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«A revolução social,
acontecida durante os finais do século XVIII, serviu de guia para a revolução
industrial e tecnológica que se seguiu. A Europa durante o século XIX foi palco
de um extraordinário e vasto conjunto de transformações que afectaram os vários
extremos da sociedade. Conjuntamente com as guerras de independências das
colónias inglesa, espanholas e portuguesa no continente americano, o século XIX
é, também, sinónimo das Grandes Exposições em Paris, Londres, e Nova Iorque,
das invenção e descobertas cientificas, ao nível da química (fotografia), da
metalúrgica (os caminhos de ferro), da história da evolução do ser humano ('A
Origem das Espécies'). O Neo-Classicismo e Romantismo (vestígio
do Iluminismo) foram substituídos pelos Impressionismo, Simbolismo, Cubismo,
etc. nas Belas Artes.
É durante este período que surge a Pre-Raphaelites Brotherhood (PRB) em
Londres, em 1848. Formada por um núcleo de artistas, quase familiar, composto
por irmãos, filhas, esposas e amigos (John Everett Millais, Dante Gabriel
Rossetti e os seus irmãos, William Michael Rossetti e Christina
Georgina Rossetti, William Holman Hurt, e muitos outros) os PRB quiserem
distanciar-se da filosofia imposta até esse momento no meio artístico
Britânico. Primordialmente, um meio claramente sob a influência do pensamento
desenvolvido pelo pintor do século XVIII, Joshua Reynolds (1723-1792),
especializado em retratos idealizados sob o cânone determinado pela Antiguidade
Grega-Clássica, e pelo classicismo da Alta-Renascença; mas também pelas
linguagem artística desenvolvida e representada nos retratos, principalmente de
mulheres, concebidos por Thomas Gainsborough (1727-1788), nas paisagens
inglesas de John Constable, ou, ainda, na linguagem pictórica
desenvolvida nos poemas de cor criados por J. M. W. Turner (1775-1851),
definida por três ingredientes essenciais: forma, luz e cor, e seguida por
muitos pintores. A composição era essencial.
Os PRB re-interpretaram as figuras familiares da arte da época Vitoriana
(coincidente com o longo reinado da Rainha Vitória, 1837-1901) e introduziram
"novos" elementos nessa linguagem. O movimento tomou como seus os
princípios defendidos pelo principal crítico de arte da era Victoriana, John
Ruskin (1819-1900), da prolongada e extenuante examinação dos detalhes, à
semelhança com a natureza, e realista, à variedade, à contemporaneidade, e às
emoções - Timothy Hilton veio recentemente defender que uma pessoa não
pode pensar no Pre-Raphaelismo sem reflectir sobre o amor, algumas vezes
no deleite, mas nunca na felicidade, pois esta nunca é expressa. Eles
procuraram através de pinturas de inspiração religiosa democratizar o sagrado: The
Girlhood of Mary Virgin (1848-9), por Dante Gabriel Rossetti
(1828-1882), Christ in the House of His Parents (The Carpenter's Shop) (1849-50),
por John Everett Millais (1829-1896); pintaram a vida social
contemporânea e os seu problemas, Work (1852-65), por Ford Madox
Brown (1821-1893), por exemplo, celebra a nobreza e o sagrado do trabalho;
e, especialmente, os problemas relacionados com a sexualidade: The Awakening
Concience (1853-4), por William Homan Hunt (1827-1910), é um exemplo
da moralidade e salvação presentes nas pinturas religiosas e de cenas da vida
moderna. No entanto, e apesar de os curadores da exposição querem apelidar o
movimento como de vanguarda, a 'Pre-Raphaelites Brotherhood' (PRB) está
mais próxima de ser um movimento reformista das belas artes que surgiu durante
a era do reinado da Rainha Vitória (a era Vitoriana é notória pelo emprego de
crianças em fábricas e minas e pela ausências de nus na pintura), ao relacionar
arte com sexualidade no espaço contemporâneo e ao se inspirar na pintura
religiosa do pré-Renascimento (séculos XIII e XIV). Este Pré-Raphaelismo
estará, provavelmente, mais associado com a Revolução Industrial Inglesa, com
conflito entre a doutrina científica e a dogmática religiosa, e às ilustrações
de histórias de fadas para crianças, editadas durante este período. Por outro
lado, a segunda metade da exposição, apresenta-nos um conjunto de trabalhos que
transitam da abordagem realista à natureza, sociedade e religião para uma
exploração das possibilidades estéticas. Por volta de 1860, o Pré-Raphaelismo
procura dar mais valor à 'beleza' do que à 'verdade' e metamorfoseia-se num
movimento estético - através do uso da fotografia Julia Margaret Cameron
conseguiu transportar esta forma expressiva de uma forma mais representativa e
impactante do que as pinturas Pre-Raphaelites -, onde, numa primeira
fase, a face e o corpo da mulher são o sujeito: The Beloved ('The Bride')
(1865-6), por Rossetti; ou o simbolismo de The Rock of Doom e Perseus
Slaying the Sea Serpent (1875-77), por Edward Burne-Jones,
(1833-1898) onde o corpo nu em dialogo com o mitológico oferece uma imaginária
distinta da violência constrangedora da era Vitoriana. E, já numa segunda fase,
os processos de manufactura e produção emanaram da Revolução Industrial,
permitiram a William Morris (1834-1896) e Burne-Jones dar origem
ao movimento Arts & Crafts. Este movimento toma os seus princípios
na ideia do socialismo utópico. Num período em que a classe trabalhadora começa
a usufruir de algo anteriormente reservado à classe dominante - tempo de lazer
-, a procura de objectos com capital estético passa a ser uma condição imposta
socialmente; e a necessidade de entretenimento para ocupar este novo tempo
disponível provoca os excessos e a despreocupação que irá culminar na primeira
grande guerra.
Como escreveu recentemente o critico e director do Institute of Contemporart
Art, de Londres, Gregor Muir, sobre os Young British Artists
(YBA), os PRB foram uns 'Lucky Kunst', num período da
história da arte em que a Reino Unido teimava em ficar na retaguarda dos
desenvolvimentos artísticos. A exposição " Pre-Raphaelites: Victorian
Avant-Garde", na Tate Britain (Londres), até 13 de Janeiro
de 2013, apresenta um conjunto de cerca de 150 obras: pintura, desenho,
escultura, vitral, fotografia, mobiliário, e tapeçaria organizadas de forma
cronológica em sete salas temáticas». In Rui Gonçalves Cepeda, Pre-Raphaelites:
Victorian Avant Garde, Antena
2, Teresa Pizarro.
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