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segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «Após o cordeiro com alcachofra-brava, Zahara, sua meia-irmã de onze anos, trouxe uma bandeja de uvas-passas, mas Hernando nem sequer teve tempo de levar algumas à boca»

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«Apesar de que a ideia de a moça ter sido violentada por um sacerdote cristão lhe repugnasse, Brahim aceitou o trato e a levou consigo para Juviles. Mas, contra os desejos de Brahim, Hernando nasceu forte e com os olhos azuis do padre que havia violado sua mãe. Também sobreviveu à infância. As circunstâncias de suas origens correram de boca em boca, e, embora o povo se tivesse apiedado da moça violada, não sucedeu o mesmo com o fruto ilegítimo do estupro; aquele desprezo foi crescendo ao ver-se a atenção que dedicavam ao garoto o padre Martín e Andrés, maiores até que as que concediam às crianças cristãs, como se quisessem salvar da influência dos seguidores de Maomé o bastardo de um sacerdote.

O meio sorriso com que Hernando entregou as azeitonas à mãe não conseguiu enganá-la. Ela lhe acariciou o cabelo com doçura, como fazia sempre que pressentia sua tristeza, e ele, mesmo na presença de seus quatro meios-irmãos, a deixou fazer: eram poucas as ocasiões em que sua mãe podia demonstrar-lhe carinho, e todas, sem excepção, se davam na ausência de seu padrasto.

Brahim se havia somado sem hesitar à rejeição da comunidade mourisca; seu ódio pelo nazareno de olhos azuis, o favorito dos sacerdotes cristãos, havia recrudescido à medida que Aisha, sua mulher, dava à luz seus filhos legítimos. Aos nove anos, ele foi desterrado para o telheiro, com as mulas, e só comia dentro de casa quando o padrasto estava fora. Aisha teve de ceder aos desejos do marido, e a relação entre mãe e filho se dava através de gestos subtis carregados de significado.

Naquele dia, o almoço estava preparado, e seus quatro meios-irmãos esperavam sua chegada. Até o menor deles, Musa, de quatro anos, mostrava um semblante duro diante de sua presença. Em nome de Deus, clemente e misericordioso, rezou Hernando antes de sentar-se no chão. O pequeno Musa e seu irmão Aquil, três anos mais velho, o imitaram, e os três começaram a pegar com os dedos, directamente da caçarola, os pedaços da comida que sua mãe havia preparado: cordeiro com alcachofra brava cozinhados com azeite, menta e coentro, açafrão e vinagre.

Hernando desviou o olhar para a mãe, que os observava encostada numa das paredes da pequena e limpa peça que usavam como cozinha, sala de jantar e quarto provisório de seus meios-irmãos. Raissa e Zahara, suas duas meias-irmãs, achavam-se em pé junto a ela, à espera de que os homens terminassem de comer para poderem fazê-lo elas por sua vez. Ele mastigou um pedaço de cordeiro e sorriu para a mãe.

Após o cordeiro com alcachofra-brava, Zahara, sua meia-irmã de onze anos, trouxe uma bandeja de uvas-passas, mas Hernando nem sequer teve tempo de levar algumas à boca: um som de cascos abafado, distante, o obrigou a levantar a cabeça. Seus meios-irmãos perceberam o gesto e deixaram de comer, atentos à sua atitude; nenhum dos dois tinha capacidade de prever com tanta antecipação a chegada das mulas.

A Velha!, gritou o pequeno Musa quando o som da mula se tornou perceptível para todos. Hernando apertou os lábios antes de virar-se para a mãe. Eram os cascos da Velha, parecia confirmar ela com o olhar. Depois ele tentou sorrir, mas a expressão ficou num esgar triste, similar ao que esboçava Aisha: Brahim estava voltando para casa.

Louvado seja Deus, rezou para dar fim à refeição e levantar-se com aborrecimento.

Lá fora, a Velha, magra, seca, repleta de mataduras e livre de qualquer arreio, o esperava pacientemente. Venha, Velha, ordenou-lhe Hernando, e com ela se dirigiu para o telheiro.

O irregular som dos pequenos cascos do animal o acompanhou enquanto rodeava a casa. Uma vez no interior do telheiro, jogou-lhe um pouco de palha e acariciou-lhe o pescoço com carinho.

Como foi a viagem?, sussurrou-lhe enquanto examinava uma nova matadura, que não tinha antes de partir». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252-226-7.

Cortesia de Bertrand E/JDACT

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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «Você é fruto desse ultraje, sussurrou. Por isso... por isso o chamam de nazareno. Porque seu pai era um sacerdote cristão. É minha culpa... Mãe e filho se olharam durante longos instantes»

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«Era de estatura mediana, magro, ágil e musculoso. Acabava de recolher as últimas azeitonas de uma velha oliveira que resistia ao frio da serra, resguardada e retorcida bem ao lado do terraço em que cresceria o trigo. Fizera-o à mão. Subira na árvore, sem varejá-la, e colectara inclusive as olivas que tinham ainda uma tonalidade roxa. O sol temperava o ar frio que vinha de Sierra Nevada. Ele teria gostado de ficar ali para arrancar as ervas daninhas, para depois ir para outro terraço, onde supunha que o humilde Hamid estivesse trabalhando as poucas terras que possuía. Nos terraços, quando estavam os dois a sós, trabalhando ou percorrendo as serras em busca das excelentes ervas com que o homem preparava seus remédios, ele o chamava Hamid em vez de Francisco, o nome cristão com que havia sido baptizado. A maioria dos mouriscos usava dois nomes: o cristão, e o muçulmano para dentro de sua comunidade.

Hernando, no entanto, era simplesmente Hernando, ainda que no povoado amiúde zombassem dele ou o insultassem chamando-o de nazareno. Instintivamente, o rapazinho diminuiu a marcha ao recordar seu apelido. Ele não era nenhum nazareno! Chutou uma pedra imaginária e prosseguiu para casa, situada nas redondezas do povoado, num lugar onde acharam espaço suficiente para construir um telheiro onde estabular as seis mulas com que seu padrasto transportava mercadorias pelos caminhos das Alpujarras, mais uma sétima: a Velha, a sua preferida. Fazia cerca de um ano que sua mãe se vira obrigada a explicar-lhe a razão de tal apelido.

Certa manhã, ao amanhecer, ele havia ajudado seu padrasto, Brahim, José para os cristãos, a aparelhar as mulas. Feito o seu trabalho, despedia-se da Velha com uma carinhosa palmada no pescoço quando um forte tapa na orelha direita o derrubou no chão, alguns passos adiante.

Cão nazareno!, gritou Brahim, em pé, iracundo. O rapazinho sacudiu a cabeça para recuperar-se e pôs a mão na orelha. Atrás de seu padrasto, pareceu-lhe ver sua mãe desaparecer cabisbaixa e entrar em casa. Você pôs uma cincha ruim naquele animal!, bramou o homem ao mesmo tempo que apontava para uma das mulas. Pretende que tropece ao longo do caminho e não possa trabalhar? Você não passa de um inútil nazareno, cuspiu nele, um bastardo cristão.

Hernando havia escapado de gatas dos pés do padrasto e se havia escondido num canto do telheiro, no meio da palha, com a cabeça entre os joelhos. Assim que o martelar dos cascos da récua anunciou a partida de Brahim, Aisha, sua mãe, reapareceu no telheiro e se dirigiu para ele com uma limonada na mão. Está doendo?, perguntou-lhe, abaixando-se e acariciando-lhe o cabelo. Por que todos me chamam de nazareno, mãe?, soluçou levantando a cabeça dentre os joelhos. Aisha fechou os olhos diante do rosto coberto de lágrimas do filho. Tentou enxugá-las com uma carícia, mas Hernando virou a cabeça. Por quê?, insistiu.

Aisha suspirou profundamente; depois anuiu e se sentou sobre os calcanhares, na palha. Está bem, você já tem idade suficiente, cedeu com tristeza, como se o que iria fazer lhe custasse um grande esforço. Você tem de saber que há cerca de catorze anos, um ano antes de você ter nascido, o cura do povoado em que eu vivia quando menina, na ajerquía almeriense, me forçou... Hernando teve um sobressalto e calou seus soluços. Sim, filho. Eu gritei e me opus, como exige nossa lei, mas pouco pude fazer então diante da força daquele depravado. Ele me abordou longe do povoado, num campo, no meio da manhã. Era um dia ensolarado, recordou com tristeza. Eu era apenas uma menina!, gritou de repente. Ele me arrancou a roupa de um só puxão. Derrubou-me e... Antes de continuar, a mulher voltou à realidade e se defrontou com os olhos do filho, imensamente abertos e cravados nela: Você é fruto desse ultraje, sussurrou. Por isso... por isso o chamam de nazareno. Porque seu pai era um sacerdote cristão. É minha culpa...

Mãe e filho se olharam durante longos instantes. As lágrimas voltaram a correr pelo rosto do rapazinho, mas desta vez por causa de uma dor diferente; Aisha lutou contra seu próprio choro até que compreendeu que lhe seria impossível contê-lo. Então deixou cair o copo de limonada e estendeu os braços para o filho, que se refugiou no meio deles.

Ainda que a jovem Aisha tivesse salvado a honra com seus gritos, assim que a gravidez se tornou evidente, seu pai, um humilde arrieiro mourisco, consciente de que não podia evitar a vergonha, procurou ao menos uma forma de deixar de presenciá-la. Encontrou a solução em Brahim, um jovem e bem-apessoado arrieiro de Juviles com que amiúde se encontrava no caminho e a quem propôs o casamento com sua filha em troca de duas mulas como dote: uma pela mocinha, outra pelo ser que trazia no ventre. Brahim hesitou, mas era jovem, pobre e necessitava de animais. Além disso, quem sabia sequer se aquela criança chegaria a nascer? Talvez não passasse dos primeiros meses de vida... Naquelas inóspitas terras, eram muitas as crianças que morriam na mais tenra infância». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252-226-7.

 Cortesia de Bertrand E/JDACT

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «… pele bastante mais clara que a morena verde-escura de seus congéneres. Suas feições, contudo, eram similares às dos demais mouriscos de sobrancelhas espessas, apesar de que nelas se destacavam uns grandes olhos azuis»

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«Ó Misericordioso, insistiu um terceiro. E de repente, finalizada a oração cristã, voltou a impôr-se a áspera voz do sacerdote. Seu nome seja louvado, pôde-se ouvir naquele dia de uma das últimas fileiras. A maioria dos mouriscos permaneceu imóvel, rígida e firme; alguns arrostavam o olhar do beneficiado Salvador, mas eram majoritários os que escondiam o seu; quem havia ousado louvar o nome de Alá? O beneficiado abriu caminho aos empurrões entre as fileiras, mas não pôde assinalar o sacrílego. No meio da missa, com o padre Martín sentado e vigilante, o sacristão e o beneficiado, um com o livro e o outro com um cesto, esperavam para receber os óbolos dos presentes: moedas de blanca, pão, ovos, linho...

Somente os pobres estavam isentos de fazer donativos;no caso dos mais endinheirados, não fazê-los por três domingos implicava receber a correspondente multa. Andrés anotava detalhadamente quem e o que doava. Quando soou a de morrer, como chamavam a sineta que anunciava a consagração, os mouriscos se ajoelharam de má vontade entre as demonstrações de piedade dos cristãos-velhos. A de morrer soou no momento em que o sacerdote, de costas para os fiéis, elevava a hóstia; voltou a se fazer ouvir quando, também de costas, ergueu o cálice. O sacerdote se preparava para dizer as palavras sacramentais quando, de repente, zangado com os murmúrios que agitavam a igreja, se virou para os fiéis com semblante furioso. Seus cães!, gritou. A imprecação salpicou de saliva o sagrado vaso. Que são esses murmúrios? Calem-se, hereges! Ajoelhem-se como devido para receber a Cristo, o único Deus!

Você! Seu indicador apontou para um velho da terceira fileira. Levante-se! Não está idolatrando o seu falso Deus. Olhem! Levantem os olhos quando lhes for oferecido o Santíssimo Sacramento!

Seu olhar fulminou outros dois mouriscos antes de continuar. Depois, homens e mulheres foram em silêncio comer a torta. Muitos deles tentariam manter a pasta de trigo na boca ensalivada até poder cuspi-la em casa; todos os mouriscos, sem excepção, fariam gargarejos para livrar-se de seus restos.

As pessoas deixaram a igreja após lhe terem benzido com a paz; uns, os cristãos, a receberam com devoção: outros, a grande maioria, zombavam fazendo o sinal da cruz ao contrário, afirmando em silêncio a unicidade de Deus e escarnecendo da Trindade, que tinham de invocar ao fazer o sinal da cruz. Os mouriscos se apressaram a voltar para casa para cuspir a torta. Os poucos cristãos do povoado se aglomeraram às portas da igreja para conversar, alheios aos insultos que seus filhos gritavam contra a velha, que por fim havia caído da escada e estava no chão, encolhida e intumescida, com os lábios azulados, respirando com dificuldade. No interior do templo, o padre e seus ajudantes prolongaram o castigo do penitente, e não cessaram de recriminá-lo por suas culpas enquanto recolhiam os objectos de culto e os levavam do altar para a sacristia.

Os mouriscos se lançaram à rebelião, é verdade, mas são os cristãos-velhos que os levam ao desespero, com sua arrogância, suas defraudações e a insolência com que se apoderam de suas mulheres. Os próprios sacerdotes se comportam do mesmo modo. Como toda uma aldeia mourisca se tinha queixado diante do arcebispo de seu pastor, mandou-se averiguar o motivo da queixa. Que o levem daqui, pediam os paroquianos... senão que o casem, pois todos os nossos filhos nascem com olhos tão azuis como os dele.

Francés de Álava, embaixador da Espanha na França, a Felipe II, 1568: Juviles era o lugar principal de uma taa composta por uma vintena de aldeias distribuídas pelos escabrosos contrafortes de Sierra Nevada. De todas as suas terras, um quarto dos marjales era de regadio e o restante de sequeiro. Cultivava-se trigo e cevada; contava com mais de quatro mil marjales de vinha, oliveiras, figueiras, castanheiros e nogueiras, mas sobretudo amoreiras, o alimento dos bichos-da-seda, a maior fonte de riqueza da região, ainda que a de Juviles tampouco alcançasse o prestígio de que gozava a seda de outras taas das Alpujarras.

Naquelas alturas, mais de mil varas acima do nível do mar, os mouriscos, sofridos e laboriosos, cultivavam até o pedaço de terra mais abrupto que pudesse proporcionar algo de seara. As encostas da montanha, ali onde não assomava a rocha, escalonavam-se através de pequenos terraços encravados nos lugares mais recônditos. Naquele dia, com o sol já a pino, voltava a Juviles, procedente de um daqueles terraços, o jovem Hernando Ruiz, um rapazinho de catorze anos de idade, de cabelo castanho-escuro apesar da pele bastante mais clara que a morena verde-escura de seus congéneres. Suas feições, contudo, eram similares às dos demais mouriscos de sobrancelhas espessas, apesar de que nelas se destacavam uns grandes olhos azuis». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252-226-7.

Cortesia de Bertrand E/JDACT

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sábado, 9 de dezembro de 2023

A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «Durante a missa, alguns rezavam. As crianças, atentas ao sacristão, o faziam em voz alta, quase aos gritos, tal como lhes haviam ensinado seus pais, porque assim eles podiam burlar a presença do beneficiado, com suas idas e vindas, para clamar às escondidas: Allahu Akbar…»

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«Marcos Núñez. Presente. Você faltou à missa do domingo passado – afirmou o sacristão. Estive... O homem tentou explicar-se, mas não lhe saíam as palavras. Terminou a frase em árabe enquanto esgrimia um documento. Aproxime-se, ordenou-lhe Andrés. Marcos Núñez passou entre os presentes até chegar perto do altar. Estive em Ugíjar, conseguiu desculpar-se desta vez, enquanto entregava o documento ao sacristão. Andrés o folheou e o passou ao padre, que o leu atentamente até verificar a assinatura e anuir com um esgar: o abade-mor da colegiada de Ugíjar certificava que em 5 de Dezembro do ano de 1568 o cristão-novo chamado Marcos Núñez, morador de Juviles, havia assistido à missa maior oficiada naquela povoação.

O sacristão esboçou um sorriso quase imperceptível e escreveu algo no livro antes de prosseguir com a interminável lista de cristãos-novos, os muçulmanos obrigados pelo rei a baptizar-se e abraçar o cristianismo, cuja assistência aos santos ofícios tinha de verificar cada domingo e dias de preceito. Alguns dos interpelados não responderam, e sua ausência foi cuidadosamente registada. Duas mulheres, ao contrário de Marcos Núñez com seu certificado de Ugíjar, não puderam justificar por que não haviam comparecido à missa celebrada no domingo anterior. Ambas tentaram desculpar-se atropeladamente. Andrés as deixou explanar e desviou o olhar para o padre. A primeira retrocedeu de sua tentativa assim que o padre Martín lhe instou que se calasse com um autoritário gesto de mão; a segunda, no entanto, continuou argumentando que naquele domingo havia estado doente. Perguntem a meu esposo!, gritou enquanto procurava o marido com olhar nervoso nas filas posteriores. Ele lhes... Silêncio, aduladora do diabo!

O grito do padre Martín emudeceu a mourisca, que optou por baixar a cabeça. O sacristão anotou seu nome: ambas as mulheres pagariam uma multa de meio real. Após um longo tempo de averiguação, o padre Martín deu início à missa, não sem antes indicar ao sacristão que obrigasse o penitente a elevar mais as mãos que seguravam os círios.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo... A cerimónia continuou, ainda que fossem poucos os que entendiam as leituras sagradas ou podiam acompanhar o ritmo frenético e os constantes gritos com que o sacerdote os repreendeu durante a homilia. Porventura acreditam que a água de uma fonte os curará de alguma doença? O padre Martín apontou para o homem ajoelhado; seu dedo indicador tremia, e suas feições se mostravam crispadas. É a penitência de vocês. Só Cristo pode livrá-los das misérias e privações com que castiga sua vida dissoluta, suas blasfémias e sua sacrílega atitude!

Mas a maioria deles não falava castelhano; alguns se entendiam com os espanhóis em aljamiado, um dialecto mesclado de árabe e romance. No entanto, todos tinham a obrigação de saber o Padre-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, a Salve-Rainha e os mandamentos em castelhano. As crianças mouriscas, graças às lições que recebiam do sacristão; os homens e as mulheres, pelas sessões de doutrina que lhes eram ministradas às sextas-feiras e aos sábados, e às quais tinham de comparecer sob pena de ser multados e não poder contrair matrimónio. Só quando demonstravam saber de cor as orações é que os eximiam de ir à aula.

Durante a missa, alguns rezavam. As crianças, atentas ao sacristão, o faziam em voz alta, quase aos gritos, tal como lhes haviam ensinado seus pais, porque assim eles podiam burlar a presença do beneficiado, com suas idas e vindas, para clamar às escondidas: Allahu Akbar. Muitos o sussurravam de olhos fechados, suspirando. Oh, Clemente! Liberte-me de minhas tachas, de meus vícios... ouvia-se entre as fileiras de homens assim que o beneficiado Salvador se afastava um pouco.

A verdade é que não se afastava demais, como se temesse que o desafiassem invocando o Deus dos muçulmanos no templo cristão, durante a missa maior. Ó Soberano! Guie-me com seu poder... clamou um jovem mourisco várias fileiras adiante, no meio do bulício do Padre-Nosso gritado pelas crianças. O beneficiado Salvador se virou arrebatado. Ó Dador de paz, ponha-me em sua glória..., aproveitou para implorar outro, do lado oposto. O beneficiado ficou vermelho de raiva». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252-226-7.

Cortesia de Bertrand E/JDACT

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A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «Terminou o repicar do sino; os cristãos que ainda estavam do lado de fora se apressaram a entrar na igreja. Em seu interior, a poucos passos do altar e de frente para os fiéis, um homenzarrão moreno e curtido pelo sol permanecia de joelhos…»

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«Se um muçulmano está combatendo ou se encontra em zona pagã, não tem obrigação de mostrar uma aparência diferente da dos que o cercam. Nestas circunstâncias, o muçulmano pode preferir ou ser obrigado a se  parecer com eles, com a condição de sua atitude supor um bem religioso, como pregar-lhes, ficar sabendo de segredos e transmiti-los a muçulmanos, evitar um dano ou algum outro fim de proveito». In Ahmad Ibn Taymiya [(1263-1328), famoso jurista árabe]

Juviles, as Alpujarras, reino de Granada. Domingo, 12 de Dezembro de 1568

«O soar do sino que chamava para a missa maior das dez da manhã rompeu a gélida atmosfera que envolvia aquele pequeno povoado, situado num dos muitos contrafortes de Sierra Nevada; seus ecos metálicos se perdiam despenhadeiro abaixo, como se quisessem despedaçar-se contra as fraldas da Contraviesa, a cadeia montanhosa que, pelo sul, encerra o fértil vale percorrido pelos rios Guadalfeo, Adra e Andarax, todos eles regados por uma infinidade de afluentes que descem dos picos nevados. Para além da Contraviesa, as terras das Alpujarras se estendem até ao mar Mediterrâneo. Sob o tímido sol de Inverno, cerca de duzentos homens, mulheres e crianças, a maioria arrastando os pés, quase todos em silêncio, dirigiram-se para a igreja e se reuniram às suas portas.

O templo, de pedra ocre e carente de qualquer adorno exterior, constava de um único e simples corpo rectangular, num de cujos lados se erguia a rija torre que alojava o sino. Junto à construção, se abria uma praça sobre as intrincadas canhadas que desciam para o vale vindas da Sierra Nevada. Da praça, em direcção à serra, nasciam estreitas ruelas margeadas por uma multidão de casas recobertas de ardósia pulverizada: moradas de um ou dois andares, de portas e janelas muito pequenas, coberturas planas e chaminés redondas coroadas por uma carapaça em forma de seta. Dispostos sobre os terrados, pimentões, figos e uvas secavam ao sol. As ruas escalavam sinuosamente as encostas da montanha, de forma que os terrados das de baixo alcançavam os alicerces das superiores, como se se erguessem umas sobre as outras.

Na praça, diante das portas da igreja, um grupo formado por algumas crianças e vários cristãos-velhos da vintena que vivia no povoado observava uma anciã no alto de uma escada que estava apoiada na fachada principal do templo. A mulher tiritava e rangia os poucos dentes que lhe restavam. Os mouriscos iam para a igreja sem desviar o olhar de sua irmã na fé, que estava encarapitada ali desde o amanhecer, aferrada à última barra, suportando sem casaco o frio do Inverno. O sino repicava, e uma das crianças apontou para a mulher, que tremia ao som das badaladas, tentando manter o equilíbrio. Risos romperam o silêncio. Bruxa!, ouviu-se entre as gargalhadas. Algumas pedradas acertaram no corpo da velha, ao mesmo tempo que a base da escada se enchia de más-palavras e/ou palavrões.

Terminou o repicar do sino; os cristãos que ainda estavam do lado de fora se apressaram a entrar na igreja. Em seu interior, a poucos passos do altar e de frente para os fiéis, um homenzarrão moreno e curtido pelo sol permanecia de joelhos sem capa nem casaco, com uma corda ao pescoço e os braços em cruz: segurava um círio aceso em cada mão.

Dias antes, aquele mesmo homem havia entregado à velha da escada a camisa de sua mulher doente para que a lavasse numa fonte cujas águas, dizia-se, tinham poderes curativos. Naquela fontezinha natural, oculta entre as rochas e a espessa vegetação da fragosa serra, jamais se lavava a roupa. O padre Martín, o cura do povoado, surpreendeu a mulher enquanto lavava essa única camisa e não duvidou de que se tentava algum sortilégio. O castigo não demorou a chegar: a velha iria passar a manhã de domingo no alto da escada, exposta ao escárnio público. O ingénuo mourisco que havia solicitado o encantamento foi condenado a fazer penitência enquanto assistia à missa de joelhos, e dessa maneira podiam contemplá-lo então os ali presentes.

Assim que entraram no templo, os homens se separaram de suas mulheres, e estas, com suas filhas, ocuparam as fileiras da frente. O penitente ajoelhado tinha o olhar perdido. Todas o conheciam: era um bom homem; cuidava de suas terras e das poucas vacas que possuía. Só pretendia ajudar sua mulher doente! Pouco a pouco os homens se puseram, ordenadamente, atrás das mulheres. No momento em que todos já haviam ocupado seus  lugares, chegaram ao altar o padre Martín, o beneficiado Salvador e Andrés, o sacristão. O padre Martín, barrigudo, de tez muito branca e faces rosadas, usando uma casula de seda bordada em ouro, acomodou-se numa cadeira diante dos fiéis. Em pé, um de cada lado, postaram-se o beneficiado e o sacristão. Alguém fechou as portas da igreja; cessou a corrente, e as chamas das lâmpadas deixaram de tremeluzir. O colorido artesoado mudéjar do tecto da igreja brilhou então, competindo com os sóbrios e trágicos retábulos do altar e com os laterais. O sacristão, um jovem alto, vestido de negro, magro e de tez morena, como a grande maioria dos fiéis, abriu um livro e pigarreou. Francisco Aguazil, leu. Presente. Após verificar de onde vinha a resposta, o sacristão anotou algo no livro. José Almer. Presente. Outra anotação. Milagros García, María Ambroz... As chamadas eram respondidas com um presente que, à medida que Andrés dizia a lista, soava cada vez mais parecido com um grunhido. O sacristão continuou verificando rostos e tomando nota». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252,226-7.

 Cortesia de Bertrand E/JDACT

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domingo, 13 de novembro de 2022

O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «… calculava-se que em número superior a dez mil, os chamados trinxeraires, sobreviviam nas ruas de Barcelona, mendigando, furtando e dormindo à intempérie…»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Dalmau enfiou um guarda-pó por cima da camisa bege que lhe chegava até aos joelhos e que, com umas calças de uma mescla de lã e linho de um tom escuro indefinido, boné e sapatos de couro negro abotinados, constituíam a sua indumentária habitual. Quando se sentou diante dos inúmeros esboços espalhados em cima da sua mesa de trabalho e ordenou os lápis, as vozes, os risos, os gritos e os ruídos próprios daquela fábrica em funcionamento, alguns estrepitosos, desvaneceram-se. Dalmau aplicou todos os seus sentidos naqueles desenhos japoneses, tentando assimilar a técnica oriental que prescindia do realismo em busca de uma beleza estilizada, sem sombras, tão distante dos critérios ocidentais quanto apreciada num mercado voltado para a procura da diferença, do exótico, do moderno.

Tal como se abstraiu de qualquer ruído, o silêncio das instalações vazias quando a noite caiu sobre Barcelona apanhou-o absorto no trabalho. Tinha comido quase sem apetite, como se fosse uma contrariedade, o almoço que lhe levaram e, mais tarde, foi respondendo com um simples murmúrio a quantos espreitaram pela porta do seu estúdio para se despedirem. Don Manuel, um dos últimos a sair, não foi excepção e, depois de estalar a língua, um gesto que ninguém saberia se atribuir à satisfação ou ao desgosto, virou costas a Dalmau, que ignorou as suas palavras sem sequer erguer o olhar dos desenhos. Passadas mais algumas horas, a luz dos bicos dos candeeiros a gás que iluminavam o estúdio diminuiu de intensidade até quase o deixar na penumbra. Quem apagou a luz?, protestou Dalmau. Quem anda aí? Sou eu, Paco, respondeu o guarda-nocturno, abrindo a torneira do gás para que o estúdio se iluminasse de novo. A luz revelou um ancião encolhido, envelhecido. Era uma excelente pessoa, mas não devia estar ali. O mestre tinha proibido o acesso aos estúdios, onde se encontravam os esboços e projectos, obras meio concluídas, material que só o pessoal da máxima confiança podia ver.

O que fazes aqui?, perguntou Dalmau, com estranheza. Don Manuel ordenou-me que, se te atrasasses muito, te mandasse embora. O homem sorriu mostrando as gengivas da boca sem dentes. A situação na cidade é complicada, o povo está muito alterado, explicou, e a tua mãe deve estar preocupada. Talvez Paco tivesse razão. De qualquer modo, a distracção concedeu às tripas de Dalmau a oportunidade de protestarem com fome, o que, juntamente com o cansaço que sentiu de repente nos olhos, o aconselhou a dar a jornada por terminada. Apaga, pediu ao vigilante, enquanto atirava o guarda-pó para o cabide que se encontrava a um canto, onde ficou precariamente pendurado por uma das mangas. O que aconteceu na cidade?, quis saber enquanto fechava a secretária.

A situação complicou-se. Os piquetes, principalmente mulheres e adolescentes, percorreram a cidade velha apedrejando as fábricas e oficinas até fecharem. Parece que durante a manhã viraram um eléctrico e isso encorajou-as. Dalmau expirou fundo. Aconteceu algo semelhante com as grandes fábricas do bairro de Sant Martí. Assaltaram esquadras da polícia. A rapaziada aproveitou para fazer das suas e queimou algumas repartições de impostos, provavelmente depois de as assaltarem. Está tudo numa grande agitação. Desceram pelas escadas até aos armazéns do primeiro piso. Aí, antes de sair para o extenso terreno que rodeava as construções, onde se trabalhava a argila, Dalmau despediu-se dos dois gaiatos que não deviam ter mais de dez anos e que viviam e dormiam na fábrica, numa manta no chão, perto do calor dos fornos durante o Inverno, dos quais se iam afastando à medida que o tempo se tornava mais clemente. Nem sequer eram aprendizes; serviam para tudo: limpar, fazer recados, trazer água… Ambos tinham família; era o que diziam: operários que trabalhavam no bairro de Sant Martí, a Manchester Catalã, e sobreviviam amontoados em casas partilhadas por várias famílias. Sant Martí ficava longe e o mestre não via inconveniente em que vivessem na fábrica e ganhassem alguns cêntimos; em troca, apenas lhes exigia que aos domingos fossem à missa na paróquia de Santa Maria del Remei de Les Corts. As famílias não pareciam importar-se que aqueles rapazes vivessem na fábrica, ninguém apareceu a perguntar por eles. Havia-os em piores circunstâncias, pensou Dalmau enquanto revolvia o cabelo despenteado de um deles ao cruzar a porta: um exército de rapazes, calculava-se que em número superior a dez mil, os chamados trinxeraires, sobreviviam nas ruas de Barcelona, mendigando, furtando e dormindo à intempérie, em qualquer buraco onde conseguissem acomodar-se; eram órfãos ou apenas crianças abandonadas, como aqueles dois aprendizes de quem as famílias não podiam cuidar nem alimentar». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

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O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «… em azulejos e revestimentos de paredes, mosaicos, forjados, marcenaria e vitrais, assim como nos milhares de esculturas de gesso que ornamentavam os edifícios»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Aquelas duas obras, entre muitas outras que já clamavam uma mudança, uma concepção diferente da arquitectura, foram, nas palavras do mestre de Dalmau, as precursoras da Casa Calvet na Rua Casp de Barcelona, na qual Gaudí começou a abandonar a concepção historicista, que inspirou a sua obra durante a primeira fase do século anterior, para desenvolver uma arquitectura na qual pretendia que a matéria ganhasse movimento. Movimento, as pedras!, exclamava don Manuel Bello, com a perplexidade espelhada no rosto.

As mulheres e os edifícios, confessou certa vez a Dalmau, vão-se desprendendo pouco a pouco da sua classe, porte e senhoria, da sua história, e prostituem-se: umas para se transformarem em cobras serpenteantes, e outros em matéria inconsistente. O homem virou-lhe as costas com espalhafato, como se o universo se estivesse a desmoronar. Dalmau evitou replicar que se sentia atraído por mulheres serpenteantes e que admirava aqueles que queriam que o ferro forjado, a pedra e, inclusivamente, a cerâmica, ganhassem movimento. Quem, a não ser um bruxo, um mago, um criador excepcional, podia apresentar ao espectador a matéria transformada em fluido!

Uma grande carroça carregada de argila, puxada por quatro poderosos percherons com a cabeça, pescoço e garupa fortes e imponentes, e patas grossas e peludas, que passou lenta e pesadamente ao seu lado, fazendo estremecer a terra, arrancou Dalmau dos seus pensamentos. Ergueu a vista para ver a abarrotada traseira da carroça recortada contra as chaminés altas dos fornos da fábrica que se erguiam bem acima dele. Manuel Bello García. Fábrica de Azulejos. Era este o anúncio que, em cerâmica branca e azul, rematava o portal da entrada; a partir daí, abria-se uma zona ampla com tanques e secadouros, junto aos armazéns, às oficinas e aos fornos. Era uma fábrica de média dimensão, que produzia trabalhos em série, mas também elaborava as peças especiais que os arquitectos ou mestres-de-obras desenhavam ou imaginavam para os seus edifícios ou os inúmeros estabelecimentos comerciais, lojas, farmácias, hotéis, restaurantes e outros que recorriam à cerâmica como um dos elementos decorativos por excelência.

Era esse o trabalho de Dalmau: desenhar. Criar modelos originais que depois eram fabricados em série e faziam parte do catálogo da firma; concretizar e desenvolver aqueles que os mestres-de-obras imaginavam para os seus edifícios ou estabelecimentos, e que apenas esboçavam, ou então executar os modelos que os grandes arquitectos modernistas lhes levavam já perfeitamente elaborados. Desculpe, don Manuel… Dalmau apresentou-se no escritório e estúdio do mestre, junto às oficinas da fábrica, no primeiro piso de um dos edifícios que compunham o complexo. Mas a situação no bairro velho era caótica. Manifestações, cargas da polícia, exagerou. Tive de zelar pela minha mãe e a minha irmã. Devemos cuidar das nossas mulheres, filho. Don Manuel, estritamente de negro, sóbrio, como era devido, com uma gravata verde-escura com um nó enorme, assentiu por detrás da mesa de mogno que ocupava. As patilhas compridas e fartas juntavam-se ao bigode, também espesso, numa mata de pêlo impecavelmente delineada que deixava o pescoço e o queixo sem barba. Elas precisam de nós. Fazes bem. Esses anarquistas e libertários é que vão arruinar o país! Espero que a Guarda Civil se tenha esforçado com eles! Mão dura! É o que merecem todos esses ingratos! Não te preocupes, filho. Vai trabalhar. O estúdio de Dalmau confinava, porta com porta, com o do mestre. Ele também não trabalhava com os outros empregados, em salas comuns; dispunha de um espaço para si, um local bastante amplo onde podia concentrar-se no seu trabalho, que naquela altura consistia em desenhar uma série de azulejos com motivos orientais: flores-de-lótus, nenúfares, crisântemos, canas de bambu, borboletas, libélulas…

Dominar o desenho de flores custou-lhe vários cursos nos estudos que efectuou na escola da Llotja de Barcelona. As flores naturais, as flores de perfil, as flores à sombra, o desenho e, por último, a composição a óleo. Dentro das matérias que se estudavam na Llotja, aonde Dalmau ingressou aos dez anos, que incluíam aritmética, geometria, desenho figurativo, desenho linear e decorativo, desenho do natural e pintura, uma das mais importantes era a do desenho aplicado às artes e ao fabrico. Para isso foi criada a escola da Llotja, para ensinar arte aos operários que necessitavam com o objectivo de a aplicarem na indústria.

No entanto, em meados do século XIX começou a dar-se preferência às artes puras em detrimento das artes aplicadas, mas sem abandonar estas últimas, as destinadas a providenciar recursos à indústria, e entre as quais se encontrava, sem dúvida alguma, o desenho de flores. Os elementos botânicos foram o ornamento por excelência da arte gótica, e agora, devido à procura das inspirações medievais, usavam-se na decoração de tecidos e vestidos, a indústria que fazia mover a Catalunha, e, com o modernismo arquitectónico, em azulejos e revestimentos de paredes, mosaicos, forjados, marcenaria e vitrais, assim como nos milhares de esculturas de gesso que ornamentavam os edifícios». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «Poucos anos depois, Puig i Cadafalch assumiu a reconstrução da Casa Amatller, no Paseo de Gràcia, com elementos góticos, quebrando simetrias e classicismos…»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Cala-te! Que nojo!, queixou-se Emma, empurrando Montserrat. Mas porque tens de imaginar as mulheres nuas?, perguntou a Dalmau. Não te chega o que tens em casa? Fez esta última observação a arrastar as palavras, com um tom de voz doce, aduladora. Dalmau puxou-a para si e beijou-a nos lábios. Claro que me satisfaz, sussurrou.

Com efeito, à excepção de recorrer a fotografias eróticas, às escondidas, nas quais estudava a nudez feminina que o mestre lhe impedia, Emma era a única que tinha posado nua para ele. Montserrat, conhecedora do facto, também se ofereceu para o fazer. Como vou pintar nua a minha própria irmã?, contestou. É algo artístico, não?, insistiu ela, fazendo menção de tirar a camisa, o que Dalmau impediu agarrando-lhe a mão. Adoro os desenhos que fizeste da Emma! Está tão…, sensual! Tão mulher! Parece uma deusa! Ninguém diria que é cozinheira. Gostava de verme assim e não como uma vulgar operária de uma fábrica de estampagem de tecidos de algodão.

Ao ver que a irmã puxava para baixo a saia floreada que vestia como se quisesse livrar-se desta, Dalmau fechou os olhos por instantes. Eu também gostava que me desenhasses assim, opinou Montserrat. E a mãe iria gostar?, interrompeu ele. Montserrat contorceu o lábio superior e abanou a cabeça, resignada. Não é preciso que te pinte nua para saberes que és tão bonita quanto Emma, Dalmau procurou confortá-la. Todos se apaixonam por ti! Estão loucos por ti, tens-nos aos teus pés. Naquele dia, devido ao derrube do eléctrico nas Ramblas, Dalmau já estava bastante atrasado para o trabalho e não tinha tempo para se divertir na imaginária nudez das burguesas que se pavoneavam no Paseo de Gràcia. Tampouco para observar as construções modernistas que se erguiam no Eixample, o Ensanche de Barcelona: a zona extramuros da cidade onde, durante séculos, se proibiu a construção por motivos de defesa militar e que, no século XIX, com a demolição das muralhas, foi urbanizada. O mestre Bello desprezava aquelas construções modernistas, embora fizesse bom negócio na sua fábrica a vender cerâmica aos construtores.

Filho, desculpou-se no dia em que Dalmau se atreveu a chamar a atenção para essa contradição, negócio é negócio. O certo era que, tal como sucedia com os vestidos das mulheres, o modernismo impôs mudanças importantes desde a Exposição Universal de Barcelona de 1888, uma evolução difícil de admitir para as personalidades mais conservadoras. Na última década do século XIX, as mulheres, livres da crinolina que as assemelhava aos caracóis, continuaram a usar vestidos rígidos, idênticos aos medievais. Durante essa década, os arquitectos também procuraram inspirar-se na Idade Média tentando emular a grandeza da Catalunha daquela época. Domènech i Montaner recuperava técnicas com materiais da própria terra, como os tijolos à vista, e assim construiu o café-restaurante da própria exposição de 1888, um imponente castelo com ameias de influências orientais, no qual, todavia, foi concedida licença para colocar, no friso exterior, cerca de cinquenta escudos de cerâmica de cor branca, dos mais de cem que tinha previstos, onde se anunciavam os produtos que se podiam consumir no interior do estabelecimento: um marinheiro a beber genebra, uma rapariga a comer um gelado, uma cozinheira a preparar chocolate…

Poucos anos depois, Puig i Cadafalch assumiu a reconstrução da Casa Amatller, no Paseo de Gràcia, com elementos góticos, quebrando simetrias e classicismos e dotando Barcelona da sua primeira fachada colorista. Nesta, tal como havia feito Domènech no seu café-restaurante da Exposição Universal, Puig jogou com os elementos decorativos e, aproveitando os interesses do proprietário do edifício, incluiu uma multiplicidade de animais grotescos: um cão, um gato, uma raposa, uma cabra, uma ave e uma lagartixa como guardiões; uma rã que sopra vidro e outra que brinda com um copo; dois suínos a esculpirem um jarrão; um asno a ler um livro, outro que o observa com óculos; um leão apaixonado pela fotografia junto a um urso com um guarda-chuva; um coelho que funde metal enquanto outro lhe leva água, e um macaco que martela numa bigorna». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

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O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «Era compreensível para quem conhecesse a mulher de don Manuel, zombava Dalmau às escondidas. Burguesa, reaccionária, conservadora, católica recalcitrante (até à medula!)»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Emma e Montserrat, transpiradas, com o rosto sujo e enegrecido devido ao pó que se levantou com a queda do vagão, saltavam excitadas, instigavam as companheiras e erguiam os braços empoleiradas no eléctrico.

Dalmau sentiu os pêlos do corpo a eriçarem-se ao ver aquelas duas jovens mulheres. Valentes! Empenhadas! Recordou as vezes em que, juntamente com as mães e as mulheres dos operários, se precipitaram para a rua em defesa de uma causa. Dalmau não chegava a ser dois anos mais velho do que elas e, apesar disso, aquelas duas jovens, como se o facto de serem mulheres a tal as obrigasse, superavam-no em ousadia e gritavam, insultavam e, inclusivamente, desafiavam a Guarda Civil. E agora estavam ali, em cima de um eléctrico que tinham acabado de derrubar com as mãos. Dalmau estremeceu, depois ergueu o punho e, excitado, juntou-se aos gritos e reivindicações da populaça.

A emoção e o estrondo ainda continuavam a ecoar no íntimo de Dalmau, agitando-o, ensurdecendo-o, enquanto subia o Paseo de Gràcia de Barcelona em direcção à fábrica de cerâmica onde trabalhava, situada em Les Corts, num descampado junto à ribeira de Bargalló. Não chegou a ter oportunidade de falar com as duas jovens pois, assim que conseguiram o seu objectivo, o nervosismo demonstrado pela Guarda Civil forçou a dissolução do piquete e fez com que as mulheres e os filhos dispersassem em todas as direcções. Talvez Montserrat e Emma fossem reconhecíveis, pensou Dalmau. Com toda a certeza, disse para si, e sorriu ao mesmo tempo que dava um pontapé na folha caída de uma árvore. Quem podia esquecê-las ali de pé, em cima do eléctrico? No entanto, confundiram-se rapidamente com as outras que se encontravam no mercado da Boqueria ou nas Ramblas: mulheres como tantas outras, vestidas com saia comprida até aos artelhos, avental e camisa, de um modo geral com as mangas arregaçadas. As mais velhas costumavam ter a cabeça coberta com um lenço, em geral negro; as outras apanhavam o cabelo num carrapito, sem chapéu. Eram mulheres radicalmente diferentes das que se podiam ver a deambular pelo Paseo de Gràcia, ricas e elegantes.

Todos os dias, quando ia ou vinha por aquela grande artéria da Cidade Condal, Dalmau entretinha-se a contemplar as senhoras que passeavam, orgulhosas, por entre amas vestidas de branco com os seus bebés, cavalos e carruagens. O peito, o ventre e as nádegas; diziam que esses eram os três padrões pelos quais se devia julgar a mulher ideal. A moda feminina tinha evoluído com o modernismo, tal como a arquitectura e as outras artes, e foi substituindo as peças medievais, rígidas, usadas durante a última década do século anterior, por outras que revelavam mulheres vivas, com os corpetes a realçarem as formas naturais dos corpos numa espécie de serpentear maravilhoso: seios espetados; ventres planos, comprimidos, e atrás as nádegas, empinadas, como se estivessem dispostas a atacar a qualquer momento. Quando tinha tempo, Dalmau sentava-se num dos bancos do Paseo e fazia esboços a lápis daquelas mulheres, embora na sua imaginação costumasse evitar a vestimenta e as desenhasse nuas. Não queria limitar-se àquilo que os corpetes e os vestidos insinuavam. Os pés, as pernas, os tornozelos, sobretudo os tornozelos, finos e magros, com os tendões tensos como cordas; mãos e braços. E os pescoços! Porquê reparar só naqueles três critérios: peito, ventre e nádegas? Gostava do nu feminino, mas infelizmente não tinha oportunidade de trabalhar com modelos despojadas de roupa; o seu mestre, don Manuel Bello, proibira-o. Nus masculinos, sim; femininos, não. Se ele não o fazia, contrapunha o mestre, não seria Dalmau a fazê-lo. Era compreensível para quem conhecesse a mulher de don Manuel, zombava Dalmau às escondidas. Burguesa, reaccionária, conservadora, católica recalcitrante (até à medula!), virtudes estas que partilhava com o marido, a mulher agarrava-se à moda velha, abandonada há alguns anos, e ainda usava a crinolina, uma espécie de armação que se atava à cintura para que a saia ficasse bojuda atrás.

Tal qual um caracol!, troçava, quando explicava a Montserrat e a Emma. Tudo para a frente e uma espécie de carapaça que lhe sai do rabo e que carrega aonde quer que vá. Acreditam que sou incapaz de a imaginar nua? As duas riram. Nunca tiraste a carapaça a um caracol?, perguntou-lhe a irmã. Pois pões um pouco de cabelo a essa lesma em vez dos cornichos e aí tens a tua burguesa nua, babando-se como todas elas». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Pintor das Almas. Ildefonso Falcones. «As mulheres explodiram em gritos de vitória, enquanto os poucos passageiros que ousaram utilizar o transporte e viajavam na parte superior do vagão, ao ar livre, sentados ao sol…»

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Barcelona, Maio de 1901

«(…) Não havia muitos anos, quatro ou cinco, Dalmau cometeu o mesmo desplante perante a polícia; a mãe atrás dele, a gritar, exigindo justiça ou melhorias sociais, encorajando-o à luta, como fazia a maioria das mães que interpunham os filhos em defesa de causas que consideravam superiores, inclusivamente a sua própria integridade física. Por instantes, os gritos das mulheres provocaram em Dalmau uma embriaguez semelhante à que viveu quando fez frente à polícia. Na altura, sentiam-se deuses. Lutavam pelos operários! A Guarda Civil ou o exército carregaram sobre eles algumas vezes, mas hoje nada disso iria acontecer, disse Dalmau para si, desviando o olhar para as grevistas que faziam frente ao eléctrico. Não. Aquele dia não estava destinado a que a força pública atacasse as mulheres; pressentia-o, sabia-o.

Dalmau não tardou a localizá-las. Na primeira fila, à frente de todas, com o olhar desafiante, como se fosse o suficiente para deter o eléctrico da linha de Gràcia que se aproximava. Dalmau sorriu. O que não conseguiriam aqueles olhares? Montserrat e Emma, a sua irmã mais nova e a sua noiva, ambas inseparáveis, unidas pela infelicidade, unidas pela luta operária. O eléctrico aproximava-se fazendo soar a campainha; o sol que se infiltrava por entre o arvoredo das Ramblas arrancava centelhas às rodas e aos restantes elementos metálicos do vagão. Uma ou outra mulher recuou; poucas, muito poucas. Dalmau esticou-se. Não temia por elas; o eléctrico iria parar. Mães e polícias calaram-se, atentos. Muitos curiosos retiveram a respiração. O grupo de mulheres que se encontrava em cima dos carris pareceu crescer sobre si mesmo, firme, tenaz, disposto a ser atropelado.

Parou.

As mulheres explodiram em gritos de vitória, enquanto os poucos passageiros que ousaram utilizar o transporte e viajavam na parte superior do vagão, ao ar livre, sentados ao sol, desciam aos tropeções para fugirem, depois de o condutor e os revisores, todos fura-greves, terem saltado do eléctrico antes mesmo de este parar. Dalmau contemplou Emma e Montserrat, as duas com o punho crispado erguido para o céu, sorridentes, a celebrarem, eufóricas, a vitória com as suas companheiras. Ainda não tinha passado um minuto quando aquelas centenas de mulheres se aproximaram do eléctrico. Vamos! Vamos a ele! A Guarda Civil quis reagir, mas a barreira com as crianças avançou para os agentes. Foram muitas as mãos que se apoiaram na parte lateral do vagão. Outras tantas, as que não alcançavam a máquina, apoiaram-se às costas das grevistas que estavam à frente. Empurrem!, gritaram várias ao mesmo tempo. Com mais força! O eléctrico balançou em cima das rodas de ferro. Mais! Mais, mais… Um, dois… O vaivém aumentou ao ritmo do alento que davam umas às outras. Por fim, um rugido que surgiu daquelas centenas de gargantas precedeu a queda do vagão. O estrondo confundiu-se com o ruído dos estilhaços, o entrechocar dos ferros e uma nuvem de pó que envolveu o eléctrico e as mulheres. Um brado quebrou o silêncio relativo que se tinha instalado depois de o vagão ter embatido no solo. Saúde e revolução! Viva a anarquia! Greve geral! Morte aos frades! Mais trabalho e melhores salários. Reduzir as jornadas extenuantes. Acabar com o trabalho jovem. Pôr fim ao poder da Igreja. Maior segurança. Casas decentes. Expulsão das ordens religiosas. Saúde. Ensino laico. Alimentos acessíveis… Mil reivindicações troaram na Rambla das Flores, de Barcelona, para serem partilhadas por uma mole de gente humilde, cada vez mais numerosa, que se ia reunindo e aplaudia fervorosamente aquelas mulheres trabalhadoras». In Ildefonso Falcones, O Pintor das Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de SumadasLetras/JDACT

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O Pintor das Almas. Ildefonso Falcones. «O eléctrico que cobria a linha de Barcelona para Gràcia, que começava na Rambla de Santa Mónica, junto ao porto, aproximava-se»

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Barcelona, Maio de 1901

«Os gritos de centenas de mulheres e crianças ecoavam nas vielas da cidade velha. Greve! Fechem as portas! Parem as máquinas! Baixem as persianas! O piquete de mulheres, muitas delas com filhos pequenos nos braços ou a tentarem mantê-los seguros pela mão, apesar dos seus esforços para fugirem e juntarem-se aos que eram um pouco mais velhos, não sujeitos a controlo, percorria as ruas da cidade velha, incitando os trabalhadores e os comerciantes, que ainda mantinham abertas as oficinas, fábricas e lojas, a interromperem a actividade de imediato. Os bastões e barrotes que empunhavam convenciam a maioria, embora não fosse rara a quebra dos vidros das montras e uma ou outra rixa. São mulheres!, gritou um velho da varanda de um primeiro andar, mesmo por cima da cabeça de um comerciante furioso que fazia frente a algumas delas. Anselmo, eu… O comerciante olhou para cima.

A sua desculpa foi emudecida pelos insultos e vaias proferidos por muitos dos que observavam a cena das varandas daquelas casas velhas e apinhadas, morada de trabalhadores e gente humilde, com as fachadas rachadas, descascadas e com manchas de humidade. O homem cerrou os lábios, abanou a cabeça e fechou a loja, enquanto catraios maltrapilhos e sujos cantavam vitória e troçavam dele. Alguns dos que assistiam à cena sorriam abertamente perante a chacota do grupo de grevistas precoces; o comerciante não era querido no bairro. Confeccionava e vendia alpercatas. Não vendia fiado. Não sorria, e tampouco saudava quem quer que fosse. A catraiada continuou na chacota até que a polícia, que seguia o piquete de mulheres, se aproximou. Então, desatou a correr em busca da marabunta que continuava a deslocar-se pelas ruelas da Barcelona medieval, tão sinuosas quanto sombrias, pois a maravilhosa luz primaveril daquele mês de Maio não conseguia penetrar na estreita malha urbana, apenas nos andares mais altos dos edifícios que se erguiam no empedrado. Os vizinhos das varandas calaram-se à passagem dos guardas-civis, alguns a cavalo, com os sabres embainhados, a maioria com o rosto contraído, uma tensão que se sentia nos seus movimentos sincopados. Uns e outros tinham consciência do conflito com que aqueles homens se debatiam: a sua obrigação era impedir os piquetes ilegais, mas não estavam dispostos a carregar contra as mulheres e crianças.

A história da revolução operária em Barcelona estava ligada às mulheres e aos seus filhos. Eram elas quem, em inúmeras ocasiões, exortavam os seus homens a permanecerem afastados das acções violentas. Connosco não se atreverão, e somos suficientes para conseguirmos o encerramento, argumentavam. E assim era também naquele mês de Maio de 1901, quando os operários foram para as ruas depois de, no final de Abril, a Companhia de Eléctricos ter despedido os trabalhadores em greve e contratado fura-greves para os substituir. A greve geral pretendida pelas associações de operários em defesa dos trabalhadores dos eléctricos estava muito longe de se concretizar e, apesar de algumas acções violentas, a Guarda Civil parecia ter a situação controlada na cidade. De repente, um clamor surgiu nas bocas das centenas de mulheres porque se propagou entre elas a notícia de que um eléctrico estava a circular pelas Ramblas. Ouviram-se insultos e gritos de ameaça: Fura-greves!, Filhos da pu…!, Vamos a eles!

As grevistas acorreram com o passo apressado, algumas quase a correr, à Rua da Portaferrissa para chegarem à Rambla das Flores, acima do mercado da Boqueria, uma lota que, ao contrário de todas as outras em Barcelona, como a de Sant Antoni, a do Born ou a da Concepció, não é fruto de um projecto concreto mas da ocupação, por parte dos vendedores, da Praça de Sant Josep, um magnífico espaço porticado; por fim, venceram os mercadores e a praça cobriu-se com toldos e telhados provisórios, tendo os pórticos dos edifícios, que a rodeavam, sido transformados nas paredes do novo mercado. As tradicionais paradas de venda de flores, estruturas de ferro semelhantes a quiosques colocadas frente a frente ao longo do passeio, estavam fechadas, embora as floristas, muitas delas com as mãos nas ancas, desafiantes, permanecessem junto aos respectivos estabelecimentos, dispostas a defendê-los. Em Barcelona só se vendiam flores naquela zona das Ramblas. No mercado da Boqueria, um número infindável de carroças de transporte, com os seus toldos e cavalos, esperavam estacionadas em fila, lado a lado, a escassos passos dos carris do eléctrico. Os animais reagiram nervosamente à gritaria e à avalancha das mulheres. Poucas prestaram atenção ao alvoroço de cavalos empinados, carregadores e comerciantes a correrem de um lado para o outro. O eléctrico que cobria a linha de Barcelona para Gràcia, que começava na Rambla de Santa Mónica, junto ao porto, aproximava-se.

Dalmau Sala tinha seguido o piquete durante o seu itinerário pela cidade velha, juntamente com muitos outros homens, em silêncio, atrás da Guarda Civil. Agora, numa zona ampla como era a das Ramblas, tinha uma visão mais completa. O caos era absoluto. Cavalos, carroças e comerciantes. Cidadãos a correrem, curiosos; polícias em formatura perante o grupo de mulheres com os filhos que se colocaram diante deles, a formar uma barreira humana que pretendia separar todas as outras que se tinham apinhado em cima dos carris do eléctrico para deter a máquina.

Um calafrio percorreu Dalmau de cima a baixo quando viu que algumas mulheres erguiam os filhos e exibiam-nos perante os guardas-civis. Outros catraios, um pouco mais crescidos, permaneciam agarrados às saias das mães, assustados, com os olhos muito abertos, esquadrinhando o espaço em busca de respostas que não encontravam, enquanto os adolescentes, ensoberbecidos pelo ambiente, chegavam a desafiar os polícias». In Ildefonso Falcones, O Pintor das Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

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quarta-feira, 24 de novembro de 2021

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «O pedido de Caridad rompeu o silêncio da noite. Fazia um tempo que já não se ouvia seu cantarolar; havia-se ido apagando como uma brasa»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748

«(…) Estava sentada com as costas contra a laranjeira, como se buscasse refúgio na árvore. Tinha o olhar perdido, alheio à sua presença, e continuou cantarolando, em voz baixa, monotonamente, repetindo vezes seguidas o mesmo estribilho. Melchor verificou que, apesar do frio, tinha o rosto perolado de suor. Tiritava. Sentou-se a seu lado. Não entendia o que dizia, mas aquela voz cansada, aquele timbre, a monotonia, a resignação que impregnava sua voz deixavam transparecer uma dor imensa. Melchor fechou os olhos, rodeou os joelhos com os braços e deixou-se transportar pela canção.

Água.

O pedido de Caridad rompeu o silêncio da noite. Fazia um tempo que já não se ouvia seu cantarolar; havia-se ido apagando como uma brasa. Melchor abriu os olhos. A tristeza e a melancolia da canção haviam conseguido trasladá-lo, uma vez mais, ao banco da galé. Água. Quantas vezes havia tido de pedir água ele mesmo? Acreditou sentir que os músculos de suas pernas, de seus braços e de suas costas se tensionavam como quando o comitre aumentava o ritmo da voga em perseguição de alguma nau sarracena. O torturante apito do comitre aguilhoava seus sentidos enquanto arrancavam a chicotadas a pele de suas costas nuas para que remasse com mais e mais força. O castigo podia durar horas. Ao final, com os músculos de todo o corpo a ponto de rebentar e com as bocas ressecadas, das fileiras de bancos só surgia uma súplica: água! Sei o que é a sede, murmurou para si. Água, implorou de novo Caridad.

Vem comigo. Melchor levantou-se com dificuldade, entorpecido após quase uma hora sentado ao pé da laranjeira. O cigano se esticou e tentou orientar-se para encontrar o caminho da Cartuxa. Dirigia-se aos hortos do mosteiro, onde viviam muitos dos ciganos de Triana, quando o cantarolar havia chamado sua atenção. Vens ou não?, perguntou a Caridad. Ela tentou levantar-se agarrando-se ao tronco da laranjeira. Estava com febre. Estava com fome e frio. Mas sobretudo estava com sede, muita sede. Conseguiu erguer-se quando Melchor já se havia posto em marcha. Dar-lhe-ia água se o seguisse ou a enganaria como haviam feito tantos outros ao longo dos dias que estava em Triana? Caminhou atrás dele. A cabeça lhe dava voltas. Quase todos o haviam feito; quase todos se haviam aproveitado dela. Uma série de luzes provenientes de umas choças amontoadas no caminho iluminou a jaqueta de seda azul-celeste do cigano. Caridad fez um esforço por seguir seu passo. Melchor não se preocupava com ela. Andava lentamente mas erguido, altivo, apoiando-se sem necessidade no bordão de duas pontas próprio do chefe de uma família; às vezes se lhe ouvia falar à noite. A mulher arrastava os pés descalços atrás dele. À medida que se aproximavam da ciganaria, a quinquilharia que adornava as vestiduras de Melchor e o debrum de prata de suas meias refulgiram. Caridad percebeu um bom presságio naqueles brilhos: aquele homem não a havia tocado. Iria proporcionar-lhe beber água». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, Bertrand Editora, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «Não pensou. Cantarolou durante o que restava da noite e, quando os primeiros raios de luz se infiltraram entre as frestas das madeiras do quartucho, rebuscou entre os trastes até encontrar uma velha corda»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748

«(…) Uma noite, o oleiro não desceu. Na seguinte tampouco. Na terceira, sim, o fez, mas em lugar de ir para ela dirigiu-se à porta da oficina. Abriu-a e deu passagem a outro homem, depois lhe indicou onde se encontrava Caridad. O oleiro esperou junto à porta que o outro satisfizesse seus desejos, recebeu dele, e depois o despediu. A partir daquela noite, Caridad deixou de trabalhar na oficina. O homem a encerrou num quartucho do térreo, sem ventilação, e colocou um colchão e um urinol junto a alguns trastes inservíveis. Se criares problemas, se gritares ou tentares escapar, eu te matarei, ameaçou-a o oleiro na primeira vez que lhe levou de comer. Ninguém sentirá tua falta. É verdade, lamentou-se Caridad enquanto escutava o homem pôr a chave na porta: quem ia sentir falta dela? Sentou-se no colchão com a tigela de refogado de verduras nas mãos. Nunca antes a haviam ameaçado de morte; os senhores não matavam seus escravos, valiam muito dinheiro. Um escravo servia para toda a vida. Uma vez adestrados, como havia sido Caridad em menina, os negros alcançavam a velhice em suas veigas tabaqueiras, nos seus trapiches ou nos seus engenhos de açúcar. A lei proibia vender um escravo por maior quantia do que havia custado, razão por que nenhum senhor, depois de haver-lhe ensinado um ofício, se desfazia dele; perderia dinheiro. Podiam maltratá-los ou forçá-los até a extenuação, mas o bom capataz era aquele que sabia onde se encontrava o limite da morte. Eram os escravos que tiravam a vida; no amanhecer menos pensado, a luz ia descobrindo a silhueta do corpo inerte de um negro pendurado numa árvore…, ou talvez de vários deles que haviam decidido acompanhar-se na fuga definitiva. Então o senhor se encolerizava, como quando alguma mãe matava seu recém-nascido para livrá-lo da escravidão ou como quando um negro se mutilava para não trabalhar. No domingo seguinte, na missa, o sacerdote do trapiche lhes gritava que aquilo era pecado, que iriam para o inferno, como se pudesse existir um inferno pior que aquele. Morrer? Talvez, sim, disse-se Caridad, talvez tenha chegado a hora de fugir deste mundo onde ninguém me espera. Nessa mesma noite foram dois os homens que desfrutaram dela. Depois o oleiro voltou a fechar a porta, e Caridad ficou na mais absoluta escuridão.

Não pensou. Cantarolou durante o que restava da noite e, quando os primeiros raios de luz se infiltraram entre as frestas das madeiras do quartucho, rebuscou entre os trastes até encontrar uma velha corda. Pode servir, concluiu após puxá-la para verificar seu estado. Amarrou-a ao pescoço e subiu numa caixa desconjuntada. Lançou a corda por cima de uma viga de madeira, sobre sua cabeça, esticou-a e deu um nó na outra extremidade. Em algumas ocasiões havia invejado aquelas figuras negras que pendiam das árvores rompendo a paisagem da veiga cubana, livres já de sofrimento. Deus é o maior dos reis, clamou. Só desejo não me converter numa alma penada. Saltou do caixote. A corda aguentou seu peso, mas não a viga de madeira, que se quebrou e lhe caiu em cima. O estrondo foi tal que o oleiro não tardou a apresentar-se no cárcere de Caridad. Acorrentou-a, e, a partir desse dia, Caridad deixou de comer e de beber, suplicando a morte até quando o oleiro e seu filho a alimentavam à força. As visitas de homens da rua se repetiram, geralmente um, às vezes mais, até que, numa ocasião, um velho que tentava montá-la com inabilidade se levantou e se afastou dela com agilidade assombrosa. Esta negra está ardendo!, gritou. Está com febre. Pretendes que me contagie alguma doença estranha! O oleiro se aproximou de Caridad e pôs a mão na sua testa suarenta.

Vai-te, ordenou-lhe incitando-a com o pé nas costelas enquanto pelejava por abrir e recuperar as correntes com que a mantinha presa, agora mesmo, já!, gritou após consegui-lo. Sem esperar que se levantasse, pegou a trouxa de Caridad e a lançou à rua. Era possível que houvesse ouvido uma canção? Não era mais que um murmúrio que se confundia com os barulhos da noite. Melchor apurou o ouvido. Ali estava outra vez! Yemayá asesú… O cigano ficou parado na escuridão, no meio da veiga de Triana, rodeado de hortos e vergéis. O rumor das águas do Guadalquivir lhe chegava com nitidez, como o silvar do vento entre a vegetação, mas… Asesú Yemayá. Parecia um diálogo: um sussurro que o solista entoava para depois responder-se a si mesmo a modo de coro. Virou-se na direcção de que vinha a voz; alguns dos avelórios que pendiam de sua jaqueta tintilaram. A escuridão era quase absoluta, rompida apenas pelas tochas do convento da Cartuxa, algo além de onde se encontrava. Yemayá oloddo. Melchor se afastou do caminho e se internou num laranjal. Pisou pedras e folhagens, tropeçou diversas vezes e até maldisse a todos os santos aos gritos, e, no entanto, apesar de na noite haver ressoado como um trovão, o triste cantarolar não cessou. Parou entre várias árvores. Era ali, ali mesmo. Oloddo Yemayá. Oloddo… Melchor entrefechou os olhos. Uma das pertinazes nuvens que haviam coberto Sevilha durante todo o dia permitiu a passagem de um ténue vislumbre de lua. Então entreviu uma mancha cinzenta no chão, diante dele, a apenas dois passos. Avançou e se acocorou até reconhecer uma mulher tão negra como a noite vestida com roupas cinza». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, Bertrand Editora, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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