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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Quatro escritores de prosa doutrinal religiosa. AJ Saraiva e Óscar Lopes. «... Quando cansarão meus males e fadigas, minhas enjúrias e ofensas, minhas saudades e misérias, as feridas n’alma e minhas magoas, as bem-aventuranças longas e tão cansadas?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Consideraremos à parte da prosa de ficção um conjunto de obras que, embora contenham elementos ficcionistas, tais como a alegoria, o diálogo e a descrição de visões, se caracteriza todavia pelo predomínio dos motivos religiosos. Não pode falar-se, na literatura portuguesa, de uma literatura propriamente mística, entendendo-se como tal aquela que exprime, por meios estilísticos tendentes à sugestão emocional, uma experiência imaginada ou experimentada de contacto directo com a divindade. Nada na literatura portuguesa se pode comparar às Moradas de St., Teresa de Ávila ou às obras de S. João da Cruz. Não parecem numerosas as obras que é usual classificar como ascéticas, isto é, as que se ocupam dos preceitos que levam à perfeição espiritual e preparam para o gozo da união com Deus (género que tem a sua melhor expressão na Imitação de Cristo). Deve todavia ressalvar-se que os textos de devoção não têm sido sistematicamente explorados pelos historiadores da literatura. O grande êxito que tiveram as obras de Frei Luís de Granada, autor de língua castelhana, mas que viveu e editou em Portugal, é significativo da existência de um público numeroso para este género de obras. Entre as poucas obras de inspiração religiosa que seguidamente vamos examinar, inclui-se uma de cunho hebraico e publicada em Itália. Embora adoptando a ficção pastoril, a sua inspiração é fundamentalmente bíblica, e o seu tema nada tem que ver com o bucolismo, excepto a descrição idealizada de um lugar ameno campestre.

Samuel Usque
A Consolação às Tribulações de Israel (Ferrara, 1553), do judeu português emigrado em Itália Samuel Usque, é constituída por três diálogos entre pastores (Icabo, Numeu e Zicareu, anagramas de nomes judaicos) e tem como propósito rememorar as perseguições sofridas pelo povo bíblico e recordar-lhe as divinas promessas de resgate. Parece à primeira vista estarmos simplesmente em presença de um livro de forma bucólica e de fundo religioso: tudo são reflexões e queixumes acerca das matanças, das escravizações, vexames, padecimentos sofridos pelos israelitas, em constante paráfrase de textos bíblicos e históricos, ou sobre recordações familiares, mitigando-se o sofrimento com a consolação das profecias e dos mistérios cabalísticos (a transmigração das almas, os poderes ocultos). No entanto, o pastoralismo de Usque vai talvez mais fundo do que o dos outros bucólicos portugueses, dado que a Bíblia, em que as suas alegorias se apoiam constantemente, elabora a história e as crenças de um novo nómada, ao passo que o bucolismo de Teócrito e Virgílio é muito mais evoluído em relação às raízes do género. A imaginação literária, o estilo de Usque constituem talvez por isso um caso único na nossa literatura quinhentista, se descartarmos um certo parentesco com a obra em prosa de Bernardim.
Depara-se-nos em Samuel Usque o estilo bíblico, em que o liame lógico é indirectamente dado por alegorias e metáforas simples (ao nível suposto de uma cultura de pastores), com repetições insistentes, com descrições pitorescas de circunstâncias que, logicamente, nada fazem ao caso, mas inculcam uma representação imaginosa das ideias. Este processo é sobretudo sensível no 1.° diálogo, Diálogo pastoril sobre as cousas da Sagrada Escritura, o mais abundante em descritivo campestre, traçando um quadro paradisíaco anterior às atribulações israelitas. Icabo (anagrama de Jacob), que no simbolismo bíblico se confunde corporeamente com o próprio povo judaico (também representado, aliás, pelas suas ovelhas), não entra na matéria histórica dos seus lamentos sem primeiro nos dar todo o lento desenrolar de um dia de pascigo, parece que hora a hora, rês a rês, numa contemplação logicamente preguiçosa que mal suporta substantivo sem adjectivação pitoresca, verbo sem adverbiação esmiuçadora, em longos períodos enumerativos que, ainda assim, não dispensam um espraiamento parentético de longe a longe. Sannazzaro não deixou de concorrer para este pastoralismo, pois certas paráfrases suas já foram reconhecidas pelos eruditos. Mas, mais do que a écloga, domina a inspiração do autor o versículo imaginoso e ritmado dos cânticos das Escrituras, o que ainda mais se evidencia se desse trecho descritivo passarmos às lamentações. Aí parece até que a exigência de melopeia, o tom agridoce dos lamentos e interrogações, ritmo de balanceamento ou intensificação gradativa preexistem à própria significação das frases e a comandam:

... Quando cansarão meus males e fadigas, minhas enjúrias e ofensas, minhas saudades e misérias, as feridas n’alma e minhas magoas, as bem-aventuranças longas e tão cansadas? E quando terá paz tanta guerra contra o fraco sujeito, temor, suspeita, receios de minhas entranhas? Té quando gemerei, suspirarei, matarei a sede coas lágrimas de meus olhos?

In António José Saraiva e Óscar Lopes, Quatro escritores de prosa doutrinal religiosa, História e Antologia da Literatura Portuguesa, Século XVI, nº 25, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCG/HALP/JDACT

sábado, 8 de novembro de 2014

Prosa Memorialista de Seiscentos. FCG. António J. Saraiva e Óscar Lopes. «…’ a melancolia e nublado português e a boa sombra e alegria castelhana: uns, noitibós tristes, e outros, pintassilgos alegres, [...] andam os portugueses à caça de uma melancolia, e sonham os castelhanos de noite como poderão levar um bom dia’»

Pintura de NicolasLancret
Cortesia de wikipedia

Prosa memorialista
(Excerto)
«A principal fonte de informação sobre este período é um diário particular referente aos acontecimentos decorridos entre 1662 e 1680, intitulado, Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, de que ficaram vários manuscritos, um deles editado em 1888, e que tem sido atribuído com verosimilhança ao beneditino de Entre Douro e Minho, frei Alexandre Paixão. O ponto de vista deste diário é o de um moralista muito conservador, antijudaico, favorável a ao monarca Pedro e à alta aristocracia. Mas a obra contém informações valiosas, graças a certo e novo gosto de registar efemérides, muito característico da época barroca e ao qual se devem obras tão notáveis como as Memórias de Saint-Simon ou o Diário de Samuel Pepys. A título de exemplo, e pelo seu extraordinário interesse para a história do teatro em Portugal, citemos as referências contidas em Monstruosidades às cartas por títulos e comédias e uma lista, elaborada por acinte nitidamente antinobiliárquico, em que figuram 117 nomes da aristocracia, ou designações colectivas de grupos dirigentes do País, seguidos cada qual de um título de comédia espanhola que lhe faz a caricatura; assim, Francisco Manuel de Melo é caracterizado pelo título da comédia Lances de Amor y Fortuna, o que parece confirmar a tradição linhagista segundo a qual a sua prisão tem qualquer relação com aventuras amorosas.
Entre as obras de memórias da época filipina salienta-se a Fastigímia ou Fastigínia do jurisconsulto Tomé Pinheiro Veiga (c. 1570-1656), diário de uma estada do autor em Valhadolid em 1605, mas com inserção de comentários e acrescentos indubitavelmente posteriores, obra que correu em numerosas cópias manuscritas. O autor dedica a maior parte do texto à descrição minuciosa de cerimónias e festejos áulicos e à transcrição da picante esgrima de galanteios que travou com damas espanholas, cuja desenvoltura e liberdade o surpreenderam e deleitaram, em contraste com a tirania que em Portugal se usa com as filhas e as mulheres. Bom observador humorístico, Pinheiro Veiga sabe insinuar, com humor, uma visão crítica da espaventosa corte de Filipe II (III de Espanha), do rei, do duque de Lerma e outras personagens, de certos costumes castelhanos e portugueses, das exibições teatrais do culto religioso, como procissões de tocheiros e milhares de disciplinantes, sermões em que sucedem farsas solenes, etc. Em certos pontos, como no gosto da reportagem concreta, da minúcia significativa, no interesse com que em dado passo refere progressos técnicos recentes, o autor ganha um ar moderno, apesar do seu lastro de citações clássicas e de conceitos espirituosos. Um dos maiores interesses do livro reside no contraste que estabelece entre a melancolia e nublado português e a boa sombra e alegria castelhana: uns, noitibós tristes, e outros, pintassilgos alegres, [...] andam os portugueses à caça de uma melancolia, e sonham os castelhanos de noite como poderão levar um bom dia. Tomé Pinheiro Veiga, cujo espírito autonomista se revelou no próprio exercício da magistratura, resistindo à aplicação de leis castelhanas, e que aderiu mais tarde à Restauração, reage de modo por vezes sarcástico contra a constante caricatura com que em Valhadolid é alvejado o seu Portugalete, quer em piropos de castelhanas ou em alusões orais diversas, quer até em entremezes, denominados portuguesadas, acerca de fanfarronices e sentimentalismos ridículos de tipos fidalgos portugueses. No entanto, não se cansa de também criticar os preconceitos e pechas da aristocracia nacional, à luz do que vê em Castela: a brutal sujeição feminina (que vimos preconizada pela Carta de Guia de Casados); a tola presunção provinciana de estirpe e o feitio brigão; a exibição sentimentalona, a alternar com o gosto de falar de um modo obsceno; a falta de limpeza; o baixo nível de convivência. O mais curioso é que o próprio autor se recorta, no livro, como um obsessionado sentimental pelo belo sexo, rematando mesmo a Segunda Parte por um longo encarecimento das sublimidades do amor freirático que é difícil de tomar apenas como uma ironia, a não ser que funcione como auto-ironia.
Sob o ponto de vista literário, trata-se de uma das obras mais notáveis do nosso século XVII, graças a uma prosa cheia de vivacidade, a um extraordinário sentido de humor, ao seu equilíbrio entre a coloquialidade e a erudição no sentido em que se orientavam já as obras de Jorge Ferreira Vasconcelos. Outras obras seiscentistas de Memórias: o Diário (1731-33) do 4.º conde de Ericeira, e o livro que Eduardo Brasão publicou no Porto, 1940, sob o título de D. Afonso VI, atribuindo-o a António Sousa Macedo; o investigador brasileiro Afonso Pena Júnior reivindica a autoria desta última obra para Pedro Severim Noronha. É ainda como memorialistas que aqui se devem registar dois homens que, além de Rodrigues Lobo, preceptista e antologista epistolográfico, Francisco Manuel Melo, padre António Vieira e frei António Chagas, deixaram uma significativa correspondência: Vicente Nogueira (1585-1654), clérigo muito culto, que, exilado em Roma, dá em numerosas cartas ao marquês de Nisa informações bibliográficas, pareceres e observações dos costumes da grande cidade; e José Cunha Brochado (1652-1735), a quem uma longa missão diplomática em Paris proporcionou curiosas reflexões e comparações em numerosas cartas, além de dois tomos de Memórias e anedotas da Corte de França».

In António J. Saraiva e Óscar Lopes, Prosa Memorialista de Seiscentos (excerto), História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, FCG, Lisboa, 2005, Halp 35, ISSN 1645-5169.

Cortesia de FCG/JDACT

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ensaios sobre Autores Portugueses do século XIX. Álbum de Família. Óscar Lopes. «… um quiproquó com outros amores, os de Carvalho e Melo com a sua irmã, dele, o conde do Sardoal, e acontece ainda que, antes do adultério, essa irmã do conde tivera uma filha legítima, por quem mais tarde o filho ilegítimo de Pombal se apaixona sem saber que é sua meia-irmã»

jdact

De o Arco de Sant’Ana a Uma Família Inglesa
Arnaldo Gama
«(…) O romance histórico, como memorial animado das glórias liberais e também das grandes tragédias tripeiras, é, como se sabe, sobretudo originalidade de Arnaldo Gama, cuja atenção ainda aliás se projecta para-a região dos seus próximos antepassados nobres de Riba de Ave e Riba-Cávado, para épocas várias de Coimbra, onde estudou, e para outros lugares mais exóticos. A sua carreira inicia-se quase paralelamente à de Camilo, de quem foi colega coimbrão, escrevendo folhetins, nomeadamente para A Península (1852-1853), e depois para o Comércio do Porto, onde saíram quase todos os seus mais conhecidos romances antes da publicação em volume. Tal como Camilo, e, de um modo geral, os ficcionistas portugueses de inícios do decénio de 1850, as suas predilecções voltam-se para os complicados enredos moralmente a preto e branco, em que as infâmias, os ódios vesânicos, os lances refalsados, os actos de sedução e abandono, as perseguições pertinazes e as grandes violências físicas ou torturas morais, as vinganças implacáveis, contracenam com a generosidade, a compaixão, a abnegação sem limites, como, por exemplo, acontece nos quatro volumes, num total de mais de setecentas páginal de O Génio do Mal (1856-1857), cuja acção se centra no Porto de cerca de 1840, com o romance Honra ou Loucura (1850), que decorre em Coimbra no século XIX, ou com Paulo, o Montanhês (1852), que transpõe da Calábria ou da Floresta Negra para a serra da Estrela um enredo tipicamente romântico de salteadores à maneira de Schiller ou de Dumas Pai.
Mais tarde, ao longo dos anos de 60, enquanto Camilo apura a sua típica alternação entre a novela das grandes exaltações e expiações passionais e a novela satírica, acusando em qualquer caso uma crescente mestria no traço justo, na sequência de acção incisiva, e nas súbitas guinadas de sarcasmo ou de pathos efectivamente pungenães, Arnaldo Gama mantém o seu gosto pelo emaranhamento de situações melodramáticas, sem dispor de uma linguagem à altura de tão ostensiva ou pretensa tensão moral, mas conseguindo prender a atenção por qualidades eminentemente didácticas de ambientação histórica, como elegantes traçados topográficos do Porto, no tempo de  Afonso V, ou então-na época pombalina, como a animção de grandes movimentos multitudinários, como o desenho preciso de tipos histórico-sociais no seu vestuário e no enquadramento característico da sua vida profissional ou doméstica, ou como o largo painel táctico da tomada do porto pelo exército francês, em 1809, e dos episódios de guerrilha ou de batalhas em forma através dos quais, mais tarde, no mesmo ano, se processa a sua retirada.
Exemplifiquemos primeiro o seu lastro melodramático. Assim, o primeiro dos seus melhores romances históricos, Um Motitn Há Cem Anos, saído em volume em 1861, contém em sete capítulos, cerca de cem páginas, o núcleo daquilo que é, talvez, o mais rocambolesco, e factual ou moralmente o mais implausível, dos enredos de Arnaldo Gama: através de uma catadupa de reconhecimentos e de longas explicações monologais em retrospectiva, vem a saber-se que um dos futuros justiçados pelo motim contra o monopólio pombalino da Companhia-Geral dos Vinhos do Porto é, nada mais nada menos, que um filho adulterino do próprio Pombal; mas imagine-se que o protector desse filho que Pombal, aliás, só identifica quando ele vai ser executado, é um agente secreto do Sebastião José de Carvalho e Melo, um conde do Sardoal, já irreconhecível e dado como morto na batalha de Friédberg, o conde do Sardoal que matara a sua própria e inocente mulher por um quiproquó com outros amores, os de Carvalho e Melo com a sua irmã, dele, o conde do Sardoal, e acontece ainda que, antes do adultério, essa irmã do conde tivera uma filha legítima, por quem mais tarde o filho ilegítimo de Pombal se apaixona sem saber que é sua meia-irmã.
O imbroglio é muito mais complicado do que isto, porque, entre outras coisas, mete ainda um mistério e um reconhecimento completamente gratuitos e infuncionais de certa Bruxa da Toire da Marca, e uma cadeia de desencontros amorosos do tipo daquele vicentino amor loco, amor loco, / yo por vos y yos por otro. A efabulação de tudo isto processa-se ao longo de extensas tiradas dialogais, com fases de intensa ternura, ciúme ou ódio, em transes textualmente de insânia, com gargalhadas infernais, raivas satânicas e outras manifestações caracterizadas por estes mesmos adjectivos infernal e satânico». In Óscar Lopes, Álbum de Família, Ensaios sobre Autores Portugueses do século XIX, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1984.

Cortesia de Caminho/JDACT

Questões de Literatura Portuguesa. A Busca de Sentido. Óscar Lopes. «Quanto aos gentios, frequentemente qualificados de ‘bestiais’, segundo critérios que têm que ver com a antropofagia, a nudez, a alimentação não cozinhada, ou tida como ‘imunda’ pelos padrões europeus…»

jdact

Apologia e crítica contemporâneas da expansão
«(…) É claro que as frequentes sortidas para razia das aldeias, aprisionamento de camponeses e de gado que Zurara monotonamente descreve nas crónicas dos dois Meneses, pai e filho, condes de Viana, e os assaltos na costa ocidental africana para escravização e/ou resgate de azenegues e outros gentios, ou mouros, pouco se parecem com as andanças de cavalaria dos Amadises, mais tarde dos Palmeirins: a doutrina então vigente justificava-os pela oportunidade de conversão das almas e pela necessidade de meios materiais para aumento militar da cristandade. Vamos encontrar mais tarde condenações da escravatura em Fernão Oliveira e em Sá de Miranda, mas situadas num plano de utopia, inspirada, no poeta, pelo mito da Idade de Ouro. Mais impressionante é o facto de, fora das condições de luta ou de rapina ferozmente interessada, os infiéis e os gentios poderem ser encarados como seres humanos sensíveis, embora ainda não como partícipes de colaboração estável ou como objecto-sujeito de pura curiosidade recíproca. Num breve parágrafo da Crónica do Conde D. Duarte de Meneses em que se refere às aldeias de rurais magrebinos para, segundo a norma retórica de Tito Lívio, associar a sua audácia e tino militar com a sua fides punica (traduzida em termos de deslealdade islâmica), Zurara dá conta da pobreza e seminudez desses camponeses, comparando os seus casebres, onde dormem junto ao gado, com as casas rurais, de Entre o Douro e Minho. Em vários episódios de assalto de cristãos a alarves, azenegues ou gentios da encosta ocidental africana, é bem sensível, mesmo quando recalcada, a simpatia e até a admiração do narrador pelos assaltados, geralmente mal armados. E acontece que já antes, no saque subsequente à tomada de Ceuta, nós vemos alguns desses campónios portugueses, acostumados à miséria das suas choças, a desbaratar as despensas fartas e a refocilar nas camas brandas e moles, dos mouros desapossados, cujas vozes ouvimos, pouco depois, a lamentar-se, nos arrabaldes, não apenas dos bens perdidos, mas também do futuro corte de comunicação com filhos e outros parentes próximos em Gibraltar ou em Granada.
Quanto aos gentios, frequentemente qualificados de bestiais, segundo critérios que têm que ver com a antropofagia, a nudez, a alimentação não cozinhada (ou tida como imunda pelos padrões europeus), a falta de limpeza, o comunitarismo social, a sua inacessibilidade ao trato, e a religião não-monoteísta, rapidamente foi reconhecida a sua condição humana e apreciada a sua convertibilidade ao cristianismo, bastante mais fácil que a dos islamitas. Isso não os livrou da escravização pelas armas, ou da sua compra quando já escravizados nas lutas intertribais que o próprio trato negreiro estimulou. Na conhecida cena de Zurara relativa à partilha, em Lagos, do primeiro grupo numeroso de escravos gentios, apresentados por Lançarote, há dois traços característicos que o cronista sublinha como inerentes à exemplaridade do retrato do infante Henrique. Por um lado, nesse acto inaugural e portanto inédito de uma nova fase moderna da escravatura, o narrador entende dar vivacidade a uma reacção emotiva pessoalmente sua, pedindo a Deus que perdoe as suas lágrimas provocadas por simples simpatia humana, perante a violência de um repartir de reses humanas que nem sequer respeitava os laços de mãe e filho, enquanto o infante, a cavalo, e encarando as coisas de um modo tido como mais consequentemente religioso, considera com grande prazer na salvaçom daquelas almas que ante eram perdidas. Por outro lado, Henrique redistribui imediatamente o quinto dos cativos que lhe cabe em quinhão, comprovando, mais uma vez, aquela sua ética de mero serviço proselítico de Deus e de uma honra desinteressada que-encaminha todos os ganhos para galardão dos executantes directos, ou para prossecução do serviço à causa». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3, Conferência proferida no Congresso Le Caravelle Portughesi sulle vie delle Indie, Milão, 1992.

Cortesia de Caminho/JDACT

quinta-feira, 13 de março de 2014

Oliveira Martins. As contradições da Geração 70. Óscar Lopes. «… os problemas de Oliveira Martins são para nós os da sua geração; Oliveira Martins é para nós uma consciência que reflecte sobre o que se pensava antes dele e sobre o que fazia com que antes dele se pensasse de uma determinada maneira»

jdact e telmamaodeferro

«(…) É claro que certas pessoas preferiam outra liberdade: a de sonhar, dormir talvez; e essas, contra Oliveira Martins continuarão a explicar, por exemplo, o obscuro da constituição histórica de Portugal por uma coisa ainda mais obscura, a lusitaneidade; e censurarão no historiador aquilo que justamente o torna interessante, que é a radicação no passado nacional dos problemas da sociedade sua contemporânea, a suspeita de que os portugueses se têm batido historicamente, com sorte nem sempre feliz, contra o mesmo desnivelamento social humano de que é preciso resgatá-la agora (agora, em 1885; em 1984, e agora 2012, e agora 2013…). Nós queremos libertar-nos das nossas condições, vendo-as de frente, deixar a outras pessoas aquela espiritualidade do avestruz que evita as realidades molestas enterrando a cabeça na areia. Ora (insistindo), se nos interessa o homem histórico, o homem do seu tempo, o homem sempre diferente, progressivo, o homem que faz experiência, em vez de homem de sempre, o homem-avestruz que põe a cabeça fora do mundo, os problemas de Oliveira Martins são para nós os da sua geração; Oliveira Martins é para nós uma consciência que reflecte sobre o que se pensava antes dele e sobre o que fazia com que antes dele se pensasse de uma determinada maneira. Com Oliveira Mútins libertamo-nos, portanto, de velhas misérias, não pelo sonho nacionalista mas pela consciência inteligentemente patriótica que nos reclama uma acção. E é com este Oliveira Martins que podemos reaprender, não o seu ambíguo cesarismo à Bismark, não o seu sonho ibérico, e o seu antifeminismo, não as soluções inevitavelmente ultrapassadas pela segunda revolução industrial da turbina eléctrica e do motõr de explosão, mas certas verdades mais elementares, como esta, que lhe inspira o projecto de lei do fomento rural, toda a sua obra de economista e o melhor da sua obra de historiador: a Nação não é um substantivo abstracto, mitologicamente maiusculado, com insígnias drapejantes aos ventos passadistas ao gosto de Ramalho, TeóÍilo e do Estado Novo; a Nação só ganha em dignidade se, de substantivo próprio e abstracto, se fizer um substantivo comum e colectivo.

A carreira literária de Oliveira Martins desdobra-se paralelamente à de um grupo, que pode considerar-se intelectualmente emancipado pelo início da década de 1870, e até, podemos precisar melhor: desde 1871. É claro que o grito contra os filisteus fora já erguido em Coimbra seis anos antes, por Antero e Teófilo. Mas em 1865 havia mais uma vontade de revolta do que uma consciência de fins; Antero e Teófilo vieram sobretudo afirmar, em 1865, a galhardia de uma independência mental que fez pela primeira vez escândalo, mas não era nova em Coimbra, nem no Porto, nem da parte deles, nem de outros até já consagrados, como João de Deus; e vieram, sobretudo, decorar com nomes alemães (Hegel, Herder, Heine, Goethe) e de intermediários franceses (Vera, Michelet, Quinet, Proudhon) a mesma metafísica do Progresso Indefinido e da Imanência, o mesmo jacobinismo folclorista, o mesmo socialismo federalista e utópico que tinham emergido, aqui e além, desde meados de 1850, em Soares Passos, Mendes Leal, José Estêvão, Tomás Ribeiro, Henriques Nogueira.
Sim, aqueles que hoje nos parecem românticos retardatários foram, afinal, os iniciadores da grande geração iconoclasta. Com o Firmamento, de Soares de Passos, a poesia lamartineana da emoção cósmica deriva de Herculano para as Odes Modernas de Antero; e o culto pessimista de Camões, como símbolo patriótico e libertário, chegou de Garrett, por intermédio de Passos e Mendes Leal, a Teófilo, que abrirá com o terceiro centenário camoniano o precedente das comemorações pátrias retrospectivas, sucedâneo moderno do sebastianismo. De resto, ideologicamente, Teófilo Braga foi o nosso mais puro romântico. Por outro lado, o republicanismo federal em que são correligionários Teófilo Braga e Antero de Quental, até que este se decide por novos rumos, apontados por Oliveira Martins, tinha feito escola desde 1851 com Henriques Nogueira». In Óscar Lopes, Álbum de Família, Ensaios sobre Autores Portugueses do século XIX, Reflexões sobre Herculano como polemista, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1984.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 12 de março de 2014

Oliveira Martins. As contradições da Geração 70. Óscar Lopes. «… a crítica à arte, e, segundo uns, a obra do economista à sanha demolidora, segundo outros, um autêntico pensamento revolucionário ao gosto da acção política imediata»

jdact

«Talvez não seja mau colocar-me de início no ponto de partida modesto de toda a reflexão, mesmo a científica: a opinião corrente, o lugar-comum. Ora, acerca de Oliveira Martins, se me não engano, o lugar-comum reza: autor perigoso, cheio de contradições, nomeadamente as que- nele sacrificaram a crítica à arte, e, segundo uns, a obra do economista à sanha demolidora, segundo outros, um autêntico pensamento revolucionário ao gosto da acção política imediata. Aceitemos esta visão banal; em vez de refutar uma banalidade, vale mais a pena, quase sempre, explicá-la, o que conduz aos mesmos resultados, sem indispor o nosso semelhante. Se o artista bulha com o crítico, em Oliveira Martins, como definir em termos claros e distintos a arte desse artista, a crítica desse crítico? Pois uma arte, uma crítica, exigem caracterização, salvo para os temperamentos ingenuamente devotos e suficientes. E, da mesma maneira, se um utopista, ou um reaccionário, consoante as predilecções, perturbam o historiador ou o político, basta o pressuposto de existir em Oliveira Martins um historiador, um político, estimáveis, para a gente desconfiar das oposições sumárias. Mas, além disto, se- Oliveira Martins, que é sob o aspecto doutrinário o mais interessante espírito da chamada geração realista, se caracteriza por certas contradições, pelo senso das antinomias que António Sérgio dilucidou em vários ensaios, se Oliveira Martins, homem representativo, é contraditório, antinómico, temos de supor que nele se reflecte ou contém eminentemente o que afinal se debatia, se contraditava na sua geração. Pode dizer-se que, de algum modo, os grandes homens são os mais condicionados pela sua época, porque, ou se não têm problemas vividos ou têm-se os da época; os grandes homens são condicionados, mais do que os outros, pela sua época, porque se condicionam a ela, porque fazem história, é fazer história significa o reconhecer de dados positivos e agir produtivamente.
Tem-se dito que o homem é um animal racional, ou um animal religioso ou metafísico, ou social. Mas sociais são-no as abelhas e as térmitas; em pura metafísica pode imaginar-se, como Unamuno, que os caranguejos discutem as raízes das equações do segundo grau, tranquilos e imperscrutáveis, sob a carapaça; razão análoga pode, sempre em virginal metafísica opor-se às outras definições. Só não pode duvidar-se de que o homem seja um animal superiormente histórico; o que significa que a dignidade do homem consiste precisamente na impossibilidade de definir o homem de sempre, porque o homem se refaz à medida que vai tomando consciência das suas condições. Oliveira Martins foi uma personalidade relevante, porque quis ser e soube ser do seu tempo; a sua actualidade não reside nas soluções que achou mas nos dados com que temos de contar para acharmos, nós, hoje, as nossas soluções, e de que ele teve a primeira consciência. Por outrass palavras: Oliveira Martins só pode viver em nós na medida em que se condicionou, e nos condicionou, aos factores de um pensamento activo. A autêntica liberdade do espírito é a consciência activa do que nos determina, do que nos limita, do que nos resiste e do que, por isso, caracteriza a nossa reactividade.
Foi assim que Oliveira Martins nos libertou de certos devaneios delirantes, subalternizando as pseudo-explicações rácicas e vagamente patrioteiras na diferenciação nacional; fazendo suspeitar os factores burgueses (entre outros móbiles sociais) da revolução do Mestre de Avis; sublinhando o anacronismo peninsular do espírito cavaleiresco, medieval, sob o dogmatismo jesuíta dos séculos XVII e XVIII; definindo o vector fundamental do fontismo, a sua hierarquia dos problemas nacionais, que consistiu no fomento agrícola e industrial, pelo barateamento do crédito, pela pauta alfandegária inteligente, pela emancipação dos produtores, pelo apoio técnico, à política vistosa e submissa ao imperialismo das vias-férreas, das estradas, dos empréstimos internos e externos (parecem hoje: 1984 e 2012…)». In Óscar Lopes, Álbum de Família, Ensaios sobre Autores Portugueses do século XIX, Reflexões sobre Herculano como polemista, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1984.

Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 10 de março de 2014

Ensaios Camilianos. Óscar Lopes. «… o que sobressai é o intricado quadro genealógico das grandes expiações criminais, e a personificação sumária dos grandes e abstractos móbeis que atribui ao comportamento humano: o ódio, o sentimento amoroso, o remorso, a caridade, e sobretudo, como em Herculano, a vingança»

jdact

Estudos
Camilo Castelo Branco. A novela camiliana. Sua evolução
«(…) Até meados da década de 50, a obra novelística de Camilo não se individualiza notavelmente dentro das tendências principais que entretanto se verificam na ficção em prosa de autoria portuguesa ou traduzida. Tendo-se estreado em letra redonda com paródias de estudante, com sátiras e crónicas anticabralistas, com poesias ultra-românticas, com dramas históricos e um folheto de cordel sobre um crime hediondo, publica por 1848, em O Eco Popular e O Nacional, uma série de folhetins em que, no fundo, se debatem os conflitos sociais e morais da juventude romântica (A Última Vitória de um Conquistador, O Esqueleto, etc.). Trata-se, em geral, de um galã esgrouviado e macilento, segundo a moda de Arlincourt e outros escritores românticos, que, embora de boa índole, se deixa corromper pela podridão social urbana (ideia de Rousseau), seduz uma mulher e a abandona, enfastiado, ou que, então, a ama desvairadamente, mas tem de ceder perante a imposição de um pai tirano que a pretende casar com um rival tão lorpa como rico, de tudo isso resultando enrouquecimentos, mortes pela tísica, pelo suicídio ou assassinato. Camilo não mais abandonará de todo este esquema, que se relaciona com a idealização de uma como que religião do amor, em que as aspirações ideais, o prelibar de bem-aventuranças, só podem recortar-se contra um fundo trágico de impossibilidades sociais, ou de crimes e sacrilégios; em que, por outro lado, a posse física nunca deixa de gerar o fastio quanto à mulher angelizada, o solilóquio lírico de tédio, ou a responsabilização vaga da sociedade ou do destino por tudo isso.
Nesta fase inicial nota-se também, em certos folhetins, como no drama Agostinho de Ceuta, a influência do historicismo e do moralismo grandíloquo de Herculano, que se cruzam em Anátema (1851), a sua primeira novela editada em volume, com a influência de Nossa Senhora de Paris de Hugo (o tema da paixão sacrílega e rancorosa de um sacerdote). Anátema contém já saborosos intermezzos de diálogos, comentários e superstições rurais, e uma curiosa simpatia pelo artesanato seiscentista ainda não proletarizado ou aburguesado, mas constitui também a transição numa tendência que conduz à série novelesca constituída pelos Mistérios de Lisboa (1854) e O Livro Negro do Padre Dinis (1855): a tendência melodramática para o enredo de perseguição, expiação e terror macabro através de várias gerações de uma mesma família, com enjeitamentos, raptos, prisões, crimes, reaparições e reconhecimentos inverosímeis, temperados por incidências de paródia sorridente que aliás não destoa do folhetim romântico, como já conhecemos das Viagens de Garrett. Camilo procura satisfazer assim o gosto do romance negro de aventuras, lançado pelo pré-romantismo inglês (H. Walpole, Ana Radcliffe) e afim do melodrama de Pixérécourt, e de que Soulié, Nodier, Féval, Sue e o próprio Vítor Hugo foram os principais transmissores. É, no entanto, significativo o facto de o nosso novelista esbater, se não eliminar, a crítica da miséria e das degradações morais, das perversões que a miséria provoca, tal como a encontramos nos livros de Eugène Sue e Vítor Hugo, que imita. Camilo manifestou mesmo, e mais que uma vez, a sua antipatia em relação à literatura de crítica social, nomeadamente em relação a Hugo, Balzac e George Sand. Nestes romances folhetinescos daquilo que poderemos considerar ainda a sua fase inicial, o que sobressai é o intricado quadro genealógico das grandes expiações criminais, e a personificação sumária dos grandes e abstractos móbeis que atribui ao comportamento humano: o ódio, o sentimento amoroso, o remorso, a caridade, e sobretudo, como em Herculano, a vingança.
Atendendo à voga de que a novela de Camilo já então gozava, podemos concluir que o tipo de romance que os feuilletons da imprensa francesa consagraram poucos anos depois da Revolução de 1830 e que, na sua melhor época (aquela que medeia entre essa revolução e a de 1848), teve a seu serviço alguns dos melhores e mais progressivos romancistas, adquiriu, ao lançar-se em Portugal por inícios da Regeneração, um carácter acentuadamente sonhador, evasivo, de certo modo análogo ao da ficção historicista. Mas, pelo meio do decénio de 1850 esboça-se uma viragem no sentido do realismo, da novela da actualidade, em que a lição balzaquiana, embora enfraquecida e até mesmo teoricamente criticada, já faz sentir os seus efeitos». In Óscar Lopes, Ensaios Camilianos, Fundação António de Almeida, Greca Artes Gráficas, Porto, 2007, ISBN 978-972-8386-69-6.

Cortesia da F. António de Almeida/JDACT

sexta-feira, 7 de março de 2014

In Nomine Dei. José Saramago. Óscar Lopes. «Logo de início o catolicismo predominante é levado de vencida por um vento novo [que] sopra nas terras baixas da Holanda e de todo o Norte da Alemanha, são os muitos imigrantes que varrem a maioria»

jdact

«Considerado como libreto de uma ópera que foi estreada num teatro de Münster em Outubro de 1993, este quarto texto teatral de Saramago teve o prémio de teatro da APE de 1993. Tanto quanto sei, não recebeu da crítica a atenção que merece, talvez por ser considerado apendicular de uma ópera (quando a ouviremos em Portugal?), talvez pela sua fidelidade essencial ao real histórico, o que se verifica pela cronologia sumária final dos acontecimentos de Münster, entre 1530 e 1536. Compõe-se de três actos, divididos em quadros, que dão sobriamente a curva ascendente-descendente da tragédia, graças a um coro dividido a exprimir a vox populi de católicos, luteranos, anabaptistas, mulheres, etc., em comentário participado dos acontecimentos. Fica, naturalmente, de fora qualquer alusão à linha dos levantamentos milenaristas, que do século XI até ao século XVI percorre toda a cristandade (se não quisermos recuar ao Evangelho de S. Mateus, ou às profecias bíblicas de Daniel quanto ao Quinto Império, e não viermos até Luther King e à Teologia da Libertação); trata-se tão-só da revolução anabaptista que teve o seu epicentro em Münster e o seu herói em Jan van der Leiden (João de Leida), rei dessa cidade, promovida a Nova Jerusalém da nova fé. Mas o mais interessante, é nesse aglomerado de dez mil (e, na vaza-mar três mil) habitantes, em que se vêm abrigar muitos fugitivos das cidades vizinhas, a seguir a resenha da ideologia milenarista.
O que caracteriza o milenarismo, na óptica de um dos seus historiadores, é ganhar a feição de seitas colectivas, com a esperança de realização terrena a breve prazo do efectivo reinado de Cristo. Neste sentido foram milenaristas os primeiros cristãos, que esperavam a segunda vinda de Cristo, o qual, segundo o Apocalipse atribuído a João Evangelista (havia outros ainda, que a Igreja não consagrou), governaria a Terra regenerada durante mil anos até à realização do Juízo Final, numa sociedade comunitária, sem jerarquias sociais nem supremacias. A aceitação do Império Romano, com a definição do Credo romano em Niceia, 325, acabou por transformar os ideais de libertação civil numa libertação meramente pessoal assistida pela Igreja, segundo um modelo depois explicitado por Santo Agostinho de Hipona e Santo Ambrósio, bispo de Milão.
O milenarismo é um movimento que ressurge periodicamente entre as camadas mais pobres, na pregação ou inspiração de letrados, quando grandes transformações afectam as próprias camadas hegemónicas, como, por exemplo, as cruzadas, o movimento urbano, as grandes pestes, a nova proletarização forçosa do campo e da cidade, a Reforma e outros fenómenos que põem a nu, e por vezes dão inesperadamente oportunidades, às vítimas da discriminação estabelecida entre a massa servil e a massa armada e privilegiada treinada para a condução da guerra. Daí a irracionalidade das esperanças: a crença cega em pregadores e na preservação ou ressurreição da vida de Carlos Magno, Godofredo de Bolhão, o rei Tafur, Balduíno IX, Frederico I, Barbarrossa, etc. (O próprio Sebastianismo, no século XVII, que importa o Novo Reino de Cristo, depois de vencido o Anticristo, em geral identificado com a Igreja e os seus clérigos). A revolução de Münster, 1530-35, tem um carácter urbano, no que contrasta com as jacqueries inglesas e francesas de John Ball (Quando Adão cavava e Eva fiava / Quem era então o cavalheiro?), e com a revolta dos camponeses do centro da Alemanha e da Boémia, que terminou com a degolação de Tomás de Müntzer (1525). A sua palavra de ordem, que lhes valeu o nome de anabaptistas, é a exigência de um novo baptismo dos adultos, conscientes, visto que o primeiro, já então feito na infância inconsciente, nada valeria. E a exigência inicial parece dirigida contra os privilégios e direitos (mesmo de comerciar) detidos pela aristocracia eclesiástica desse Estado diocesano, quando, sob a condução de Rothmann e de Knipperdollinck, obtém revolucionariamente a maioria do Conselho Municipal. É neste ponto que a tragédia começa.
Ouve-se, ao escurecer uma voz recitante a dizer palavras do profeta Daniel, num campo de cadáveres de uma batalha: Primeiro, a força do povo há-de quebrar-se inteiramente. Então todas estas coisas se cumprirão. Como é de regra nas tragédias, toda a acção é acompanhada por intervenções do Coro, que participa da acção como personagem colectiva, dividindo-se, para corresponder a católicos, protestantes (conservadores e avançados), anabaptistas, e a outros grupos sociais, que por vezes representa, como por exemplo mulheres. O registo das falas é solene, cheio de alegorias bíblicas (personagens e partes do corpo, gado, instrumentos de uso profissional...), no encalço de questões religiosas em debate: baptismo apadrinhado, ou cônscio e adulto; missa comungada convencionalmente, ou em espécie (vinho, pão reais); uso do latim, ou da linguagem vulgar; razão, ou loucura divina.
Logo de início o catolicismo predominante é levado de vencida por um vento novo [que] sopra nas terras baixas da Holanda e de todo o Norte da Alemanha, são os muitos imigrantes que varrem a maioria. O bispo recém-eleito, Waldeck, intervém a suster os seus soldados e a reconhecer os direitos dos luteranos (segundo a Paz de Augsburgo de Carlos V); quando se retira, os revolucionários anabaptistas triunfam no Conselho da cidade, impõem o novo baptismo contra os católicos; e os luteranos conservadores já contam com o assalto iminente das tropas episcopais». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, In Nomine Dei, José Saramago, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3,

Cortesia de Caminho/JDACT

Mãe-D’Água. Ou a Poesia de Eugénio. Óscar Lopes. «… a própria astrologia morre entre Kepler e Newton, a segregar uma mecânica que é tão terrestre como celeste; a alquimia morre entre Paracelso e Niels Bohr a segregar estruturas moleculares, atómicas e quânticas»

jdact e wikipedia

«Este título ocorreu-me sem que eu ainda agora saiba ao certo porquê, e de um modo obsessivo. Reconheço que a frase mãe-d'água já mexe de há muito comigo; grafada assim, com um apóstrofo, lembro-me de a ter lido, numa ressonância de lenda à esquina de uma rua, ou travessa, ou escadinhas, era então estudante em Lisboa; mas o apóstrofo não corresponde à minha pronúncia infantil nortenha, sem contracção vocálica e boleada por um ditongo que hoje me soa um pouco ao galego: mãe diágua. Fico logo a ver uma fonte, nascente, mina ou reservatório de aqueduto, mas com o líquido a borbulhar desde o fundo, o que terá talvez que ver com outra expressão afim, olhos de água, aliás um título ribatejano de Redol. Hoje os mitos refugiam-se em constelações verbais como estas, que bastam para animar um devaneio, sem qualquer necessidade de enredo ou lenda. E eis desde já uma coisa que se liga à poesia de Eugénio de Andrade: a sua aura mítica, mas sem o alarde de qualquer mito, a sua materialidade verbal ou frásica directamente presa a uma certa memória, como que imemorial, quero dizer, uma memória que mal precisa do suporte de um sujeito civil, porque irradia logo dos usos de certas palavras em certas conexões, certas entoações, a evocar flutuantes situações de fala, memória que se coa através de não se sabe que interstícios comunicativos, ligados entre si, mas sempre de maneira nova a cada leitura do poema.
A mãe-d'água do título surgiu, portanto, como um enigma a decifrar; e a frase está aí ligada ao nome do poeta através de um ou que é também muito seu e perturbante. Não se trata do ou de disjunção (que, de resto, os semanticistas já consideram muito ambíguo no seu estrito sentido lógico); não é o ou de certas subtitulações muito em moda no século XVIII (Justine, ou les Malheurs de la Vertu); é um ou de conexão resignadamente imprecisa, aberta às disponibilidades receptivas do leitor ou destinatário, e que num seu belo poema se desdobra em ou, se preferes, e que, aí mesmo (como noutros poemas), equivale a coisas ou referências puramente virtuais, marcadas por um como se, um como quem, e, outras vezes, nos convida a arbitrar entre sinónimos de criação meramente contextual pássaro ou rosa ou mar, ou entre um rosário de imagens a apontar para o objecto de um mesmo ardor. Podemos generalizar a toda a obra de Eugénio o âmbito desta disjunção que se oferece ao leitor. Com efeito, e tal como nas nossas melhores poesias paralelísticas do século de 1200, embora abandonando qualquer rigidez arcaica de ordem estrófica ou outra, os seus poemas avançam por modulação contínua das imagens ou frases, como que entre coisas disjuntas mas afins, aleatórias mas afinal consequentes, num certo enrredar das palavras com aquele grande silêncio em que elas se perfazem.
Falei há pouco na disseminação dos mitos antigos, cuja real vitalidade acaba por se abrigar em simples junturas verbais que, despercebidamente, nos brincam na boca e que certos poetas conseguem coagular e chamar à atenção em textos surpreendentes. Eugénio parece que precipita os mitos em cristais, mas de uma substância que escapasse a qualquer fórmula química ou a quaisquer eixos definidos de cristalização, e que todavia sugerissem a precisão de uma sua especial química ou cristalografia. Já certos românticos (e deles há ecos em Eça e Antero) explicaram a importância moderna (pós-renascentista) da música como sendo o indispensável sucedâneo da mitologia, e também dos dogmas e dos ritos solenes, claramente em agonia, apesar de apoiados por tantos artifícios ou próteses: a própria astrologia morre entre Kepler e Newton, a segregar uma mecânica que é tão terrestre como celeste; a alquimia morre entre Paracelso e Niels Bohr a segregar estruturas moleculares, atómicas e quânticas. Fazem-se ainda hoje prodígios de elucubração metafísica (talvez sempre, no fundo, teológica) para ressalvar a vigência de quaisquer mitos esotéricos ou cabalísticos, a pretexto de contradições teoréticas que há nas ciências, contradições inevitavelmente nascentes a cada passo em frente e até propulsoras do próprio progresso racional e de uma eficácia técnica crescente (de que o esotérico nem prescinde). Mas para quê tanta freima fideísta, se o melhor de todos os mitos subsiste, despercebido, na mais correntia das frases e nos actos de comunicação, e comunicação tem até, etimologicamente, que ver com comunhão: aquilo que ainda vive das religiões ou mistérios mora, afinal, no grande mistério quotidiano de as pessoas se falarem, e de cada qual de nós se identificar, sem dar por isso, a qualquer outro na alteridade (a ambos comum) da própria fala». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Mãe-D’Água, ou a Poesia de Eugénio, Boletim da 63ª Feira do Livro, 1993, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

quinta-feira, 6 de março de 2014

Ladino. A Busca de Sentido. Miguel Torga. Óscar Lopes. «Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho? Uma semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava…»


jdact e cortesia de wikiédia

Ladino
«Miguel Torga tem cinco livros de contos: Bichos 1940, Montanha 41, Rua 42, Novos Contos da Montanha 44, e Pedras Lavradas 51. Estes volumes contêm algumas das peças fortes da sua obra, como Jesus, Maio Moço, Um Coração Desassossegado, O Alma Grande, O Leproso, Mariana, Renovo, Grilo Branco, O Pequeno Herói, cada um dos quais se propõe e realiza, a seu modo, um dado valor, o que os torna diferentes, pois cada valor se exprime do seu modo e se vai mudando à medida que se projecta em imagens. Por isso, depois de uma longa hesitação em esboçar uma tipologia de textos que evidenciasse a sua variedade, optei por concentrar os minutos de que disponho na análise de apenas um, aquele cuja linguagem mais me prendeu pela sua coerência e eficácia. Trata-se do conto Ladino, de Bichos. Tal como acontece com o conjunto dos textos de Bichos, e como o próprio título geral sugere, há uma ideia dominante, que de resto ocorre aqui e além em toda a obra de Torga, numa linha de continuidade pós-naturalista. Principiemos por chamar-lhe antropomorfismo. Mas, no caso específico de Ladino, ficava melhor teriomorfismo, até porque o próprio nome Ladino, que aqui serve de chamadouro a um pardal, significa, não já aquele que fala latim, ou qualquer língua românica, mas aquele que é manhoso, esperto, uma propriedade ocasionalmente humana. E todo o empenho do autor consiste, desde o princípio, em apreender em termos muito explicitamente humanos a esperteza de um animal, ou seja, em focar o bicho como ser falante, que se defende de todos os riscos, tão manhoso, em toda a freguesia, só o padre Gonçalo, adiando a vida numa facécia final que fica no ouvido, até quando acabar milho em Trás-os-Montes.
Esta confusão entre a vida de um pardal e a vida humana, herança dos fabulários mas também de Eça, Fialho, Junqueiro, Trindade Coelho, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, e outros, requer aqui um animal falante e o seu discurso especial. Digamos que um discurso não-académico, se por académico entendermos a exposição com sujeito, predicado e circunstâncias bem reconhecidas. Ora, das sete páginas deste conto, as duas primeiras páginas são um série aparentemente monologal de troços discursivos que pratica uma sequência de actos de fala de difícil classificação: exclamações? Excepções? Encarecimentos? Perguntas? Objecções? Reconhecimentos de valor? Recusa de aceitação pessoal, etc., etc.? Eis um exemplo inicial da recusa de deixar o ninho: Mas como havia de lhe dar o lampo, se aquilo era uma cautela, um rigor!... E logo de pequenino. Matulão, homem feito, e quem é que o fazia largar o ninho? Uma semana inteira em luta com a família. Erguia o gargalo, olhava, e - é o atiras dali abaixo! A mãe, coitada, bem o entusiasmava. A ver se o convencia, punha-se a fazer felustrias à volta. E falava da coragem dos irmãos, uns heróis! Bom proveito. Ele é que não queria saber de cantigas. Etc., etc.
Neste breve exemplo, outras particularidades ressaltam. Em primeiro lugar, o período só aparentemente é um monólogo, pois facilmente se detecta o diálogo entre a mãe, a entusiasmar o seu menino a saltar do ninho e ele a resistir-lhe, e mais adiante também os incentivos mais desalmados do pai. Mas, além disso, o diálogo trava-se abertamente num dado quadro natural de costumes invocados, facilmente redutível a troca de esgares, fácil e convincentemente dados por um discurso indirecto, cuja entoação adequada lhe dá facilmente o carácter de discurso indirecto livre, de mímica entonacional. Ora, para esta conversão ser mais natural, as marcas processuais têm de ser mais acusadas, a fala deve representar bem o carácter cauteloso, desconfiado, medroso do protagonista, a feição empenhadamente colaborante da mãe, mais adiante o temperamento menos contemporalizador do pai, e tudo isso exige uma linguagem imediatamente colada às realidades, capaz de registar as pequenas variações de juízo prático, generalizações típicas de situações evidentes: Bom proveito. Ele é que não queria saber de cantigas». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Ladino-conto de Miguel Torga, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3.

Cortesia de Caminho/JDACT

quarta-feira, 5 de março de 2014

Aquilino Ribeiro e a Infância. A Busca de Sentido. Óscar Lopes. «… o melhor romance português que tem como protagonista uma criança chama-se “Cinco Réis de Gente” e foi escrito em 1948 por Aquilino Ribeiro, que já então dobrara o cabo dos 60 anos-de idade…»

jdact e cortesia casamuseuaquilinoribeiro

«É talvez impossível encontrar um escritor português cujo estudo seja mais fascinante do que Aquilino sob estes dois pontos de vista cruzados: o ponto de vista da evocação e meditação do mundo da sua infância, um mundo prototípico, rural, de há cerca de um século na ainda tão sertaneja Beira Alta serrana; e o ponto de vista do pai e do avô que inventa ou refaz histórias e lengalengas para os filhos e, depois, uma sua neta sucessivamente sentados nos seus joelhos, animando-se por ter ao colo algo como a sua própria imagem infantil rediviva, e traindo ao mesmo tempo, e sem se dar por isso, alguns traços irrepetíveis da sua própria geração e uma incontível angústia pelas perdas irremediáveis e pelo fim que está à vista de qualquer vida, e sobretudo da sua própria vida individual. A infância é, sobretudo em tempos modernos, um tema que apaixona poetas, artistas e investigadores, pois trata-se da fase de mais intensa transformação, ou formação humana, aquela fase em que se definem os esquemas básicos de assimilação e de adaptação em diversos módulos de reactividade.
Alguns desses módulos estão ainda relativamente próximos da sua base animal, como o módulo das reacções motrizes e tácteis, no sentido mais lato destes termos, que dizem respeito a um certo ambiente imediato, ou mesmo como o modo audiovisual da percepção e acção, a maior distância e intervalo de tempo; mas o que mais alonga e complica a aprendizagem humana elementar é a inserção activa dos módulos de compreensão e reacção simbólica, sobretudo a linguagem comum, que instala uma espécie de segundo mundo, um mundo de circuitos intersubjectivos com objectos de estatuto fiduciário, isto é, com formações discursivas mais ou menos amplamente partilhadas mas também sujeitas, quer à sanção e entre ajustamento dos grupos humanos quer à sanção dos outros módulos em geral mais básicos de inserção real. Na literatura da mais antiga tradição, a criança figura frequentemente (em alternativa com o doido, o ébrio, o rústico ou o estrangeiro, sobretudo exótico), figura quer como imagem daquilo que fica fora da razão, talvez mesmo acima da razão, quer como porta-voz duma crítica que através dela se faz mais facilmente passar porque vem da boca da inocência. É o caso conhecido daquele menino chinês a quem Fernão Mendes Pinto atribui a denúncia das malfeitorias e inconsequências ético-religiosas dos próprios portugueses no Oriente; e é o caso não menos conhecido da menina Maria de Noronha, que Almeida Garrett põe em cena no Frei Luís de Sousa a exaltar os seus próprios ideais garrettianos da independência e da liberdade portuguesas.
Seria interessante resumir aqui o trajecto da literatura portuguesa que se debruça sobre a infância e a adolescência, mas não disponho de tempo… Limitar-me-ei a lembrar que o tema da infância e adolescência principiou a ganhar importância com os autores naturalistas, que ele se tornou mais insistente com os presencistas e neo-realistas de cerca dos anos 40, e que uma das principais originalidades desde cerca de metade deste século é a emergência da ficção de autoria e de experiência infantil ou adolescente feminina. Mas não tenho quaisquer dúvidas acerca do seguinte: o melhor romance português que tem como protagonista uma criança chama-se Cinco Réis de Gente e foi escrito em 1948 por Aquilino Ribeiro, que já então dobrara o cabo dos 60 anos-de idade e completava 35 anos de consagração literária. Nesse mesmo ano de 1948 escreve Aquilino outro romance, Uma Luz ao Longe, que forma um díptico com Cinco Réis de Gente, deslocando-se fundamentalmente do cenário da aldeia natal para o internato eclesiástico da Senhora da Lapa, onde o herói atinge a puberdade e onde ele sente, as primeiras sacudidelas que õ irão desarreigar do seu relativo paraíso rural e das suas crenças atávicas. A inspiração é confessamente autobiográfica e liga-se com o mundo palpitante de outros romances ou contos, liga-se nomeadamente com a explosão iconoclástica de uma adolescência que podemos já seguir num conto do livro de estreia, Jardim das Tormentas, 1913, em Via Sinuosa, 1912, e no volume directamente autobiográfico, Um Escritor Confessa-Se, datado de 1962 e postumamente editado. No centro de uma vária e vasta obra de cerca de 60 volumes cuja temática irradiou muito para além das Terras do Demo, junto à serra da Nave ou Leomil, mas que aí várias vezes regressa, o romance Cinco Réis de Gente salienta-se muito no seio da ficção de assunto infantil, já por então em voga dos anos 40, quer pelo dramatismo coibido, quase brincado, mas patético de duas ou três sequências decisivas, quer pela ternura comovente de relações de família ou de pré-sexualidade infantil, quer por um denso envolvimento de esferas vitais e físicas que lembra um cântico a todas as criaturas naturais, batidas dos ventos, banhadas pelo sol ou encerradas na abóbada imensa e enigmática das estrelas visíveis». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Aquilino Ribeiro e a Infância, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3, Cadernos Aquilianos, nº 2, 1993.

Cortesia de Caminho/JDACT

segunda-feira, 3 de março de 2014

Amorim Viana. Antero e Sampaio Bruno. Algumas Conexões. «… as reflexões filosóficas, quer de Antero quer de Bruno, oscilam entre exigências opostas que a eles próprios não deviam aparecer como satisfatórias, e daí as contradições manifestas e reiterações de ideias que pareciam ter sido superadas»

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«Em 6 de Fevereiro de 1890, realizou-se nas instalações do Ateneu Comercial do Porto a sessão pública de apresentação da Comissão Organizadora e Instaladora da Liga Patriótica do Norte, cuja presidência foi entusiasticamente entregue a Antero de Quental e a que serviam de relatores José Pereira Sampaio (Bruno) e Basílio Teles. Como se sabe, a Liga Patriótica do Norte, bem como uma sua congénere mais apagada do Sul, soçobraram na sua esperança de um ressurgimento nacional que irrompesse como o eco de uma afronta do Ultimatum britânico do mês anterior. Antero, cujo revolucionarismo inflamado mas, no fundo, muito cordato e idealista de 20 ou 25 anos atrás, evoluíra no sentido de uma ética e uma metafísica, por assim dizer interioristas, reduzira as suas expectativas socialistas libertárias a um projecto de reformas que o seu grande amigo e correligionário Oliveira Martins, já por várias formas e sempre baldadamente, tentara fazer vingar através do rotativismo partidário monárquico e passando, mesmo, pela intriga áulica. Ora, a Liga Patriótica do Norte permite a Antero confirmar o avanço incontível da Propaganda Republicana, cujos resultados antevê como calamitosos. E, pois, com desgosto, que verifica o superior dinamismo dos membros republicanos da Liga e acaba, não apenas por demitir-se, mas até por recusar-se a participar em quaisquer manifestações contra o Tratado imposto ao Governo Português, numa atitude de profundo pessimismo nacional, que vai até ao ponto de responsabilizar, não o Governo, mas a própria nação em massa por uma decadência que, aliás, já desde há muito lastimava.
Pouco mais de um ano depois da apresentação desta Liga Patriótica, os seus relatores, Sampaio Bruno e Basílio Teles, partem para o exílio, por estarem implicados no 31 de Janeiro de 1891. Antero de Quental, que simultaneamente com a sua amarga experiência da Liga vira publicada na Revista de Portugal de Eça de Queirós o seu último e mais extenso texto filosófico de reconciliação metafísica e como que mística com a vida, suicida-se cerca de ano e meio depois, na sua cidade natal de Ponta Delgada. O ponto de partida das reflexões muito gerais que me proponho expor foi sugerido pelo facto de em Fevereiro de 1890 se terem cruzado, no edifício do Ateneu Comercial do Porto, inaugurado uns cinco anos antes, as trajectórias de duas personalidades, Antero de Quental e Sampaio Bruno, que hoje tanto nos interessam pela complexidade e/ou multiplicidade das suas reacções a um mundo epocal e nacional em grande parte comum a ambos, e ainda pelo facto de serem manifestas certas afinidades de Antero com uma figura intelectual bem conhecida do Porto do terceiro quartel do século XIX, Amorim Viana, cujo principal livro, Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé, editado em 1865, reimpresso no ano seguinte, e reeditado em 1885, marcou profundamente a vida de Bruno, desde a sua estreia aos 17 anos, com a Análise da Crença Cristã, até A Ideia de Deus, 1902, livro ainda claramente motivado por Amorim Viana, esse tão notório e até pitoresco professor da Academia Politécnica do Porto.
É surpreendente que, na obra anteriana conhecida, incluindo a larga epistolografia já hoje editada, não havia uma única referência a Amorim Viana nem a Sampaio Bruno, figuras bem conhecidas do Porto, cidade que Antero frequentemente visitava nos anos de oitenta. A retracção anteriana perante os textos de Bruno talvez se possa compreender de um modo mais óbvio: há uma razão de ordem ideológica, que se liga com o republicanismo declaradamente jacobino do articulista portuense, a sua frequente e rasgada aceitação (mesmo quando logo a seguir condicionada, ou rectificada) de posições positivistas ou até materialistas, a sua indemovível convicção quanto ao progresso científico, técnico e socio-histórico, ideias que nos anos 80 repugnavam a Antero; e há um motivo de ordem estética, pois Antero, que se revia a si próprio como modelo clássico da moderna prosa expositiva, e que tão severamente vemos, nas cartas, a corrigir a prosa doutrinária de Oliveira Martins ou Alberto Sampaio, Antero dificilmente deveria tolerar os textos emaranhados, digressivos, repetitivos e algo autodidacticamente exibicionistas de Bruno.
Aquilo que eu mais gostaria de fazer a propósito dos pensamentos de Antero e de José Pereira Sampaio não seria bem um estudo contrastivo, em perspectiva diacrónica ou tomando como referência aquilo que em qualquer deles se pudesse considerar como fase de relativo acabamento doutrinário. Tanto quanto as posso entender ou tanto quanto elas me interessam, as reflexões filosóficas, quer de Antero quer de Bruno, oscilam entre exigências opostas que a eles próprios não deviam aparecer como satisfatórias, e daí as contradições manifestas e reiterações de ideias que pareciam ter sido superadas. O mais interessante seria verificar até que ponto Antero e Bruno ocasionalmente se aproximam ou afastam quanto a problemas mais ou menos gerais da sua época, sobretudo em Portugal. Quanto à relação entre Amorim Viana e Antero ela é, fundamentalmente, a de precursor, atendendo à óbvia anterioridade dos textos principais do professor portuense.
Esses textos são de dois tipos. Por um lado, há um conjunto de artigos sobre obras de Proudhon que saíram na revista A Península, entre 1852 e 1853, e sobre as quais não nos deteremos, pois foram já estudados e publicados. Registemos apenas que o Proudhon comentado por Amorim Viana ainda não podia ser, em 1852-1853, o autor de De la justice dans la Revolution et dans l'Église, de 58, e de Du Principe Fédératif, 1863, que exerceram uma grande, embora já posterior influência no grupo Cenáculo e das Conferências Democráticas de 1877; os artigos de Amorim Viana têm um cunho acentuadamente ético: criticam o liberalismo económico e aquilo que, mesmo nos socialistas utópicos como Proudhon, admita a regulação concorrencial do mercado interno ou internacional, a divisão do trabalho, e cerceiem a primazia espiritual da religião, da arte e dos sentimentos morais sobre a economia. Em suma, Amorim Viana parece atribuir ao Estado um certo controlo ético, incluindo certos limites ao direito de propriedade individual, formulados em termos, não propriamente socialistas, como parece admitir Victor Sá, mas em termos precursores daquilo que viria a ser a doutrina social da Igreja. Diversamente, o proudhonismo que entusiasma Antero e os seus correligionários de fins dos anos 60, início dos 70, liga-se estreitamente com o conjunto do chamado humanitarismo francês de Hugo, Michelet, Quinet, Vacherot: entre os seus traços então mais específicos e importantes, conta-se antes do mais a concepção de uma justiça como dado desde sempre imanente à consciência humana e que nos tempos modernos se apresentaria sob forma de imperativo da emancipação dos trabalhadores pelo associativismo mutualista e cooperativo, um associativismo que ascendesse até à criação de um Banco do Povo de crédito gratuito, até ao nível de federações locais, nacionais e transnacionais de produtores». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3, Colóquio-Letras, (?), 1991.

Cortesia de Caminho/JDACT

domingo, 2 de março de 2014

Questões de Literatura Portuguesa. A Busca de Sentido. Óscar Lopes. «Graças à sua perseverança foram descobertos, principiados a povoar e a arrotear, os arquipélagos da Madeira e dos Açores, e chegara-se até ao rio Senegal, então identificado como braço ocidental do Nilo»

jdact e wikipedia

Apologia e crítica contemporâneas da expansão
«(…) Os primeiros textos interessantes de apologia à expansão ultramarina devem-se à escrita ou transmissão do rei Duarte I, que teve de tomar decisões quanto às iniciativas do Infante Henrique relativamente às explorações atlânticas e quanto ao prosseguimento das conquistas no Magrebe, e a Zurara, que subscreve as primeiras crónicas das conquistas e razias no Norte de África e do reconhecimento do Atlântico até à Guiné. E será precisamente, e mais tarde, na sua Crónica de D. Duarte, que Rui de Pina fará ressaltar sérias críticas à temeridade henriquina, e também algo eduardina, quanto à expedição a Tânger. No Leal Conselheiro proclama-se o dever de fazer guerra [aos Mouros] para tornar suas terras à obediência da Santa Madre Igreja e pôr em liberdade todos aqueles que à nossa fé quiserem vir, que livremente o possam fazer [...]; e adverte-se que, uma vez tomada uma decisão bélica pelo rei e seu Conselho, não convém mais escoldrinhar, mas, sem embargo, matar, ferir e roubar, segundo por seu rei e senhor for ordenador. Estas normas de Duarte I estão, no essencial, coonestadas por deliberação de um Consistório em resposta a uma questão levada junto do papa pelo conde de Ourém, embora Rui de Pina transcreva certas condições cautelares e morais dessa deliberação que de facto não foram observadas na expedição a Tânger. Este cronista, que aliás escreve acerca de um desastre militar já distante e anterior ao próprio nascimento, responsabiliza claramente o Infante Henrique por uma decisão precipitadamente agenciada nos bastidores da Corte, impopular e contrária aos pareceres, em conselho, do Infante Pedro, do conde de Barcelos e às ponderosas razões de siso (embora contrapesadas por outras de honra e de cavalaria) aí eloquentemente aduzidas pelo Infante João. Acerca do temerário entusiasmo do infante Henrique em matéria de guerra aos Mouros não restam quaisquer dúvidas: num seu conselho escrito que Duarte I registou no chamado Livro da Cartuxa, diz o infante Henrique que a honra inerente a essa guerra he a mayor honrra que ha neste mundo, e em respeito desta as outras sam qasy nom aujdas por honrras, aplicando a este respeito uma conhecida frase de Cristo: eu non vym meter paz mas cuytelo.
Zurara, ligado por duas comendas à Ordem de Cristo, persona grata de Afonso o Africano, cronista oficial dos primeiros grandes feitos de conquista em África e do início da expansão atlântica, apresenta o Infante Henrique de tal maneira que os grandes actos praticados em sua honra e serviço o são, também, inquestionavelmente, em serviço de Deus, e instrumentalmente em honra e proveito dos seus agentes directos. Já ao salientar o papel do Infante na conquista de Ceuta considera que tam maravilhosas vertudes não lhe parecem senam de algüu homem trazido a este mundo pera espelho de todolos vivos. O conhecido retrato da Crónica dos Feitos da Guiné, cuja redacção inicial, certamente retocada mais tarde, fora entregue ao rei ainda em vida do infante Henrique, é o de um cavaleiro ideal, corajoso, infatigável, extremamente devoto, virgem até à morte, dado à criação de bons servidores, empenhado em altos empreendimentos aparentemente inexequíveis e com uma fleumática vontade movida a algüa certa fim aos homeës noom conhecida. Graças à sua perseverança foram descobertos, principiados a povoar e a arrotear, os arquipélagos da Madeira e dos Açores, e chegara-se até ao rio senegal, então identificado como braço ocidental do Nilo e portanto tido como via de acesso ao reino de Preste João. Na viagem decisiva para o reconhecimento de tal rio, um mareante mais entusiasta chega a propor que a rota vá mesmo até ao Paraíso Terreal, que era então imprecisamente localizado a montante dos grandes rios da Índia asiática, como ainda Os Lusíadas indicam a dado passo.
Seja como for, e até à consolidação do Vice-Reino oriental sob uma autoridade régia, o Infante Henrique personificará uma expansão doutrinariamente concebida em termos cavaleirescos senhoriais, à qual ainda em sua vida é prestada homenagem na Bula Romanum Pontifex, de 1455, proclamada solenemente na Sé de Lisboa perante representantes de todas as comunidades estrangeiras, que assegura à Coroa portuguesa o senhorio de Ceuta e o exclusivo da conquista e comércio desde os cabos Bojador e não até ao Índico, designação ainda geograficamente imprecisa. No Esmeraldo..., Duarte Pacheco Pereira, que é caracteristicamente um cavaleiro-mercador atento aos valores económicos, mas a título de serviço de dilatação da fé, vê ainda o grande empreendimento henriquino como uma revelação que bem parece vir per novo mistério de Deus e nom per outro modo temporal e mantém a tese do rei Duarte I sobre o direito de reconquista do Magrebe arrebatado pelos Muçulmanos oito séculos antes, tese depois várias vezes invocada nomeadamente na Exortação da Guerra vicentina dedicada à expedição de Jaime de Bragança contra Azamor em 1513». In Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3, Conferência proferida no Congresso Le Caravelle Portughesi sulle vie delle Indie, Milão, 1992.

Cortesia de Caminho/JDACT