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domingo, 29 de dezembro de 2019

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Também conheço algumas mulheres, providas de útero e de nádegas, que não passam de nuvens. De tudo isto o mais feio é só a palavra nádegas»

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«(…) Veio depois o Natal; e você publicou, nessa altura, o seu primeiro livro de poemas. Precisamente na antevéspera de Natal encontrei aqui o exemplar que me enviou, só para mim, com a sibilina dedicatória que se impunha. Porque será que apenas agora, quase à beira de outro Natal, com o seu livro de novo aqui à mão e tendo-o já relido por várias vezes, me renasce o desejo de dizer-lhe o que logo nessa ocasião me apetecia ter dito? Não aprecio por aí além, e isso já não é novidade para si, o título que você lhe deu: parece-me, por um lado, inutilmente provocatório e, por outro, injustamente limitativo, como se os seus versos apenas valessem por essa estéril coragem d’épater le bourgeois. O burguês, hoje em dia, já mal existe; e, quando existe, não se escandaliza com coisa alguma: nem com o que a Igreja ainda lhe proíbe nem com o que os sex-shops passaram a fornecer-lhe. Quem é que você escandaliza, a não ser talvez o seu marido, ao comparar-se à Tera que se masturba / debaixo da chuva ou à praia que se vem com o Sol / enquanto o Mar se vem com a Lua? Que almas sensíveis, a não ser porventura a já aludida, julga você ter melindrado ao confessar que lhe falta a experiência de ser igual a uma barca, / no mar alto, / ao mesmo tempo enfiada / por três mastros? E que defuntas pudicícias pensa você ter ofendido ao engastar, nos seus versos, inúmeros termos anatómicos que já são hoje do conhecimento das criancinhas da instrução primária?
A respeito de alguns poemas, mais longos, tenho às vezes pena de que não sejam menos longos: fosse eu entendido em poesia, gostaria de lhe poder explicar porquê. Mas, voltando aos outros, há pelo menos um, que me parece aliás encontrar-se a meio caminho entre os que são somente provocatórios e os que já são um tanto mais que provocatórios, em relação ao qual sinto simultaneamente uma certa frustração e uma espécie de fascínio, de perturbado fascínio. É aquele em que você colocou uma epígrafe do Vinícius de Moraes:

Julguei felizes as nuvens por não terem útero,
até me darem lástima por não terem nádegas.
Não quero dizer com isto que não tenham
muitas vezes a forma de um útero,
o volume de nádegas.

Também conheço algumas mulheres,
providas de útero e de nádegas,
que não passam de nuvens.

De tudo isto o mais feio
é só a palavra nádegas.

Só a palavra.

Falo por mim, e de mim, é claro.

Sabe você o que me apeteceu, assim que li estes versos pela primeira vez? Não, não lhe digo. Mas até cheguei a desejar que se anunciasse, em semelhante período, uma daquelas pediátricas reuniões que inevitavelmente nos aproximariam. Infelizmente não aconteceu. Por mais estranho ou paradoxal que pareça, também a Pediatria entra em férias durante o Natal. E soube, a seguir, que vocês tinham ido para o Douro, lá para casa dos seus sogros. E a minha mulher, prometendo a si própria um novo e ainda mais rigoroso regime de emagrecimento para depois das festas, sucumbia entretanto a variadíssimas tentações de broas e de filhoses, de bolo-rei e de rabanadas, de doces de chila e de lampreias de ovos, ora junto da minha mãe, sempre contemplada, no chamado lar a que recolheu, com duas visitas durante esta época, ora, mais amiúde, junto de três tias sobreviventes, ainda com boa dentição, por cujas velhas casas, respectivamente na Lapa, nas Amoreiras e na Estrela, generosamente se repartia, no louvável esforço de uma vez por ano reforçar, em relação à Terceira Idade, a atenção que mais assiduamente concede à Primeira». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

sábado, 28 de dezembro de 2019

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «O fulgor dos seus joelhos, que a despeito das meias azuis-escuras se pressentiam ainda bem queimados pelo sol, irradiava em torno uma luzinha pestanejada, como que vinda de um calorífero meio escondido»

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«(…) Em vez de logo a convidar a visitar o meu atelier (o que sem dúvida teria feito se ela fosse apenas bonita) ou de piedosamente a convencer de que não era nada ignorante (o que decerto teria tentado se fosse um estafermo), surpreendi-me, de repente, como nem tendo ouvido o que acabava de ouvir, a encetar um requisitório, meio amargo, meio irónico, contra o carácter fictício de semelhantes reuniões. Foi então que pela primeira vez exprimi em voz alta, falando com ela, tudo quanto acabava de descobrir em matéria de alegorias; e devo tê-lo feito com alguma vivacidade, já que a presença de mulheres belas, ou mesmo nem tanto, continua a produzir em mim, quer nas palavras quer nos gestos, certo estado de efervescência a que a minha mãe sempre se declarou alérgica, mas a que as damas pedantes chamam brilhante, e que a minha pediatra, bastante mais sóbria, rotula apenas de clownesco. Desta vez nem era bem disso que se tratava. Qualquer coisa de mais espontâneo: uma simples necessidade de manifestar o que nesse instante estava a sentir; e de manifestá-lo, precisamente, à única pessoa que ali me parecia feita da matéria dos deuses e se me afigurava também um completo ser humano.
Tínhamo-nos entretanto sentado, a um canto da sala, em duas poltronas muito próximas. O fulgor dos seus joelhos, que a despeito das meias azuis-escuras se pressentiam ainda bem queimados pelo sol, irradiava em torno uma luzinha pestanejada, como que vinda de um calorífero meio escondido. Quase no canto oposto, conversando não sei se com a Magistratura se com o Ensino, a minha mulher, estoicamente de pé, em obediência a um teórico regime de emagrecimento de que nunca mais se vislumbram resultados animadores, lançava-me de quando em quando uns complacentes olhares, mais de nurse que de pediatra, assim vigiando o meu comportamento perante o sumptuoso brinquedo de empréstimo com que estava entretido. Às vezes até sorria, orgulhosa decerto por me ver tão ajuizado. Parecendo menos alta do que já foi, mas ainda imponente, e com o perímetro das suas ancas triplicado desde que há trinta anos nos casámos, mostrava-se mais sólida e inspirava maior confiança que todos ou quase todos esses bonifrates ali à nossa roda. O marido da Y, ao fundo, dialogando com a Diplomacia, mantinha-se negligentemente de costas para nós. E principiáramos a vogar, não sei como, através de uma conversa sobre viagens.
Vendo bem, a Itália, que a Y conhece como os seus dedos, só seria tangencialmente a Itália através de cujos caminhos rompi as solas de alguns sapatos, e onde estive mesmo à beira de romper outras coisas. Vendo bem, os Estados Unidos, aonde vai com frequência, não teriam muito em comum com o que dos Estados Unidos salteadamente conheço. Mas o que me surpreendia era a extrema gentileza, envolvente e receptiva, da atenção com que me escutava. E, ambos estávamos de acordo sobre o ponto mais importante: que apenas em Roma ou em Nova Iorque, para não falarmos senão de grandes cidades, nos agradaria viver por muito tempo. Roma? Sim, claro que sim, pensava eu. Mesmo apesar de certos brados de indignação, no mais puro linguajar carioca, que ainda hoje devem atroar a superfície de uns tantos muros da Via Giulia; mesmo a despeito de certo momento que foi tão difícil de passar junto a uma fonte da Piazza Navona... Ah, só alguém com estes olhos mais que verdes, mais que azuis, conseguiria definitivamente varrer, de tais lugares e da minha memória, a acusadora imagem de outros olhos também claros mas de nenhuma tranquilidade. Principalmente em Roma..., acrescentou a Y. Roma, então... para sempre. Mas eu senti que seria ridículo dizer o mesmo, já que o meu sempre teria decerto um horizonte mais limitado». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Mas, terminado o jantar e refluídos todos os convivas para o salão das ditas telas e dos ditos objectos, eis que a belíssima semiestrangeira dos olhos mais que verdes, mais que azuis…»

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«(…) Logo a seguir perdi-os de vista, sorvidos ambos na voragem da apresentação a outras figuras alegóricas, no entrechocado rumor de copos, de risos, de bandejas e de conversas, enquanto eu próprio, subitamente cercado pelas ambulantes alegorias da Política (homem), da Música (mulher) e da Diplomacia (assim-assim), me vi solicitado a concordar com todos eles, e cada um, sem ter opiniões de espécie alguma, julgava tê-las muito diferentes umas das outras, acerca do que deveria ser a nossa participação na próxima Bienal de Caracas ou de Bogotá. Reduzidas as inexistentes discordâncias ao confortável denominador comum do sim-mais-que-também, do antes-pelo-contrário e do pois-pois-talvez-porque-não, apareceram-me a Informação e a Literatura (ambas mulheres, e ambas escanzeladas ruínas que outrora conheci ainda na fase de monumentos) a reclamarem-me ansiosamente, decerto como variante à deglutição de sucessivos e vomitivos aperitivos, que lhes contasse aquela história que a segunda me tinha ouvido, quinze dias antes, na Galeria S. Mamede, sobre o recente e simultâneo aparecimento de riquíssimos poços de petróleo nos Jerónimos e na Batalha, no Templo de Diana e no Mosteiro de Alcobaça, na Torre de Belém e no Convento de Tomar, aparecimento de todo inventado, como é óbvio, mas que teria, quanto a mim, a dupla vantagem de resolver os problemas da nossa desgraçada economia e de melhor confundir ainda os ânimos estéreis de muitos dos meus confrades, cada vez mais preocupados com a salvação do nosso património cultural, mas cada vez menos capazes de o irem acrescentando.
Lá me esquivei o melhor que pude à insistência das duas escanifradas e ambulantes ruínas, garantindo-lhes que já estava a escrever (mentira), como derivativo a outros trabalhos, essa inocente historieta de art fiction, e que teria muito gosto em brevemente lhes enviar a ambas, só para elas, claro, e que as não divulgassem, umas cópias dactilografadas. (Nova mentira, evidentemente: viesse eu algum dia a escrever a historieta, quem me dera que a Literatura ma apreciasse, que a Informação ma difundisse! No fundo não passo de um escritor frustrado). Entretanto, abriram-se as portas ao fundo da sala, e logo a Informação e a Literatura, já cientes dos lugares que lhes competiam, foram das primeiras a precipitar-se por entre as seis ou sete mesinhas armadas no aposento contíguo. E eu, que me esquecera de consultar no vestíbulo o plano da distribuição dos lugares, só a custo verifiquei que me tinham emparedado entre uma corpulenta encenadora que sem dúvida representava o Teatro e uma redonda mas minúscula deputada que fiquei sem saber se simbolizava toda a Assembleia da República ou simplesmente os Direitos da Mulher. Não me era, nenhuma delas, graças aos deuses, nem suficientemente íntima nem completamente desconhecida para que eu tivesse de fazer grandes despesas com a conversa. E, graças aos deuses, acabava de sentar-se, na mesa ao lado, quase defronte de mim, sorrindo-me como se já de há muito fôssemos conhecidos, como se desde sempre nos tivéssemos conhecido, a belíssima estrangeira, ou quase, dos olhos incomparáveis. Mesmo sentada, parecia mais alta que duas ou três, entre elas a Publicidade, que por ali cirandavam ainda à procura dos respectivos lugares.
Terá sido a franqueza da minha inofensiva admiração, estética, digamos, o que imediatamente lhe inspirou confiança? Ou a aparente respeitabilidade da minha grimpa já um tanto grisalha? Ao longo do jantar, ambas as hipóteses me ocorreram: nem uma nem outra de facto estimulantes. Melhor seria contentar-me com o belíssimo espectáculo que me era inesperadamente oferecido; e que me compensava, só por si, de toda essa estopada alegórico-mundana. Mal o espectáculo findasse, escapar-me-ia com a minha mulher, tão depressa quanto possível, para longe daquele antro, sofisticado e ruidoso, de civilizados ameríndios. Quanto a mim, aliás, demasiado civilizados; ou excessivamente pouco ameríndios. Tinham-me logo dado náuseas, no vestíbulo, as revulsivas ornamentações com que esses pobres nómadas de primeira classe, mas de aspecto francamente aciganado, exuberantemente assinalavam o Natal já muito próximo. Depois, no salão, os objectos pseudo-incas ou pseudo-aztecas, diante dos quais se tinham extasiado as tontas da Música, da Informação e do Teatro, só conseguiam ser ligeiramente menos horrendos que certas pseudotelas de pseudodiscípulos do Kandinsky e do Klee, que os donos da casa tinham carregado como lembrança e testemunho da sua anterior passagem por um consulado na Alemanha Federal.
Mas, terminado o jantar e refluídos todos os convivas para o salão das ditas telas e dos ditos objectos, eis que a belíssima semiestrangeira dos olhos mais que verdes, mais que azuis, subitamente largando, lá ao fundo , sem grandes cerimónias, os alegóricos representantes da Política e da Economia, de quem já a tinham flanqueado durante a refeição, vem muito pausadamente ao meu encontro, sorrindo sempre, para apenas me dizer isto, na sua voz baixíssima, quase um murmúrio, com leve sotaque, mas sem a mínima inflexão interrogativa: sabe que não conheço nenhum trabalho do senhor. Depois emendou: nenhum seu trabalho. E acrescentou: a culpa é minha. Sou muito ignorante». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

Um Amor Feliz. David Mourão-Ferreira. «Nessa noite, se não me engano, a minha mulher e eu simbolizaríamos a Medicina e a Arte: tudo era demasiado genérico para que pudéssemos simbolizar»

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«(…) E foram precisamente os olhos, por me parecerem de todo inacessíveis, por a tornarem de todo inacessível, que me deram nessa noite a coragem de a olhar de frente. Mas sem a mínima veleidade, juro!, de algum dia a seduzir ou conquistar (abomináveis palavras!), apenas com aquele emocionado fervor, também isento de qualquer intenção de posse (outra palavra detestável!), que nos tira a respiração diante de uma obra-prima; e obra-prima tanto mais inesperada por só em trânsito se encontrar num museu medíocre, ou pelo menos anódino, aonde apenas fomos por acaso e aonde é bem provável que nunca mais tornemos.
Tratava-se do primeiro grande jantar oferecido por um desses casais de diplomatas latino-americanos que misteriosamente conseguem ter já entrado em relações, seis meses depois de aqui terem chegado, com todas as pessoas, mesmo todas, pensam eles, que se lhes afigura indispensável conhecer em Lisboa. Um daqueles casais que devem dar-se ao pacientíssimo trabalho, semanas a fio, de criteriosamente agrupar esses manequins em alegóricas parelhas, conjugais ou não, para que do modo mais adequado eles representem, sei lá, a Política e a Literatura, a Diplomacia e a Técnica, a Economia e o Foro, a Música e a Indústria, a Televisão, os Transportes, o Turismo, o Teatro, o Toureio.
Nessa noite, se não me engano, a minha mulher e eu simbolizaríamos a Medicina e a Arte: tudo era demasiado genérico para que pudéssemos simbolizar, mais especificamente, a Pediatria e a Escultura. E, quando por fim chegou aquele casal de estrangeiros relativamente aportuguesados (além de relativamente mais novos que a maioria dos presentes), ninguém terá ficado com grandes dúvidas: se o marido representava a Finança, a Agricultura ou o Investimento Estrangeiro, a mulher, essa, não poderia ali comparecer senão como perfeita imagem da Beleza. Nem outra devia ter sido a estratégica intenção dos donos da casa. No momento das apresentações, eis a designada figura da Beleza (que só por esse facto me estava a causar uma certa antipatia) detendo-se diante da minha mulher, com um sorriso muito simples que imediatamente me desarmou: boa noite, senhora doutora. Não se lembra de mim? A doutora tratou a minha filha quando a minha filha era pequena... A Vicky... Ah! Claro, claro. Lembro-me muito bem.
Depois, perguntando-lhe a minha mulher como estava a pequena, a mãe da Vicky (que não tem forçosamente de se chamar Vicky), erguendo a mão quase à altura da sua própria testa, no gesto de quem desenha no ar o vulto de uma rapariguinha já muito espigada, murmurou, por entre o mesmo bonito sorriso, desta vez um tudo-nada melancólico: assim... Deste tamanho. A dona da casa, que de caninos arreganhados vigiava a cena, incamente ou aztecamente pacientou, a pé firme, enquanto a mãe da suposta Vicky fornecia à minha mulher mais algumas informações suplementares: que a pequena estava a passar muito melhor da asma; que continuava no Liceu Francês; que dentro de dois anos iria estudar para a Suíça; e que viviam ainda, claro está, na mesma quinta dos arredores de Sintra.
Só então compreendi a inca ou azteca paciência da anfitrioa: não estava disposta a que eu fosse apresentado pela minha mulher, ou apenas como marido da minha mulher, o que igualmente redundaria em manifesto prejuízo do carácter alegórico da sua festa; e fez questão, como já acontecera com todas as precedentes apresentações, em acompanhar o meu nome (pois não representava eu ali a Arte?) da necessária referência à minha actividade de escultor. Mas a mãe da pseudo-Vicky, embora sorrindo sempre (ah, que bonito sorriso o seu!), limitou-se a dizer, em voz muito baixa, no tom quase velado em que sempre parecia exprimir-se: tenho ouvido falar. Quase ao mesmo tempo, o shake-hand do marido foi desenvoltamente solene como seria de esperar dos seus óculos de tecnocrata; mas também sobriamente desportivo como convinha à sua pele bronzeada em pleno Inverno». In David Mourão-Ferreira, Um Amor Feliz, Editorial Presença, Lisboa, 1986, Depósito Legal nº 10705/85.

Cortesia EPresença/JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Maria Adelaide. M Teixeira-Gomes. «Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe…»

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«(…) O mês que durou a nova instalação foi encantador. Maria Adelaide transformava-se e assumia uma individualidade que a extremava do resto da família. Mas o arranjo do quintal, onde ela dava largas à sua fantasia, delineando planos de jardinagem e arborização que mal caberiam num grande parque, esse, então foi um poema. Eu ouvia-a embevecido, achando graça em tudo quanto dizia e facilitando quanto podia a realização do seu sonho.
Tão contente andava que não recusou, como até ali fizera, as lições de ler e escrever que eu pretendia dar-lhe. Ela andara na escola mas nem as letras do alfabeto conhecia. Nessa fase é que lhe descobri o inexaurível fundo de superstição em que a sua alma assentava, e até nisso lhe achava chiste: sonhar com flores eram penas remediadas; excrementos, dinheiro certo; as mãos dentro de água, lágrimas, etc. Uma vez, antes de nos deitarmos, eu queria que se fosse pentear e repartisse o cabelo em bandós, mas ela recusou porque era de noite e não sabia se o pai andava no mar, o que seria de mau agoiro. Uma vizinha dos Fumeiros, andando o marido na lancha, fora da barra, pôs-se a pentear uma noite, e apenas atirava à rua o molhinho de cabelos caídos, vem uma refega de vento que por pouco não mete a porta dentro. Nesse mesmo instante o marido caía no mar e por pouco não se afoga...
Também se não devem despejar os cântaros da cantareira quando há em casa algum doente em perigo de vida. As almas, tão depressa largam os corpos, e antes de seguir ao seu destino, precisam de água pronta para se lavar, e preferem a água dos cântaros por serem fundos. Outra mulher, também dos Fumeiros, estando o marido agonizante, despejou, de propósito, a água que havia em casa, deixando apenas uma gota na bacia do lavatório. Morreu o marido e logo ouviu ruído no quarto do lavatório: foi ver e achou tudo em volta salpicado de água, sem que lá estivesse alguém...

Bairro dos pescadores
A respeito destas crendices Maria Adelaide não admitia dúvidas, e se eu delas zombava, a sua testa curta, de cinco pontas, enrugava-se, com uma expressão obstinada que a tornava sombria, opaca, e os recortes perdiam toda a graça como inestético desenho tosco. Mas eu não teimava. Uma grande ternura me invadia o coração à lembrança de que a pobrezinha sofrera frios e fome e andara descalça e levara, sem dó, pancadas da mãe, e mais da mestra naquela escola de torturas onde nada aprendera e onde as lunetas da professora, sábia e solerte, a espavoriam. Agora era ela que sustentava generosamente os seus, matando-lhes fomes e frios, e a ternura penetrava-me ainda mais fundo à lembrança dos seus primeiros arranjos, no seu primeiro quarto: a cómoda pobre mas vistosa; a cama fofa, larga e limpa, e o aroma especial que ali pairava e que era natural do seu próprio corpo, da sua própria carne...
E os pitorescos episódios da sua meninice. A miúdo referia-se a uma rapariga que fora sua vizinha, era muito má e gostava de morder nas companheiras. E contava: uma vez estava ela à porta de casa, a armar uma loja em cima de uma cadeira com muitas coisas já em ordem: conchas de coquinhas, latas velhas de sardinhas, dois fundos de copos, e um grande ramo de loiros, quando eu chego e digo: Francisca, deixa-me brincar contigo. Se quiseres vai buscar pão... Corri a casa: mãe, dê-me um pedacinho de pão para ir brincar com a filha da vizinha Antónia. Pão a estas horas, moça? O que tu precisas é uma boa data de açoites. Volto à Francisca: a mãe não me dá pão, mas tu deixas-me brincar, deixas? Mas ela, muito má, responde: não, não e não; se quiseres traz pão. E a mim deu-me logo uma grande raiva; emborco a cadeira com toda a loja e atiro o ramo de loiros para a lama da regueira. Então a moça atira-se a mim e prega-me uma mordedela que me fez ver as estrelas e de que ainda aqui tenho o sinal. Fujo para casa mas daí a nada já ela lá estava com a sua mãe a queixar-se à minha de mim. Tiveram as duas uma assanhada guerreia de língua, mas quando tudo serenou apanhei uma sova de sapato de que me hei-de lembrar toda a minha vida... O que estas historietas me entretinham!» In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Maria Adelaide. M. Teixeira-Gomes. «E quando se despediu, de manhã, foi novamente inspeccionar tudo, percebendo-se-lhe no olhar certa pena de deixar aquele cenário luxuoso, cuja beleza começava a apreciar»

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«(…) Eu habitava ainda então na casa paterna, onde tinha um vasto aposento inteiramente independente, com saída para a rua. Maria Adelaide apeteceu vir visitar-me, o que não fazia havia já bastante tempo. Dera-se ali a nossa entrevista definitiva e sempre que lá voltava era infalível a sua exclamação, embora a rir: foi aqui que eu me desgracei!... Encontrou tudo mudado: os móveis noutra disposição e alguns que ainda não conhecia; uma aparatosa estante nova de colunas torcidas; a poltrona regence brilhando sob uma réstia de sol em todo o esplendor do seu brocado persa; e no meu quarto de cama a lindíssima papeleira Luís XVI, muito vistosa nos seus enfeites de porcelana esmaltada e bronze doirado. Olhava para tudo com um ar de gato que estuda o recinto onde pela primeira vez o introduziram, mas disfarçando mal uma irrebatível expressão de despeito. Instintivamente comparava o arranjo e qualidade das minhas coisas com aquelas que tinha em casa e reputava formosíssimas: a cómoda de mogno coberta de croché, a cama de ferro pintado, cadeiras de palhinha frouxa, e sentia-se vexada com a evidente superioridade do meu mobiliário em que só agora reparara miudamente. Começou a mostrar mau humor, buscando, no decorrer da conversa, pequenas contradições que dessem azo a implicação e a queixas. Mas como eu me esquivasse a contendas pouco a pouco se lhe foi dissipando a irritação, pondo-se á vontade; já se sentava nas cadeiras de braços, procurando as posições mais cómodas e ia, sem amargura, gabando os móveis, os estofos, as madeiras.
Eu também quero uma cadeira assim, ia para a minha casa e hei-de tê-la, não é verdade, amigo?, quando tiver uma salinha melhor, porque realmente a minha é tão má... E quando mandará o demónio da velha (a senhoria) arranjar a casa? E inspeccionando as paredes: não é verdade, amigo, que aquele quadro está torto? Pois vai-se já pôr direito. Eu não posso ver, lá em casa, os meus quadrinhos tortos, nas paredes. A sua criada não arranja isto melhor agora. E dispunha os trastes com um sentimento de harmonia surpreendente, colocando, ao mesmo tempo, por cima das mesas e das estantes os bibelôs de forma a dar-lhes mais valor, mais relevo. Quis dormir comigo, no meu quarto, e durante a noite acordou-me para repetir: a gente também há-de ter um dia uma casa muito bem arranjadinha; não é verdade, amigo?, mas com coisas minhas, só minhas.
E quando se despediu, de manhã, foi novamente inspeccionar tudo, percebendo-se-lhe no olhar certa pena de deixar aquele cenário luxuoso, cuja beleza começava a apreciar, porém, boazinha, acrescentava: que eu nunca poderei ter coisas tão ricas, nem quero. Quero que o meu amiguinho as tenha. Lá na nossa casa coisinhas simples e asseadinhas. Dê cá um beijo; outro, outro... Até logo. Vá bem cedo, sim? Adeus... Tudo isto era dito sem o mais leve tom de pieguice, com uma naturalidade, uma espontaneidade, que me sensibilizou, e lembrando-me dos seus continuados e justificados queixumes dos tratos que sofria à mãe, e também do que havia de humilhante, vexatório, em sujeitar-me àquela promiscuidade, resolvi separá-la da família de modo que fizesse vida à parte, e logo nesse mesmo dia aluguei uma casa alta, em boa rua, com um grande quintal, destinando o primeiro andar a Maria Adelaide e os baixos à família». In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT

sábado, 14 de janeiro de 2017

Maria Adelaide M Teixeira-Gomes. «Ontem nem quis pegar na minha Glória à vista de ninguém, mas quando a apanhei sozinha no berço ia-a comendo com beijos»

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«Maria Adelaide completara dezasseis anos quando lhe colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia. Podia tê-la tirado logo à família, montando-lhe casa à parte, mas nem eu nem os pais sentíamos grande desejo de efectuar a separação: eles porque tendo-a em sua companha melhor lhe exploravam os proventos da mancebia; eu para não dar mais solidez à ligação, esperando vagamente que fosse passageira...
Reminiscências do começo: a minha rapariga estava triste; a mãe tinha-lhe batido, desonrando-a de tudo, chamando-lhe os nomes mais feios que se podem chamar a uma mulher. E as suas lamentações não tinham fim: ela é que sustentava a família, ela é que pagava as casas e dava constantemente presentes a todos, em especial às irmãs, que também lhe não tinham respeito nenhum, e a mãe ainda em cima lhe batia. E isso é que mais a magoava. Estou consigo há tanto tempo (alguns meses apenas) e eu bem vejo como me trata: olha lá Santo Antoninho que não sei onde te ponha, e a minha mãe bateu-me só porque eu puxei as orelhas à Joaquina (a terceira irmã), que é uma grandíssima atrevida e me arranca os cabelos aos punhados. Se não fosse por atender ao meu pai, que acode por mim, deixava-os a todos. Que se eu estivesse séria, e não brincasse e não risse, já elas todas me tinham respeito. Também hoje, só por teima, não quis deixar de comer e fui cear muito séria. Mas amanhã já eu começo a rir e a brincar com todos e logo me perdem o respeito. Ai!, eu gosto tanto, tanto, da minha Glória (a irmã mais nova); parece mesmo que é minha filha, tão linda, tão limpinha! Eu quero ter um mocinho; faça-me um mocinho, não é verdade? Ah!, se eu tivesse um mocinho, ontem, quando a minha mãe me bateu, vestia-o, que havia de parecer um menino rico, e punha-me na rua sozinha, com ele nos braços. Os dias são tão grandes e eu ando tão aborrecida! E faço gosto em comer, em rir. Agora a minha paixão são chicharros alimados. Ontem havia chicharros alimados para a ceia; também por isso é que eu fui comer. Mas estou muito triste. Agora já não é tanto, que o meu amiguinho, com as suas festas, quase que me pôs alegre... Mas uma coisa que eu não quero é que a minha mãe me bata; e então pancadas nos braços, murros nas costas. Parece uma fera direito a mim. Mas espera que algum dia ponho-me direito a ela que nem um leão. Custa muito fazer o que eu tenho feito pela minha família e ainda em cima receber maus tratos e insultos. E diz que a casa é dela, porque ela a arrendou e ela é que vai levar os aluguéis à dona. Já viu isto? E tudo pago com o meu dinheiro; meu, não; seu, porque seu é tudo o que eu tenho. Eu sempre queria ver com os ganhos de meu pai, que neste mês foram um cruzado, ou pelo menos foi tudo quanto ele deu para casa, se haviam de andar todos tão bem vestidos e comidos. Mas eu não posso estar zangada muito tempo e ela já sabe isso. Ontem nem quis pegar na minha Glória à vista de ninguém, mas quando a apanhei sozinha no berço ia-a comendo com beijos. Ah!, não queria senão ter um mocinho, meu...

Estas queixas e lamentações pueris repetiam-se diariamente, mas eu nem lhes prestava atenção, e delas zombava, todo embebido na posse do seu corpo, que era admirável e dispensava, para ser adorado, quaisquer enfeites espirituais. A princípio a inevitável mistura com o resto da família tão-pouco me impressionava; achava-lhe até certo pitoresco, e, coisa curiosa, foi preciso muito estudo para distinguir ao longe a voz de Maria Adelaide das vozes das irmãs e da mãe, quando a não via e apenas a ouvia. Era uma voz vibrante, com o tom cristalino, que se perdia, ao baixar, em inflexões quentes, moduladas cromaticamente, sem asperezas. Um dia, porém, Maria Adelaide desabafou, com uma pena que lhe vinha do fundo da alma, para me dizer que a desonravam mesmo na presença do pai, que era um desgraçado, um pobrezinho, que ficava calado e não a sabia defender. Gostava muito do pai, muito; desejava-lhe fortuna, felicidade, tudo quanto fosse bom, mas a miúdo também lhe desejava a morte, só para não haver pé de dizerem diante dele aquelas coisas... E, sempre indignada e desconfiada com todos, e chorando porque um desconhecido, ao passar-lhe em frente da casa, vendo-a à janela, exclamara para a companheira: ah!, ela é sardosa?, pois pu… e gulosa...
Mas eu sempre a rir, e como reparasse num quadro novo, pendurado na parede, representando   um monstro crucificado, no género Senhor de Alvor, perguntei: e que bicho tão feio é aquele?, ela rindo com os olhos marejados de lágrimas, mas sorrindo já, tapava os ouvidos, corria para a velha cama e ia esconder a cabeça debaixo das almofadas». In Manuel Teixeira-Gomes, Maria Adelaide, 1938, Romances Portugueses, Obras Primas do século XX, Coordenação de Davis Mourão-Ferreira, Círculo de Leitores, Cortesia da Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia de CLeitores/LBertrand/JDACT

quarta-feira, 30 de março de 2016

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «O meu amor já me não quer já me esquece e me desama tão pouco tempo a mulher leva a provar que não ama»

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O Namoro
«(…) Vivia muito isolado, como se sabe. Muitas vezes não tinha quem o tratasse, e queixava-se-me. Estava realmente muito apaixonado por mim, posso dizê-lo, e tinha uma necessidade enorme da minha companhia, da minha presença. Dizia-me numa carta: ... Não imaginas as saudadas que de ti sinto nestas ocasiões de doença, de abatimento e de tristeza.... E mostra-o bem, nesta quadra que me fez:

Quando passo um dia inteiro
sem ver o meu amorzinho
cobre-me um frio de Janeiro
no Junho do meu carinho.

Em Maio de 1920, a Carris entrou em greve por uns dias, e passámos a fazer o percurso de comboio. Para que o meu Pai não soubesse que eu saía com o Fernando, ele apanhava o comboio no Cais do Sodré e eu em Santos. Assim conversávamos até Belém. Não digo namorávamos, porque o Fernando não gostava, conforme já contei. Quando acabou a greve, ia buscar-me, à tarde, como de costume e vínhamos de eléctrico para casa, mas, como ele achava que o trajecto não era suficientemente longo, dizia a brincar: E se fingíssemos que nos enganávamos e nos metêssemos num carro para o Poço do Bispo? Este escritório, onde eu estava empregada, fundiu-se, entretanto, com outro, na Rua Morais Soares, para onde fui e onde, portanto, o Fernando passou a ir buscar-me. Nesta altura, trabalhava ele, como correspondente, na Casa Toscanoy na Rua de S. Paulo. Aí passava as manhãs de domingo, de onde me telefonava. Como se sabe, o Fernando não gostava nada de falar ao telefone. Para nos podermos ver também ao domingo, eu, em vez de ir à missa à igreja de S. Domingos, como costumava, ia à da Conceição Velha, porque, depois, o Fernando (ele não assistia à missa, era crente mas não praticante) acompanhava-me a casa e assim tínhamos mais tempo para conversar no caminho. Muitas vezes me pediu para sairmos também à tarde. Numa carta, dizia: era excelente eu poder encontrar-te ao domingo de tarde, por exemplo.... Mas nunca o fizemos. Eu não podia, porque a família, principalmente o meu pai, que continuava sem saber de nada, era muito rigoroso comigo e não me era fácil arranjar um pretexto para sair...
O Fernando era uma pessoa muito especial. Toda a sua maneira de ser, de sentir, de se vestir até, era especial. Mas eu talvez não desse por isso, nessa altura, talvez porque estava apaixonada. A sua sensibilidade, a sua ternura a sua timidez, as suas excentricidades, no fundo, encantavam-me. Por exemplo, o Fernando era um pouco confuso, principalmente quando se apresentava como Álvaro de Campos. Dizia-me então: hoje, não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos... Portava-se, nestas alturas, de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado, dizendo coisas sem nexo. Um dia, quando chegou ao pé de mim, disse-me: trago uma incumbência, minha Senhora, é a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa, de cabeça para baixo num balde cheio de água. E eu respondia-lhe: detesto esse Álvaro de Campos. Só gosto do Fernando Pessoa. Não sei porquê, respondeu-me, olha que ele gosta muito de ti. Raramente falava no Caeiro, no Reis ou no Soares.
O Fernando, principalmente quando se encontrava abatido, não acreditava que eu pudesse gostar dele. Dizia-me numa carta: se não podes gostar de mim a valer, finge, mas finge tão bem que eu não perceba. Ou, então, como nesta quadra:

O meu amor já me não quer
já me esquece e me desama
tão pouco tempo a mulher
leva a provar que não ama.

Um dia ao passarmos na Calçada da Estrela, disse-me: o teu amor por mim é tão grande, como aquela árvore. Eu fingi que não percebi. Mas não está ali árvore nenhuma... Por isso mesmo, respondeu-me ele. Outra vez, disse-me: chega a ser uma caridade cristã tu gostares de mim. És tão nova e engraçadinha, e eu tão velho e tão feio». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2016

Os Amantes. David Mourão Ferreira. «Em tudo o mais, o cenário habitual de uma praia do mar do Norte. Diante, erguia-se também, de sobre o mar, a neblina que o limitava. As ondas, cor de chumbo, passavam a nascer cada vez mais longe»

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Nem tudo é história
«Noites e noites a fio, quase de madrugada, desenrolava-se a mesma cena: um grande automóvel preto, um carro americano de antes da guerra, talvez um De Solo dos anos trinta, parava de repente ao pé de mim. O motorista, fardado de negro, mantinha-se muito hirto no seu lugar; eu não chegava sequer a ver-lhe o rosto. Mais me intrigava aliás o próprio carro, que parecia ter estado debaixo de água, ou de ter sido fabricado no fundo do mar, embora não apresentasse, na carroçaria, nenhum vestígio de humidade. Mas o capar faiscava, na sombra, como o dorso de um cetáceo; o flanco fusiforme dos faróis denunciava não sei que secreto comércio com os peixes; e a porta de trás, que vinha agora de entreabrir-se, sem que ninguém lhe houvesse tocado, evocava irresistivelmente, pelo crebro palpitar em que ficara, o inquietante mistério de uma guelra. Dentro, na outra extremidade do banco, reclinava-se um vulto de mulher cingido num vestido de lamé. Era um vestido de noite, de modelo já antiquado, que por inteiro lhe ocultava as pernas e os pés: a partir da cintura, todo fosforescia, como a cauda de uma sereia. Havia, no porte dessa mulher, qualquer coisa de hierático, e ao mesmo tempo qualquer coisa de irónico, como se quisesse mostrar, por uma espécie de jogo que não chegava a tomar a sério, o reverso daquilo que era, o reverso daquilo que sentia. Dir-se-ia que se prestara a servir de modelo, diante de um pintor académico, para um retrato muito convencional, apenas com o fim de troçar intimamente do pintor e do retrato, de si própria e da pose que adoptara. Entre os dedos da mão esquerda, que vinha, enluvada de preto, descansar-lhe no regaço, apertava as varetas cerradas de um leque de marfim. A mão direita, igualmente mergulhada numa luva preta de canhão alto, firmava-se no assento do banco. E era tão-só com um gesto negligente desta mão, tão-só com a rotação lentíssima do pulso, que me saudava e convidava a entrar, que me apontava o lugar a seu lado. Então, mal eu me sentava, sem um ruído o carro punha-se em marcha. E sempre assim, noites e noites a fio. Só depois se interpolavam, de noite para noite, pequenas variantes no percurso. Por vezes, rolávamos longamente através de ruas desertas, ou que pareciam desertas por causa do nevoeiro, e eu percebia que já estávamos fora da cidade, à medida que rareavam as casas, que aumentavam de número as silhuetas das árvores, que o nevoeiro se espraiava em remoinhos mais amplos. A estrada, sem uma curva, subia sempre, de tal modo que o corpo se me incrustava, mais e mais, no assento do carro, a ponto de estabelecer-se, entre as minhas costas e as costas do banco, aquele pacto de secreções comuns que deve firmar-se, com certeza, entre o molusco e o interior da concha a que se prende. Com a minha companheira passar-se-ia também o mesmo; ou mais ainda: desde a penumbra da sua nuca aos artelhos invisíveis, não se lhe vislumbrava, em todo o corpo, senão a tenuíssima cadência vibratória do próprio carro em que seguíamos. Continuava com a mão direita apoiada no rebordo do banco; e mantinha-se, entre nós dois, uma distância de cerca de dois palmos. Depois de eu me ter sentado, nem por um instante olháramos um para o outro. Eu sabia, aliás, que o seu rosto se esfumava numa quase completa obscuridade, que nem me seria possível distinguir-lhe as feições, que descobriria quando muito, acima do pescoço, o halo nevoento de um sorriso. Os pneus do automóvel principiavam a rodar em falso. Atingíramos a orla de um extenso areal; ou, mais propriamente, a saibrosa fronteira do planalto de uma duna. A parte dianteira do carro afocinhara na areia; logo a seguir, porém, cindia-se do resto do veículo, como se houvera sido previamente serrada, e lentamente começava a descer, diante de nós, em sentido oblíquo, transformada na cabina de um funicular. Assim acabava por sumir-se, inteiramente devorada pelo próprio túnel que fora abrindo. O dorso negro do motorista era a derradeira mancha a desaparecer. E ficávamos ambos, tu e eu, miseravelmente aliviados com esse desaparecimento. Traiçoeiramente, a coberto da névoa, o mar tinha chegado até junto de nós. Estremecias, num súbito arrepio. Eu colocava então a mão esquerda sobre os dedos enluvados da tua mão direita. Em cima, no antebraço, quase ao redor do cotovelo, o tecido da luva começava a estalar. E dissipava-se pouco a pouco o nevoeiro: íamos vendo, alinhadas em fila, a nosso lado, outras metades de automóvel como aquela em que nos encontrávamos. Em tudo o mais, o cenário habitual de uma praia do mar do Norte. Diante, erguia-se também, de sobre o mar, a neblina que o limitava. As ondas, cor de chumbo, passavam a nascer cada vez mais longe. Mas era sempre em hemiciclo que o líquido anfiteatro ganhava profundidade. Não tardava, porém, a desenhar-se no horizonte uma súbita margem: era a continuação do mesmo areal, a repetição das mesmas capotas alinhadas, o mesmo cenário de uma praia do mar do Norte. E a luva, que não cessara de estalar numa crepitação de folhas secas, mostrava agora o início de um rasgão ao longo do antebraço. Já se entreabriam, mais para além, outras ondas cor de chumbo; já um segundo anfiteatro ia surgindo; já despontava, por sua vez, uma terceira língua de areia. E progredia, ao longo do antebraço, a caminho do pulso, o rasgão vertical no tecido da luva. Outro lago, mais outro, outro ainda: sempre em forma de anfiteatro. Vinte, quarenta, cem, trezentos lagos. Em frente, à esquerda, à direita, em todas as direcções. E por entre esses lagos, alongando-se até ao infinito, um labirinto de línguas de areia. O rasgão, entretanto, bifurcara-se em delta por cima dos cinco dedos. Mas era afinal a minha mão, coberta de sangue, que saía do interior dessa luva rasgada». In David Mourão-Ferreira, Os Amantes e Outros Contos, 1968, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1992/2006, ISBN 978-972-231-584-5.

Cortesia EPresença/JDACT

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «Bombom é um doce eu ouvi dizer não que isso fosse bom de saber, o doce enfim não é para mim... Do Fernando tenho também um cachimbo. Ele fumava muito. Cachimbo e cigarros. Até tinha as pontas dos dedos amarelas»

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O Namoro
«(…) Era duma delicadeza e duma ternura imensa. Quase todos os dias me levava um presente, que escondia dentro das gavetas da minha secretária, como já contei, para me fazer surpresa quando eu chegava de manhã. Um dia encontrei uma caixa de fósforos com dois meiguinhos lá dentro. Meiguinhos eram uns bonequinhos que apareceram na altura, macho e fêmea, feitos de arame, coberto de fitilho de seda. Já não os tenho. Outra vez foi uma pulseira de filigrana, que sempre usei, e que ainda tenho. Duas caixinhas, em filigrana também, douradas, muito bonitas. E conservo um medalhão em esmalte, com uns gatinhos, que o Fernando me deu para eu pôr a sua fotografia, coisa que nunca fiz pois a única foto que tinha dele, e, como se sabe, ele não gostava nada de tirar retratos, era muito grande, não cabia no medalhão, e eu tive pena de a estragar, recortando. Por acaso, usei-o sempre com uma fotografia do meu sobrinho Carlos, que ainda hoje lá está. Como eu era muito gulosa, e ainda sou, e o Fernando sabia-o bem, muito bem, levava-me de presente, muitas vezes. Rebuçados e bombons. Dentro de uma caixa de bombons, um dia, encontrei estes versos:

Bombom é um doce
Eu ouvi dizer
Não que isso fosse
Bom de saber
O doce enfim
Não é para mim...

Do Fernando tenho também um cachimbo. Ele fumava muito. Cachimbo e cigarros. Até tinha as pontas dos dedos amarelas. Eu ralhava muito com ele e de brincadeira dizia-lhe: … um dia tiro-te esse cachimbo. E tirei mesmo. Ele achou muita graça, como de resto achava a tudo o que eu fazia ou dizia, e nunca mo pediu. Ainda o tenho. Encontrávamo-nos todos os dias, e, quase sempre, mesmo depois de eu ter deixado o escritório, à porta da Livraria Ingleza, na Rua do Arsenal, onde o Fernando ia comprar jornais. Além disso, escrevíamo-nos muito. As cartas eram-me entregues, normalmente, pelo grumete do escritório, o Osório. Foi um namoro simples, até certo ponto igual ao de toda a gente, embora o Fernando nunca tivesse querido ir a minha casa, como era habitual da parte de qualquer namorado. Dizia-me: … sabes, é preciso compreender que isso é de gente vulgar, e eu não sou vulgar. Eu compreendia-o e aceitava-o exactamente assim, com ele era. Por exemplo, dizia-me também muitas vezes: … não digas a ninguém que nos namoramos, é ridículo. Amamo-nos.
Passeávamos e conversávamos acerca de tudo, das coisas mais simples. De poesia, dos livros que lia, das suas aspirações, da família. Lembro-me do Fernando me dizer que era sidonista. Fez um dia uns versos a Sidónio Pais, que me ofereceu, mas que, infelizmente, desapareceram, assim como os manuscritos de alguns outros versos que aqui recordo. Ele era também conhecido como monárquico; mas dizia-me. Eu não sou monárquico, sou talassa. Não posso passar à porta da Brasileira porque sou agredido. Passo do lado de lá, se não apanho uma bengalada. O Fernando adorava-me, e tinha uns repentes de paixão que me assustavam, mas que ao mesmo tempo me divertiam. Por exemplo, um dia, no escritório, o primo tinha saído, e ele entrou no meu gabinete. Sem dizer uma palavra pegou-me ao colo, levou-me para a outra sala, sentou-me numa cadeira e ajoelhou-se a meus pés dizendo as maiores ternuras. Outra vez, num destes seus ataques repentinos, estávamos nós na paragem do eléctrico na Rua de S. Bento, empurrou-me para o vão de uma escada. Não percebi o que era; até pensei que fosse ele que, pela sua timidez, tivesse visto alguém e não quisesse que nos vissem juntos. Mas, sem eu esperar, agarrou-me com toda a força e beijou-me: um beijo enorme, enorme.
Ou, então, acontecia estarmos muito bem a conversar, e de repente ele dizer-me uma coisa que não vinha nada a propósito, como, por exemplo, chamar-me ácido sulfúrico, mas isto dito com a maior paixão. Entre Março e Abril desse ano, deixei o escritório Félix e Valladas, e fui para a casa C. Dupin no Cais do Sodré. O Fernando acompanhava-me todos os dias, daí para casa de minha irmã, no Rossio. Os meus pais viviam na Rua dos Poiais de S. Bento, esquina para a Rua Caetano Palha, mas eu passava parte do tempo em casa desta minha irmã de quem fazia uma diferença de vinte anos. Ela tratava-me como filha, adorava-me, e como só tinha um filho único, o meu sobrinho Carlos Queiroz, gostava imenso da minha companhia. Eu, claro, era muito nova, muito alegre e, portanto, preferia estar em casa dela. A minha mãe, coitada, passavam-se dias sem me ver, até que, cheia de saudadas, me mandava para casa. Nessas alturas, então, o Fernando e eu combinávamos uma hora para eu estar à janela e ele passar, para assim nos vermos. O meu pai nem sonhava que nós nos namorávamos. Eu ia para a janela e, à hora combinada, ele aparecia. Passava no passeio da frente, muito discretamente, como aliás procedia em tudo, e disfarçadamente fazia-me caretas e atirava-me beijos. Depois, ia pela rua abaixo (parece impossível um homem destes..., subindo e descendo os degraus de todas as portas aos pulinhos, só para eu achar graça. Na 2ª feira então, quando nos encontrávamos, comentávamos a cena e ríamos muito.
O Fernando, em geral, era muito alegre. Ria como uma criança, e achava muita graça às coisas. Dizia, por exemplo, ouvistaste? Em vez de ouviste. Quando saía para ir engraxar os sapatos, dizia-me: … eu já venho vou lavar os pés por fora. Um dia mandou-me um bilhetinho assim: … o meu amor é pequenino, tem calcinhas cor-de-rosa. Eu li aquilo, e fiquei indignada. Quando saímos, disse-lhe zangada: … ó Fernando, como é que você sabe, se eu tenho calcinhas cor-de-rosa ou não, você nunca viu... (tanto nos tratávamos por tu, como por você). E ele respondeu-me a rir: … não te zangues Bébé, é que todas as Bébés pequeninas têm calcinhas cor-de-rosa... Pouco tempo depois, mudei outra vez de emprego. Fui então para Belém, para uma companhia de material de aviação, como tradutora. O Fernando ia buscar-me todos os dias; conversávamos, portanto, durante o trajecto do carro eléctrico. Nesta altura, andava ele muito preocupado e ocupado com a mudança da casa de Benfica, para a Estrela, na Rua Coelho da Rocha. A mãe que vivia no Transvaal com as irmãs, tinha-o encarregado de arranjar casa, e foi ele sozinho que teve que tratar de tudo». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «Eu tinha 19 anos quando conheci o Fernando. Fazíamos, portanto, uma diferença de 12 anos. Ele achava-me muita graça. Por ternura, tratava-me por Bébé, Bébé pequenino, Bébézinho e até me fez alguns versos…»

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A Primeira carta
«(…) O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me, apaixonadamente, como louco. Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Piquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.

Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação.
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.

Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.

Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma nuvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.

Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever-lhe uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920. Assim começámos o namoro.

O namoro
Víamo-nos todos os dias no escritório, onde, como já disse, o Fernando ia, como correspondente e amigo. Eram só olhares, recados, bilhetinhos, que me atirava para cima da secretária, disfarçadamente. E também presentes, que eu encontrava dentro das gavetas quando chegava de manhã. De entre os bilhetes conservo alguns: Kiss me. Dê-me um beijinho, sim? Não é nada, Bébé ciumento; logo lhe mostro o que é, etc., etc.
Talvez por eu ser muito nova e brincalhona, o Fernando não se convencia que eu pudesse gostar dele, e mostrava-o, como nestes versos que um dia me mandou:

Os meus pombinhos voaram.
Elles pr’a alguém voariam.
Eu só sei que m’os tiraram;
Não sei a quem os dariam.

Meus pombinhos, meus pombinhos,
Que já não têm os seus ninhos
Ao pé de mim.
São assim os meus carinhos
Matam-os todos assim!

Por ser muito pequena e magra, embora os braços e as pernas fossem roliços (tinha uma figura engraçada), e como não me pintava, parecia ainda mais nova do que era realmente. Eu tinha 19 anos quando conheci o Fernando. Fazíamos, portanto, uma diferença de 12 anos. Ele achava-me muita graça. Por ternura, tratava-me por Bébé, Bébé pequenino, Bébézinho e até me fez alguns versos relacionados exactamente com a minha figura:

O meu amor é pequeno,
Pequenino não o acho.
Uma pulga deu-lhe um coice,
Deitou-o da cama abaixo.

Ou estes outros:

Eu tenho um Bébé Que é.
Quanto ao tamanho
Assim: (Bolinha)
Quanto ao amor que lhe tenho
(uma linha curva)
Esta linha dá a volta ao mundo
Ai de mim!

Um dia, ainda no escritório Félix e Valladas, levou-me, de presente, uma cadeirinha de bonecas, de palha encarnada, com um palmo de altura, para eu me sentar. Tinha-a comprado na Praça da Figueira. A propósito, o Fernando dizia-me: …quando nos casarmos, tenho que comprar um banquinho, para tu te pores em cima, e quando eu chegar a casa me dares um beijo. Eu entro, e pergunto: … por acaso não viram por aí a minha mulher? Então tu apareces, e eu digo: … ah! estavas aí! és tão pequenina que não te via». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «O Fernando era muito supersticioso, especialmente com cães a ganir. Dizia que quando ia para casa à sua passagem, os cães ganiam, e que isso significava haver qualquer coisa nele que os fazia ganir»

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Como conheci o Fernando
«(…) Como não era costume na época andarem as raparigas sozinhas, fui acompanhada por uma empregada de casa de minha irmã, com quem eu vivia na altura, mãe do meu sobrinho, o futuro poeta Carlos Queiroz. Quando chegámos e batemos à porta do escritório, ainda estava fechado, pelo que tivemos que esperar. A certa altura vimos a subir a escada um senhor todo vestido de preto (soube mais tarde que estava de luto pelo padrasto), com um chapéu de aba revirada e debruada, óculos e laço ao pescoço. Ao andar, parecia não pisar o chão. E trazia, coiso mais natural, as calças entaladas nas polainas. Não sei porquê, aquilo deu-me uma terrível vontade de rir e foi com grande esforço que lá consegui dizer que ia responder ao anúncio, quando ele, timidamente, nos perguntou o que desejávamos. Foi esta a minha primeira imagem do Fernando.
Muito atencioso, disse-nos então que esperássemos um bocadinho, porque ele não era o dono do escritório. Entrámos e, passado um bocado, apareceu o primo. Perguntou quem era a interessada, e começámos a conversar. O Fernando assistiu a tudo, sentado a uma secretária, virado para mim, e com um ligeiro sorriso, de quem estava a achar graça. Passados três dias fui chamada. Foi o próprio Fernando que me recebeu nesse dia. Já lá estava quando eu cheguei, estava mesmo à minha espera. Sentou-se numa cadeira, junto da minha secretária e destinou-me o trabalho: endereços pelo anuário comercial. A certa altura disse-me timidamente: … sabe, queria preveni-la duma coisa. É que a passadeira da escada tem um buraco e não vá a menina cair... Depois calou-se e, passado um bocado, disse: … há outra coisa de que queria preveni-la; é que o outro sócio, o Valladas, é um pouco rude. Ele não é má pessoa, sabe, mas é da GNR. e não vá a menina chocar-se com qualquer coisa... Tudo isto foi dito com um ar circunspecto, mas cheio de amabilidade. Depois começaram, os olhares..., a corte... Passou-se uma coisa engraçada, logo nesse primeiro dia. Eu estava sentada a escrever à máquina. Alguém entrou no gabinete, não me lembro agora quem, e disse: … ó Fernando, não estava mesmo a apetecer dar um beijo naquele pescoço? … Eu não acho, respondeu ele secamente, maçado mesmo. Mais tarde disse-me que já eram ciúmes...
O Fernando era muito ciumento, mas não se zangava, não dizia nada; sofria. Não gostava que eu usasse decotes, nem falasse com rapazes. Um dia disse-me: … Hoje, pela primeira vez, tive ciúmes dos olhos do meu primo. … Porquê?, perguntei. … Porque eles viram-te e eu não te vi. Isto passou-se numa segunda-feira e eu por acaso no domingo tinha encontrado o primo dele na rua. Outra vez, mandou-me um bilhetinho, que dizia: … estavas a fazer olhos ternos ao Pantoja. Mas ele gostava de me fazer ciúmes a mim, para ver a minha reacção. Um dia, veio com uma história que se tinha passado com ele no eléctrico. Comentando a influência e a força do olhar de certas pessoas, contava ele que, ao fixar a cabeça loura de uma senhora que ia sentada à sua frente, ela se virara de repente para ele e o fixara insistentemente. Percebi logo qual era a intenção da história, e durante muito tempo falei-lhe na senhora loura, fingindo ter ciúmes. Ele gostava imenso e tinha um trabalhão a tentar convencer-me de que não havia senhora loura nenhuma.
O Fernando era muito supersticioso, especialmente com cães a ganir. Dizia que quando ia para casa à sua passagem, os cães ganiam, e que isso significava haver qualquer coisa nele que os fazia ganir.

A Primeira carta
Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o grumete, tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o, e pô-lo em cima da minha secretária. Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetinho para cima da secretária, que dizia: peço-lhe que fique. Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura, já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu, confesso, também lhe achava uma certa graça...
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: … oh, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh!, até do último extremo, acredita! Fiquei perturbadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT