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segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Templário Negro. Roberto Genovesi. «Leofric atirou com o capacete para o pó do chão. Estava sozinho. Longe dos companheiros. Mas, sobretudo, longe da batalha que estava prestes a começar»

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Manescalia. Terra Santa. 3 de Julho, anno Domini 1187
«(…) Mais ainda, pensou Leofric, persignando-se apressadamente. Acompanhou pelo canto do olho o pequeno cortejo que continuava pela estrada fora e, quando viu a escolta da Vera Cruz muito longe, tentou levantar-se, esperando do fundo do coração que aqueles cavaleiros já houvessem esquecido o seu rosto. Como se chama?, perguntou uma voz em tom perentório. O soldado que pouco antes o admoestara estava agora ali. Agora já não volta para trás, respondeu Leofric ao levantar-se. O sargento observava-o do alto da sela, quase de pé sobre os estribos. A sobreveste negra cruzada de vermelho. O rosto violáceo do cansaço, do sol, da tensão. Não estou a falar do cavalo, estúpido. Refiro-me ao teu senhor. Leofric olhou em volta. A sua cavalgadura era agora um ponto cinzento em movimento pela estrada de Manescalia. Wigstan de Clontarf. Sir Wigstan, precisou, soprando a areia para fora do capacete. Um irlandês, imagino. Outro qualquer, acrescentou o graduado, desconhecendo que dizia uma meia-verdade, ter-te-ia deixado a descascar batatas. Deslocou o peso do escudo que levava a tiracolo para equilibrar os movimentos do cavalo. E posso saber, se não for demasiado incómodo, onde se encontra agora o teu cavaleiro?
Leofric tentou compor-se, arranjando o cinto de que pendia a bainha de uma espada curta de ferro que desaparecera sabe-se lá onde quando fora arrancado dos estribos. Não sei, senhor, respondeu, sincero, empurrando o elmo sobre a cabeça. O sargento esquadrinhou-o como se se encontrasse diante de um leproso. Rapaz, se quiseres continuar a servir como escudeiro de um monge do Templo, terás de aprender a manter-te colado ao teu senhor como um chato ao cu de um porco. Estamos entendidos? Sim, senhor. Obrigado pelo conselho, senhor. O sargento tentou dizer alguma coisa. Depois deteve-se. Desatou a rir de repente.
Obrigado pelo conse1ho..., repetiu, abanando a cabeça, divertido. O único conselho que te posso dar é ires para junto de sir Wigstan o mais depressa possível. De certeza que já deve ter chegado ao acampamento. Depois esticou um braço. Imagino que o jovem corcel que vi fugir para o lado contrário do inimigo que nos preparamos para combater seja um dos teus, disse, sarcástico. Depois olhou em volta como se tivesse perdido a armadura. Mas não vejo o outro (os cavaleiros templários tinham três cavalos ao seu serviço; um para o cavaleiro, outro para o seu escudeiro e outro ainda de reserva, normalmente utilizado para transportar aprovisionamentos, armaduras e cobertores). Ficou magoado esta manhã, pouco antes de nos pormos a caminho. Deixámo-lo nas cozinhas.
O sargento refletiu por instantes. Tentou proferir alguma coisa quando um som abafado, semelhante a uma carga de trovões, invadiu o vale. Os últimos conrois dos templários e dos hospitalários passaram à sua frente, a grande velocidade. O sargento esporeou com fúria os flancos do animal, fazendo-o relinchar de dor. Os nossos tocadores não usam tambores. Depois afastou-se, deixando o escudeiro pasmado. Lamento, rapaz, mas terás de te desenrascar sozinho, gritou-lhe de longe, sem se voltar. Se por acaso me cruzar com o teu senhor, concluiu com uma gargalhada que se perdeu no vento, digo-lhe que as formigas não te mataram.
Leofric atirou com o capacete para o pó do chão. Estava sozinho. Longe dos companheiros. Mas, sobretudo, longe da batalha que estava prestes a começar. Talvez fosse verdade. O seu senhor teria feito melhor se o tivesse deixado a descascar batatas naquela maldita embarcação fedorenta. Porque queres tornar-te meu escudeiro? O cruzado deitara-lhe uma olhadela distraída, continuando a sentir as entranhas esgotadas pelos constantes acessos de vómito. A embarcação que transportava a enésima mão-cheia de cavaleiros para a Terra Santa partira de Génova pouco depois da alvorada do dia anterior. (…) A reacção imediata do cavaleiro fora um encolher de ombros. Não tendes um escudeiro, certo? O que te faz pensar isso?, respondera-lhe o outro entre dentes. Depois vomitara mais uma vez. Porque um escudeiro nunca deixaria o seu cavaleiro aqui a..., a... A vomitar como uma menina? É isso que estás a pensar, certo? Leofric não respondeu. (…) Para mim não existem outros cavaleiros além dos defensores do Templo de Salomão. O templário pesara demoradamente aquela resposta. És irlandês, certo? Só então Leofric se apercebera de que se tinha dirigido àquele homem sem pensar se seria capaz se compreender a sua língua. A sua pronúncia. O cruzado ostentara um sorriso embaraçado. Chamo-me Oswald Wigstan e fui ordenado poucas horas antes de pôr os pés nesta embarcação, rapaz. E, mesmo que tenhamos em comum a terra em que nascemos ainda não me parece poder ser um bom guia. Mas um cavaleiro não poder estar sem um escudeiro. Na verdade, nem sequer pensei nisso. Aconteceu tudo tão depressa... (…) Sou ajudante de cozinha, senhor. Consigo descascar cem batatas antes do virar de uma clepsidra. O cavaleiro templário tossira. Leofric pensara que estaria a tentar reprimir o enésimo acesso de náusea, mas estava a procurar conter uma gargalhada. Assim sendo, a vossa resposta é não, certo, senhor? Leofric baixara a cabeça. Depois voltara-se enquanto a gargalhada do cavaleiro se perdia no rumar das ondas contra a quilha. Espera, rapaz. Talvez um cavaleiro feito há um dia se possa contentar com um escudeiro descascador de batatas. E depois, em toda a minha vida, foste a primeira pessoa a chamar-me senhor». In Roberto Genovesi, O Templário Negro, 2013, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-338-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

O Templário Negro. Roberto Genovesi. «Algures à sua volta, o capacete parara de rolar. Quando voltou a tê-lo entre as mãos, selou a descoberta com outra blasfémia picaresca»

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Manescalia. Terra Santa. 3 de Julho, anno Domini 1187
«(…) São Patrício era um grande safado. Leofric maldisse o dia em que decidira tomar conta daquele potro. Mas fê-lo entre duas blasfémias sussurradas a meio-tom. Certamente, assemelhava-se um pouco ao escudeiro de um cavaleiro templário em posição de quatro patas, como um cão, com o pó a queimar-lhe a garganta e a terra a impedi-lo de abrir as pálpebras, mas São Patrício reparara nele desde o dia em que, para o ferrar, lhe espetara por engano aquele prego na cartilagem acima do casco. Tinha a certeza de que antecipava o gozo daquele momento há muito. Percebia-o pelos relinchos de satisfação que ouvia, cada vez mais afastados, enquanto o animal fugia a trote. Vai-te embora. Vai para casa ruminar aveia. É o que sabes fazer melhor!, gritou-lhe, enquanto o animal se afastava. És apenas uma pileca!
Algures à sua volta, o capacete parara de rolar. Quando voltou a tê-lo entre as mãos, selou a descoberta com outra blasfémia picaresca, certo de que daquela vez a salvação da sua alma também não estaria em perigo. O segredo era precisamente aquele. Explicara-lho o padre que o acompanhara desde o dia do baptismo até ao momento em que envergara o primeiro elmo de combate. Se quiseres tornar-te um bom cavaleiro, tens de ter a alma pura, mas, e o padre Sean também o reconhecia, nestes tempos é difícil manter as promessas. Sobretudo se o interlocutor é o Altíssimo. Mas se deres ao teu cavalo o nome de um santo, de um mártir ou de um apóstolo, nos momentos de confronto nunca te arriscarás a oferecer a alma a Satanás. Um magro consolo, tendo em conta tudo o que acontecera num segundo, e o seu senhor, que o precedia com o primeiro conroi da expedição, prosseguira sem se aperceber de nada. Agora era preciso dar tudo por tudo para recuperar o terreno perdido, nem que fosse preciso desestribar outro escudeiro. Tinha de chegar ao acampamento com os outros cavaleiros para que todos pudessem ver Leofric, o pitta, o filho do moleiro, desfilar, orgulhoso, à sombra do estandarte do Templo. Um estandarte que, seguramente, num dia não muito longínquo, seguraria com as suas próprias mãos.
Imaginara o momento em que, de madrugada, deixara para trás as torres de Manescalia. À cabeça do exército cristão, vira nada mais nada menos que Raimundo de Trípoli com os seus cinco mil soldados de infantaria e trezentos cavaleiros. Atrás de si, reconhecera as milícias citadinas e a cavalaria de Guido de Lusignan e de Henrique II de Inglaterra. Seguidos em silêncio por um grupo diminuto de cavaleiros leprosos da Ordem de São Lázaro. Ao Templo e aos seus monges cabia a honra de fechar a formação com duzentos sargentos e cento e cinquenta cavaleiros. Um deles era o seu senhor, e Leofric, na amálgama de carroças, catapultas e animais de carga, avançava montado no seu jovem corcel como se viajasse sustido por centenas de braços invisíveis, saboreando antecipadamente o momento em que enfrentaria a sua primeira e verdadeira batalha, aos ombros de heróis que na Europa eram considerados os baluartes do cristianismo na Terra Santa. Ele, um simples escudeiro arrancado à despensa de uma embarcação de carga de um jovem guerreiro em viagem a caminho da glória, que apenas no dia anterior fora ordenado cavaleiro. Um acaso? O destino? A vontade de Deus? Leofric não fora capaz de responder. Mas mesmo então, com o rosto empastado em suor e pó, diante de um pôr do Sol vermelho como a cruz que os cavaleiros traziam ao peito, a única coisa que desejava era chegar montado, nem que fosse numa mula, ao local definido pelo destino para a contenda.
Ajoelha-te! Um cavalo passou-lhe à frente, a trote, lançando-lhe mais pó à cara. O soldado que o montava lançou-lhe uma olhadela de soslaio. Leofric levantou a cabeça de repente. Reconheceu de imediato as insígnias dos bispos de Acre e de Lida, rodeados por uma dezena de cavaleiros armados até aos dentes. Entre os escudos fechados em protecção dos dois prelados surgiu um elmo em forma de mitra, sobre o qual se destacava em relevo uma grande cruz de bronze. O bispo de Acre sustinha um longo bastão que terminava com um estandarte que representava o rosto de Cristo. O sinal de que a Vera Cruz, o madeiro em que fora crucificado o filho de Deus, viajava com ele. E, de facto, precisamente atrás do seu cavalo, num grande baldaquim erguido sobre quatro rodas cheias, carregava, de forma lenta e orgulhosa, uma gigantesca cruz plantada com uma coroa de polé sobre um pedestal de ferro. A madeira escura destacava-se dos profundos sulcos produzidos pela luz do Sol e do movimento sobre a superfície de ouro com que fora banhada. No cruzamento dos braços estava encastoado um relicário dourado, incrustado com pérolas e pedras preciosas e protegido por uma grade. A santa relíquia repousava naquele precário guarda-jóias». In Roberto Genovesi, O Templário Negro, 2013, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-338-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O Templário Negro Roberto Genovesi. «O seu nome de guerra estava desenhado em letras de fio de ouro. Dentro em pouco estará escuro»

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Colinas de Nimrim. Palestina. 25.º dia do Rabi al-Thani no ano 583 da Hégira
«(…) O pai explicara-lhe uma vez que a cor do mar não era mais do que o reflexo da do céu e que, se por magia o Sol se apagasse inesperadamente, as águas dos oceanos ficariam completamente negras como o firmamento. Mas o pai nunca lhe dissera que a terra também podia ficar da cor do céu. Por isso, Hani olhava o horizonte, estupefacto e emudecido, enquanto as lufadas de vento quente agitavam as crinas dos cavalos enfileirados na colina que dominava o caminho para Tiberíades.
Os últimos reflexos da luz do Sol que se punha atrás das muralhas de Lubia haviam-se espalhado como um gigantesco tapete cor de púrpura sobre o vale, lá em baixo. As armaduras e os elmos dos homens que ali confluíam lentamente, vindos de Manescalia, recebiam a luz avermelhada e voltavam a projectá-la para cima. Pareciam milhares de estrelas de um firmamento reflectido. Mas o espectáculo que a formação muçulmana apresentava não era inferior. À direita da longa fileira de que fazia parte, Hani conseguia avistar a mancha branca das túnicas da infantaria de apoio de Jarwajaraya, que formava destacamento com as milícias Ahdath, reunidas em todas as aldeias mais importantes da Síria. Um pouco adiante, as túnicas azuis da Rajjalah, a infantaria da cidade de Aleppo. Apesar da distância, conseguia ouvir as gargalhadas dos homens das últimas fileiras, a quem invejava a lendária frieza em batalha. Hani sentia-se entusiasmado e, ao mesmo tempo, assustado, porque daquela multidão de estandartes, armaduras, armas e cavalos deduzira que a batalha em que participaria não seria como tantas outras.
Isto sendo verdade, como alguém murmurava, que Salah ad-Din conseguira massacrar no vale mais de dez mil guerreiros, incluindo os artilheiros do Califado de Bagdade e os sapadores de Khurasan. De vez em quando, Hani levantava-se na sela, na esperança de o ver. Mesmo que, no fundo do coração, soubesse que o comandante não perderia tempo a passar em revista uma sarya de voluntários mamelucos. Não, o seu lugar era certamente à frente dos melhores soldados, daqueles que abririam as hostilidades ao nascer do Sol do dia seguinte.
Um destacamento de reconhecimento a cavalo apareceu de forma inesperada no caminho que subia a colina a sul. Os seus uniformes cor de areia levaram por alguns instantes a confusão à ordenada formação da cavalaria mameluca. Um amir na sela de um poderoso corcel negro foi ao seu encontro, detendo-se mesmo à frente de Hani. Os cristãos estão a acampar ali para passarem a noite, disse um dos batedores depois de ter levado a mão aos lábios e à testa, mas ainda não chegaram todos. Dois contingentes estão a caminho. Ainda longe. Uma trança de cabelos cor de sépia ondulava-lhe pela nuca como uma serpente que procurasse sair do elmo. O oficial muçulmano voltou-se de repente para olhar para baixo. A maré de formigas brilhantes estava a fechar-se. Não vejo o seu estandarte.
Sim, respondeu o batedor apontando para um lugar indistinto em direcção ao pôr do Sol, os soldados com a cruz ficaram na rectaguarda. Contámos três centenas. Metade a cavalo. Mas o acampamento irá acabar por receber hoje à noite não menos de cinquenta mil guerreiros, acrescentou um dos companheiros. O chefe cuspiu para o chão. Guerreiros?, perguntou, irritado. São apenas mercenários e aves de rapina a soldo de governantes decadentes. Pasto para abutres. Lançou um último olhar para os inimigos, ao longe. Os verdadeiros guerreiros são os que combatem por uma fé. Ergueu uma mão mostrando com orgulho o tiraz que prendia a manga da túnica como uma braçadeira, quase à altura do ombro. O seu nome de guerra estava desenhado em letras de fio de ouro. Dentro em pouco estará escuro. Preparemo-nos para cantar a glória de Alá.
Os batedores desaparecem na rectaguarda, e o oficial fez o cavalo virar-se. Por um instante, o seu olhar cruzou-se com o de Hani, que baixou imediatamente os olhos. Apesar de fixar os cascos da sua cavalgadura sem pestanejar, sentia que o amir continuava a observá-lo. Assim, a curiosidade fê-lo erguer novamente a cabeça. Que idade tens, rapazinho?, perguntou o oficial erguendo uma sobrancelha. O jovem mameluco tentou responder. Hesitou. Não me lembro, senhor. O oficial examinou-o demoradamente e depois irrompeu numa gargalhada. Resposta sábia. Aproximou-se de forma que os focinhos dos respectivos cavalos quase aflorassem. Ao menos lembras-te do teu nome? O meu nome é Hani, senhor. Como é possível escolher um nome como esse? O meu pai é um fiel servidor de Alá, senhor, respondeu Hani, com seriedade». In Roberto Genovesi, O Templário Negro, 2013, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-338-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

O Templário Negro Roberto Genovesi. «Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam...»

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«O cavaleiro está exausto. Deixa-se deslizar ao longo da parede da passagem subterrânea. Está húmida. Fria. As irregularidades da pedra arranham-lhe as costas como garras afiadas. Mas a dor inesperada não é suficiente para mitigar as pontadas da ferida profunda que lhe despedaçou a armadura. A mão que procura travar o sangue reconhece os sulcos escavados na cota de malha. A marca de uma recordação que o faz estremecer. Um frémito incontrolável percorre-lhe os dedos ao longo dos tendões e volta a subir-lhe até ao pescoço como um lagarto assustado. Antes que os estremeções se acalmem, o braço volta a cair ao longo do corpo. Em intervalos cada vez mais distantes, envoltos num hálito branco, abrem caminho na escuridão que há muito engoliu a última chama esbatida do archote. E uma cantilena começa a bailar-lhe na cabeça. Apesar de tentar desesperadamente varrer as suas palavras.
Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam...
Semicerra os olhos para dominar um riso nervoso. Alguns ataques de tosse, que lhe fazem estremecer a garganta e que o elmo transforma em trovões aos seus ouvidos. Tenta levantá-lo com a mão que ainda agarra a espada, mas as forças não lhe querem assistir. Tenta fazer uma alavanca com o guarda-mão no escapulário. A lâmina cintila, agitando-se no escuro. Ergue-se, depois cai, raspa o terreno com a ponta desfeita e finalmente cai aos seus pés. O tilintar do aço confunde-se com um som que chega vindo de longe. Do outro lado do corredor subterrâneo. Aquele que deixou para trás, sulcando-o com um rasto vermelho. Lívido de luz. Entranhado do seu cheiro.
Propter misericordiam tuam et veritatem quam...
Ainda não os consegue ver, mas pressente-os. Dentro em pouco, tudo estará terminado. Assim, pede ao seu corpo um último esforço. À cabeça, um último movimento. Suficiente para enquadrar, através das fendas do elmo, a abertura do caminho escavado na rocha. Aperta os dentes e levanta as mãos. Sufoca subitamente um grito quando o elmo se afasta do pescoço com um estalar de ossos. O bacinete rola por terra, fazendo outro barulho, mas a lufada de ar fresco no rosto é a carícia de um anjo e faz-lhe esquecer o receio de que o tenham ouvido.
Ne dicant gentem ubi est deus eorum...
Aquilo que esperava não é aquilo que vê. Dois pequenos braços amarelos envolvidos numa espiral de pelo branco. Pequenos alfinetes luminescentes de início. Depois pérolas de água, grandes como pedras preciosas. O gato desloca-se, seguro, para parar mesmo em frente à parede de pedra. Observa demoradamente os traços cor de ébano do homem. Reconhece a sua familiaridade, apesar das trevas do subsolo. Consegue mesmo ver a brancura da túnica que o envolve. Relaxa os bigodes e encrespa a cauda. Em passo aveludado, roça-se pelas pregas do manto, camuflando-se na cor do tecido. O cavaleiro interrompe a respiração por um instante para avaliar a surpresa. Devia ter percebido que não eram eles. Eles não se mexem como nós. Eles não são como nós.
Deus autem noster in celo universa qui voluit fecit...
O sangue continua a escorrer. A vista começa a turvar-se. O gato volta a investigar, curioso, o vulto do homem ferido. Depois volta-se para emitir um miado. Também ele se apercebeu de que estão a chegar. Mas não acontece nada. Há tempo, portanto. Para aquela cantilena irritante, de continuar a dançar. Para as recordações, de aflorarem como instrumentos de tortura. Pelo medo da morte, de confabular com a sua sombra. O elmo rola para longe, a testa inclina-se muito lentamente para diante, enquanto as pálpebras se tornam pesadas. O olhar já turvo cai sobre a cruz que traz cosida no peito. Da mesma cor do sangue que abandona o seu corpo juntamente com a vida. Não há nada pior do que morrer a orar a um deus em que já não se acredita. Um deus para o qual tudo teve um princípio. Noutro tempo, noutra vida...» In Roberto Genovesi, O Templário Negro, 2013, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-338-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT