanhar Tétis, são, não obstante as severas críticas que, séculos mais tarde, Platão havia de tecer-lhe na República, em nome de um auto-domínio que o logos socrático o levara a prezar como marca de superioridade, um dos passos mais impressionantes do poema. No canto seguinte, o herói afirmará que nem a morte de Peleu, seu pai, nem a do filho lhe custariam mais. Era precisamente com Pátroclo que ele contava para levar o jovem Neoptólemo como herdeiro para os domínios da Ftia, quando ele mesmo, Aquiles, perecesse em terra alheia, a lutar contra os Troianos, por causa da horrível Helena. E, contudo, Aquiles amava o seu pai». In Maria Helena Rocha Pereira, Amizade, Amor e Eros na Ilíada, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Amizade. Amor e Eros na Ilíada. Maria Helena Pereira. «Primeiro que tudo houve o Caos, e depois a Terra de peito ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe, e Eros, o mais belo entre os deuses imortais, [...] domina o espírito e a vontade esclarecida»

Cortesia de wikipedia

«Uma vez que, desde início, todos aprenderam por Homero, como ensinou Xenófanes, vamos, nós também, a essa fonte, e até poremos de parte tudo o que lhe é posterior, ainda que este tudo abranja algumas daquelas obras das quais se tem dito, e com razão, que educaram a Europa. Refiro-me, em especial, à Ética a Nicómaco, em que Aristóteles dedica a totalidade dos Livros VIII e IX a definir a amizade e a classificar as suas formas. Mas também aos diálogos em que o seu Mestre tentara definir a amizade e o amor (Lísis, Banquete, Fedro, se é esta, como geralmente se pensa, a sua ordem de composição). Com maioria de razão, deixaremos de lado as abordagens semióticas ou sociológicas modernas e as polémicas havidas entre pensadores contemporâneos. Mais difícil vai ser abstrair da distinção entre amor e amizade, e sobretudo pôr completamente de parte a terminologia a que os helenistas estão habituados: efectivamente, […] não faz parte do vocabulário homérico, embora ele já comportasse abstractos formados com o sufixo […] a partir de um adjectivo, como […] para encontrar o futuro equivalente de amizade, teremos de avançar até Teógnis de Mégara; é com um outro derivado de […], o substantivo abstracto […], formado com o sufixo […], muito corrente em qualquer época da língua grega, que teremos de contar para abranger dois tipos de afectos dissemelhantes: o amor e a amizade (e note-se de passagem que é ainda de […] que Empédocles há-de falar, ao referir o princípio que une os quatro elementos). É o contexto, pois, e não a terminologia usada, que nos permite recuperar os nossos conceitos. Assim, Ájax, ao proferir o seu breve e incisivo discurso, no termo da embaixada a Aquiles, acusa-o de não se deixar demover pela amizade dos companheiros.
Por outro lado, as relações sexuais, e torne-se desde já claro que, nos Poemas Homéricos, elas são sempre heterossexuais, têm uma fórmula própria, em que figura a mesma palavra. E eros?, é ainda e só um substantivo abstracto, frequentemente associado a desejo. Mais tarde, quando for deificado, será considerado, naturalmente, filho de Afrodite. E assim, […], juntamente com persuasão, e por vezes outras personificações ainda, farão parte do grupo que acompanha a deusa do Amor. A primeira ocorrência de Eros como divindade surge no começo da Teogonia de Hesíodo:

Primeiro que tudo houve o Caos, e depois
a Terra de peito ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe,
e Eros, o mais belo entre os deuses imortais,
que amolece os membros e, no peito de todos os homens e deuses
domina o espírito e a vontade esclarecida.

A sequência do texto enumera depois a geração de Caos e de Terra, sem mais referir Eros, o que tem levado os comentadores a supor que ele é uma força geradora. Sem nos preocuparmos em saber se a Teogonia é anterior à Ilíada ou não, como hoje vários pretendem, voltemos ao eros homérico. Ele não é ainda uma divindade, mas uma pulsão capaz de dominar por completo o espírito. Um exemplo típico é o desta fala de Paris:
é que jamais eros me envolveu o espírito desta maneira

A situação é a mesma, quando transposta para o plano divino no episódio do Dolo de Zeus, no momento em que o deus supremo avista Hera:

assim que a viu, logo eros lhe envolveu o espirito prudente

Mas também pode ser, muito simplesmente, o desejo ou apetite de algo que, normalmente, uma vez satisfeito, conduz à saciedade. É assim que Menelau acusa os Troianos de não se saciarem da guerra, quando para tudo há um limite do sono, do amor, do doce canto e da ínclita dança. Assim também que figura na fórmula que tantas vezes assinala o terminar de um banquete:

depois que se saciaram de beber e de comer

Esta breve exemplificação terá demonstrado que a conceptualização dos afectos, tal como a dos factores que regem o comportamento humano, é extremamente imprecisa e flutuante em Homero. O que não significa que eles não só existam, como determinem as formas de actuação das figuras. Vejamos primeiro o caso mais evidente, a personagem de Aquiles, o representante máximo da […] da Ilíada, e, portanto, a incarnação dos mais altos ideais. Ele tem a consciência de ser o primeiro entre todos os guerreiros, pelo que lhe cabem as honras correspondentes […], que se traduz no presente de honra com que o recompensam. Numa cultura de vergonha, como Dodds mostrou ser a da Ilíada, aplicando-lhe com grande êxito essa terminologia vinda da antropologia cultural, o segundo termo corresponde à materialização do primeiro, pelo que a sua anulação se torna uma afronta intolerável». In Maria Helena Rocha Pereira, Amizade, Amor e Eros na Ilíada, Revista Humanitas, volume XLV, 1993, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

domingo, 16 de novembro de 2014

Ao Encontro de Espinosa. António Damásio. «Quanto mais complexa a reacção, mais a aprendizagem assume este papel. Reacções como o chorar e o soluçar estão prontas à data do nascimento, mas as razões por que choramos ou soluçamos através da vida variam com a nossa experiência»

Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções.. Nos Ramos Médios
«(…) Comportamentos normalmente associados à noção de prazer (e recompensa) ou dor (e punição). Estes comportamentos incluem reacções de aproximação e retraimento do organismo em relação a um objecto ou situação específicos. Nos seres humanos, que não apenas sentem mas podem também relatar aquilo que sentem, estas reacções são descritas como dolorosas ou aprazíveis, como recompensadoras ou punitivas. Por exemplo, quando os tecidos celulares do corpo estão à beira de sofrer uma lesão, o que acontece no caso de uma queimadura ou de uma infecção, as células da região afectada emitem sinais químicos chamados nociceptivos (a palavra nociceptivo significa indicador de dor). Como resposta e esses sinais, o organismo reage automaticamente com comportamentos de dor e comportamentos de doença. Estes comportamentos são colecções de acções, por vezes subtis, por vezes óbvias, com as quais a natureza tenta restabelecer o equilíbrio biológico de forma automática. Da lista dessas acções faz parte o retraimento do corpo (ou de uma parte do corpo), relação à origem do problema, a protecção da parte do corpo afectada e expressões faciais de alarme e sofrimento. Estas acções são acompanhadas de diversas respostas, invisíveis a olho nu, organizadas pelo sistema imunitário. De entre essas respostas consta o aumento de certas classes de glóbulos brancos, o envio desses glóbulos brancos para as áreas do corpo ameaçadas e a produção de moléculas tais como as citoquinas, que ajudam tanto na luta contra a causa do ataque (o micróbio invasor) como no restauro de um tecido lesionado. É o conjunto destas acções e dos sinais químicos relacionados com a sua produção que resulta na experiência a que chamam a dor.
Da mesma forma que o cérebro reage a um problema que se declara no corpo, também reage quando o corpo funciona bem. Quando o corpo funciona sem dificuldade e quando a transformação e a utilização de energia se desenrolam com à-vontade, o corpo comporta-se com um estado definido. A aproximação em relação a outros é facilitada. Nota-se uma descontracção e abertura do corpo, bem como expressões que traduzem confiança e bem-estar; por outro lado, libertam-se certas classes de moléculas, tais como as endorfinas. O conjunto destas reacções e dos sinais químicos com elas associados resultam na experiência do prazer. A dor ou o prazer têm causas diversas, problemas da função corporal, funcionamento ideal do metabolismo ou acontecimentos exteriores que ameaçam o organismo ou promovem a sua protecção. Mas a experiência da dor ou do prazer não é a causa dos comportamentos de dor ou de prazer, e não é sequer necessária para que esses comportamentos ocorram.
Seres extremamente simples exibem comportamentos emotivos embora a probabilidade de sentirem esses comportamentos seja pequena. Certas pulsões e motivações. Os exemplos principais incluem a fome, a sede, a curiosidade e os comportamentos exploratórios, os comportamentos lúdicos e os comportamentos sexuais. Espinosa colocou todas estas reacções sob a excelente designação de apetites e, com grande refinamento, usou uma outra palavra, desejo, para a situação em que o indivíduo consciente toma conhecimento de um apetite. A palavra apetite designa o estado comportamental de um organismo afectado por uma pulsão; a palavra desejo refere-se ao sentimento consciente de um apetite e ao eventual consumar ou frustrar de um apetite. Esta distinção espinosiana é equivalente à distinção entre emoção e sentimento. É claro que os seres humanos têm tanto apetites como desejos ligados, de forma subtil, às emoções e os sentimentos.

Próximo do Cume
As emoções-propriamente-ditas. É aqui que encontramos as jóias da regulação automática da vida: as emoções no sentido estrito do termo, desde a alegria à mágoa, desde o medo ao orgulho, desde a vergonha à simpatia. E na parte mais alta da árvore, na ponta dos seus diversos ramos, vamos encontrar os sentimentos. O genoma garante que todos estes dispositivos estão activos à data do nascimento, ou pouco depois, com pouca ou nenhuma dependência da aprendizagem, embora a aprendizagem venha a desempenhar um papel importante na determinação das ocasiões em que estes dispositivos virão a ser usados. Quanto mais complexa a reacção, mais a aprendizagem assume este papel. Reacções como o chorar e o soluçar estão prontas à data do nascimento, mas as razões por que choramos ou soluçamos através da vida variam com a nossa experiência. Todas estas reacções são automáticas e, em geral, estereotipadas, embora a aprendizagem possa modelar a execução de certos padrões esterotípicos. O riso ou o choro são executados de forma diferente em circunstâncias diferentes, tal como as notas que constituem a partitura de uma sonata podem ser tocadas de forma diferente. Seja como for, todas estas reacções têm como fim, de forma directa ou indirecta, regular a vida e promover a sobrevida. Os comportamentos de prazer e de dor, as pulsões e as motivações, e as emoções-propriamente ditas, são por vezes designadas pela mesma palavra, emoções no sentido lato do termo, o que é aceitável e razoável dado que todas estas reacções têm uma parecença formal e têm precisamente a mesma finalidade». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 23 de março de 2014

Leituras. Ao Encontro de Espinosa. António Damásio. «A palavra homeostasia descreve este conjunto de processos de regulação e, ao mesmo tempo, o resultante estado de vida bem regulada. No curso da evolução biológica, o equipamento inato e automático do governo da vida tornou-se muito sofisticado»

Níveis da regulação homeostática automática
Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções
As Emoções Precedem os Sentimentos
«(…) O que me lembra James Joyce, quando diz em Ulisses: Shakespeare é a coutada feliz de todos os espíritos que perderam o seu equilíbrio. Chegados aqui, é altura de perguntar: porque é que as emoções precedem os sentimentos? A minha resposta é simples: temos emoções primeiro e sentimentos depois porque, na evolução biológica, as emoções vieram primeiro e os sentimentos depois. As emoções foram construídas a partir de reacções simples que promovem a sobrevida de um organismo e que foram facilmente adoptadas pela evolução. Tem-se a impressão de que os deuses deram grande esperteza natural às criaturas que queriam salvar. Com efeito, muito antes dos seres vivos terem uma inteligência criadora e ainda antes de terem cérebros propriamente ditos, é como se a natureza tivesse decidido que a vida era, ao mesmo tempo, extremamente precária e extremamente preciosa. É claro que sabemos que a natureza não funciona de acordo com os planos de nenhum arquitecto e não decide como os artistas ou engenheiros decidem, mas talvez a metáfora nos ajude. Todos os organismos vivos, desde a humilde amiba até ao ser humano, nascem com dispositivos que solucionam automaticamente, sem qualquer raciocínio prévio, os problemas básicos da vida. Esses problemas são os seguintes:
  • encontrar fontes de energia;
  • incorporar e transformar energia;
  • manter, no interior do organismo, um equilíbrio químico comparável com a vida; 
  • substituir os sub-componentes que envelhecem e morrem de forma a manter a estrutura do organismo;
  • defender o organismo de processos de doença e de lesão física.
A palavra homeostasia descreve este conjunto de processos de regulação e, ao mesmo tempo, o resultante estado de vida bem regulada. No curso da evolução biológica, o equipamento inato e automático do governo da vida, a máquina homeostática, tornou-se muito sofisticado. Na base da organização da homeostasia encontramos respostas simples, tais como a de aproximação (approach) ou de retraimento (withdrawal) de um organismo inteiro ern relação a um determinado objecto; ou a de excitação ou quiescência. Nos níveis mais altos da organização encontramos respostas competitivas ou de cooperatividade. Podemos imaginar a máquina da homeostasia como uma árvore bem alta e larga em que os variados ramos são os fenómenos automáticos da regulação da vida. Em organismos multicelulares, caminhando do chão para o topo, eis o que devemos encontrar neste árvore.

Nos Ramos Mais Baixos
O processo de metabolismo. Este processo inclui componentes químicos e mecânicos (por exemplo, secreções endócrinas/hormonais; contracções musculares relacionadas com a digestão) que mantêm o equilíbrio químico interior. Estas reacções governam o ritmo cardíaco e a pressão arterial, dos quais depende a distribuição apropriada do fluxo sanguíneo no corpo; os ajustamentos da acidez e da alcalinidade do meio interior (os fluidos que circulam no sangue e nos espaços entre as células); e o armazenamento e distribuição de proteínas, lípidos e hidratos de carbono, necessários para abastecer o organismo de energia, que, por sua vez, é necessária para o movimento, para a manufactura de enzimas e para o manter e renovar da estrutura do organismo.

Os reflexos básicos. Incluem o reflexo de startle (reflexo de alarme ou susto) que os organismos exibem quando reagem a um ruído inesperado, e os tropismos ou taxes, que levam os organismos a escolher a luz e não o escuro, ou a evitar o frio e o calor extremos.

O sistema imunitário. É um sistema que defende o organismo de vírus, de bactérias, de parasitas e de moléculas tóxicas que o podem invadir do exterior. Curiosamente, o sistema imunitário também está preparado para manejar moléculas que normalmente residem em células saudáveis do organismo e que se podem tornar tóxicas quando as células doentes ou mortas as libertam no meio interior (por exemplo, o ácido glutâmico e o ácido hianorónico). Em suma, o sistema imunitário constitui uma primeira linha de defesa dos organismos vertebrados quando a sua integridade é ameaçada, quer do exterior quer do interior».

In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

Ao Encontro de Espinosa. Leituras. António Damásio. «… o que Ricardo devia ter dito, com as devidas desculpas para Shakespeare, é o seguinte: Ó, como esta forma exterior de lamentos lança uma sombra intolerável de pesar sobre o silêncio da minha alma torturada»

Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções
Shakespeare já o tinha dito
«(…) Na parte final de Ricardo II, coma coroa já perdida e a prisão cada vez mais perto, Ricardo explica a Bolingbroke a distinção entre emoção e sentimento. Ricardo pede que lhe tragam um espelho e confronta no seu rosto o espectáculo do declínio. Declara então que a forma exterior de lamentos que o seu rosto exprime nada mais é do que as sombras do pesar que ninguém vê, um pesar que se avoluma em silêncio na alma torturada. O seu pesar, diz ele, é inteiramente interior. Em apenas quatro versos, Shakespeare anuncia que o processo unificado e aparentemente singular dos afectos, a que geralmente nos referimos indiscriminadamente como emoções ou sentimentos, pode ser analisado em partes. A elucidação dos sentimentos requer esta distinção. É verdade que o uso habitual da palavra emoção tende a incluir a noção de sentimento. Mas, na tentativa de compreender a cadeia complexa de acontecimentos que começa na emoção e termina no sentimento, separar a parte do processo que se torna pública da parte do processo que sempre se mantém privada ajuda a clarificar as ideias. À parte pública do processo chamo emoção e à parte privada sentimento. Peço ao leitor que me acompanhe nesta escolha de palavras e conceitos, porque esta escolha nos vai permitir descobrir qualquer coisa de novo na biologia que respeita a esses fenómenos. No contexto deste livro, as emoções são acções ou movimentos, muitos deles públicos, que ocorrem no rosto, na voz ou em comportamentos específicos. Alguns comportamentos da emoção não são perceptíveis a olho nu mas podem tornar-se visíveis com sondas científicas modernas, tais como a determinação de níveis hormonais sanguíneos ou de padrões de ondas electrofisiológicas. Os sentimentos, pelo contrário, são necessariamente invisíveis para o público, tal como é o caso com todas as outras imagens mentais, escondidas de quem quer que seja excepto do seu devido proprietário, a propriedade mais privada do organismo em cujo cérebro ocorrem.
As emoções desenrolam-se no teatro do corpo. Os sentimentos desenrolam-se no teatro da mente. Tal como veremos, as emoções e as várias reacções que as constituem fazem parte dos mecanismos básicos da regulação da vida. Os sentimentos também contribuem para a regulação da vida mas a um nível mais alto. As emoções e as reacções com elas relacionadas parecem preceder os sentimentos na história da vida e constituir o alicerce dos sentimentos. Os sentimentos, por outro lado, constituem o pano de fundo da mente. As emoções e os sentimentos estão tão intimamente relacionados ao longo de um processo contínuo que tendemos a vê-los, compreensivelmente, como uma entidade simples. No entanto, é possível entrever sectores diferentes nesse processo contínuo e, com a ajuda do microscópio da neurociência cognitiva, é possível e legítimo dissociar esses sectores. Com a ajuda dos métodos científicos modernos, um observador pode examinar objectivamente os comportamentos que perfazem uma emoção e, desse modo, estudar o prelúdio dos processos do sentimento. Transformar emoção e sentimento em objectos separados de pesquisa, ajuda-nos a descobrir como se sente.

As Emoções Precedem os Sentimentos
Ao discutir a precedência da emoção sobre o sentimento, devo começar por chamar a atenção para qualquer coisa que Shakespeare deixou ambígua nos seus versos para Ricardo. A ambiguidade tem a ver com a palavra sombra e com a possibilidade de que o sentimento pudesse surgir antes da respectiva emoção, uma possibilidade que de facto não se verifica. Os lamentos exteriores são uma sombra do pesar invisível, diz Ricardo, uma espécie de reflexo, no espelho, do objecto principal, o sentimento de pesar, tal como o rosto de Ricardo, no espelho, reflecte Ricardo, o objecto principal da peça. Esta ambiguidade é fácil de compreender.
Gostamos de acreditar que aquilo que está escondido é a origem daquilo que exprimimos, e claro que acreditamos que, no que diz respeito à mente, o sentimento é aquilo que conta. Eis a substância, diz Ricardo quando fala do seu pesar oculto, e concordamos com ele. Mas principal não significa que veio primeiro e, ainda menos, causativo. A grande importância dos sentimentos não deixa entrever facilmente a forma como eles surgem, e pode levar à falsa ideia de que os sentimentos ocorrem primeiro e, subsequentemente, se exprimem em emoções. Este ponto de vista é incorrecto e é uma das causas do atraso no estudo neurobiológico dos sentimentos. Na realidade, são os sentimentos que constituem sombras das manifestações emocionais. Com efeito, o que Ricardo devia ter dito, com as devidas desculpas para Shakespeare, é o seguinte: Ó, como esta forma exterior de lamentos lança uma sombra intolerável de pesar sobre o silêncio da minha alma torturada». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

Ao Encontro de Espinosa. Leituras. António Damásio. «Ambos passaram a maior parte das suas vidas no paraíso holandês, um deles por direito de nascimento, o outro por escolha deliberada, Descartes tinha decidido no princípio da sua carreira que as suas ideias entrariam em provável conflito com a igreja Católica…»

jdact

«(…) A igreja considerou o livro um ataque à religião organizada e ao poder político. Depois disso Espinosa deixou de publicar. Os seus últimos escritos ainda estavam na gaveta da secretária no dia da sua morte, mas Van der Spijk tinha instruções precisas: a secretária foi colocada numa barca com rumo a Amsterdão, onde foi entregue ao verdadeiro editor de Espinosa, John Rieuwertz. A colecção dos manuscritos póstumos, a Ética, constantemente revista, a Gramática Hebraica, o segundo e incompleto Tratado Político, o Ensaio para a Melhoria da Compreensão, e a Correspondência, foi publicada nesse mesmo ano de 1677 sob as inicias BdeS. Devemos recordar esta situação sempre que pensamos nas províncias holandesas como um paraíso de tolerância intelectual. Eram, de facto, um paraíso, mas a tolerância tinha limites.
Durante a maior parte da vida de Espinosa, a Holanda foi uma república, e durante a sua vida adulta a política holandesa foi dominada por Jan de Witt no seu papel de Grande Pensionário. De Witt era ambicioso e autocrático, mas era um espírito esclarecido. Não se sabe ao certo se Witt e Espinosa se conheceram pessoalmente, mas sem dúvida Witt conhecia o trabalho do filósofo, e é provável que tenha contido, mais do que uma vez, a fúria dos políticos calvinistas mais conservadores na altura em que o Tractatus começou a causar escândalo. É sabido que Witt possuía o Tractatus desde 1670, e pensa-se que se aconselhou com Espinosa. Seja como for, não há qualquer dúvida de que Witt manifestou interesse pelo pensamento político de Espinosa e tinha considerável simpatia pelas suas opiniões religiosas. Espinosa tinha boas razões para se sentir protegido pela presença de Witt.
Esta relativa segurança de Espinosa terminou abruptamente em 1672 durante uma das horas mais negras da história da Holanda. Num episódio inesperado que define uma era politicamente volátil, Witt e o seu irmão foram assassinados por uma turba, em consequência da suspeita infundada de que eram traidores da causa holandesa na guerra com a França que então se desenrolava. Os atacantes espancaram e esfaquearam os irmãos Witt e arrastaram-nos até aos cadafalsos da cidade, onde ambos chegaram já morros. Os corpos foram despidos, pendurados como num talho, esquartejados, e os fragmentos vendidos como recordações ou comidos no meio de um regozijo doentio. Tudo isto se passou perto do sítio onde estou neste momento, praticamente ao virar da esquina da casa de Espinosa. O episódio chocou a Europa intelectual do tempo. Leibniz declarou-se horrorizado, tal como o eternamente calmo Huygens na segurança da sua vida parisiense. Mas para Espinosa o acontecimento foi devastador. O revelar da natureza humana no seu mais selvagem e vergonhoso abalou a equanimidade que Espinosa mantinha com enorme disciplina. Espinosa preparou um dístico com as palavras ultimi barbororum (o cúmulo da barbaridade), e dispunha-se a ir colocá-lo junto do que restava dos irmãos Witt. Felizmente que a sensatez de Van der Spijk levou a melhor. Van der Spijk fechou a porta da casa à chave e assim evitou que Espinosa enfrentasse uma morte certa. Espinosa chorou em público, pela única vez, ao que parece. O porto de abrigo intelectual, mesmo que imperfeito, tinha desaparecido.
Olho para o túmulo de Espinosa, uma vez mais, e recordo-me da inscrição que Descartes preparou para o seu próprio túmulo: aquele que se escondeu bem, viveu bem. Apenas 27 anos separam a morte de Descartes e de Espinosa (Descartes morreu em 1650). Ambos passaram a maior parte das suas vidas no paraíso holandês, um deles por direito de nascimento, o outro por escolha deliberada, Descartes tinha decidido no princípio da sua carreira que as suas ideias entrariam em provável conflito com a igreja Católica e com a monarquia francesa, e partira discretamente para a Holanda. Ambos tinham tido que esconder e fingir, e, no caso de Descartes, talvez distorcer as suas próprias ideias. Ambos actuaram com sensatez e por razões óbvias. Em 1633, um ano depois do nascimento de Espinosa, Galileu foi interrogado pela inquisição romana e preso na sua própria casa. Nesse mesmo ano, Descartes suspendeu a publicação do seu Tratado do Homem, e, mesmo assim, teve de responder a ataques ferozes às suas opiniões. Em 1642, contradizendo o seu pensamento inicial, Descartes postulava uma alma imortal separada de um corpo perecível, talvez como uma tentativa desesperada de evitar novos ataques. Se foi essa a sua intenção a estratégia funcionou, embora não propriamente durante a sua vida. Mais tarde, dando novas provas de prudência, trocou a Holanda pela Suécia, para onde foi ensinar a irreverente rainha Cristina. Descartes morreu no meio do seu primeiro Inverno em Estocolmo, aos 54 anos. Devemos estar gratos por viver numa época bem mais tolerante, mas, mesmo assim, continua a recomendar-se prudência». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Poetisas Portuguesas. Antologia contendo dados acerca de cento e seis poetisas. Nuno Catarino Cardoso. «Desejando prestar a minha homenagem a tantas ‘Senhoras Portuguesas’ que, de meados do século findo, até hoje, se têm notabilizado como poetisas, abro três justas excepções, tratando da marquesa de Alorna, da viscondessa de Balsemão e de D. Francisca Possolo da Costa…»



Cortesia de libraryuniversityoftoronto

«É deste modo que, aos dezassete anos de idade, Publia Hortencia de Castro, que não pertencia à falange nobre dirigida pela Infanta D. Maria, tendo cursado filosofia, humanidades e teologia, defende teses em Évora, em 1563. A sua erudição era tal, que Filippe II, que assistiu a uma prova publica em que Publia Hortencia de Castro sustentou das mais difíceis teses teológicas, lhe concedeu uma pensão vitalícia. Não nos deverão, todavia, admirar em extremo estes factos, se atendermos a que Joanna Vaz, filha do licenciado João Vaz e uma das três damas da Infanta D. Maria, escrevia em árabe, hebraico, grego e latim, ao papa Paulo III.
No século seguinte, apesar da decadência que já se nota na Literatura Portuguesa, ainda se distinguem, entre outras, soror Violante do Ceu, auctora das ‘Rimas Várias’ e do ‘Parnaso dos Divinos e Humanos versos’; soror Mariana, autora dessas admiráveis cartas dirigidas ao cavaleiro de Chamilly; e a condessa de Ericeira, D. Joanna de Menezes, muito versada em castelhano, latim, italiano e francês e que escreveu catorze volumes em que tratou assuntos vários.
Desejando prestar a minha homenagem a tantas ‘Senhoras Portuguesas’ que, de meados do século findo, até hoje, se têm notabilizado como poetisas, abro três justas excepções, tratando da marquesa de Alorna, da viscondessa de Balsemão e de D. Francisca Possolo da Costa, que viveram num período anterior à data marcada para início deste trabalho, ou que simplesmente têm versejado com felicidade, e que tão nobremente têm sabido continuar as gloriosas tradições literárias de suas antecessoras, resolvi consagrar às ‘poetisas portuguesas’ o primeiro volume desta Antologia, na qual, portugueses, brasileiros e estrangeiros encontrarão inúmeras jóias dispersas do nosso vasto tesouro poético.
Da inteligência, saber e mérito de cada uma das ‘Musas’ de que se ocupa este livro, mais do que eu possa dizer, falam as suas composições poéticas, nas quais, a cada passo, encontramos sentimento, graça, lirismo e beleza que nos seduz e encanta.
Como poderiam deixar de ser notáveis as ‘senhoras’ que nasceram na Pátria que se honra de contar no número de seus filhos insignes:
  • Garrett, Herculano, Castilho, João de Deus, Antero do Quental, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Fialho d'Almeida, Júlio Dinis, Gonçalves Crespo, Thomaz Ribeiro, Bulhão Pato, conde de Monsaraz, Fernando Caldeira, João da Câmara, Sousa Monteiro, João de Lemos, Faustino Xavier de Novaes, Xavier Cordeiro, Soares de Passos, Gomes de Amorim, […] Mendes Leal, Pinheiro Chagas, Latino Coelho, Oliveira Martins, Silva Pinto, Sousa Viterbo, Consiglieri Pedroso, Inocêncio F. da Silva, Aníbal Fernandes Thomaz, Rodrigues Sampaio, Teixeira de Vasconcelos, António Enes, Mariano de Carvalho, […] Teófilo Braga, Xavier da Cunha, Fernandes Costa, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Adolfo Coelho, Júlio Dantas, Eugénio de Castro, António Corrêa de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, Alberto Bramão, Augusto Gil, Júlio Brandão, Alfredo da Cunha, Marcelino Mesquita, Lopes de Mendonça, Alberto Pimentel, Carlos Malheiro Dias, João de Barros, etc, etc.
Muitas das poetisas de que trato, por demasiadamente conhecidos seus nomes e apreciadas suas obras literárias, não careciam de apresentação, se desse modo não desejasse reunir muitos elementos dispersos, duma matéria que entre nós tem sido pouco versada, e tornar mais útil e mais interessante esta obra que, pelas notas biográficas e bibliográficas que insiro, fornece os elementos necessários para se poder proceder a um balanço do movimento intelectual feminino em Portugal, a partir de meados do século XIX, até nossos dias, desígnio que, embora não completamente, penso ter realizado.
Se não fosse um tanto ou quanto rebelde a classificações e se uma vez estas estabelecidas, não trouxessem melindres (razão porque resolvi, para os evitar, seguir a ordem alfabética), dividiria as poetisas a que me refiro, em: ‘poetisas falecidas e poetisas vivas’.
Estas últimas, subdividi-las-ia em dois grupos. Como esta “Antologia”, pela sua própria natureza, não é um livro de critica literária, embora algumas das poetisas citadas tenham, é certo, mais merecimento que outras, abstenho-me de tais classificações que deixo ao critério. Concluindo estas explicações, resta-me apresentar a todas as ‘senhoras’ e Pessoas a quem tive a honra de entrevistar e a todas as damas e cavalheiros que tiveram a amabilidade de me prestarem esclarecimentos, a expressão mais sincera do meu grande e profundo reconhecimento pela forma cativante com que umas e outros se dignaram anuir aos meus pedidos.
Às senhoras D. Mecia Mouzinho de Albuquerque, D. Zulmira Franco d’Almeida Teixeira, D. Maria Jacinta Bastos, D. Ester Amália da Cunha Belém, D. Maria Figueiredo Feio Rebelo Castelo Branco, D. Lia de Magalhães Colaço, D. Branca da Silveira Silva, D. Alda Guerreiro Machado, D. Emília Adelaide Moniz Maia, D. Maria O’Neill, D. Rosalinda Celeste Figueiredo Santos, e D. Rosa Varela que quiseram enriquecer esta “Antologia”, cedendo-me valiosos inéditos, aqui deixo expresso o preito da minha maior gratidão (Lisboa, em Junho de 1917)». In Nuno Catarino Cardoso, Poetisas Portuguesas, Prefácio, Antologia contendo dados de 106 poetisas, Livraria Scientífica, Lisboa, 1917, Library University of Toronto, 1969.

Cortesia de Livraria Scientífica/Paulo Cardoso/JDACT