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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Elena Ferrante. História de Quem Vai e de Quem Fica. «Caí no choro, e Lila me olhou com fastio. Sentadas num banco perto dali, aguardamos em silêncio que Gigliola fosse levada embora»

jdact

«Encontrei Lila pela última vez cinco anos atrás, no Inverno de 2005. Estávamos passeando de manhã cedo pelo estradão e, como há anos vinha acontecendo, não conseguíamos nos sentir à vontade. Lembro que apenas eu falava; ela cantarolava, cumprimentava gente que nem respondia, e nas raras vezes que me interrompia só pronunciava frases exclamativas, sem um nexo evidente com o que eu dizia. Ao longo dos anos, muita coisa ruim tinha ocorrido, algumas horríveis, e para retomar a via da intimidade teríamos de nos fazer confidências secretas, mas eu não tinha a força para encontrar as palavras, e ela, a quem talvez não faltasse força, não tinha a vontade, nem via utilidade nisso. De todo modo eu gostava muito dela e sempre que ia a Nápoles procurav encontrá-la, ainda que, devo dizer, sentisse um certo medo. Ela estava muito mudada. A velhice já tinha levado a melhor sobre nós duas, mas, enquanto eu combatia a tendência a ganhar peso, ela se estabilizara numa magreza só pele e ossos. Tinha cabelos curtos, que ela mesma cortava, e muito brancos: não por escolha, mas por desleixo. O rosto, bastante marcado, lembrava cada vez mais o do pai. Ria de nervoso, quase um guincho, e falava altíssimo. Gesticulava sem parar, dando ao gesto uma determinação tão feroz que parecia querer cortar em dois os edifícios, a rua, os passantes, a mim. Estávamos na altura da escola fundamental quando um homem jovem, que eu não conhecia, correu para nós e gritou para ela que, num canteiro ao lado da igreja, tinha sido encontrado o cadáver de uma mulher. Fomos depressa para os jardinzinhos, Lila me arrastou no meio ao círculo de curiosos abrindo caminho com maus modos. A mulher jazia de lado, era extraordinariamente gorda, vestia um impermeável verde escuro e fora de moda. Lila a reconheceu num instante, eu, não: era nossa amiga de infância Gigliola Spagnuolo, ex-mulher de Michele Solara.

Eu não a encontrava havia décadas. O rosto bonito se estragara, os tornozelos estavam enormes. Os cabelos, antigamente castanhos, eram agora de um vermelho fogo, longo como quando era uma garota, mas ralos, espalhados sobre o humo revolvido. Apenas um dos pés calçava um sapato de salto baixo, muito gasto; o outro estava metido numa meia de lã cinza, furada no dedão, ao passo que o sapato estava um metro e meio mais à frente, como se, tivesse, se desprendido depois de um chute provocado por dor ou por espanto. Caí no choro, e Lila me olhou com fastio. Sentadas num banco perto dali, aguardamos em silêncio que Gigliola fosse levada embora. O que havia acontecido com ela, como tinha morrido, por ora não se sabia. Depois fomos para a casa de Lila, o velho e pequeno apartamento dos pais, onde agora ela morava com o filho Rino. Conversamos sobre nossa amiga, ela me falou mal dela, da vida que tinha levado, das pretensões, das deslealdades. Mas neste momento era eu quem não conseguia ouvir, pensava naquele rosto de perfil na terra, em como eram ralos os cabelos compridos, nas manchas esbranquiçadas do crânio. Quantas pessoas que tinham sido crianças com a gente e não estavam mais vivas, desaparecidas da face da terra por doença, porque os nervos não tinham resistido à lixa dos tormentos, porque seu sangue tinha sido derramado. Por um tempo ficamos absortas na cozinha, sem que nenhuma das duas se decidisse a tirar a mesa, e então saímos de novo.

O sol do belo dia de inverno conferia às coisas um aspecto sereno. O bairro velho, diferentemente de nós, permanecera idêntico. Resistiam as casas baixas e cinzentas, o pátio de nossas brincadeiras, o estradão, as bocas escuras do túnel e a violência. No entanto a paisagem em torno mudara. A extensão esverdeada dos pântanos não existia mais, a velha fábrica de conservas desaparecera. No seu lugar havia o brilho dos espigões de vidro, noutros tempos sinais de um futuro radiante no qual ninguém nunca acreditou. Com o passar dos anos todos registaram as mudanças, às vezes com curiosidade, quase sempre distraidamente. Quando menina eu imaginava que, para além do bairro, Nápoles oferecesse maravilhas. O arranha-céu da estação central, por exemplo, me fascinara muito, décadas atrás, por sua elevação andar a andar, um esqueleto de edifício que então nos parecia altíssimo, ao lado da arrojada estação ferroviária». In Elena Ferrante, História de Quem Vai e de Quem Fica, 2013, Edição Relógio D'Água, 2015, ISBN 978-989-641-557-0.

Cortesia de Relógio D’Água/JDACT

JDACT, JDACT, Elena Ferrante, Nápoles, Literatura, 

terça-feira, 2 de junho de 2020

História do Novo Nome. Elena Ferrante. «Sentei-me ao lado de Alfonso e Marisa, sem dar atenção às suas conversas. Esperei sinais de revolta, mas nada aconteceu»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pensei em correr atrás dela, segurar sua mão, sussurrar-lhe vamos, vamos embora daqui. Mas não me movi. Quem se moveu foi Stefano, que, após um instante de incerteza, a alcançou passando entre os casais que dançavam»
Olhei ao redor. Todos tinham notado que algo contrariara a esposa. Mas Marcello continuava conversando de modo cúmplice com Rino, como se fosse normal estar calçando aqueles sapatos. Os brindes cada vez mais grosseiros do comerciante de metais prosseguiam. Quem se sentia no fundo da hierarquia das mesas e dos convidados continuava tentando fazer cara de paisagem. Enfim, ninguém, excepto eu, parecia perceber que o casamento apenas celebrado, e que provavelmente duraria até à morte dos cônjuges, entre muitos filhos, numerosíssimos netos, alegrias e dores, bodas de prata, bodas de ouro, para Lila, não importa o que o marido fizesse para obter seu perdão, já estava acabado.

Os factos no fim das contas me decepcionaram. Sentei-me ao lado de Alfonso e Marisa, sem dar atenção às suas conversas. Esperei sinais de revolta, mas nada aconteceu. Estar dentro da cabeça de Lila era, como sempre, muito difícil: não a ouvi gritar, não a ouvi ameaçar. Stefano reapareceu meia hora depois, muito cordial. Trocara de roupa, a mancha esbranquiçada entre a fronte e os olhos desaparecera. Circulou entre parentes e amigos esperando que a esposa chegasse e, quando ela retornou ao salão não mais vestida de noiva, mas em roupa de viagem, um tailleur azul pastel, com botões claríssimos e um chapeuzinho azul, foi logo ao seu encontro. Lila distribuiu os docinhos entre as crianças pegando-os com uma colher de prata de um recipiente de cristal, depois passou pelas mesas oferecendo as lembranças de casamento primeiro a seus parentes e em seguida aos parentes de Stefano. Ignorou toda a família Solara e até seu irmão Rino, que lhe perguntou com um sorrisinho ansioso: não gosta mais de mim? Ela não respondeu e passou as lembranças a Pinuccia. Tinha o olhar ausente, as maçãs do rosto mais marcadas que de costume. Quando chegou minha vez, me ofereceu distraída, sem sequer um sorriso cúmplice, o cestinho de cerâmica cheio de bem-casados envolvidos no tule branco.
Enquanto isso os Solara se irritaram com a descortesia, mas Stefano remediou abraçando-os um a um com uma bela expressão pacífica, murmurando: está cansada, é preciso ter paciência. Deu até dois beijos em Rino, o cunhado fez uma expressão descontente, e o ouvir dizer: não é cansaço, Sté, essa aí nasceu torta, e lamento por si. Stefano respondeu sério: as coisas tortas se endireitam. Depois o vi correr atrás da esposa que já estava na porta, enquanto a orquestra difundia sons embriagados e muitos se aglomeravam para os últimos cumprimentos. Portanto nada de rupturas, não escaparíamos juntas pelas estradas do mundo. Imaginei os noivos, bonitos, elegantes, entrando no conversível. Dali a pouco chegariam à costa amalfitana, a um hotel de luxo, e toda ofensa sangrenta se transmutaria num beicinho fácil de ser apagado. Nenhuma reviravolta. Lila afastara-se de mim definitivamente e, me pareceu de repente, a distância era de facto maior do que eu tinha imaginado. Não havia apenas casado, não se limitaria a dormir com um homem todas as noites para cumprir as obrigações conjugais. Havia algo que eu não tinha entendido e que naquele momento me pareceu flagrante. Dobrando-se à evidência de que seu marido e Marcello Solara tinham selado sabe-se lá que acordo em torno da sua obra de infância, Lila admitira que gostava mais dele que de qualquer outra pessoa ou coisa. Se ela já se rendera, se já tinha digerido aquela afronta, a ligação com Stefano devia ser realmente forte. Ela o amava, o amava como as meninas das fotonovelas. Durante o resto da vida lhe sacrificaria todas as suas qualidades, e ele nem sequer se daria conta do sacrifício, teria em torno de si a riqueza de sentimentos, de inteligência e de fantasia que a caracterizava sem saber o que fazer com isso, simplesmente a esgotaria. Eu, pensei, não sou capaz de amar ninguém assim, nem mesmo Nino, só sei passar o tempo sobre os livros». In Elena Ferrante, História do Novo Nome, 2011, Relógio d’Água, 2015, ISBN 978-989-641-544-0.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

domingo, 22 de março de 2020

Crónicas do Mal de Amor. Elena Ferrante. «À noite recebi o primeiro telefonema. A minha mãe disse-me em voz tranquila que não podia contar-me nada: impedia-lho um homem que estava com ela. Depois começou a rir e desligou»

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«A minha mãe afogou-se na noite de 23 de Maio, dia do meu aniversário, no braço de mar em frente da localidade que chamam Spaccavento, a poucos quilómetros de Minturno. Exactamente naquela zona, no fim dos anos 50, quando o meu pai ainda vivia connosco, alugávamos no Verão um quarto numa casa rural e passávamos o mês de Julho a dormir os cinco dentro de escassos noventa metros quadrados. Todas as manhãs nós, crianças, bebíamos o ovo fresco, cortávamos para o mar pelo meio de canas altas por caminhos de terra e de areia e íamos tomar banho. Na noite em que a minha mãe morreu, a proprietária daquela casa, que se chamava Rosa e tinha então mais de setenta anos, ouviu bater à porta mas não abriu com medo dos ladrões e dos assassinos.
A minha mãe tomara o comboio para Roma dois dias antes, a 21 de Maio, mas nunca chegara. Nos últimos tempos vinha estar comigo pelo menos uma vez por mês, durante alguns dias. Não me sentia contente por ouvi-la pela casa. Acordava de madrugada e, de acordo com os seus hábitos, limpava de cima a baixo a cozinha e a sala de estar. Eu tentava voltar a adormecer, mas não conseguia: tensa entre os lençóis, tinha a impressão de que trabalhando duramente nas lides da casa me transformava o corpo no de uma menina com rugas. Quando chegava com o café, aninhava-me num canto para evitar que me tocasse ao sentar-se na beira da cama. A sua sociabilidade aborrecia-me: saía para fazer as compras e confraternizava com comerciantes com quem em dez anos eu não trocara mais de duas palavras; ia passear pela cidade com alguns dos seus conhecimentos ocasionais; tornava-se amiga dos meus amigos, aos quais contava as histórias da sua vida, sempre as mesmas. Com ela apenas sabia ser reservada e pouco franca.
Voltava para Nápoles quando eu revelava os primeiros sinais de impaciência. Recolhia as suas coisas, dava uma última limpeza à casa e prometia que voltaria em breve. Eu dava a volta pelos compartimentos voltando a colocar segundo o meu gosto aquilo que ela tinha disposto de acordo com o seu. Tornava a pôr o saleiro no compartimento onde o tinha há anos, restituía ao detergente o lugar que sempre me tinha parecido conveniente, desmanchava a sua arrumação dentro das minhas gavetas, restituía ao caos o compartimento onde trabalhava. Até o cheiro da sua presença, um perfume que deixava na casa um sentimento de inquietação, desaparecia pouco tempo depois, como passa no Verão o cheiro de uma breve chuvada.
Acontecia muitas vezes perder o comboio. Em geral chegava no que vinha depois ou mesmo no dia seguinte, mas não conseguia habituar-me a isso e continuava a preocupar-me. Telefonava-lhe, ansiosa. Quando finalmente ouvia a sua voz, censurava-a com uma certa dureza: mas afinal não tinha vindo, porque não me tinha avisado? Ela justificava-se sem grande convicção, perguntando divertida o que imaginava eu que lhe pudesse acontecer, na sua idade. Tudo, respondia eu. Sempre tinha imaginado uma rede de emboscadas criada de propósito para a fazer desaparecer do mundo. Quando era pequena, passava o tempo das suas ausências à espera dela na cozinha, por trás dos vidros da janela. Desejava intensamente que reaparecesse ao fundo da rua como uma figura numa bola de cristal. Respirava sobre o vidro, embaciando-o, para não ver a estrada sem ela. Se demorava, a ansiedade tornava-se tão incontrolável que transbordava em tremuras no corpo.
Então ia para uma arrecadação sem janelas e sem luz eléctrica, mesmo ao lado do quarto dela e do meu pai. Fechava a porta e ficava no escuro, a chorar em silêncio. A arrecadação era um antídoto eficaz. Inspirava-me um terror que fazia esquecer a ansiedade pela sorte da minha mãe. Naquele lugar escuro como breu, sufocante por causa do DDT, era agredida por formas coloridas que me roçavam durante breves segundos as pupilas, deixando-me sem respiração. Quando voltares, mato-te, pensava, como se tivesse sido ela a deixar-me fechada ali dentro. Mas depois, logo que ouvia a sua voz no corredor, escapulia-me à pressa para ir andar à volta dela com indiferença. Voltou-me à mente aquela arrecadação quando descobri que tinha partido normalmente mas nunca tinha chegado.
À noite recebi o primeiro telefonema. A minha mãe disse-me em voz tranquila que não podia contar-me nada: impedia-lho um homem que estava com ela. Depois começou a rir e desligou. A princípio prevaleceu o estupor. Pensei que quisesse brincar e resignei-me a esperar um segundo telefonema». In Elena Ferrante, Crónicas do Mal de Amor, 1999, Relógio D’Água Editores, 2014, ISBN 978-989-641-438-2.

Cortesia de Relógio D’Água/JDACT

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

História do Novo Nome. Elena Ferrante. «O que estava acontecendo? O que teria ocorrido? Minha amiga puxava para si o braço do marido com ambas as mãos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Por fim, numa noite de Novembro, exasperada, saí levando a caixa comigo. Não aguentava mais sentir Lila acima e dentro de mim, mesmo agora que eu era muito estimada, mesmo agora que tinha uma vida fora de Nápoles. Parei na ponte Solferino olhando as luzes filtradas por uma neblina gélida. Apoiei a caixa no parapeito, empurrei-a devagar, devagar, um pouco a cada vez, até que caiu no rio quase como se fosse ela, Lila em pessoa, a se precipitar, com os seus pensamentos, as suas palavras, a maldade com que restituía golpe após golpe a cada um, seu modo de apropriar-se de mim como fazia com qualquer pessoa ou coisa ou evento ou sabedoria que se aproximasse: os livros e os sapatos, a doçura e a violência, o casamento e a primeira noite de núpcias, o retorno ao bairro no novo papel de senhora Raffaella Carracci.
Eu não conseguia acreditar que Stefano, tão gentil, tão apaixonado, tivesse presenteado Marcello Solara com um sinal da Lila criança, a marca de seus esforços nos sapatos que tinha inventado. Esqueci Alfonso e Marisa conversando entre si com os olhos brilhantes, sentados à mesa. Não dei mais atenção às risadas bêbadas de minha mãe. A música murchou, a voz do cantor, os casais que dançavam, António, que saíra ao terraço e, vencido pelo ciúme, parava além da vidraça, fixando a cidade violácea, o mar. Até a imagem de Nino desbotou enquanto saía da sala como um arcanjo sem anunciação. Agora eu via apenas Lila falando ansiosamente ao ouvido de Stefano, ela palidíssima no no vestido de noiva, ele sem um sorriso, uma mancha esbranquiçada de incómodo que descia da fronte aos olhos como uma máscara de Carnaval sobre o rosto aceso. O que estava acontecendo? O que teria ocorrido? Minha amiga puxava para si o braço do marido com ambas as mãos. Puxava com força, e eu, que a conhecia a fundo, sentia que, se tivesse podido, ela o teria arrancado de seu corpo e atravessado o salão carregando-o acima da cabeça, gotas de sangue sobre a cauda, e se serviria dele como de uma clava ou mandíbula de asno para arrebentar a cara de Marcello com um golpe certeiro. Ah, sim, ela teria feito isso, e só de pensar o meu coração batia furioso, a garganta ressecava. Depois extrairia os olhos dos dois homens, descolaria as suas carnes dos ossos da face, os morderia.
Sim, sim, eu senti que queria, queria que acontecesse. Fim do amor e daquela festa insuportável, nada de afagos numa cama de Amalfi. Arrasar imediatamente qualquer coisa ou pessoa do bairro, fazer um massacre, escaparmos eu e Lila, ir embora para longe, descendo juntas com alegre desperdício todos os degraus da abjecção, sozinhas, em cidades desconhecidas. Pareceu-me o justo resultado daquele dia. Se nada podia nos salvar, nem o dinheiro, nem um corpo masculino, nem os estudos, tanto melhor destruir tudo de uma vez. Em meu peito cresceu a raiva que era dela, uma força minha e alheia que me encheu do prazer de perder-me. Desejei que aquela força se expandisse. Mas me dei conta de que também estava amedrontada. Só em seguida compreendi estar condenada a ser quietamente infeliz porque sou incapaz de reacções violentas, porque as temo, prefiro ficar imóvel cultivando o rancor. Lila, não. Quando deixou o seu lugar, ergueu-se com tal decisão que fez a mesa tremer, os talheres nos pratos sujos, derrubando uma taça. Enquanto Stefano se apressava mecanicamente em deter a língua de vinho que corria para o vestido da senhora Solara, ela saiu a passos rápidos por uma porta secundária, puxando a cauda cada vez que se enroscava». In Elena Ferrante, História do Novo Nome, 2011, Relógio d’Água, 2015, ISBN 978-989-641-544-0.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

História do Novo Nome. Elena Ferrante. «Havia de tudo naquelas páginas, mas especialmente o ódio pelos irmãos Solara, a determinação feroz com que rejeitara o amor do mais velho, Marcello»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Na Primavera de 1966, num estado de grande agitação, Lila me confiou uma caixa de metal que continha oito cadernos. Disse que não podia mais guardá-los em casa, temia que o marido pudesse lê-los. Levei a caixa comigo sem fazer comentários, afora uma menção irónica ao excesso de barbante com que o atara. Naquela fase, as nossas relações estavam péssimas, mas parecia que essa impressão era apenas minha. Ela, nas raras vezes em que nos víamos, não manifestava nenhum embaraço, era afectuosa, jamais deixava escapar uma palavra hostil. Quando me pediu para jurar que nunca abriria aquela caixa, por motivo nenhum, jurei. Mas assim que me vi no comboio, desatei o barbante, tirei os cadernos da caixa e comecei a ler. Não era um diário, embora ali figurassem relatos minuciosos de factos de sua vida a partir do final da escola primária. Mais parecia o rasto de uma teimosa autodisciplina de escrita. As descrições abundavam: um galho de árvore, os pântanos, uma pedra, uma folha de nervuras brancas, as panelas de casa, as várias peças da maquininha de café, o braseiro, o carvão e o atiçador, um mapa detalhadíssimo do pátio, o esqueleto de metal enferrujado além dos pântanos, os jardinzinhos e a igreja, o corte da vegetação à beira da ferrovia, os edifícios novos, a casa dos pais, os instrumentos que o pai e o irmão usavam para consertar sapatos, os seus gestos quando trabalhavam, sobretudo as cores, as cores de cada coisa em diversas fases do dia. Mas não havia apenas frases descritivas. Aqui e ali surgiam palavras isoladas em napolitano e italiano, às vezes contornadas por um círculo, sem comentário. E exercícios de tradução do latim e do grego. E trechos inteiros em inglês sobre as lojas do bairro, as mercadorias, o carreto lotado de frutas e verduras que Enzo Scanno levava de rua em rua todos os dias, puxando o burro pelo cabresto. E vários raciocínios sobre os livros que lia, sobre os filmes que via na sala do padre. E muitas das ideias que defendera nas discussões com Pasquale, nas conversas que tínhamos uma com a outra. Claro, o andamento era descontínuo, mas qualquer coisa que Lila aprisionasse na escritura adquiria relevo, tanto que mesmo nas páginas escritas aos onze ou doze anos não achei uma só linha que soasse infantil.
Frequentemente as frases eram de extrema precisão, a pontuação muito cuidada, a grafia elegante como a que nos ensinara a professora Oliviero. Mas às vezes, como se uma droga lhe inundasse as veias, Lila parecia não suportar a ordem que se impusera. Tudo então se tornava árduo, as frases assumiam um ritmo sobressaltado, a pontuação desaparecia. Em geral, lhe bastava pouco para retomar o andamento largo e claro. Mas também acontecia de interromper-se bruscamente e preencher o resto da página com desenhinhos de árvores retorcidas, montanhas corcundas e fumegantes, caras assustadoras. Fui tomada tanto pela ordem quanto pela desordem, e quanto mais lia, mais me sentia enganada. Esse exercício estava por trás da carta que me enviara a Ischia anos antes: por isso era tão bem escrita. Recoloquei tudo na caixa prometendo a mim mesma que não mexeria mais naquilo. Mas logo cedi de novo, os cadernos desprendiam a força de sedução que emanava de Lila desde pequena. Tinha tratado do bairro, dos parentes, dos Solara, de Stefano, de cada pessoa ou coisa com uma precisão implacável. E o que dizer da liberdade que se concedera quanto a mim, com o que eu dizia, com o que pensava, com as pessoas que eu amava, até com meu aspecto físico. Tinha fixado momentos decisivos para ela, sem se preocupar com nada nem com ninguém. Lá estava, nitidíssimo, o prazer que sentira quando aos dez anos escreveu aquele conto, A fada azul. Ali estava, com igual exactidão, o quanto havia sofrido porque a nossa professora Oliviero não se dignara a dizer uma só palavra sobre aquele conto, aliás, o ignorara. Ali estava o sofrimento e a fúria por eu ter passado à escola média sem me preocupar com ela, abandonando-a. Lá estava o entusiasmo com que aprendera o ofício de sapateiro, e o sentimento de revanche que a induzira a desenhar sapatos novos, e o prazer de produzir um primeiro par com o seu irmão Rino. Lá estava a dor quando Fernando, seu pai, dissera que os sapatos não eram bem-feitos. Havia de tudo naquelas páginas, mas especialmente o ódio pelos irmãos Solara, a determinação feroz com que rejeitara o amor do mais velho, Marcello, e o momento em que decidira ficar noiva do afável Stefano Carracci, o salsicheiro, que por amor quisera comprar o primeiro par de sapatos feito por ela, jurando que o guardaria para sempre. Ah!, os belos momentos em que, aos quinze anos, se sentira uma mocinha rica e elegante, de braço dado com o futuro esposo que, só porque a amava, investira muito dinheiro na fábrica de calçados do pai e do irmão, a fábrica Cerullo. E que satisfação ela experimentara: os sapatos da sua fantasia em grande parte realizados, uma casa no bairro novo, o casamento aos dezasseis anos. E que deslumbrante festade núpcias se seguira, como estava feliz. Depois Marcello Solara, acompanhado do irmão Michele, aparecera no meio dos festejos trazendo nos pés justamente os sapatos que o seu marido dissera apreciar tanto. Seu marido! Com que tipo de homem se casara? Agora, facto consumado, arrancaria a falsa cara e mostraria a outra, horrivelmente verdadeira? Indagações, e os factos sem truques da nossa miséria. Dediquei-me muito àquelas páginas, por dias, semanas. Estudei-as, acabei aprendendo de cor as passagens de que mais gostava, as que me exaltavam, as que me hipnotizavam, as que me humilhavam. Por trás de sua naturalidade havia com certeza um artifício, mas não soube descobrir qual». In Elena Ferrante, História do Novo Nome, 2011, Relógio d’Água, 2015, ISBN 978-989-641-544-0.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

Escombros. Elena Ferrante. «… fixei com palavras minhas, e esse segundo acto imaginativo, quer queira, quer não, terá de se confrontar, de forma irónica?, de forma trágica?, com o primeiro…»

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Papéis. 1991-2003
Escrever por encomenda
«(…) Numa das muitas casas em que morei quando era rapariga, todos os anos nascia um pé de alcaparreira na parede voltada para leste. Era de pedra nua, mal enjorcada, não havia semente que não encontrasse ali um torrão. Mas aquela alcaparreira, sobretudo, crescia e floria de forma tão exuberante, e por outro lado com cores tão delicadas, que me ficou na memória uma imagem de verdadeira força, de suave energia. O camponês que nos alugava a casa ceifava as plantas todos os anos, mas em vão. Quando embelezou a parede com reboco, aplicou-lhe uma camada uniforme com as próprias mãos e depois pintou-a de um azul-celeste insuportável. Esperei muito tempo, confiante, que as raízes da alcaparreira mesmo assim levassem a melhor e de repente empolassem a lisura calma da parede. Hoje, enquanto procuro a via das felicitações para a minha editora, ouço dizer que isso aconteceu. O reboco criou bolhas, a alcaparreira explodiu com os primeiros rebentos. Por isso desejo que a e/o continue a lutar contra o reboco, contra tudo aquilo que harmoniza, apagando. Que o faça abrindo teimosamente. de estação em estação, livros como flores de alcaparreira(o acontecimento a que se faz referência é o décimo quinto aniversário das Edições e/o (1994); o texto, em pé de página na carta, foi incluído no catálogo da editora impresso para essa ocasião).

O livro encenado
Caro Sandro,
É claro que tenho curiosidade, estou morta por ler o guião de Martone, assim que o recebas, peço-te que mo envies imediatamente. Receio, porém, que lê-lo não sirva para mais nada senão para satisfazer a minha curiosidade, que para mim se resume a perceber o que há no meu livro que alimentou e está a alimentar o projeto de filme de Martone, qual o seu ponto sensível que o texto tocou, como é que desencadeou as suas capacidades imaginativas. Em relação ao resto, pensando bem, prevejo vir a encontrar-me numa situação um tanto ridícula, um tanto embaraçosa: serei leitora do texto de outra pessoa, que me contará uma história escrita por mim; com base nas palavras dele, imaginarei aquilo que já imaginei, vi, e fixei com palavras minhas, e esse segundo acto imaginativo, quer queira, quer não, terá de se confrontar, de forma irónica?, de forma trágica?, com o primeiro; portanto, serei leitora de um leitor meu, que me contará à sua maneira, com os seus meios, com a sua inteligência e sensibilidade, aquilo que leu no meu livro. Como reagirei, não sei dizer-te. Tenho medo de descobrir que pouco sei sobre o meu próprio livro. Receio ver na escrita de outra pessoa (um guião tem uma escrita especial, imagino, mas que pretende sempre contar uma história) aquilo que eu realmente contei, e não gostar; ou de constatar a sua fraqueza; ou simplesmente de me aperceber daquilo que falta, daquilo que eu devia ter contado e por incapacidade, por medo, por escolhas literárias auto-limitadoras, por superficialidade do olhar, não contei». In Elena Ferrante, Escombros, 2003, Relógio d’Água Editores, 2016, ISBN 978-989-641-666-9.

Cortesia de Relógio d’AguaE/JDACT

Escombros. Elena Ferrante. «Terei de contribuir com um donativo para a necessidade feminina de aprender a amar a mãe? Contarei que a minha mãe me dava a mão com força, na rua…»

jdact

Papéis. 1991-2003
Escrever por encomenda
«(…)
Cara Sandra,
Que partida tão feia vocês me fizeram: escrevendo de livre vontade para o aniversário da vossa empresa editorial, descobri que o declive da escrita por encomenda é fácil de descer e até se faz com gosto. O que irá acontecer agora? Fizeram com que eu tirasse a tampa e agora a água vai escoar-se toda pelo buraco do lavatório? Neste momento sinto-me disposta a escrever sobre qualquer coisa. Irão pedir-me que festeje a aquisição do vosso novo automóvel? Desencantarei algures uma recordação minha da primeira viagem de automóvel e, linha após linha, chegarei às felicitações pelo vosso carro novo. Irão pedir-me que dê os parabéns à vossa gata pelo nascimento dos seus gatinhos? Desenterrarei a gata que o meu pai, primeiro, me ofereceu e, depois, irritado com os miados, levou embora e abandonou na estrada para Secondigliano. Irão pedir-me que contribua com um texto para um vosso livro sobre a Nápoles de hoje? Tomarei como ponto de partida aquela vez em que receava sair de casa, com medo de encontrar uma vizinha metediça com quem a minha mãe se insurgira e que pusera fora de casa. e, palavra puxa palavra, começarei a falar do medo da violência que hoje te atinge por tabela, enquanto a velha política retoca a maquilhagem e não se percebe onde está aquilo que é novo e que devemos apoiar. Terei de contribuir com um donativo para a necessidade feminina de aprender a amar a mãe? Contarei que a minha mãe me dava a mão com força, na rua, quando eu era pequena, começarei por aí, aliás, agora que penso nisso, gostaria de o fazer de facto, conservo uma emoção longínqua da pele contra a pele, ela apertava-me a mão com receio de eu me soltar e correr pela rua em mau estado e cheia de perigos, eu sentia o medo dela e tinha medo, e depois encontrarei uma via para desenvolver o meu trabalhinho até citar com arte Luce Irigaray e Luisa Muraro. As palavras puxam umas pelas outras, uma página com alguma coerência banal, elegante, triste ou divertida consegue-se sempre escrever, sobre qualquer tema, vulgar ou sublime, simples ou complexo, fraco ou essencial.
O que fazer então. dizer não às pessoas que estimamos e em quem confiamos? Não é o meu caso. Escrevi as linhas comemorativas, procuro transmitir-vos um sincero sentimento de apreço pela luta que travaram ao longo de todos estes anos e que hoje, creio, é ainda mais difícil de vencer. Aqui vai, portanto, a minha mensagem, parabéns. Desta vez contentei-me em tomar como ponto de partida um pé de alcaparreira. A seguir, não sei. Poderei inundar-vos de lembranças, pensamentos, histórias genéricas. O que é preciso? Sinto-me capaz de escrever por encomenda sobre os jovens de hoje, as coisas execráveis da televisão, Di Giacomo, Francesco Jovine, a arte do bocejo, um cinzeiro. Tchékhov, o grande Tchékhov, conversando com um jornalista que queria saber como nasciam as suas histórias, pegou no primeiro objecto que lhe veio à mão, um cinzeiro, justamente, e disse-lhe: está a ver isto? Passe por cá amanhã, que eu dou-lhe um conto intitulado O cinzeiro. Uma anedota engraçada. Mas como e quando é que o acaso se transforma em necessidade de escrever? Não sei. Só sei que a escrita tem um lado deprimente, quando os nervos do momento são visíveis. Então, até a verdade pode parecer falsificada. Por isso. para evitar equívocos. acrescento à margem, sem alcaparras nem nada, sem literatura, que as minhas felicitações são verdadeiras e sensibilizadas. Até breve.
Elena»
In Elena Ferrante, Escombros, 2003, Relógio d’Água Editores, 2016, ISBN 978-989-641-666-9.

Cortesia de Relógio d’AguaE/JDACT

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Amiga Genial. Elena Ferrante. «O bando vinha do aterro do caminho-de-ferro, fornecendo-se de pedras no meio dos carris. Enzo, o cabecilha, era um menino muito perigoso, tinha pelo menos mais três anos do que nós»

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«(…) Também se podia morrer de coisas que pareciam normais. Podíamos morrer, por exemplo, se estivéssemos a transpirar e bebêssemos água fria da torneira sem ter molhado os pulsos primeiro. Ficávamos cobertos de pontinhos vermelhos, tínhamos um ataque de tosse e não conseguíamos respirar. Podíamos morrer se comêssemos cerejas pretas sem cuspir o caroço. Podíamos morrer se mastigássemos pastilhas elásticas americanas e por distracção as engolíssemos. Podíamos morrer, sobretudo, se levássemos uma pancada na têmpora. A têmpora era um ponto muito frágil, dávamos todas muita atenção a isso. Bastava uma pedrada, e as pedradas eram a regra. À saída da escola, um bando de rapazes do campo chefiado por um que se chamava Enzo ou Enzuccio, um dos filhos de Assunta, a vendedora de fruta e hortaliça, começou a atirar-nos pedras. Sentiam-se ofendidos por sermos melhores alunas do que eles. Quando as pedras vinham direito a nós fugíamos todas, menos Lila, que continuava a andar no seu passo normal e às vezes até parava. Era muito esperta a calcular a trajectória das pedras e a evitá-las com um movimento calmo, hoje diria elegante. Tinha um irmão mais velho e talvez tivesse aprendido com ele, não sei, eu também tinha irmãos, mas mais novos do que eu e nunca aprendera nada com eles. Mas quando notava que ela ficara para trás, parava e esperava por ela, embora cheia de medo.
Já nesse tempo havia qualquer coisa que me impedia de abandoná-la. Não a conhecia bem, nunca tínhamos trocado uma palavra, apesar de estarmos sempre a competir uma com a outra, na aula e fora dela. Mas tinha a vaga sensação de que se fugisse, como as outras. deixaria com ela algo de meu que ela nunca mais me restituiria. A princípio ficava escondida em qualquer canto e espreitava para ver se Lila já aí vinha. Depois, como ela não se mexia, sentia-me na obrigação de ir ter com ela, passava-lhe as pedras, atirava-as também. Mas fazia-o sem convicção, fiz muitas coisas na vida mas sem convicção, sempre me senti um bocado desligada das minhas acções. Ao passo que Lila tinha, desde pequena, agora não consigo precisar se aos seis ou se aos sete anos, ou se quando subimos juntas as escadas que iam ter a casa de don Achille e tínhamos oito, quase nove, uma total determinação como característica. Quer empunhasse o cabo tricolor da caneta, ou uma pedra, ou o corrimão das escadas escuras, transmitia a ideia de que aquilo que se seguia, espetar a caneta na madeira da carteira com um movimento preciso, atirar bolinhas ensopadas em tinta. acertar nos rapazes do campo, subir até à porta de don Achille, seria feito semhesitações.
O bando vinha do aterro do caminho-de-ferro, fornecendo-se de pedras no meio dos carris. Enzo, o cabecilha, era um menino muito perigoso, tinha pelo menos mais três anos do que nós, era repetente, tinha cabelos loiros muito curtos e olhos claros. Lançava com precisão pedras pequenas com rebordos afiados, e Lila aguardara os tiros dele para lhe mostrar como os evitava, fazê-lo irritar-se ainda mais e responder de imediato com tiros igualmente perigosos. Uma vez atingimo-lo no artelho direito, e digo atingimo-lo porque eu é que entregara a Lila uma pedra achatada com os bordos todos lascados. A pedra roçou pela pele de Enzo como uma lâmina, deixando-lhe uma marca vermelha de onde saiu imediatamente sangue. O menino olhou para a perna ferida, parece que ainda estou a vê-1o. Tinha entre o polegar e o indicador a pedra que se preparava para atirar. O braço já estava no ar para fazer o lançamento, mas deteve-se. estupefacto. Os rapazes que ele comandava também olharam incrédulos para o sangue. Lila, porém, não mostrou a mínima satisfação pelo êxito da pedrada e baixou-se para apanhar outra. Eu agrrei-a por um braço, foi o nosso primeiro contacto físico, um contacto brusco e assustado. Pressenti que o bando se enfureceria mais e queria que nos afastássemos. Mas não houve tempo. Enzo, apesar de ter o artelho a sangrar, recuperou do espanto e lançou a pedra que tinha na mão. Ainda estava agarrada ao braço de Lila quando a pedrada a atingiu na fronte, arrancando-ma da mão. No instante seguinte estava estendida no passeio com a cabeça partida». In Elena Ferrante, A Amiga Genial, 2011, Relógio d’Água, 2014, ISBN 978-989-641-479-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Amiga Genial. Elena Ferrante. «Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má. Naquela turma éramos todas um bocadinho más…»

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«(…) Nu e Tina não eram felizes. Os terrores que nós saboreávamos todos os dias eram os delas. Não confiávamos na luz que incidia sobre as pedras, sobre os prédios, sobre os campos, sobre as pessoas fora e dentro de casa. Pressentíamos-lhe os cantos negros, os sentimentos reprimidos mas sempre quase a explodir. E atribuíamos a essas bocas escuras, às cavernas que por trás delas se abriam sob os prédios do bairro, tudo aquilo que nos assustava à luz do dia. Don Achille, por exemplo, não estava apenas em sua casa, no último andar, mas também ali em baixo, uma aranha entre as aranhas, um rato entre os ratos, uma forma que assumia todas as formas. Imaginava-o de boca aberta por causa das compridas presas de animal, corpo de pedra vidrada e ervas venenosas, sempre pronto para recolher num grande saco negro tudo o que deixávamos cair pelos cantos soltos da rede. Esse saco era um aspecto fundamental de don Achille, tinha-o sempre consigo, até em casa, e nele metia matéria viva e morta. Lila sabia que eu tinha aquele medo, a minha boneca falava disso em voz alta. Por isso, logo no dia em que trocámos de bonecas pela primeira vez sem combinar sequer, só com olhares e gestos, ela, assim que lhe entreguei Tina, enfiou-a pela rede e deixou-a cair para o escuro.
Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má. Naquela turma éramos todas um bocadinho más, mas só quando a professora Oliviero não conseguia ver-nos. Ela, porém, era má sempre, pior do que os rapazes. Uma vez rasgou o papel mata-borrão em pedacinhos, enfiou-os um a um no tinteiro e depois pôs-se a pescá-los com o aparo e a atirá-los para cima de nós. Eu fui atingida duas vezes no cabelo e uma vez na gola branca. A professora berrou como só ela sabia, com uma voz de agulha que nos atemorizava, longa e pontiaguda, e mandou-a imediatamente para o castigo, atrás do quadro. Lila não obedeceu, nem sequer pareceu ter-se assustado, pois continuou a atirar bocados de mata-borrão ensopados em tinta para todos os lados. Então a professora Oliviero, uma mulher pesadona que nos parecia muito velha, embora devesse ter pouco mais de quarenta, desceu do estrado ameaçando-a, tropeçou não se sabe bem em quê, não conseguiu equilibrar-se e foi bater com a cara na quina de uma carteira. Ficou caída no chão como morta. O que aconteceu logo a seguir não me recordo, lembro-me apenas do corpo imóvel da professora, uma trouxa escura, e Lila a olhar para ela de cara séria.
Tenho na lembrança muitos incidentes deste tipo. Vivíamos num mundo em que crianças e adultos se feriam com frequência, as feridas sangravam, supuravam, e eles por vezes morriam. Uma das filhas de dona Assunta. a vendedora de fruta e hortaliça, ferira-se com um prego e morrera de tétano. O filho mais novo da senhora Spagnuolo morrera de garrotilho. Um primo meu que tinha vinte anos foi uma manhã remover entulho e à noite estava morto, esmagado, com sangue a sair-lhe dos ouvidos e da boca. O pai da minha mãe trabalhava na construção de um edifício, caiu dele abaixo e morreu. O pai do senhor Peluso não tinha um braço, o torno arrancara-lho à traição. A irmã de Giuseppina, mulher do senhor Peluso, morrera de tuberculose aos vinte e dois anos. O filho adulto de don Achille, nunca o vi mas parecia-me que me lembrava dele, fora para a guerra e morrera duas vezes: primeiro, afogado no oceano Pacífico, e depois comido pelos tubarões. Os da família Melchiorre tinham morrido todos abraçados, a gritar de medo, debaixo de um bombardeamento. A velha dona Clorinda morrera por respirar gás em vez de ar. Giannino, que andava na quarta quando nós andávamos na primeira, um dia morreu porque encontrou uma bomba e mexeu-lhe. Luigina, com quem tínhamos brincado no pátio, ou talvez não, era apenas um nome, morrera de tifo. O nosso mundo era assim, cheio de palavras que matavam: o garrotilho, o tétano, o tifo, o gás, a guerra, o torno, o entulho, o trabalho, o bombardeamento, a bomba, a tuberculose, a supuração. Remeto para essas palavras e para aqueles anos os muitos medos que me têm acompanhado toda a vida». In Elena Ferrante, A Amiga Genial, 2011, Relógio d’Água, 2014, ISBN 978-989-641-479-5.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

domingo, 2 de abril de 2017

Escombros. Elena Ferrante. «Parece-me muito significativo esse ninguém vai pensar. Quer dizer que o informe é tão poderoso, ao condicionar a palavra mãe, que o pensamento de filhos e filhas…»

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Papéis. 1991-2003
As costureiras das mães
«(…) Caro presidente, caros jurados,
De Elsa Morante, cujos livros muito amo, tenho muitas palavras na cabeça. Antes de vos escrever fui procurar algumas, para nelas me apoiar e delas retirar consistência. Nos lugares onde me recordava que elas estavam, encontrei muito poucas. Muitas delas tinham-se escondido. Outras, embora não estivesse à procura delas, ao folhear os livros reconheci-as, e seduziram-me mais do que aquelas que procurava. As palavras fazem viagens imprevisíveis na cabeça de quem as lê. Entre outras, procurava palavras sobre a figura materna, tão central na obra de Morante, e fiz uma busca em Menzogna e sortilegio, A Ilha de Arturo, La storia e Aracoeli. Por fim encontrei algumas em Lo scialle andaluso, ao fim e ao cabo talvez aquelas que eu procurava.
Os senhores certamente conhecem-nas melhor do que eu, é escusado que vo-las transcreva. Dizem como é que os filhos imaginam as mães: num estado de eterna velhice, com olhos santos, com lábios santos, vestidas de preto ou de cinzento ou, no máximo, de castanho. A princípio, a autora fala de filhos determinados: aqueles sicilianos severos, honrados, sempre atentos às suas irmãs. Mas, poucas frases depois, põe de parte a Sicília e passa, parece-me, a uma imagem materna menos local. Isso acontece com o aparecimento do adjectivo informe. Os vestidos das mães são informes, e a idade única que têm, a velhice, também é informe, visto que, escreve Elsa Morante, ninguém, a começar pelas costureiras das mães, vai pensar que uma mãe tem um corpo de mulher.
Parece-me muito significativo esse ninguém vai pensar. Quer dizer que o informe é tão poderoso, ao condicionar a palavra mãe, que o pensamento de filhos e filhas, quando imagina o corpo para o qual essa palavra devia remeter, não consegue atribuir-lhe as formas que lhe pertencem, senão com repulsa. Nem as costureiras das mães o conseguem, apesar de serem criaturas femininas, filhas, mães. Aliás, por hábito, e de modo irreflectido, talham para a mãe roupas que apagam a mulher, como se esta fosse lepra para aquela. Fazem-no, e dessa forma os anos que as mães têm transformam-se num mistério sem importância. e a velhice passa a ser a sua única idade. Só agora, enquanto escrevo, pensei de modo consciente nessas costureiras das mães. Mas atraem-me muito, sobretudo se as associar a uma expressão que desde pequena me despertou curiosidade.
A expressão é: cortar na casaca. Pensava que escondesse um significado maldoso: uma agressão maliciosa, um acto violento que destrói as roupas e põe escabrosamente a nu; ou, pior ainda. Uma arte mágica capaz de te dar forma ao corpo de maneira obscena. Hoje esse significado já não me parece maldoso nem escabroso. Pelo contrário, até me seduz a relação entre cortar, vestir, dizer. E acho fascinante que essa relação tenha dado origem a uma metáfora da maledicência. Se as costureiras das mães aprendessem a talhar-lhes as roupas desnudando-as, ou se lhas ajustassem de modo que recuperassem o corpo de mulher que têm, que tiveram, vestindo-as, despiam-nas, e os seus corpos, a sua idade, deixariam de ser um mistério sem importância.
Quando Elsa Morante falava das mães e das suas costureiras, talvez estivesse também a falar da necessidade de reencontrar os seus verdadeiros vestidos e de fazer em pedaços os costumes que pesam sobre a palavra mãe. Ou talvez não. De qualquer modo, recordo outras imagens suas (por exemplo, a referência a um sudário materno, definido como tecedura de amor fresco sobre o corpo da lepra), às quais seria bom abandonarem-se, para depois ressurgirem como costureiras novas, prontas a combater o erro do Informe». In Elena Ferrante, Escombros, 2003, Relógio d’Água Editores, 2016, ISBN 978-989-641-666-9.

Cortesia de Relógio d’AguaE/JDACT

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Amiga Genial. Elena Ferrante. «Brincávamos no pátio, mas fazendo de conta que não brincávamos juntas. Lila sentava-se no chão, num dos lados da fresta de uma cave, e eu no outro»

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«(…) Parámos muitas vezes, e de cada vez esperei que Lila resolvesse voltar para trás. Estava toda suada, ela não sei. De vez em quando Lila olhava para o alto, mas não percebi porquê, só se via o tom cinzento das janelonas em cada patamar. De repente as luzes acenderam-se, mas pálidas, empoeiradas, deixando amplas zonas de sombra, cheias de perigos. Esperámos, tentando perceber se fora dom Achille que girara o interruptor, mas nada ouvimos, nem passos, nem porta nenhuma a abrir ou a fechar. Depois Lila continuou, e eu segui-a. Ela achava que estava a fazer uma coisa certa e necessária, eu esquecera qualquer boa razão e, sem dúvida, só estava ali porque ela também estava. Subíamos devagar, dirigindo-nos para o maior dos nossos terrores de então, íamos expor-nos ao medo e questioná-lo. No quarto lanço Lila comportou-se de forma inesperada. Parou à minha espera e, quando a alcancei, deu-me a mão. Esse gesto mudou tudo entre nós para sempre.
A culpa fora dela. Não havia muito tempo, dez dias, um mês. Sei lá, não sabíamos nada sobre o tempo, nessa época, tirara-me a boneca à traição e lançara-a para dentro de uma cave. Agora íamos subindo em direcção ao medo, e nessa altura tínhamo-nos sentido na obrigação de descer, e a correr. para o desconhecido. Para cima ou para baixo, parecia-nos sempre que íamos ao encontro de algo terrível que, embora existisse havia mais tempo do que nós, era por nós e só por nós que esperava. Quando se está há pouco tempo no mundo, é difícil compreender quais os desastres que estão na origem da nossa sensação de desastre, talvez nem sintamos necessidade disso. Os adultos, à espera do amanhã, movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou no máximo a semana passada. No resto não querem pensar. As crianças não sabem o significado do ontem, do anteontem, nem do amanhã, tudo é isto e agora: a rua é esta, a porta é esta, as escadas são estas, esta é a mamã, este é o papá, isto é o dia, isto é a noite. Eu era pequena e, vendo bem, a minha boneca sabia mais do que eu. Falava com ela, ela falava comigo. Tinha cara de plástico, cabelos de plástico e olhos de plástico. Usava um vestidinho azul que a minha mãe lhe fizera num raro momento feliz, e era linda. A boneca de Lila, pelo contrário, tinha um corpo de trapo amarelado cheio de serradura, para mim era feia e asquerosa. Espiavam-se mutuamente, tiravam as medidas uma à outra, estavam prontas para saltar para os nossos braços se rebentasse um temporal, se fizesse trovões, se alguém maior e mais forte e com os dentes aliados lhes quisesse pegar.
Brincávamos no pátio, mas fazendo de conta que não brincávamos juntas. Lila sentava-se no chão, num dos lados da fresta de uma cave, e eu no outro. Gostávamos daquele sítio, em primeiro lugar porque podíamos arrumar sobre o cimento do peitoril, por entre as grades e contra a rede de protecção da fresta, as coisas da minha boneca, que se chamava Tina, e da boneca de Lila, que se chamava Nu. Ali púnhamos pedras, tampas de gasosa, florzinhas, pregos, lascas de vidro. Eu captava o que Lila dizia a Nu e dizia o mesmo a Tina em voz baixa, com ligeiras alterações. Se ela pegava numa tampa e a punha na cabeça da boneca como se fosse um chapéu, eu dizia à minha, em dialecto: Tina, põe a coroa de rainha, senão vais ter frio. Se Nu jogava à macaca nas mãos de Lila, daí a pouco eu punha Tina a fazer o mesmo. Mas nunca acontecia combinarmos uma brincadeira e participarmos nela em conjunto. Até aquele lugar não era escolhido por acordo. Lila ia para lá e eu andava às voltas, fingindo que ia para outro sítio. Depois, como quem não quer a coisa, punha-me também ao pé da fresta, mas do lado oposto.
Aquilo que mais nos atraía era o ar frio que vinha da cave, uma lufada que nos refrescava na Primavera e no Verão. E depois gostávamos das grades com teias de aranha, do escuro e da rede de malha fina, avermelhada pela ferrugem e encaracolada nos cantos, tanto do meu lado como do de Lila, formando duas fendas paralelas, através das quais podíamos deixar cair pedras para o escuro e ouvir o ruído quando chegavam ao chão. Era bonito e assustador, como todas as coisas naquele tempo. Por aquelas aberturas o escuro podia tirar-nos de repente as bonecas, por vezes em segurança no nosso colo, mas as mais das vezes postas de propósito junto da rede retorcida e portanto expostas ao bafo frio da cave, aos ruídos ameaçadores que de lá saíam, ao resmalhar, aos estalidos, às raspadelas». In Elena Ferrante, A Amiga Genial, 2011, Relógio d’Água, 2014, 978-989-641-479-5.

Cortesia de Relógio d’Água/JDACT

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Escombros. Elena Ferrante. «Elsa Morante resume livremente aquilo que a sua personagem, Giuditta, dirá ao filho, comentando os modos de siciliano que o rapaz usou para marcar o fim, depois de uma feia humilhação»

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Papéis. 1991-2003
As costureiras das mães
«Cara Sandra.
Esta história do prémio está a perturbar-me muito. Devo dizer-te que aquilo que me faz mais confusão não é o meu livro ter sido premiado, mas o prémio ter o nome de Elsa Morante. A fim de escrever algumas linhas de agradecimento, que fossem acima de tudo uma respeitosa homenagem a uma escritora que muito amei. pus-me à procura, nos livros dela. de passagens adequadas à circunstância. Descobri que a ansiedade nos prega partidas desagradáveis. Folheei, folheei, e não encontrei uma única palavra que servisse para aquilo que pretendo, quando na realidade me recordava nitidamente de muitas. Será necessário reflectir sobre como e quando é que as palavras fogem dos livros, e os livros acabam por parecer túmulos vazios.
O que foi que me impediu de ver, neste caso? Procurava uma passagem claramente feminina sobre a figura materna, mas as vozes narradoras masculinas inventadas por Elsa Morante toldaram-me a vista. Sabia bem que essas passagens existiam, todavia, para encontrá-las teria de me inserir de novo na impressão causada pela primeira leitura, quando fora capaz de sentir as vozes masculinas como um disfarce de vozes e sentimentos femininos. Porém, para conseguir algo desse género, a pior coisa que se pode fazer é ler com a pressa de encontrar um passo para citar. Os livros são organismos complexos, as linhas que nos perturbaram profundamente constituem o momento mais intenso de um terramoto nosso, de leitores, que o texto iniciou desde as primeiras páginas; ou se encontra logo a falha geológica, e nos tornamos a própria falha, ou então já não encontramos as palavras que nos pareceram escritas para nós, e, se as encontrarmos, parecem-nos banais, não mais do que um lugar-comum.
Por fim recorri à citação que conhecem. queria usá-la como epígrafe em Um Estranho Amor: mas é difícil de usar, porque ao lê-la hoje parece, justamente, óbvia, nada mais que uma passagem irónica sobre a desmaterialização do corpo da mãe por acção do macho meridional. Por isso, caso vos pareça necessário citar aquele passo para tornar mais compreensível a leitura do meu texto de agradecimento, transcrevo abaixo a página por inteiro. Elsa Morante resume livremente aquilo que a sua personagem, Giuditta, dirá ao filho, comentando os modos de siciliano que o rapaz usou para marcar o fim, depois de uma feia humilhação, da experiência teatral da mãe, e o regresso dela a uma aparência menos perturbante: Giuditta agarrou-lhe uma mão e cobriu-a de beijos. Naquele momento (disse-lhe em seguida), ele tivera precisamente uma atitude de siciliano, daqueles sicilianos severos, honrados, sempre atentos às suas irmãs, para que não saiam sozinhas à noite, para que não alimentem esperanças aos apaixonados, para que não usem bâton! E, para os quais, mãe significa duas coisas: velha e santa. A cor apropriada para as roupas das mães é o preto, ou, quando muito, o cinzento e o castanho. Os seus vestidos são informes, pois ninguém, a começar pelas costureiras das mães, vai pensar que uma mãe tem um corpo de mulher. Quantos anos têm é um mistério sem importância, uma vez que a sua única idade é a velhice. Essa velhice informe tem olhos santos que choram, não por si mas pelos filhos; tem lábios santos que recitam orações, não por si mas pelos filhos. E ai daquele que pronuncie em vão, diante desses filhos, o santo nome das suas mães! Ai dele! É uma ofensa mortal!
Recomendo-vos que leiam este trecho sem ênfases. em voz normal, sem tentarem fazer os tons declamativos dos maus actores. Aquele que o ler deverá apenas sublinhar, ligeiramente, informes, costureiras das mães, corpo de mulher, mistério sem importância. E aqui vai também a minha carta para o júri do prémio, espero que se perceba que as palavras de Elsa Morante não estão de modo nenhum gastas. Peço-vos uma vez mais desculpa pelas maçadas que vos dou.
Elena

In Elena Ferrante, Escombros, 2003, Relógio d’Água Editores, 2016, ISBN 978-989-641-666-9.

Cortesia de Relógio d’AguaE/JDACT

Escombros. Elena Ferrante. «Não participarei em debates e conferências, se me convidarem. Não irei receber prémios, se mos quiserem dar. Nunca promoverei o livro…»

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Papéis. 1991-2003
O presente da Befana
«Cara Sandra.
Perguntaste-me, durante o último agradável encontro contigo e com o teu marido, o que tenciono fazer para promover Um Estranho Amor (tenho de me habituar a tratar o livro pelo seu título definitivo). Fizeste a pergunta de maneira irónica, acompanhando-a de um dos teus olhares vivos de divertimento. Naquele momento não tive coragem de te responder, parecia-me que já fora bastante clara com o Sandro, ele dissera que estava plenamente de acordo com as minhas decisões, esperava que não se voltasse a falar no assunto, nem mesmo a brincar. Respondo-te agora por escrito, a escrita anula-me as longas pausas, as incertezas, a transigência. Não tenciono fazer nada em relação a Um Estranho Amor, nada que implique o compromisso público da minha pessoa. Já fiz o suficiente por essa longa história: escrevi-a: se o livro valer alguma coisa, isso deverá bastar. Não participarei em debates e conferências, se me convidarem. Não irei receber prémios, se mos quiserem dar. Nunca promoverei o livro, sobretudo na televisão, nem em Itália nem eventualmente no estrangeiro. Só intervirei por escrito, mas procurarei limitar também isso ao mínimo indispensável. Nesse aspecto, comprometi-me firmemente comigo mesma e com a minha família. Espero não ser obrigada a mudar de ideias. Compreendo que isso pode causar algumas dificuldades à editora. Tenho muito apreço pelo vosso trabalho, afeiçoei-me imediatamente a vós, não quero causar-vos prejuízos. Se não estiverem dispostos a aceitar as minhas condições, digam-no já, eu compreenderei. Não é de todo necessário que eu publique este livro. É difícil para mim expor todos os motivos desta minha decisão, como sabes. Quero apenas confidenciar-te que se trata de uma pequena aposta comigo mesma, com as minhas convicções. Eu acredito que os livros não precisam dos seus autores para nada, depois de escritos. Se tiverem alguma coisa para contar, mais cedo ou mais tarde encontrarão leitores; se não, não. Existem muitos exemplos disso. Gosto muito daqueles livros misteriosos, de tempos antigos e modernos, que não têm um autor certo mas que tiveram e têm uma intensa vida própria. Parecem-me uma espécie de prodígio nocturno, como quando, em pequena, esperava os presentes da Befana, ia para a cama muito agitada, e de manhã acordava e lá estavam os presentes, mas a Befana, ninguém a tinha visto. Os verdadeiros milagres são aqueles que ninguém chegará a saber quem os fez, quer sejam os pequenos milagres dos espíritos secretos da casa, ou os grandes milagres que nos deixam realmente de boca aberta. Ficou-me este desejo infantil de maravilhas, pequenas ou grandes, ainda acredito nelas. Por isso, cara Sandra, digo-te francamente: se Um Estranho Amor, por si só, não tiver pernas para andar, paciência, quer dizer que tu e eu nos enganámos: mas se tiver, as pernas levá-lo-ão até onde forem capazes de ir, e só teremos de agradecer às leitoras e aos leitores a paciência com que as ajudaram a caminhar. Afinal, não é verdade que as promoções ficam caras? Eu serei a autora menos dispendiosa da editora. Até a minha presença vos pouparei. Um forte abraço. Elena
Carta de 21 de Setembro de 1991

In Elena Ferrante, Escombros, 2003, Relógio d’Água Editores, 2016, ISBN 978-989-641-666-9.

Cortesia de Relógio d’AguaE/JDACT

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Um estranho amor. Elena Ferrante. «Perdia a paciência. Voltava rapidamente ao meu italiano, e ela acomodava-se no seu dialecto. Agora que estava morta…»

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«(…) Sabe onde há uma farmácia?, perguntei, mas sem sequer olhar para ele, empenhada como estava num rápido afastamento que poderia abolir o contacto. No Corso Garibaldi, respondeu-me enquanto restabelecia um mínimo de distância entre a massa compacta do seu corpo ossudo e eu. Naquele momento estava como que colado, com a sua camisa branca e o casaco escuro, à fachada do Albergo dei Poveri. Vi-o pálido, bem barbeado, sem espanto no olhar, que não me agradou. Agradeci quase com a ponta dos lábios e corri na direcção que me tinha indicado. Ele seguiu-me com a voz, que transformou de cortês num sibilar insistente e cada vez mais ordinário. Fui atingida por um jorro de obscenidades em dialecto, um mórbido regato de sons que envolveu num misto de sémen, saliva, fezes, urina, dentro de orifícios de todo o género, eu, as minhas irmãs, a minha mãe. Voltei-me de repente, tanto mais estupefacta quanto os insultos não tinham razão. Mas o homem já lá não estava. Talvez tivesse atravessado a rua e se tivesse perdido entre os automóveis, talvez tivesse virado a esquina para Sant’Antonio Abate. Lentamente, deixei que as batidas do coração se regularizassem e desaparecesse uma desagradável pulsão homicida. Entrei na farmácia, comprei uma embalagem de tampões e voltei ao bar.
Cheguei de táxi ao cemitério, mesmo a tempo de ver o caixão descer a um tanque de pedra cinzenta, que foi depois cheio de terra. As minhas irmãs foram-se embora logo a seguir ao enterro, de automóvel, com os respectivos maridos e filhos. Não viam a hora de voltar para casa e esquecer. Abraçámo-nos e prometemos voltar a ver-nos em breve, mas sabíamos que tal não sucederia. Trocaríamos no máximo alguns telefonemas para avaliar de vez em quando a crescente taxa de recíproco afastamento. Há anos que vivíamos as três em cidades diferentes, cada uma com a sua vida e um passado comum que não nos agradava. As raras vezes que nos víamos, preferíamos calar tudo aquilo que tínhamos a dizer umas às outras. Depois de ficar só, pensei que o tio Filippo me convidaria para sua casa, onde tinha estado hospedada nos dias anteriores. Mas não o fez. Tinha-lhe dito de manhã que precisava de ir a casa da minha mãe, tirar os poucos objectos de valor afectivo, cancelar o contrato do aluguer, da luz, do gás, do telefone, e ele provavelmente pensara que era inútil convidar-me. Afastou-se sem me cumprimentar, curvado, em passo arrastado, consumido pela arteriosclerose e por aquele imprevisto enfarte de velhos rancores que lhe faziam vomitar insultos fantasiosos.
Fiquei assim esquecida na estrada. A multidão dos parentes refluíra para a periferia de onde tinha vindo. A minha mãe fora enterrada por coveiros mal-educados no fundo de uma cave que cheirava mal, a cera e a flores murchas. Eu tinha dores de rins e cólicas no ventre. Decidi-me de má vontade: segui ao longo do muro quente do Orto Botanico até à Piazza Cavour, num ar que se tornava mais pesado devido aos gases dos automóveis e ao zumbido de sons dialectais que eu decifrava contra a vontade. Era a língua da minha mãe, que tentara inutilmente esquecer junto com tantas outras coisas suas. Quando nos víamos em minha casa, ou eu vinha a Nápoles para visitas rapidíssimas de meio dia, ela esforçava-se por usar um trabalhoso italiano, eu resvalava com aborrecimento, só para a ajudar, no dialecto. Não um dialecto alegre ou nostálgico: um dialecto sem naturalidade, usado imprecisamente, pronunciado de maneira forçada como uma língua estrangeira mal sabida. Nos sons que eu articulava pouco à vontade, havia o eco das disputas violentas entre Amalia e o meu pai, entre o meu pai e os parentes dela, entre ela e os parentes do meu pai. Perdia a paciência. Voltava rapidamente ao meu italiano, e ela acomodava-se no seu dialecto. Agora que estava morta e que teria podido apagá-lo para sempre, junto com a memória que veiculava, senti-lo nos meus ouvidos causava-me ansiedade. Usei-o para comprar uma pizza frita recheada de requeijão. Comi com prazer, depois de dias de quase jejum, em pé, deambulando por jardins desfigurados por miseráveis loendros e vagueando com o olhar por entre os numerosos velhos em grupos. O vaivém obsessivo de pessoas e automóveis por trás dos jardins decidiu-me a ir a casa da minha mãe. O apartamento de Amalia ficava situado no terceiro andar de um velho edifício coberto com tubos de andaimes Innocenti». In Elena Ferrante, Um Estranho Amor, 1995, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2005, ISBN 972-202-879-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Um estranho amor. Elena Ferrante. «Jovens desconhecidos, mas muito afectuosos, hábeis em conversa de circunstância, perguntaram-me como estava, como me corriam as coisas, que trabalho fazia»

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(…) O líquido quente que saía de mim sem que eu quisesse deu-me a impressão de um sinal combinado entre estranhos dentro do meu corpo. O cortejo fúnebre avançava para a Piazza Carlo III. A fachada amarelada do Reclusorio parecia-me conter a custo a pressão do Rione Incis que lhe caía em cima. As ruas da memória topográfica pareciam-me instáveis como uma bebida efervescente que, agitada, transborda em espuma. Sentia a cidade dissolvida no calor, sob uma luz cinzenta e empoeirada, e repetia mentalmente a história da infância e da adolescência que me impelia a divagar pela Veterinaria até ao Orto Botanico, ou pelas pedras sempre húmidas, cobertas de verdura podre, do mercado de Sant'Antonio Abate. Tinha a impressão que a minha mãe estava também a levar os lugares, mesmo o nome das ruas. Olhava a minha imagem e a das minhas irmãs no vidro, entre as coroas de flores, como uma fotografia tirada com pouca luz, inútil no futuro para a memória. Agarrava-me com as solas dos sapatos ao empedrado da praça, isolava o cheiro das flores colocadas sobre o carro, que chegava já podre. A certa altura receei que o sangue começasse a escorrer-me pelos tornozelos e tentei separar-me das minhas irmãs. Foi impossível. Tive de esperar que o cortejo virasse para a praça, subisse pela Via Don Bosco e se dissolvesse por fim num engarrafamento de carros e gente. Tios, tios-avós, cunhados, primos começaram a abraçar-se uns aos outros: pessoas vagamente conhecidas, modificadas pelos anos, que só tinham convivido durante a infância e talvez nunca mais se tivessem visto. As poucas pessoas de que me recordava nitidamente não tinham dado sinal de vida. Ou talvez estivessem ali, mas não as reconheci porque delas me tinham ficado, da época da infância, apenas pormenores: um olho torto, uma perna coxa, a cor levantina da pele. Em compensação, pessoas de quem ignorava até o nome puxaram-me de parte, contando velhos agravos que tinham recebido do meu pai. Jovens desconhecidos, mas muito afectuosos, hábeis em conversa de circunstância, perguntaram-me como estava, como me corriam as coisas, que trabalho fazia. Respondi: bem, tudo me corria bem, fazia banda desenhada, e eles como iam? Muitas mulheres grisalhas, completamente de negro excepto o rosto pálido, louvaram a extraordinária beleza e bondade de Amalia. Algumas abraçaram-me com tal força e vertendo lágrimas tão copiosas, que oscilei entre um sentimento de asfixia e uma insuportável sensação de humidade dos seus suores e das suas lágrimas que se espalhava em mim até às virilhas, ao início das coxas. Fiquei pela primeira vez satisfeita com o vestido escuro que tinha posto. Ia para me afastar quando o tio Filippo fez uma das suas. Na sua cabeça de setenta anos, que muitas vezes confundia passado e presente, um pormenor devia ter abatido barreiras já pouco sólidas. Começou a praguejar em dialecto em voz muito alta, perante o espanto de todos, agitando freneticamente o único braço que tinha.
Viram o Caserta?, perguntou dirigindo-se a mim e às minhas irmãs, com a respiração entrecortada. E repetiu várias vezes aquele apelido conhecido, um som ameaçador da infância que me provocou um sentimento de mal-estar. Depois acrescentou, apopléctico: pouca vergonha. No funeral da Amalia. Se aqui estivesse o teu pai, matava-o. Não queria ouvir falar de Caserta, puro aglomerado de inquietação infantil. Fingi que não era nada e tentei acalmá-lo, mas ele nem sequer me ouviu. Pelo contrário, apertou-me agitado com o seu único braço, como se me quisesse consolar pela afronta daquele nome. Então libertei-me desabridamente, prometi às minhas irmãs que chegaria ao cemitério a tempo para a cerimónia da sepultura e voltei à praça. Procurei em passo rápido um bar. Perguntei pelo quarto de banho e enfiei-me nas traseiras do estabelecimento, num pequeno compartimento fétido, com a retrete nojenta e um lavatório amarelado. O fluxo de sangue era abundante. Tive uma sensação de náusea e uma leve tontura. Vi na penumbra a minha mãe com as pernas escanchadas que abria um alfinete de segurança, desprendia do sexo, como se estivessem colados, panos de linho ensanguentados, se voltava sem surpresa e me dizia com calma: sai, o que fazes aqui? Comecei a chorar, pela primeira vez desde há muitos anos. Chorei batendo com uma mão quase a intervalos regulares no lavatório, como para impor um ritmo às lágrimas. Quando dei conta, parei, limpei-me o melhor que pude com os lenços de papel e saí em busca de uma farmácia. Foi então que o vi pela primeira vez. Posso ser-lhe útil?, perguntou quando fui esbarrar com ele; poucos segundos, o tempo de sentir de encontro ao rosto o tecido da sua camisa, notar a tampa azul da caneta que lhe saía do bolsinho do casaco e, entretanto, registar o tom duvidoso da voz, um cheiro agradável, a pele nua do pescoço, uma massa densa de cabelos brancos em perfeita ordem». In Elena Ferrante, Um Estranho Amor, 1995, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2005, ISBN 972-202-879-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Um estranho amor. Elena Ferrante. «Tínhamos obtido rapidamente os documentos necessários, as autorizações nulas de não sei quantas autoridades competentes, verdadeiras ou inventadas, um funeral de primeira classe e, o mais difícil, um lugar no cemitério»

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(…) Observei demoradamente, com desagrado, as suas pernas esverdeadas, extraordinariamente jovens para uma mulher de sessenta e três anos. Notei com o mesmo desagrado que o soutien era muito diferente dos já fora de moda que costumava usar. As copas eram feitas de renda delicadamente trabalhada e deixavam ver os mamilos. Eram ligadas uma à outra por três Vbordados, marca de um estabelecimento napolitano de dispendiosa roupa interior para senhora, o das irmãs Vossi. Quando mo restituíram, juntamente com os brincos e os anéis, cheirei-o demoradamente. Tinha o odor irritante do tecido novo. Durante o funeral surpreendi-me a pensar que finalmente já não tinha a obrigação de me preocupar por causa dela. Notei de imediato um fluxo tépido e senti-me molhada entre as pernas. Estava à cabeça de um longo cortejo de parentes, amigos, conhecidos. As minhas duas irmãs apertavam-se a mim, uma de cada lado. Segurava uma por um braço, porque receava que desmaiasse. A outra agarrava-se a mim como se os olhos demasiado inchados a impedissem de ver. Aquela descarga involuntária do corpo assustou-me como se fosse a ameaça de uma punição. Não tinha conseguido verter uma única lágrima: não tinham brotado ou talvez não tivesse querido que brotassem. Além disso, fora a única a dizer algumas palavras para justificar o meu pai, que não mandara flores e não viera ao funeral. As minhas irmãs não tinham escondido a sua desaprovação e agora pareciam empenhadas em demonstrar publicamente que tinham lágrimas suficientes para chorar também as que nem eu nem o meu pai estávamos a verter. Sentia-me sob acusação. Quando o cortejo foi acompanhado durante um bocado por um homem de cor que carregava aos ombros algumas telas montadas numa armação, a primeira das quais (a que ficava visível sobre as suas costas) representava toscamente uma cigana seminua, esperei que nem elas nem os parentes dessem conta. O autor daqueles quadros era o meu pai. Se calhar estava a trabalhar nos seus borrões naquele momento.
Tinha feito e continuava a fazer cópias sobre cópias daquela cigana odiosa, vendida pelas ruas e nas feiras da província há dezenas de anos, satisfazendo por poucas liras, como sempre, os pedidos de horríveis quadrinhos para salas pequeno-burguesas. A ironia das linhas que conjugam horas para encontros, para separações, para velhos rancores, mandara ao funeral da minha mãe não ele, mas aquela sua pintura elementar, detestada por nós, suas filhas, mais do que detestávamos o seu autor. Sentia-me cansada de tudo. Desde que tinha chegado à cidade nunca mais parara. Durante alguns dias acompanhara o meu tio Filippo, o irmão da minha mãe, nas voltas pelo caos das repartições, entre pequenos mediadores capazes de apressar os tramites burocráticos dos processos ou experimentando nós mesmos, depois de longas filas nos balcões, a disponibilidade dos empregados para ultrapassar obstáculos intransponíveis em troca de avultadas gorjetas. Por vezes o meu tio tinha conseguido obter alguns resultados ostentando a manga vazia do casaco. Perdera o braço direito já em idade avançada, aos cinquenta e seis anos, trabalhando no torno de uma oficina da periferia, e desde então usava aquela sua invalidez ora para pedir favores, ora para augurar a quem lhos negava a mesma desgraça. Mas conseguira os melhores resultados desembolsando muito dinheiro que não era devido. Assim, tínhamos obtido rapidamente os documentos necessários, as autorizações nulas de não sei quantas autoridades competentes, verdadeiras ou inventadas, um funeral de primeira classe e, o mais difícil, um lugar no cemitério.
Entretanto, o corpo morto de Amalia, minha mãe, retalhado pela autópsia, tinha-se tornado cada vez mais pesado à força de ser arrastado com nome e sobrenome, data de nascimento e data de morte, perante empregados ora grosseiros, ora simpáticos. Sentia a urgência de me desembaraçar dele e, no entanto, ainda não suficientemente extenuada, quisera levar ao ombro o caixão. Tinham-mo permitido depois de muita resistência: as mulheres não levam caixões ao ombro. Fora uma péssima ideia. Como aqueles que transportavam o féretro simultaneamente comigo (um primo e os meus dois cunhados) eram mais altos, receara durante todo o percurso que a madeira penetrasse entre a minha clavícula e o pescoço, junto com o corpo que continha. Quando o caixão foi depositado no carro e este se pôs em movimento, tinham bastado poucos passos e um alívio culposo para que a tensão se precipitasse naquele fluxo secreto do ventre». In Elena Ferrante, Um Estranho Amor, 1995, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2005, ISBN 972-202-879-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT