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domingo, 24 de janeiro de 2016

O Livro Perdido das Origens de Portugal. 1089. Emílio Miranda. «Só então abandonou o seu esconderijo, atravessou a nave apressadamente e saiu para a rua. Chamava-se Marta e não tinha ainda 20 anos. Vivia ali bem perto…»

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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«(…) Era simultaneamente maravilhoso e caótico, repleto de aromas desconhecidos e de cores tão vivas que refulgia sobre elas o brilho intenso do So1. Havia vermelhos tão rubros que julgava impossível recriá-los fora da natureza, laranjas e amarelos tão vivos que quase cegavam e, contudo, enchiam a alma de um êxtase desconhecido e mágico. A rapariga fazia maravilhas. Era tão maleável como um junco e contorcia-se, usando as mãos, oh, Céus, a boca!, e as aduelas das pernas que o subjugavam, conduzindo-o ao profundo e quente vale onde arremetia e arremetia e arremetia… O remorso confundiu-se com o prazer. O prazer confundiu-se com a dor! Irmão Júlio. Irmão Júlio, onde estais? A voz arrancou-o à perdição e ele explodiu de pânico. Tinha cedido aos avanços da rapariga e agora via-se estendido a seu lado, no interior da igreja. Essa constatação arrancou-lhe um dolorido sentimento de remorso e culpa. Tendes de vos esconder. Depressa!, sussurrou, enquanto compunha o hábito à pressa. Onde estava, o melhor era deitar-se com o rosto encostado ao pavimento frio, como se estivesse em penitência. Quanto à mulher, viu-a escorregar pelas sombras, desaparecendo atrás do altar. Ah, estais aqui! Já corri tudo à vossa procura. Tratava-se do irmão Daniel. Ajudava o irmão Germano nas cozinhas, onde ele era às vezes chamado a realizar tarefas. Provavelmente o irmão cozinheiro mandara-o à sua procura, pensou contrafeito, desejando que a penumbra ajudasse a disfarçar a sua turbação. Perdoai me, disse. Entrei para rezar e esqueci-me das horas. Vinde ajudar-me. Sim, sim. Estais bem? Não sabia que vos entregáveis às mesmas práticas que o irmão Inocêncio.
Inocêncio era o monge mais velho e não era raro ser encontrado estendido no chão da sua cela. Muitos questionavam-se se não era ali que dormia muitas noites. Sim, estou bem. Temo ter perdido a noção do tempo. Perdoai-me. Sigo-vos de imediato, balbuciou, evasivo, erguendo-se. Por momentos, lutou contra a perturbação, alisando o hábito com as mãos trementes, após o que seguiu o companheiro, cambaleante. A rapariga esperou um pouco mais, até perceber que o silêncio tinha retornado ao interior da igreja. Só então abandonou o seu esconderijo, atravessou a nave apressadamente e saiu para a rua. Chamava-se Marta e não tinha ainda 20 anos. Vivia ali bem perto com a irmã, o cunhado e a sobrinha, arrendatários do mosteiro». In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O Livro Perdido das Origens de Portugal. 1089. Emílio Miranda. «O que... quereis?, balbuciou, temeroso de que e voz não lhe obedecesse. ... parecia-lhe estranha e alheia, como provinda de um outro que não ele»

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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«(…) Os perfumes da floresta envolviam-no, misturando-se estranhamente com a dor pulsante no peito. Havia um aroma a rosmaninho e alecrim, que era estonteante e simultaneamente perturbador. Como se, de algum modo, houvesse na sua memória uma lembrança que o associasse à ideia da morte. Fechou os olhos. Sentia a haste da flecha cravada no peito. Balançava ao sabor dos solavancos, como se de um junco se tratasse. Era áspera e fria, e a consciência de que podia causar-lhe a morte era tão intensa que se sobrepunha à dor física. Pela primeira vez, deu-se conta de como era pungente a sua vontade de viver, apesar das contrariedades da vida! Mas o desejo esvaiu-se-lhe quando voltou a perder os sentidos. Na verdade, como pudera ser ingénuo ao acreditar que havia anjos com rosto de mulher ou com corpos ostensivamente femininos. Era ela e estava ali! Tinha-o seguido no interior da igreja. Uma estranha luminosidade parecia irradiar da sua presença. Talvez fosse o seu sorriso tão insinuante, quente e possessivo que não conseguia ignorá-1o. Sentiu o calor subir-lhe pelos artelhos até se cravar na zona genital. Um nó de desejo formou-se-lhe na boca do estômago, subindo depois até à garganta. O que... quereis?, balbuciou, temeroso de que e voz não lhe obedecesse.
Mesmo depois de se ter ouvido, ainda duvidou que fosse a sua: parecia-lhe estranha e alheia, como provinda de um outro que não ele. As palavras pareceram soar como pequenos guizos pela nave da igreja. Subitamente sentia-se acometido por um estranho frio, feito de receio e inquietação. Nada de mais, irmão. Posso ajoelhar-me ao vosso lado e rezar convosco? A voz era suave como algodão, mas nem por isso o sossegou. Pelo contrário, intensificou o arrepio que se lhe cravara na nuca. N... S... Sim, foi apenas capaz de dizer. Sentia-se tão atrapalhado que era incapaz de elaborar um raciocínio coerente. Meu Deus, pediu. Dai-me o dom da palavra, para que repudie esta rapariga e resista à tentação. Deus pareceu não o escutar, ou então escarnecia da sua fraqueza, através dela. Não ou sim? Decidi-vos. Ouviu-a desafiá-lo e pôde perceber, apesar da penumbra reinante, que sorria provocadoramente. Sim.
A rapariga ajoelhou-se então e por momentos pareceu rezar. Ele, por mais que o desejasse, não conseguia abstrair-se da sua presença. Do seu cheiro selvagem. Fechou os olhos com força, desejoso de ser capaz de viajar de novo pelo mesmo cenário maravilhoso de há pouco. Mas então, eis que a mão da mulher procurou a sua. Sentiu-a quente e ansiosa e, apesar de se lhe querer opôr, não foi capaz. A mulher segurou-lhe na mão e conduziu-o, primeiro ao seio, cheio e morno, depois pela pele da barriga até ao ventre, e mais abaixo. A mulher soltou um suspiro. (Ou teria sido ele?) Sentiu-a tão húmida que não conseguiu conter-se. O seu sexo estava tão duro que lhe doía e parecia saltar sob o manto, como um estranho animal selvagem, desejoso de se libertar. Deu graças pela escuridão que os envolvia. Viu-se de novo no mesmo lugar maravilhoso e, aflito, olhou em volta procurando uma vez mais a mãe. Desta feita, encontrava-se no meio de uma praça repleta de gente, mas não conseguia divisar entre tantos desconhecidos o rosto por que ansiava. Indiferente à sua ansiedade, todos pareciam entretidos com as suas preocupações quotidianas, graves ou comezinhas, mas que lhe eram estranhas e alheias. Sentiu-se acometido de grande desânimo. Foi então que, surgindo do meio da multidão, viu avançar aquela que era o anjo dos seus sonhos e que, sorrindo, lhe disse: estou aqui, meu filho. A paz entrou no seu coração. Mas eis que de repente o rosto conhecido se transformou noutro, também belo, mas estranho. Uns lábios rubros entreabriram-se para proferir: um dia, também tu estarás aqui! Que significado teriam aquelas palavras? E que sítio era aquele? Seria o Paraíso? Ou apenas um lugar terreno, semelhante a tantos que desde a mais tenra meninice ouvia serem evocados pela voz de trovadores, bufarinheiros, peregrinos e viajantes?» In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Livro Perdido das Origens de Portugal. 1089. Emílio Miranda. «Quem te fez isto?, insistiu a mesma voz, sem lhe responder. O meu senhor..., furioso comigo…, respondeu, necessitado de piedade. “Malditos”. O comentário genérico denotava à opinião de alguém que não temia a regra de um senhor…»

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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«(…) A mãe sorria-lhe no sonho, tinha a certeza de se tratar de um sonho, pois não havia lembrança mais vincadamente marcada na sua memória do que a do dia da sua morte. Tinha sido uma morte serena, mas no derradeiro momento pode vislumbrar nos seus olhos parados as lágrimas de dor por o deixar. E depois, como se não fossem suficientes, ouviu-a proferir, num sussurro: Meu filho, pedirei por ti a Deus! Tinha a certeza de que o pedido fora feito. Mas onde estava Deus? Um ruído arrastado fê-lo ficar alerta. Havia alguém na penumbra, além dele. Alguém que se deslocava como se não quisesse ser ouvido. Acaso tratar-se-ia daquela que o tentava à perdição? Porque não lhe saía do pensamento? Porque teimava em povoar-lhe os sonhos? Ou seriam antes pesadelos? Havia alturas em que àquele, maravilhoso, se contrapunha um outro lugar: de chamas e tormento que o lançavam num frenesim de pavor. E, por mais que gritasse, acabava sempre por ser levado por criaturas de asas negras, que o alçavam no ar para o lançarem, momentos volvidos, no interior de um enorme caldeirão, no qual ferviam todas as criaturas miseráveis. Como ele! O pânico assaltou-o. O vulto avançava pela nave deserta e ele desejou que se tratasse de um irmão em busca de recolhimento para orar. Um olhar mais atento fê-lo duvidar. O movimento era fluido e ondulante e pela primeira vez teve um vislumbre que ia ao encontro dos seus maiores receios. O Demónio parecia ter conseguido insinuar-se no interior do Paraíso. E ele temeu!
Uma vez mais, sentiu-se acometido pela dor da perda que se confundia com aquela outra, física mas impalpável, e, incapaz de exercer sobre ela o seu domínio, a sua mente viajou de novo até àquele fatídico dia em que a viu cair de cama, para não mais se erguer, aquela que tanto lhe queria. Fora o dia mais triste da sua vida, e revisitá-lo era sempre um calvário angustiante. Era como se parte de si morresse com ela! Por isso, avistá-la agora ali a sorrir-lhe, como se tudo o resto não tivesse passado de um pesadelo, encheu-lhe o coração de júbilo e ele desejou abraçá-la, poder explicar-lhe que se em pouco tempo se tornara o pajem do seu senhor, não fora por desobediência mas pela necessidade de sobreviver, já que não lhe restara outra opção, após a sua morte. Depois da sua partida, passara a contar apenas consigo próprio. E o mundo tornara-se, de repente, um lugar inesperado e perigoso. Todavia, quando se aprestava a explicar-lhe tudo isso, aquele anjo em que reconhecia as feições da mãe ergueu-se na bruma da tarde e, depois de lhe acenar uma última vez, começou a afastar-se, lenta mas inexoravelmente, até desaparecer por fim num ponto de luz, numa espécie de estrela que ficou a brilhar no firmamento. Ainda gritou, esbracejando, mas depois, incapaz de conter as emoções, sentiu as lágrimas a descerem-lhe pelo rosto, as forças a faltarem-lhe nas pernas, e caiu por terra, sem ânimo nem vontade para viver.
Sentiu primeiro a dor, depois, a mão que o abanava acompanhada pela voz distante que tentava arrancá-lo à inconsciência. Mas o mundo dos mortos era estranho, escuro e irreal e aquela voz era decerto a do guardião dos portões do Céu. Ou seria do Inferno? Manteve-se estoicamente afundado no limbo de irrealidade em que se encontrava, temendo confrontar-se com a verdade. Rapaz... Quem te fez isto?, insistiu a voz. Era quente e profunda. Abriu os olhos e uma luz intensa perfurou-lhos, como um ferro em brasa. Estava às portas do Inferno! Deus, porque me haveis recusado?, não se absteve de pensar. Quem... quem sois?, balbuciou. A dor era enorme, excruciante. Quem te fez isto?, insistiu a mesma voz, sem lhe responder. O meu senhor..., furioso comigo…, respondeu, necessitado de piedade. Malditos. O comentário genérico denotava à opinião de alguém que não temia a regra de um senhor, talvez por não se submeter a nenhum ou, então, por lhe ser esquivo. Anda, que vou levar-te até um local seguro... Sentiu então que era pegado ao colo e acreditou que estava a ser carregado não por um demónio, mas por um anjo..., pois os demónios não eram providos de tanta compaixão.
Pendente da cintura, algo oscilava ao ritmo das passadas. Podia ouvir o som abafado de uma qualquer ferramenta, batendo cavamente contra a perna do seu salvador. Torcendo ligeiramente o pescoço, constatou que se tratava de um machado, cujo cabo comprido deixava adivinhar a profissão de lenhador. Além disso, tanto quanto lhe era possível verificar, não havia asas irrompendo dos ombros, como seria suposto num anjo. Por último, o cheiro forte a suor, prova de alguém que trabalhava arduamente, afastou qualquer dúvida que pudesse subsistir. Suspirou, fechando os olhos, deixando-se levar sem protesto. Não era um anjo, nem era a mãe, com quem julgara ter sonhado, mas um homem, e carrega-o tão carinhosamente ao colo que o pequeno não pôde deixar de sentir que havia muito tempo não era tratado com tanta piedade. Sentiu simultaneamente alívio e decepção. Se, por um lado, verificava que estava vivo, por outro, via desfeita toda a expectativa de se encontrar de novo em presença da mãe». In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

O Livro Perdido das Origens de Portugal. 1089. Emílio Miranda. «Do seu nascimento nada sabia, visto que a progenitora nunca lho referira, ou ele nunca sentira qualquer curiosidade por saber algo. Pois o que interessam as minudências da natividade, se todos, de uma ou outra forma, acabam por ser semelhantes?»


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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«(…) Um mosteiro é, na sua essência, uma igreja onde os monges se entregam à oração enquanto laboram. Um local que permite a um homem afastar-se do mundo mundano, numa busca ansiosa pelo afago de Deus. Isto, quando não acontece que a tentação ande à solta, na figura de um anjo em forma de mulher. Há dias que a rapariga o aliciava, mas ele conseguira até então furtar-se aos seus avanços. Até quando? Não podia negar o efeito que ela exercia sobre si. O seu sorriso era insinuante e o ondular do seu corpo hipnotizava-o. Ainda há pouco se cruzara com ela lá fora e não fora capaz de mais do que fugir para o interior do templo onde se mantinha ajoelhado. A noção de pecado estava tão enraizada na sua alma que o sentimento de agonia era quase físico. Mas a carne era fraca, e um corpo feminino, uma tentação demasiado forte para que um homem se lhe conseguisse furtar. Ainda mais quando o corpo era jovem e palpitava de energia, calor e ânsia por se perder. De que modo conseguiria resistir-lhe?
A mulher assemelhava-se a um anjo e sorria-lhe! Na sua dor reconheceu as feições daquela que o trouxera ao mundo e que Deus lhe levara ia para três anos. E apesar de a ter ouvido muitas vezes dizer de si que era uma mulher desengraçada, sempre a tivera por bela, talvez porque é assim que normalmente um filho feliz vê a própria mãe; mas agora, mais do que nunca, as suas feições resplandeciam, irradiando sobre ele uma cálida luz que o deixou perplexo. Incapaz de dominar as emoções que o assaltavam, imaginou-se a recordar os anos passados na sua companhia. Enquanto fora viva, aquela que o gerara dedicara-lhe uma atenção permanente, e a sua existência, apesar de simples e desprovida de luxos, havia sido, tanto quanto possível, aprazível. Não obstante as dificuldades, naturais na sua condição de mulher só e entregue a si própria, nunca lhe faltara com alimento ou carinho, nem alguma vez deixara transparecer qualquer réstia de amargura ou desgosto pela vida que os Céus lhe haviam reservado. Não se lembrava de a ter visto desdenhar da sorte que lhe calhara. A mãe, a quem os pais haviam dado o nome de Ermelinda, era uma mulher calada, triste tanto quanto é comum ser uma mulher cuja existência foi desde sempre a de dedicar-se ao trabalho e à labuta, desde a alva até à noite. Era criada de servir no solar dos Barrosões, onde ele próprio tinha nascido num dia não muito longínquo.
Do seu nascimento nada sabia, visto que a progenitora nunca lho referira, ou ele nunca sentira qualquer curiosidade por saber algo. Pois o que interessam as minudências da natividade, se todos, de uma ou outra forma, acabam por ser semelhantes? Uma criança anseia apenas pela liberdade e pelos longos dias, até perceber que existem alguns que acabam por ser extensos de mais. Isso conseguiu ele perceber, apesar da sua pouca idade, não por si, pois tinha-os sempre como curtos e velozes, mas pela mãe, precisamente, que tantas vezes via com ar cansado, mesmo que não se queixasse ou lamuriasse, como outras a quem a sorte bafejara e nunca cessavam com as queixas e lamentos. Protegera-o sempre de todas as vicissitudes, como uma galinha protege o seu pinto. Apenas quando se referia ao senhorio pressentia no seu olhar uma espécie de inquietação e, de uma forma que nunca compreendera, mantivera-o sempre afastado dos poderosos que habitavam o castelo, principalmente dos olhares e das influências do fidalgo, referindo-lhe insistentemente que devia manter-se longe da sua mão. Porque seria, não o suspeitava. Era verdade que o jovem fidalgo não granjeava as simpatias, principalmente da gente pequena, a quem tratava com modos rudes e até, a mor das vezes, de forma desumana. Mas, talvez porque o esforço maternal tenha sido coroado de êxito, nunca pudera sentir na pele os efeitos dos seus abusos. Isso acontecera apenas após a sua morte.
Sentindo-se abraçado pela frescura daquele lugar sagrado, o jovem monge orava. Estava ajoelhado aos pés do altar de Santo Ildefonso, para onde fugia agora a cada passo. No entanto, nem ali parecia encontrar sossego. Bastava fechar os olhos para que o rosto tomasse forma na sua mente. Poderia passar por angélico, não fosse a forma tentadora como lhe sorria... Mas ver um anjo com feições femininas era algo que estava para além da sua imaginação. Tanto quanto sabia, os anjos eram seres, se não masculinos, como alguns pintores tinham por hábito representar, pelo menos andróginos; desprovidos de sexo, e de feições anónimas, se bem que perfeitas, como criaturas divinas que eram. Por isso, ver aquele de formas tão vincadamente feminis, de seios fartos oscilando tentadoramente, só podia ser interpretado como uma manifestação diabólica, uma insidiosa tentativa de corrupção da sua alma. Havia uma parte de si que lhe doía e ele não conseguia perceber qual. Tinha a sensação de que era o peito, mas tocou-se e verificou que estava incólume». In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sábado, 25 de julho de 2015

O Livro Perdido das Origens de Portugal. 1089. Emílio Miranda. «Chegaria algum dia a desvendá-los? E àqueles que a cidade encerrava em si? Dividido entre a incerteza e o fascínio, sentiu-se de repente assaltado por um súbito temor. Porquê aquela impressão de que algo não estaria bem?»

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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«(…) Sentiu não apenas o corpo devassado, mas para sempre a alma e o amor-próprio, dois nomes da mesma coisa que se chama identidade. A palha cheirava a urina e excrementos e foi com esse cheiro que ela ficou para sempre, por mais que se lavasse. Até nos sonhos e pesadelos tinha o mesmo cheiro; a tanto chega a repulsa por um acto de tal modo vil e ignóbil. Tudo se resumira a um única vez, mas tal tinha bastado para mudar a forma como via o mundo em que vivia e para mudar o seu definitivamente. Agora, enquanto chegava a si o corpinho morno do pequeno, fruto apenas do seu amor sentiu por momentos que apenas o cheiro cálido que dele emanava era capaz de afastar aquele outro, pútrido e asqueroso, que lhe ficara entranhado na alma. Silenciosamente se entregou ao pranto, desejando que Deus não permitisse jamais que outra mulher pudesse sentir o mesmo: sentimentos que se têm em momentos de desespero, pois, a manifestar-se, o poder divino devia ter em conta todas as vergonhas acontecidas no mundo, e não apenas aquelas. Â todas as que resultavam da prepotência e do abuso podia ser dado o nome de violação. Deus, suplicou, protege-me e protege o meu filho, por tudo quanto tens como mais sagrado! Ajuda-me a criá-lo; a ser o seu amparo e protecção... Talvez Deus não a tivesse escutado, pois a mulher morreria antes de o filho perfazer seis anos.

Ressurreição, Fevereiro/Março de 1089
Diz-se que enquanto um homem anda sobre a Terra, tem de estar em algum lugar. Esta parece ser uma verdade nua e crua, para a qual não haverá contestacão. Até porque, em última instância, espera a todos o lugar definitivo, onde finalmente repousam todos quantos alguma vez viveram. Mas os lugares são como os dias: nem sempre agradam de igual modo, e se há aqueles que poderiam ser comparáveis no grau de preferência, aos de sol, límpidos e serenos, a estes contrapõem-se, invariavelmente, os de borrasca ou tempestade, se outros, piores, não houver a que se possam chamar Inferno. Pois também estes, aziagos e de má memória, se repetem, em toda a existência, mais do que o desejado. Talvez por isso, supõe-se, Deus tenha conferido à Humanidade a capacidade de sonhar. Se é certo que não existe consenso quando se trata de apurar se esta capacidade é verdadeiramente uma benesse, ou se tem sido ela a responsável pela perdição de tantos, a verdade é que é o sonho a única forma de o homem se furtar às agruras da vida. A mente, o mais veloz alazão que sobre a Terra pode ser achado, mesmo não sendo provido de cascos e de crinas, nem de asas, como já se viu representado, está sempre disposto a partir à desfilada, levando consigo o corpo que cada um transporta, através de lugares que podem ser reconhecidos deste mundo ou de outros, além de todos os que possam ser imaginados...
Aquele era mágico! Tratava-se de uma cidade fantástica, de altas muralhas e grandiosos palácios, que se estendia a perder de vista. Em torno havia pomares, olivais, hortas e searas, ondulando à brisa cálida da tarde. Ou talvez não fosse da tarde, mas a verdade é que tinha essa ideia. Talvez porque o Sol aparentava ter passado o pico mais alto do firmamento, e descia agora em direcção à longínqua linha do horizonte. Essa linha, tão distante que se confundia com o céu, era também ela um local de múltiplos mistérios. Chegaria algum dia a desvendá-los? E àqueles que a cidade encerrava em si? Dividido entre a incerteza e o fascínio, sentiu-se de repente assaltado por um súbito temor. Porquê aquela impressão de que algo não estaria bem? Andava às voltas com esta nova dúvida quando viu o vulto surgir das sombras e caminhar na sua direcção. Alguns passos andados, tomou a forma de um ser etéreo, com feições de mulher, de cujas costas irrompiam asas. Maravilhado, duvidou!» In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

sexta-feira, 19 de junho de 2015

1089. O Livro Perdido das Origens de Portugal. Emílio Miranda. «Não fosse aquele misterioso sinal, implantado na nádega, e talvez fosse capaz de superar todas as demais amarguras. Ela sabia como sinais daqueles eram às vezes interpretados como marcas do Demo…»

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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«A mulher estava de cócoras, à cabeceira do leito, segurando com tenacidade o lençol que havia sido atado aos dois postes da cama. Tratava-se de uma enxerga simples, pouco mais do que um estrado, cuja única vantagem residia precisamente na cabeceira encimada pelos dois grossos pilares, aos quais estavam atadas as extremidades do pano. Este amparo tinha duas funções: ajudá-la a segurar-se e a fazer força. Por baixo de si, havia um ninho de lençóis, preparados para acolherem sem dano a pequena cabecinha do recém-nascido quando este irrompesse no mundo, depois de transpor a barreira dolorosamente dilatada da vulva da progenitora. A auxiliar a jovem parturiente encontrava-se Cesaltina, a parteira. Tinha pelo menos o dobro da idade da mulher mais jovem e já tinha assistido a metade dos nascimentos ocorridos por toda aquela região nos últimos 20 anos. Atenta às contracções, ia instruindo a jovem, dizendo-lhe quando devia fazer força e quando devia poupar as energias. O parto estava iminente.
Vá, filha, em breve poderás descansar. A mulher anuiu. O seu rosto estava rubro, as suas veias, tão dilatadas que pareciam prestes a explodir. Cesaltina limpou o suor que lhe cobria as faces, descendo pelo peito desnudo, com um pano húmido, esboçando um sorriso de encorajamento. O casebre escuro cheirava a fumo e a mofo e era um lugar triste, desprovido de qualquer beleza ou encanto. Apesar de não divergir da maioria, não deixava de acentuar o desânimo e a tensão. Por isso a parteira insistiu, desta feita num tom, tanto quanto possível, mais meigo: Agora, filha, é até a criança nascer... Toda a força. À sua frente, a visada correspondeu, esboçando um sorriso de alento, por entre o esgar condoído. Em poucos minutos, o nascimento consumou-se. A parteira, segurando delicada mas firmemente a criança, cortou por fim o cordão umbilical e, assentando-lhe de seguida a palmada que o marcaria para vida, proferiu: Deus te abençoe e proteja. Que a vida que agora começa te seja branda, como um caminho plano e desprovido de escolhos..., um longo caminho que te conduza ao Céu...
O pequeno desatou num berreiro. Era um rapaz e parecia saudável, pelo menos tendo em conta a força com que berrava. Cesaltina não evitou o comentário: Ah, és um palmo de carne valente. Vens ao mundo determinado a vencer! A mãe, momentaneamente alquebrada, abriu os olhos e sorriu. Tens um homem, e é perfeito, ouviu a parteira, dirigindo-se-lhe. A mulher sorriu uma vez mais, pensando para consigo. É pena que não lhe possa dizer quem é o pai. Foi quando o limpava a uma toalha lavada que a parteira vislumbrou o sinal, em forma de borboleta, que lhe marcava a nádega esquerda. Onde é que ela já vira um sinal semelhante?, questionou-se, disfarçando a inesperada pontada que a assaltou.
Depois de a parteira ter saído, com a promessa de regressar mais tarde, Ermelinda pôde enfim chorar. Chorava de alegria, mágoa e apreensão, tudo junto. Alegria pelo filho escorreito que acabara de ter, mágoa e receio pelas circunstâncias em que havia sido concebido. A violação tinha ocorrido nove meses antes, e o mais certo era o seu autor nem suspeitar das consequências do seu acto. Não fazia parte do pensamento de muitos homens preocuparem-se com o resultado das suas acções, e muito menos um fidalgo que praticamente não tinha contas a prestar a ninguém, senão ao seu rei. E o rei estava demasiado longe para ouvir os lamentos dos seus mais pequenos súbditos. Na verdade, imaginar o rei era quase o mesmo que imaginar a Deus, sentado no seu trono, no alto dos céus. Claro que Deus ainda era conhecido pelo seu poder de tudo ver e a tudo acudir, se bem que, tal como a maioria, também a ela fosse difícil perceber como uma única entidade conseguia acudir a tanta gente ao mesmo tempo. Talvez por isso houvesse tantos pedidos à espera de resposta. Também ela pedira para que aquela criança não viesse a ser gerada, mas logo que começou a senti-la, apaixonou-se por ela e, então, temerosa que Deus tivesse escutado o seu pedido anterior, receou pela sua vida. Neste caso, Deus parecia tê-la ouvido, ou então talvez o seu pedido inicial continuasse à espera. O seu bebé era perfeito e apresentava um ar sadio que a emocionou. Não fosse aquele misterioso sinal, implantado na nádega, e talvez fosse capaz de superar todas as demais amarguras.
Ela sabia como sinais daqueles eram às vezes interpretados como marcas do Demo e, em locais onde a supersticção estava mais enraizada, não era raro que o povo atemorizado, movido por um qualquer capricho, resolvesse atentar contra a integridade dos infelizes nascidos com eles. Enquanto amamentava, não conseguiu deixar de lembrar-se das circunstâncias em que o pequeno rebento havia sido concebido. O fidalgo regressava de uma festa com os amigos, ao cair da noite, quando a avistou no pátio do castelo. Tinha vindo despejar os restos da refeição da noite nas escudelas do cão e aprestava-se a entrat. Um instante mais e teria passado despercebida, pensou com mágoa, mas não valia a pena entregar-se agora a lamentações. Uma mulher é a criatura mais desamparada que há sobre a Terra, e ela ainda mais, por não ter ninguém que a proteja do assalto de mal-intencionados, ainda mais seu senhor sendo.
Mas talvez fosse melhor assim, pois o nobre era capaz de o matar, fosse pai, irmão ou noivo. Ela não passava de uma criada de baixa condição, por quem ele não teria qualquer clemência. Atém disso, tinha-se por feia, razão por que nenhum homem havia ainda atentado nela, e o nobre com certeza que também não, até àquela ocasião. – Rapariga!, ecoara a sua voz, e ela retesara-se, assustada. Os seus acessos de mau humor eram sobejamente conhecidos para que os ignorasse. Meu senhor? Anda cá. O que fazes aqui fora, a estas horas? Fui deitar os restos aos cães, meu senhor, e regressava para dormir... Dormir, hem? Ela bem percebera, no seu olhar aceso, a luxúria e o desejo, pobre cego cuja visão o vinho toldara... Não fosse estar ébrio e jamais atentaria nela! Por favor, meu senhor, deixai-me regressar, pois estou muito cansada e devo levantar-me antes da alvorada...» In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT