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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «Ali estava o seu grande demónio, à sua espera. O demónio da sua mãe, perseguindo-o em cada decisão da sua vida. Vai-te embora, Luís Bernardo. Vai»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

31 de Março de 1738

«(…) Luís Bernardo viera à minha procura, entre o torneio de flechas e o jogo de alcanzías,talvez por ordem de sua mãe, que me vira desaparecer sem dar explicações. Nunca a minha pr6púa mãe me mandara seguir por ninguém, mas a minha futura sogra achava-se absurdamente nesse direito.

Estou entediada, Luís Bernardo. E se fôssemos dar um passeio? Agora? Mas os festejos vão a meio. Voltaríamos antes do final. Não queres estar comigo... a sós? O meu olhar era libidinoso e a minha boca suficientemente insinuante para ele perceber a que me referia, mas Luís Bernardo herdara da mãe uma moralidade estranguladora que me irritava profundamente. Tudo lhe cheirava a pecado, e fugia receoso de tudo o que pudesse ser interessante ou divertido, como se a liberdade de viver fosse um gigantesco demónio à sua espera, em cada esquina.

Mas já estamos sozinhos, Teresa. Onde querias tu ir a esta hora? Tens noção da confusão de gente que está lâ fora? Só carruagens ouvi falar em quase quatro mil. E outras tantas embarcações no Tejo. Fora os milhares e milhares de pessoas a quem foi vedada a entrada, e que devem estar a entupir todas as saídas.

Exausta de o ouvir complicar o que podia ser tão simples, calei-o com um beijo nos lábios, ainda com uma ténue esperança de que isso viesse a fazê-lo desejar o resto. O que estás a fazer?, interrompeu-me. O que tu queres tanto como eu. Puxei-o pelo casaco de veludo para uma alçada escura onde haviam sido guardadas umas sacas de erva, talvez para dali seguirem para os animais esfomeados. O cheiro a erva fresca era intenso mas revitalizador. E essa era uma cama fofa para os nossos corpos se apoiarem, se preciso fosse. Teresa, nós não podemos.

Esferas ocas de barro pintado, que

Os atacados defendiam-se com escudos e

Se atiravam à cara uns dos outros.

As bolas desfaziam-se com o choque.

Podemos sim. Podemos tudo o que quisermos. Fecha os olhos e sente-me. Fechei-lhe os olhos suavemente com a mão direita, enquanto a esquerda lhe descia pelo ventre, para lhe fazer subir o desejo.

Teresa... Casaremos em breve, Luís Bernardo. Seremos um só, hoje... e depois para sempre. Olha a minha mãe... Soltei a minha boca da dele, com asco. Como era possível que ele se atrevesse a falar na sua mãe, quando me tinha ali, pronta para me entregar a ele como nunca me entregara a ninguém? Como ousava sequer pensar nela?

Foi a minha mãe que me mandou vir ver se estavas bem. Se eu demorar virá atrás de mim. Vai apanhar-nos. Ali estava o seu grande demónio, à sua espera. O demónio da sua mãe, perseguindo-o em cada decisão da sua vida. Vai-te embora, Luís Bernardo. Vai.

Entendes que não podemos fazê-lo? Não aqui. Não hoje. Mas eu quero-o muito. Quero-o tanto como tu. Tu sabes disso. Vai, Luís Bernardo, por favor. Não vá a tua mãe descobrir--nos... Então vem comigo. Dizemos que te sentiste indisposta. Não, espera... indisposta, não. senão ela ainda pode pensar que estás grávida. E não podes estar grávida se nós não... ainda não... Vai, Luís Bernardo. Agora! Por favor!, disse, agastada. Obedientemente. ele foi. Foi em busca da mãe. Foi em busca da decência e cio recato. Foi em busca do que era suposto ser correcto, só porque alguém se lembrou de dizer que sim. E eu deixei-me cair nas sacas de erva fofa, cujo cheiro jâ não me parecia agora revitalizador, mas nauseabundo, porque também o cheiro nos cheira àquilo que sentimos». In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

JDACT, Sara Rodi, Conhecimentos, Escrita, O Saber,

quarta-feira, 2 de março de 2016

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «Mas como pode alguém que se diz seguidor dos princípios cristãos, da humildade e do amor pelo próximo ser tão ávido de poder e de riqueza, passando por cima de quem for para o obter?»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

31 de Março de 1738
«(…) Vários outros nobres desfilavam os seus brasões, na arena, mas o dos Távora era inevitavelmente um dos que mais chamava a atenção, pelo poder perdurado e alargado no tempo, que tantas invejas lançava já nessa altura. Os Távora uniam-se através de laços matrimoniais com os duques de Aveiro e de Cadaval, os marqueses de Alorna e os condes de Atouguia, Ribeira Grande e Vila Nova. Títulos e poder era tudo quanto deixava sequiosa dona Leonor Távora, e eu, porque nada disso me aliciava superiormente, era um empecilho no seu caminho. Seria um dia minha a responsabilidade de educar os meus filhos, netos dela, para que eles fossem grandes militares ou funcionários da casa real. Seria minha a responsabilidade de os casar convenientemente, fortificando com novos títulos e património o marquesado, que dona Leonor ainda tinha esperança de transformar em ducado, enquanto vivesse. Mas eu não era como ela. Não tinha qualquer das suas aspirações. Não adormecia e acordava a pensar em poder e glória. Se algo me roubava o sono, de noite e de dia, era só a vontade de prazer, fonte de bem-estar que uns chamavam efémero, mas que tinha tanto de efémero como o bem-estar provocado pelo poder e glória, que podia igualmente acabar de um momento para o outro, como a História viria a prová-lo.
À apresentação dos Guias seguiram-se as escaramuças entre cavaleiros, que me aborreciam. Dissera a Pelágia que perderia a virgindade nesse dia, um pouco à toa, como quem diz outra coisa qualquer que decida, mas agora convencera-me de que só isso me roubaria àquele tédio que sentia. É certo que umas festas em honra de uma princesa eram sempre preferíveis aos rotineiros dias da corte, e por esses dias as festas até abundavam, em quantidade e qualidade. João V era um rei de obra feita, toda ela magnânima, e nessa altura ainda mantinha suficiente imaginação para conceber festejos condignos, ao contrário do que viria a suceder mais tarde, a partir de 1742, quando o local mais animado da cidade passou a ser a Patriarcal de Lisboa, onde a nobreza ia exibir os fatos e os penteados aos domingos e dias santos. Fora estas missas cantadas, absolutamente entediantes, pouco mais passou a haver, porque João V começara a não ter saúde para muito mais, e proibiu mesmo tudo aquilo que pudesse vir a roubar a saúde moral, dos seus súbditos. A saúde do rei fora-se nas festas privadas no Convento de Odivelas, onde deixou três filhos bastardos [(eram três os Meninos de Palhavã, nome dado aos três filhos bastardos de João V: António de Portugal (1714-1800), filho de dona Luísa Inês Antónia Machado Monteiro, Gaspar (1716-1789, que viria a ser arcebispo de Braga, em 1758), filho de dona Madalena Máximo Miranda, e José de Portugal (1720-1801, também arcebispo de Braga e inquisidor-geral em 1758), filho de madre dona Paula Teresa Silva; acabaram os três exilados no Buçaco por altercações com Sebastião José Carvalho Melo. João V terá tido também outros filhos bastardos de damas da corte, mas só estes foram reconhecidos]. Dizia-se nessa altura mais devoto, dedicado à oração e ao jejum das carnes, mas sabia-se que o rei perdera, sim, a sua virilidade, à custa dos afrodisíacos que tomara para os grandes assaltos às meninas de Odivelas (esta é apenas uma hipótese para justificar o débil estado de saúde do rei, nos últimos anos da sua vida; diz-se também que ele seria epilético, e que o que aconteceu em 1742 foi um ataque mais forte que lhe roubou o vigor, descrito assim por uma testemunha: um estupor o privou dos sentidos e ficou teso de toda a parte esquerda, com a boca à banda; certo é que, a partir deste momento, se tornou um rei ainda mais devoto e defensor da moralidade do reino, proibindo os festejos mais pagãos, como touradas, bailes e óperas, que voltaram a registar-se, e em abundância, no reinado do seu filho José I). E que a santa hipocrisia lhe valha!
Nunca tive paciência para falsos pudores e moralidades hipócritas. E por isso odiava tanto a nobreza em geral, e a minha futura sogra em particular. Dela e de meu irmão Francisco não se conheciam aventuras extraconjugais nem indecências visíveis, é certo. Nessa matéria pareciam ter uma vida condizente com o que apregoavam. Mas como pode alguém que se diz seguidor dos princípios cristãos, da humildade e do amor pelo próximo ser tão ávido de poder e de riqueza, passando por cima de quem for para o obter? Era isso que me entediava nas festas faustosas de João V a falta de uma verdadeira coerência nas pessoas que as frequentavam. As palmas que se batiam numa tourada eram as mesmas que se faziam ouvir num auto de fé, onde uns tantos homens e mulheres eram atirados à fogueira por acreditarem em algo diferente (ou não acreditarem em coisa nenhuma). Os fatos com as suas rendas e brocados, eram os mesmos. Assim também os gestos e as gargalhadas. Era aquela a moral dos nossos dias, que me apetecia questionar todos os dias. Chocasse quem chocasse, porque nessa altura ainda não tinha consciência de que a ousadia tinha o seu preço, e podia ser um preço alto. Em que pensa, Teresa? Tenho-te visto tão ausente, durante os torneios...» In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «E os olhares do príncipe José, conhecido pelas suas aventuras amorosas, perturbavam a santa marquesa, cujo sexto sentido deixava já antever todas as desgraças que, daqueles olhares, poderiam advir»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

31 de Março de 1738
«(…) E este sermão enfadonho ouvia-o eu vezes e vezes sem conta, por estar prometida ao seu primogénito, mas sobretudo por ser bonita e de sangue quente. Santa Leonor não suportava ver-me entrar nos salões e roubar as atenções de todos os homens. Não suportava os meus vestidos desenhados para tornear as curvas sinuosas do meu corpo. Não suportava os meus decotes generosos e as jóias coloridas que colocava sobre a parte nua dos seios, como chamariz para o abismo. Não suportava que os homens de todas as idades tivessem convulsões internas ao ritmo das minhas risadas, que me balançavam as carnes. Não suportava os meus gestos dengosos e a minha boca aberta em sorrisos que transpiravam pecado. Toda eu era volúpia, da cabeça aos pés, desde que me conhecera. Como controlar então o que me era tão natural? E porquê? Porque o Deus de Santa Leonor lhe mandava dizer, através dos seus confessores jesuítas, que era errado? O meu Deus fizera-me assim. Dotada deste carisma natural e desta sensualidade incontrolável. Por isso teria agora de me ter no seu mundo com esta forma e este feitio, fossem quais fossem as consequências da sua criação. Hoje deixarei de ser virgem, Pelágia.
Pelágia olhou-me com a sua grande boca aberta, esquecendo a apresentação de armas que os granadeiros e sargentos-mores executavam, na arena. Era um espectáculo imperdível, mas a minha decisão ainda o era mais. Enlouqueceste, Teresa? Tens de casar primeiro. E se engravidas? É, da maneira que casarei mais depressa. Isso é uma provocação à tua futura sogra, não é? E o olhar de Pelágia lançou-se sobre dona Leonor, que estava noutra bancada aveludada, com as filhas Mariana, prometida ao conde de Atouguia, e Leonor, mais tarde marquesa de Alorna. Com elas ainda Maria Ana Leopoldina, casada com Manuel Sousa Calhariz, capitão das guardas alemãs, com quem dona Leonor trocava segredinhos discretos. Já percebeste que ela não tira os olhos de ti. Parece que está a adivinhar as tuas perversas intenções..., disse-me Pelágia, divertida com toda a situação, que animava mais o seu espírito do que um cortejo de fidalgos.
Mas não, a santa Leonor não tirava os olhos de mim por desvendar as minhas intenções. Ela não tirava os olhos de mim porque havia muitos outros olhos, para além dos dela e dos do filho dela, a fixarem-se nos meus. E um deles parecia-lhe o mais perigoso de todos. Era o do príncipe José, a quem todos cumprimentavam respeitosamente, depois do rei e da rainha. Era a sua esposa que fazia anos naquele dia, mas o príncipe fora atraído pelo meu riso, e agora não conseguia desviar as atenções de mim, como se eu o tivesse enfeitiçado. Os olhares furtivos só não eram evidentes para todos porque na arena o cortejo de cavaleiros desviava as atenções. Mas à marquesa de Távora, a santa pispineta e perspicaz, nada lhe escapava. Sobretudo nada que tivesse que ver comigo. E os olhares do príncipe José, conhecido pelas suas aventuras amorosas, perturbavam a santa marquesa, cujo sexto sentido deixava já antever todas as desgraças que, daqueles olhares, poderiam advir.
Os olhares só sossegaram quando entraram na arena os guias com os seus cavaleiros, num cortejo memorável destinado a homenagear a família real. O príncipe José centrou as atenções no meu irmão Francisco Assis, que liderava a terceira guia, e em todos os outros emplumados que exibiam os seus brasões a todos os presentes. Francisco era sem dúvida o homem mais bonito e elegante do cortejo, e lia-se nos seus olhos altivos o orgulho que sentia no brasão que lhe fora confiado, por via do casamento. Os Távoras eram uma das famílias mais antigas do país, cujas origens remontavam a um dos filhos de Ramiro II, rei de Leão. O casamento entre Álvaro Pires Távora, 2.º senhor do Mogadouro, com dona Inês Guerra, no século XIV, possibilitou que a família se dissesse descendente de Afonso Henriques, conquistando dessa forma mais poder, títulos e património para a sua casa, a que também não foram alheios, para que sejamos justos, os inúmeros serviços militares e administrativos prestados aos reis». In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «Estava assim, com poucos dias de vida, já prometida em casamento ao meu sobrinho Luís Bernardo Távora, que por sorte veio a revelar-se um jovem bonito e bem formado, com quem todas as fidalgas gostariam de casar»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

31 de Março de 1738
«(…) Nem todas podemos ter a tua sorte, Teresa. Ou achas que eu não gostaria de estar prometida a um jovem como o Luís Bernardo Távora? Agora, mais vale um velho conde na mão do que um jovem marquês a voar... O anfiteatro encheu-se de mais uma das minhas sonoras gargalhadas, que atraía sobretudo a atenção dos homens, não pela sua maior susceptibilidade ao som, mas porque o som, neste caso, provinha de uma das jovens mais bonitas da corte. Não tenho por que ser modesta. Herdara a beleza das Lorena, que haviam chegado a Portugal um século antes, por via do casamento. Minha mãe contava-me histórias da minha avó Margarida Armanda Lorena-Armagnac, filha de um estribeiro-mor do rei Luís XIV de França, que rumou a Portugal para ser terceira esposa de Nuno Álvares Pereira Melo, 1.º duque de Cadaval, que já no seu segundo casamento casara com uma Lorena, Maria Angélica Henriqueta Lorena, que morrera jovem.
Desses dois casamentos de meu avô nasceram 11 filhos, a maioria com Lorena no nome. Mas foi a irmã mais velha de minha mãe, Ana Lorena, quem primeiro cruzou o nosso sangue com o dos Távoras, casando com Luís Bernardo Álvares Távora, 5.º conde de S. João da Pesqueira. Desse casamento nasceu, entre outra descendência, Leonor Távora, minha sogra. Minha mãe, Joana Lorena, voltou a unir-se a um Távora, casando em 1699 com Bernardo António Néri Távora, 2.º conde de Alvor. Só deste casamento nasceram 15 filhos, todos eles orgulhosamente herdeiros das duas linhagens que lhes estavam nas origens. Longe ainda de adivinhar que, alguns anos depois, só o Lorena poderia dar-lhes alguma dignidade, porque o Távora, esse, se cobriria irreversivelmente de vergonha, à custa daquela jovem fidalga que, em 1738, centrava as atenções dos homens nas suas gargalhadas vigorosas. Eu própria, Teresa Távora Lorena.
O Luís Bernardo não tira os olhos de ti, dizia-me Pelágia, enquanto a tourada não tinha início. Não era já altura de casarem? O que é que vos impede? Não respondi para não alimentar boatos, nos quais Pelágia era perita. Mas o que nos impedia de casar tinha um único nome: Leonor Távora, mãe daquele que me estava prometido desde a nascença. A marquesa de Távora, como todos lhe chamavam, casara com o meu irmão mais velho, Francisco Assis, e fora mãe do seu primeiro filho varão em1723, 20 dias depois de minha mãe me dar à luz. Feliz por ser pai e avô com tão poucos dias de diferença, meu pai sugeriu, por graça, prometer-me em casamento ao seu neto, que era portanto meu sobrinho. O meu irmão Francisco e a minha cunhada Leonor não se opuseram e a ideia, que era só uma graça, tornou-se uma promessa, e valeu a todos a desgraça que mais tarde viria a suceder-se.
Estava assim, com poucos dias de vida, já prometida em casamento ao meu sobrinho Luís Bernardo Távora, que por sorte veio a revelar-se um jovem bonito e bem formado, com quem todas as fidalgas gostariam de casar. Estaria eu talvez satisfeita e entusiasmada com um pretendente tão perfeito, não fosse a minha cunhada, futura sogra, ser dona de uma arrogância insuportável, legitimada, segundo ela, por uma moral irrepreensível, à qual só faltava darem altar. Santa Leonor Távora, como lhe chamava entredentes, era a mais aborrecida das mulheres da corte. Também bonita e com ar distinto, achava no entanto que a beleza era uma grande responsabilidade, porque atentava à virtude. Uma mulher bonita devia ser ainda mais recatada e discreta, para evitar que as tentações do corpo se sobrepusessem às virtudes do espírito». In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «Estava a meses de completar 15 anos quando José, ainda príncipe, me cobiçou pela primeira vez. Estava sentada ao lado de dona Pelágia Almada, neta de princesa de Soubise, que se divertia a provocar o velho Luís Castelo Branco»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

«(…) O rei José I não responde e faz uma nova investida para me segurar o corpo onde deseja entrar. Mas retiro-lhe as mãos das minhas ancas e levo-as aos meus seios, a grande fonte de todos os enganos e ilusões. Não dará a vida por mim, pois não? Dou-lhe tudo o que quiser... Menos a vida! Pois veremos se os nossos esposos chifrudos não resolvem reescrever esta ópera e matar-vos antes a vós, meu rei. Já não estava a ouvir-me, porque o desejo cerrara-lhe também os ouvidos. Mas deveria. Porque o tempo não estava para cegueiras nem surdezes. Luís Bernardo, meu marido, não suportava a ideia de ver a sua mulher nos braços do rei, o único homem a quem ele não podia desafiar para um duelo em defesa da sua honra.
A apoiá-lo, toda a família dos Távora a desejar vingança de um rei que os destratava e de um ministro que não suportavam, de seu nome Sebastião José Carvalho e Melo. Do lado do rei, existia uma rainha que o amava, disposta a tudo para o ver cingir-se à sua cama. O que seria esse tudo, ninguém o sabia. Segundo José I, a rainha dona Mariana Vitória limitava-se a obrigar as damas da corte a trocarem os decotes pelas golas e abotoados alemães, mais decentes e muito menos aliciantes para o rei. As criadas que o serviam eram agora todas muito feias e de formas mal esculpidas. E dizia ainda o rei que dona Mariana se tornara uma amante despudorada, dentro das quatro paredes do quarto real, para não dar azo a que o seu rei procurasse a falta de pudor fora de portas. Mas isso não tenho a certeza de ser verdade. Talvez fosse apenas uma forma que o rei arranjara de me provocar e me tornar ainda mais despudorada do que essa outra que sustinha a coroa. O que no meu caso não era difícil, diga-se, porque não me exigia qualquer esforço, nem era motivado por nenhuma outra intenção que não fosse a obtenção de prazer. Volúpia genuína, portanto. A única verdadeiramente eficaz para levar um homem à loucura.
Arrancou a venda dos olhos, louco, porque precisava agora de todos os sentidos para dar azo à excitação. E levantou-me com os seus braços fortes para me encaixar na sua cintura. Não houve tempo de chegar à cama. A escrivaninha onde, anos antes, eu escrevia cartas ao meu esposo Luís Bernardo, a desejar-lhe sorte para as façanhas da guerra, embrulhadas em juras de amor fiel, nunca cumprido, era agora o palco de dois corpos despidos que se amavam como se o mundo fosse terminar naquele instante. Era aquela a nossa ópera: As escapadelas de Sua Majestade José I, que ainda julgávamos ser apenas de sedução e traição. Mas as óperas alimentam-se, igualmente, das tragédias. E a nossa estava prestes a começar. Quem morreria, ainda nenhum de nós sabia. Se algum de nós morrer, minha Popeia, será de prazer..., disse-me o rei José, com as carnes já satisfeitas e o desassossego já sossegado. Puro engano. Saborosa ilusão, que uma meia hora depois se esfumaria, sem remédio. Três tiros disparados contra a sege de José Teixeira, onde o rei viajava supostamente incógnito, de regresso ao palácio.
Foi a última vez que nos amámos, e eu fui Popeia, a amante do rei a quem ele chamava imperatriz. Daí em diante apenas marquesa-nova e Távora, e depois já nem isso, porque tudo conseguiram tirar-me. O nome, o título, o palácio e a liberdade. Deixaram-me apenas com a culpa de todos os males que viriam a manchar Portugal de sangue, nos meses que se seguiriam... Mas lá chegaremos, ao futuro, que nada é sem o passado que o alicerçou. Vinte anos antes, José I ainda era príncipe, mas eu já era mulher e capaz de o seduzir. Vinte anos antes, éramos já uma semente da árvore que viria a ensombrar os nossos destinos. Vinte anos antes, foi assim que tudo começou...

31 de Março de 1738
Estava a meses de completar 15 anos quando José, ainda príncipe, me cobiçou pela primeira vez. Estava sentada ao lado de dona Pelágia Almada, neta de princesa de Soubise, que se divertia a provocar o velho Luís Castelo Branco. Já à beira dos 60 anos, era agora 4.º conde de Pombeiro pela morte do irmão mais velho, que não deixara descendência. O conde Luiz fora cónego do patriarca, sem qualquer vocação para o cargo, dizia-se, porque os seus olhos sempre se haviam arregalado para as jovens fidalgas que lhe sorriam na igreja, entre uma ave-maria e um pai-nosso. Assim que se apanhou detentor do título que lhe escapara por ter nascido segundo filho, pediu dispensa para casar, com esperança de que a idade ainda lhe permitisse uma prole legítima. E dona Pelágia, 35 anos mais nova do que ele, parecia-lhe a jovem perfeita, a sua fonte da juventude e aquela que daria futuro ao seu nome e ao seu título, o que viria a acontecer dois anos depois. Tem a barriga tão gorda, que duvido de que consiga ver os próprios pés..., segredava-lhe, entre risos, que chamavam a atenção dos nobres sentados no anfiteatro da Junqueira, onde se comemorava o aniversário de dona Mariana Vitória, esposa do príncipe José e futura rainha». In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «De mim recordarão que fui amante de José I de Portugal e dos Algarves. Mulher perigosamente bela, de uma volúpia cegante para os homens…»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

«Teresa Távora Lorena. Assim me conhecem. Assim me fizeram. Mulher que a História não esquecerá, quando ao patíbulo do juízo dos leitores e estudiosos chamarem todos aqueles que mudaram o curso dos acontecimentos de um povo, pelas piores razões, nos mais tortuosos meandros. De mim recordarão que fui amante de Sua Majestade José I de Portugal e dos Algarves. Mulher perigosamente bela, de uma volúpia cegante para os homens. Lembrar-se-ão de que traí o meu marido Luís Bernardo Távora enquanto ele auxiliava o seu pai nas mais diversas façanhas na Índia. Contarão as vezes em que me viram trocar olhares em público com o rei, mesmo na presença da rainha. Adivinharão as vezes em que me deitei com ele em leitos suados, gargalhando argentinamente às desgraças alheias. Alvitrarão ligações perigosas com Sebastião José Carvalho Melo, que hoje é também conde de Oeiras e marquês de Pombal por minha causa. Deitarão sortes às minhas intenções. E condenar-me-ão indefinidas vezes, sem perdão possível, pela morte de todos aqueles que, no dia 13 de Janeiro de1759, foram torturados e mortos, acusados de atentarem contra a vida do rei, no famoso Processo dos Távoras, o mais facínora de todo o século XVIII. Nesse dia vi morrer o meu marido, o meu irmão e sogro, sogra, cunhado, sobrinhos. Vi serem presos familiares e amigos, homens, mulheres e crianças. Perdi também eu a minha liberdade, presa ao nome Távora, que nesse dia foi arrancado da toponímia e dos brasões que distinguiam a minha casa. Nesse dia deixei de ser marquesa. Deixei de ser esposa. Deixei também de ser amante. Só não deixei de ser mulher.
Por isso, a todos quantos me vierem a julgar, digo e assumo que não fui santa. Não fui casta. Não pratiquei grandes obras. Não fui mãe. Tão-pouco fui uma esposa fiel. Mas fui mulher. Na verdadeira acepção da palavra. Porque fui bela. Porque fui sensual. Porque manipulei. Porque traí. Porque joguei. Mas não me condenem sem ouvirem a minha verdade. Talvez Deus se tenha já arrependido de ter criado Eva e sujeitado o homem ao pecado original. Ou talvez nós, mulheres, sejamos aquilo que O diverte, enquanto faz tremer a terra e agita o mar para nos ver correr como baratas tontas em busca de salvação. Por isso aceito, sim, que a História me condene, mesmo depois de lerem porque fui como fui e fiz o que fiz. Aceito que falem de mim com asco e continuem a desejar que eu nunca tivesse existido. Mas Deus, que assim me fez, com esta minha natureza capaz de levar os homens a amar e a matar com a mesma facilidade, que me condene apenas se for capaz de condenar aquilo que um dia se atreveu a criar...

3 de Setembro de 1758
Popeia onde estás, minha Popeia? Perseguia-me pelo quarto completamente nu, com a fita negra que habitualmente me segurava os cabelos a cegar-lhe as vistas. Com os pés apoiados na cama, sentada na cabeceira esculpida em França, observava-o em toda a sua ridicularidade. Como me tornara amante de um rei que se entregava aos fetiches mais absurdos que lhe propunha, não o sabia ao certo. Como não sabia também porque lhe sugeria tamanhos disparates, como andar nu e vendado a fingir ser Nero, e eu Popeia, a amante do imperador que se tornou imperatriz, história imortalizada na ópera de Monteverdi. Ou talvez o soubesse, em parte. A vida ensinara-me, aos poucos e da pior maneira, que a ilusão pode ser maior quando se tenta viver a realidade. Fugir dela, por raros momentos que fosse, era para mim, naquele momento, a única forma de me manter verdadeira. Vai fazer de mim sua imperatriz? Diga-me que sim, e encontrar-me-á... José seguiu a minha voz até à cama onde o observava, mas chegou tarde de mais, porque eu já havia fugido num salto para a suave chaise longue. Eu faço de si o que quiser, Popeia. Só tem de se entregar nos meus braços. Aproximei-me dele também de corpo nu, definitivamente mais elegante nas formas e nos movimentos, ainda que igualmente ridícula na absurda fantasia. A sua mulher Otávia e o meu marido Otão unir-se-ão, para nos destruir, disse-lhe, rindo.
Mas se o nosso amor é indestrutível... Eu sou imperador e vou fazer de si imperatriz. Quem se atrever a atravessar-se no meu caminho, morrerá às minhas mãos. Sois cobarde de mais para isso, meu imperador. Quereis apostar que não? Sentindo o calor do meu corpo a roçar o seu, tentou segurar-me as ancas despidas, mas retirei-lhe uma e outra mão, atrasando a inevitável consumação do desejo que o desassossegava. Queria-o desassossegado um pouco mais, até aos limites do insuportável. Era assim que se prendia um homem, fosse ele um criado, um rei ou um imperador, todos feitos da mesmíssima matéria da cintura para baixo. Planeiam matar-me, e vós sabeis. O que fareis vós, meu imperador, se eu morrer? Eu não a vou deixar morrer. Matarei quem for preciso, já lhe disse. E morrer por mim? Seria capaz?» In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT