Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Ramos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Ramos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A Voiturette de José Barahona. Alexandre Ramos. «Em 1903, foi concedido a José Barahona o alvará necessário para circulação e utilização da sua viatura. De salientar, que esta viatura contribuiu para a difusão deste meio de transporte na região do Alentejo»

jdact

«(…)
O proprietário, José Barahona
José Barahona Caldeira Castel-Branco, foi baptizado na freguesia da Sé, Portalegre, a 27 de Julho de 1865 vindo a falecer a 26 de Novembro de 1938. Foi Bacharel formado em Matemática, Engenheiro Civil e desempenhou o cargo de Procurador da Junta Geral do Distrito de Portalegre. Teve uma filha, dona Maria José Côrte-Real Caldeira Castel-Branco que casou com António Cary Potes Cordovil. Era irmão de Francisco Barahona, nascido a 1864 também em Portalegre, fundador da sociedade Portalegre Industrial, mais tarde designada por Moagem de Portalegre, foi igualmente um dos sócios fundadores da fábrica de tecidos Sedas de Portalegre. Destacou-se na administração da casa Agrícola Conde de S. Payo, onde ...ocupou a vanguarda nos modernos processo agrícolas... José Barahona parece ter seguido o mesmo percurso do seu irmão Fernando que fez os seus preparatórios em Portalegre, e depois Lisboa de onde seguiu para a Universidade de Coimbra a frequentar a Faculdade de Matemática...Seguidamente em Lisboa, obteve a carta de engenheiro Civil.
O estatuto e a influência na sociedade portalegrense dos dois irmãos, supõe-se que fosse relevante, não só pelos pelas suas actividades profissionais e formação académica, mas também pela sua actividade política, visto que, por duas vezes, Francisco Barahona assumiu o cargo da Presidência da Câmara Municipal. A juntar aos referidos factores acrescentamos o facto de pertencerem à elite local, a família residia num palácio no Largo Serpa Pinto, uma das casas nobres brasonadas desta cidade, edifício que hoje alberga o Arquivo Distrital de Portalegre. Não foi possível apurar, concretamente, o tipo de utilização dada à viatura, ou seja, se o proprietário a utilizava para fins desportivos, profissionais ou de lazer. Podemos, no entanto, adiantar que este não participou em nenhuma prova oficial de corridas automóveis, não sendo também provável que tenha sido utilizada para a sua actividade profissional, visto este exercer a sua profissão na cidade na qual habitava.

A voiturette de José Barahona
A voiturette de José Barahona foi comprada no ano de 1900. Possivelmente deu entrada no país no mesmo ano ou no ano de 1901, numa altura em que o número de viaturas ainda não chegava a meia centena de exemplares. A aquisição desta viatura acontece, inclusive, antes da realização das primeiras provas desportivas motorizadas e da fundação do Real Club Automóvel de Portugal. Em 1903, foi concedido a José Barahona o alvará necessário para circulação e utilização da sua viatura.
De salientar, que esta viatura contribuiu para a difusão deste meio de transporte na região do Alentejo, visto que a maioria dos automóveis que na altura existiam encontravam-se nos grandes centros urbanos, como Lisboa, Porto e Coimbra. Outros dos aspectos a salientar é que Barahona seguiu a tendência nacional, ao adquirir uma viatura de origem francesa, um Clément. Para determinar a marca e modelo do automóvel adquirido em 1900 por José Barahona, procurámos estabelecer o percurso da viatura desde a sua compra até chegar a Portalegre. A 16 de Agosto de 1900, José Barahona, endossa um cheque no valor de 600 francos à empresa Clément, Gladiator & Humber, sita no número 18 da Rua Brunel em Paris, como forma de efectuar o pagamento de uma voiturette. No mesmo ano emite à mesma empresa outro cheque, mas desta vez com o valor de 1000 francos, em ambos a quantia era especificada como avance sur voiturette. Também no mesmo ano, a 24 de Agosto de 1900, Barahona escreve a Fernando Brederode:

Devendo dentro de poucos dias estar concluído um pequeno automóvel que mandei fazer em Paris, desejo saber se Vossa Ex. se encarrega de fazer transportar até Lisboa pela via marítima os respectivos despachos na alfândega e quais as condições no caso afirmativo. Além do automóvel que será entregue pela fábrica convenientemente encaixotados deve vir também um caixote com peças de sobresselente. O peso dos dois caixotes não deverá exceder 200 libras creio eu. Espero o favor da sua resposta subscrevo V. Ex…

Cremos que este Brederode era Fernando Teixeira Homem Brederode, Bacharel em Filosofia pela Universidade de Coimbra, com estudos feitos também na Ecole de ponts et chaussées de Paris, fundador da companhia de seguros A Nacional, em 1906, e futuro ministro da Marinha e posteriormente do Comércio nos governos de António Maria Silva, em 1920 e mais tarde em 1924. José Barahona, segundo cremos, estava por este meio a contratar os serviços de uma companhia de transportes pertencente a Fernando Brederode para fazerem o transporte da viatura até Lisboa». In Alexandre Ramos, A Voiturette de José Barahona, Publicações da Fundação Robinson, Portalegre, nº 28, p.8-21, 2014, ISSN 1646-7116.

Cortesia da FRobinson/JDACT

sábado, 30 de maio de 2015

A Voiturette de José Barahona. Alexandre Ramos. «… desde a fábrica até à sua chegada a Portalegre. Também determinar o valor patrimonial da ‘Voiturette’ na esfera da historiografia da cidade e do pioneirismo da utilização deste tipo de transporte em Portugal»

jdact

«Este estudo tem como objecto o automóvel que se encontra no Museu Municipal de Portalegre. Segundo a tradição teria sido a primeira viatura do género a circular na cidade, contudo, a escassez de informações dificultou apurar a veracidade das fontes orais. A fim de colmatar esta carência de informação, levámos a cabo uma pesquisa que nos aproximasse da origem deste tipo de viaturas e do percurso da Voiturette de José Barahona, desde a fábrica até à sua chegada a Portalegre. Procurámos também determinar o valor patrimonial da Voiturette na esfera da historiografia da cidade e do pioneirismo da utilização deste tipo de transporte em Portugal.

A afirmação do automóvel na viragem do século
Pierre Souvestre na sua Histoire de l’Automobile de 1907, inicia a obra com uma frase emblemática de Roger Bacon: poderemos um dia construir carros que poderão ser postos em movimento sem o emprego da força ou da tracção de um cavalo ou qualquer outro animal. Esta frase demonstra um pensamento, que não é mais, que o ponto de partida que originou a procura do ser humano pela sua progressiva autonomia face à força animal de modo facilitar a sua mobilidade. A comercialização em grande escala do automóvel para fins particulares, começa em França no ano de 1891 através da marca Panhard-et-Levassor, que inaugura a primeira fábrica de produção automóvel do mundo, sendo construtores de carroçarias equipadas com motores alemães Daimler. Apesar desta indústria conhecer uma produção em grande escala em França, o automóvel nos moldes em como hoje o conhecemos deve a sua concepção ao engenho de três inventores alemães Gottileb Daimler (1834-1890), Wilhelm Maybach (1846-1929) e Karl Benz (1844-1929), sendo que este último foi o único dos três a patentear o modelo. Por esta altura, estes motores eram ainda incomparavelmente mais fracos que os das viaturas a vapor e eléctricas e, devido ao seu elevado preço e à sua manutenção complexa, apenas podiam ser adquiridos por membros da elite ou por sportsman. No entanto, o rápido desenvolvimento da indústria e as exigências do mercado, vão contribuir para o surgimento de motores de explosão cada vez mais potentes que permitirão a entrada destes no mercado das viaturas de transporte público e de mercadorias. A sua explosão comercial dá-se nos anos pós Exposição Universal de Paris de 1900, na qual o automóvel surgiu como uma das principais atracções do evento e como símbolo do progresso da ciência. Nos anos posteriores, os automóveis e os motociclos vão-se afirmando também como um símbolo de mobilidade individual, de afirmação social e de progresso técnico. É a conjugação destes elementos que explica que os pioneiros da utilização do automóvel em Portugal fossem invariavelmente grandes latifundiários, industriais, profissionais liberais e membros da nobreza. Estes últimos vão ter uma importância preponderante na introdução e desenvolvimento do seu uso.

O automóvel em Portugal na viragem do século
Nos anos que se seguiram à importação do primeiro automóvel regista-se um aumento anual considerável de importação de automóveis, que se difundem um pouco por todo o país. Veja-se o exemplo de Tavares Mello, residente em Coimbra, que em 1896 adquire um Peugeot equipado com um motor Panhard, licenciado pela Daimler. Também no Porto, deve-se salientar o papel da casa João Garrido, que se vai afirmar como uma das primeiras casas importadoras de automóveis, e que, como tal, é uma referência obrigatória para o estudo dos transportes motorizados em Portugal. Em 1900 o número de automóveis importados ascendia a 13 e quatro anos depois elevava-se já para 109.
A atestar também a crescente importância que o automóvel atinge no país, verifica-se a criação do Real Automóvel Club de Portugal a 15 de Abril de 1903, impulsionada pela organização, em 1902, da primeira corrida automóvel na Península Ibérica, a prova Figueira da Foz-Lisboa, ganha pelo monarca Carlos I num Fiat conduzido por um piloto francês. O ano de 1903 marca também o fim da produção dos automóveis que se inscrevem a categoria dos pioneiros segundo a FIVA. A introdução deste novo tipo de transporte acarretou consigo um impulsionador económico, pois permitiu a abertura de novos estabelecimentos e a criação de uma nova indústria, bem como a entrada de novas fontes de rendimentos para o Estado, não só através dos impostos alfandegários, mas também através da cobrança de novos impostos, tais como, registo de propriedade sobre a viatura e os alvarás, utilização e circulação, que as novas legislações vão estabelecer. Podemos afirmar que em Portugal, entre 1895 e 1904, o automóvel rapidamente se popularizou e exerceu um crescente papel no sector económico». In Alexandre Ramos, A Voiturette de José Barahona, Publicações da Fundação Robinson, Portalegre, nº 28, p.8-21, 2014, ISSN 1646-7116.

Cortesia da FRobinson/JDACT