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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Manuel António Pina. Poesia. «É pelo hálito que te conheço no mesmo escultor modelou os teus ouvidos e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos…»

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OS TEMPOS NÃO

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.

Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).

As palavras esmagam-se entre o silêncio

que as cerca e o silêncio que transportam.

 

É pelo hálito que te conheço no

mesmo escultor modelou os teus ouvidos

e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos

fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

 

Falo contigo de mais assim me calo e porque

te pertence esta gramática assim te falta

e eis por que não temos nada a perder e por que é

 cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

In Manuel António Pina, Ainda não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde,  Assírio & Alvim, 1974,  ISBN: 978-972-079-293-8.

Cortesia de Assírio&Alvim/JDACT

JDACT, Liberdade, Manuel António Pina, 25 de Abril, Democracia,

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Pássaro da Cabeça. Manuel António Pina. «Sou o pássaro que canta dentro da tua cabeça, que canta na tua garganta que canta onde lhe apeteça»

Cortesia de Wikipedia (Ilda David)

«Um poema é uma coisa sem importância»

A Ana quer
«Ana quer
nunca ter saído
da barriga da mãe.
Cá fora está-se bem,
mas na barriga também
era divertido.

O coração ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.

O que a Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:
não ter nada que fazer
senão ser pequena e crescer
e devez em quando nascer
e voltar a desnascer».

Era uma vez
«A Ana lê muito devagar,
só uma letra de cada vez.
Enquanto ela está a só uma letrar,
a Sara letra duas ou três.

A Ana tem tempo de lá chegar.
Os pés, os tês, os bês, os mês,
não fogem se ela se demorar.
A Sara acaba e começa outra vez.

A Ana 1ê e põe-se a pensar
nos quês, nos porquês, nos para quês,
e volta atrás para confirmar
porque, afinal de contas, talvez.

A Sara prefere entrar
nas palavras, nos desenhos, e ficar.
Existir nas histórias, em vez
de ver, viver; em vez

de pensar, de pausar, de perspicar,
ser ela a ser o que o herói fez.
Sai dos livros sem sair do lugar
e corre o mundo de lés a lés.

A Sara lê assim, a Ana mais devagar,
e depois ficam as duas a conversar.
A Ana conta: era uma vez…
E a Sara: era eu uma vez...»
Poemas de Manuel António Pina, in ‘O Pássaro da Cabeça’

In Manuel António Pina, O Pássaro da Cabeça, 1983, ilustração de Ilda David, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-072-679-7.

Cortesia de PEditora/JDACT

sábado, 7 de novembro de 2015

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Por isso Oliveira de Figueira não terá a homenagem que merece. Nenhum banco se lembrará de cunhar em moeda, nenhum estudante pedirá uma bolsa à Gulbenkian, nenhuma Câmara lhe porá o nome numa rua, nem a estátua numa praça»

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Louvação de Oliveira de Figueira
«Em pleno quinto centenário dos Descobrimentos, talvez seja a altura de trazer ao lume (brando, brando...) da crónica o inesquecível señor (com ñ) Oliveira de Figueira. Os leitores de Tintin conhecem-no bem de Os charutos do faraó e de outros episódios da epopeia de Hergé. Juntamente com Pedro João Santos, físico famoso e professor da Universidade de Coimbra que, em A estrela misteriosa, acompanha o repórter do Le petit vingtième na expedição ao meteorito que, afinal, não destruiu a boa e velha Terra, Oliveira de Figueira representa-nos generosamente a todos no díspar painel de personagens que o lápis e o coração do belga legaram aos outros homens. E podemos gabar-nos de que ambos pertençam à galeria dos bons. O mesmo, por exemplo, não podem fazer os gregos (o mais tenebroso inimigo de Tintin é um grego, o ricalhaço Rastopopoulos), nem os ingleses, nem os americanos, nem os franceses, nem os indianos, nem os japoneses, nem mesmo os incas, que têm gente de um lado e do outro... Como Tintin, o cronista tem encontrado Oliveira de Figueira um pouco por toda a parte onde os acasos do jornalismo e da vida o têm levado. (O que prova que Hergé sabia mais de nós e da nossa errante natureza do que poderia fazer supor o facto de, para ele ou, ao menos, para a sua obra, não haver portugueses maus). Hoje, com o que sei de Oliveira de Figueira e da sua vocação de cidadão do mundo, surpreende-me que o bíblico Adão não tenha dado de caras com ele no seu primeiro passeio solitário pelo Éden...
Em Tóquio encontrei-o à frente de um restaurante chamado Nazaré; no Alasca atrás de um aspirador, a trabalhar na limpeza do aeroporto de Anchorage; em Seul na cozinha de um escuso bar cheio de fumo e de filipinos; em Reykyavik numa loja de roupas... indianas; em Berlim num infantário; em Oslo ao volante de um táxi; em Kyoto ensinando Português numa universidade. Em Salvador da Baía e no Rio, como por todo o Brasil, Oliveira de Figueira aparece ao virar de cada esquina; em Paris, e por toda a Europa, como por toda a África, é o que se sabe: é mais fácil encontra-lo do que a um algarvio no Algarve! O homem das Arábias que, no último instante, em pleno deserto, surge, bonacheirão e cordial, em salvação de Tintin e o esconde da ira dos maus no seu impenetrável labirinto de bugigangas, tem também salvo o cronista do pecado da saudade em tudo quanto é sítio. Ao jornalista, por outro lado, Oliveira de Figueira salva-o todos os dias da rotina das notícias das agências internacionais. Há um choque de comboios em Paris? Oliveira de Figueira está, pelo menos, entre os feridos. Um atentado na África do Sul? Oliveira de Figueira ia a passar. Um assalto a um paquete no Mar Egeu? Oliveira de Figueira ia no cruzeiro com a família e viu tudo e, com um pouco de sorte, até tirou fotografias! Mesmo quando já partiu, e mesmo que já tenha partido há muitos séculos, Oliveira de Figueira deixou um rasto de simpatia e de História que protege o viajante que o segue como o escudo invisível do dentífrico. Uma vez, em Nagasaki, entrei numa loja para comprar uma garrafa de saké e um serviço de louça em que o ministrar mais tarde, em casa, com a exigível propriedade, às visitas mais requintadas. O lojista não tinha que ser especialmente perspicaz para descobrir que eu não era japonês; só teve que ser um pouco curioso para me perguntar, num inglês ainda pior do que o meu, donde era eu from. Quando soube que eu era from Portugal, os seus olhos e as suas palavras ficaram subitamente em festa: falou-me, então, da chegada dos portugueses àquelas costas muitos séculos atrás, em estranhos barcos à vela, da forma como por lá se foram ficando e de como venderam às gentes da terra, o famoso bazar de Oliveira de Figueira!, coisas dispersas e ideias tão singulares como fabricar pão, espingardas, vitrais coloridos ou fazer chá. E, num arroubo de reconhecimento e cordialidade (nunca um português lhe tinha entrado pela loja, e até a família fora chamar lá dentro para me ver!) ofereceu-me tudo o que eu lhe queria comprar e embrulhou-mo num chamejante papel de seda amarelo.
Mas o episódio não acaba aqui. Quando, no hotel, contei o sucedido aos outros portugueses que comigo viajavam, a expedita alma comerciante de Oliveira de Figueira acordou alvoroçadamente neles, vinda do fundo dos tempos. Todos queriam ir também à loja (eu é que lhes não disse onde era!) onde os portugueses eram very welcome para terem saké e jarrinhas de porcelana de borla... Infelizmente, a imprevisível Comissão dos Descobrimentos, que para aí gere milhões com a falta de bom senso que se sabe, deve ser mais leitora de La Salade do que de Hergé. Por isso Oliveira de Figueira não terá a homenagem que merece. Nenhum banco se lembrará de cunhar em moeda os seus dalinianos bigodes, nenhum conferencista lhe dedicará uma palestra, nenhum estudante pedirá uma bolsa à Gulbenkian para lhe seguir o rasto através dos continentes, nenhuma Câmara lhe porá o nome numa rua, nem a estátua numa praça. A homenagem da crónica, em letra impressa, não ressalvará o resto; que, ao menos, sirva de efémera memória da sua passagem generosa e corajosa pelos perplexos mundos da nossa infância e do nosso coração». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 23/07/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «O nome de Pessoa é uma inesgotável mina onde os políticos e os universitários vão buscar lustro para os cargos e para os currículos»

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Os salteadores da Arca Perdida
«Espécie em vias de extinção, os poetas, cuja duvidosa relação com os múltiplos poderes não excluiu, ao longo dos tempos, tempestades e conflitos, têm servido para cantar o poder e têm sido pagos para isso. E têm servido para dourar o poder, os poderes, como adereço requintado, sobretudo depois de mortos, porque se tornam então politicamente mais baratos e menos controversos. A estranha sedução e reverência que a poesia, a arte e, em geral, a chamada cultura despertam nos que mandam e nos que têm dinheiro (qualidades que, na maior parte dos casos, andam juntas…) contagia depois os que obedecem e não têm dinheiro, e por via dessa sedução e dessa reverência se alimentam também os valores da obediência e do reconhecimento sobre que os poderes se fundam. Quando um banco japonês compra os Girassóis deVan Gogh por milhões não é só um negócio que faz; é um negócio muito especial, com um verniz que entra nos balanços na coluna da imagem e do prestígio, cuja contribuição para as colunas mais estritamente contabilísticas passa por misteriosos mecanismos iconográficos. Os discursos, as inaugurações, as festividades, os programas de TV, suscitados por tudo quanto é sítio da política e da cultura pelo centenário do nascimento de Fernando Pessoa andam por caminhos parecidos. O nome de Pessoa é uma inesgotável mina onde os políticos e os universitários vão buscar lustro para os cargos e para os currículos. Quando vejo Abecasis na TV, e todos os Abecasis que vão à TV, encher a boca com o nome de Pessoa, e quando os locutores e jornalistas, no exercício do seu sacerdócio do poder e dos valores constituídos, repetem reverentemente os rituais das entrevistas com intelectuais universitários e com comemorativos em geral, das reportagens, das homenagens, ou debitam os lugares-comuns apropriados à centenária circunstância, dói-me num sítio que não me custa a crer seja o mesmo sítio onde doeu a Pessoa a poesia que escreveu.
Ao contrário dos poetas, a poesia, felizmente, não serve para nada. A não ser aos poetas (aos poetas que escrevem poesia e aos poetas que lêem poesia). Tenebrosa e absoluta, a poesia furta-se (os poetas nem sempre...) aos dedos grossos do poder, mesmo quando se verte em cantorias de louvor e de exaltação. Os poetas são mais sólidos e mais vulneráveis, têm emprego, nacionalidade, Bilhete de Identidade. A poesia não. Nem a pintura. Os livros, os quadros, aprisionam-se, utilizam-se, exibem-se, vendem-se; a poesia e a pintura são coisas gratuitas e desmesuradas, que nascem e vivem num território onde não chegam os exércitos nem as administrações. A poesia, e a arte, sempre foram uma igreja de catacumbas, cuja iniciação se faz no silêncio e na solidão, que são terras altas inacessíveis ao voo das aves que, como os corvos de Nietzsche, grasnam e andam em bandos. Dir-se-á que não há mal nenhum em que os emblemas e os fetiches da poesia e da pintura circulem na praça pública como mercadoria e que andem ao pescoço dos políticos. E que talvez seja inevitável, e dispiciendo, o comércio do poder político e do poder económico com a arte e com a poesia. Mas os sentimentos estão para além do bem e do mal e o preço que se paga vendo Pessoa em bronze sentado a uma mesa do Chiado, ou os Girassóis fechados num cofre de Tóquio, é um sentimento; um sentimento talvez demasiado, mas de qualquer maneira um sentimento. E não deixa de ser uma impressão estranha assistir ao espectáculo das multidões kultas à volta da fogueira pessoana, tentando papudamente, e em vão, agarrar o seu fogo e gritando Agarreio-o! Agarrei-o!; e dos actores declamando, diante de câmaras embasbacadas, Álvaroo de Campos com os gestos e os trejeitos com que declamam André Brun; e dos universitários debruçados, nas salas de anatomia crítica, sobre o corpo poético cógnito e incógnito de Pessoa, dissecando símbolos, pesando metáforas, separando heterónimos, publicando afanosamente relatórios, teses e artigos em tudo quanto é revista e editora, disputando a famosa arca para os currículos como os soldados romanos à volta da túnica de Cristo.
Releio isto e descubro alguma, provavelmente excessiva, sintomatologia de ressentimentos, amarguras, margens. A doença infantil da poesia não há-de deixar esquecer o que deve a alguns críticos muita da poesia de Pessoa tirada da arca, e a saída de muita dela do seu particular universo para o nosso universo colectivo; estou a lembrar-me de João Gaspar Simões, de Maria Aliete Galhoz, de Teresa Rita Lopes, de Eduardo Lourenço, de Agostinho da Silva, de Dalila Pereira da Rocha e de muitos outros (mesmo de alguns dos militantes da terrível tropa dos assistentes universitários que se lançaram ao assalto da arca perdida). Já aos políticos (se calhar com a excepção de António Ferro) ninguém, nem a poesia de Pessoa, deve nada. Eles é que têm uma dívida para com ela que, naturalmente, não conseguirão pagar com estátuas nem com nomes em ruas. Infelizmente, ao contrário do filme de Spielberg, este vai terminar mal e, ou muito me engano, ou, desta vez, Indiana Jones dificilmente levará a melhor sobre os salteadores da arca perdida de Pessoa». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 18/06/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «O Ferraz, poeta maldito, a Vitória, fragilíssima, e o Paiva, que algum estranho deus contemplara com o raro dom, proibido às pessoas comuns, de ver as coisas pela primeira vez, ficaram para sempre no “Fala Barato”»

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Alguns jornais velhos
«O que será feito do Ferraz? E da Vitória? E do Artur? E do Paiva? E, dos outros? Há 20 anos eram crianças. E poetas. (e eu, e nós, o que éramos há 20 anos?). Hoje háo-de estar por aí, em qualquer lado, dispersos para sempre, provavelmente ao torno em alguma oficina, ou a fazer contas e a preencher papéis em algum absurdo escritório, ou repetindo desencantados gestos em linhas de montagem sem sentido. Há 20 anos, a Vitória queria ser uma flor: Se eu fosse flor / devia ser linda, / cor-de-rosa. / E as senhoras cortavam-me / para pôr nas jarras. O que quererá ela hoje? O Ferraz revoltava-se: Morrer enquanto estamos vivos / não adianta nada, / havíamos de morrer só quando estivéssemos mortos, / ou na barriga da mãe! Hoje ter-se-á resignado? E o Paiva surpreendia-se com coisas simples e surpreendentes: o Natal, a gente nas ruas, a toalha sobre a mesa da sala de jantar. Não é fácil ser criança. (Para dizer a verdade, ser adulto, o que quer que isso signifique, também não é...). Há 20 anos, o Ferraz, a Vitória, o Paiva e os outros eram crianças numa casa quase anónima da Senhora da Hora, o Centro de Recuperação de Crianças, onde alguns adultos as ajudavam a ser crianças, que é como quem diz que se ajudavam a si próprios a ser adultos. Pode muito bem ter sucedido que o Centro os tenha recuperado a todos e eles hoje estejam tão feios e tão recuperados, como nós e que os seus sonhos recuperados, sejam agora o Totoloto ou umas férias em Torremolinos.
Na altura, todos eles (e se calhar todos nós) sonhavam sonhos mais graves e mais improváveis. O Artur, por exemplo, sonhava ser uma casa: Se eu fosse casa, as pessoas dormiam dentro de casa, / e também jantavam dentro de casa, / e lavavam a cara no lavatório. Há 20 anos era a infância, esse misterioso lugar, perdido nas sujas ruas da grande cidade, ou nas ruas, também sujas, da escola e da família, que eles recuperavam na casa da Senhora da Hora. Com a ajuda de um imenso pequeno jornal de quatro páginas, o Fala Barato, que se publicava ao sabor do Sol: na Primavera quando era Primavera, no Verão quando era Verão, no Outono quando era Outono e no Inverno quando era, e era tantas vezes!, Inverno. Num desses invernos vieram buscar a Vitória e ela, subitamente aprisionada fora de si, escreveu uma prosa terrível no jornal: Eu gosto muito do Natal. Eu era para passar o Natal aqui no Centro, mas veio uma senhora buscar-me para ver a minha mãe que estava morta. Agora, 20 anos depois, folheio os Fala Barato, que encontro por acaso, velhos e despropositados, no fundo da estante, e procuro-os a todos, ao Ferraz, à Vitória e ao Paiva, mas encontro apenas sombras. E palavras, que é a matéria de que a memória, como a infância (e como os jornais), são feitos. Onde quer que hoje eles estejam, o Ferraz e os outros, não são o Ferraz e os outros que lá estão; o Ferraz, poeta maldito, a Vitória, fragilíssima, e o Paiva, que algum estranho deus contemplara com o raro dom, proibido às pessoas comuns, de ver as coisas pela primeira vez, ficaram para sempre no Fala Barato.
Tinham todos sido recolhidos no Centro, vindos sabe-se lá de onde, para serem recuperados. Porque a infância, como a poesia, sobretudo quando são mais puras, suportam mal a vida; eram crianças com problemas, e a infância é um problema que a vida raramente perdoa. Fora do Centro teriam certamente soçobrado no mundo dos adultos e das pessoas comuns. Hoje, provavelmente, são também, como todos somos, pessoas comuns. O mais certo é que já, não escrevam poesia e guardem os Fala Barato escondidos em qualquer sítio inacessível no fundo de si próprios. Os meus Fala Barato guardei-os também, de novo, no fundo inacessível da estante. E ali jazerão para sempre, mortos e irrecuperáveis». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 28/05/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «… uma casa onde morar e uma cama onde dormir e um sono onde coincidiremos com a nossa vida, um sono coerente e silencioso, uma palavra só, sem voz, inarticulável, anterior e exterior, como um limite tendendo para destino nenhum e para palavra nenhuma…»

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1988. Chamo-lhes Crónicas porque não sei o nome disto
Louvor e simplificação de Pacheco Pereira
«(…) Pode estranhar-se (até eu estranho) a por assim dizer insistência com que estas crónicas perdem tempo e espaço com Pacheco Pereira, o fogoso deputado liberal e de esquerda e social-democrata e independente. Pacheco Pereira é uma oportunidade que um cronista dificilmente pode deixar escapar. Crónica é relação mais ou menos fiel e verdadeira dos dias, no caso concreto das semanas, do cronista, e os dias, hoje, são de arrependimento e de arrependidos, acontecendo que, na circunstância, Pacheco Pereira terá justamente granjeado estatuto de autêntica metáfora nacional (ainda ninguém se lembrou de um Grande Prémio Nacional do Arrependimento, mas não menosprezemos a imaginação premiante portuguesa...). Depois, estes dias poderão também muito bem ser a última ocasião de falar de Pacheco Pereira e do seu imenso estatuto metafórico, pois o mais provável é que, daqui a algum tempo, já ninguém se lembre outra vez dele, e lá se perdiam duas ou três crónicas que, elas scripta manent, permanecem.
A explicação é esta; espera-se que seja convincente... Vem desta vez Pacheco Pereira a propósito de ter surpreendido o jornalismo menos avisado com a afirmação de que, de Maio de 68 para cá, pouco mudou na Europa, muito em Portugal, e que ele próprio não mudou nada! Achou algum jornalismo e algum cronismo, facilmente levados pelo rio das aparências, que Pacheco Pereira, pelo contrário, terá mudado muito mais do que Portugal, pelo facto de hoje ter bancada na Assembleia da República e de ser aí autor das evidências que se conhecem. Compara esse cronismo os imperativos categóricos que Pacheco Pereira emite hoje na Assembleia da República com os emitidos pelo mesmo Pacheco Pereira há alguns anos atrás nas ruidosas fileiras ML. E vê abissais diferenças. Quem vê diferenças, ensina o Livro do Tao, caminha de morte em morte. Desse castigo está no entanto livre este vosso criado, que na verdade não vê diferença nenhuma entre o que Pacheco Pereira dizia há alguns anos e o que diz agora, mesmo, e sobretudo, quando era autor das mais fervorosas prosas espargindo incenso teórico sobre a prática estalinista.
Quem não vê diferenças, explica agora a oftalmologia caminha para a miopia galopante. Será talvez o caso do cronista destas, para quem Pacheco Pereira continua tão estalinista como há 20 anos ou há menos. O estalinismo é que mudou de sítio, eis a tese que aqui se defende. De sítio e de natureza. Hoje o estalinismo já não manda ninguém par a a Sibéria quando muito manda para o desemprego, e com subsídio e tudo. Assina com pseudónimo e os seus decretos perderam o ar do primarismo dos bons velhos tempos. E tendo o estalinismo e a intolerância mudado de sítio, mesmo tendo-se (o estalinismo e a intolerância) tornado soft, e descafeinado pelo caminho, que poderia Pacheco Pereira fazer senão correr atrás deles?
A visão teórica da sociedade e do mundo que notabilizaram Pacheco nas barricadas do marxismo-leninismo como o notabilizaram hoje nas bancadas parlamentares do PSD ter-se-ão, há-de reconhecer-se; trata-se, todavia, mais do que de um aggiornamento, de um (como é que se diz?) percurso político. Ora um percurso é um caminho para chegar a algum sítio, quer se trate de uma viela tortuosa quer da mais transparente das auto-estradas. No caso de Pacheco Pereira, é convicto da crónica, trata-se de um caminho para não sair de sítio nenhum. Que seja tão incompreendido é o preço da coerência desse caminho, porque em política ninguém perdoa aos que, como Pacheco Pereira, não mudam. Para chegares onde estás, escreve Eliot nos Quatro Quartetos, (tens que seguir por um caminho onde não há êxtase), e em êxtase foi coisa que nunca nenhum deputado do povo, nem nenhum povo, viu Pacheco Pereira na Assembleia da República. Quando muito é possível vê-lo em êxtase nas prosas do Semanário, sobretudo quando se exercita em parágrafos indescritíveis, e à falta de purgas mais gloriosas, a decretar a purga dos jornalistas dos jornais estatizados. (Segundo se lê esta semana no Tempo, o entusiasmo ortodoxo leva-o já a reclamar purgas dentro do próprio PSD!).
Os jornalistas têm sido, desde os tempos imemoriais da URSS de Estaline, os mais apropriados objectos de purgas. Os jornalistas e os camaradas de partido e de bancada. Há uma altura na vida das sociedades e dos partidos, como na vida das árvores, em que chega o tempo da poda; e as ramificações e as florescências jornalísticas e partidárias tendem, como se sabe, perigosamente para a heterodoxia. Se alguma coisa mudou fomos nós, foi o Universo, foi o alfaiate de Pacheco Pereira; ele não. Talvez esteja um pouco mais gordo, um pouco mais (sage), talvez tenha perdido alguns cabelos e alguns escrúpulos, mas continua a ser o bom velho Pacheco Pereira de Maio de 68, de Março de 75 e da semana passada. Se ele diz que não mudou nada por que diabo não havemos de acreditar nele? In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 21/05/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT

Poesia Reunida. Manuel A. Pina. «Façam qualquer coisa, senão as letras revoltam-se. Ainda fazem alguma cooperativa e começam a escrever sozinhas! Mas por mais leis que os gramáticos fizessem nunca mais conseguiram meter as letras na Ordem Alfabética»

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Palavras não
«Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.

De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.

E, tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este».

A Revolução das Letras. A ordem alfabética (Tanto Fazia…)
«(…) Até que um dia, o dono do alfabeto, que era quem escrevia com ele, reuniu os seus gramáticos e disse: - Façam qualquer coisa, senão as letras revoltam-se. Ainda fazem alguma cooperativa e começam a escrever sozinhas! Mas por mais leis que os gramáticos fizessem nunca mais conseguiram meter as letras na Ordem Alfabética. E depois das letras revoltaram-se as palavras, e depois os livros, e depois as bibliotecas, e depois tudo.

O Têpluquê
«Era um a vez um menino que tinha um defeito de pronúncia. Não era capaz de dizer tè: dizia quê. Trocava o tê pelo quê. Trocava o têpluquê. Em vez de dizer tasa, como toda a gente, dizia casa; em vez de dizer tão, dizia cão; em vez de dizer tapete, dizia caspete (às vezes deixava uns tês para trás, deixava uns quês para crás). E assim por diante: em vez de dizer tábua, dizia cábula; em vez de dizer tu, dizia rabo; em vez de dizer Tomé, dizia Comé; em vez de dizer taxímetro, dizia caxímetro, etc. (em vez de dizer etc., dizia ecc.). Esta história (em vez de dizer esta história, dizia esca escória) tem uma moral, é das que têm moral: todos os defeitos de pronúncia (como os outros defeitos todos, há uma história para cada defeito) têm também virtudes de pronúncia, senão eram defeitos perfeitos. Ao menino, como a toda a gente que tem defeitos de pronúncia, entaramelava-se-lhe a língua; este menino tinha sorte porque, como as letras do defeito dele eram o tê e o quê, a língua encaramelava-se-lhe e o menino gostava muito (goscava muico)».

Calo-me
«Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo.
Nada no poema é impossível e tudo é possível.
Mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo (e como me calarei?)
No entanto ninguém é tão falador como eu.
Nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

E vós também: não me faleis de nada ou falai-me.
Porque não sabeis o que dizeis».
Poemas de Manuel António Pina in ‘Poesia Reunida’
Prosa de Manuel António Pina in ‘O Têpluquê’

In Manuel António Pina, Poesia Reunida, Documenta Poética nº 62, Assírio e Alvim, Lisboa, 2001, ISBN 972-37-0661-X.

Para ti Manuel António. Que estejas em Paz!

Cortesia de AAlvim/JDACT

domingo, 16 de novembro de 2014

Poesia Reunida. Manuel A. Pina. «No momento da felicidade o teu lugar, se tens um lugar, não te pertence já, e vice-versa. E o teu caminho e os teus passos e a nuvem de poeira são só uma pequena nuvem de poeira, forma, só forma»

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Ainda não é o fim nem o princípio do mundo…
Os tempos não
«Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço, no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios».


Já não é possível
«Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem?
Todas as coisas são perfeitas de
nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito: a mais e a menos.
Poemas de Manuel António Pina in ‘Poesia Reunida’

In Manuel António Pina, Poesia Reunida, Documenta Poética nº 62, Assírio e Alvim, Lisboa, 2001, ISBN 972-37-0661-X.

Cortesia de AAlvim/JDACT

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nenhuma Palavra. Nenhuma Lembrança. Manuel A. Pina. «Não temos mais nada, e com tão pouco havemos de amar e de ser amados, e de nos conformar à vida e à morte, e ao desespero, e à alegria, havemos de comer e de vestir, e de saber e de não saber…»

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Primeiro Poema
«Sem horizonte ou lua, sem vento nem bandeira». In Maaske

«A palavra, vida inteira, mata.
O seu silêncio náo fala nem cala: ri.
Sem antes, nem depois, nem agora.
É o infalável que fala.
Não o ouças: ouve-o.
Oh, falar sem ouvir,
como ri o riso
pleno dos mortos,
os meus e os teus mortos
debaixo de nós!»
1991


Ludwig W. em 1951
«As palavras (o tempo e os livros que
foram precisos para aqui chegar,
ao sítio do primeiro poema!)
são apenas seres deste mundo,
insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,
falando desamparadamente diante do mundo.
As palavras não chegam,
a palavra azul não chega,
a palavra dor não chega.
Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem
que palavras?
E, no entanto, é à sua volta
que se articula, balbuciante,
o enigma do mundo.
Não temos mais nada, e com tão pouco
havemos de amar e de ser amados,
e de nos conformar à vida e à morte,
e ao desespero, e à alegria,
havemos de comer e de vestir,
e de saber e de não saber,
e até o silêncio, se é possível o silêncio,
havemos de, penosamente, com aS nossas palavras construi-lo.

Teremos então, enfim, uma casa onde morar
e uma cama onde dormir
e um sono onde coincidiremos
com a nossa vida,
um sono coerente e silencioso,
uma palavra só, sem voz, inarticulável,
anterior e exterior,
como um limite tendendo para destino nenhum
e para palavra nenhuma».
Poemas de Manuel António Pina, in ‘Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança’

In Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, Assírio e Alvim, Peninsulares 56, Lisboa, 1999, ISBN 972-37-0541-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Têpluquê. Outras Histórias. Manuel A Pina. «Eu canto para ti um mês de giestas um mês de morte e crescimento ó meu amigo como um cristal partindo-se plangente no fundo da memória perturbada. Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa e um coração poisado sobre a tua ausência […] os mortos amados batem à porta do poema»

BárbaraAssisPacheco
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A Revolução das Letras. A ordem alfabética (Tanto Fazia…)
«(…) Desde pequenas que ensinavam às letras a Ordem Alfabética. Quando elas perguntavam às letras grandes porque é que os ás haviam de ser sempre os primeiros e os zês sempre os últimos, e não outros (por exemplo, os pês os primeiros e os tês os últimos, ou os ésses, ou os jotas, ou outros quaisquer), as letras grandes diziam-lhes que tanto fazia. Na verdade, tanto fazia. Mas o facto é que os ás é que eram sempre os primeiros e os zês sempre os últimos…

As Contas das Letras
Mas havia mais: havia duas espécies de letras, as vogais por um lado, que eram só cinco, e as consoantes, a chamada esmagadora maioria, do outro lado. As privilegiadas eram as vogais. Na palavra privilegiado: por exemplo (isto eram as contas que as letras faziam), só os is apareciam três vezes e o a uma e o e e o o também uma cada um; e embora a palavra privilegiado tivesse na sua Constituição seis vogais e outras seis consoantes, das vogais só ficava de fora o u (uma semivogal!), ao passo que das consoantes ficavam de fora, ao todo, 13! Já na palavra trabalhar era o contrário; havia seis consoantes e só uma vogal, o a, que andava de uma sílaba para a outra para parecer que havia lá, muitas vogais a trabalhar...

O SCRTRD
A certa altura, com o auxílio dos amigos números, todas as letras começaram a fazer destas contas à vida delas. As vogais podiam entrar em toda a parte, quer dizer, em todas as palavras, e até tinham palavras só para elas, e as consoantes não; algumas consoantes, praticamente, nem entravam em palavras nenhumas, como o xis ou o quê. (E com as palavras sucedia o mesmo, porque havia palavras que nem sequer havia, como a palavra migol ou a palavra epipabaquígrafo, e outras que só havia lá fora, no estrangeiro, como a palavra pouce ou as palavras Winston Churchill). A televisão e os jornais começaram a fazer reportagens e a ouvir as queixas das letras. Ao mesmo tempo, as consoantes começaram a organizar-se, constituindo-se em scrtrd, que é um secretariado só constituído por consoantes. Os jornais descobriram dramas terríveis em algumas frases. Numa frase havia um cê de cedilha e um dê muito amigos e que não podiam encontrar-se para conversar senão às escondidas, porque se metia sempre uma vogal no meio deles, como, por exemplo, o i, que se metia sempre no meio deles na palavra metediço. (Por causa do formato de pau do i e da pintinha de cabelo em cima e por se estar sempre a meter no meio tinham posto ao i a alcunha de pau de cabeleira!). Aliás, as vogais tinham tanto medo das consoantes, que eram muitas mais, que só muito raramente as deixavam andar juntas, e só às de mais confiança como o agá, que era meio vogal...»


In Manuel António Pina, O Têpluquê e Outras Histórias, Ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-37-1157-8.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Têpluquê. Outras Histórias. Manuel A Pina. «Ia pela rua e ninguém diria. As pessoas passavam e eu dizia: ‘Bom dia!’, e ninguém suspeitava o bom dia que fazia em qualquer sítio que dentro de mim havia!»

BárbaraAssisPacheco
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À Ana no dia do Aniversário
«Havia uma flor!
Nem eu sabia
onde é que a flor havia,
mas tanto fazia.

Talvez houvesse
onde ninguém soubesse
ou fosse uma flor de estar a haver
só na minha imaginação,
ou não fosse uma flor, fosse uma canção.

Nem a flor sabia
que existia.
Em qualquer sítio, sem saber, floria.
E se fosse uma canção cantava e não se ouvia.

E isso acontecia
no meu coração.
Não sei se era uma flor se uma melodia,
era qualquer coisa que havia
e cantava e floria
dentro de mim sem razão.

Ia pela rua e ninguém diria.
As pessoas passavam
e eu dizia:
Bom dia!,
e ninguém suspeitava
o bom dia que fazia
em qualquer sítio
que dentro de mim havia!
Só eu sabia e sorria,
levando-te pela mão».
Poema de Manuel António Pina, in ‘O Têpluquê’,
31/7/1980

In Manuel António Pina, O Têpluquê e Outras Histórias, Ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-37-1157-8.

Cortesia de Assírio e Alvim/JDACT

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «… acho que consegui dizer uma coisa do género na problemática entrevista. Nem que não sirva. As palavras falam sozinhas. As crónicas fazem-se a si próprias, o cronista é o menos. E se lhes chamo crónicas é porque não sei que nome dar a isto»

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1988. Chamo-lhes Crónicas porque não sei o nome disto
«Ricardo Pinto, cronista da Rádio Universitária, pôs-me outro dia, aos microfones uma questão de todo em todo improvável: O que é isso de crónicas? Fiquei em pânico, como um trapezista que tivesse falhado o salto, sem resposta a que me agarrar; e devo ter esbracejado desesperadamente antes de me ter estatelado em qualquer definição de almanaque. Na Rádio trabalha-se sem rede; o meu por assim dizer género, dado muito a perguntas e pouco a respostas, conforma-se, coitado dele, mais com a escrita, onde se podem facilmente fazer passar as grandes ignorâncias por uma questão de estilo.E ainda mal estava refeito da provação já tinha que me safar de outra situação dramática: E para que servem as crónicas?, (Eu que andava a pensar numa entrevista à secretária de Estado da Cultura com perguntas más como: O que é a cultura?...).
O caso deu-me para pensar (naturalmente sob a forma de crónica) acerca de definições, que é coisa com que nunca me entendi. Ezra Pound refere Fennollosa a propósito da escrita ideogramática chinesa, falando desta questão das definições. Observa ele que, por exemplo, se se pergunta a uma língua como o Inglês (ou o Português) o que é o vermelho, ela há-de responder que é uma cor; e se, depois, se lhe pergunta o que é uma cor, há-de dizer qualquer coisa do género, É uma forma de energia; e por aí adiante até acabar no ser e no não-ser. O ideograma chinês que significa vermelho contém, pelo contrário, vários elementos vermelhos (o flamingo, ainda e sempre por exemplo, embora esteja a citar tudo isto de cor), e o vermelho é aquilo. Uma resposta vai de abstracção em abstracção, outra vai, passe o simplismo, direita ao assunto. Eu podia ter respondido (fosse eu chinês...) que crónica é isto (não sei bem o quê); mas a verdade é que não sei o que isto é. E, muito menos, Para que serve.
Num certo poema, o filho de O'Neill pergunta-lhe com ingénua sabedoria: O que é o fogo? É o que queima!, responde o pai chegando-lhe (um pai poeta é um problema para um filho!) lume aos dedos. Eu, por meu lado, também tenho uma história parecida. Há, muitos anos, já não me lembro porquê (de facto é uma pergunta insolente), perguntei aos imensos três anos de minha filha: Para que serve a barriga? E ela: Para coçar a barriga! Era indesmentível. Mas quis ver onde ia dar aquilo: E as unhas, para que servem? Evidentemente: Para coçar a barriga! Então, lógica de pai tem consequências terríveis, as unhas e a barriga servem para a mesma coisa? Servem! E eu a teimar: Para quê? Lógica de filha: Para coçar a barriga! As coisas (a barriga, as unhas, as crónicas) servem para usos que escapam a grandes reflexões e o que são furta-se quase sempre àquilo que se sabe delas. Para que servirão então as crónicas? E o que é isto de crónicas? Se me perguntam (como não me lembrei de Santo Agostinho na Rádio Universitária?) não sei o que é, se não me perguntam sei.
Há dias, no Campo 24 de Agosto, um jovem pediu-me um emprego. Conhecia-me disto, das crónicas e, lá, na sua, pensou que as crónicas podiam muito bem servir para arranjar emprego. Também recebo cartas de leitores: tal assunto dava, sugerem os leitores, uma boa crónica; e, aqui ao lado, os amigos têm também inúmeras ideias sobre crónicas. Eu tenho cada vez menos. Vou falando da chuva e do bom tempo, da memória, das minhas circunstâncias e das minhas perplexidades, dos trabalhos (sobretudo dos trabalhos forçados!) e dos dias, de coisas grandes e de coisas pequenas, como quem está sentado ociosamente à mesa do café rodeado de amigos, mudando instavelmente de estilo, às vezes a ironia, às vezes a ternura, às vezes a revolta, como quem muda de sítio. E é natural que, de vez em quando, me pergunte também se não estarei a gastar o meu tempo e o meu latim. Na verdade não quero que isto, não sei o quê, sirva para nada em especial (acho que consegui dizer uma coisa do género na problemática entrevista da Rádio). Nem que não sirva. As palavras falam sozinhas. As crónicas fazem-se a si próprias, o cronista é o menos. E se lhes chamo crónicas é porque não sei que nome dar a isto. O crocodilo responde às questões práticas da alimentação que no dia-a-dia se lhe vão pondo sacudindo os interlocutores Para a água e discutindo o assunto aí, no seu ambiente. O meu ambiente é este, diante da máquina de escrever, sem microfones. Quem pode, por isso, estranhar que tenha trazido para aqui uma questão tão sem importância como esta?» In Manuel António Pina, JN, 23 de Abril de 1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «Que terra é esta?, acrescentando quando de terra lhe gritaram que era New Jersey: sigo mais uns dias, até um pouco mais abaixo! O cronista agarrou-se à ideia com todas as forças, à espera que ela chegasse para o levar até ao fim das duzentas linhas da praxe»

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1988. New Jersey Fora de Horas
«É sexta-feira, são 9 horas da manhã, isto é, da madrugada, dead line para os textos da Última, e o cronista está sem crónica e sem assunto. E sem paciência. Do lado, como bombeiros o mais voluntários possível, acorrem os amigos: ouviste o que disse o Cavaco sobre a popularidade do Governo?; e sobre a greve geral?; ó Pina, escreve sobre o pãozinho quente e o leitinho de Cavaco no dia da greve geral; toma a lista dos enganos de Cavaco, ele que nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou que nunca tem dúvidas e raramente se engana?); e a Leonor Beleza?, escreve sobre a Leonor Beleza; olha: conta aquela do polícia sinaleiro de Setúbal...
A solidariedade dos amigos é sempre uma coisa bonita, sobretudo para um cronista sem crónica. Mas resolve poucas coisas; uma ideia, mas onde diabo pode um homem ir buscar uma ideia às 9 horas de sexta-feira, ajudaria. Nem seria preciso uma boa ideia, bastaria uma ideia assim-assim, mas Cavaco Silva, mas Leonor Beleza, são péssimas ideias, mesmo para quem não tem melhores. A única ideia que ocorre insistentemente ao cronista é voltar para a cama, mas, apesar de serem 9 horas, o cronista está lúcido para perceber que essa ideia não resolveria a crónica.
Nunca nenhuma cabeça esteve tão vazia de ideias como a do cronista, sentado diante da máquina de escrever, acendendo cigarros, rodeado de amigos por todos os lados menos pelo da crónica. Nesta altura converter-se-ia a qualquer religião, assinaria letras e abaixo-assinados em branco, prometeria qualquer coisa (até ler o Correio da Manhã!), em troca de um bom assunto, se não fosse pedir muito já pronto para ir para a fotocomposição! O Pacheco Pereira é um bom assunto, mas nunca às 9 horas da manhã; Maldonado Gonelha e Ângelo Correia são também sempre cronicáveis, mas o escárnio e o maldizer, que é o género que lhes vai, exigem uma preparação física especial, duas ou três semanas antes da crónica, e um estágio de vários dias em Eça ou em Alphonse Allais, e o cronista nos últimos tempos só tem lido A Bola e comunicados sindicais...
Rubem Braga, uma vez, escapou-se à servidão semanal da crónica contando uma que já tinha contado. Argumentou que a Sétima de Beethoven também não foi feita para ser ouvida uma só vez, nem As meninas de Velázquez ou as Galas todas de Dalí para serem vistas uma só vez. Mas este cronista não tem, sequer, a megalomania de Rubem Braga, nem outra mania capaz de lhe valer numa emergência como a presente. Está sentado à máquina de escrever, a escrever à máquina, na esperança de que a crónica se escreva a si mesma. Já lhe tem acontecido...
Quando, subitamente, o Espírito Santo dos jornalistas lhe segreda ao ouvido que a falta de assunto pode ser, talvez, um bom assunto, ou ao menos um assunto assim-assim, bastante para descarregar o problemático defunto desta semana. E como aquele náufrago de Carl Sandburg que, agarrado a uma tábua durante dias e noites, deu finalmente à costa e perguntou: Que terra é esta?, acrescentando quando de terra lhe gritaram que era New Jersey: sigo mais uns dias, até um pouco mais abaixo!, o cronista agarrou-se à ideia com todas as forças, à espera que ela chegasse para o levar até ao fim das duzentas linhas da praxe. Com as dificuldades de que o leitor é testemunha, consegui chegar até aqui; mas, contrariamente ao herói americano, vai ficar-se por New Jersey. Para a semana, se puder, irá um pouco mais longe. Mas de barco». In Manuel António Pina, JN, 9 de Abril de 1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AAlvim/JDACT

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O Anacronista. Crónicas. Manuel António Pina. «Sabe, ensinou o professor, eu nunca ganhei nada com o PCP, nem o PCP comigo; o nosso casamento não foi, de todo em todo, um casamento de conveniência; se fosse, seria bem fácil dissolvê-lo, mas um casamento de amor, esse não se dissolve com facilidade...»

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O comunismo acabou?
«(…) O espectáculo da derrocada dos partidos comunistas do Leste europeu e os seus mais recentes episódios, em que o PCUS tem sido o personagem principal, geraram entre nós verdadeiras tragicomédias políticas, capazes de dar o golpe de misericórdia nos restos de confiança que algum ingénuo ainda tivesse na espécie humana, sobretudo a do género político. O PCUS caiu, e um imenso coro cacofónico desatou, com o mais suspeito dos júbilos, na TV, nos jornais, no Parlamento, aos gritos de O comunismo acabou! O comunismo acabou! Afinal N… C... e N… B…, o H… M…, toda a indistinta massa de membros do Governo e do partido do Governo com lugar cativo no Telejornal, díspares e ilustres (por assim dizer) dirigentes do PS, dissidentes não menos ilustres do PCP da UDP e do MRPP herdeiros putativos do marcelismo e cristãos-novos da Democracia, têm-se revelado, no meio da gritaria, inesperadas almas gémeas do PCUS de Estaline e de Brejnev: também para eles PCUS e comunismo são, parece, uma e a mesma simples coisa! Alguma nota de bom senso, aqui e ali, não tem chegado para remar contra a histérica corrente anticomunista que os feitos de Boris I diante do Parlamento da Rússia (e atrás de centenas de milhar de manifestantes e de meia dúzia de batalhões de elite do exército e do KGB) geraram, empolgando as brandas consciências portuguesas que, aliás, nunca se evidenciaram por aí além pela seriedade intelectual. Está contente por o comunismo ter acabado?, perguntava, mais ou menos, o Telejornal ao embaixador Guerasimov. Guerasimov quis saber, antes de responder, se o Telejornal já tinha lido O Capital e outros textos teóricos; o Telejornal, evidentemente, não tinha lido; se tivesse lido, lembrou o embaixador, saberia que o comunismo está cheio de generosas ideias de solidariedade, de liberdade e de igualdade que, se tivessem, de facto, acabado, não seria isso certamente motivo para ninguém, nem mesmo o Telejornal, se congratular. E alguém explicava ao omnipresente C… F…, numa rua de Moscovo: os crimes feitos em nome do comunismo (e não são poucos) não destruirão a utopia comunista, como os crimes feitos, ao longo dos séculos, em nome do cristianismo (e não são igualmente poucos) não destruíram, nem eles, a utopia cristã.
Maiakovski matou-se quando o leninismo matou a Revolução de Outubro. Às mãos de Estaline na Sibéria, de Trotsky em Kronstadt, e de muitos outros um pouco por todo o lado, foram os comunistas, é preciso que se recorde, os primeiros a morrer. Este meio século de História foi testemunha de uma imensa carnificina de gente tocada pela utopia igualitária; e, nessa, matança, é preciso também que se recorde, muitos partidos comunistas, pelo menos a Leste, estiveram do lado dos que dispararam (como outros, a Oeste, e designadamente o PCP, estiveram do lado das vítimas). Se tanto sangue comunista não chegou para matar o comunismo, não se afigura provável que N… C…, com um discurso na Assembleia, ou o C… S…, com uma tirada eleitoral, consigam fazer-lhe o enterro, e muito menos a súbita diligência democrática do J… M… e da Z… S… Nunca militei no PCP. Estou talvez, por isso, à vontade para perceber a resposta de A… H…, ainda e sempre ao fogoso Telejornal, quando lhe perguntavam se iria, também ele, abandonar o PCP: Sabe, ensinou o professor, eu nunca ganhei nada com o PCP, nem o PCP comigo; o nosso casamento não foi, de todo em todo, um casamento de conveniência; se fosse, seria bem fácil dissolvê-lo, mas um casamento de amor, esse não se dissolve com facilidade..., Contrariamente às vedetas da dissidência oportuna, H… optou por se afastar discretamente, para, segundo ele, não se misturar com os ratos que abandonam os navios quando lhes cheira a perigo. A lição fez-me lembrar o inestimável M…, mantendo-se na AR, para onde foi eleito com os votos de milhares de portugueses que acreditam no PCP (e para defender o programa concreto do PCP e as soluções concretas com que este se apresentou ao eleitorado), e passando a defender o contrário e a votar contra os votos que o elegeram... Chegámos, parece, a dias em que vale tudo, até arrancar olhos; e, pior, lucrar com isso, como no magalhânico caso (se são lucro os proveitos parlamentares, uns anos mais para a choruda reforma e um lugar elegível no partido mais à mão de semear).
Grave é se os nossos filhos, em vez da lição de H…, aprenderem antes a torpe lição de M… E julgo que, nos tempos sem grandeza que vivemos, esta é certamente uma tarefa que não podemos recusar: fazer com que os nossos filhos possam escapar à infecção da mediocridade, protegendo a frágil flor da sua juventude da terrível sepultura das ideias e dos ideais que tantos agentes funerários, com o sucesso que se sabe, andam por aí a cavar. E, já agora, se possível, ensiná-los, em tempos de confusão, a distinguir as religiões das igrejas, sobretudo quando estas, como o terá feito a igreja comunista (e como o fazem tantas outras igrejas e semi-igrejas de generosos ideários), fundam os seus alicerces sobre o silêncio e sobre a intolerância». In Jornal de Notícias, 18 / 9 / 1991

In Manuel António Pina, O Anacronista, Crónicas, Edições Afrontamento, 1994, ISBN 972-36-0323-3.

Cortesia de E. Afrontamento/JDACT