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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Nostalgia na Segunda. Poesia. A Voz de Brel. «… é já uma legenda da sua época e da sua geração. … e que na ressaca da contra-revolução silenciosa continuou a batalhar, não sem amargura…»

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Cancão com lágrimas
«Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera».

Capa negra rosa negra
«Capa negra, rosa negra
rosa negra sem roseira
abre-te bem nos meus ombros
como o vento na bandeira.

Abre-te bem nos meus ombros
vira as costas à saudade
capa negra rosa negra
bandeira de liberdade.

Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar».

Pedro soldado
«Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada
triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Onde não andas ceifando
já o campo se fez verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada
triste vai Pedro Soldado.

Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
não é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.
deixa o nome bordado
e era Pedro Soldado».
Poemas de Manuel Alegre in “Trovas do vento que passa”

Em memória do amigo Fernando José († 4/4/1992). Que estejas em paz.
Abraça o Filomeno e o Mateus. Eu vou ficando por cá…


ISBN 978-989-619-121-7
JDACT

sábado, 4 de abril de 2015

Portugal. A Terra e o Homem. «A coragem que vence o medo tem mais elementos de grandeza que aquela que o não tem. Um começa interiormente; outra é puramente exterior. … antes de tudo, ao próprio temor dentro da sua alma»

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Painel
«Distante, no poente, esfuma-se uma nódoa
em verdes tons fluidos que palpitam
numa névoa indecisa, vaga imagem
da tristeza do mar pintada em nossos olhos.

Porto da minha infância!
A primeira impressão que me causaste
tenho-a, cheia de espanto, na memória,
cheia de bruma e de granito!
É uma impressão de Inverno,
sombra cinzenta, enorme, donde irrompe
alto cipreste empedernido
no meio de sepulcros habitados.
E vejo Trás-os-Montes.
Depois de elísios campos, os planaltos
ressecos e amarelos do restolho,
do centeio, que mata a fome aos pobres;
e quase se alimenta
de sede e poeira e até nas fragas
germina e frutifica.

Toda a escura província se alcandora
em fragarosas altitudes nuas,
queimadas pela neve, requeimadas
pela ardência do sol, nos meses infernais.
Súbito, por encanto, um vale verdejante
é riso de ironia que se finge
num rosto contraído pela dor.
E os rios são de lágrimas, correndo,
entre fragas a prumo,
como as duas paredes duma ruga…
E o Tâmega lá vai na direcção do mar,
triste de reflectir as solidões da serra,
a palidez da Lua,
e esta pobre aparência em que me sinto vivo,
e à morte condenado.
E tem cidades ermas, tão velhinhas,
que o seu aspecto denegrido
surge diante de nós, mas para além do tempo.


Vejo as terras beiroas, que recordam
O Minho e Trás-os-Montes…
São desertos planaltos amarelos,
verdes campos de milho
entre íngremes colinas de pinheiros,
onde murmura o vento o seu queixume
de cor crepuscular…
Afastadas montanhas: Caramulo
e Montemuro e a Estrela,
virgem-mãe do Mondego, em penitência,
vestindo um manto de perpétua neve.

E cidades antigas renascendo:
Lamego e o Santuário;
a Guarda vigilante, em alto miradouro;
Viseu, onde se encontra a sombra de Grão Vasco,
o pintor do Calvário e do S. Pedro,
e, como o poeta Homero, expulso da existência,
e o fantasma também de Viriato
Em frente dos romanos,
com os pés esmagando a loba, que lhe morde
os calcanhares de bronze».
Poema de Teixeira de Pascoaes, in ‘Portugal, a Terra e o Homem’

A nossa juventude…
Fernando José, que estejas na Paz!

JDACT

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Poesia. Rosa Lobato Faria. «De todas as palavras escolhi dar. De todas as palavras escolhi flor porque terra, papoila, cor, semente porque rosa, recado, porque pele porque pétala, pólen, porque vento…»

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Vimos chegar as andorinhas
«Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos.
Agora
esperemos o verão
do teu nascimento
tranquilos, preguiçosos.
Tão inseparáveis as nossas fomes.
Tão emaranhadas as nossas veias.
Tão indestrutíveis os nossos sonhos.
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços.
Virás
como a luz maior
no solstício de Junho.


Quimera
«Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir, ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo».
Poemas de Rosa Lobato de Faria, in ‘Antologia’

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Poesia. Palavras Mal Ditas. Pedro Barroso. «A da vergonha imensa de que tudo seja insensibilidade assim. Camuflada por um qualquer parágrafo e artigo legal que juridicamente desculpará o impropério. O insulto dos vivos na febre invisível dos dias insensatos e indiferentes»

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Quero viver numa cidade
«Quero viver numa cidade
onde o dia seja brando
onde a noite seja branca
e um rio vá deslizando...
Onde a vida seja calma
a segurança vulgar
e os jardins sejam longos
e as tardes de vagar...
E onde a História me relembre
entre lendas de além-mar
de heroísmos e bravuras
e romances de encantar.

Quero viver numa cidade
com a montanha a espreitar
casas mistério, tão alto
penduradas, a pensar
quero praias, quero rios
um sorriso em cada porta
um afago em cada mão
um abraço que conforta.

Quero viver numa cidade
com as taxas moderadas:
quanto baste para a saúde
quanto baste para as estradas!
Onde a morte seja a lua
com as estrelas ao vento
ao fim de duzentos anos
ainda saudáveis, sem sofrimento.


Quero viver numa cidade
com operários construtores
mulheres de sonho na boca
homens de pedra aos amores
monumentos para a memória
obeliscos para o prazer
coisas do gozo e da glória
volúpias sem ter vergonha
sem medo de acontecer.

Quero viver numa cidade
com casas lindas ao sol
como palácios ao vento
ou castelos de Almourol
parques frondosos e largos
onde os amantes se recolhem
com beijos doces e amargos
tendo o céu como lençol.

Quero viver numa cidade
nem nua nem pardacenta
onde cada qual trabalhe
no que gosta de fazer;
eu canto, tu dás-me o pão
e assim decorre o viver
mesmo o trânsito nas ruas
decorre, modéstia à parte,
fluente e sem acidente
não há pressa nem enfarte
e só chegar é urgente!
Há tempo de passear
e, já agora, a cidade
como enorme novidade!...
Tem espaço p'ra se estacionar.

Quero viver numa cidade
onde há gente sorridente
que te acolhe em cada loja
com o prazer de ajudar-te
e onde vais poder comprar
em vez de drogas e punhos
pedaços de poesia
numa galeria d'arte!

Quero viver numa cidade
com gosto, respeito e espaço
com autocarros humanos
tocando em fundo Vivaldi
e tempo para andar a passo.

Quero viver numa cidade
grande como a terra inteira
onde caiba todo o campo
todo o mundo, todo o encanto
tu e eu e toda a gente
passageiros de primeira
numa cidade diferente
que mesmo sendo modesta
é uma cidade imponente
onde viver é uma festa
pelo sorriso, pela gente
aqui mesmo à minha beira...»
Poema de Pedro Barroso, in ‘Palavras Mal Ditas’

JDACT

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Poemas del Alma. Rosália de Castro. «… sería la envidia del las aguas y los soles, del viento ocuparía el lugar en tus pulmones, para que no me olvides para que no me olvides sobre tu pecho anidaría cual voz con alas para volar rompiendo silencios que no existen»

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Orillas del Sar
«A través del follaje perenne
que oír deja rumores extraños,
y entre un mar de ondulante verdura,
amorosa mansión de los pájaros,
desde mis ventanas veo
el templo que quise tanto.

El templo que tanto quise...
Pues no sé decir ya si le quiero,
que en el rudo vaivén que sin tregua
se agitan mis pensamientos,
dudo si el rencor adusto
vive unido al amor en mi pecho.



Hora tras hora, día tras día
Hora tras hora, día tras día,
entre el cielo y la tierra que quedan
eternos vigías,
como torrente que se despeña
pasa la vida.

Devolvedle a la flor su perfume
después de marchita;
de las ondas que besan la playa
y que una tras otra besándola expiran
recoged los rumores, las quejas,
e en planchas de bronce grabad su armonía.

Tiempos que fueron, llantos y risas,
negros tormentos, dulces mentiras,
ay!, en dónde su rastro dejaron,
en dónde, alma mía?
Poemas de Rosalía de Castro, in ‘Poemas del Alma’

JDACT

sábado, 20 de dezembro de 2014

Poesia. Mia Couto. «Descobri a vossa intenção; deceptar as minhas raízes mais profundas, obrigar-mr à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me na solidão»

jdact e wikipedia

No teu rosto
«No teu rosto
competem mil madrugadas.

Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas.

A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego».

Fundo do mar
«Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados.

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço»


Morte silenciosa
«A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave da inquietação.

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida.

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada»
Poemas de Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho, 1981’

JDACT

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Fernando Machado Soares. Açores. Coimbra. Justiça. Fado. «Um ai sem termo, um trágico gemido ecoa sem cessar ao meu ouvido, com horrível, monótono vaivém... Só no meu coração, que sondo e meço, não sei que voz, que eu mesmo desconheço, em segredo protesta e afirma o Bem!»

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Fado da Despedida
«Coimbra tem mais encanto
na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
na hora da despedida.

Que as lágrimas do meu pranto
são a luz que me dá vida.

Quem me dera estar contente
enganar minha dor
mas a saudade não mente
se é verdadeiro o amor.

Não me tentes enganar
com a tua formosura
que para além do luar
há sempre uma noite escura.

Que as lágrimas do meu pranto
são a luz que lhe dá vida.

Coimbra tem mais encanto
na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
na hora da despedida».
Poema de Fernando Machado Soares



Com os Mortos
«Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
levados, como em sonho, entre visões,
na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
na corrente e à mercê dos turbilhões,
só vejo espuma lívida, em cachões,
e entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
fechar os olhos, sinto-os a meu lado
de novo, esses que amei vivem comigo,

vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
juntos no antigo amor, no amor sagrado,
na comunhão ideal do eterno Bem.
Soneto de Antero de Quental, in ‘Sonetos’

A saudade mora cá… Que estejas na Paz!

JDACT

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Poesia. Eugénio de Andrade. José Gomes Ferreira. «Contido, o poema comunica a intensidade dos discursos, a aliança dos militares com o povo, a incandescência revolucionária do Alentejo. Do poema para o fervor verbal transbordante das vivências comunitárias de então»

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O comum da terra
«Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia».
Poema de Eugénio de Andrade, ‘Póvoa de Atalaia, 1923’


Cinzas
«A Poesia tem pés de terra.
Quando a atiramos para o céu
fica só e transida
no meio das estrelas
a chorar com saudades dos homens
e da morte.

Que bom não saber como um poema acaba!
(... nem que sol segrega
o fio de baba
dos bichos-da-seda.)

Apenas palavras que se buscam no papel
com astros dentro famintas de encontrar
o ilógico da Outra Voz que por acaso revele
o avesso da sombra a fingir de luar.

Ah!, ir contigo outra vez pelos bosques azuis
a dependurar luas mortas nas árvores
e inventar flores,
estendido a teu lado na clareira!
E depois, de novo no princípio do mundo,
acender no teu corpo
a Primeira Fogueira.

Hoje para mim o Sonho e a Realidade
confundem-se no mesmo fel lascivo
de subterrâneo sujo...
Mentira?... Verdade?...
Sei lá se sonho ou vivo!
(Fujo.)»
Poema de José Gomes Ferreira, ‘Porto, 1900-1985’

JDACT

sábado, 25 de outubro de 2014

Tive saudade! Poesia. Abril Meu! Quando Voltas? «Um pintassilgo desce pelas escadas da canção, empoleira-se nos seus versos, estende o bico para que o canto não se perca pelo chão. Camarada amigo! Canta, Canta!»

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Ausência
«Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.


Lição

Aprendíamos a amar; aprendíamos a morrer. In Eugénio de Andrade

«É no verão que se aprende a poesia,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de Agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste».
Poemas de Nuno Júdice, in ‘Poesia. Pedro Lembrando Inês’

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pensamento. Música. Orçamento. Doença. Política. Revolta. Até Amanhã Camaradas. «As teorias de Marx e Engels, das quais o Manifesto Comunista faz uma primeira síntese, revolucionaram o pensamento e as sociedades no século XX. A actualidade sobre as contradições e história das sociedades. Sobre a economia capitalista e suas leis»

Até amanhã camaradas
jdact


«As teorias de Marx e Engels, das quais o Manifesto Comunista faz uma primeira síntese, revolucionaram o pensamento e as sociedades no século XX. A sua expansão mundial foi possível por explicar o que até então não tinha explicação. Sobre a relação do ser humano com a natureza que o envolve. Sobre as contradições e história das sociedades. Sobre a economia capitalista e suas leis. Sobre a actualidade da construção revolucionária de uma nova sociedade. Porque científicas e dialécticas, teorias abertas à reflexão e contrárias à própria cristalização. As conquistas das ciências, as transformações provocadas pelas novas tecnologias, a internacionalização a nível mundial dos processos produtivos, as alterações na composição social das sociedades, incluindo na composição do proletariado, obrigaram e obrigam a novas respostas e a um novo rigor dos princípios teóricos. Curioso que certos estudiosos, quando falam do marxismo, investigam o pensamento de Marx antes de este ter formulado as grandes conclusões teóricas. Ou seja: de quando Marx ainda não era marxista. O marxismo há que considerá-lo em movimento, acompanhando a vida. Lembre-se que, apenas passados 50 anos do Manifesto Comunista, já o desenvolvimento do capitalismo exigia novos acertos teóricos. Lembre-se que coube a Lénine definir o capitalismo monopolista, o imperialismo etapa suprema do capitalismo, como indica o título da sua obra célebre.


Neste e noutros aspectos, negar ou recusar o pensamento de Lénine é negar o marxismo ao longo do século XX. Não foram infelizmente poucos os que, começando por negar Lénine acabaram por negar Marx. A ideologia que inspirou as transformações e conquistas revolucionárias do século XX é correctamente designada por marxismo-leninismo. Além do mais, porque a teoria adquiriu na sociedade força material quando amplas massas a tomaram como sua e, mesmo que conhecendo e assimilando apenas aspectos essenciais, sentem nela inspiração para lutarem com convicção, coragem e confiança. O marxismo-leninismo foi a grande ideologia revolucionária que inspirou e encaminhou as grandes lutas, realizações e experiências libertadoras de transformação social que marcam para sempre o século XX, na história da humanidade. Não sem um percurso acidentado. Tanto tendências revisionistas como dogmáticas têm com frequência incapacitado de responder criativamente às transformações da realidade. Se muitas respostas têm sido dadas, muitas mais estão por dar. Entretanto, princípios fundamentais continuam válidos e continuam não só a explicar o mundo, mas também a indicar como transformá-lo». In 150 anos do Manifesto Comunista de Marx e Engels.

JDACT

sábado, 26 de abril de 2014

A Bela Poesia. Natália Correia. «Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro, somos vazios despovoados de personagens de assombro. Dão-nos a capa do evangelho e um pacote de tabaco. Dão-nos um pente e um espelho pra pentearmos um macaco»

jdact e claudiamargaridavigario

Bilhete para o Amigo Ausente
Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.


Do Sentimento Trágico da Vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
[…]

Poemas de Natália Correia

JDACT

A Bela Poesia. José Jorge Letria. «Ambos envelhecemos desde então, dorso arqueado pelo peso do mais amargo desencanto, sem renunciarmos à felicidade que um dia prometemos um ao outro. Fomos nós que envelhecemos ou foi a alegria que se exilou do nosso olhar?»

jdact e telmamaodeferro

Onde se escreve paz
Convoca as bordadeiras, os tecelões e os ourives
e diz-lhes que não haverá mais bodas
até que volte a pronunciar-se de novo a palavra paz
nos mercados, nas veredas, nas alcovas, nos portais.
Ainda ontem uma mãe sepultou dois filhos
no lugar onde antes era luminosa a flor do riso,
a corola branca dos amores sem mácula.
Depois todos se calaram e vieram as lágrimas,
as súplicas, as unhas cravadas na carne ferida.
E foi a raiva, e foi a dor sem nome, a miséria da alma.
É assim a guerra, disseram. E mais não souberam dizer.
E foram os pais despedir-se dos filhos na neblina dos cais.
Quando se voltava era sempre com um pedaço de vida
a menos, com uma cratera aberta no lugar da voz,
com uma chaga viva no vazio do coração.
Depois vieram os cães e as aves soturnas e negras,
as larvas, os ossos crucificados nos ramos ardidos,
os nomes dos filhos, dos pais, dos irmãos
gravados na pedra exausta de tanta morte.
Sempre foi e será assim a guerra, sentenciavam.
Mas havia meninos que ganhavam asas sobre os escombros
e levitavam como palavras do princípio de tudo
sobre os campos das batalhas que nunca ninguém venceu.
E vieram com eles as borboletas, os duendes e os adivinhos
e desenharam na terra o rosto imaculado da paz
e na areia fina o mapa das viagens em direcção à luz.
E com eles regressaram as bordadeiras, os tecelões e os ourives,
e as casas voltaram a ter o odor dos frutos e da alfazema,
o rumor cantante das fontes e das núpcias.
E foi assim a paz, laboriosa como uma mãe altiva.
Ainda ontem uma mãe assim deu à luz dois filhos
com os nomes dos que outra mãe um dia ali sepultara.
E foi assim a paz, como um rio lavando o ventre da terra.
Agora podes adormecer tranquila, mãe, porque os canhões
encheram a boca de vento e morreram sufocados
como carrascos cegos pelo lume do remorso
e deixaram que deles se soltasse uma música antiga,
capaz de fazer das espadas dos heróis
as guitarras que adoçam a alma eterna e livre das manhãs.


Para que tu, liberdade
Cresci a sonhar contigo, tu sabes,
com a pressa ansiosa dos amantes,
todo os dias, sem descanso ou desalento,
imginando a claridade do teu olhar sereno,
o rumor da tua voz marinha,
o embalo de onda do teu sono de menina.
Um dia chegaste e ergueste a tua casa
na mansa vizinhança dos meus sonhos,
paredes meias com o esplendor dos cravos.
Partilhei contigo o alpendre das estrelas
onde os meus filhos brincaram e cresceram,
onde eu brinquei com os búzios e as sombras
e te prometi fidelidade eterna,
como no fogo das paixões maiores.
Ambos envelhecemos desde então,
dorso arqueado pelo peso
do mais amargo desencanto,
sem renunciarmos à felicidade
que um dia prometemos um ao outro.
Fomos nós que envelhecemos
ou foi a alegria que se exilou do nosso olhar ?
Foi Abril que perdeu o fulgor primordial
ou fomos nós que deixámos de o merecer,
luz fugidia a escapar por entre os dedos ?
Amanhã acordarás numa cama de pétalas,
imitando a límpida música das fontes,
e eu estarei contigo, como quem renasce,
para que tu, Liberdade, não morras nunca
de tristeza ou abandono nos meus sonhos.
Poemas de José Jorge Letria (Janeiro de 2004, 2007)

Para todos!
JDACT

A Bela Poesia. Ary. Fanha. «Eu sou português aqui, o português sem mestre mas com jeito. Eu sou português aqui e trago o mês de Abril a voar dentro do peito»

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As portas que Abril abriu
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
[…]


A cidade
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
Poemas de Ary dos Santos

Para todos!

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