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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «Nos registos de ocorrências da Guarda Real da Polícia dos inícios de oitocentes é possível encontrar por repetidas vezes, a necessidade de prender ou actuar contra soldados…»

Cortesia de wikipedia

Os Protagonistas
O Criminoso
«(…) Em 1877, o periódico Gajo dedicaria a sua atenção aos trambulhões do operário, incapaz de providenciar o necessário à manutenção do seu agregado familiar, nas condições normais em que se encontrava. Calculada em 13$000 a remuneração mensal média de um operário, as despesas correntes de uma família de três pessoas orçavam 13$800, sem contar com extras mais ou menos imprevistos. Perante este deficit, quais as opções? Quais as possibilidades perante esta situação, para quem pretendesse manter um nível de vida nos limiares da dignidade? Quais e como podem ser as suas rotinas? ... o pobre homem faz a barba de oito em oito dias, paga décimo, tem montepio, por causa de que padece de moléstia do horror instintivo ao hospital, onde estaria muito melhor do que na sua pocilga; tem o mau gosto de querer andar calçado, e o ainda pior de gostar de vestir camisa lavada de vez em quando, assim como o ainda mais repugnante de prezar a honestidade do filho ou da mulher. Falta-lhe trabalho, pede-o, roga-o, implora-o.
Não há que fazer!, dizem-lhe. Pede fiado, ora essa!, dizem-lhe. Vae esmollar; prohibe-lhe a policia! Vê a mulher que estima, vê-se a elle próprio com as dores da fome. Rouba uma insignificância. É pois ladrão depois de ter sido homem de bem durante a sua vida inteira. O ciclo de inexorável descida ao mundo da marginalidade é, em muitos casos, praticamente inevitável. Se a sua mulher ou o seu filho vão trabalhar a remuneração é cerca de metade da sua mas, por outro lado, eles irão ocupar o lugar de outro operário adulto, que assim se vê privado, em muitas indústrias, do seu posto de trabalho. O sistema de trabalho fabril da sociedade industrial encerra engrenagens e mecanismos que não se compadecem com os dilemas individuais e, em virtude dessa insensibilidade, expele muitos do que usa temporariamente para uma encruzilhada entre a total indigência ou a via do crime, duas faces de um mesmo mundo marginal, que os poderes apresentam como uma espécie de anti-sociedade. Os bairros populares, de vias estreitas, pequenas casas de escassas condições, pouca limpeza, escuras como breu logo que a noite cai, tornam-se palco, na maioria dos espíritos, dos acontecimentos mais tenebrosos e couto das mais misteriosas personagens.
Contudo, quem povoa o universo do crime dificilmente se pode reduzir a uma redutora e conveniente estereotipia. Os seus tipos são vários e, por vezes, inesperados. Aliás, uma primeira e curiosa permanência na análise dos problemas de ordem pública pode ser exactamente a presença dos chamados agentes da ordem em situações que dificilmente deveriam ser compatíveis com esse estatuto, antes surgindo com regularidade como prevaricadores e como agentes de perturbação dessa ordem que deveriam ajudar a preservar. Embora a amostra recolhida seja muito rarefeita e com uma malha muito pouco apertada, não necessariamente generalizável de forma linear, é possível encontrar uma activa participação de soldados, polícias, milicianos ou guardas de diversa origem nos mais vários desacatos registados desde os inícios do século XIX até idêntico período deste século. Nos registos de ocorrências da Guarda Real da Polícia dos inícios de oitocentes é possível encontrar por repetidas vezes, a necessidade de prender ou actuar contra soldados, marinheiros e elementos de várias milícias da época, por se envolverem em conflitos vários com a população ou entre si. No mesmo período, é também motivo recorrente a ofensa de agentes da guarda como forma de protesto quer de prostitutas, como de desordeiros, indivíduos cujas mercadorias são apreendidas, frequentadores de tabernas encerradas ou mesmo populares que, sem motivo aparente, decidem lançar impropérios à passagem das rondas. A categoria de ameaças e insultos do registo de ocorrências da Guarda Real da Polícia está repleta de casos destes, que ainda surgem em muitas outras situações. Em Janeiro de 1809, são presos diversos indivíduos por ofensas à autoridade no exercício da sua função: um arrais que passara a noite com uma mulher, ofende um alferes da Guarda e ameaça-o com um cajado no dia 2, um caixeiro insulta uma patrulha que andava em averiguações no dia seguinte e a 4 é a vez de um marujo que ameaça de morte com uma pistola um polícia. Alguns dias depois é a vez de abundante presença feminina; uma mulata insulta a patrulha que acudira a uma desordem provocada pelo seu marido (dia 12), uma mulher de mau porte insulta um oficial de justiça do Bairro do Mocambo (dia 16) e uma peixeira provoca um motim, no sítio do Chafariz de Dentro, contra a Guarda que a tenta impedir de vender peixe (dia 20); os protestos de comerciantes continuam a 21 com um outro peixeiro a insultar o Comandante da Guarda do Chafariz de Dentro e um moço de fretes a insultar o feitor da Mesa das Carnes. O desrespeito pelas autoridades é quase tão frequente como o comportamento incorrecto dessas mesmas autoridades. Entre as desordens e agressões registadas nesse mesmo mês de Janeiro, a participação de soldados, guardas, polícias e/ou milicianos é abundante, quer em motins com a população quer em conflitos entre si, e apenas se pode destacar uma pequena porção do total: no dia 3, o comandante da Guarda da Ribeira apresenta queixa de um oficial da Marinha que por duas vezes tentara atacar a Guarda, uma semana depois uma patrulha da Guarda das Necessidades é insultada e perseguida por um outro grupo de soldados da Guarda. No dia 15 um marujo é preso por ter partido a cabeça a um barbeiro da Rua dos Remoladores, a 23 é um soldado de Cavalaria da Guarda Real da Polícia que inicia uma desordem com dois rapazes que se estende ao ponto dos moradores do Distrito se verem obrigados a fechar as portas, a 24 é um soldado do Regimento de Infantaria 4 que esfaqueia um sapateiro, enquanto a 27 é a vez de um seu colega de Infantaria 10 ser preso por desordem. E a lista poderia continuar». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «No entanto, a instalação de todas estas gentes levantaria muitos problemas do ponto de vista social: a absorção de toda esta força de trabalho era difícil e o seu crescimento constante, desvalorizava o seu valor perante os potenciais empregadores»

Cortesia de wikipedia

Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais
«(…) A mitologia da criminalidade, da boémia, dos mundos do fado, da prostituição e da marginalidade é construída pelos seus detractores com mais vigor do que pelos seus próprios agentes. Exagerando o perigo, desmesurando os seus potenciais efeitos, justificava-se a necessidade de amplos meios para os prevenir e reprimir. O discurso, muitas vezes inebriado no seu próprio estilo, cria um universo colorido e sedutor, de tão sombrios que se traçam os seus contornos. Não deixa de ser significativo que os primeiros passos de todo este processo surjam no momento em que se afirma entre nós um tardio romantismo literário. E que, mais tarde, a descrição e análise destes fenómenos se torne um recurso comum na literatura com pretensões realistas e naturalistas, lado a lado com o desenvolvimento do entusiasmo estatístico na caracterização dos protagonistas e dos comportamentos presentes na sociedade. Resta-nos, agora, tentar reencontrar os protagonistas desse mundo, e espaços e momentos em que era possível encontrá-los em acção, sempre na convicção que muitas das imagens que é possível recolher se encontram diversamente distorcidas pelos olhares lançados sobre a realidade, tantas vezes enleados em todos os preconceitos e juízos de valor que previamente os condicionavam.

Os Protagonistas
Quem eram então os protagonistas desse mundo marginal, com regras de conduta alternativas ao da sociedade burguesa ideal? Os criminosos e as prostitutas eram as figuras mais conhecidas, mas na mesma categoria poderiam ser incluídos os boémios, de todas as origens sociais, assim como os indigentes, os vadios e todos os outros que não se enquadravam numa representação harmoniosa do mundo. De todos eles vinha o perigo, mesmo quando a sua condição resultava das circunstâncias de vida da sociedade que os excluía.

O Criminoso
Um dos maiores receios burgueses no século XIX prendia-se com o comportamento das classes populares que, incapazes de gerar riqueza e atingir um nível de vida que se pudesse considerar razoável e respeitável, insuficientemente desenvolvidas do ponto de vista moral, optavam em muitas situações pela via do crime, pelos atentados à propriedade alheia, pela desordem e pelo desacato. No século XIX a associação que se estabelece entre as camadas populares e o crime é muito rápida e parece óbvia, em especial quando se recorre à estatística para fundamentar as teorias sociológicas que tentam estabelecer tipologias para os agentes da desordem. A nova sociedade industrial, se a muitos permite insuspeitadas possibilidades de ascensão social, não deixa de lançar muitos outros para as fronteiras da marginalidade.
O grosso dos indivíduos que constituíam as fileiras das hordas da transgressão, do crime, da decadência moral, dos comportamentos desviantes, provinha das massas populares, em particular nas grandes cidades que cresceriam descontroladamente no século XIX, sem plano e sem a criação das estruturas mínimas para o acolhimento das dezenas de milhar de famílias em debandada dos campos, à procura de um mundo novo de oportunidades nas cidades onde se encontravam os pólos de desenvolvimento industrial. No entanto, a instalação de todas estas gentes levantaria muitos problemas do ponto de vista social: a absorção de toda esta força de trabalho era difícil e o seu crescimento constante, desvalorizava o seu valor perante os potenciais empregadores. Desta maneira, largas fatias do proletariado urbano, que se fixava nas periferias das cidades, não conseguiria alcançar níveis satisfatórios de subsistência e teria de recorrer aos mais diversos expedientes para sobreviver». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Mundo da Transgressão Social. Educar. «À luz do dia em que se passeiam os senhores, senhoras, meninas e meninos da boa sociedade, opõem-se as trevas da noite onde se movem boémios, prostitutas e outros marginais»

Cortesia de wikipedia

Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais
«Como qualquer outra época, o século XIX foi povoado por personagens que de modo mais ou menos sistemático desafiaram as suas regras de boa convivência social. Com rituais, espaços e horários relativamente específicos, ora claramente distintos dos da população comum, ora em intersecção com eles, estes eram indivíduos ou grupos em situações que, de algum modo, entravam em ruptura com os valores da sociedade estabelecida, mesmo quando dela faziam parte integrante. A sociedade burguesa que caracteriza o século XIX no mundo ocidental, construiu uma representação moralista do seu mundo ideal que estava em choque com muitas das condições do quotidiano de grande parte das populações que então habitavam os campos e cidades das nações ocidentais. As severas regras de conduta propostas pela nova elite politico económica, se eram adequadas ao modelo de vida de uma estreita faixa da sociedade, familiar, sóbrio, racional, avesso à desordem, ao excesso e ao protesto, revelavam-se claramente desenquadradas das condições concretas de existência de muitos indivíduos das mais diversas origens. Os comportamentos alternativos ao modelo ideal que necessariamente se verificavam, podiam com ele entrar em mais ou menos frontal confronto. Os que de forma mais evidente chocavam com as propostas burguesas seriam associados a um universo comum de transgressão e marginalidade. Se na representação burguesa da sociedade oitocentista se reconhece a facilidade e rapidez com que procedia à catalogação dos fenómenos sociais e na caracterização de tipos, não é menos verdade que muitos deles eram remetidos, em conjunto, para uma amálgama comum de comportamentos associados a uma patologia social, de contornos vastos e protagonistas variados. No seu interior podiam mover-se prostitutas profissionais ou ocasionais, perigosos criminosos de delito comum reincidentes ou pequenos larápios de circunstância, velhos boémios em permanente busca de novas experiências ou jovens burgueses em iniciação nos prazeres da vida, marialvas, fadistas, operários em busca de diversão, que todos eram identificados com um universo comum que era essencial circunscrever, já que se verificaria ser impossível erradicar por completo.
Se estes fenómenos e indivíduos já tinham uma natural tendência para ocorrerem e se moverem em espaços e horários próprios da vida das comunidades, a sociedade burguesa não deixaria de vincar e reforçar todos os sinais de diferenciação entre o seu mundo, o da Ordem, e o de todos que cediam à tentação na queda no abismo da desordem. As elites políticas, um pouco por todo o lado, como em Portugal, quando estabilizam o seu modo de vida, nascido da quase generalizada vitória da ideologia liberal burguesa e do seu modo de vida específico, procuram ordenar o mundo onde vivem. Ordenar os indivíduos, depois de uma prolongada época de convulsão (em virtude das sequelas de 1789), refrear-lhes os excessos, atribuir-lhes uma função útil na sociedade, que se não é tão firmemente ditada pelo nascimento como nos tempos do absolutismo de origem feudal, não deixa de obedecer a um desejo de harmonia e estabilidade social, abertamente avessa a manifestações de contestação.
De acordo com este sistema de valores, a criminalidade, a prostituição, a boémia seriam crescentemente apresentadas como protagonizadas por indivíduos à margem dos valores da nascente cultura burguesa, oitocentista e, mais tarde por afinidade, dita vitoriana, em virtude da cristalização dos seus fundamentos verificada na sociedade britânica da segunda metade do século. As chamadas classes perigosas viriam a ser objecto, durante o século XIX, de sucessivos esforços de marginalização compulsiva, na tentativa do seu afastamento dos circuitos onde circulavam as classes abastadas e elegantes. Esses grupos viviam quotidianos alternativos ao ideal, que entravam em colisão com as regras da sociedade liberal que sobre eles exercia o seu poder e autoridade, tentando afastá-los dos seus itinerários correntes, para o que lhes procurava determinar espaços e horários próprios, simétricos aos seus, num sistema dicotómico, redutor e que nunca corresponderia verdadeiramente a uma realidade que se tentava, esforçadamente, enquadrar em tipologias.
Embora associassem à irracionalidade, à desordem e ao caos a amálgama de comportamentos dos grupos sobre os quais consideravam necessário um firme exercício da autoridade, por viverem quotidianos alternativos, criminais e perigosos para a ordem social, os analistas da sociedade oitocentista esforçavam-se insistentemente por categorizá-los e idealizá-los quase tanto como a (falsa) harmonia em que imaginavam viver as camadas dominantes de sucesso. Num quadro mental extremamente maniqueísta tudo se parece desenvolver em oposições simples de compreender: à respeitável família burguesa em que os progenitores fazem uma divisão de carácter sexual das respectivas funções no emprego e no lar, reunindo-se placidamente ao fim do dia para um serão em comum com os filhos obedientes, opõem-se núcleos familiares irregulares, lares desfeitos, crianças abandonadas, produtos e agentes de muitos dos comportamentos desviantes detectáveis na sociedade. Às ocupações profissionais de sucesso, (re)produtoras de riqueza, opõem-se as artes duvidosas do crime, em que se vive à custa de expedientes e do alheio. À luz do dia em que se passeiam os senhores, senhoras, meninas e meninos da boa sociedade, opõem-se as trevas da noite onde se movem boémios, prostitutas e outros marginais. Em Lisboa, às artérias da cidade elegante, do Rossio, ao Chiado, ao Passeio Público, antes, e à Avenida, depois, aos jardins da Estrela e de S. Pedro de Alcântara, onde a iluminação pública começava a avançar opõem-se os becos e vielas dos mais velhos bairros da cidade (Alfama, Mouraria, Madragoa), onde se amontoam, em emaranhados sujos, escuros e labirínticos, as tabernas, bordéis, hospedarias e habitações de duvidosa frequência». In Educar, O Mundo da Transgressão Social, Criminosos, boémios, prostitutas e outros marginais,
 Wordpress, Boémia, Wikipédia, 2007.

Cortesia de Wikipédia/Educar/JDACT

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bocage: O Boémio e o poeta da sátira mordaz

(1765-1805)
Cortesia de tertuliabibliofila
Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage foi um poeta português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Embora ícone deste movimento literário, é uma figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que terá forte presença na literatura portuguesa do século XIX.
Cortesia de cadernosdeviagens
Nasceu na cidade de Setúbal.
Bocage teve cinco irmãos. O pai  foi juiz de fora em Castanheira e Povos, cargo que exercia durante o Terramoto de 1755. Sua mãe era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Anne-Marie Le Page du Bocage, autora da tragédia «As Amazonas» e do poema épico em dez cantos «A Columbiada», que lhe mereceu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro prémio da academia de Rouen.

Apesar das numerosas biografias de Bocage, publicadas após a sua morte, boa parte da sua vida permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é duvidosa e discutível. A infância de Bocage foi infeliz, segundo alguns relatos ( a prisão do pai durante 6 anos e a morte da mãe quando tinha dez anos). Segundo se deduz, «ferido» por um amor não correspondido, foi para a vida militar como voluntário, sendo admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I. Nessa altura, já a sua fama de poeta e versejador corria por Lisboa.

Cortesia de catedral.weblog
Diz o «Dicionário de Curiosidades do Rio de Janeiro» de A. Campos - Da Costa e Silva, pg 48, que «gostou tanto da cidade que, pretendendo permanecer definitivamente, dedicou ao vice-rei algumas poesias-canção cheias de bajulações, visando atingir seus objectivos. Sendo porém o vice-rei avesso a elogios,e admoestado com algumas rimas de baixo calão, que originaram a famosa frase: quem tem c... tem medo, e eu também posso errar». Bocage viveu em Damão e em Macau.
A período da sua maior produção literária coincidiu com o período de maior boémia e vida de aventuras.
Já Bocage não sou!... À cova escura
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Bocage

Em 1790 foi convidado e aderiu à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, onde adoptou o pseudónimo Elmano Sadino. Mas passado pouco tempo escrevia já ferozes sátiras contra os confrades.
Em 1791, foi publicada a 1.ª edição das «Rimas». Naquela época, o Intendente da Polícia Pina Manique que dominava a cidade de Lisboa, deu ordem de prisão a Bocage por ser «desordenado nos costumes». Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor. Saiu em liberdade em 31 de Dezembro de 1798.
De 1799 a 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique, que lhe deu muitos trabalhos para traduzir.
O autor aos seus versos
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.
Bocage

Casa onde nasceu Bocage
Cortesia de comoze2
A Obra de Bocage:
  • A Morte de D. Ignez;
  • A Pavorosa Illusão;
  • A Virtude Laureada;
  • Elegia;
  • Improvisos de Bocage;
  • Mágoas Amorosas de Elmano;
  • Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina
Morre aos 40 anos de idade. O feriado Municipal (dia 15 de Setembro) assinala a data de nascimento de Bocage. (A morte de D. Ignez)
História de Portugal/wikipédia/JDACT