Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Ventura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruy Ventura. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de dezembro de 2021

As Igrejas de Castelo de Vide. Ruy Ventura. «Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado»

Cortesia de ArquivodoNorteAlentejano e jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao jornal Alto Alentejo

As Igrejas de Castelo de Vide fazem falta

«(…) É certo que em Castelo de Vide e no seu concelho nunca existiram igrejas dedicadas a São Martinho ou à Senhora da Saúde (como alguém escreveu), mas o valor memorial e patrimonial de igrejas e capelas como as que existem no concelho alentejano é algo que não pode ser desperdiçado seja por quem for. Desde uma igreja de Santiago (que investigadores internacionais já identificaram como uma antiga mesquita) à do Salvador do Mundo (anterior à nacionalidade e ligada ao cristianismo moçárabe), passando pelo Senhor do Bonfim (com um admirável conjunto de pinturas murais), ao Bom Jesus e à Senhora do Carmo (com retábulos que urge estudar, restaurar e divulgar, no âmbito da comunidade de artistas que existiu em Castelo de Vide nos séculos XVII e XVIII), a Santo Amaro (uma admirável igreja barroca!), às medievais São Roque e Santo Amador e a muitas outras, há um imenso conjunto de oportunidades a explorar, no âmbito de uma religiosidade aberta, de um turismo religioso e cultural e de uma estratégia inteligente de desenvolvimento local. É um erro pensar que as igrejas só merecem estar de pé enquanto lá se celebrar missa todos os domingos. Não foram construídas para isso. A maior parte delas, desde o dia da sua inauguração, só teve eucaristia uma vez por ano (ou no dia da sua festa ou no dia do sufrágio de quem lá estava enterrado, em geral os seus fundadores). A sua manutenção era assegurada por um ermitão, que aí vivia de graça e em troca de habitação gratuita tinha de assegurar a abertura de portas aos fiéis. Hoje em dia serão usadas de outro modo, com fins distintos. Não serão todavia menos dignos.

Dar valor a uma igreja, ainda que pequena e humilde, mas histórica, é respeitar um passado que nos mantém de pé, pois faz parte das nossas raízes. Não há futuro sem passado. É muito urgente dar valor a este e a outros patrimónios, sobretudo num tempo em que motivações espúrias querem purificar a nossa memória, derrubando e vandalizando estátuas e pessoas, levando-nos para a barbárie. Acredito que os negócios sejam sedutores, que a pressa de resolver situações seja má conselheira, que a imaginação nem sempre seja abundante, que pressões várias, nem sempre legítimas, façam esquecer o dever maior. Não é por acaso que o Direito Canónico afirma só ser válida a alienação de ex-votos oferecidos à Igreja, ou de coisas preciosas em razão da arte ou da história com licença expressa da Santa Sé, permitindo todavia que, além do culto, da piedade e da religião, o bispo diocesano permita nas igrejas outros actos ou usos, que não sejam contrários à santidade do lugar. Mesmo que as circunstâncias tenham levado à perda da bênção do local, é sempre possível dar-lhes um uso digno que respeite a sua integridade memorial, arquitectónica e artística. Há exemplos vários disso mesmo no Alentejo e no país, alguns bem perto. Não é preciso reinventar a roda…

Um dos primeiros actos de São Francisco depois da sua conversão foi promover nos arredores de Assis a reparação da igreja de São Damião, que ameaçava ruína e estava abandonada. Para isso, vendeu tudo o que tinha e, segundo contam as suas biografias medievais, chegou a andar pela sua terra a pedir pedras para a reconstrução, prometendo recompensas divinas. Nem todos podemos chegar ao exemplo maior dos santos, mas, como me disse um dia, era eu adolescente, o saudoso cónego Justo, membro do cabido da Sé de Portalegre, se nem todos conseguimos ser santos, todos temos a obrigação de ser nobres e honrados. Haja nobreza de carácter, honra e humildade e a situação das igrejas de Castelo de Vide será resolvida a pouco e pouco pelos castelo-videnses, pelas suas autoridades civis e por quem dirige a sua paróquia. Não me passa pela cabeça que venham a ter uma atitude menos digna. O Paráclito os espicaçará». Ruy Ventura, As Igrejas de Castelo de Vide Fazem Falta, artigo publicado no jornal AltoAlentejo, 17/06/2020, Arquivo do Norte Alentejan.

Cortesia de JALentejo/RuyVentura/JDACT

JDACT, Património, Ruy Ventura, Cultura e Conhecimento, Castelo de Vide,

As Igrejas de Castelo de Vide. Ruy Ventura. «Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida…»

Cortesia de ArquivodoNorteAlentejano e jdact

Com a devida vénia a Ruy Ventura e ao jornal Alto Alentejo

As Igrejas de Castelo de Vide fazem falta

«Castelo de Vide é uma terra afortunada. Ao contrário de outras localidades, que ainda hoje lamentam os desvarios e vandalismos do passado, causadores da destruição de tantos edifícios valiosos, a terra de Salgueiro Maia detém no perímetro do seu concelho um património invejável seja sob que ponto de vista for. É, ainda, uma vila venturosa pelas gentes que nela habitam. Sem os castelo-videnses, teríamos no mesmo lugar do Alto Alentejo uma qualquer feia povoação, sem identidade e sem brilho, abastardada por uma sucessão de atentados urbanísticos e patrimoniais promovidos pelos seus habitantes e autorizados pelos serviços camarários. Felizmente, temos o contrário disso tudo, e essa realidade eleva a urbe aos olhos dos portugueses e dos estrangeiros. Entre as pessoas que dão vida a Castelo de Vide, há cidadãos de corpo inteiro que, ao longo do tempo, têm assumido a defesa do seu património. Se no passado não conseguiram evitar a demolição de uma parte das suas muralhas (e, nelas, da célebre Porta da Aramenha, proveniente da cidade romana de Ammaia), bem como de alguns edifícios religiosos, como a importante igreja do Espírito Santo ou a matriz antiga de Póvoa e Meadas, pode dizer-se que há uma linhagem de gente que não tem deixado destruir peças importantes da sua identidade artística e arquitectónica (popular ou erudita). Uns chegaram à investigação, à escrita e à publicação (César Videira, João António Gordo, Raposo Repenicado, Diamantino Sanches Trindade, Maria Guadalupe Alexandre, Diogo Salema Cordeiro, Jorge Rosa, Rosário Salema Carvalho, etc.); outros, mantendo-se mais ou menos na sombra, trabalharam de outro modo pela salvaguarda, valorização e divulgação do património da comunidade, que é parte integrante, diga-se, do património nacional. Nos últimos anos, merece especial relevo a actividade da associação denominada Grupo de Amigos de Castelo de Vide, que tem aliado a defesa dos interesses locais à edição de livros e à impressão do jornal Notícias de Castelo de Vide, também disponível na internet sob a forma de blogue.

Se alguém pensa, por isto, que Castelo de Vide precisa de mim para liderar a defesa do seu património, decerto tem uma visão desfocada da realidade do concelho. Como investigador, é certo que assinei artigos na Invenire, Revista de Bens Culturais da Igreja (editada pela Conferência Episcopal Portuguesa) em que estudei obras de arte e tradições da vila onde nasceu Garcia de Orta; destaquei a localidade no meu livro Santo António na Região de Portalegre; publiquei artigos sobre as ruínas da ermida de São Paulo e sobre a igreja de Santa Maria da Devesa (com algumas novidades históricas); divulguei uma parte dos textos tradicionais do concelho em vários cadernos editados com a literatura oral da Serra de São Mamede; dei destaque à literatura castelo-vidense na volumosa antologia Poetas e Escritores da Serra de São Mamede; e, sobretudo, investiguei a toponímia, a heráldica, a história e o património do concelho no livro A Vide e o seu Castelo, obra hoje esgotada, a precisar de reedição revista e muito aumentada. Tal trabalho, que tenciono continuar (nomeadamente no doutoramento em História da Arte que me ocupará nos próximos quatro anos), não me transforma no entanto num elemento imprescindível na luta pela defesa do património concelhio, embora não lhe vire a cara, ao não esquecer que uma parte dos meus antepassados nasceu nesse município. Agradeço a honra que me foi concedida em duas publicações vindas a lume no jornal Alto Alentejo, nas quais surjo como líder de um grupo de pessoas de Castelo de Vide, mas não a mereço. Se manifestei o meu repúdio público pelas intenções do pároco viti-castrense e de mais algumas pessoas em vender a abandonada igreja de São Miguel (situada na Serra que já teve o nome do Comandante das Milícias Celestes e principal defensor da Igreja e do povo de Israel), limitei-me a fazer eco de uma notícia criada e difundida pelo Grupo de Amigos de Castelo de Vide no jornal que publica. Partilhei a notícia no facebook e comentei-a, dando o meu apoio aos castelo-videnses, estupefactos perante um incompreensível e pouco claro ataque ao seu património medieval. É certo que difundi a notícia e pus os meus fracos préstimos à disposição dos defensores do património local, mas nada fiz que outros não tivessem feito. O seu a seu dono…

Há quem defenda publicamente que as igrejas de Castelo de Vide não fazem falta. Permito-me discordar. Fazem tanta falta quanto as muralhas de várias épocas que envolvem a vila, quanto o castelo que lhe deu nome, quanto as antas e outros vestígios arqueológicos que povoam o município, quanto o pelourinho que se ergue em frente aos Paços do Concelho, quanto muitas tradições seculares que dão identidade à urbe. Diria mesmo que, dado o seu estatuto, fazem até mais falta. Com o que digo, não estou a estabelecer uma hierarquia, mas apenas a dizer que uma estratégia pastoral imaginativa, dialogante e aberta já lhes teria dado utilidade comunitária além do seu valor patrimonial, pois se não há cultura sem culto, também não há culto sem cultura.

A igreja de São Miguel não está arruinada, como tem sido dito. Está apenas abandonada porque a abandonaram há várias dezenas de anos, entregando-a à sua sorte e às forças da natureza. Aconteceu o mesmo a outras ermidas castelo-videnses, o que se lamenta. Desde que lhe retiraram as imagens aí veneradas, não mais foi reparada, limpa ou valorizada. Mas não é uma ruína. Não será muito difícil repará-la e dar-lhe nova vida, associando-a talvez à ermida de Nossa Senhora da Penha, sua vizinha, que não tem espaço para lá se celebrar a eucaristia, nem no dia da festa, ou instalando aí um agrupamento de escuteiros ou… (os castelo-videnses saberão, e parece que a edilidade já está a dar bons passos no sentido de não se apagar esse património). Essa igreja, já existente no século XV, era local de encontro dos cristãos-novos na centúria de quinhentos, tendo assim um valor memorial inalienável. Com potencial arqueológico importante, ninguém nos garante que por debaixo da sua cal não haja surpresas. Não deve ser vista, todavia, como algo que se possa separar da sua envolvente, tanto próxima, onde avulta um entorno prodigioso do ponto de vista natural e paisagístico, quanto alargada. Pergunto: não seria possível criar uma rota do sagrado que envolvesse todos estes edifícios ainda de pé e mesmo aqueles de que já só sobram ruínas? Ou será melhor defender o que defendiam alguns cidadãos de Guimarães no século XIX, ao quererem demolir o castelo da cidade porque o progresso seria levantar ali um bairro operário?» Ruy Ventura, As Igrejas de Castelo de Vide Fazem Falta, artigo publicado no jornal AltoAlentejo, 17/06/2020, Arquivo do Norte Alentejano.

Cortesia de JALentejo/RuyVentura/JDACT

JDACT, Património, Ruy Ventura, Cultura e Conhecimento, Castelo de Vide,

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «Do que é certo desconfia do duvidar te enamora é bom não saber de Deus quem de dentro a Deus adora»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Em todas estas quadras de Agostinho da Silva há uma grande reflexão sobre a existência de Deus ou sobre o que ele pensava ser a íntima essência da divindade. Sem fazer comentários (cada um deverá fazer os seus comentários interiores), apresento-vos algumas das quadras que publicou sobre essa temática:

Se não sabes o caminho
e a sorte nenhum prefere
toma então pelo mais duro
é esse o que Deus te quer.

Acho que Deus não escreve
e também que Deus não fala
e que nos sustenta vivos
a vida que nele cala.

Dizendo que é só amor
fazes Deus menor que Deus
cercas o ilimitado
dos limites que são teus.

E venha filosofia
teologia que farte
o que se pense de Deus
é só de Deus uma parte.

Mais que a teu Deus sê fiel
ao que tu sejas de Fé
talvez o Deus que te crias
oculte o Deus que Deus é.

O mais simples alicerce
traz logo a casa traçada
se eu quiser chegar a Deus
começarei por ser nada.

Posso dizer-lhes de Deus
quanto queiram mas calado
aprovarão se há silêncio
mas se me escutam cuidado.

Se Deus quisesse ocupar
lugar a si mesmo igual
preenchia todo o nada
e o deixava tal e qual.

Sobre o Espírito Santo, cujo culto Agostinho considerava ser a essência da cultura portuguesa, tem uma quadra sintética e bem demonstrativa da sua posição:

Do que é o Espírito Santo
só diga quem fique mudo
que palavra há que me leve
àquele nada que é tudo.

Há sempre uma grande aceitação tanto do mundo transcendente quanto do mundo concreto, imanente, em que todos nós vivemos. Embora acredite na crença, esta tem sempre base na desconfiança, na dúvida. Só com o vencimento das dúvidas, das desconfianças, é que se chega à crença, sendo no entanto sempre uma crença imperfeita. Refere:

Do que é certo desconfia
do duvidar te enamora
é bom não saber de Deus
quem de dentro a Deus adora.

E o mesmo diz do mistério. Ao longo da História, por motivos naturais e aceitáveis, o ser humano tem tentado constantemente vencer os mistérios e os segredos. Andamos sempre em demanda de uma revelação dos segredos».
In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «É só bem dentro de nós que o projecto se anuncia se retoma se reforma e se solta à luz do dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Há uma antevisão do que é a polissemia de quem escreve. Quem escreve tem de admitir que pode não ser entendido, que pode ser lido de outra forma. Existe quase uma visão anárquica do pensamento, pois as peças não têm que estar coerentes, dado que a coerência é atribuída pelo leitor. Ainda em relação à questão de Deus como Poeta, o início de um poema seu sobre Fernando Pessoa é muito claro nas suas ideias:

O mito é o nada que é tudo
tem por mãe a poesia
e o grande poeta é Deus
o resto filosofia

mas Deus poeta e poema
em Pessoa se encarnou
profeta de Portugal
Lisboa o crucificou

Em toda a poesia de Agostinho, embora, como já referi, eu não seja um conhecedor de todos os meandros da sua obra, penso que existe uma grande valorização do imaginar, da criação de imagens, imagens essas que não têm de estar ligadas ao mundo concreto, mas são sobretudo fruto do pensamento humano, da racionalidade. Afirma:

A face oculta da lua
só banha de seu luar
aqueles que não o vendo
o sabem imaginar.

A realidade está para além do visível e do concreto, está sobretudo no imaginável. Quando o ser humano tenta tornar concreto aquilo que por natureza não o é, a realidade foge. Tem por exemplo uma quadra em que diz:

Em mim tenho o mundo inteiro
e mais que tudo as estrelas
é procurá-las no céu
o que me impede de vê-las.

É só bem dentro de nós
que o projecto se anuncia
se retoma se reforma
e se solta à luz do dia.

Procurar ver as estrelas é sinal de que elas fogem, pois são parte sobretudo do domínio da imaginação».

In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «Falou-se aqui em franciscanismo; também está presente nalgumas das quadras do livro em questão. Mas atenção. O fundamento que surge em todos estes textos é sempre a humildade»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«(…) Com este enquadramento, a minha leitura dos textos dele (confesso que não sou um conhecedor muito profundo da obra do professor Agostinho da Silva..., mas considero-me um leitor, que nos últimos catorze-quinze anos tem procurado sempre nunca o perder de vista) acabou por ser aclarada.

Tinha eu dezasseis anos, um dos primeiros livros do professor que comprei foi um volume de quadras inéditas. Coisa que eu, na altura, com a minha ingenuidade natural de dezasseis anos, achei estranha, num pensador que eu já conhecia de uma conferência sua na escola secundária onde eu era aluno. Considerava estranho uma pessoa como ele dedicar-se a escrever quadras. Pensava eu, na altura, que as quadras serviam apenas como veículo natural para os poetas da minha aldeia e arredores, poetas orais que usavam e usam as formas fixas facilmente memorizáveis porque não têm outro meio para se exprimirem. A pouco e pouco, a partir do momento em que comecei a ler essas quadras, cheguei a uma conclusão, conclusão essa que esqueci relativamente e, quando me foi lançado o repto para falar convosco, tentei relembrar e aprofundar. E a conclusão-convicção é esta: quando um autor escolhe um veículo estilístico, não o faz por acaso. E tem um propósito. Sendo o professor Agostinho da Silva um autor, um filósofo, que gostava de insubordinar, que gostava de inquietar e de surpreender, querendo evangelizar os outros com os seus pensamentos e ideias, com as suas contradições (que as tinha), precisava de encontrar instrumentos válidos para esse objectivo. As suas metas, segundo me parece, não eram de elitismo. Ele tinha, na minha opinião, como objectivo divulgar o seu pensamento entre todas as camadas da sociedade. Só assim poderia educar Portugal. Agostinho da Silva deve ter tido consciência de que, ao usar um meio tão simples quanto as quadras (que o povo, as populações menos instruídas, reconhece facilmente também como seu), seria mais fácil levar as pessoas a entenderem melhor ou a aderirem melhor ao seu pensamento. Isto vai ao encontro de uma realidade apontada por uma grande estudiosa da literatura tradicional, Ana Paula Guimarães: por debaixo de vestimentas muito simples podem transmitir-se assuntos muito sérios.
Nesse livro, Quadras Inéditas, vários temas são focados. Passam pela sua autofiguração como poeta, vão ao entendimento da vida como poema, visionam Deus como um poeta, valorizam a imaginação, a interioridade, o mistério como elemento essencial de uma vida integral, reflectem sobre a relação entre o serviço e a autoridade, entre a aprendizagem e os mestres, sobre despojamento material, o estoicismo e a humildade. Falou-se aqui em franciscanismo; também está presente nalgumas das quadras do livro em questão. Mas atenção. O fundamento que surge em todos estes textos é sempre a humildade, humildade que não é apenas falsa modéstia (não a tinha), mas a procura do húmus, daquilo que é mais verdadeiro e mais fértil no ser humano. Essa humildade levava-o, por exemplo, a dizer que não era poeta. Abre esse livro de quadras inéditas com esta estrofe:

Se estas quadrinhas não prestam
com certeza as compus eu
mas se boas foi poeta
além de mim que mas deu.

Refere, depois, quem é o Poeta para ele:

O mundo é só o poema
em que Deus se transformou
Ele existe e não existe
tal a pessoa que sou.

A vida, para Agostinho, está toda edificada enquanto poema, isto é, enquanto harmonia entre o conteúdo e a forma.

Tudo o que faço na vida
é só linha de poema
que cada um ordenará
conforme for seu esquema».

In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, www.arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

A Cal para Caiar o Universo. Ruy Ventura. «O fundamental é que não acabemos por dentro, e o que temos que estabelecer é como vamos viver num mundo tão complicado»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cartas e quadras de Agostinho da Silva
«Contactei com Agostinho da Silva relativamente jovem. Não pessoalmente. Nunca o conheci pessoalmente. Mantivemos, apesar disso, um curto intercâmbio epistolar. Tudo partiu de uma iniciativa do poeta Nicolau Saião que, tendo lido um artigo que escrevi e li numa rádio em Portalegre sobre José Régio, achou conveniente e não despropositado eu enviar cópia desse texto a alguns amigos ainda vivos do autor de Fado, um dos quais Agostinho da Silva e a outra Matilde Rosa Araújo. Esse texto foi enviado. Esperava eu não ter feedback (como agora se diz...). Não pensava que o professor Agostinho da Silva fosse uma pessoa indelicada, mas considerava que uma pessoa mergulhada em pensamentos, muito mais importantes do que os de um jovem alentejano a escrever sobre José Régio, não teria tempo para responder. O facto é que obtive resposta. E durante cerca de um ano, um ano e meio, até pouco tempo antes de ele falecer, houve alguma troca de correspondência, troca essa que me enriqueceu bastante, porque não eram cartas meramente circunstanciais, mas cartas ou pequenos bilhetes que de uma forma concentrada e quase aforística transportavam sínteses e confirmações das leituras que eu fazia da obra do professor Agostinho da Silva.
Sobre vários assuntos comunicava nas cartas. Às vezes aproveitando o pretexto de alguma coisa que eu havia escrito nas minhas. Posso partilhar alguns extractos convosco. Sobre a questão das comunidades linguísticas, das comunidades económicas e da integração europeia, a dada altura, em 1993, escreveu-me:

A comunidade certa para Portugal tem agora início da parte do Brasil, que aqui delegou no Embaixador José Aparecido Oliveira, e que é ainda imaginação dos do culto [do] Espírito que passaram às Américas no [século] XVI. Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Um dia iremos mais em frente e seremos uma Comunidade Mundial dos Povos de Línguas Ibéricas. Pense só na extensão disto. Veja só quanto mundo. Das Baleares a Timor, apesar de qualquer sentença contra Xanana. Capital? Cada um a tenha dentro de si, e, no mapa, a adore como lhe for próprio em todos os aspectos do concreto e do transcendente.

De uma maneira muito resumida, concentra-se aqui todo um pensamento sobre as comunidades linguísticas e sobre a importância da língua como pátria. Sobre a vivência interior e exterior, um problema que deveria mobilizar o pensamento de todos os humanos, em determinado momento, perante uma certa desilusão que se notava nas cartas relativa ao seu apostolado (chega a dizer: em Portugal, já se escreveu bastante. Falta agir), usa uma máxima que passou a ser para mim, em conjunto com outras, quase uma regra de vida:

O fundamental é que não acabemos por dentro, e o que temos que estabelecer é como vamos viver num mundo tão complicado. Temos que viver plenamente por dentro e daí tirar a cal para caiar o universo.

Passou a ser quase uma máxima de vida para mim. Tirar da vivência do dia a dia a cal para caiar o universo... A relação entre o individual e o universal... O professor Agostinho, nesse ano e meio de intercâmbio, tinha grandes manifestações de humanidade. Uma pessoa que dedicava a sua vida à especulação filosófica, preocupava-se ainda com o facto de eu ter o meu pai internado no Hospital de São José, em Lisboa. E teve o cuidado, numa carta, de me perguntar com evoluía o estado de saúde dele, quando a minha referência ao facto havia sido meramente marginal. Ainda sobre o pensamento dele e esses quase aforismos que escrevia, e que eu tive o privilégio de receber, vinha frequentemente à colação a religião, que era fundamental nele, aliás. Não só o culto do Espírito Santo, mas toda uma maneira própria de ver esses assuntos. A dada altura escreveu:

Toda a religião que vale é apenas a crença que se pode ter seguido que não é demonstrável por matemática, e que é, quanto a mim, a Credibilidade Absoluta, aquilo que é totalmente o de que nós todos temos uma centelha, o sermos todos criadores, mais ou menos apreciados, o que não importa; seja como for, criemos. E para o enjoo que tanta vez o diário traz, o mesmo remédio que se usa a tudo [?]: Olhar o horizonte e escutar o grito da chegada, mesmo que o não haja». In Ruy Ventura, A Cal para Caiar o Universo, arquivors.com/ruy_acal.pdf, 2007, wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

terça-feira, 19 de julho de 2016

Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre. II «Tem a Ermida de Sancta Anna perto da Cidade na estrada que vay para Evora, Elvas etc. he muyto antigua, e antes da fundação da Sé…»

jdact

Portalegre. Sé. Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 223, pp. 1513 a 1539]

«(…) Alem destes tem hum convento da congregação Reformada dos Agostinhos descalssos, que haverá sessenta annos pouco mais ou menos, se estabellecerão no convento que athé então tinhão habitado os Relligiozos da venerável Companhia de Iezus com a Igreja de sancta Maria a grande que foy huma das freguezias que se vnio a Sé, e ainda hoje assim a Igreja como o convento concerva o nome de Sancta Maria e de prezente se está Renovando huma e outra couza com primoroso aceyo. Alem disto há nesta freguezia hum Recolhimento de Terceyras de são Francisco fundado há perto de quarenta annos junto da Igreja de são Bras que lhes foy dada pello Bispo e cabbido, vivem com grande Reforma, e exemplo, e vivem das esmollas que lhe administra a charidade dos fieis. Intramuros não tem esta freguezia Ermida alguma excepto a Igrejinha de São Lourenço a qual não consta tenha Padroeyro nem fabrica, nem há noticia da sua fundação; Extramuros tem a Ermida de são Christovão no sitio que se chama o Arrayal porque aly poz o seu ElRey Dom Deniz quando sercou esta Cidade. Tem a Ermida de Sancta Anna perto da Cidade na estrada que vay para Evora, Elvas etc. he muyto antigua, e antes da fundação da Sé pertencia a órdem de Christo como aprovão as cruzes da dita ordem, que ainda hoje se vem na Abobida da Capella mor e não tem Padroeyro.
Tem mais a Ermida de são Pedro perto da Cidade entre a porta, a que chamão falsa, e algum dia se chamava de Evora, e a porta a que chamão do Bispo. Esta Ermida tem três Altares, hum dedicado a São Pedro que he o principal, outro a são Paulo, e outro a sancta Petronilha, he muyto antiga não há noticia da sua fundação nem de que tenha Padroeyro. Pertence mais a esta freguezia, a Ermida da senhora [...] Da Penha nome que se lhe deu de huma na Rais da qual está fundada a Ermida em hum álto naõ muyto distante da cidade: a fundação naó he muyto antiga naõ se sabe porem o anno certo della; he tradição que a Imagem da Senhora fora trazida por hum Anjo em forma de perigrino a hum Prellado deste Bispado o qual juntamente com o corregedor que então era desta Cidade lhe fizerão aquella Igreja defronte do Pallacio Episcopal como hoje se ve, he da Abobida, alem do Altar principal, hum são Marcos, e outro de nossa Senhora do bom sucesso. Assima desta Ermida quazi ao meyo da Penha está outra do Apostollo são Thomé de cuja Ermida não sabemos Padroeyro, nem fundação he muyto acomodada para a vida Ermitica, e nos persuadimos que esta foy a Ermida na qual viveo penitente o veneravel Padre Manoel do Rego oriundo de Portalegre posto que nascido em Alter do chão, e não na Igreja de nossa Senhora da Esperança do termo desta Cidade como dis o Padre Frey Agostinho de sancta Maria no seu sanctuario Marianno tractando desta Imagem, porque a Igreja da Senhora da Esperança sita no termo de Portalegre foy fundada com o Convento dos Relligiozos capuxos da Provincia da Piedade desta Cidade, o qual aly teve o seu primeyro assento e fundação, e a Ermida de nossa senhora da Esperança na qual o veneravel Padre Manoel do Rego que ao depois morreo com grande opinião de santidade no Hospital de valladilli [sic], viveo, foy junto da cidade de Galiza depoiz de vizitar o corpo do Bemaventurado santhiago, como se collige, de Iorge Cardozo no Agiologio Luzitano no tomo segundo no dia vinte e dous de Março sublitera = F = Alem destas Ermidas há outra chamada da senhora do Socorro na fazenda chamada da Cabaça a qual foy [....] fundada pello Dezembargador Alvaro da Fonseca Coutinho, que está enterrado á porta da mesma Ermida, e os Padroeyros della são os seus sucessores, assim esta como a da senhora da Penha de que assima fallámos forão algum dia muyto frequentadas com Romagem, porem hoje tem diminuido muyto esta frequencia.
A Ermida que ao prezente há nesta freguezia mais freqüentada ds Romagenz he a de nossa senhora de Bellem, que em huma quinta sua fundou nas faldas da serra de Portalegre o Padre Frey Iozé do Sacramento, Relligiozo da Órdem de são Ioão de Deos haverá trinta e sinco annos pouco mais ou menos, á qual em todo o tempo do anno concorre muyto [sic] gente em Romaria assim da Cidade, como desta Provincia, e ainda muyta do Reyno de Castella, parte atrahidos da amenidade do sitio, e parte dos muytos milagres que fás a Imagem da Senhora ou Deos por sua intercessão, da quinta em que ella esta situada, he ao prezente possuidor o Reverendo Padre Iozé Meyra Barreto. A caza da Mizericordia que esta Cidade tem fica no destricto desta freguezia, tem huma aseáda Igreja ornada de custozo azulejo com tres Altares de talha dourada, e as Rendas que administra dizem que são de quatro para cinco mil cruzados. Ella administra o Hospital da cidade que está junto da Igreja do Espirito Santo no qual sitio havia antigamente huma Albergaria, e os Benz que a ella pertencião se entregarão á Mizericordia. Tambem houve antigamente outra Albergaria junto do convento de são Francisco desta Cidade quando era dos Padres claustraes como se prova de huma pedra que ainda hoje se acha junto da porta da Igreja na qual se escreveo esta memoria, na era mil tezentos e doze, que he o anno de Christo mil duzentos e setenta e quatro, que principia assim = ad honorem Dei et Gloriosa [...] // Virginis Mariae et omnium sanctorum ego Petrus Ioannes etc. as fazendas que pertencião a este Hospital ou Albergaria com justa rezão se entende estarem vnidas ao Convento de Sancta clara desta Cidade porque a elle se vnirão todas as que possuhião os claustraes do Convento desta Cidade quando delle forão expulsos, e entrarão a habitallo as Relligiozas observantes no tempo do Serenissimo Rey Dom Ioão terceyro de piedoza memoria […]».
Do Cura da Sé
O Padre Manoel Gonçalves Boroa1

In Ruy Ventura, As Memórias Paroquiais de 1758 do actual Concelho de Portalegre, Revista a Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (1995) (nova série), pp. 93-136.

Cortesia de Ruy Ventura, 28 de Junho de 2011

Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre. I «Os Beneficios desta Igreja Cathedral todos são da aprezentação de Sua Magestade Fidelissima, porem os curatos e Capellanias que são amoviveis ad nutum Episcopi são providos pello Excellentissimo Prellado»

jdact

Portalegre. Sé. Nossa Senhora da Assunção. 1758. Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 29, nº 223, pp. 1513 a 1539]

«Cidade de Portalegre fica na Provincia de Alentejo da distancia em que está da Corte, sua antiguidade, nome, situação, e tempo em que foy eregida a Cidade, seu modo de governo, e terras que comprehendem o Bispado, e Correyção tractao Dom Luis Cayetano de Lima, na geografia histórica tomo segundo, dede pagina duzentas, e setenta e tres; Dom Frey Amador Arraez nos seus diálogos, dialogo quarto, capitullo oytavo aonde trata da Serra desta cidade; Iorge cardozo no Agiologio Luzitano tomo primeyro no comentário a treze de Fevereyro sub litera = D = aonde tracta da cathedral. Rodrigo Mendes Sylva em La poblacion general de Hespanha, discripsion del Reyno de Portugal no capitullo onze no qual allega muytos autores que tractão a mesma materia o Padre Bultiau no seu Vocabulario Litera = P = Garibay Livro trinta e quatro capitullo seis e Capitullo vinte e sinco, e Livro trinta e sinco capitullo trinta e nove. Frey Francisco Brandão, na quinta parte da Monarquia Luzitana Livro dezassete, capitullo sincoenta e quatro, em cujos autores se ve quazi tudo o que neste papel se pergunta; só devemos advertir que Dom Luis Cayetano de Lima na Rellação das terras que comprehendem este Bispado omitio por equivocação a villa de Ares que a elle pertence, e que Iorge Cardozo se equivocou que as Prebendas da Se da Cidade de Portalegre eraõ sette, como tabem que a capella mayor da Cathedral fora obra do Bispo Dom Frey Amador Arraéz, porque este Prellado só fes o Retábolo de talha dourada da mesma capella, porque o mais já se achava feyto com dinheyro da Fabrica, e empréstimo que lhe fizera o seu primeyro Bispo Dom Iullião de Alva. Os Ministros que tem a Sé cathedral de Portalegre ao prezente são sinco Dignidades das quais a primeyra he o Deão, sinco conegos, dos quais hum Doutoral, outro Magistral, e outro [...] Penitenciario os primeyros dous saõ da creação da Sé e devem ser graduados na Vniverssidade de Coimbra, o terceyro na forma do Consilio foy creado na Constituição synodal do anno mil e seis centos e trinta e dous. Tem mais seis meyos Conegos, dous curas, hum sobchantre, doze Capellans, dous Mestres da Capella, hum Capellão que se chama agonizante, e os mais officiaes precizos, para o bom serviço da Igreja.
Os Beneficios desta Igreja Cathedral todos são da aprezentação de Sua Magestade Fidelissima, porem os curatos e Capellanias que são amoviveis ad nutum Episcopi são providos pello Excellentissimo Prellado; este tambem com o Conego Magistral, e Doutoral fazem provimento do Capellão agonizante que foy instituhido pello Excelentissimo Prellado Dom Álvaro, e se chama agonizante por ter obrigação de agonizar os moribundos. As Irmandades que tem esta Igreja Cathedral são as seguintes: na Capella de São Pedro que fica ao Lado do Altar mór da parte do Evangelho, está sita a Irmandade dos clérigos, e a das Almas do fogo do Purgatorio; na Capella do [sic] senhora da Luz que he a primeyra na Nave da parte do Evangelho está a Irmandade da mesma senhora, na segunda que he dedicada á Senhora do Carmo a Irmandade da ordem terceyra da mesma Senhora na Terceyra que he de são Chrispim, e chrispianno está a Irmandade dos mesmos sanctos na Quarta que he de Sancta Catherina de Senna está a Irmandade de santhiago; ao Lado da Epistola do Altar mór está o Altar do Santissimo Sacramento, e nelle a Irmandade do Senhor, e na primeyra Capella da Náve deste lado, está a Irmandade das chagas de Christo ás quais he dedicado o Altar. Na terceyra [...] Capella desta Náve está a Irmandade do Santissimo nome de Iezus, a quem o Altar he dedicado. A Renda da Mitra deste Bispado ao prezente são nove mil cruzados, duzentos e vinte e sinco mil reiz e a terça parte que nela tem a sancta Igreja Patriarchal Rende ao prezente sinco mil cruzados, e cem mil reis. As Rendas da Mêza capitullar se devidem em vinte e huma Prebendas, das quais caberão a cada huma cento e oytenta mil reis de Renda pouco mais, ou menos. Deão tem duas Prebendas de Renda, as quatro Dignidades Prebenda e quarto, os conegos cada hum huma Prebenda, excepto hum que paga o terço á Mêza do sancto officio de Evora.
Os meyos conegos, e curas cada hum meya Prebenda; os capellanz, sobchantre, e thezoureyro, e órganista, cada hum tem hum terço de Prebenda. Tem esta freguezia da Sancta Sé fogos = seis centos e sessenta e tres = almas = duas mil setecentas e huma = pessoas de communhão = duas mil duzentas e tres = Devemos tambem advertir que o Rellicario de Christal com o sancto Lenho, do qual fazia menção Iorge Cardozo, o não tem já esta Cathedral, mas no Altar das Chagas se colocou há pouco tempo outro, como tambem que o Historiador aliaz como também que a este Historiador esquecerão em primeyro Lugar hum osso de Sancto Innocencio, por Rezão de cuja Relíquia se Reza delle no dia vinte e dous de Setembro de comunivnius Martyris; e em segundo Lugar numerar entre os ornamentos preciozos desta Cathedral hum de velludo encarnado alcaxofrado e bordado de ouro que foy do Reyno de Inglaterra sendo catholico, e por Bulla Pontificia, que se acha no Archivo do Cabbido, foy aplicado a esta Sé, com obrigação [...] de o Restituhir á Igrejade onde era tornado a ser catholico o Reyno de Inglaterra. Tambem devemos advertir que parece se equivocão os autores no tempo em que poem a fundação de Portalegre pois concordando todos em que o seu fundador foy Lizias, ou Luzo, o qual conforme todos os Historiadores Portuguezes e Estrangeyros foy o fundador da Luzitania ou Lizitania, e Sendo certo que este viveo, e foy sepultado nesta Cidade como dis o allegado Bispo Arraez, seguece daquy que esta povoação foy a primeyra, ou ao menos das primeyras do Reyno de Portugal, alem disto concordão todos que Lizias ou Luzo foy filho ou companheyro de Bácho, e Bácho deyxadas as fabullas he nome composto de Bar, e chus que significa filho de chus, como adverte Samuel Bochart na sua Geografia sacra, Livro primeyro capitullo primeyro; e conclue que Bácho, he Nemrod filho de chus, e Netto de cam, e segundo esta noticia vem a ser a fundação de Luzitania, e de Portalegre pellos annos do mundo mil oytocentos e sincoenta e dous antes de Christo nascido dous mil cento e oytenta e tres pouco mais ou menos.
Nesta freguezia da Sé há em primeyro Lugar seminário contíguo á Sé e Passo Episcopal no qual se crião Estudantes pobres, e as suas Rendas estão fundadas em pençõis impostas na Mitra, e outros Beneficios, e ns Rendas de hum Beneficio da villa da Ponte do Sor, que por Bulla Pontificia se lhe anexou no tempo que era Bispo deste Bispado o Excellentissimo Dom Álvaro de Castro Noronha. Tem mais hum Convento de Relligiozos observantes da Provincia dos Algarves da Órdem de São Francisco, e outro de Relligiozas de Sancta Clara da mesma Provincia sobre a fundação, Privillegios, Padroados, e mais particullaridades, dos quais não se pode dizer mais do que sobre elles dice o chronista da mesma Provincia Frey Hyeronimo de Bellem na sua chronica. [...]»
Do Cura da Sé
O Padre Manoel Gonçalves Boroa1

In Ruy Ventura, As Memórias Paroquiais de 1758 do actual Concelho de Portalegre, Revista a Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (1995) (nova série), pp. 93-136.

Cortesia de Ruy Ventura, 28 de Junho de 2011

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Canção do Palácio da Ajuda. Versão de Portalegre/Arronches, recitada por D. Jacinta Garção Cleto, nascida em 1910. «… corre a galinha ao trigo e a fama é dos pardais, albardas sem atafais e selas sem terem estribos, na praça se vendem figos p’ra contentar os rapazes, no mar andam alcatrazes…»

Cortesia de wikipedia

Canção do Palácio da Ajuda
Belo Palácio da Ajuda
palácio de grande altura
casa cheia tem fartura
não sou só eu que o digo
corre a galinha ao trigo
e a fama é dos pardais
albardas sem atafais
e selas sem terem estribos
na praça se vendem figos
p’ra contentar os rapazes
no mar andam alcatrazes
também lá andam gaivotas
menina das pernas tortas
todos lhe chamam canejos
vão-se as sezões com os desejos
e as feridas com unguento
mói o moinho de vento
e tece a teia a aranha
esta cantiga é tamanha
não tem princípio nem fim
um raminho de alecrim
que se dá aos namorados
as armas são pr’ós soldados
também são pr’ós caçadores
triste de quem tem amores
bem ligeiro tem de andar
a gaita é para tocar
o pente é para a cabeça
menina não endoideça
que se pode dar por feliz
tem um tamanho nariz
que lhe chega até ao seio
que tem mais de palmo e meio
criado com tanto vigor
que muita gente lho tem gabado
pr’á bigorna dum ferrador.

Poema recolhido e transcrito por Nicolau Saião.

Com  amizade. Cortesia de Ruy Ventura
JDACT

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Falso Cego. «Versão de Carreiras. Concelho de Portalegre. Recolhida por D. Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro “Os Transmontano no Alentejo”. Ensinar o cego além para a estrada. Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado, que eu não sou o cego, sou seu namorado»

Cortesia de wikipedia

O Falso Cego
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
Abram-me essa porta, também o postigo,
emprestem-me um lenço que já venho ferido.
Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
que a minha portinha não se abre agora.
Levante-se minha mãe da cama a dormir,
venha ver o cego que está a pedir.
Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho.
Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho.
Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
ensinar o cego além para a estrada.
Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
que eu não sou o cego, sou seu namorado.

Poema recolhido por Maria Tavares Transmontano, in ‘Os Transmontano no Alentejo”

Cortesia de Ruy Ventura/JDACT

terça-feira, 12 de junho de 2012

A Vide e o seu Castelo. Outros Topónimos da Terra de Cristovam Pavia. Ruy Ventura. «Partindo dalguns autores peninsulares, cujos estudos demonstram uma consciência superior no entendimento dos processos de formação da toponímia antiga, sobretudo a partir do momento em que a designação de uma parcela do espaço passou a ser vista como instrumento de propaganda política ou de homenagem, justa ou injusta»



Pintura de Maluda, 1971, 1985
Cortesia de wikipedia

Não é fácil escrever sobre toponímia quando se deseja ser rigoroso. César Videira, investigador atento, deu conta dessa dificuldade num passo da sua Memoria Historica da Muito Notavel Villa de Castello de Vide. Depois de abordar as diversas teorias referentes à origem da sua terra natal, achou por bem registar:
  • “Se as trevas espessas do passado não permitem ver clara a origem de Castelo de Vide, afigurase-me que outro tanto sucede relativamente à do seu nome. Donde veio ele? A resposta não é fácil. Tudo que possa dizer-se neste sentido não passa de simples suposições. Posto que não tenha fé em nenhuma delas, reproduzo-as contudo, para que, apreciando-se a sua plausibilidade, se escolha a que deve aceitar-se por mais provável. […]”.
Este artigo não andará por caminhos muito diferentes. Apresentando nas suas linhas uma apreciação poliédrica da solidez dos mitos, das especulações e das leituras etimológicas que rodearam/rodeiam o nome “Castelo de Vide”, ninguém espere no seu final afirmações dogmáticas baseadas em crenças. Desejo apenas reflectir e partilhar essa reflexão, apresentar hipóteses e os alicerces que as sustentam, encontrar explicações e manifestar as suas forças e fraquezas. Com os anos que levo de leitor e de investigador da nomeação espacial, já me habituei a concordar com o escritor francês Marcel Proust, que considerava a toponímia uma ciência sem exactidão. Talvez por isso seja tão fascinante.
Partindo dalguns autores peninsulares (Galmés de Fuentes e Espírito Santo, por exemplo), cujos estudos demonstram uma consciência superior no entendimento dos processos de formação da toponímia antiga, neste pequeno trabalho terei em conta que a nomeação ancestral dos lugares possui características invariáveis que só nos últimos dois ou três séculos foram relativamente dissolvidas (sobretudo a partir do momento em que a designação de uma parcela do espaço passou a ser vista como instrumento de propaganda política ou de homenagem, justa ou injusta). Nenhuma das suas linhas esquece, portanto, que:
  • um topónimo, sendo produto da oralidade, tem sempre uma origem racional, distintiva e objectiva, nascida de evidências materiais ou sociais permanentes ou prolongadas, nunca acidentais ou esporádicas;
  • as designações transformam-se ao longo do tempo, tornando-se obscuras quando a sua língua de origem cai em desuso;
  • na sua evolução diacrónica, a nomenclatura dos lugares vai sofrendo reinterpretações, nas quais o falante metamorfoseia uma forma opaca (pertencente à língua em desuso) numa forma clara com som igual ou semelhante na língua do momento, ainda que tenha um significado completamente distinto do original;
  • os topónimos, quando passados à escrita, podem sofrer uma intervenção exterior que os modifica na sua aparência, ao serem alterados por escribas que, com frequência, não são falantes dos dialectos locais;
  • é possível que duas designações aparentemente iguais tenham tido origens diferentes e que dois nomes hoje distintos tenham nascido de uma mesma raiz.

Cortesia de wikipedia

A consciência destes cinco pilares evita, só por si, muitos erros, inviabilizando leituras apressadas e apenas baseadas numa vaga analogia fonética. Os topónimos antigos devem, além disso, ser entendidos no seu contexto alargado. Reafirmo aqui que a “nomeação de um lugar nunca pode separar-se da geografia deste, da sua história e da sua mitologia”, bem como das práticas sociais aí desenvolvidas. Daí que defenda, com outros autores, que a sua interpretação só se poderá fazer com um mínimo de fiabilidade se se usar um “método etnológico” (ou “dos sistemas”) que reúna os melhores contributos dos métodos “filológico” (também chamado “etimológico”) e “histórico”, com contribuições vindas da Geografia, da Sociologia e da Antropologia.
Só o “método dos sistemas” permitirá a apresentação de hipóteses certificadas, ainda que incertas e/ou supostas. Desenvolvendo a proposta de Moisés Espírito Santo, penso que devem ser rejeitadas quaisquer explicações que não possuam pelo menos duas correspondências, uma do sistema linguístico e outra do sistema contextual, sendo obrigatoriamente uma delas a correspondência fonética. A segurança da interpretação será tanto maior quanto mais largo for o número de correspondências verificadas e/ou verificáveis. No sistema linguístico poder-se-á verificar qualquer destes fenómenos:
  • correspondência fonética (o étimo antigo tem um som próximo do nome actual); 
  • correspondência vocabular (o topónimo integra-se numa “constelação de nomes”, numa relação de complementaridade semântica entre termos próximos no espaço); 
  • correspondência sinonímica (a divisão da propriedade pode ter originado uma multiplicação de palavras com significado próximo, numa mesma língua ou em línguas diferentes, ou a produção de diminutivos ou de aumentativos).
No sistema contextual, deve existir pelo menos um destes fenómenos:
  • correspondência geográfica (o topónimo diz respeito ao acidente natural onde se “localiza”); 
  • correspondência mitológica (há mitos ou lendas que certificam a explicação objectiva/racional ou que a reflectem); 
  • correspondência histórica ou arqueológica (o nome está ligado a factos comprovados por documentos ou por vestígios arqueológicos existentes no local); 
  • correspondência social (o designativo liga-se a práticas sociais ou rituais desenvolvidas no lugar).
Convém, entretanto, lembrar que, até à entrada da televisão em todas as casas, os falares das nossas aldeias e dos nossos campos nos permitiam dizer que em Portugal não se falava “português”, mas “portugueses”, pelo menos dois: um erudito, derivado do latim com contributos posteriores; e outro popular, quase paralelo, com traços de uma maior ancestralidade. Terá sido este, aliás, que levou à criação de grande parte dos topónimos antigos, ainda antes de existir a língua portuguesa.
Como uma suculenta sopa de pedra, no caldeirão, fervente ao longo de vários milénios, se juntaram ingredientes linguísticos diversos para dar origem ao caldo que ainda ouvimos falar até há poucas décadas (hoje em perigosíssima, mas quiçá irremediável, erosão). Não se sabe qual terá sido a água limpa inicial, mas sabe-se que aí se foram depositando fonemas, palavras e estruturas vindas do Próximo Oriente (fenício/hebraico), da Arábia (árabe dialectal), do Norte de África (púnico e berbere), da Grécia e da Península Itálica (grego e latim). Sabe-se também que fenício, hebraico, árabe e berbere são línguas pertencentes à mesma família semita. Está provado que os berberes que atravessaram o Estreito de Gibraltar e por aqui ficaram depois do século VIII falavam dialectos com origem fenícia-púnica e o latim do Norte de África. Não há dúvidas de que mesmo o grego e o latim não fecharam portas às influências vocabulares e de outra índole provenientes da margem sul e oriental do Mediterrâneo». In Ruy Ventura, A Vide e o seu Castelo, e outros Topónimos da Terra de Cristovam Pavia, Fonte da Vila, Castelo de Vide, História e Património, ta_rv_cv_toponimo, Pdf.

Cortesia de Fonte da Vila/JDACT