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domingo, 25 de março de 2012

A Utopia. Thomas More: «Os marinheiros eram hábeis e bons conhecedores do mar e do tempo. O seu desconhecimento da bússola levou Rafael a cair nas suas boas graças, ao ensinar-lhes o uso deste instrumento. Se, até aí, só se aventuravam no mar em tempo de calmaria, e cheios de receio e temor, passaram a ter tal confiança neste instrumento que já nem as tempestades receiam e navegam…»



jdact

«Contou-nos então Rafael, como, depois da partida de Vespúcio, ele e os companheiros, que tinham ficado em Gulike, começaram pouco a pouco, com afabilidade e bom trato, a ganhar a amizade e o favor dos naturais da região, acabando por viver entre eles, em paz e em boas relações de comércio. Contou-nos também como tinham conseguido o afecto e confiança de um homem ilustre e poderoso (cujo nome e país não recordo já) que, generosamente, lhes custeou, a si e aos cinco companheiros, tudo o que precisavam para seguir viagem. Dando-lhes ainda um guia para os acompanhar, por terra e por mar, e os apresentar a outros príncipes, com as melhores recomendações.

Depois de caminharem durante vários dias, encontraram cidades e povoações, repúblicas bem governadas, vastas e populosas. E Rafael prosseguiu a sua narração: no equador, abrangido em ambos os lados pelo movimento do Sol, viram vastos desertos e solidões, queimados e ressequidos por calor incessante e intolerável. Tudo ali era desagradável, horrível e difícil de suportar; tudo era desmesura e desordem. A terra era habitada por animais ferozes e serpentes, ou quando muito por homens mais selvagens e cruéis que os bichos. À medida que se afastavam do equador, a natureza recuperava pouco a pouco a beleza e tornava-se mais agradável, o ar temperava-se e o calor atenuava-se; a terra cobria-se de vegetação cada vez mais verde e os animais perdiam a ferocidade. Chegaram, por fim, às cidades e gentes cuja ocupação predominante é o comércio, por terra e por mar, não só no interior como entre os povos vizinhos e mesmo com nações longínquas.

Aí, continuou Rafael, tive oportunidade de viajar para muitos países, pois em todos os navios éramos bem recebidos, qualquer que fosse o seu destino. As primeiras embarcações que encontrámos eram rudes, chatas e largas. As velas eram formadas por vimes ou juncos entrançados, e algumas por pedaços de couro. Encontrámos em seguida barcos pontiagudos e com velas de cânhamo e finalmente embarcações em tudo semelhantes às nossas. Os marinheiros eram hábeis e bons conhecedores do mar e do tempo. O seu desconhecimento da bússola levou Rafael a cair nas suas boas graças, ao ensinar-lhes o uso deste instrumento. Se, até aí, só se aventuravam no mar em tempo de calmaria, e cheios de receio e temor, passaram a ter tal confiança neste instrumento que já nem as tempestades receiam e navegam, por vezes, mais confiantes que seguros. É pois de recear que, por causa da sua louca ousadia, esta invenção, a princípio benéfica e cómoda, lhes venha a ser causa de tragédias e desgraças.

Levaria muito tempo a contar tudo o que Rafael viu dos muitos países que visitou e não é esse o propósito desta obra. Tratarei disso noutro livro, particularmente dos pormenores cujo conhecimento nos poderá ser útil, em especial os decretos e leis cuja justiça e inteligência Rafael teve ocasião de observar, leis que governam em boa ordem e civismo os povos que a elas obedecem.
Perguntámos-lhe inúmeras coisas acerca destas questões, e de bom grado ele a todas respondeu. Não o interrogámos, porém, sobre monstros famosos, como os Cilas ladradores, os rapaces Celenes e os antropófagos Lestrigões, pois esses não são já raridade e perderam todo o interesse. O mais raro e digno de admiração é agora uma república justa e sabiamente governada.

Rafael contou-nos que encontrou nesses povos leis tão loucas e injustas como as nossas, mas que também neles observou grande número de decretos e constituições cujo exemplo salvaria dos seus erros as nossas cidades, povos e reinos». In Thomas More, Utopia, Europa-América, ISBN 972-1-02918-1.

Cortesia de Europa-América/JDACT

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A Utopia. Thomas More: «Nasceu em Portugal e deixou aos irmãos os bens que por herança paterna lhe tinham cabido em sorte. Levado pelo desejo de ver e conhecer as mais longínquas regiões do mundo, juntou-se a Américo Vespúcio e acompanhou-o em três das suas quatro últimas viagens…»

Cortesia de 4umi

A melhor constituição de uma república
«O invencível e triunfante rei da Inglaterra, Henrique VIII de seu nome, príncipe de virtudes incomparáveis, teve, não há muito tempo, uma disputa com o príncipe Carlos, poderoso rei de Castela, sobre assuntos de peso e importância. Sua majestade enviou-me então à Flandres, com a missão de, como embaixador, tratar e resolver essa disputa. Acompanhava-me nessa missão Cuthbert Tunstall, homem de grandes qualidades, a quem o rei, não há muito, confiara, com o agrado geral, o cargo de guarda-mor dos arquivos reais. Não me ocuparei do seu elogio, não por recear que pouco crédito dêem ao testemunho de um amigo, mas por a sua virtude e saber estarem acima do meu louvor e a sua fama tão espalhada que desnecessário se torna o meu elogio, pois receio parecer querer ofuscar a luz do Sol com a chama de uma candeia.
Encontrámo-nos em Bruges, como fora previamente combinado, com os embaixadores do príncipe de Castela, todos eles homens notáveis. O seu chefe era o governador de Bruges, uma figura ilustre. Contudo, o mais sábio e eloquente de toda a delegação era George Temsice, preboste de Cassel, cujas virtudes alcançara por aturado estudo e dom da natureza: era de rara eloquência e profundo conhecedor de leis. Os seus dotes naturais e o exercício diário das suas faculdades tornavam-no quase insuperável na actividade diplomática. Após uma ou duas reuniões, como se não tivesse conseguido acordo em certos pontos, os embaixadores de Castela despediram-se de nós, para irem a Bruxelas consultar o seu rei. Entretanto, aproveitei este tempo para visitar Antuérpia.

Enquanto ali me demorei, conheci muitas pessoas, mas nenhum conhecimento me foi mais agradável que o de Pedro Giles, cidadão de Antuérpia, homem conhecido pela sua honradez, qualidade que lhe mereceu situação de destaque, e merecedor das maiores dignidades pelas suas excelentes virtudes e rara sabedoria. A sua erudição não ultrapassa a sua gentileza e benevolência, estima, dedicação e lealdade para com os amigos. Dificilmente poderia encontrar outro semelhante, na modéstia e na cortesia.

Cortesia de elizabethanliterarystudieswordpress

Não existe nele dissimulação, mas simplicidade e prudência. Além disto, a sua conversa é tão interessante e a sua companhia tão agradável, educada e alegre que me fez mitigar as saudades da minha pátria, esposa e filhos, cuja ausência sentia com grande intensidade, pois me encontrava longe deles há mais de quatro meses.

Certo dia em que acabara de ouvir missa na Igreja de Nossa Senhora, um dos templos mais belos, curiosos e frequentados de toda a cidade, preparava-me para voltar à hospedaria, quando reparei na presença de Pedro Giles, que falava com um estrangeiro, homem de certa idade, rosto queimado pelo sol, barba comprida e capa despreocupadamente lançada pelos ombros. Tudo nele me indicava um marinheiro. Porém, Pedro, ao ver-me, aproximou-se e cumprimentou-me. Quando lhe ia a responder, interrompeu-me e, apontando o homem com quem estivera a falar, disse:
  • - Vedes aquele homem? Ia agora mesmo a vossa casa para vo-lo apresentar.
  • - Pois será bem recebido, já que sois vós que o trazeis.
  • - Se o conhecêsseis - retorquiu Pedro -, recebê-lo-eis por si próprio, pois não há na terra homem algum capaz de, como ele, vos contar pormenores de povos e regiões tão estranhas e tão longínquas. E bem sei como vós apreciais tais notícias.
  • - Então não me enganei - disse-lhe -, pois logo à primeira vista percebi que se tratava de um marinheiro.
  • - Não, aí é que vos enganastes. Já navegou, na verdade, mas não como o marinheiro Palinuro. Antes como o sábio e prudente Ulisses, ou como o grande filósofo Platão.
Rafael Hitlodeu, pois este é o seu nome, conhece bem o latim, e o grego na perfeição.

Cortesia de wikipedia


Como se dedicou predominantemente ao estudo da filosofia, aprofundou por isso o seu conhecimento do grego e, assim, considera que poucas coisas interessam em latim, com excepção de algumas obras de Séneca e de Cícero. Nasceu em Portugal e deixou aos irmãos os bens que por herança paterna lhe tinham cabido em sorte. Levado pelo desejo de ver e conhecer as mais longínquas regiões do mundo, juntou-se a Américo Vespúcio e acompanhou-o em três das suas quatro últimas viagens, cujo relato corre mundo. Porém, não o acompanhou de regresso à Europa.

Depois de reiterados pedidos, de repetidas manobras e rogos, Américo Vespúcio concedeu-lhe licença, embora contra vontade, de fazer parte dos vinte e quatro que, no fim da quarta viagem, ficaram na região de Gulike. O nosso homem encontrava-se agora, de sua própria vontade, entregue a si próprio, no litoral da América, mais interessado em viajar que preocupado com a morte, tendo sempre debaixo da língua os provérbios: «Aquele que não tem túmulo tem o Céu por mortalha» e «o caminho para o Céu é o mesmo onde quer que se esteja». Sem a protecção divina, o seu espírito aventureiro ter-lhe-ia custado caro. Depois da partida de Vespúcio, Rafael percorreu, com cinco companheiros, múltiplas regiões e desembarcou por fim em Ceilão; daí seguiu para Calecut, onde inesperadamente conseguiu encontrar um navio português que o trouxe de regresso ao seu país.
Quando Pedro acabou de me contar isto, agradeci-lhe pela bondade e preocupação em me apresentar um homem cujo conhecimento me deveria ser tão agradável.
Dirigi-me então a Rafael e, depois de trocados os cumprimentos e expressões que são habituais quando se conhece alguém pela primeira vez, encaminhámo-nos para minha casa. No jardim, sentados num banco coberto de vegetação, começámos a conversar (21)». In Thomas More, Utopia, Europa-América, ISBN 972-1-02918-1.

Cortesia de Europa-América/JDACT

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Utopia. Thomas More: «O autor transporta-nos a uma ilha imaginária, cuja civilização material é de nível idêntico ao da civilização europeia do século XVI, mas onde os habitantes souberam explorar de forma superior os recursos ao seu alcance, mediante uma organização social assente em critérios racionais»

Cortesia de wikipedia

Introdução.
«A utopia, o elemento utópico, tem sido e é ainda um dos aspectos mais dinamizadores da história da cultura ocidental. Por outro lado, consistindo a utopia numa idealização da vida dos homens, ela pressupõe uma, atitude crítica em face de formas históricas da realidade e uma exploração do campo diferencial das possibilidades.
Com efeito, quando Thomas More, na sua Utopia, imagina a vida dos habitantes da ilha do mesmo nome, não está a contar uma parábola dinamizadora nem a apelar para um mundo fantástico, com leis diferentes do mundo real, para pôr a nu ou denunciar, por comparação com um estado de perfeição inacessível, a Inglaterra do século XVI.

Se assim fosse, More podia estar possuído de uma atitude crítica em face da realidade, mas não ofereceria qualquer alternativa histórica e concretamente operável para essa realidade criticada.
Ora, como diz o romancista alemão Robert Musil, uma utopia é uma possibilidade que pode efectivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias provisórias que obstam à sua realização. Evidentemente, por isto devemos aqui entender: circunstâncias ao alcance da acção transformadora dos homens.

Cortesia de 4umi

Destas aproximações podemos partir para uma compreensão histórica da obra de Thomas More. É, na verdade, portador de um projecto humanista de transformação social e este projecto é, em seu entender, perfeitamente viável para o século em que vive. Toda a sua Utopia pretende provar isto mesmo.
Assim, o autor transporta-nos a uma ilha imaginária, cuja civilização material é de nível idêntico ao da civilização europeia do século XVI, mas onde os habitantes souberam explorar de forma superior os recursos ao seu alcance, mediante uma organização social assente em critérios racionais. E More demonstra, mais ou menos explicitamente, que a aplicação desses mesmos critérios à civilização europeia resultaria num considerável aperfeiçoamento da vida comum de povos do Ocidente.

Cortesia de elizabethanliterarystudieswordpress

Assim, com meios técnicos idênticos, os Utopianos de More sofrem muito menos que os europeus do século XVI os efeitos degradantes do trabalho socialmente necessário, em virtude dos encargos deste se encontrarem repartidos equitativamente por todos os membros do corpo social, em vez de recaírem sobre os ombros – como acontecia na Europa - das classes oprimidas. Assim também, a pobreza é mais eficazmente combatida na ilha da Utopia, quer por a sua organização do trabalho permitir uma produção mais volumosa, quer porque os utopianos praticam um sistema tendencialmente igualitório de repartição dos bens sociais. Nos outros aspectos da vida social, Thomas More índica igualmente como os Utopianos puderam, por um esforço teórico e prático de racionalidade, resolver problemas que correspondiam às mais graves questões do século XVI europeu:
  • o problema da criminalidade e da sua repressão,
  • o problema da família e do matrimónio,
  • o problema dos conflitos religiosos, entre outros».
In Thomas More, Utopia, Europa-América, ISBN 972-1-02918-1.

Cortesia de Europa-América/JDACT

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Erasmo: «O Elogio da Loucura». «Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice, mas, se o meu amor-próprio não deixar que eu o perceba, contentar-me-ei de ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louco. Orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais»

(1466-1536)
Roterdão, Holanda
Cortesia de wikipédia

Erasmo de Roterdão nascido com o nome de Gerrit Gerritszoon ou Herasmus Gerritszoon, Desiderius Erasmus Roterodamus, foi um teólogo e um humanista.

Erasmo, cursou o seminário com os frades Agostinianos e realizou os votos monásticos aos 25 anos, mas sendo um grande crítico da vida monástica e das características que julgava negativas na Igreja Católica.
Frequentou o Collège Montaigu, em Paris, e continuou os seus estudos na Universidade de Paris. Erasmo optou por uma vida de académico independente. Independente de país. Independente de laços académicos e da lealdade religiosa, e de tudo que pudesse interferir com a sua liberdade intelectual e a sua expressão literária.

Foram-lhe oferecidas várias posições de honra e proveito através do mundo académico, mas ele declinou-as todas, preferindo a incerteza, tendo no entanto receitas suficientes da sua actividade literária independente.
A sua estada em Lovaina expôs Erasmo a muitas críticas mesquinhas por parte daqueles que eram hostis aos princípios do progresso literário e religioso aos quais ele devotava a vida. Ele interpretava esta falta de simpatia como uma perseguição e procurou refúgio em Basileia, onde, sob abrigo de hospitalidade suíça, pôde expressar-se livremente e onde estava rodeado de amigos.
A sua revolta contra as formas de vida da igreja não resultou tanto de dúvidas quanto à verdade da doutrina tradicional, nem de alguma hostilidade para com a organização da Igreja. Sentiu antes a necessidade de aplicar os seus conhecimentos na purificação da doutrina e na liberalização das instituições do cristianismo.

Cortesia de bligig
Como académico tentou libertar os métodos da Escolástica da rigidez e do formalismo das tradições medievais. A convicção confere unidade e consistência a uma vida que, de outra forma, pode parecer plena de contradições. Erasmo viu-se livre e distante de quaisquer obrigações comprometedoras. Foi, num sentido singularmente verdadeiro, o centro do movimento literário do seu tempo. Aquando da sua estada em Inglaterra, Erasmo iniciou a examinação sistemática dos manuscritos do Novo Testamento, por forma a preparar uma nova edição e uma tradução para Latim. Esta edição foi publicada por Froben de Basileia em 1516 e foi a base da maioria dos estudos científicos da Bíblia durante o período da Reforma. Ele publicou uma edição crítica do Novo Testamento Grego em 1516, Novum Instrumentum omne, diligenter ab Erasmo Rot. Recognitum et Emendatum. A edição incluiu uma tradução em Latim e anotações. Baseou-se também em manuscritos adicionais recentemente descobertos.

Na segunda edição, o termo mais familiar «Testamentum» foi usado em vez de «Instrumentum». O texto ficou conhecido mais tarde como o textus receptus. Erasmo publicou mais três edições. Foi a primeira tentativa por parte de um académico competente e liberal de averiguar aquilo que os escritores do Novo Testamento tinham efectivamente dito. Erasmo dedicou o seu trabalho ao Papa Leão X, como patrono da aprendizagem, e considerou o seu trabalho como o seu principal serviço à causa do Cristianismo.

Erasmo por Holbein, o novo
Cortesia de wikipédia
O movimento de Martinho Lutero começou no ano seguinte à publicação do Novo Testamento, e foi um teste ao carácter de Erasmo. A discussão entre a sociedade europeia e a Igreja Católica Romana tinha-se tornado tão aberta que poucos se podiam furtar a um pedido de uma opinião. Erasmo, no auge da sua fama literária, foi inevitavelmente chamado a tomar partido por um dos lados, mas partidarismo era algo de estranho à sua natureza e hábitos. Erasmo tinha uma simpatia pelos pontos principais da crítica luterana à Igreja. Tinha um grande respeito pessoal por Martinho Lutero e Lutero sempre falava de Erasmo com reverência pelo seu conhecimento. Lutero esperava obter a sua cooperação num trabalho que parecia o resultado natural do seu próprio. Na sua troca de correspondência inicial, Lutero expressou uma intensa admiração por tudo o que Erasmo tinha feito pela causa de um cristianismo saudável e razoável e encorajou-o a unir-se ao movimento. Erasmo declinou qualquer compromisso. Apenas como um académico independente poderia ele aspirar a influenciar a reforma da religião. A obra de Lutero foi a de providenciar uma nova base doutrinal para as tentativas até então dispersas de iniciar uma reforma. Ao reavivar os princípios quase esquecidos da teologia de Agostinho, Lutero tinha fornecido o necessário impulso para o interesse pessoal na religião, o que é a essência da Reforma Protestante. Erasmo, temia qualquer mudança na doutrina e acreditava que não havia espaço dentro das fórmulas existentes para o tipo de reforma que ele apreciava tanto.

No seu «De libero arbitrio diatribe sive collatio», 1524, ele analisa com inteligência e bom humor os exageros Luteranos sobre as óbvias limitações da liberdade humana. Ele apresenta ambos os lados da discussão de forma imparcial. A sua posição foi de que o Homem estava obrigado a pecar, mas que tinha o direito à misericórdia de Deus apenas se ele a procurasse pelos meios que lhe eram oferecidos pela própria Igreja. A «diatribe» não encorajava qualquer acção definida. Este era o seu mérito aos olhos dos Erasmianos e o seu defeito aos olhos dos Luteranos.
O programa da «Reforma de Erasmo» era de usar a aprendizagem para remover os piores excessos. No entanto, falhou em oferecer qualquer método tangível para aplicar os seus princípios ao sistema da Igreja existente. Quando Erasmo foi acusado de ter «posto o ovo que Lutero chocou» ele admitiu parcialmente a verdade da acusação mas disse que tinha esperado uma outra espécie de pássaro completamente diferente.

Cortesia de planetanews
A sua obra mais conhecida, «Praise of Folly» «Elogio da Loucura», ou «Moriae Encomium» foi dedicada ao seu amigo Thomas More. Em 1536 ele escreveu «De puritate ecclesiae christianae», na qual ele tentou reconciliar os diferentes partidos.
Muito dos seus escritos apelam a uma grande audiência e lidam com assuntos do interesse humano. Erasmo discute a vida monástica, a veneração dos santos, a guerra, o espírito de classe e as fraquezas da «sociedade», mas o «Enchiridion» é mais um sermão do que uma sátira. Como resultado das suas actividades reformadoras, Erasmo viu-se em conflito com ambas as grandes posições. Os seus últimos anos de vida foram ofuscados por controvérsias amargas com pessoas para quem ele seria normalmente simpático. Notavelmente entre estes encontrava-se Ulrich von Hutten, um génio brilhante mas errático, que se entregara à causa de Lutero e tinha declarado que Erasmo, se tivesse uma faísca que fosse de honestidade, faria o mesmo. Na sua resposta «Spongia adversus aspergines Hutteni», 1523, Erasmo demonstra o seu pleno domínio da semântica. Ele acusa Hutten de ter interpretado mal o seu discurso sobre a reforma e reitera a sua determinação em não tomar partido nunca.

Cortesia de tertuliabibliofila
Em 1535 o Papa Paulo III intentou eleva-lo à condição de Cardeal, mas Erasmus alegou a sua avançada idade e estado de saúde para recusar. Após a sua morte, como reacção da Igreja Católica Romana, os seus escritos viriam a ser colocados no Index dos livros proibidos.

Erasmo morre aos 69 anos de idade na cidade de Basileia, Suíça.

Cortesia de História Universal/wikipédia/JDACT

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Utopia: Posso ir tão longe quanto eu quiser. Para que serve então a utopia? Para avançarmos

Cortesia de meu1984
O termo utopia significa algo que está somente em pensamento, que por vários motivos ainda não foi posto em prática. Utopia tem como significado mais comum a idéia de civilização ideal, imaginária, fantástica. Pode referir-se a uma cidade ou a um mundo, sendo possível tanto no futuro, como no presente.

Cortesia wikipédia
Utopia foi um um termo inventado por Thomas More (De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia, em português, Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia, ou simplesmente Utopia), que serviu de título a uma de suas obras escritas em latim por volta de 1516. Segundo a versão de vários historiadores, More fascinou-se pelas narrações extraordinárias de Américo Vespucio sobre a recém avistada ilha de Fernando de Noronha em 1503. More decidiu então escrever sobre um lugar novo e puro onde existiria uma sociedade perfeita.
O «utopismo» consiste na ideia de idealizar não apenas um lugar, mas uma vida, um futuro, ou qualquer outro tipo de coisa, numa visão fantasiosa. Normalmente contrária ao mundo real. O utopismo é um modo não só absurdamente optimista, mas também irreal de ver as coisas dum modo que gostaríamos que elas fossem.

Vejamos alguns aspectos da utopia de Thomas More. Descreve uma sociedade organizada racionalmente, através da narração dos feitos que realiza um explorador, Rafael Hytlodeo. Utopia é uma comunidade que estabelece a propriedade comum dos bens. Não enviam os cidadãos à guerra , mas contrata mercenários entre os vizinhos mais conflituosos. Todos os cidadãos da ilha vivem em casas iguais, trabalham por períodos no campo e nos tempos livres dedicam-se a actividades de leitura e de arte. A organização social da ilha aponta a dissolver as diferenças e a fomentar a igualdade. Por exemplo, que todas as cidades sejam geograficamente iguais. Na ilha impera uma paz total e uma harmonia de interesses que são resultado da sua organização social. Na ilha eliminou-se o conflito e as potenciais possibilidades de materialização. Em geral concebe a comunidade utopiana como uma sociedade perfeita em organização e completamente equitativa na distribuição dos recursos escassos existentes.

Alguns dados da Utopia moderna: Muitos autores como Arnhelm Neusüss tem defendido que as utopias modernas são essencialmente diferentes das anteriores. Outros afirmam, que em rigor, as utopias só se dão na modernidade e chamam cronotopias às utopias anteriores a Thomas More. Tomando como referência esta perspectiva, as utopias modernas estão orientadas para o futuro. Deste modo, as utopias expressam uma rebelião frente ao dado novo da realidade. Propõem uma transformação radical, que nalguns bem conhecidos de todos nós, passa por processos revolucionários.
Assim, as utopias têm derivações no pensamento político, isto é, nas correntes socialistas ligadas ao marxismo e anarquismo, ao movimento literário e incluindo, quiçá, o próprio movimento cinematográfico actual, através da ciência de ficção social.
E o que dizer da Utopia ecologista? Frágil e indecisa como o género literário. A utopia tem ainda a força necessária para se transmutar (ou será melhor dizer dissolver?). A transmutação é tão profunda (ou estamos a pensar em dissolução?) que a utopia sai para fora dos quadros da literatura em busca de uma forma de realização, quer na arquitectura e no urbanismo. Não é imaginar a cidade futura mas de construir efectivamente as megapolis em que vivemos, como um movimento social (talvez tipo cooperativo) que procure concretizar uma representação idealizada da vida social. Uma utopia de paz mundial é considerada por muitos como um dos finais da história.
A Obra de Thomas More tornou-se sinónimo de projecto irrealizável. Fantasia. Delírio. Quimera. Lugar que não existe, dando uso mais amplo do então neologismo «utopia».

A UTOPIA
Ela [a utopia] está no horizonte.
Aproximo-me dois passos e ele afasta-se
dois passos.
Avanço dez passos e o horizonte
distancia-se de mim dez passos.
Posso ir tão longe quanto eu quiser:
nunca lá chegarei.
Para que serve então a utopia?
Para isto: para avançarmos.
(Eduardo Galeano)

wikipédia/JDACT