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terça-feira, 17 de março de 2015

Pela Luz dos Olhos Seus. Janine Boissard. «… sempre gostei de música, tanto a denominada clássica quanto a pop, do violoncelo ao acordeão. ‘Ela transforma a dor em poesia’ e, às vezes, ‘o infortúnio em ópera’. Impossível viver sem ela. Imaginam um mundo sem passarinhos?»

jdact e wikipedia

Ela. Sinfonia nº 2 de Felix Mendelssohn
«(…) Agathe: 1,68 metro, magra, mas cheinha onde era preciso. Pele branca, olhos azuis, cabelos sempre mais louros graças aos champô de camomila. Trigo suave, trigo de primavera. A pequena: 1,53 metro; mas nada estava perdido, afinal as meninas crescem até à primeira menstruação, podendo inclusive ganhar 2 centímetros depois. Olhos verdes salpicados de amarelo, bronzeado tórrido ao primeiro beijo do sol. Dá vontade de apertar, resumia o meu pai, mergulhando nas minhas bochechas. Farinha de centeio, pão preto. A bela era Agathe. Mas o que é mesmo a beleza? De onde vinha a diferença? Nas palavras da família, eu tinha olhos magníficos, meu nariz era rectilíneo, e os meus dentes, impecáveis depois do aparelho. Quanto aos cabelos, eram dez vezes mais volumosos que a palha dourada de Agathe. Sua irmã chama a atenção!, exclamara um dia um colega. Pois bem, eu não chamava. Era por isso que, em Deauville, quando passeávamos pelo cais, ainda que eu fosse a mais bronzeada e fizesse o possível para me fazer notar, os garotos se viravam para ela e assobiavam. Era por essa razão que eles queriam levá-la a todos os lugares, aos bares, ao cinema, ao baile, usando o carro dos pais para desfilar na sua companhia. E, finalmente, talvez fosse também um pouco por esse motivo que eu preferia ficar lendo na cama em vez de assistir aos seus truques para fazê-los pagar as bebidas para ela, enquanto as minhas eu tinha que pagar do meu próprio bolso. Não havia motivo algum para fazer um discussão. Aliás, a tia Jeannette dissera que eu não era de se jogar fora, e até ficava um pouco melhor quando me esforçava para sorrir diante do espelho e os meus olhos amarelos cintilavam. E, em Villedoye, havia uns verdadeiros dragões: Babet com as nádegas caída, a pobre Joséphine-lábio-leporino e Irene, cujos olhos nenhum médico conseguira colocar no lugar.

Entre na dança, veja como se dança.
Pule, dance, beije quem você quiser.

No que se referia ao quem você quiser, era mais fácil na canção do que na prática. Sem dúvida foi por causa da comparação entre o lírio e a flor silvestre que resolvi chamar atenção à minha maneira. Não fiz o curso normal, consegui um diploma de inglês e, graças à minha preferência pela leitura, formei-me em letras com louvor. Em seguida, deixei o mar e fui-me instalar em Paris, onde trabalho com música e danço com os grandes.
Cheguei de ressaca à Agência hoje de manhã, pois ontem fui comemorar os meus 26 anos com alguns amigos num bar. Dormir às três da manhã no meio da semana não tem nada de mais quando a data é importante, e, em todo caso, ganhara 4 centímetros depois dos meus 13 anos... Não podia deixar de comemorar isso! A Agência era como chamávamos carinhosamente os nossos 200 metros quadrados de escritório nas proximidades dos Champs-Élysées, onde a nossa equipa de assessores de imprensa trabalhava muito para promover cantores talentosos e promissores. Os nossos clientes eram editoras de discos sobrecarregadas e também músicos independentes, que deduzem que a fama demora demais a estender as asas sobre as suas cabeças. Para ajudá-los, assediávamos os jornais, as rádios e as emissoras de TV. Organizávamos entrevistas e colectivas, planeávamos viagens e às vezes os acompanhávamos. Amava esse trabalho, que me fazia esquecer da hora e me permitia conviver com essas pessoas curiosas que chamamos de artistas, muitas vezes caricatas, porém quase nunca desinteressantes, dispostas a morrer para serem reconhecidas. Além do mais, sempre gostei de música, tanto a denominada clássica quanto a pop, do violoncelo ao acordeão. Ela transforma a dor em poesia e, às vezes, o infortúnio em ópera. Impossível viver sem ela. Imaginam um mundo sem passarinhos?
No dia seguinte ao meu aniversário, estava ao telefone, um pouco cansada apesar do expresso duplo que bebera, perturbando um jornalista, quando alguém bateu no vidro da minha sala e avisou que o chefe estava chamando-me. Henri Desjoyaux, fundador da Agência, que tem apenas 35 anos, é um bonitão com dentes grandes. Faz questão de que o chamemos pelo nome e trabalhemos todos juntos, uns colaborando com os outros. Havia um homenzinho com ele: na casa dos 50, terno com colete, cabelos cheios e grisalhos e um olhar fulminante por trás das grossas lentes dos óculos. Laura, apresento-lhe um grande amigo meu: David May. Com a sua mão pequena e cabeluda, ele triturou os meus dedos. Pode-me chamar de David, já que, pelo visto, a Laura vai salvar-nos!, declarou o homenzinho com voz áspera. Voltei a minha atenção para Henri, que me esclareceu: David é o agente de Claudio Roman. Claudio Roman é um tenor tão célebre na França quanto no estrangeiro. É tão disputado que não é preciso bajular a imprensa para promovê-lo. Segundo os boatos, é também um sedutor e um grande crápula. Se não me engano, não está longe dos 40 anos. Além disso, é cego». In Janine Boissard, Pela Luz dos Olhos Seus, 2003, Editora Arqueiro, 2013, tradução de André Teles, ISBN 978-858-041-211-6.

Cortesia EArqueiro/JDACT

Pela Luz dos Olhos Seus. Janine Boissard. «’A pequena’ sou eu. As pessoas nos diferenciam assim. O que poderia incomodar a pequena? O que pensa… Elas se adoram. E não se esqueça de que Laura é a melhor na escola»

jdact e wikipedia

Ela. Sinfonia nº 2 de Felix Mendelssohn
«Não iremos mais ao bosque, os loureiros foram ceifados. A bela que chegou irá colhê-los... A bela era eu! Tinha 8 anos, cabelos castanhos compridos, cílios grandes sobre olhos verdes, não, amarelos, zombava Agathe, minha irmã mais velha. Dentes proeminentes, o que seria fácil de consertar com um aparelho, e a pele morena, que me protegia dos raios de sol. Ah! Eu era a cara do meu pai, um tipo mediterrâneo com uma remota ascendência de espanhóis. Agathe, por sua vez, puxara ao lado da mãe, garota do Norte, loura de olhos azuis, esguia e fina como só ela. Pão branco, pão preto. Não são farinha do mesmo saco, brincavam carinhosamente as pessoas ao nos verem lado a lado. Vale dizer que o meu pai era padeiro. Vivíamos entre o mar e as macieiras, na Normandia, numa aldeia de setecentos habitantes, número que triplicava na temporada turística, pois ficava pertinho de Deauville. Com as tempestades que às vezes nos roubavam um marinheiro, as ressacas, um ou outro deslizamento de penhasco, os amores do carteiro, os da Sra. Pointeau por incontáveis gatos e cães que um dia a devorariam, nunca nos entediávamos em Villedoye. Todas as pessoas se conhecia e... A padaria não é, para todo o cristão que se preze, a parada obrigatória de todos os dias? Cresci, invejada pelas colegas, em meio ao aroma quente da massa de pão, das tortas, dos croissants e dos bolinhos, e tão habituada a eles que nem lhes dava mais atenção. Todas as manhãs, um autocarro levava Agathe e eu ao colégio. Em breve seria o liceu e, se continuássemos os estudos, a universidade, em Caen. A mãe já nos via professoras primárias, profissão ideal quando a pessoa tem filhos, proporcionando um emprego seguro e, graças aos horários e às férias, o tempo de dedicar-se a seus afazeres como bem lhe aprouver. Claro, na Normandia chovia muito, mas nós gostávamos disso, pois combinava com a região. Tenho 13 anos e estamos no verão. Agathe foi à praia com amigos, mas preferi ficar lendo na cama. Na cozinha, a mãe conversa com Jeannette, uma das minhas incontáveis tias. Riem ao falar da minha irmã, que não sabe o que fazer com tantos pretendentes, como os grandalhões que vieram pegá-la em três carros para tomar banho de mar em Deauville. E todos queriam levá-la, viu? Mais um pouco e saíam na briga. Está aí uma para quem não terá dificuldade em arranjar casamento, observa minha tia. Não somos nós que os arranjamos mais, elas se viram muito bem sozinhas, diz sensatamente minha mãe. Aguço os ouvidos, pois o assunto me interessa. Isso não deixa a pequena chateada?, pergunta Jeannette, baixinho. A pequena sou eu. As pessoas nos diferenciam assim. O que poderia incomodar a pequena? O que pensa, responde a mãe. Elas se adoram. E não se esqueça de que Laura é a melhor na escola. É verdade. Lá sou maravilhosa, e é Agathe que vira a pequena, até mesmo minúscula, no dia em que trazemos os boletins para assinar. A propósito, ela repetiu de ano. Agora estou apenas uma série atrás dela. Eu: Excelente aluna, séria, talentosa, parabéns! Ela: Poderia se sair melhor em todas as disciplinas, menos educação física, pois ela adora ficar de short para que admirem o seu corpo. Agathe e o estudo não combinam. Ela prefere sonhar, enrolando no dedo um dos seus compridos cachos louros. E no dia do boletim, eu é que tenho de consolá-la. Tem razão, concorda Jeannette. Pelo menos a pequena brilha. De certa maneira, é uma compensação. E depois, eu não disse que Laura era feia. Não é de se jogar fora. É, que, quando se compara...
O barulho da cadeira sendo empurrada com brusquidão indica tempestade no ar. A mãe retruca, furiosa: Mas por que ficam comparando? Por acaso comparam o lírio com a flor silvestre? Pois saiba que eu acho óptimo ter duas filhas tão diferentes. Comparar. Até aquele momento eu não pensara muito nisso. Aos 13 anos, todos lhe dirão a mesma coisa, é a idade da transformação, quando a mocinha apenas se insinua e ainda não podemos prever o resultado final. O importante, nessa fase, é ter um bom ambiente em casa, uma irmã com quem conspirar e amigas. Eu tinha tudo isso; na verdade, tinha até mais amigas do que Agathe, que era metida e não sabia guardar segredos. Quando ela voltou da praia e tomou o seu banho de água doce, espalhando areia para todo lado, com a porta aberta para ser admirada, fiquei comparando». In Janine Boissard, Pela Luz dos Olhos Seus, 2003, Editora Arqueiro, 2013, tradução de André Teles, ISBN 978-858-041-211-6.

Cortesia EArqueiro/JDACT