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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «Sem abonação que nos permita conhecer em que se baseou, M. Gonçalves Costa refere Domingos como primeiro arcediago à frente de Lamego, entre 1089 e 1099, a quem se seguiu, nesse último ano, um outro arcediago, de nome Erro»

Cortesia de wikipedia e jdact

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A dependência face a Coimbra
«(…) Segundo M. Gonçalves da Costa, seria este o embrião do futuro cabido catedralício, o que parece muito provável, dado que S. Sebastião foi, efectivamente, o primeiro orago da catedral lamecense, antes de ser construído o edifício dedicado a Santa Maria. Afirma que, à frente desta comunidade, estaria um arcediago ou prior, que governava a diocese nomeado por Coimbra. Discordamos desta afirmação; como vimos, estes dignitários tinham diferentes funções e naturezas; à frente de uma comunidade canonical está um prior ou um deão, não um arcediago (note-se que, no entanto, o exercício das duas funções podia estar ligado a uma mesma pessoa, como sucedia, no caso português, na Sé de Braga, cujo deão era também, por via de regra, o arcediago do  Couto; também em Castela são vários os exemplos de acumulação das duas funções). Todos os dados que encontrámos apontam para que o governo de Lamego fosse feito por um arcediago, o que significa, a nosso ver, que, e ao contrário do que se passava em Viseu, não seria aquele que presidia ao cabido, o prior, a pessoa que estaria encarregada de administrar a diocese sob as ordens de Coimbra. Vejamos os elementos que conseguimos obter a partir das fontes compulsadas, e sabendo que mais seria preciso analisar, a começar pelos valiosíssimos manuscritos deixados por frei Joaquim Santa Rosa Viterbo, hoje depositados na Biblioteca Municipal de Viseu, que contêm a cópia de múltiplos documentos por ele examinados e que mais tarde se perderam no incêndio que, no século XIX, destruiu o seminário dessa cidade.
Sem abonação que nos permita conhecer em que se baseou, M. Gonçalves Costa refere Domingos como primeiro arcediago à frente de Lamego, entre 1089 e 1099, a quem se seguiu, nesse último ano, um outro arcediago, de nome Ero. De facto, em doação ao mosteiro de Anreade (c. Resende) de 3 de Setembro de 1099, a corroboração é feita per jussionem, isto é, por ordem de Ero, arcediago da Sé de Lamego, que volta a surgir em venda concretizada dois anos mais tarde, em 1101, e cujo período de actuação M. Gonçalves Costa estende até 1108. Este mesmo autor cita, depois, um Martinho, que o teria substituído nesse mesmo ano, mas que designa-se como prior, remetendo para um documento do mosteiro de S. João de Pendorada. Não refere o arcediago David que, em 1119, confirma uma doação a favor do mosteiro de Arouca. Finalmente, como último arcediago conhecido, temos o já mencionado Mónio, em 1128. Estes arcediagos seriam os agentes da autoridade do bispo de Coimbra. Se faziam ou não parte da formação canonical lamecense, ignoramos. Não seriam, decerto, os seus líderes. Um arcediago, repetimos, não é um prior, e as funções de ambos não se confundem (pese embora o que acima dissemos sobre a possibilidade de acumulação dos dois ofícios, os cargos em si mantêm-se diferentes; há que ter em conta que, pelo menos em dois períodos da história da diocese de Coimbra, em caso de ausência do bispo, quem ficou a governar a diocese foram arcediagos, e não os priores ou deões do cabido: um desses episódios, já referido, foi protagonizado pelo arcediago Telo, em 1128, na vacância que se seguiu à morte do bispo Gonçalo; outro coincidiu com a deposição do bispo João Anaia, em 1155, tendo ficado à frente da diocese o arcediago Domingos; estes exemplos apontam para que fosse tradição em Coimbra entregar a administração diocesana a arcediagos, sendo a diferente situação vivida em Viseu devida, provavelmente, ao desenvolvimento entretanto alcançado pelo cabido dessa catedral, que levava a que o seu prior fosse o representante na diocese da autoridade episcopal de Coimbra) O cabido de Lamego teria nesta altura priores, cujos nomes, infelizmente, não conhecemos, a não ser o de um Suintila, que M. Gonçalves Costa cita a partir de documento visto por Viterbo, que apresenta, contudo, uma série de elementos que o tornam de autenticidade e data duvidosa (de facto, o autor refere um documento que data de 1087 onde são apresentados como bispos Paio Braga e Sesnando Porto, que não exerciam então tais cargos, assim como Odório na qualidade de prior de Viseu, o que não terá sucedido antes de 1119); e o de Paio, em Novembro de 1145, referido em diploma copiado no Livro das Doações de S. João de Tarouca. Se, em Viseu, a autoridade para presidir à administração do bispado era delegada nos priores do cabido, em Lamego a realidade que transparece dos lacunares documentos subsistentes apontam para que a ligação entre as duas dioceses tivesse sido feita através de arcediagos». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

Cortesia de CEHR/UCP/FCT/JDACT

domingo, 21 de julho de 2019

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «Foi igualmente beneficiada com o apoio que dona Teresa não pode ter deixado de dar à tentativa de autonomização do bispado ocorrida por volta de 1119-1120»

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A dependência face a Coimbra
«(…) Encontram-se documentados na diocese desde cerca de 1090; mas é difícil perceber se têm ou não alguma relação com o governo de Lamego e Viseu. Na verdade, a presença dos delegados de Coimbra na administração destas duas dioceses é muito difícil de captar. Assim nos mostra, claramente, o exemplo do mosteiro de Arouca, a instituição monástica do bispado de Lamego que maior número de documentos conservou: em 93 diplomas referentes ao período de subordinação a Coimbra, um só faz menção clara à existência de um arcediago à frente do governo de Lamego; precisamente o mesmo que, entre todos os documentos conhecidos outorgados pelos condes portucalenses e por Afonso Henriques, é o único a indicar expressamente os agentes da diocese de Coimbra naqueles dois bispados.
Observemos mais de perto as informações deste diploma, uma carta outorgada por dona Teresa a 31 de Março de 1128, que inclui na data a menção ao arcebispo de Braga, ao bispo do Porto e aos responsáveis pelas três outras dioceses do condado à época: in Colimbria arkidiacono Tello, in Uiseo Odorio priore, in sede Lameco arkidiacono Monino. No caso de Coimbra, o governante referido é o arcediago Telo, que viria a ser um dos fundadores do mosteiro de Santa Cruz; a Sé encontrava-se vaga após a morte do bispo, Gonçalo, ocorrida no ano anterior (faleceu a 17 de Abril de 1127, e o seu sucessor, Bernardo, só se encontra documentado com segurança a partir de 1 de Julho de 1128, de acordo com os dados indicados). Para Viseu, é indicado o prior Odório, que presidia ao cabido da catedral. À frente de Lamego, encontramos um arcediago, Mónio, a respeito do qual dispomos somente desta informação que nos dá a saber que, no final de Março de 1128, era sobre ele que recaía a autoridade eclesiástica na diocese. Odório estava directamente ligado à catedral cujo governo assegurava, na sua qualidade de membro e dirigente do cabido viseense. Porque há que ter em conta que a inexistência de um prelado próprio não era impeditiva do desenvolvimento da igreja local, no sentido de existir um templo principal na cidade, em torno do qual se agrupava um conjunto de cónegos, formando um cabido, como sucedia (e sucede ainda hoje) em todas as catedrais. Em Viseu, a realidade capitular deste século de dependência face a Coimbra começa a ser mais bem conhecida, graças às investigações levadas a cabo por Anísio Miguel Sousa Saraiva, que mostram a importância que o colégio canonical viseense tinha já por volta de 1110, período em que os condes portucalenses fizeram de Viseu a sua capital, que se manteve como sede política do condado até ao afastamento de dona Teresa, após a Batalha de S. Mamede. A Sé de Viseu foi beneficiada pelo conde Henrique e por sua mulher com a transferência da antiga catedral moçárabe, localizada na zona baixa da cidade, para o cimo da colina, onde ganhava não só um novo edifício, mas também uma renovada importância.
Foi igualmente beneficiada com o apoio que dona Teresa não pode ter deixado de dar à tentativa de autonomização do bispado ocorrida por volta de 1119-1120, quando o cabido elegeu o prior Odório como bispo. Foi uma tentativa gorada, pois logo Coimbra se lhe opôs, fazendo valer os seus direitos de episcopado administrante; mas mostra bem o grau de desenvolvimento que, por essa altura, já tinha atingido a canónica viseense e, por consequência, a igreja local. Em Lamego, a situação seria diversa, assim nos parece. Uma diferença fundamental, logo à partida, é que, aqui, a presença e o apoio condal não se fizeram sentir como em Viseu. Quanto ao cabido, é provável que, como diz a tradição, tenha tido origem num templo da invocação de S. Sebastião, situado fora do espaço muralhado, e na comunidade eclesiástica que aí se teria desenvolvido qual, a certa altura, aparece designada como colegiada». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

Cortesia de CEHR/UCP/FCT/JDACT

quinta-feira, 20 de junho de 2019

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «A designação de prior, nesta época, em Coimbra, e centramo-nos em Coimbra por ser o espaço que nos importa de momento, mas o essencial do que for dito é válido para as outras dioceses do reino»

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«(…) Em Coimbra, a restauração da diocese, que fora planeada por Fernando Magno e Sesnando, só se verificou com Afonso VI, que, pelo ano de 1080, colocou na cátedra da cidade o bispo Paterno. Coimbra foi, pois, a única das três sedes episcopais portuguesas reconquistadas por Fernando Magno a conhecer uma efectiva restauração, tendo o bispo Paterno sido seguido por toda uma série de prelados, numa sucessão ininterrupta que vem até aos nossos dias. Em Lamego e Viseu, pelo contrário, foi necessário aguardar por meados do século XII para haver prelados nas suas cátedras, tendo ambas as dioceses ficado, entretanto, subordinados à autoridade da Sé de Coimbra.

A dependência face a Coimbra
A subordinação destes dois bispados à diocese de Coimbra prendeu-se com vários factores. Em primeiro lugar, há que ter em conta a importância primordial que esta cidade então assumia. Antiga sede de condado, mantivera essa primazia ao ser entregue a Sesnando; a sua conquista transformou-a em guarda avançada da fronteira meridional com os muçulmanos no extremo ocidente hispânico, papel que desempenhou até à passagem da linha fronteiriça do Mondego para o Tejo, em 1147. Coimbra exercia, pois, nas décadas finais do século XI, uma hegemonia incontestada no território governado por Sesnando, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista estratégico e militar. A sua hegemonia eclesiástica seria também desejada pelo conde moçárabe, que não veria qualquer vantagem em menorizar a importância da cidade com a restauração de mais dioceses no interior do condado. Importava mais, ao invés, manter o poder eclesiástico sobre toda a região concentrado nas mãos de um único prelado, o bispo Paterno, com quem Sesnando tinha uma relação de grande proximidade, e utilizar os rendimentos de Lamego e Viseu para colmatar a as necessidades de Coimbra, que tinha ainda boa parte dos seus territórios sob domínio árabe.
Depois da morte de Sesnando, em 1091, o governo do condado passou para seu genro, Martim Moniz, sendo poucos anos depois entregue pelo imperador Afonso VI a Raimundo, e, em 1096, a Henrique, passando então a integrar o recém-formado Condado Portucalense. A situação das dioceses do interior beirão não mudou, porém, com as alterações políticas sofridas; pelo contrário, a sua subordinação a Coimbra foi ratificada pela bula Apostolicae Sedis, outorgada pelo papa Pascoal II, a 24 de Março de 1101, a favor do bispo Maurício Burdino, bula essa que, curiosamente, foi a primeira carta pontifícia destinada a um prelado conimbricense. O governo das dioceses dependentes seria feito por intermédio de arcediagos ou priores, assim se tem dito, como se os termos fossem sinónimos. Comecemos por perceber as diferenças entre uns e outros, para depois vermos o que nos dizem as fontes a este respeito.
A designação de prior, nesta época, em Coimbra, e centramo-nos em Coimbra por ser o espaço que nos importa de momento, mas o essencial do que for dito é válido para as outras dioceses do reino, incidia sobre aquele que presidia ao cabido, e que veio mais tarde a ser chamado deão. De acordo com as mais antigas informações acerca da organização capitular da catedral de Coimbra, em finais do século XI, o prior, escolhido de entre os cónegos, tinha a seu cargo a administração patrimonial, assim como funções que vieram a ser atribuídas ao mestre-escola e ao tesoureiro. Segundo os estatutos de 1127, o prior era o encarregado dos mais diversos aspectos da vida material e litúrgica da comunidade canonical ligada à Sé. Os arcediagos, por seu turno, eram os oculi episcopi (os olhos do bispo), encarregados de o coadjuvar na administração dos territórios diocesanos, visitando-os em seu nome, julgando querelas, prolongando a sua acção pastoral». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

Cortesia de CEHR/UCP/FCT/JDACT

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «À reconquista de uma sede de diocese seguia-se, por via de regra, a restauração da sua dignidade episcopal. Assim terá pretendido fazer o rei leonês, mas não chegou a concretizar tal intento, a não ser, segundo parece, em Viseu»

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«(…) Neste período, temos de novo menções a bispos da diocese, muitas vezes incertas, porém, pois quase todas surgem em cópias tardias, a maioria das quais sofreu erros de leitura, interpolações ou falsificações. Seguindo um dos historiadores que com maior profundidade e de forma sistemática se tem, recentemente, empenhado no estudo destas matérias, Manuel Carriedo Tejedo, podemos associar aos nomes acima indicados mais sete prelados de Lamego. No início da década de 80 do século X cessam, porém, uma vez mais, tais referências. Por essa altura, os exércitos do célebre Almançor avançavam pela península, chegando mesmo a ameaçar Santiago de Compostela. Diversas praças já recuperadas pela monarquia astur-leonesa voltaram ao domínio sarraceno. Foi o caso de Lamego, que ficou durante mais de sessenta anos sob autoridade muçulmana, e se tornou a mais importante e bem fortificada cidade da região, tendo chegado a fazer parte do reino taifa de Badajoz. Assim permaneceu até que, em meados do século XI, Fernando Magno se lançou numa acção conquistadora de larga escala, conhecida como Campanha da Beira, aproveitando a conjuntura favorável aos cristãos provocada pela fragmentação do califado de Córdova em pequenos reinos de taifas, que rivalizavam entre si.

A reconquista da cidade e a primeira tentativa de restauração da diocese
As incursões vitoriosas de Fernando Magno levadas a cabo entre 1055 e 1064 lograram recuperar para a coroa leonesa os territórios beirões perdidos no tempo de Almançor, como as fortalezas de Seia, Trancoso, Lamego, Tarouca, Viseu, Penalva e Coimbra. Das três cidades citadas (Lamego, Viseu e Coimbra), a primeira a ser conquistada foi Lamego, em 1057; no ano seguinte, recuperou-se Viseu, e Coimbra caiu em poder dos cristãos em 1064. Várias fontes, como o Chronicon Lusitanum e o Obituário Lamecense, informam-nos sobre o dia exacto em que Lamego foi reconquistada: sábado, 29 de Novembro de 1057, dia da festa de S. Saturnino, graças a uma operação militar de grande envergadura, devido às fortes muralhas que rodeavam o castelo, já de si de difícil acesso, obrigando à utilização de engenhos de guerra, de torres de madeira e catapultas, como nos relatam as velhas páginas da Historia Silense.
Na sequência destas conquistas, a fronteira entre cristãos e muçulmanos passou a ter como limite o rio Mondego, e o monarca procedeu a profundas alterações na administração do território sob seu domínio. O antigo condado de Coimbra foi entregue ao moçárabe Sesnando, recompensado pelo precioso auxílio prestado a Fernando Magno com o governo desse vasto espaço, que se estendia desde a terra de Santa Maria, a norte, até à fronteira sarracena, a sul, abarcando a leste os territórios de Lamego e Viseu.
À reconquista de uma sede de diocese seguia-se, por via de regra, a restauração da sua dignidade episcopal. Assim terá pretendido fazer o rei leonês, mas não chegou a concretizar tal intento, a não ser, segundo parece, em Viseu, onde, logo após a ocupação da cidade, encontramos um bispo de nome Sesnando (homónimo, pois, do conde conimbricense), que terá acompanhado o rei na conquista de Coimbra de 1064; de seguida, porém, cessam as notícias a seu respeito. Em Lamego, terá sido o filho de Fernando Magno, Sancho II, a nomear Pedro como bispo, em 1071, à semelhança do que fez em Braga, onde, também nesse ano, colocou na cátedra episcopal o célebre prelado do mesmo nome cuja actuação foi magistralmente estudada por Avelino Jesus Costa. Ao contrário, porém, do que se passou em Braga, o bispo de Lamego teve um episcopado efémero, e não conheceu sucessor». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

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quarta-feira, 29 de maio de 2019

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «O domínio cristão da cidade permitiu que as suas estruturas eclesiásticas se reactivassem e a igreja conhecesse um verdadeiro florescimento…»

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«(…) Para melhor se compreender a história da diocese de Lamego, inserida primeiro no reino suevo, depois no visigodo, em seguida no Condado de Coimbra e, finalmente, no Condado Portucalense e no emergente reino português, forçoso é recuar até ao mais antigo passado de Lamego como sede de bispado. Foi ainda durante o Império Romano que a religião cristã foi introduzida na Península Ibérica e se começaram a organizar, neste extremo ocidental da Europa, as primeiras comunidades de seguidores de Cristo (sobre os mais recuados tempos do cristianismo na província da Lusitânia, onde se integrava Lamego) assim também sucedeu na região de Lamego, onde sabemos que a romanização se fizera fortemente sentir. O desenvolvimento do cristianismo na zona levou a que Lamego se tornasse sede episcopal no século VI, durante o domínio suevo da parte norte do território futuramente português, e no tempo da acção missionadora levada a cabo por S. Martinho de Dume, a partir do mosteiro, próximo de Braga, ao qual o seu nome ficou para sempre associado. É nas actas do II Concílio realizado nesta cidade, em 572, que surge a mais antiga subscrição de um bispo de Lamego, Sardinário. Existem referências a anteriores prelados, que relevam provavelmente apenas do domínio da lenda ou, pelo menos, não têm qualquer comprovação documental; por isso, devemos considerar Sardinário como o primeiro bispo de Lamego de que há certeza, de acordo com as investigações mais seguras e recentes acerca desta difícil temática5.
Difícil, essencialmente, porque as fontes ao dispor dos investigadores são poucas e lacunares. Até ao final do século VII, provêm quase sempre, e unicamente, das subscrições episcopais conservadas nas actas dos concílios realizados pela Igreja hispânica; por esta via conhecemos oito prelados, de 572 a 693 (vid. Quadro I), cujos nomes, quase todos germânicos, formam uma sequência a que não podemos ter a certeza de não faltar alguém. É possível que Fiôncio tenha tido um ou mais sucessores, antes da queda da cidade em poder dos muçulmanos, poucos anos volvidos sobre a travessia do estreito de Gibraltar pelas tropas de Tarique, em 711. O seu rápido avanço em direcção ao norte peninsular provocou a desorganização das estruturas do reino visigodo, não apenas civis, mas também eclesiásticas; não admira, pois, que deixe de haver menções a prelados, tanto em Lamego como em grande parte dos bispados hispânicos, sobretudo à medida que iam ficando sob domínio muçulmano (sobre a forma como, rapidamente, as tropas árabes dominaram o território peninsular). À semelhança de outras dioceses, Lamego talvez tenha mantido durante a ocupação sarracena bispos não residentes, que se acolhiam mais a norte, em terras cristãs, como indiciam as notícias das décadas iniciais do século X (que cita um diploma de Ordonho II de 915, referindo a presença dos bispos de Lamego e Tui no norte da Galiza). Mas os seus nomes permanecem-nos desconhecidos, só voltando a haver referências a bispos na diocese depois de a cidade ter regressado a mãos cristãs, no último quartel do século IX, graças às acções militares do rei Afonso III (866-910), que permitiram devolver aos cristãos vastas zonas, desde o Minho ao Mondego (relativamente à conjuntura vivida no tempo de Afonso III e às suas conquistas). O domínio cristão da cidade permitiu que as suas estruturas eclesiásticas se reactivassem e a igreja conhecesse um verdadeiro florescimento, bem patente nos fragmentos de importantes códices dessa época que ainda hoje se conservam  (arciprestado de Vila Nova de Foz Côa, diocese de Lamego: breve ensaio sobre o território e as comunidades eclesiais)». In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

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terça-feira, 28 de maio de 2019

A Catedral de Lamego. Séculos XII a XX. Anísio Sousa Saraiva. «O esforço de contextualização e de síntese impresso neste evento científico ganha agora a sua forma definitiva e ampliada, através de uma organização temática…»

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Espaço. Poder. Memória
«Construído a partir da segunda metade do século XII em sucessivas etapas, o complexo catedralício da Sé de Lamego constitui um dos monumentos históricos mais emblemáticos não apenas da cidade de Lamego, mas de toda a região do Douro, razão pela qual sempre despertou grande interesse e tem sido objecto frequente de investigação e de problematização. No entanto, apesar deste lugar de relevo que ocupa no panorama patrimonial e historiográfico local e nacional, verificamos que os estudos até hoje dedicados a este edifício e às suas sucessivas fábricas construtivas resultam em grande parte de investigações pontuais e dispersas, na sua maioria realizadas a partir de leituras parciais e lacunares da documentação e do próprio edifício, que não concorrem para uma sólida interpretação de conjunto no tempo longo. Com este livro, Espaço, poder e memória: a catedral de Lamego, séculos. XII a XX, pretendemos, de algum modo, colmatar essa lacuna, infelizmente ainda comum à maioria das catedrais portuguesas, procurando promover a investigação e o debate interdisciplinar em torno destes monumentos nacionais, assim como incentivar a elaboração de sínteses coerentes e actualizadas sobre estes edifícios, neste caso concreto sobre a Sé Duriense e os seus mais de 800 anos de história. Ao aliarmos o rigor da informação, a interligação temática e cronológica das diferentes abordagens por nós selecionadas, a um discurso rigoroso mas ao mesmo tempo acessível, procurámos não só elaborar uma monografia de interesse científico, mas também uma actualizada e abrangente fonte de estudo e de informação, escrita e gráfica, adequada ao público em geral e à população escolar em particular, tão carente entre nós de obras com conteúdos simultaneamente apelativos e bem fundamentados do ponto vista científico.
A divulgação consistente do percurso histórico e artístico deste complexo monumental junto do grande público abre um caminho seguro para que este o possa melhor compreender, valorizar e preservar. Esta preocupação assume particular pertinência e oportunidade pela dinamização cultual e promoção histórico-cultural que recentemente têm recebido as catedrais portuguesas, enquanto espaços de religiosidade, arte e poder, quer no âmbito do turismo religioso, quer dos vários programas de musealização e de conservação em curso. Dando seguimento ao nosso propósito, considerámos importante reunir neste livro as contribuições de um leque de nove investigadores nacionais e estrangeiros, especialistas em diferentes áreas de trabalho, como a História, a História da Arte, a Arquitectura, a Conservação e o Restauro, e em diferentes períodos históricos, desde a Idade Média à Época Contemporânea, que na sua maioria foram sumariamente apresentadas pelos respectivos autores no Encontro Internacional Espaço, Poder e Memória: a Sé de Lamego em oito séculos de história, realizado no Museu de Lamego, em Abril de 2010, sob nossa coordenação e de Alexandra Braga, técnica superior deste mesmo Museu.
O esforço de contextualização e de síntese impresso neste evento científico ganha agora a sua forma definitiva e ampliada, através de uma organização temática, representativa dos principais momentos da história da catedral de Lamego: desde a nebulosa e pouco estudada fase inicial de restauração da diocese e de construção da catedral românica e gótica; passando pelo período áureo de renovação renascentista da Sé, fortemente impulsionada pela actividade mecenática dos bispos de então, até aos séculos da Contra-Reforma e ao impacto que tiveram na organização da estrutura da diocese e na sua praxis governativa, plasmada na reformulação arquitectónica e artística que a catedral então sofreu e que lhe conferiu a forma e a projecção que ainda hoje apresenta, sem esquecermos o período da sua história recente marcada pelas sempre interpeladoras intervenções da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais e abordagens técnicas de restauro que a catedral conheceu ao longo do século XX. […] Coimbra, 26 de Março de 2013

In Anísio Sousa Saraiva, Coordenação, Espaço, Poder, Memória, Faculdade de Teologia, Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2013, ISBN 978-972-836-157-0.

Cortesia de CEHR/UCP/FCT/JDACT