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sábado, 22 de julho de 2023

Estudos sobre a Arte d’Os Lusíadas. António José Saraiva. «Que gloriosas palmas tecer vejo com que Vitória a fronte lhe coroa, quando, sem sombra vã de medo ou pejo, toma a ilha ilustríssima de Goa!»

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«Assim Tétis, na Ilha dos Amores,

Com doce voz está subindo ao Céu

Altos varões que estão por vir ao mundo,

Cujas claras ideas viu Proteu

Num globo vão, diáfano, rotundo.

Nesses casos usa Camões o futuro, mas um futuro que é apenas um presente inactual, invisível aos homens, mas visível aos deuses. O futuro é também, portanto, um tempo verbal que denota, como o presente, a intemporalidade; por isso acontece que na voz dos deuses presente e futuro são interpermutáveis, como se vê nas estrofes consagradas por Tétis a Afonso de Albuquerque:

Mas oh! que luz tamanha que abrir sinto

(Dizia a ninfa e a voz alevantava)

(...)

Esta luz é do fogo e das luzentes

Armas com que Albuquerque irá amansando

De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,

(...)

Que gloriosas palmas tecer vejo

Com que Vitória a fronte lhe coroa,

Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,

Toma a ilha ilustríssima de Goa!

(...)

Eis já sobr'ela torna e vai rompendo

Por muros, fogo, lanças e pelouros,

(...)

Irão soldados ínclitos fazendo

Mais que leões famélicos e touros.

Segundo a nossa hipótese, a abolição do tempo, que Camões procurou exprimir por um jogo especial dos tempos verbais, está relacionada com o facto de, desde o começo do Poema, o Autor se colocar na atitude de quem mostra sobre uma superfície visível acontecimentos que o olhar abrange. No interior do Poema essa atitude converte-se em processo literário. É assim que, ao longo de quase metade do canto VIII, Paulo da Gama explica ao catual as tapeçarias da nau capitaina, que representam heróis em acção, desde Luso, primeiro povoador de Portugal, até Duarte Meneses, capitão em Marrocos. É uma boa parte da história de Portugal que por este processo é referida. Paulo da Gama descreve um por um os quadros que estão diante dos seus olhos e dos do catual, começando cada explicação por expressões como: Este que vês; Vês outro que; Olha aquele e outras semelhantes. Notemos que cada pintura representa uma acção, de modo que cada explicação é uma breve narrativa, se esta palavra se pode aplicar a uma representação estendida no espaço e que é precedida de uma introdução no tipo de Vê-lo, cá vai. É claro que, referindo-se a quadros presentes (se bem que movimentados), o relator só pode usar os verbos no presente. Falando do célebre feito de Giraldo Sem Pavor:

Olha aquele que dece pela lança

Com as duas cabeças dos vigias».

In António José Saraiva., Estudos sobre a Arte d’Os Lusíadas, Gradiva, Publicações, 1996, ISBN 972-662-476-2.

Cortesia de GradivaP/JDACT

JDACT. António José Saraiva, Ensaio, Literatura, Camões, 

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Estudos sobre a Arte d’Os Lusíadas. António José Saraiva. «Quando a Fé, que no mundo se pubrica, Tomé vinha pregando, e já passara províncias mil do mundo, que ensinara»

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«Aqui a cidade foi, que se chamava

Meliapor, fermosa, grande e rica;

Os ídolos antigos adorava,

Como inda agora faz a gente inica.

Longe do mar naquele tempo estava,

Quando a Fé, que no mundo se pubrica,

Tomé vinha pregando, e já passara

Províncias mil do mundo, que ensinara.

Aqui a cidade foi: estamos no passado concluso. E é com este foi que concordam o se chamava, o adorava e o naquele tempo estava. Tétis está falando naquele tempo passado e usa o imperfeito segundo a regra normal. Mas já então a Fé se pubrica no mundo: entramos no presente. E é com este presente que concorda agora o imperfeito na forma durativa, com que começa a história de Tomé: Tomé vinha pregando. É verdade que o já passara e o ensinara supõem novamente o passado como forma determinante. Mas o presente denotado pelo pubrica e anunciado pelo vinha pregando emerge, afinal, como tempo definitivo do episódio:

Chegado aqui, pregando e junto dando

A doentes saúde, a mortos vida,

Acaso traz um dia o mar, vagando,

Um lenho de grandeza desmedida.

Tudo o que se segue a este traz é contado no presente, incluindo o desfecho, que é o assassinato do apóstolo:

Um dos maus, por fartar-se mais depressa,

Com crua lança o peito lhe atravessa.

O que este exemplo mostra talvez possa descrever-se como a emergência do presente. Por outras palavras, o passado serve só, neste caso, para sobrelevar o presente (= não-tempo); é um background. O que nos leva a um curioso resultado: o tempo, neste poema heróico, tem uma categoria inferior, acessória em relação ao não-tempo; é como a pedra não trabalhada sobre a qual avultam certas esculturas.

O advento de Afonso Henriques, a personagem que ocupa maior espaço na história de Portugal contada por Vasco da Gama (55 estrofes), é introduzido por uma breve narrativa dos seus antecedentes imediatos, em 7 estrofes. Estas têm os verbos todos, sem excepção, no perfeito; aquelas, todos, com poucas excepções, no presente.

Segundo esta hipótese, há n' Os Lusíadas, salva uma excepção notável de que adiante falaremos, uma hierarquia dos tempos verbais que é independente da categoria temporal. O tempo a que chamamos presente é reservado aos acontecimentos importantes; o tempo narrativo, aos que o Poeta considera acessórios, episódicos, de ligação, ou preparatórios do acontecimento em que se demora a vista.

Mas, além das acções visíveis aos homens, há, dentro do Poema, aquelas que são só visíveis aos deuses. Uma parte da história contida n 'Os Lusíados é posterior à viagem do Gama e só pode ser contada por personagens que têm o privilégio denver o futuro». In António José Saraiva., Estudos sobre a Arte d’Os Lusíadas, Gradiva, Publicações, 1996, ISBN 972-662-476-2.

Cortesia de GradivaP/JDACT

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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Ensaio Sobre a Cegueira. José Saramago. «… o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido»

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«(…) Ao oferecer-se para ajudar o cego, o homem que depois roubou o carro não tinha em mira, nesse momento preciso, qualquer intenção malévola, muito pelo contrário, o que ele fez não foi mais que obedecer àqueles sentimentos de generosidade e altruísmo que são, como toda a gente sabe, duas das melhores características do género humano, podendo ser encontradas até em criminosos bem mais empedernidos do que este, simples ladrãozeco de automóveis sem esperança de avanço na carreira, explorado pelos verdadeiros donos do negócio, que esses é que se vão aproveitando das necessidades de quem é pobre. No fim das contas, estas ou as outras, não é assim tão grande a diferença entre ajudar um cego para depois o roubar e cuidar de uma velhice caduca e tatebitate com o olho posto na herança. Foi só quando já estava perto da casa do cego que a ideia se lhe apresentou com toda a naturalidade, exactamente, assim se pode dizer, como se tivesse decidido comprar um bilhete de lotaria só por ter visto o cauteleiro, não teve nenhum palpite, comprou a ver o que dali saía, conformado de antemão com o que a volúvel fortuna lhe trouxesse, algo ou coisa nenhuma, outros diriam que agiu segundo um reflexo condicionado da sua personalidade. Os cépticos acerca da natureza humana, que são muitos e teimosos, vêm sustentando que se é certo que a ocasião nem sempre faz o ladrão, também é certo que o ajuda muito.

Quanto a nós, permitir-nos-emos pensar que se o cego tivesse aceitado o segundo oferecimento do afinal falso samaritano, naquele derradeiro instante em que a bondade nada poderia ter prevalecido referimo-nos o oferecimento de lhe ficar a fazer companhia enquanto a mulher não chegasse quem sabe se o efeito da responsabilidade moral resultante da confiança assim outorgada não teria inibido a tentação criminosa e feito vir ao de cima o que de luminoso e nobre sempre será possível encontrar mesmo nas almas mais perdidas. Plebeiamente concluindo como não se cansa de ensinar-nos o provérbio antigo, o cego, julgando que se benzia, partiu o nariz.

A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.

Não será possível, portanto, neste caso, deslindar que parte dos medos e que parte da consciência afligida começaram a apoquentar o ladrão assim que pôs o carro em marcha. Sem dúvida nunca poderia ser tranquilizador ir sentado no lugar de alguém que segurava com as mãos este mesmo volante no momento em que cegou, que olhou através deste pára-brisas e de repente ficou sem ver, não é preciso ser-se dotado de muita imaginação para que tais pensamentos façam acordar a imunda e rastejante besta do pavor, aí está ela já a levantar a cabeça. Mas era também o remorso, expressão agravada duma consciência, como antes foi dito, ou, se quisermos descrevê-lo em termos sugestivos, uma consciência com dentes para morder, que estava a pôr-lhe diante dos olhos a imagem desamparada do cego quando fechava a porta, Não é preciso, não é preciso, dissera o coitado, e daí para o futuro não seria capaz de dar um passo sem ajuda». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 

Cortesia de ECaminho/JDACT


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domingo, 18 de dezembro de 2022

Ensaio Sobre a Cegueira. José Saramago. «A mulher aproximou-se do marido, pôs-lhe a mão no ombro, disse, Verás como tudo se irá resolver. O médico subiu e baixou o sistema binocular do seu lado, fez girar parafusos de passo finíssimo, e principiou o exame»

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«(…) O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora, ou parecido, Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, E diz-me que foi de repente, Sim, senhor doutor, Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, Nestes últimos dias tinha sentido alguma diferença na vista, Não, senhor doutor, Há, ou houve, algum caso de cegueira na sua familia, Nos parentes que conheci ou de quem ouvi falar, nenhum, Sofre de diabetes, Não, senhor doutor, De sífilis, Não, senhor doutor, De hipertensão arterial ou intracraniana, Da intracraniana não sei, do mais sei que não sofro, lá na empresa fazem-nos inspecções, Deu alguma pancada violenta na cabeça, hoje ou ontem, Não, senhor doutor, Quantos anos tem, Trinta e oito. Bom, vamos lá então observar esses olhos. O cego abriu-os muito, como para facilitar o exame, mas o médico tomou-o por um braço e foi instalá-lo por trás de um aparelho que alguém com, magmaçao pocer, a ver como um novo modelo de confessionário, em que os olhos tivessem substituído as palavras, com o confessor a olhar directamente para dentro da alma do pecador, Apoie aqui o queixo, recomendou, mantenha os olhos abertos, não se mexa. A mulher aproximou-se do marido, pôs-lhe a mão no ombro, disse, Verás como tudo se irá resolver. O médico subiu e baixou o sistema binocular do seu lado, fez girar parafusos de passo finíssimo, e principiou o exame. Não encontrou nada na córnea, nada na esclerótica, nada na íris, nada na retina, nada no cristalino, nada na mácula lútea, nada no nervo óptico, nada em parte alguma. Afastou-se do aparelho, esfregou os olhos, depois recomeçou o exame desde o princípio, sem falar, e quando outra vez terminou tinha na cara uma expressão perplexa, Não lhe encontro qualquer lesão, os seus olhos estão perfeitos. A mulher juntou as mãos num gesto de alegria e exclamou, Eu bem te tinha dito, eu bem te tinha dito, tudo se ia resolver. Sem lhe dar atenção, o cego perguntou, Já posso tirar o queixo, senhor doutor, Claro que sim, desculpe, Se os meus olhos estão perfeitos, como diz, então por que estou eu cego, Por enquanto não lhe sei dizer, vamos ter de fazer exames mais minuciosos, análises, ecografia, encefalograma, Acha que tem alguma coisa a ver com o cérebro, É uma possibilidade, mas não creio, No entanto o senhor doutor diz que não encontra nada de mau nos meus olhos, Assim é, Não percebo, O que quero dizer é que se o senhor está de facto cego, a sua cegueira, neste momento, é inexplicável, Duvida que eu esteja cego, Que ideia, o problema está na raridade do caso, pessoalmente, em toda a minha vida de médico, nunca me apareceu nada assim, e atrevo-me mesmo a dizer que em toda a história da oftalmologia, Acha que tenho cura, Em princípio, porque não lhe encontro lesões de qualquer tipo nem malformações congénitas, a minha resposta deveria ser afirmativa, Mas pelos vistos não o é, Só por cautela, só porque não quero dar-lhe esperanças que depois venham a mostrar-se sem fundamento, Compreendo, Pois é, E deverei seguir algum tratamento, tomar algum remédio, Por enquanto não lhe receitarei nada, seria estar a receitar às cegas, Aí está uma expressão apropriada, observou o cego. O médico fez que não ouvira, afastou-se do banco giratório em que se tinha sentado para a observação, e, mesmo de pé, escreveu numa folha de re~c~-ta os exames e análises que considerava necessários. Entregou o papel à mulher, Aqui tem, minha senhora, volte cá com o seu marido quando tiver os resultados, se entretanto houver alguma modificação no estado dele, telefone-me, A consulta, senhor doutor, Paga à empregada da recepção. Acompanhou-os à porta, balbuciou uma frase de confiança, do género Vamos a ver, vamos a ver, é preciso não desesperar, e quando se encontrou de novo só entrou no pequeno quarto de banho anexo e ficou a olhar-se no espelho durante um longo minuto, Que será isto, murmurou. Depois regressou ao gabinete, chamou a empregada, Mande entrar o seguinte.

Nessa noite o cego sonhou que estava cego». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 

Cortesia de ECaminho/JDACT

 

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Ensaio Sobre a Cegueira. José Saramago. «O médico disse, Sentem-se, por favor, ele próprio foi ajudar o paciente a acomodar-se, e depois, tocando-lhe na mão, falou directamente para ele, Conte-me lá então o que se passa consigo»

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«(…) Mantiveram-se calados até ao consultório do médico. Ela procurava afastar do pensamento o roubo do carro, apertava carinhosamente as mãos do marido entre as suas, enquanto ele, com a cabeça baixa para que o motorista não pudesse ver-lhe os olhos pelo retrovisor, não parava de perguntar-se como era possível que tão grande desgraça lhe estivesse a acontecer a ele, A mim, porquê. Aos ouvidos chegavam-lhe os ruídos do trânsito, uma ou outra voz mais alta quando o táxi parava, também às vezes sucede, ainda dormimos e já os sons exteriores vão repassando o véu da inconsciência em que ainda estamos envolvidos, como num lençol branco. Como num lençol branco. Abanou a cabeça suspirando, a mulher tocou-lhe ao de leve na face, maneira de dizer Sossega, estou aqui, e ele deixou pender a cabeça para o ombro dela, sem se importar com o que pensaria o motorista, Estivesses tu como eu, e não poderias ir aí a guiar, pensou infantilmente, e, sem reparar no absurdo do enunciado, congratulou-se por, em meio do seu desespero, ter sido ainda capaz de formular um raciocínio lógico. Ao sair do táxi, auxiliado discretamente pela mulher, parecia calmo, mas, à entrada do consultório, onde iria conhecer a sua sorte, perguntou-lhe num murmúrio que tremia, Como estarei eu quando sair daqui, e abanou a cabeça como quem já nada espera.

A mulher informou a empregada da recepção de que era a pessoa que há meia hora tinha telefonado por causa do marido, e ela fê-los passar a uma pequena sala onde outros doentes esperavam. Havia um velho com uma venda preta num dos olhos, um rapazinho que parecia estrábico acompanhado por uma mulher que devia de ser a mãe, uma rapariga nova de óculos escuros, duas outras pessoas sem sinais particulares à vista, mas nenhum cego, os cegos não vão ao oftalmologista. A mulher guiou o marido para uma cadeira livre, e, por não sobrar outro assento, ficou de pé ao lado dele, Vamos ter de esperar, murmurou-lhe ao ouvido. Ele percebeu porquê, ouvira vozes dos que ali se encontravam, agora afligia-o uma preocupação diferente, pensava que quanto mais o médico tardasse a examiná-lo, mais profunda a cegueira se tornaria, e portanto incurável, sem remédio.

Mexeu-se na cadeira, inquieto, ia comunicar as suas apreensões à mulher, mas nesse momento a porta abriu-se e a empregada disse, Os senhores, por favor, passem, e dirigindo-se aos outros doentes, Foi ordem do senhor doutor, o caso deste senhor é urgente. A mãe do rapaz estrábico protestou que o direito é o direito, e que ela estava em primeiro lugar, e à espera há mais de uma hora. Os outros doentes apoiaram-na em voz baixa, mas nenhum deles, nem ela própria, acharam prudente insistir na reclamação, não fosse o médico ficar ressentido e depois pagar-se da impertinência fazendo-os esperar ainda mais, tem-se visto. O velho do olho vendado foi magnânimo, Deixem-no lá, coitado, aquele vai bem pior do que qualquer de nós. O cego não o ouviu, já iam a entrar no gabinete do médico, e a mulher dizia, Muito obrigada pela sua bondade, senhor doutor, é que o meu marido, e tendo dito interrompeu-se, em verdade ela não sabia o que realmente sucedera, sabia apenas que o marido estava cego e lhes tinham roubado o carro. O médico disse, Sentem-se, por favor, ele próprio foi ajudar o paciente a acomodar-se, e depois, tocando-lhe na mão, falou directamente para ele, Conte-me lá então o que se passa consigo. O cego explicou que estando dentro do carro, à espera de que o sinal vermelho mudasse, tinha ficado subitamente sem ver, que umas pessoas acudiram a ajudá-lo, que uma mulher de idade, pela voz devia ser.

Dissera que aquilo se calhar eram nervos, e que depois um homem o acompanhara a casa porque ele sozinho não podia valer-se, Vejo tudo branco, senhor doutor. Não falou do roubo do automóvel». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 

Cortesia de ECaminho/JDACT

 

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «A notícia correu o país inteiro, provocando o frémito das grandes ocasiões patrióticas: uma couve portuguesa plantada na Austrália atingiu 2,40 metros de altura (por extenso e para não haver dúvidas: dois metros e quarenta centímetros)…»

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Saudades da Caverna

«(…) Não sei que autor de anteontem dizia que o melhor instrumento de medição das altas e baixas pressões económicas era os pequenos anúncios dos jornais. Achava o dito autor, e julgo que o conseguia demonstrar, que aquilo que se vende, de particular a particular, em bens de luxo ou objectos úteis, define de um modo bastante rigoroso uma situação económica geral. Claro que por este meu jeito tacteante de avançar na matéria se está já notando que me falta saber e capacidade para discutir a tese, nem creio que tal discussão adiantasse muito neste tempo de grandes concentrações económicas e de impérios comerciais. Acho preferível passar adiante, não me caiam em cima os coriscos da informática. Fique apenas desta introdução quanto basta para se compreender melhor o sobressalto de espírito que me trouxe o tema desta crónica. Certos usos e costumes (certas vendas, certas compras) não surgem por acaso, e para o assunto que hoje me ocupa nem sequer o apelativo de moda designa seja o que for, uma vez que a moda não é mais do que a difusão promovente de um uso primeiramente limitado. E chego desta maneira ao meu tema. Que razões profundas, que mecanismos, que vozes ancestrais, se estão definindo, movendo, articulando, nesta sociedade, para que se tivesse tornado tão usual uma terminologia que evoca tempos revolutos, sobretudo, e é isto que me parece mais importante, quando aplicada a lugares de ajuntamento, de repasto, isto é, onde o gregarismo é padrão. Que saudades da caverna latejam na memória inconsciente dos grupos, para que tenha surgido este aluvião de boites e restaurantes com nomes velhos? Que psicólogo ou psicanalista me explicará a razão de tantos cacos, carunchos, toscos, caixotes, choupanas, ferraduras, cubatas, cangas, chocalhos, naus, veleiros? E dos archotes, calhambeques, lareiras, carripanas, breques, baiúcas, chafarizes, tocas, braseiros e túneis?

Esta atracção do primitivo, que até na decoração dessas casas ganha aspectos de ideia fixa, quase agressiva, se por um lado pode significar a continuidade, em plano diferente, de certa atracção de contrários que nos caracterizou como sociedade particular (o infante dom Miguel e os arrieiros, o marquês de Marialva e o fado, os capotes brancos do Bairro Alto, os fidalgos pegadores de touros), há-de certamente obedecer a razões menos visíveis e mais gerais, as mesmas, talvez, que fizeram surgir bandas desenhadas cujos heróis são homens e' mulheres da pré-história, da idade da pedra, ainda incapazes de inventar a roda mas já enleados nos problemas e nos conflitos de hoje. Andaremos nós à procura de uma nova inocência, de um recomeço? A escolha daqueles nomes será movida por um obscuro e aparentemente contraditório rancor contra as sociedades de consumo? Ou será antes um reflexo de má consciência que leva a dar às coisas, não o nome que lhes cabe mas o nome que as nega, como se essa operação de mágica linguística extraísse o veneno da serpente? Se eu tiver um palácio e lhe chamar a minha barraca, afasto com isso o raio que é atraído pelos lugares altos? Em grande conta eu me teria se fosse capaz de dar resposta a tais perguntas. Mas não será melhor deixá-las intactas? Se o leitor as considerar ociosas, facilmente as esquecerá, depois de protestar contra a perda do meu tempo e do seu tempo. Mas se murmurar: E boa! Nunca tinha pensado nisso, então ganhei bem o meu dia. O que, posso garantir, não é todos os dias que acontece.

Elogio da couve portuguesa

A notícia correu o país inteiro, provocando o frémito das grandes ocasiões patrióticas: uma couve portuguesa plantada na Austrália atingiu 2,40 metros de altura (por extenso e para não haver dúvidas: dois metros e quarenta centímetros), e continua a crescer. Sob céus e climas estranhos, rodeada de cangurus, ameaçada certamente pelas tribos primitivas do interior, ao alcance do terrível boomerang, a couve portuguesa dá uma lição de constância e de fidelidade às origens, ao mesmo tempo que mostra ao mundo as nossas raras qualidades de adaptação, o nosso universalismo, a nossa vocação de grandes viajantes. E continua a crescer». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

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A Bagagem do Viajante. José Saramago. «O vestido é todo em azuis, amarelos, vermelhos, e mostra os braços brancos e espalmados como coxas. Fixo o olhar no braço direito, que vejo melhor»

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Um Braço no Prato

(…) Logo no primeiro golpe de rede se vê quem está sentado às mesas: funcionários, comerciantes, espíritos subalternos, todos com aquele ar de parentesco nos modos, nas palavras, nos fatos, e sobretudo nas ideias, que define o pequeno burguês. Por isso mesmo, todos têm os olhos apagados, o rosto voraz e ao mesmo tempo humilde, a presença obtusa. O restaurante é ruidoso e grande. As poucas crianças distribuem-se por todas as idades, desde o colo babado e chorão até ao cataclismo infantil; as rugas, essas, começam por ser sinal de expressão e acabam na pele de papel amarrotado, bom para deitar fora. Os adolescentes são raros, ou apenas acompanham silenciosamente os adultos. Não há dúvida de que Portugal envelhece. Ao meu lado direito está um casal de meia-idade. Escolheram com a boca franzida os pratos, o marido encomendou o vinho, e ficaram à espera calados. Ele usa um alfinete de gravata que é como um ramalhete de pedras, provavelmente verdadeiras; ela não traz muito que a distinga, a não ser, talvez, o sorvo assobiado com que engolirá a sopa. Estes dois não falarão um com o outro durante todo o almoço.

À esquerda tenho duas gerações: um casal de velhos, a filha e o genro. A filha serve todos da travessa, atirando a comida como quem diz: Comam!, e guardando para si os piores bocados como quem diz: Reparem! Os velhos são gulosos, mastigam com os lábios moles e besuntados, e deitam olhares rápidos à travessa, a ver se ainda resta alguma coisa e se terão tempo de participar na segunda roda. Todos bebem cerveja. Que direi daquele homem de rosto duro, no meio da família gritadora e numerosa, que não verei falar nunca, e cujos olhos às vezes se afogam em ódio? Que poderei contar da longa mesa que se apresenta no enfiamento da minha, toda coberta de restos de côdeas e de nódoas de vinho alastrado e perdido? Que direi do que dirão aqueles que me olham a furto, se é olhar o rápido lampejo que orientam para mim, se não é apenas um movimento tão involuntário e inconsciente como o pestanejar?

Mas agora ponho os olhos num casal que entrou e que resume toda a mais gente que mastiga, deglute e transpira. São ambos altos, corpulentos, clientes certos como se depreende da familiaridade com que tratam e são tratados pelo pessoal. Vão sentar-se num canto, ele um pouco escondido pela dama que está à minha direita e que, neste momento, já comida a sopa, extrai cuidadosamente da boca, com os dedos, as espinhas do peixe-espada; mas a mulher, que faz ângulo recto com ele, fica-me ao alcance facilmente. Olhemos bem, que vale a pena. Mesmo sentada, continua a ser alta. Da corpulência ficou o seio avantajado que invade a mesa pela fronteira de um decote redondo e aberto. Tem os cabelos pintados de uma cor que ralha com os olhos e a pele, uma espécie de mogno com riscos de pau-rosa. Os lábios são finos e pintados por fora, a fingir uma boca carnuda. E durante a refeição vão ficar esborratados, com a tinta a subir capilarmente pelas rugas minúsculas que lhe sulcam a parte superior da boca. Tem as mãos cobertas de anéis aparatosos e usa brincos compridos que oscilam como barbilhos de leitão.

O vestido é todo em azuis, amarelos, vermelhos, e mostra os braços brancos e espalmados como coxas. Fixo o olhar no braço direito, que vejo melhor. É realmente uma magnífica peça de carne, de grande tamanho, que a dona exibe aos circunstantes com estremecimentos e sacudidelas que não são apenas ocasionais. Acredita provavelmente que é o seu grande trunfo afrodisíaco e atira com ele aos homens que estão em redor, atira-o para o meu prato com um grande ar de fêmea pública. Cautelosamente, empurro-o para a borda, entre os restos e o molho já frio, e chamo o empregado para pedir-lhe o café e que me leve dali tudo. E se nesse momento tivesse entrado no restaurante uma adolescente de mini-saia, esbelta e luzidia, mostrando a pele polida e jovem, as burguesas juntariam as cabeças oleosas, odiosas, e acusá-la-iam de obscenidade. Mas obsceno era aquele braço enorme que o criado levava no meu prato, e que ia ser despejado na lata do lixo». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Número Zero. Umberto Eco. «Mas ficaram só as ruínas: olhe ali na esquina da rua Morigi, aquela torre é do século XVII, nem as bombas a derrubaram. E por baixo, venha cá, ainda desde o começo do século XX existe aquela taverna…»

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«(…) Veja só, disse Braggadocio, aquilo à esquerda ainda são ruínas romanas, quase ninguém lembra que Milão também foi capital do império. Por isso, nelas não se toca, mesmo que ninguém esteja dando bola para esse tipo de coisa. Mas aquelas atrás do estacionamento ainda são casas destroçadas pelos bombardeios da última guerra. As casas destroçadas não tinham a vetusta tranquilidade das ruínas antigas, já reconciliadas com a morte, mas despontavam sinistras entre seus vazios não assossegados, como se doentes de lúpus. Não sei bem por que ninguém tentou construir nesta área, dizia Braggadocio, talvez seja tombada, talvez o estacionamento renda mais para os proprietários do que construir casas para alugar. Mas porque deixar os vestígios dos bombardeios? Este largo me dá mais medo que a rua Bagnera, mas é bonito porque me diz como era Milão depois da guerra, nesta cidade sobraram poucos lugares que fazem lembrar como ela era quase cinquenta anos atrás. E é a Milão que procuro reencontrar, aquela onde vivi na infância e na adolescência, a guerra acabou quando eu tinha nove anos, e de vez em quando, de madrugada, ainda tenho a impressão de ouvir o barulho das bombas.

Mas ficaram só as ruínas: olhe ali na esquina da rua Morigi, aquela torre é do século XVII, nem as bombas a derrubaram. E por baixo, venha cá, ainda desde o começo do século XX existe aquela taverna, a taverna Moriggi, não me pergunte porque a taverna tem um g a mais que a rua, mas a prefeitura é que deve ter errado quando pôs as placas, a taverna é mais antiga, ela é que deve ter razão. Entrámos num ambiente de paredes vermelhas e tecto descascado, de onde pendia um velho lustre de ferro batido, com uma cabeça de veado no balcão, centenas de garrafas de vinho empoeiradas ao longo das paredes, mesinhas de madeira (ainda não era hora do jantar, disse Braggadocio, e estavam sem toalha, depois seriam colocadas aquelas de xadrezinho vermelho, e para comer era preciso consultar aquela lousinha escrita à mão, como nos restaurantes franceses). À mesa havia estudantes, algumas figuras da velha boémia, com cabelos compridos, mas não de sessenta e oito, e sim de poeta, daqueles que antigamente usavam chapéu de aba larga e gravata à Lavallière, além de uns velhos já meio embalados, que não se entendia se estavam lá desde o começo do século ou se eram contratados pelos novos donos como figurantes. Petiscamos de um prato de queijos, frios, lardo de Colonnata, e bebemos um merlot, bom de verdade. Bonito, né?, dizia Braggadocio. Parece atemporal.

Mas porque é atraído por essa Milão que já não deveria existir? Já lhe disse, quero poder ver aquilo que quase não lembro mais, a Milão do meu avô e do meu pai. Tinha começado a beber, seus olhos haviam ficado brilhantes, enxugara com um guardanapo de papel um círculo de vinho que se formara na mesa de madeira antiga. Minha família tem uma história triste. Meu avô era alto dirigente no infausto regime, como se costuma dizer. E no dia 25 de Abril foi reconhecido por um partisan enquanto tentava escapulir não longe daqui, na rua Cappuccio; foi apanhado e fuzilado, logo ali na esquina. Meu pai ficou sabendo disso com atraso porque, como era fiel às ideias do meu avô, em 1943 tinha se alistado na Décima Flotilha MAS, foi capturado em Salò e mandado para o campo de concentração de Coltano, onde ficou um ano. Escapou por pouco, não encontraram nenhum verdadeiro motivo de incriminação, além disso, já em 1946 Togliatti tinha dado o primeiro passo para a amnistia geral, contradições da história, os fascistas reabilitados pelos comunistas, mas Togliatti talvez tivesse razão, era preciso voltar à normalidade a qualquer custo. Mas a normalidade era que meu pai, com aquele passado e a sombra do pai, não achava trabalho e vivia sustentado pela minha mãe, que era costureira. Assim foi-se entregando aos poucos, bebia, e dele eu lembro só o rosto cheio de veiazinhas vermelhas e os olhos lacrimejantes, enquanto me contava suas as obsessões. Não procurava justificar o fascismo (nessa altura não tinha mais ideais), mas dizia que para condenarem o fascismo os antifascistas tinham contado muitas histórias horrendas. Não acreditava nos seis milhões de judeus mortos nas câmaras de gás. Quer dizer, não era daqueles que ainda hoje afirmam que não houve Holocausto, mas não confiava na narrativa construída pelos libertadores». In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

JDACT, A Arte, Ensaio, Literatura, Umberto Eco,

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Número Zero. Umberto Eco. «Naquele momento surgia da curva uma mulher com um carrinho de bebê. Irresponsável ou mal informada. Comentou Braggadocio. Se eu fosse mulher, não passaria por aqui…»

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«(…) Confessei sem jeito que tinha olhado para ela só de relance, como disse, das mulheres quero distância. Ele sacudiu meu braço: Não fique dando uma de gentleman, Colonna. Eu bem que vi você olhando disfarçadamente para ela. Na minha opinião, é do tipo que topa. A verdade é que todas topam, é só saber pegar do jeito certo. Um pouco magra demais para o meu gosto, aliás, não tem peitos, mas, enfim, poderia dar pé. Tínhamos chegado à rua Torino e, à altura de uma igreja, ele me fez virar à direita para entrarmos numa ruazinha que tinha uma curva no cotovelo, mal iluminada, com algumas portas fechadas sabe-se lá desde quando, sem nenhum comércio, como se tivesse sido abandonada há tempos. Parecia pairar ali um cheiro de bolor, mas devia ser apenas sinestesia, por causa das paredes escalavradas e cobertas de grafites desbotados. No alto, um cano soltava fumaça, e não dava para entender de onde vinha porque até mesmo as janelas de cima estavam fechadas como se ali não morasse mais ninguém. Talvez o cano viesse de alguma casa que dava para outro lugar, e ninguém se incomodava por esfumaçar uma rua abandonada. É a rua Bagnera, a mais estreita de Milão, não tanto como a rue du Chat-qui-Pêche em Paris, onde quase não conseguem passar duas pessoas. Hoje se chama rua Bagnera, mas antigamente se chamava viela Bagnera, e antes ainda, viela Bagnaria, por causa de alguns banhos públicos da época romana.

Naquele momento surgia da curva uma mulher com um carrinho de bebê. Irresponsável ou mal informada. Comentou Braggadocio. Se eu fosse mulher, não passaria por aqui, principalmente no escuro. Você pode ser esfaqueado, assim sem mais nem menos. Seria uma pena porque a gatinha não é de se jogar fora, típica mãezinha disposta a dar para o encanador, olhe para trás, veja como ela rebola. Aqui aconteceram assassinatos. Por trás dessas portas agora trancadas ainda deve haver porões abandonados e talvez passagens secretas. Aqui, no século XIX, um tal Antonio Boggia, sujeito sem eira nem beira, atraiu um contador para um desses porões, com a desculpa de fazer a revisão das contas, e lhe deu uma machadada. A vítima consegue se salvar, Boggia é preso, julgado louco e internado no manicómio por dois anos. Mas, assim que fica livre, sai de novo à cata de pessoas ingénuas e endinheiradas, que ele atrai para o seu porão, rouba, mata e enterra no mesmo lugar. Um serial killer, como se diria hoje, mas um serial killer imprudente, porque deixa vestígios das suas relações comerciais com as vítimas e no fim acaba preso, a polícia escava o porão, encontra cinco ou seis cadáveres, e Boggia é enforcado lá pelos lados da Porta Ludovica. A cabeça dele foi entregue ao Departamento de Anatomia do Ospedale Maggiore (estávamos nos tempos de Lombroso, quando os sinais da delinquência hereditária eram procurados nos crânios e nos traços fisionómicos). Depois parece que essa cabeça foi enterrada em Musocco, mas vai saber, aqueles restos eram material cobiçado por ocultistas e satanistas de todas as tribos... Ainda hoje, aqui dá para sentir a presença de Boggia, parece que estamos em Londres, no tempo de Jack, o Estripador, eu não gostaria de passar a noite aqui, no entanto me sinto atraído. Volto sempre, às vezes marco alguns encontros aqui.

Saindo da rua Bagnera desembocamos numa praça, a Mentana, e Braggadocio me fez enveredar por certa rua Morigi, também bastante escura, mas com algum comércio pequeno e belos portais. Chegamos a um largo com uma ampla área de estacionamento circundada por ruínas». In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

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quinta-feira, 22 de julho de 2021

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «O empregado estende-me o pires com a conta hipocritamente dobrada. Porque será que se dobram as contas? Por que será que falsificamos tudo? Há?»

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As Personagens Erradas

«(…) Calhou ter escolhido um daqueles restaurantes de preços médios, à vista, mas que facilmente se tornam ruinosos se caímos no engodo do tachinho de azeitonas ou do vinho de rótulo. Pedi já nem sei quê, talvez uma dessas comidas que a memória da infância teima em insinuar, como um tropismo, mas que são, invariavelmente, uma decepção melancólica. Desforro-me no vinho gelado, que abranda e reconforta, luz interior que percorre o corpo e deixa rastos cintilantes nas veias. Veio enfim o café

É o melhor momento da refeição, aquele em que se ergue a cabeça para olhar o que nos rodeia. Ali, era péssimo o que havia para ver: uma decoração extravagante, carregada de luminárias coloridas, de azulejos e mosaicos com motivos de tapeçaria rica, tectos forrados de lâminas de cortiça, e, em alcandorados canteiros, plantas de plástico, eternas, sem cheiro e abomináveis.

Pedi a conta, pedi rapidez, e enquanto a máquina registadora me preparava o enigma das abreviaturas, cifras, percentagens e somas fora do lugar, olhei para a minha esquerda, donde viera um arrastar ostensivo de cadeiras. Sentavam-se três mulheres de meia-idade, cinquenta-sessenta, uma delas imensa, transbordante, as outras baixinhas e amarrotadas. Odiei-as logo, por instinto. E adivinhei quem eram, o que eram, como eram. Eram as personagens erradas, aquelas que vivem por interposta imitação, as alienadas por opção. Tinham ido ao restaurante só para mostrar que fumavam. Fazendo maiúsculas com os gestos, tiraram das malas os maços e os isqueiros (todas tinham isqueiro) e puxaram dos cigarros ao mesmo tempo, masculinamente, sem inibições. Acenderam, lançaram grossas baforadas de fumo, pediram cafés, bagaços, conversaram. Uma delas disse que fumava dois maços por dia, e a gorda, com o ar de quem já por lá passou e agora se recata, foi de opinião que dois maços eram de mais, ao que a outra respondeu que não podia evitar, não podia, eram os nervos, sentia que estava viciada, paciência. Haviam aprendido a fumar dolorosamente, em casa, às escondidas, com violentos ataques de tosse, arrancos mortais, vómitos, náuseas, dores de cabeça, mas o sacrifício iria levá-las à afirmação definitiva de si mesmas, ao pódio dos vencedores, à dignidade dos homens. Agora vivem os dias à espera da hora da grande prova pública, ali no restaurante, com cafés, bagaços e cigarros, falando alto para nada se perder do exemplo. O empregado estende-me o pires com a conta hipocritamente dobrada. Porque será que se dobram as contas? Por que será que falsificamos tudo? Há? Ah, as onomatopeias. Pago e levanto-me, deixo umas moedas adicionais, também hipócritas, passo ao lado das mulheres, três parcas maléficas, três vezes três vezes três, noves fora, coisa nenhuma. Por que dobram as contas? Porque dobram? Porque se dobram as pessoas? Por que se dobram? Porquê?

 Um Braço no Prato

Este outro restaurante, aonde vou uma vez por outra, deve ser um dos lugares de Lisboa mais capazes de proporcionar uma suculenta análise sociológica. Nunca lá tinha entrado sozinho, mas desta vez aconteceu, de modo que a atenção doentiamente aguda que dou às coisas, sem ter que ocupar-se demasiado no quadrado branco da mesa, pôde circular como um filtro ao redor da sala, colhendo os exemplares mais merecedores de ponderação». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

Crónica, Ensaio, JDACT, José Saramago, O Saber, Nobel,  

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «… uma, em que provavelmente ainda estarei vivo; outra, em que talvez já não esteja; a terceira, em que não estarei de certeza. Até ao dia que for, trabalhar sempre, mesmo para coisas que não verei»

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E Agora, José?

«(…) Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota-matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta, e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas. Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível? Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. E agora, José?

 

As Personagens Erradas

Não me correra bem o dia. Suponho que não há a quem pedir responsabilidades, mas gostaria muito que alguém me dissesse porque negras sortes certas manhãs vêm tão secas, tão inimigas, tão armadas de navalhas, e assim continuam até à noite, pena de prisão perpétua. Metemo-nos na noite como quem se enrola num casulo e pomo-nos a levantar as muralhas que o dia derrubou, deixando-nos frágeis, quebradiços, mais aflitos do que uma tartaruga voltada de barriga ao ar. (Outras comparações: peixe largado em seco, cobra de espinha partida, porco à mercê da castração). Saí para jantar, embora o amargo da bílis na boca me diminuísse de antemão o prazer do apetite. Segui rente aos prédios, que é o meu modo de me tornar invisível, pisando os primeiros lixos da noite, enquanto, deliberadamente, matava à nascença as ideias que preferiam caminhos coerentes. De passagem deitava olhares rápidos para dentro das tabernas e pastelarias que ofereciam televisão aos fregueses: sempre o mesmo ambiente de aquário, a mesma luz lívida das lâmpadas fluorescentes, os mesmos pescoços torcidos em ângulos iguais, os mesmos rostos esborratados ou de expressão fixa. A mesma aflição. Em dias assim não me salvo nem sou boa companhia. Gosto de saber que os amigos estão longe, que os inimigos não me encontram, e que nem uns nem outros me virão reclamar as provas da amizade e do ódio que são a moeda do nosso comércio. E se alguma coisa desejo realmente nestas ocasiões, é encontrar as palavras mínimas, brevíssimas, as onomatopeias, se possível, que me expliquem o mundo desde o começo. Porque, quanto ao futuro, posso marcar três datas para me distrair: uma, em que provavelmente ainda estarei vivo; outra, em que talvez já não esteja; a terceira, em que não estarei de certeza. Até ao dia que for, trabalhar sempre, mesmo para coisas que não verei». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1973, Editorial Futura, Editora Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de EFutura/ECaminho/JDACT

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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Márcio L. Dantas. «Em Obra Breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua, tal como foram vividos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar». In Roland Barthes

(…)
À guisa de apresentação
Este conjunto de ensaios foi uma selecção procedida a partir dos trabalhos referentes à primeira avaliação da disciplina Tópicos de Literatura Portuguesa II, curso monotemático, disciplina complementar, ministrado na graduação de Letras da UFRN, sobre a poeta Fiama Hasse Pais Brandão. A forma e o conteúdo são da responsabilidade dos meus alunos, por sinal, diligentes e afeitos ao gosto pela poesia portuguesa. Tenho em mim, sempre, as palavras de Roland Barthes: há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama de pesquisar. Pois muito bem, ando pesquisando a obra da escritora portuguesa que participou junto com Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge da revista-movimento Poesia 61.

Apontamentos para a Poesia Atómica - em Fiama
Fiama Hasse Pais Brandão, ou simplesmente Fiama (1938-2007), publicou uma vasta obra lírica, de considerável valor estético e múltipla, desde Barcas Novas até âmago I/ nova arte e, sobretudo, o admirável Obra Breve. A poeta, exímia modeladora do corpo do verso (não foi à toa que traduziu para o português o Cântico dos Cânticos, Cântico Maior na sua tradução/recriação), além da publicação do seu último livro Cenas Vivas, de carácter autobiográfico, no qual mostra-nos mais uma das suas facetas, tinha, tal como Pessoa, uma pluralidade estética e literária. Tais qualidades só podem adquirir brilho se o autor envolvido com a força da palavra possuir um vasto repertório no que diz respeito à criação artística e à consciência artística, aliando a tradição ao talento individual tal como pensara Eliot. Fiama os possuía.
Estes apontamentos para poesia atómica de Fiama, breves, aliás, breves como a Obra Breve em análise, basear-se-ão na premissa escrita pela própria poeta na abertura do livro (uma espécie de comentário) que logo colocarei num poema da mesma obra: Tema 4. Assim adverte aos leitores e críticos:

Em Obra Breve, os pequenos livros de meus poemas reúnem-se de uma forma contígua, tal como foram vividos. As cortinas delimitam, confundindo-os, livros e parte de livros; poemas inéditos preenchem alguns intervalos. Na verdade, cada livro tinha sido apenas um corte, a poesia vai sendo escrita, transformada, recortada, ao correr do tempo todo.

Fiama recria, constantemente, parte da sua obra poética ao correr do tempo, reunindo-a tal como foi vivida, como se ela fosse um organismo poético vivo e mutante. A vida e a experiência dão certos sentidos às palavras, revelando a sua face mais bela ou assustadora, oferecendo à poeta inspiração o suficiente para criar e recriar a sua obra inacabada. A crítica talvez se perturbe com tal movimento de escrita e reescrita (perene até o período de vida da autora), contudo, não cabe aos críticos a preocupação com a mudança ou recriação de um poema, ora, o papel da crítica é justamente o de interpretar, sugerir, supor e adiantar algo a partir da análise do poema. Se ele é outro poema (reescrito), deverá se fazer, como se faz com poemas à primeira vista díspares, outra crítica, comparando-os e relacionando-os, percebendo o processo de escrita do poeta e seus ganhos, estéticos ou literários.
Afinal, Nenhum sinal nos calcina as órbitas.
Doravante, para apresentar a proposta deste ensaio, irei expor uma perspectiva de poesia, fazendo uma breve definição, relações com as demais ciências, críticas e literaturas, além de reforçar algumas ideias essenciais do conteúdo poético, desenvolverei características intrínsecas da manifestação verbal poesia, finalizando com o poema de Fiama. Porque realizar tais movimentos? Existe, na poesia portuguesa, um sentimento de tristeza profundamente enraizado na sua tradição (como se pode conferir pelo estilo musical fado), que deram a poetas como Sá Miranda e Camões, temas infindos para a sua poesia. Fiama é diferente. Fernando Pessoa, mesmo sob a face do heterónimo Álvaro de Campos, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, não fugiu à regra. A poeta tende para as poesias de vanguarda dos anos 60, geração de grandes poetas da Europa (Eliot, Pound), deixando a tristeza com os que foram ao mar. Adiante, pois, as poesias de Obra Breve revelam um teor mais moderno do que se imagina; aos sentidos e sentidos da poesia». In Márcio Lima Dantas, Esboço para um possível Ensaio sobre Fiama Hasse Pais Brandão, Departamento de Letras da UFRN, Tópicos de Literatura Portuguesa II, Wikipédia, Poesia 61.

Cortesia de DLdaUFRN/JDACT

quarta-feira, 20 de maio de 2020

As Cruzadas vistas pelos Árabes Amin Maalouf. «Sem ver-se desencorajado, o pai da futura sultana retomara com determinação a construção dos seus navios de guerra»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Invasão, 1096-1100
Os franj estão chegando
«(…) O emir Tchaka tinha para isso um plano muito coerente. Assim, fora-se instalar num porto perto de Esmirna, sobre o mar Egeu, onde, com a ajuda de um armador grego, constituíra uma verdadeira frota de guerra compreendendo bergantins leves, naus a remo, dromons, birremes ou trirremes, ao todo cerca de uma centena de embarcações. Numa primeira etapa, ele ocupara diversas ilhas, principalmente Rodes, Quios e Samos, e estendera a sua autoridade sobre o conjunto da costa do Egeu. Assim formando um império marítimo, proclamara-se basileu, organizando o seu palácio de Esmirna segundo o modelo da corte imperial, e lançara a sua frota sobre Constantinopla. Enormes esforços foram necessários de Alexis para conseguir rechaçar o ataque e destruir parte das naus turcas.

Sem ver-se desencorajado, o pai da futura sultana retomara com determinação a construção dos seus navios de guerra. Era perto do final do ano de 1092, momento em que Kilij Arslan voltava do exilio, e Tchaka pensara que o jovem filho de Suleiman seria um excelente aliado contra os rum. Propusera-lhe então a mão da sua filha. Mas os cálculos do jovem sultão eram bem diferentes dos de seu sogro. A conquista de Constantinopla parecia-lhe um plano absurdo. Em contrapartida, nenhum dos que o cercavam ignorava que ele buscava a eliminação dos emires turcos que tentavam constituir um domínio na Ásia Menor, isto é, em primeiro lugar Danishmend e o demasiadamente ambicioso Tchaka. Portanto o sultão não hesitara, convidara seu sogro para um banquete e, tendo-o embebedado, apunhalara-o com as suas próprias mãos. Tchaka tinha um filho que assumiu a sucessão, mas que não possuía nem a inteligência nem a ambição de seu pai. O irmão da sultana contentou-se em gerir seu emirado marinho até aquele dia do ano 1097, em que a frota dos rum chegou inopinadamente ao largo de Esmirna, trazendo a bordo um mensageiro inesperado: a sua própria irmã.
Esta demorou para compreender as razões da solicitude do imperador para com ela, mas enquanto e comboiada para a cidade onde passou a sua infância, Esmirna, tudo fica claro. Ela é encarregada de explicar ao seu irmão que Alexis tomou Niceia, que Kilij Arslan foi vencido, e que um poderoso exército de rum e franj vai em breve atacar Esmirna com a ajuda de uma imensa frota. Para salvar sua vida, o filho de Tchaka e convidado a conduzir sua irmã para perto do seu esposo, em algum lugar na Anatólia.
Não tendo sido recusada a proposta, o emirado de Esmirna deixa de existir. No dia seguinte à queda de Niceia, toda a costa do mar Egeu, todas as ilhas, e a parte ocidental da Ásia Menor escapam, portanto, das mãos dos turcos. E os rum, ajudados pelos seus auxiliares francos, parecem decididos a ir mais longe.
Mas, no seu refúgio nas montanhas, Kilij Arslan não depôs as armas. Passada a surpresa dos primeiros dias, o sultão prepara activamente sua resposta. Ele pôs-se a recrutar tropas, aliciar voluntarios e proclamar o j i had, anota Ibn al-Qalanissi. O cronista de Damasco acrescenta que Kilij Arslan pediu a todos os turcos que o ajudassem, e numerosos deles responderam ao seu chamamento. De fcato, o primeiro objectivo do sultão e selar uma aliança com Danishmend. Uma simples trégua não basta mais. É imperativo agora que as forcas turcas da Ásia Menor estejam unidas, como se fossem um só exército». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN 978-972-441-756-1.

Cortesia de Edições 70/JDACT

terça-feira, 3 de março de 2020

Ensaio sobre a Lucidez. José Saramago. «Então o secretário enfiou a mão num dos bolsos exteriores do casaco, sacou de lá um telefone portátil e marcou um número. Enquanto esperava que o atendessem, disse, É mais ou menos como o que se conta da montanha e de Maomé…»


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«(…) A comunicação foi breve, Fala o presidente da mesa da assembleia de voto número catorze, estou muito preocupado, algo francamente estranho está a acontecer aqui, até este momento não apareceu um único eleitor a votar, já lá vai mais de uma hora que estamos abertos, e nem uma alma, sim senhor, claro, o temporal não há meio de parar, chuva, vento, inundações, sim senhor, continuaremos pacientes e a pé firme, claro, para isso viemos, nem é preciso dizer. A partir deste ponto o presidente não contribuiu para o diálogo com mais que uns quantos acenos de cabeça sempre concordantes, umas quantas interjeições abafadas e três ou quatro começos de frase que não chegou a terminar. Quando pousou o auscultador olhou para os colegas da mesa, mas na realidade não os via, era como se tivesse diante de si uma paisagem toda feita de salas vazias, de imaculados cadernos de recenseamento, com presidentes e secretários à espera, delegados de partidos a olharem desconfiados uns para os outros, deitando contas a quem poderá ganhar e a quem poderá perder com a situação, e lá longe algum vogal molhado e prestimoso regressando da entrada e informando que não vem ninguém. Que foi que responderam do ministério, perguntou o delegado do p.d.m., Não sabem que pensar, é natural que o mau tempo esteja a reter muita gente em casa, mas que em toda a cidade suceda praticamente o mesmo que aqui, para isso não encontram explicação, Por que diz praticamente, perguntou o delegado do p.d.d., Em algumas assembleias de voto, é certo que poucas, apareceram eleitores, mas a afluência é reduzidíssima, como nunca se viu, E no resto do país, perguntou o representante do p.d.e., não é só na capital que está a chover, É isso que desconcerta, há lugares onde chove tanto como aqui e apesar disso as pessoas estão a votar, como é lógico são mais numerosas nas regiões onde o tempo está bom, e por falar nisto, dizem que os serviços meteorológicos prevêem melhoria do tempo para o final da manhã, Também pode acontecer que vá de mau a pior, lembrem-se do ditado, ao meio-dia carrega ou alivia, advertiu o segundo vogal, que até agora ainda não tinha aberto a boca. Fez-se um silêncio. Então o secretário enfiou a mão num dos bolsos exteriores do casaco, sacou de lá um telefone portátil e marcou um número. Enquanto esperava que o atendessem, disse, É mais ou menos como o que se conta da montanha e de maomé, uma vez que não podemos perguntar a eleitores que não conhecemos por que é que não vêm votar, fazemos a pergunta à família, que é conhecida, olá, viva, sou eu, sim, continuas aí, por que é que ainda não vieste votar, que está a chover sei-o eu, ainda tenho as perneiras das calças molhadas, sim, é verdade, desculpa, esqueci-me de que me tinhas dito que virias depois do almoço, claro, telefonei-te porque isto aqui está complicado, nem imaginas, se eu te disser que até agora não apareceu ninguém a pôr o voto, és capaz de não acreditar, bom, então cá te espero, um beijo. Desligou o telefone e comentou, irónico, Pelo menos um voto está garantido, a minha mulher virá à tarde. O presidente e os restantes membros da mesa entreolharam-se, saltava à vista que havia que seguir o exemplo, mas não menos que nenhum deles queria ser o primeiro, seria reconhecer que em rapidez de raciocínio e desembaraço quem leva a palma nesta assembleia eleitoral é o secretário. Ao vogal que tinha ido à porta ver se chovia não lhe custou muito a compreender que ainda teria de comer muito pão e muito sal antes de chegar à altura de um secretário como o que temos aqui, capaz, com a maior sem-cerimónia do mundo, de sacar um voto de um telefone portátil como um prestidigitador tiraria de uma cartola um coelho. Vendo que o presidente, retirado a um canto, falava para casa através do seu portátil, e que outros, utilizando os seus próprios aparelhos, discretamente, em sussurros, faziam o mesmo, o vogal da porta apreciou a honestidade dos colegas que, ao não usarem o telefone fixo ali colocado, em princípio, para uso oficial, nobremente economizavam dinheiro ao estado. O único dos presentes que por não ter telefone portátil tinha de resignar-se a esperar as notícias dos outros era o representante do p.d.e., devendo acrescentar-se, no entanto, que, vivendo sozinho na capital e tendo a família na província, o pobre homem não tem a quem chamar. Uma após outra as conversas foram terminando, a mais demorada é a do presidente, pelos vistos está a exigir à pessoa com quem fala que venha imediatamente, a ver como aquilo acaba, seja como for, ele é quem deveria ter falado em primeiro lugar, se o secretário decidiu passar-lhe à frente, bom proveito lhes faça, já vimos que o tipo pertence à espécie dos vivaços, respeitasse ele a hierarquia como nós a respeitamos e teria simplesmente transmitido a ideia ao seu superior. O presidente soltou o suspiro que se lhe havia entalado no peito, meteu o telefone no bolso e perguntou, Então, souberam alguma coisa. A pergunta, além de escusada, era, como diremos, um poucochinho desleal, em primeiro lugar porque saber, aquilo a que se chama saber, sempre alguma coisa se sabe, mesmo quando não sirva para nada, em segundo lugar porque era óbvio que o perguntante se estava a aproveitar da autoridade inerente ao cargo para eludir a sua obrigação, que seria inaugurar ele, em voz e pessoa, o intercâmbio de informações. Se ainda não nos esquecemos daquele suspiro e do ímpeto exigente que em certa altura da conversa nos pareceu notar nas suas palavras, lógico será pensar que o diálogo, supõe-se que do outro lado estaria uma pessoa de família, não foi tão plácido e instrutivo quanto o seu justificado interesse de cidadão e de presidente merecia, e que, sem serenidade para lançar-se a improvisos mal amanhados, se furta agora à dificuldade convidando os subordinados a expressar-se, o que, como também sabemos, é outra maneira, mais moderna, de ser chefe». In José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-211-608-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Ensaio sobre a Lucidez. José Saramago. «Opino que não será caso para tanto, o que se passa é que estamos nervosos, perplexos, desconcertados, e já se sabe que num estado de espírito assim é fácil dizer coisas que na realidade não pensamos...»

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«(…) A urna estava vazia, pura, imaculada, mas não havia na sala um só eleitor, um único para amostra, a quem pudesse ser exibida. Talvez algum deles ande por aí perdido, lutando com as enxurradas, suportando as chicotadas do vento, apertando contra o coração o documento que o acredita como cidadão com direito a votar, mas, tal como estão as coisas no céu, vai tardar muito a cá chegar, se é que não acaba por voltar para casa e deixar os destinos da cidade entregues àqueles que um automóvel preto vem deixar à porta e à porta depois virá recolher, cumprido o dever cívico de quem o ocupava no banco de trás. Terminadas as operações de inspecção dos diversos materiais, manda a lei deste país que votem imediatamente o presidente, os vogais e os delegados dos partidos, assim como as respectivas suplências, desde que, claro está, estejam inscritos na assembleia eleitoral cuja mesa integram, como era o caso. Mesmo a fazer render o tempo, quatro minutos bastaram para que a urna recebesse os seus primeiros onze votos. E a espera, não havia outro remédio, começou. Ainda meia hora não tinha passado quando o presidente, inquieto, sugeriu a um dos vogais que fosse espreitar a ver se vinha alguém, se calhar apareceram eleitores, mas deram com o nariz na porta que o vento havia fechado, e logo se foram dali a protestar, se as eleições tinham sido adiadas, ao menos que tivessem a delicadeza de avisar a população pela rádio e pela televisão, que para informações dessas ainda servem. Disse o secretário, Toda a gente sabe que uma porta que se feche atirada pelo vento faz um barulho de trinta mil demónios, e aqui não se ouviu nada. O vogal hesitou, irei não irei, mas o presidente insistiu, Vá, faça-me o favor, e tenha cuidado, não se molhe. A porta estava aberta, firme no seu calço. O vogal pôs a cabeça de fora, um instante foi suficiente para olhar a um lado e a outro, e logo para recolhê-la a escorrer como se a tivesse metido debaixo de um duche. Desejava proceder como um bom vogal, agradar ao seu presidente, e, sendo esta a primeira vez que havia sido chamado a funções, queria ser apreciado pela rapidez e eficiência nos serviços que tivesse de prestar, com o tempo e a experiência, quem sabe, alguma vez chegaria o dia em que também ele presidisse a uma assembleia de voto, voos mais altos que este têm cruzado o céu da providência e já ninguém se admira. Quando ele regressou à sala, o presidente, entre pesaroso e divertido, exclamou, Homem, não era preciso deixar-se molhar dessa maneira, Não tem importância, senhor presidente, disse o vogal enquanto enxugava o queixo à manga do casaco, Conseguiu ver alguém, Até onde os meus olhos alcançaram, ninguém, a rua é como um deserto de água. O presidente levantou-se, deu uns passos indecisos diante da mesa, foi até à câmara de voto, olhou para dentro e voltou. O delegado do p.d.m. tomou a palavra para recordar o seu prognóstico de que a abstenção dispararia em flecha, o delegado do p.d.d. pulsou outra vez a corda apaziguadora, os eleitores tinham todo o dia para votar, deviam estar à espera de que o temporal amainasse. Já o delegado do p.d.e. preferiu ficar calado, pensava na triste figura que estaria a fazer se tivesse deixado sair pela boca fora o que se dispunha a dizer no momento em que o suplente do presidente entrou na sala, Quatro miseráveis gotas de água não é coisa que chegue para amedrontar os votantes do meu partido. O secretário, para quem todos olharam à espera, optou por apresentar uma sugestão prática, Creio que não seria má ideia telefonar ao ministério a pedir informações sobre como está a decorrer o acto eleitoral aqui e no resto do país, ficaríamos a saber se este corte de energia cívica é geral, ou se somos os únicos a quem os eleitores não vieram iluminar com os seus votos. Indignado, o delegado do p.d.d. levantou-se, Requeiro que fique exarado na acta o meu mais vivo protesto, como representante do partido da direita, contra os termos desrespeitosos e contra o inaceitável tom de chacota com que o senhor secretário acaba de se referir aos eleitores, esses que são os supremos valedores da democracia, esses sem os quais a tirania, qualquer das que existem no mundo, e são tantas, já se teria apoderado da pátria que nos deu o ser. O secretário encolheu os ombros e perguntou, Tomo nota do requerimento do senhor representante do p.d.d., senhor presidente, Opino que não será caso para tanto, o que se passa é que estamos nervosos, perplexos, desconcertados, e já se sabe que num estado de espírito assim é fácil dizer coisas que na realidade não pensamos, tenho a certeza de que o senhor secretário não quis ofender ninguém, ele próprio é um eleitor ciente das suas responsabilidades, a prova está em que, como todos os que nos encontramos aqui, arrostou com a intempérie para vir aonde o dever o chamava, no entanto, este reconhecimento sincero não me impede de rogar ao senhor secretário que se atenha ao cumprimento rigoroso da missão que lhe foi consignada, abstendo-se de qualquer comentário que possa chocar a sensibilidade pessoal e política das pessoas presentes. O delegado do p.d.d. fez um gesto seco que o presidente preferiu interpretar como de concordância, e o conflito não foi além, para o que fortemente contribuiu ter o representante do p.d.m. recordado a proposta do secretário, Na verdade, acrescentou, estamos aqui como náufragos no meio do oceano, sem vela nem bússola, sem mastro nem remo, e sem gasóleo no depósito, Tem toda a razão, disse o presidente, vou ligar para o ministério. Havia um telefone numa mesa afastada e para lá se dirigiu levando a folha de instruções que lhe havia sido entregue dias antes e onde se encontravam, entre outras indicações úteis, os números telefónicos do ministério do interior». In José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-211-608-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT