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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Jesus ou o Segredo Mortal dos Templários. Robert Ambelain. «Os prelados instrutores estavam encarregados de investigar se os Templários eram gnósticos, ou, o que era pior, maniqueus, dos que dividiam Cristo num Cristo superior e um Cristo inferior…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Sang de Toulouse

Data: 21 de Outubro de 1307

«Uma janela ogival, estreita e alta, apenas permite a entrada da luz do dia. Achamo-nos em uma ampla sala abobadada do velho Louvre de Felipe Augusto, que a fumaça das tochas murais obscurece ainda um pouco mais. Atrás de uma mesa de tosca madeira, uns homens vestidos com pesadas roupagens, com os rostos tensos e crispados pelo ódio, os legistas de Felipe IV, o Formoso, escutam a voz baixa e triste que se eleva de um vulto de roupas imundas e manchadas de sangue, desabado diante deles. Detrás, uns carcereiros revestidos de couro e malhas, com rosto impassível, curtido pelas campanhas. O homem que fala é um templário, chama-se Godofredo de Charnay, e foi comendador da Normandia. Hoje, depois de ter sido trabalhado duramente durante vários dias pelos verdugos do Palácio, conta as circunstâncias de sua admissão na Ordem do Templo, e toda sua juventude, apaixonada pelas façanhas guerreiras a cavalo e pelas carreiras marítimas sob o esplêndido sol mediterrâneo, acode agora a sua memória... Sem dúvida, e apesar do atroz sofrimento que lhe causam as suas pernas, que os verdugos foram lubrificando lentamente, durante horas, com azeite fervendo, negou tenazmente a sua homossexualidade, uma das primeiras acusações que lhe faziam. Sem dúvida afirmou que ignorava tudo que lhe dizia sobre a suposta adoração ritual de um gato preto, ou sobre uma misteriosa cabeça num relicário de prata. Mas quanto a renegar a divindade de Jesus, confessou, e mais, inclusive proporcionou detalhes: depois de me haver recebido e colocado o manto, trouxeram-me uma cruz em que havia uma imagem de Jesus Cristo. O irmão Amaury disse-me que não acreditasse naquele cuja imagem estava representada ali, já que era um falso profeta, não era Deus...

O comendador que impunha semelhante abjuração ao jovem Godofredo de Charnay, futuro comendador da Normandia, chamava-se Amaury de la Roche, e era o amigo e favorito de são Luis... Esta confissão de Godofredo de Charnay confirmava a de outro cavaleiro templário. A este outro, o comendador que acabava de proceder à sua recepção tinha assegurado, ao lhe ver retroceder horrorizado: não tema nada, filho. Este não é o Senhor, não é Deus, é um falso profeta... Muitas outras confissões parecidas completaram o expediente. Numa das obras mais completas que se consagraram a este processo, M. Lavocat resume as perguntas formuladas aos templários pelos inquisidores, tal como aparecem no próprio expediente: alguém se encontrava frente à conclusões de inculpação e de informação já estabelecidas (sistema muito cómodo), elaboradas por uns juristas versados na ciência das heresias infligidas à Igreja. Os prelados instrutores estavam encarregados de investigar se os Templários eram gnósticos, ou, o que era pior, maniqueus, dos que dividiam Cristo num Cristo superior e um Cristo inferior, terrestre, passivo, partidista, vivo e cativo na Matéria, cuja Organização ele constituía. Formariam parte daquelas antigas seitas chamadas libertinas dos gnósticos carpo-cratianos, nicolaístas e maniqueus? Teriam abraçado a religião de Mahoma (como pretendia a Chronique de Saint-Denys)? Ficava ainda um ponto por examinar, mas difícil de conciliar com os outros. Os irmãos do Templo consideravam Jesus como um falso profeta, como um criminoso de direito comum, que teria sido condenado e executado pelos seus crimes? Ao confirmar-se esta última hipótese, os Templários se teriam somado ao número dos assassinos de Jesus, a quem crucificavam pela segunda vez, como escrevera Felipe, o Formoso?

Nestas últimas perguntas, os inquisidores demonstravam estar perfeitamente informados. Cem anos antes, os interrogatórios aos perfeitos cátaros tinham-lhes revelado um segredo que sempre, até então, tinham ignorado, posto que era secreto da Igreja, unicamente conhecido por seus mais altos dignatários: a revelação do verdadeiro rosto de Jesus na História. Esse rosto tinha sido registado nos arquivos do Império romano. E depois de Constantino tinham-no expurgado. O judaísmo tinha-o conhecido, e na tormenta das perseguições que se abateram fazia mil e trezentos anos sobre os desafortunados judeus se conseguiu confiscar, destruir ou modificar os escritos comprometedores. Tinham-no conhecido os cátaros, e se tinha destruído esta heresia, assim como seus documentos manuscritos. Tinham-no revelado aos Templários. E agora do que se tratava era de destruir os cátaros. Aí estavam as confissões, formais, de numerosos irmãos da Ordem que sabiam... E esses beijos impúdicos que se davam, um entre os dois ombros, e o outro no vão dos rins, não estavam acaso destinados a atrair a atenção por volta de um dos segredos do Zohar, para um procedimento de acção que os cabalistas judeus denominam o mistério da Balança, que põe em acção Hochmah (a Sabedoria) e Binah (a Inteligência), os dois ombros do Antigo Dia, no mundo de Yesod (a Base dos seus rins)?» In Robert Ambelain, Jesus ou o Segredo Mortal dos Templários, 1970, Éditions Robert Laffont, Ediciones Martínez Roca, 1982, ISBN 842-700-727-2.

Cortesia de EMartinezRoca/JDACT

domingo, 31 de julho de 2016

Prior do Crato no 31. Portugal é uma Ilha. Alexandre Borges. «Empoleirada num pequeno muro de pedra, confundida com uma rainha no alto da muralha do seu castelo, Brianda Pereira balançou e gritou até ao fim do combate: “estamos por Dom António!”»

jdact

«(…) António não desistiria da luta e Filipe sabia disso. O novíssimo rei de Portugal chega a anunciar publicamente uma recompensa de 80 000 ducados de ouro a quem capturasse aquele agitador solitário, mas tinha ainda de se haver com outro rival: o já citado fantasma do rei que desaparecera, três anos antes, em Alcácer Quibir. Com o povo a suspirar por Sebastião, Filipe faria trasladar, de África para o Mosteiro dos Jerónimos aquele que era, alegadamente, o corpo de o Desejado, mas o esforço e o dinheiro despendidos de nada serviram e nada calaram. Nada garantia que aquele cadáver que até hoje jaz num faustoso túmulo de mármore não muito longe dos de Camões ou Vasco da Gama fosse, com efeito, o de Sebastião ou de outro infeliz qualquer, que nunca tivesse sido rei ou sequer português. Nenhum teste foi feito na época ou desde então. Nasciam o mito e o mistério do sebastianismo. Desprezá-los é não entender Portugal. Naqueles mesmos dias, aconteceria, aliás, um fenómeno curioso: o aparecimento de umas quantas figuras que reclamavam ser, nem mais nem menos, o próprio Sebastião. Alguns, consoante os dotes dramáticos, ainda conseguiram pôr umas multidões a acreditar neles. Quase todos acabaram presos. Um foi enforcado.
A guerra não terminara. Ainda não. Logo em 1581, António I, que tinha procurado apoio em França e Inglaterra, ia descobri-lo, afinal nos Açores. Ciprião Figueiredo Vasconcelos, corregedor na ilha Terceira, era um daqueles homens para quem Filipe não passava dum usurpador. Para Ciprião, o rei de Portugal, no exílio ou não, continuava a ser aquele que o povo aclamara em Santarém. No início do ano, a ilha de São Miguel tinha tomado partido, conforme declaração da Câmara Municipal de Ponta Delgada, pela causa de Filipe de Espanha. Em consequência disso, fora nomeado para governador-geral dos Açores Ambrósio Aguiar Coutinho, ao qual se seguiria Martim Afonso Melo e cuja principal tarefa seria demover Ciprião Figueiredo. Revelar-se-iam vãos, contudo, os esforços do governador: rapidamente Ciprião o obrigou a regressar a São
Miguel, fazendo-lhe notar que toda a ilha Terceira, e é provável que tenha sublinhado toda, estava por António I.
A 25 de Julho, entrando pela baía da Salga às primeiras horas da manhã, uma força de 1000 espanhóis comandada por Pêro Valdez viria determinada a fazer Ciprião e os seus terceirenses engolirem a ousadia, mas uma furiosa bateria de gado bovino mostrar-se-ia insensível perante os seus argumentos. Empoleirada num pequeno muro de pedra, confundida com uma rainha no alto da muralha do seu castelo, Brianda Pereira balançou e gritou até ao fim do combate: estamos por Dom António! Aqueles que o gado poupou não tiveram a mesma misericórdia da parte do exército de populares. O mar levou outros que se afogaram pesadamente, dentro das armaduras, na tentativa de fuga. Alguns, poucos, conseguiram alcançar os galeões e viver para regressar a Espanha e contar a história. Quando o silêncio se abateu sobre a Salga, a espuma do mar deixava um rasto encarnado nas rochas... Custava olhar aquele retrato sanguíneo do fim da batalha, mas a vitória fora completa. Sepultados os corpos caídos do vale à baía, o governador Ciprião marchou até Angra do Heroísmo, arrastando as bandeiras dos rivais. A cidade celebrou-o como a um herói antigo. Pêro Valdez faria chegar a Filipe o relato pormenorizado dos acontecimentos e a vingança viria mais cedo ou mais tarde, mas, por agora, era tempo de festejar orgulhosamente o crime de rebelião». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 30 de julho de 2016

Portugal é uma Ilha. Alexandre Borges. «A 19 de Junho, o povo aclama António rei de Portugal, no Castelo de Santarém. Lisboa e Setúbal seguir-lhe-ão, depois»

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«(…) A relação entre tio e sobrinho nunca deixará de se deteriorar, mesmo tendo em conta que, à frente dos problemas familiares, deveria ter sido colocado o superior interesse do reino. A 23 de Novembro de 1579, o rei-cardeal decide cortar o mal pela raiz: confisca os bens de António, expulsa-o do reino e retira-lhe a nacionalidade portuguesa. Mas era uma das últimas acções que faria em vida: a 31 de Janeiro seguinte, perdia o longo combate para a morte, deixando Portugal ainda sem o corpo de Sebastião I, sem lhe ter conseguido dar um sucessor natural e sem que tivesse a coragem de nomear um alternativo. Medos, especulações e fantasias delirantes tinham agora terreno livre para medrar. Enquanto os cinco membros da junta governativa não tomavam uma decisão quanto ao futuro do reino, apresentavam-se candidatos e faziam-se números de equilibrismo para justificar pretensas legitimidades genealógicas. Com o colapso da descendência de João III, era preciso recuar ao rei Manuel I para procurar uma via alternativa à linha natural da dinastia. Assim, encontrávamos quatro netos de o Venturoso: Catarina de Bragança, que tinha em seu desfavor ser a única mulher da lista, mas que era simultaneamente a única neta por varonia, já que era filha de um filho de Manuel, o infante Duarte; Manuel Felisberto, duque de Sabóia e filho de dona Beatriz; Filipe II, rei de Espanha e filho de dona Isabel; e António, prior do Crato, filho do infante Luís e, portanto, neto por via masculina, mas sobre quem pesava a dúvida de se poder tratar de um filho ilegítimo. Acima de todos eles, pairava ainda um fantasma: Sebastião I. Enquanto o cadáver não fosse encontrado, o rei vivia nos corações do povo, sarava as feridas e recuperava forças para surgir com um exército salvador, a qualquer momento, na linha do horizonte. Rapidamente, António e Filipe II de Espanha vão emergir como os candidatos mais fortes. As estratégias que seguem, no entanto, são opostas: o primeiro apela ao povo, o segundo, ao poder. António recupera o espírito da crise de 1383-85 (eu digo Revolução) quando, numa situação com alguns paralelos, o país se uniu em torno de um sentimento patriótico para aclamar rei João I, em detrimento de João de Castela. O povo adere à causa, apoia António e recusa entregar-se a mãos espanholas, mas do outro lado está boa parte da nobrezae do clero. Filipe II consegue seduzi-la para a ideia que já circulava de uma alegada União Ibérica, uma monarquia dual onde os reinos conservariam as respectivas soberanias, com a vantagem de assegurar a estabilidade financeira de que Portugal tão necessitado estava. O rei de Espanha beneficiava ainda de outro factor de peso: o medo de que a questão se arrastasse para um confronto militar no qual o exército português, desfeito em Alcácer Quibir, não teria qualquer hipótese. Contudo, pelo sim, pelo não, Filipe jogou ainda mais uma carta: o suborno das figuras mais influentes do reino, um argumento clássico, com provas dadas ao longo da História, um pouco por todo o mundo. Contudo, a facção patriótica não se renderia. A 19 de Junho, o povo aclama António rei de Portugal, no Castelo de Santarém. Lisboa e Setúbal seguir-lhe-ão, depois, o exemplo, um terrível atrevimento que teria a resposta de Filipe...
Poucas semanas volvidas, Fernando Alvarez Toledo Pimentel, duque de Alba, recebe do rei de Espanha a missão de tomar Portugal pela força. Fá-lo em duas frentes: por terra, com um exército numeroso e bem preparado, e por mar, com uma frota que descia ao longo da costa, desde o Norte de Espanha. Cascais, São Julião, Belém e Caparica rendem-se com facilidade; só os homens que António I conseguisse reunir lhe podiam fazer frente. Mas, com os apoios internos minados pelos subornos e ameaças de Filipe e os externos, pedidos a França e Inglaterra, a tardarem em chegar, António I não conseguiu mais do que uma pequena tropa, que aguardou o duque de Alba na margem esquerda da ribeira de Alcântara. A 25 de Agosto, a batalha foi rápida. Não terá durado mais do que meia hora, mas foi quanto bastou para semear alguns milhares de mortos dum lado e doutro da contenda. Ferido, António I consegue fugir. Estará refugiado em França quando as Cortes de Tomar, se reunirem, em Abril do ano seguinte, e aclamarem formalmente Filipe de Espanha como Filipe I, rei de Portugal». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Portugal é uma Ilha. Alexandre Borges. «António, acabado de regressar ao país, apresenta logo uma primeira candidatura ao trono, mas a pretensão é-lhe prontamente negada pelo regente: ‘o seu tio e inimigo de estimação, cardeal Henrique’»

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António, o seu Rei
«(…) Pêro Valdez fitou a mulher. Não estava certo de que ela continuasse a gritar ou se era apenas ele mesmo que a ouvia ainda na sua cabeça: estamos por dom António! O capitão olhou uma última vez aquele cenário de desolação, o que restava de 1000 homens bem preparados e armados fugindo como podiam para os barcos, carregando mortos e feridos, implorando clemência a um adversário que não conhecia convenções de guerra. Valdez desceu por fim do morro de onde contemplara o massacre e apressou-se também ele. Lançou-se ao mar e nadou furiosamente para o bote que o levaria de regresso ao galeão. Já a bordo, rosnou que se levantasse o ferro. Os que faltavam nadaram de modo ainda mais aflito. Agora, na calmaria absurda das águas, olhou a baía em panorâmica. Fixou um ponto negro que talvez fosse Brianda Pereira e amaldiçoou o nome que ela gritava e repetia, António. António.
António nasceu em 1531, em Lisboa. Era filho do infante Luís e, portanto, neto do rei Manuel I. Pelo lado masculino da família, não havia, pois, dúvidas acerca da realeza do sangue que lhe corria nas veias; a polémica que no futuro se levantaria em torno da sua pretensa legitimidade enquanto possível candidato ao trono prendia-se com a identidade da mãe. Violante Gomes tinha por alcunha a Pelicana e, se uns diziam que se tratava de uma mulher de famílias da pequena nobreza por quem o infante Luís se teria apaixonado e com a qual casara em segredo, outros defendiam que descendia, na verdade, de famílias judias e que era, portanto, uma cristã-nova. Era uma acusação grave, tendo em conta que ainda não tinham passado assim tantos anos desde que Manuel I expulsara do país os judeus e entregara as suas crianças ao cuidado de famílias cristãs. Essa dúvida e o preconceito que acarretava, somados ao facto de Luís ter sido prior da Ordem dos Hospitalários em Portugal, estando por isso impossibilitado de casar sem especial dispensa do papa, fizeram com que, durante muito tempo, António não fosse olhado como mais do que um mero bastardo. Com a família real bem distribuída por muitos filhos e filhas oficiais, nada levava a crer que, um dia, viesse a entrar nas cogitações para o lugar de rei.
António cresceu rodeado de figuras religiosas, desde logo o tio, cardeal Henrique, mas também frei Bartolomeu dos Mártires, seu mentor durante a formação em Coimbra, e os padres jesuítas que o instruíram depois em teologia, na cidade de Évora. Não estranhou, pois, que fosse ordenado diácono, professasse na Ordem de Malta e recebesse, tal como o pai, o priorado do Crato. Inesperado foi o que se passou depois: António recusa as ordens de presbítero e decide viver no século, ser mundano ou, como outros dirão, devasso. O comportamento poderá explicar, porventura, uma obra de 1592, intitulada Psalmi Confessionales, verdadeiro acto de contrição cuja autoria é atribuída a António. Por agora, o facto era este: tinha comprado uma guerra pela qual pagaria até ao fim dos seus dias: em 1565, é expulso do priorado pelo papa Pio IV e ganha a inimizade eterna do tio Henrique e de dona Catarina, a regente.
Com a reputação desfeita dentro de portas, encontra-se uma saída airosa para o neto de Manuel I: é nomeado governador de Tânger e, em breve, estava de partida para África, a fim de assumir as novas funções. E é justamente em África que se encontrará com o momento determinante da sua vida e da História do país... A 4 de Agosto de 1578, António de Portugal é um dos 16 000 soldados que sobrevivem ao horror de Alcácer Quibir. Um dos 16 000 que vêem morrer 9000 companheiros e desaparecer o rei Sebastião. Um dos 16 000 que caem em mãos inimigas e são lançados nos calabouços do sultão. A ascendência real e os cargos que tinha ocupado faziam dele um dos prisioneiros mais preciosos de todo o lote, mas, com astúcia e muita fortuna, António conseguiria convencer os captores precisamente do contrário. De que se tratava de um dos mais pobres e anónimos soldados portugueses, acabando por ser um dos primeiros a obter a libertação e a troco de um resgate bem mais pequeno do que pagariam os familiares de muitos companheiros. Como sabemos, o rei Sebastião tinha desaparecido sem deixar descendência. Aliás, tinha desaparecido levando consigo a dinastia de Avis, pois o pai havia já morrido, bem como o avô e todos os tios. Para encontrar o novo rei de Portugal era, pois, necessário que se saltasse para fora da ortodoxia e rezar para que tudo corresse bem. António, acabado de regressar ao país, apresenta logo uma primeira candidatura ao trono, mas a pretensão é-lhe prontamente negada pelo regente: o seu tio e inimigo de estimação, cardeal Henrique. O passado de António volta à liça: o seu comportamento errante, mas, sobretudo, a origem duvidosa, putativo filho de uma cristã-nova. O próprio cardeal assume o trono numa inacreditável fuga para a frente. O problema da sucessão continuava todo lá; tinha apenas sido adiado por alguns momentos». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Portugal é uma Ilha. Alexandre Borges. «Ali, de cima do muro, o corpo de Brianda balançava agora, como que imitando o embalo dos animais. Àquele insólito teatro de guerra chegava agora o improvável exército de populares»

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António, o seu Rei
«Os primeiros soldados espanhóis haviam desembarcado, há cerca de uma hora, na pequena baía da Salga, próxima de Porto Judeu. Começavam a subir a encosta, penetrando já nos pastos desertos, onde deviam aguardar a concentração de um total de 1000 militares, divididos em 10 batalhões. Foi quando vislumbraram a figura de uma mulher, uma mulher que acenava com os braços, em cima de um muro feito de pedra sobre pedra. Era uma silhueta roliça, onde começavam agora a distinguir umas feições avermelhadas, ancas largas, que gritava estoicamente todos os impropérios que conhecia, dedicando-os a todo o povo espanhol. Incansável, incessante, rematava depois e repetia, com firmeza: estamos por dom António! Estamos por dom António. Os militares acabados de desembarcar entreolharam-se e, depois, julgando-a louca, romperam numa gargalhada colectiva. Comentaram entre eles: a julgar por aquela amostra de sentinela local, a tomada da ilha seria ainda mais fácil do que tinham imaginado.
O que os espanhóis não viam era que, por detrás de Brianda Pereira, rente ao solo e encostados ao muro, fora do campo de visão dos soldados, estavam 32 terceirenses que preparavam a largada de uma manada de gado bravo sobre o invasor. Ao mesmo tempo, não longe dali, um pequeno exército formado por locais que nunca antes tinham pegado numa arma, marchava na direcção de Porto Judeu. Tratava-se de cumprir o juramento feito perante a cruz de Cristo, com a intercessão do padre Afonso Capela, pouco tempo antes, numa pequena igreja de Angra do Heroísmo. Prometeram, na ocasião, defender até à morte, dos espanhóis, a ilha Terceira. Como Brianda, gritaram que estavam por António, prior do Crato, e ao lado do gado bravo que os companheiros soltariam ao longo da baía da Salga.
Pouco tempo passado, do alto da elevação rochosa, já o capitão espanhol Pêro Valdez observava, atónito, pela primeira vez em muitos anos de intensos combates por mar e por terra, a investida do gado sobre os seus homens, apavorados. Uma mancha negra e ruidosa, levantando pó e medo por aquele descampado que terminava na rebentação das ondas. Por entre gritos de pânico e confusas tentativas de fuga, viu muitos dos seus soldados tombarem, desaparecerem entre dorsos e patas, demasiado assustados para ensaiarem qualquer ataque contra aquele exército de animais em fúria, que se lançavam contra eles sem hesitação, de corpo inteiro. Varrido o campo de batalha, os 32 homens escondidos atrás do muro saltavam agora e reuniam o gado. Aos olhos do invasor, à medida que o pó se abatia e o contorno de Brianda Pereira voltava a ser visível, como estátua negra no exacto lugar onde a haviam percebido a primeira vez, tornava-se agora evidente o erro de análise. Aquela mulher já não parecia louca, mas o general de uma tropa mitológica, um comandante com ligações especiais à natureza, líder de uma táctica de guerra baseada no mais eterno instinto de sobrevivência.
Ali, de cima do muro, o corpo de Brianda balançava agora, como que imitando o embalo dos animais. Àquele insólito teatro de guerra chegava agora o improvável exército de populares que partira de uma igreja de Angra, julgando-se abençoado pela graça divina e disposto a cumprir até ao fim a missão de que ele mesmo se havia incumbido, em honra do seu rei. Vinha dar o golpe de misericórdia. Ocupar-se daquelas sombras de soldados que o gado deixara por terra». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 16 de março de 2016

Portugal é uma Ilha. António o seu Rei. Alexandre Borges. «António, acabado de regressar ao país, apresenta logo uma primeira candidatura ao trono, mas a pretensão é-lhe prontamente negada pelo regente: ‘o seu tio e inimigo de estimação’, cardeal Henrique»

jdact

«(…) António nasceu em 1531, em Lisboa. Era filho do infante Luís e, portanto, neto do rei Manuel I. Pelo lado masculino da família, não havia, pois, dúvidas acerca da realeza do sangue que lhe corria nas veias; a polémica que no futuro se levantaria em torno da sua pretensa legitimidade enquanto possível candidato ao trono prendia-se com a identidade da mãe. Dona Violante Gomes tinha por alcunha a Pelicana e, se uns diziam que se tratava de uma mulher de famílias da pequena nobreza por quem o infante Luís se teria apaixonado e com a qual casara em segredo, outros defendiam que descendia, na verdade, de famílias judias e que era, portanto, uma cristã-nova. Era uma acusação grave, tendo em conta que ainda não tinham passado assim tantos anos desde que Manuel I expulsara do país os judeus e entregara as suas crianças ao cuidado de famílias cristãs. Essa dúvida e o preconceito que acarretava, somados ao facto do infante Luís ter sido prior da Ordem dos Hospitalários em Portugal, estando por isso impossibilitado de casar sem especial dispensa do papa, fizeram com que, durante muito tempo, António não fosse olhado como mais do que um mero bastardo. Com a família real bem distribuída por muitos filhos e filhas oficiais, nada levava a crer que, um dia, viesse a entrar nas cogitações para o lugar de rei.
António cresceu rodeado de figuras religiosas, desde logo o tio, cardeal Henrique, mas também frei Bartolomeu dos Mártires, seu mentor durante a formação em Coimbra, e os padres jesuítas que o instruíram depois em teologia, na cidade de Évora. Não estranhou, pois, que fosse ordenado diácono, professasse na Ordem de Malta e recebesse, tal como o pai, o priorado do Crato. Inesperado foi o que se passou depois: António recusa as ordens de presbítero e decide viver no século, ser mundano ou, como outros dirão, devasso. O comportamento poderá explicar, porventura, uma obra de 1592, intitulada Psalmi Confessionales, verdadeiro acto de contricção cuja autoria é atribuída a António. Por agora, o facto era este: tinha comprado uma guerra pela qual pagaria até ao fim dos seus dias: em 1565, é expulso do priorado pelo papa Pio IV e ganha a inimizade eterna do tio cardeal Henrique e de dona Catarina, a regente.
Com a reputação desfeita dentro de portas, encontra-se uma saída airosa para o neto do rei Manuel I: é nomeado governador de Tânger e, em breve, estava de partida para África, a fim de assumir as novas funções. E é justamente em África que se encontrará com o momento determinante da sua vida e da História do país... A 4 de Agosto de 1578, António de Portugal é um dos 16 000 soldados que sobrevivem ao horror de Alcácer Quibir. Um dos 16 000 que vêem morrer 9000 companheiros e desaparecer o rei Sebastião. Um dos 16 000 que caem em mãos inimigas e são lançados nos calabouços do sultão. A ascendência real e os cargos que tinha ocupado faziam dele um dos prisioneiros mais preciosos de todo o lote, mas, com astúcia e muita fortuna, António conseguiria convencer os captores precisamente do contrário. De que se tratava de um dos mais pobres e anónimos soldados portugueses, acabando por ser um dos primeiros a obter a libertação e a troco de um resgate bem mais pequeno do que pagariam os familiares de muitos companheiros. Como sabemos, o rei Sebastião tinha desaparecido sem deixar descendência. Aliás, tinha desaparecido levando consigo a dinastia de Avis, pois o pai havia já morrido, bem como o avô e todos os tios. Para encontrar o novo rei de Portugal era, pois, necessário que se saltasse para fora da ortodoxia e rezar para que tudo corresse bem. António, acabado de regressar ao país, apresenta logo uma primeira candidatura ao trono, mas a pretensão é-lhe prontamente negada pelo regente: o seu tio e inimigo de estimação, cardeal Henrique». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Letras, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia CdasLetras/JDACT

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os Filipes. António Borges Coelho. «Prenderam a saboeira e condenaram-na à morte. A defesa alegou que Beatriz Gonçalves era mãe dum filho de António e, neste caso, podia esconder e embarcar o régio amante»

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Quem vos venceu
«(…) Aveiro fechou as portas ao rei António I mas, a 10 de Setembro, as suas tropas entraram na vila e saquearam-na. Quando chegou a Santarém a notícia da conquista de Aveiro e da aclamação de António em várias terras da Beira e do Norte, o povo revoltou-se e o duque de Alba teve de enviar duzentos soldados para acalmar a vila. E em Lisboa, no dia 5 de Outubro, mais de trinta homens armados correram as ruas gritando: Viva el-rei D. António. O Porto mudara para Filipe em 4 de Setembro. António avançou para a cidade com os seus 10 000 homens, em boa parte armados com paus e foices, e também com alguns portugueses que tinham chegado na armada da Índia. À aproximação do exército nacional e perante a agitação interna do povo miúdo, a cidade mudou outra vez de campo. Expropriaram-se os bens dos filipistas e obrigaram os mais ricos a pagar 100 000 cruzados. O bispo do Porto e o arcebispo de Braga, frei Bartolomeu dos Mártires, refugiaram-se na Galiza e Braga aclamou António. Em Lisboa, o duque de Alba mandou fortificar o castelo, guarneceu-o de soldados castelhanos e de artilharia e mudou para lá a residência. Agora, dominada a cidade, era preciso fazer jurar o rei Filipe nas cidades e vilas que, no norte e no centro, tomavam voz por António. E tentar capturá-lo, vivo ou morto.
A 22 de Setembro, o duque de Alba enviou para o Norte o general Sancho Ávila com 150 batedores, 3000 soldados de infantaria, 500 cavaleiros e um trem de artilharia. Uma semana depois juntaram-se-lhe mais 800 infantes. Na sua marcha, o general submeteu Loures, Torres Vedras, Aljubarrota, Leiria. No dia 7 de Outubro entregaram-se Pombal, Soure e Montemor-o-Velho; Coimbra no dia 8; Buarcos e Aveiro no dia 9. À notícia de que o exército de Sancho Ávila se aproximava do Porto, António mandou alguns coronéis a fazer gente. A mim me mandou a Barcelos e a todo o seu termo onde há grande número de companhias... enrolei alguns 4000, indo bem poucos ao Porto pela má vontade que tinham à guerra, e ao senhor dela, como vassalos do duque de Bragança. O que depois me houvera de custar a vida. O Porto rendia-se no dia 22 de Outubro. Os castelhanos saquearam o termo mas pouparam a cidade.
Onde para António? O duque de Alba escrevia a Filipe: Há poucos dias que não seja dito publicamente: Viva o rei António! E em Lisboa, na passagem de soldados da guarnição castelhana, um menino gritou: Viva o rei António! Levou um tiro na cabeça. O conde de Portalegre, Juan Silva, ex-embaixador de Filipe II em Lisboa, ferido e preso na batalha de Alcácer Quibir e agora integrado no exército de Sancho Ávila, perguntava ao rei: que morte reservariam ao fugitivo e aonde.

Caça ao rei D. António
Nas portas da cidade de Lisboa e por todo o reino afixaram-se cartas do rei de Castela: qualquer pessoa que denunciasse o paradeiro ou prendesse e matasse o prior António, receberia 20 000 cruzados e ser-lhe-ia perdoado qualquer delito; mas quem soubesse do rei fugitivo e não o denunciasse seria castigado. Muitos aventureiros castelhanos e muitos mais portugueses seguiam esta empresa de o prenderem. Do Porto, António seguiu para Viana da Foz do Lima. Aí mandou tomar dois pequenos navios estrangeiros carregados de bacalhau. Estando alguns dos seus já embarcados, avistaram a cavalaria inimiga. Passaram-se para a outra banda de Viana. Filipe mandara pôr guarda nos portos de mar e na fronteira terrestre. Viram o fugitivo na serra de Aire, em Alcanede, em Alenquer, em Vila Nova de Mil Fontes, em Lisboa, em Setúbal. Mas sendo tão grandes as promessas e tão grandes as ameaças, não houve nenhum, de milhares que o viram e conheceram, que o malsinasse e entregasse... Grandíssimo dom de lealdade e de honra tem Deus dado aos Portugueses.
Em Abril de 1581, no mesmo dia em que o rei Filipe entrou em Tomar, correu a notícia de que António estava escondido na igreja do Loreto, em Lisboa. Só apanharam o pároco. Um mancebo de Alfama, que vivia ao Chafariz dos Cavalos, fretou um navio para lhe dar a fuga. Mas no dia em que o Prior deveria embarcar na Trafaria, duas galés cercaram o barco. Apanharam Francisco Nunes, cavaleiro da Ordem de Cristo, Pedro Alpoim, lente da Universidade de Coimbra, e o traidor Duarte Castro, mas não o rei António. O Rei Prior encontrou o seu último refúgio em Setúbal na casa de Beatriz Gonçalves, saboeira muito rica, dona de marinhas. No princípio de Maio de 1581, Beatriz fê-lo embarcar para França numa urca de sal. Prenderam a saboeira e condenaram-na à morte. A defesa alegou que Beatriz Gonçalves era mãe dum filho de António e, neste caso, podia esconder e embarcar o régio amante. Mantiveram-na muitos anos presa». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Os Filipes. António Borges Coelho. «… me vou rindo da zombaria que éramos, sem armas, sem munições, sem ordem, sem obediência, sem cavalos, e enfim sem nada do necessário…»

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Quem vos venceu
«(…) Nos dias que se seguiram à conquista de Lisboa, os espoliados tiveram de comprar aos saqueadores os mantimentos que lhes tinham roubado: o pão, o azeite, o gado. E também os escravos. Alguns até tiveram de comprar as suas mulheres e os filhos. No lote dos presos resgatados estavam o conde do Redondo João Coutinho e o inquisidor de Évora Lopo Soares Albergaria que, ao repicar dos sinos, acudia a cavalo, espingarda no arção da sela, acompanhado por um pajem, também a cavalo e com espingarda, e homens de pé com os seus piques. No princípio, os soldados do duque de Alba ficaram alojados fora da cidade, mas guardavam as portas e podiam entrar e sair. As gentes dos campos insultavam os soldados que ficavam para trás e enforcaram alguns.

Auto de (des)obediência
A 11 de Setembro de 1580, dezassete dias depois da batalha de Alcântara e com as tropas castelhanas no terreno, foi assinado pelos novos oficiais da Câmara de Lisboa, nas casas onde pousava o duque de Alba, o auto de obediência e de entrega da cidade a Filipe II de Castela. Assinaram o duque de Alba, Damião de Aguiar e os novos vereadores, o procurador Sebastião Lucena, Luís Francisco, ourives do ouro, António Nobre, barbeiro, Francisco Roiz, tosador, Gaspar Roiz, sapateiro, procuradores dos mesteres, e Salvador Roiz, alfaiate, juiz da Casa dos Vinte e Quatro. Na assinatura do auto, em nome da cidade e da Câmara, falou Damião de Aguiar, que tinha sido deposto pelo senhor António e se manterá na crista da onda até à morte do rei Habsburgo. Disse: a Filipe pertencia, justa e direitamente, a sucessão, propriedade e jurisdição dos reinos e senhorios de Portugal e do Algarve e de todas as coisas a eles pertencentes. E recebiam-no por rei e senhor natural. Em reconhecimento desse direito, entregavam-lhe, na pessoa do duque de Alba, a posse da cidade e do seu termo e juravam pela cruz e os Santos Evangelhos em que punham as mãos. Testemunharam o acto Paulo Afonso, Pedro Barbosa, que seria assassinado em Lisboa, tal como, anos mais tarde, o seu filho Miguel Vasconcelos, e Jerónimo Pereira Sá, todos do Conselho d'el-rei e seus desembargadores do Paço.
Dois dias depois a Câmara mandou apregoar: segunda-feira ninguém trabalhe e armem as ruas e as janelas. Não as queriam armar. À duas horas da tarde, os vereadores, a Casa dos 24, fidalgos, doutores e alguns cidadãos, poucos, sem mais ninguém, e as trombetas, atabales e charamelas, saíram com a bandeira da cidade, levada por um Tomé Silva. Gritava o Tomé: Real! Real! Por el-rei Filipe, rei de Portugal! Respondiam os acompanhantes sem haver mais homem, mulher nem menino que o quisesse dizer. Os que acompanhavam a bandeira diziam aos moços: Real! Eles respondiam, em altas vozes, que não gritavam. Por onde a bandeira passava, as mulheres e os homens choravam e lastimavam-se. António Cascais colocou por sua mão a bandeira filipina, com Castela ao centro, no alto dos Paços do Castelo. No rio, as galés dispararam. Na volta, o cortejo desceu pela Mouraria até à Rua Nova e voltou à Câmara. Em todo o caminho nenhum homem ou mulher ou menino os quis acompanhar nem dizer Real, cousa tão extraordinária entre moços e meninos que até neles houve o sentimento natural da perda de sua pátria e liberdade, havendo tal rancor de ódio, portugueses com castelhanos, que cada dia não deixava de haver na cidade mil brigas uns com outros.

Submissão do Centro e do Norte
Na sua fuga, após a batalha de Alcântara, o Prior do Crato parou em São João da Talha para curar os ferimentos sofridos e passou pela Azambuja a caminho de Santarém. Nesta vila havia novos vereadores que, reunidos com os seus apoiantes na igreja de Marvila, decidiram enviar procuradores ao duque de Alba e reconhecer o rei Filipe. António seguiu então por Tomar até Coimbra. Acompanhavam-no muita gente de pé e de cavalo e muitos negros dos que escaparam das mãos do inimigo. Em Coimbra, o corregedor e o conservador, acompanhados por 14 homens com espingardas, tentaram prender o meirinho que proclamara António. Acudiu muita gente ao Terreiro de Santa Cruz a travá-los e a gritar: Viva el-rei António! O corregedor ordenou aos espingardeiros que disparassem. Choveram pedradas. Corregedor e conservador salvaram-se na fuga e a multidão proclamou António na porta de Santiago. Na região de Coimbra, o rei Prior recrutou 5000 a 6000 homens. Entrou em Montemor-o-Velho e avançou para Aveiro. A vila aclamara-o em 4 de Julho mas, depois da derrota de Alcântara, proclamara Filipe.
António dispunha de uns 10 000 homens, mas nem entendia o estado em que estava, nem tinha dinheiro, nem soldados práticos. Os que tinha eram do povo, tirados das tendas e da lavoura, que não sabiam nenhuma milícia nem aprendido a perder o medo, como quem não vira nunca a guerra, tirando alguns bem poucos. Também sentiam que boa parte dos grandes fidalgos, dos bispos e dos arcebispos apoiavam, abertamente ou envergonhados, o rei Filipe I. Quando isto escrevo, diz João Castro, neto do homónimo vice-rei da Índia, me vou rindo da zombaria que éramos, sem armas, sem munições, sem ordem, sem obediência, sem cavalos, e enfim sem nada do necessário». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT

Os Filipes. António Borges Coelho. «Portugal gozava de independência política há quatro séculos e meio, com muito sangue derramado na preservação da sua independência; e os juristas, que estavam do lado de António, sustentavam…»

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Quem vos venceu
«(…) O frade exprimia o sentimento geral do povo miúdo e médio e também dos frades, dos clérigos e duma parte significativa dos fidalgos: a alta nobreza faltara aos seus deveres como ordem militar, soçobrando ante as dádivas e as promessas e encolhendo-se ante o exército e a armada de Filipe II. Muitos fidalgos e milhares de soldados estavam ainda no cativeiro marroquino ou tinham sido vendidos como escravos. E o único pretendente nacional a levantar a bandeira contra o rei de Castela, António, Prior do Crato, neto de Manuel I e filho do popular infante Luís, tinha a mácula de bastardia e a qualidade de meio cristão-novo. Num momento de desespero, entre os fidalgos que o acompanharam, houve quem dissesse: prouvera a Deus fosse antes filho duma negra. Do sermão do frade desafinavam outras vozes. Os filipistas, letrados, fidalgos e quase todo o alto clero secular, defendiam, pela calada e abertamente, que o monarca castelhano era o herdeiro legítimo da coroa e devia governar. Vinham do partido da rainha dona Catarina que, através dos casamentos, empurrara o país para a união ibérica. Agora, impulsionados pelos perigos, pelas promessas, a propaganda, a compra e a vitória militar, tinham crescido em número. Alguns estavam ligados por laços de sangue às famílias do outro lado da fronteira. A união prometia-lhes uma estrada para o crescimento das suas casas, mas ao mesmo tempo, como veremos, receavam que a alta nobreza espanhola, muito mais poderosa, viesse disputar a sua parte do bolo doméstico.
Outros fidalgos estavam à espera do resultado. Distribuíam os familiares pelos dois lados. E quase todos viam com apreensão a febre do povo miúdo e dos médios e temiam os danos que a divisão provocaria no Império e na Igreja. Alguns mercadores de grosso trato pensaram que a prata das Américas iria correr pelas ruas de Lisboa e se abririam os mercados do outro lado do Atlântico, embora muita prata corresse já pela Rota do Cabo e entrasse nos circuitos financeiros. Na Carta sobre a Sucessão do Reino, o bispo Jerónimo Osório emite uma opinião, partilhada certamente pelos bispos e arcebispos e por muitos nobres e letrados portugueses. Em seu entender, eram três as razões principais que os impeliam a aceitar a realeza de Filipe: o bem geral da cristandade católica; a conservação de Portugal, isto é, as vantagens para o reino e o seu império na perspectiva de então dos grupos dominantes; e porque mal podemos resistir». Em Junho de 1580, quando o exército e a armada castelhana invadiam Portugal, uma boa parte das cidades e vilas jurou o rei António. A maioria dos portugueses não queria submeter-se a Castela e pretendia um rei nacional. E não só a plebe e os estratos médios. Também muitos e altos fidalgos e letrados.
O direito permitiu a Carlos V herdar múltiplos Estados europeus como quem herda uma casa ou uma quinta. Mas Portugal gozava de independência política há quatro séculos e meio, com muito sangue derramado na preservação da sua independência; e os juristas, que estavam do lado de António, sustentavam que Portugal gozava do direito de eleger o rei. Assim o fizera nas Cortes de Coimbra de 1385 quando elegeu rei o Mestre de Avis e até na proclamação do cardeal-rei Henrique. De qualquer dos modos, meio ano passado sobre a morte do cardeal-rei Henrique, Filipe II não teve outro remédio senão avançar para a conquista. Lisboa, a cabeça do reino, caiu pela força das armas e não só pela força dos argumentos jurídicos e do dinheiro. E no rescaldo da batalha de Alcântara, o termo e a própria cidade foram sujeitas a saque. Durante dias os soldados castelhanos, alemães, italianos, até turcos, e alguns portugueses assaltaram as quintas, as igrejas e as casas dos arrabaldes. Havia lá muita riqueza. Os conventos e igrejas que conseguiram impedir o roubo tiveram de pagar primeiro. Só num mosteiro os soldados colheram mais de 400 000 ducados.
Não se pode já fazer outra coisa senão enforcar estes velhacos que aqui temos, os mais notáveis, e fazer enforcar outros em Santarém e em Tomar e em mais povoados onde foi cometido o crime assinalado, ou seja, o de lesa-majestade, escreva o duque de Alba, comandante dos invasores. Em Lisboa lavrou uma pilhagem disfarçada. Diziam: tomaste o partido de António, e prendiam o acusado e ficavam-lhe com os bens. Não escaparam ao assalto os mosteiros de São Bento, de São Roque e de Nossa Senhora da Graça, onde os moradores tinham recolhido parte da sua riqueza. Roubaram as mercadorias da Ribeira e os navios da armada de António. Escapou a frota da Índia e o edifício da Alfândega». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Conquista de Lisboa. 1578 1583. Violência Militar. Comunidade Política. Rafael Valladares. «A quem ignorou completamente foi ao bastardo António, Prior do Crato, com quem as fricções pessoais já vinham de longe. Todavia, de um ponto de vista prático, o duelo cingia-se ao rei Filipe e à sua prima Catarina»

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Violência
A escolha de Alba
«(…) A falta de paciência consumia a todos por igual, em Portugal e no reino de Filipe. o ano de 1579 decorrera entre negociações mais ou menos prometedoras, mas com o pano de fundo de um rei Henrique inflexível na hora de nomear sucessor e umas Cortes do reino inauguradas a 1 de Abril para tentar chegar a algum tipo de consenso relativo à herança. Deste parlamento saiu uma lista de quinze membros da nobreza, entre os quais o monarca escolheu cinco destinados a actuar como governadores de Portugal caso ele falecesse antes de designar sucessor. Decidiu-se também constituir um tribunal de onze juristas, cujas atribuições seriam identificar o candidato legítimo conforme o Direito, caso o cardeal-rei Henrique falecesse antes de terminar a sua tarefa. De pouco serviu, porém, a insistência de Filipe II em martelar a consciência do seu tio com os perigos que pairavam sobre o reino se não abrisse o caminho para o trono. O velho cardeal-rei pensou primeiro em casar-se, com a prévia dispensa de Roma, e, aparentemente, concentrou de imediato as suas preferências na sua outra sobrinha, a duquesa de Bragança, dona Catarina, casada com o duque titular. A quem ignorou completamente foi ao bastardo António, Prior do Crato, com quem as fricções pessoais já vinham de longe. Todavia, de um ponto de vista prático, o duelo cingia-se ao rei Filipe e à sua prima Catarina, sendo o primeiro filho de infanta portuguesa, mas varão, e a segunda filha de infante luso, mas mulher. Quem deveria ter prioridade? O direito da época não permitia uma decisão irrefutável nessa questão, o que obrigou o cardeal-rei Henrique a navegar entre dúvidas e pressões diante das quais o seu único objectivo, como alguns o acusavam, visava sobreviver politicamente até à sua morte física. Se no começo do seu reinado parece ter simpatizado com dona Catarina, a rejeição que a casa de Bragança suscitava entre muitos nobres do reino, devido a ciúmes de linhagem, levou-o a suspender qualquer decisão por temer desencadear reacções violentas entre os seguidores dos candidatos derrotados. Entre a restante população, os Bragança, mais do que desprezo, não suscitavam apoios, o que também esclarece até que ponto a condição de natural do reino não era decisiva para subir ao trono. A escassa popularidade dos Bragança gerou um grave problema para o cardeal-rei, quando se apercebeu de que ao duque não aumentam os amigos com o desfavor de António, Prior do Crato. Em Janeiro de 1579, Moura informava que o cardeal-rei seguia o conselho daqueles que lhe propunham não nomear herdeiro em vida, se a deseja passar descansada, porque se nomeasse a Bragança teria Vossa Majestade por inimigo, e se declarar Vossa Majestade, o senhor António, Prior do Crato, e Bragança manifestar-se-ão no país, pelo que será melhor viver sossegado e depois que se entendam todos. E concluía: Este conselho bem pode ser saudável para o corpo; não sei se o será tanto para a alma.
Ainda que a exposição dos factos fosse digna de crédito, a censura ao monarca por não cumprir as suas obrigações morais, pelo contrário, não era aceitável. Na realidade, a aparente indeterminação do cardeal rei Henrique derivava precisamente do seu alto sentido de responsabilidade política que o destino, não a sua escolha, lançara sobre a sua pessoa. Eclesiástico severo e imbuído do espírito de Trento, inquisidor-geral e príncipe da Igreja, o cardeal-rei Henrique empreendera a sua cruzada política particular após a morte do seu sobrinho Sebastião I, através de uma purga da corte plena de visitas e cárcere que deixara vítimas no curto caminho percorrido desde Agosto de 1578. A mudança de regime tirou partido do desastre em África para justificar os castigos, de modo que muitos daqueles que foram acusados precisavam apenas de uma decisão inoportuna do monarca para se lançarem na desestabilização de uma arena política já bastante instável (o rei vai-se tornando muito mal querido porque são muitos os que castiga e a ninguém faz mercê, e tudo isto redunda em benefício de Vossa Majestade, porque se vos oferece matéria para cativar esta gente, favorecendo-a nos seus trabalhos, in Codoin, Lisboa, 18 de Janeiro de 1579; também Roiz Soares, no seu Memorial, fala da queda deste bando dos Silvas e Távoras, que no tal tempo eram os cônsules de tudo; outro grande prejudicado foi Pedro Alcáçova, homem-chave no governo sebastianista que sofreu um processo e o desterro de Lisboa). Face à polarização a que chegara o debate dinástico em 1579, só um cego não teria visto que nenhum dos candidatos que o rei escolhesse conseguiria evitar o eclodir do banditismo político em Portugal e talvez a fractura civil do reino. Em Janeiro de 1580, ainda em vida do cardeal-rei Henrique, Filipe II ordenou ao duque de Medina Sidónia que fizesse chegar a Bragança como em segredo e por via de advertência aos seus principais criados e amigos, que lhe convém a vida em que o rei de Portugal não se pronuncie em seu favor, porque teria guerra em casa e isso seria a causa da ruína naquele reino e, consequentemente, da sua posição, e que o que mais lhe convém seria tratar das suas coisas antes da sentença, porque podeis ter por certo que terei para com ele muita indulgência por evitar a ocasião de ruptura. Não era, portanto, violência e ameaças o que faltava em Portugal nos começos de 1580. Ao optar por deixar a solução nas mãos das Cortes ou, na sua falta, de um congresso de juristas também emanado da assembleia, a hipótese mais razoável consiste em pensar que o cardeal-rei tratou de conter o perigo de uma guerra civil do modo mais institucional e responsável que pôde, ou que soube». In Rafael Valladares, A Conquista de Lisboa, 1578-1583, Violência Militar e Comunidade Política em Portugal, tradução de Manuel Marques, Texto Editores, Alfragide, 2010, ISBN 978-972-47-4111-6.

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terça-feira, 19 de maio de 2015

A Conquista de Lisboa. 1578-1583. Violência Militar. Comunidade Política. Rafael Valladares. «Os parâmetros demográficos, económicos, políticos e emocionais que nós, historiadores, consideramos estruturalmente característicos para uma comunidade do Antigo Regime, haviam sofrido profundas alterações»

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Violência
A escolha de Alba
«(…) O essencial dos acordos ficou estabelecido em 1579. Em Fevereiro, o hábil mediador que era Moura resumiu a táctica da sua agenda para sentar o Prudente no trono de Portugal: que apontem, no geral e no particular, aquilo que convém a cada um, após o que lhes seria dado a conhecer a predisposição de Filipe II para o conceder, e com uns se hão-de ir conquistando os outros. O método já se revelara frutuoso com alguns nobres e mercadores, embora com plebeus e obstinados hão-de surgir dificuldades. O dardo de Moura acertara no centro do alvo ao conseguir o seu principal desígnio: a desarticulação (e não necessariamente a ruptura) da comunidade política em que operava. A ideia de desarticular na ordem corporativa do século XVI ia para além da mera conquista de vontades. O curto-circuito inter-estratos era tão importante como o intra-estratos, e certamente até mais que o simples facto de cativar os ricos ou os privilegiados, pois, em função de todas as pressões, a comunidade, na sua qualidade de república dos vassalos, teria finalmente optado por reagir com uma frente solidária às pretensões de Filipe II, e a entronização deste em Portugal dificilmente se teria concretizado. Visto deste modo, o problema dos plebeus e obstinados, passava a ser responsabilidade da invasão militar, o que demonstra a confiança que já nessa altura existia pelo eficaz uso da força sobre um objectivo bem identificado e separado do resto. Porém, este Moura inteligente e bom conhecedor do seu reino de origem não era, no entanto, infalível e nem sempre convincente. Durante todo o ano de 1579, Filipe II conservou ainda a esperança, não partilhada pelo seu enviado a Lisboa, de que o sector popular acabaria por compreender as vantagens que lhe proporcionava a incorporação no seu império. Descendo-se ao particular, vê-se claramente, garantia o rei ao seu novo embaixador em Portugal, o duque de Osuna, que os três estados, cada um no seu grau, se alargará pela amplidão destes reinos: o clero com dignidades e benefícios eclesiásticos; a nobreza e a gente mediana com ocupações e cargos em todos eles; o povo com as suas actividades e a navegação para as minhas Índias Ocidentais, que grande interesse terá para ele. Mais adiante, o monarca ampliava o rol dos benefícios que, embora dirigidos a todo o reino, alegrariam certamente mais a sua arraia-miúda: a supressão dos portos secos com Castela, redução dos impostos marítimos (de 20 para 10 por cento), exportação de pão castelhano para um reino estruturalmente deficitário em cereal como o português e, como medida mais imediata, o desembolso de cem mil ducados para resgatar os cativos lusos que continuavam à espera em Marrocos, desde a campanha do ano anterior.
A crer no mesmo rei, em Outubro de 1579 a factura pelos prisioneiros de África elevara-se aos 400 mil ducados, montante deveras astronómico e que procurava convencer todos que Filipe II actuara não já como um príncipe amigo de Portugal, mas como seu futuro patrono de vassalos. Em condições normais, estas ofertas teriam produzido o efeito desejado de arrancar a aquiescência popular para com a nova dinastia. Contudo, o Portugal dos últimos Avis, e em especial Lisboa, não atravessava um período de normalidade. Os parâmetros demográficos, económicos, políticos e emocionais que nós, historiadores, consideramos estruturalmente característicos para uma comunidade do Antigo Regime, haviam sofrido profundas alterações. Em contrapartida, os ministros de Filipe II e, ao que parece, até boa parte dos castelhanos, encontravam-se precisamente na dimensão oposta, confiantes e arrogantes relativamente ao desenlace da operação. Este embate propiciou que se formasse entre os austracistas uma incapacidade evidente para compreender certas atitudes dos portugueses, como a suposta fuga para a frente de António, prior do Crato, ao proclamar-se rei ou a resistência popular a Filipe II. Acerca do primeiro, o próprio Moura, a quem caberia manifestar maior perspicácia, opinou que se tratava de algo que não acreditava ter fundamento, mas que o fez para se vender mais caro. Cristóvão procurava desacreditar o prior do Crato como um vulgar chantagista para mitigar o seu fracasso como negociador político, mas este juízo de valor também ignorava a energia potencial do apoio do povo ao bastardo (legalizado), algo de que este, pelo contrário, tinha consciência. Nesta matéria, um castelhano que em Badajoz observava a concentração de tropas que ali decorria na Primavera de 1580 manifestava o seu espanto por com tudo isto, se aparecer aqui algum português com uma capa de trapos, será louco a ponto de dizer que isto não é nada, e dizem [os portugueses] que se tiver de haver guerra, nem o mundo inteiro chegava para eles. Como esta mesma testemunha declarara meses antes, em Portugal não têm comida para um dia nem munições: a necessidade há-de trazê-los para o que muito lhes custa, que com a paciência não os conseguem levar os senhores portugueses». In Rafael Valladares, A Conquista de Lisboa, 1578-1583, Violência Militar e Comunidade Política em Portugal, Texto Editores, Alfragide, 2010, ISBN 978-972-47-4111-6.

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sábado, 28 de março de 2015

A Conquista de Lisboa. 1578 1583. Violência Militar. Comunidade Política. Rafael Valladares. «Quem sabe se a gloriosa entrada que Filipe II realizou em Lisboa, no ano de 1581, não projectou o sonho que quisera representar um dia em Bruxelas. O obstáculo, pelo contrário, chamava-se realidade…»

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Violência
A escolha de Alba
«(…) O duque parecia haver sido escolhido mais por motivos políticos do que por militares, na medida em que a sua famosa imagem de castelhano áspero, alto e de uma magreza elegante irradiava uma inflexibilidade e dureza que agora levavam a que se quisesse aproveitar dele para desbaratar a resistência lusa. A antipatia geral suscitada por Alba na Europa era aumentada por um matiz próprio no caso de Portugal, onde, segundo Conestaggio, era particularmente odiado e não o tinham por amigo da sua nação, devido à antiga rivalidade com Gomes Silva. Por isto, e por ser muito autoritário por natureza e pelos grandes e difíceis casos que lhe haviam passado pelas mãos, uma provável alusão à carnificina nos Países Baixos, houve quem pedisse a Filipe II que substituísse Alba. Neste ponto como em tantos outros, o historiador genovês estava bem informado. Para frei António Sousa, o povo português só aceitaria renunciar à prática da rebelião a que boa parte se entregava se o próprio rei se colocasse à frente do exército dos Habsburgos. Recordo a Vossa Majestade que, segundo todo o mundo diz, se Vossa Majestade tivesse ido à Flandres quando aqueles estados se começaram a revoltar, tudo se pacificaria rapidamente. E advertia: Os portugueses têm muita vantagem sobre os flamengos nestes pontos, de modo que, se passarem deles, tanto maior será aqui o mal do que ali. Deste modo, a indignidade que toda a sujeição comportava seria compensada em Portugal se a pessoa a quem se prestava obediência fosse o monarca. Em contrapartida, com Alba passar-se-ia o contrário, pois a opinião que os portugueses formularam de que não lhes é propenso, torná-los-á mais relutantes a deixarem-se submeter à razão.
O certo é que o duque gravidade, como o qualificou um pasquim de 1548, guardava na memória familiar recordações de uma relação com Portugal não tão definida como se pretendeu sustentar em 1580 e posteriormente. É verdade que existira um primeiro antepassado nobre morto durante o cerco de Lisboa em 1384, a apoiar a reivindicação de João I de Castela ao trono luso, embora o primeiro duque de Alba, Garcia Alvarez Toledo, se tenha vingado ao destacar-se particularmente na batalha de Toro, em 1476, que arruinou o sonho de Afonso V de Portugal de se tornar rei de Castela. Este acontecimento foi celebrado durante anos na propriedade que os Toledo possuíam em Alba de Tormes, próxima de Portugal. É de supor que tais festejos se tenham atenuado muito em 1543, quando o próprio Fernando foi padrinho na boda do futuro Filipe II e Maria de Portugal, que se realizou no palacete que os Toledo possuíam em La Abadía, na fronteira luso-castelhanas. Finalmente, o parentesco que o duque aduziu na sua correspondência com alguns nobres lusos em 1580 soava mais a oportunismo do que a uma expressão de afecto. Se ao conde de Tentúgal falou de Álvaro de Portugal, que é avô de nós dois, ao arcebispo de Évora, Teotónio Bragança, tratou de mobilizá-lo para a sua causa, pelo que os meus pais e eu devemos a esse reino que ê, afinal, a nossa pátria e a de toda a nobreza do nosso sangue.
Alba foi, portanto, escolhido deliberadamente como personagem pouco amiga dos portugueses e, sobretudo, graças à lenda de terror que ele próprio e outros haviam forjado relativamente à sua pessoa nos anos na Flandres. E também foi boa a [escolha] do duque de Alba, que tão necessário é para os efeitos da guerra o temor que têm ao duque, confessou um português dois meses antes de se iniciar a invasão. A sua missão era militar no que tocava a ocupar Portugal, e um pouco política quanto a vergar os considerados rebeldes. Fernando parece ter tido consciência disso, como quando, ao confrontar-se com as primeiras medidas de governo que teve de tomar na Lisboa recém-ocupada, incriminou Filipe II por ter sido enviado para aquela conquista sem qualquer homem da nação de quem receber conselho relativo a questões imediatas. Por anormal e até mesmo insensato que pareça, assim foi, pois esperava-se de Alba que, através da sua ligação epistolar directa com o monarca e os seus secretários, aceitasse consultar praticamente em tudo aqueles que haviam determinado monopolizar a política no círculo do rei.
A lenda de terror de justiceiro que Alba encarnava tinha a vantagem de que ninguém que estivesse minimamente informado acerca dos acontecimentos de alguns anos antes nos Países Baixos podia iludir-se quanto aos planos de Filipe II para Portugal. E vice-versa: apesar de apenas ter sido explorado o reforço constitucional que Madrid esperava obter com o seu triunfo entre os portugueses relativamente ao problema da Flandres, não é de descartar que a monarquia pensasse oferecer aos flamengos revoltados o exemplo da conquista graciosa de Portugal como um caso de compatibilidade entre o particularismo régio e a autoridade real, cuja capacidade magnânima para perdoar também abarcava os reinos conquistados. Quem sabe se a gloriosa entrada que Filipe II realizou em Lisboa, no ano de 1581, não projectou o sonho que quisera representar um dia em Bruxelas. O obstáculo, pelo contrário, chamava-se realidade, e esta apresentava-se como as tropas que apenas uns meses antes haviam trespassado o coração físico e mental dos seus novos súbditos. Travarem os príncipes guerras com os seus vassalos é coisa a que devem, enquanto lhes for possível, escusar-se, recordara Alba ao rei do seu posto na Flandres. O tópico desta doutrina intemporal adquiria um sentido renovado e inquietante quando se convertia num facto imediato e tangível, por mais que Filipe II e o seu governo se empenhassem em recordar o esforço negociador antes da invasão». In Rafael Valladares, A Conquista de Lisboa, 1578-1583, Violência Militar e Comunidade Política em Portugal, Texto Editores, Alfragide, 2010, ISBN 978-972-47-4111-6.

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terça-feira, 3 de março de 2015

O Prior do Crato Contra Filipe II. Evocação Histórica. Mário Domingues. «… se não fosse a corrupção, habilmente, espalhada, em longos meses, pelos agentes espanhóis; se os cinco governadores tivessem a isenção, o patriotismo, a energia, que as suas altas funções de guardas da independência nacional…»

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A repercussão internacional do problema português
«(…) Tanto a Inglaterra como a França não podiam ficar indiferentes perante os preparativos de conquista evidenciado pela Espanha. Desejavam auxiliar os Portugueses, mas o sou auxíiio tinha de ser discreto, para não desafiar as iras de um senhor tão poderoso como Filipe II; e, para se tornar eficaz, preciso era que também a nação lusitana se tornasse apta a recebê-lo e a usá-lo. Por isso, dona Isabel Tudor respondeu aos governadores, em 4 de Abril, manifestando o seu sincero desejo de ajudar Portugal a manter a sua independência, mas recomendando que seria conveniente que eles se esforçassem por reconciliar os Portugueses, pois, unidos, com mais facilidade repeliriam a agressão estrangeira. Na verdade, comenta Queiroz Veloso; se não fosse a corrupção, habilmente, espalhada, em longos meses, pelos agentes espanhóis; se os cinco governadores tivessem a isenção, o patriotismo, a energia, que as suas altas funções de guardas da independência nacional imperiosarnente lhes impunham; se o duque de Bragança e o Prior do Crato se unissem, em vez de se hostilizarem em mesquinhas rivalidades: Portugal resistiria, pois as forças de Filipe II eram mais aparentes que reais, e a nossa união teria animado o auxílio dos soberanos estrangeiros, que viam com apreensões, o engrandecimento do rei católico. Por seu lado, dona Catarina, duquesa de Bragança, muito rnais enérgica do que o jarrão do seu marido, não permanecera inactiva e solicitara o apoio da Inglaterra e da França para a sua causa. Através dos factos, colhe-se a impressão de que ela, se não fosse a inoperância balofa do duque e as antipatias gerais que este provocava, ter-se-ia sentado no trono e conciliaria os Portugueses em sua volta para lho defenderem, mas em história os factos são os factos e as hipóteses dos historiadores, embora possam constituir salutar lição, não passam de hipóteses. Vimo-la chegar a Almeirim, sem régia autorização, onde foi encontrar o monarca seu tio já moribundo. Logo após a morte do cardeal, mandou dizer aos governadores que estava pronta a obedecer-lhes, aguardando a sentença dos juízes nomeados para apreciar a causa da sucessão. Já vimo como o rnarido deu este recado, ajuntando-lhe umas vagas ameaças, certamente da sua lavra, que intimidavam ninguém. Nessa mesma ocasião escreveu ela a Filipe II, a pedir-lhe que se submetesse, como ela própria, à decisão dos julgadores. Confiante em que lhe assistiam mais direitos do que a qualquer outro pretensor, convinha-lhe que todos os outros se sujeitassem à decisão jurídica, que forçosamente teria de ser-lhe favorável». In Mário Domingues, O Prior do Crato Contra Filipe II, Evocação Histórica, edição da L. Romano Torres, Lisboa, 1965.

Cortesia de RTorres/JDACT

sábado, 31 de janeiro de 2015

No 31. A Conquista de Lisboa. 1578 1583. Violência Militar. Comunidade Política. Rafael Valladares. «É certo que o duque [o espantalho] faz o que pode e o que é possível para um homem da sua idade, foi uma frase condescendente habitual na correspondência trocada entre a frente e o monarca em 1580»

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Violência
A escolha de Alba
«(…) Para tomar esta decisão, o rei teve de afastar os motivos nada desprezíveis que até aí o tinham feito pender para o contrário. Nem a falta de respeito pela sua autoridade, expressa quando aquele primeiro soldado do império combinara o casamento do filho de costas viradas para a Coroa, nem a necessidade de neutralizar os excessos entre as facções ebolista e albista (ou o que delas restara) se apresentavam como elementos menores que pudessem elidir-se, nem mesmo perante um assunto de tanta importância como a sucessão portuguesa. A robustez da autoridade régia fora construída em Castela, e até certo ponto exportada de seguida para a Monarquia, com demasiado esforço para que se pudesse pô-la em risco numa só conjuntura, por muito transcendente que fosse. Se Fernando acrescentasse novos louros às suas vitórias, como era previsível, ninguém estaria em posição de travar o ressurgir da facção albista ou, no mínimo, do clã dos Toledo. Uma mensagem semelhante a esta era a que Filipe II desejava transmitir aos seus conselheiros quando, ao longo de nove meses, se negou a nomear Alba como general da conquista portuguesa, o que dá a entender que, consequentemente, esperava propostas alternativas, confiante de que os seus ministros dificilmente poderiam defender a idoneidade de um septuagenário com a armadura salpicada de sangue flamengo. No entanto, foi isso que aconteceu. Tudo indica que, ainda que o Prudente e o seu governo tenham revelado à partida pouca sintonia quanto à nomeação de Alba (Filipe II referia-se a Alba como o espantalho), ambas as partes acabaram por confluir na sua pessoa.
É possível que o duque contasse com influências de peso para obter de novo o bastão de general em 1580, recuperando assim o favor régio e melhorando talvez uma reputação maculada pelo seu controverso mandato nos Países Baixos. Não obstante os riscos que inevitavelmente implicava dirigir uma guerra, morrer desterrado em Uceda constituía uma alternativa pouco honrosa e decerto irresponsável perante as suas obrigações de linhagem. Por outras palavras, a bola caiu no telhado do rei que, se acabou por escolher o duque, foi devido a que ao longo de 1579, precisamente enquanto se discutia acerca de Alba, a guerra, depois da negociação, se convertera na coluna vertebral para resolver a incorporação portuguesa e, para esse fim, Fernando era insubstituível, não tanto pelas suas capacidades de comando (a experiência, reputação e prestígio de que falavam os seus porta-vozes, e que o singularizavam), quanto pela imagem de ministro justiceiro e implacável que gravou a sua marca, até literalmente, se recordarmos a estátua que mandou erigir em Antuérpia, durante os seis anos na Flandres. Não, Alba não era o único general tecnicamente capaz ao qual Filipe II podia ter confiado a missão em Portugal, mas é verdade que acabou por se tornar no único que podia enfrentá-la com relativa segurança, dada a natureza, entre conquista militar e repressão de vassalos desobedientes, que a sucessão tomara.
É certo que alguns dados permitem deduzir que, em termos estritamente militares, o duque não era a pessoa mais adequada. Às vezes, por exemplo, o seu zelo excessivo em não agir até que tudo estivesse organizado ao seu gosto podia retardar uma operação que, como no caso de Portugal, fora concebida para se resolver de imediato. Não sei se é mais vagaroso do que se pretende, ao querer agir completamente pelo seguro, que era o que eu temia, declarou Filipe II a Moura, numa alusão clara a outro dos aspectos pelos quais o rei resistira à nomeação do duque. A sua idade e padecimentos foram apontados por vários testemunhos durante a guerra como principal causa da indisciplina das tropas ou de resoluções inapropriadas. É certo que o duque faz o que pode e o que é possível para um homem da sua idade, foi uma frase condescendente habitual na correspondência trocada entre a frente e o monarca em 1580. Entre aqueles que assim opinavam, deveriam encontrar-se muitos dos inimigos políticos de Fernando, pois a luta de partidos não tinha fim, mas algumas acusações estavam bem fundamentadas. Além disso, é oportuno observar que para um exército tão apto como o que foi formado em 1580 (sem contar com os efectivos navais de Santa Cruz) não era imprescindível, embora fosse desejável, um comando como o de Alba, e ainda menos se considerarmos a desproporção de forças existente entre as duas partes em peleja, o que quase oferecia de antemão o triunfo a Filipe II». In Rafael Valladares, A Conquista de Lisboa, 1578-1583, Violência Militar e Comunidade Política em Portugal, Texto Editores, Alfragide, 2010, ISBN 978-972-47-4111-6.

Cortesia de TextoEdit/JDACT