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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Tratado de Alcanizes. Rei Diniz I de Portugal e o rei Fernando IV de Castela. 1297. «E eu El Rey Dom Fernando de suso dito por mim, e por todos meus Successores com conselo, e com outorgamento, e per autoridade da Rainha Dona Maria, minha Madre, e do Infante Dom Anrique meu Tio»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) E outro si eu El Rey Dom Fernando, entendendo, e conocendo, que vós aviades direito en aluns Lugares dos Castellos, e Villas de Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villa Mayor, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor. e de Monforte, e dos outros Lugares de Riba Coa, que vós Rey Dom Diniz teendes agora en vossa mão, e por que me vós partades do direito, que aviedes en Vallença, e em Ferreira, e en no Sparagal, que agora tem a Ordem d'Alcantara asá maão, e que aviades en Ayamonte, e en outros Lugares dos Reinos de Leon e de Galiza. E outro si por que me vós partades das demandas que me faziades sobre razon dos termos, que som antre meu Senorio, e vosso por esso me vos parto do ditos Castellos, e Villas, e Lugares de Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villa Maior, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor e de Monforte, e dos outors Lugares de Riba Coa que vós agora teendes à vossa maãao, com todas seus Termos, e Direitos, e perteenças, e partome de toda demanda, que eu hei, ou poderia aver contra vós, ou contra vossos successores per razom destes Lugares sobreditos de Riba Coa, e de cada hum delles. E outo si me parto de todo o Direito, ou jurisdiçom, ou, Senorio Real tambem en possissom come em propriedade, come en outra maneira qualquer, que eu hi avia, e toloo de mim todo, e dos meus successores, e do Senorio dos Reinos de Castella, e de Leom, e ponoo en vós, e em vossos Successores, e no Senorio do reino de Portugal pera sempre. E mando, e outorgo, que se per ventura alguus Privilegios, ou Cartas, ou Estrumentos parecerem, que fossem feitos antre os Reys de Castella, ou de Leom, e os Reys de Portugal sobre estes Lugares sobreditos, d'aveenças, ou de posturas, ou demarcamentos, ou em outra maneira qualquer sobre estes Lugares, que sejão contra vós, ou contra vossos Successores, e me voss o dano,ou em dano do Senorio do Reino de Portugal, que daqui em diante nom valham, nem tenham, nem ajam fermidoim, nem me possa ajudar dellas, eu, nem meus Successores, e revogoos todos para sempre. E eu El Rey Dom Diniz de suso dito por Olivença, e por São Felizes dos Galegos. que vós amim dades, e por Ougela que metedes a meu Senorio, segundo sobre dito hé, parmotivos dos Castellos, e das Villas d'Arouche, e da Aracena, e de todos seus Termos, e de todos seus Direitos, e de todas sas pertenças, e de toda a demanda, que eu hei, ou poderia aver contra vós, ou contra vossos Successores per razom destes Lugares sobreditos, e de cada hum delles, ou dos fruitos delles, que El Rey Dom Affonso vosso Avoo, e El Rey Dom Sancho vosso Padre, e vós ouvetses, e recebestes destes Lugares e dou a vós, e a vossos Successores todo o direito, e jurisdiçom, e Senorio real que eu hei, e de direito devia aaver em esses Castellos, e Villas d'Arouche e da Aracena por quealquer maneira, que o eu hi ouvesse, e tolhoo de mim, e de meus Successores, e no Senorio do Reino de Castella, e de Leom pera sempre.
Outro si eu Rei Dom Diniz de suso dito, por que mi vós vos quitades dos Castellos, e de Villas do Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villar Mayor, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor, e de Monforte; e dos Lugares de Riba Coa, com seus termo; que eu agora teno á minha maão, assi como de susso dito he, quimotivos, e partomivos de todo o direito, que eu hei en Vallença, e em Ferreira, e no Esparregal, e em Ayamonte; Outro si mi vosparto de outros Lugares de todolos vossos Reinos em qual maneira quer; Outro si mi vos parto de todolas demandas, que eu havia contra vós per razom dos Termos, que som antre o meu Senorio, e o vosso, sobre que era contenda. E eu El Rey Dom Fernando de suso dito por mim, e por todos meus Successores com conselo, e com outorgamento, e per autoridade da Rainha Dona Maria, minha Madre, e do Infante Dom Anrique meu Tio, e meu Yutor, e Guarda de Avangelos, sobreolhos quaaes pusy minhas maãos, e faço menagem a vós Rey Dom Diniz ateer, e cumprir, e a guardar todas estas couzas de suso ditas, e cada huma dellas pera sempre, e de nunca vir contra ellas per mim, nem per outrem deffeito, nem de conselo, e se o assi nom fezer, que fique por prejuro, e por traidor come quem mata Senhor, e traae Castello. E nós Rainha Dona Maria, e o Infante Dom Anrique se suso ditos, outorgamos tosa estas couzas, e cada huma dellas, e damos poder, e autoridade a El Rey Dom Fernando pera fazellas, e prometemos em boa fé por nós, e polo dito Rey Dom Fernando, e juramos sobreolhos Saantos Avengelos, sobreolhos quaaes pozemos nossas maãos, e fazemos menagem a vós Rey Dom Diniz, que El Rei Dom Fernando, e nós tinhamos, e complamos, e guardemos, e façamos teer, e cumprir, e guardar todalas couzas sobreditas, e cada huma dellas pera sempre, e de nunca virmos contra ellas per nós, nem per outro defeito, nem de direito, nem de conselo, e se o assi nom fazessemos, que fiquemos por prejuros, e por traedores assi como mata Senhor, ou traae Castello. E eu Rey Dom Dinis por mim, e pola Rainha Dona Izabel minha Mulher, e polo Infante Dom Affonso meu Filho, primeiro, e herdeiro, e por todos meus successores, prometo a boa fé, e jura sobreolhos Santos Avangelos, sobreolhos,quaaes pono minhas maãos, e fasso menagem a Vós Rey Dom Fernando por v´s, e por vossos successores, e a vós Rainha Dona Maria, e a vós Infante Dom Anrique de teer, e aguardar, e cumprir todas estas couzas de suso ditas, e cada huma dellas pera sempre, e de nunca vir contra ellas per mim, nem per outrem defeito, nem de dereito, nem de conselo, e se o assi nom fezer, que fique por prejuro, e por traedor come quem mata Senhor, ou traae Castello. E por todas estas couzas sejão firmes, e mais certas, e nom possão vir em duvida, fazemos ender fezer duas Cartas em hum teor, tal ahuma come a outra, seelladas com nossos sellos do Chumbo d nós ambos los Reyes e dos seellos das Raynhas, e do Infante Dom Anrique em testemonio de verdade. Das quuaes Cartas cada huum de nós Reys devemos ateer senhas. Feita em Alcanizes sexta feira doze dias do mes de Setembro. Era de mil trezentos trinta e cinco anos». In Extraído da obra Nos caminhos de Olivença», por Carlos Luna.

In Wikipédia, Carlos Luna, Nos caminhos de Olivença, 2010.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

domingo, 7 de julho de 2019

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Olá, princesa Vataça. Como tem passado? Bem, Alteza Rea1, respondeu Vataça enquanto fazia a vénia dobrando os joelhos e baixando a cabeça. Continuais linda, princesa»

jdact

«(…) Tudo pronto para receber el-rei Dinis I que não demorou a entrar pela cidade adentro, com os seus cavaleiros e com as bandeiras e estandartes do reino português, à frente, assinalando a real comitiva. Às portas do palácio de Alcazar, o rei de Castela Fernando e sua esposa dona Constança e inúmeros nobres e aias da corte castelhana. Dinis apeou-se do cavalo e abraçou o seu genro com carinho e amizade. Depois voltou-se para sua filha Constança, estendeu-lhe os braços e esperou que a jovem rainha se atirasse ao seu pescoço e o beijasse efusivamente. Deixou-se ficar com a filha nos braços e sentiu, de novo, com emoção, esse sentimento paternal que pensava já o ter abandonado, porque sua filha já estava em Castela havia mais de dois anos. Depois de receber cumprimentos dos mais altos dignitários da igreja e da nobreza de Castela, Dinis percorreu com o olhar as aias da rainha e descobriu Vataça Lascaris, a quem se dirigiu de imediato.
Olá, princesa Vataça. Como tem passado? Bem, Alteza Rea1, respondeu Vataça enquanto fazia a vénia dobrando os joelhos e baixando a cabeça. Continuais linda, princesa. Vataça já não respondeu e enquanto sentia o rubor nas suas faces, el-rei Dinis afastou-se e caminhava já ao lado de Fernando de Castela e de sua filha Constança dirigindo-se para o interior do palácio toledano com ambas as comitivas reais. À noite ao jantar no sa1ão principal de Alcazar, a Corte castelhana preparava-se para ofertar um opíparo jantar aos seus convidados portugueses. Naquela enorme mesa nada faltava. Os melhores vinhos e os melhores manjares enchiam o centro da mesa de uma ponta à outra. Javalis e leitões assados no espeto, faisões e patos, castanhos-escuros brilhantes das assaduras em fornos de lenha especiais, salmões e trutas do rio Tejo, frutas de todas as variedades ibéricas e algumas do norte de África. O rei de Castela deu o mote, após umas breves palavras de boas-vindas ao rei português, agarrou uma das facas que tinha à sua beira, cortou uma perna do faisão e levou-a à boca, com apetite devorador, cravando-lhe os dentes na tenra carne.
Estava divinal, acrescentava, enquanto mastigava com prazer. E todas as largas dezenas de comensais seguiram o seu exemplo, atirando-se literalmente às travessas repletas de iguarias. Dinis, que se havia sentado no outro topo da mesa, de frente para Fernando de Castela, chamara para o seu lado a princesa Vataça Lascaris, com quem falava alrgremente e de vez em quando elevava a caneca de vinho e saudava o seu genro e rei de toda a Corte de Castela. Vataça perguntara como estava a rainha Isabel, a quem ligavam profundos sentimentos de amizade e respeito. Lá continua muito atarefada, dizia Dinis, com as suas devoções e com os seus auxílios aos pobres e desprotegidos de Portugal. Todas as manhãs são as matinas e os louvores a Deus. À tarde reza as vésperas e faz as leituras canónicas da Santa Igreja. Nos períodos de maior fervor religioso, como na Quaresma ou no Advento, faz os seus jejuns. Tem períodos que chama ao palácio todos os pobres e lava-os, veste-os e alimenta-os. Por vezes tenho que chamar a guarda para colocar alguma disciplina nesses desgraçados que vêm aos milhares de todo o país e até de Castela. Sabem que a Senhora é um coração de ouro e não hesitam em chegar-se até ela. E continua a fundar conventos e casas de acolhimento por todo o Portugal?, perguntou Vataça Lascaris». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Coisa extraordinária aquela porque pouco depois perguntava ao seu rei se também havia avistado a tal cruz prateada. Mas nada, ninguém a vira…»

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«(…) A jovem rainha Constança de Aragão, que já estava com 14 anos, recebeu Vataça Lascaris de braços abertos, que as saudades já eram muitas e quis saber como estavam sua mãe e seus irmãos e como tinha sido a viagem a Barcelona. Vataça nada escondeu a Constança e pediu à rainha que se pudesse ausentar de novo da Corte de Castela, mal chegassem novidades de Barcelona, sobre a viagem de Ulisses Patrai a Constantinopla e a Niceia. Os dias passaram descontraidamente e amiúde vinha-lhe à lembrança a viagem que fizera com sua mãe até Zaragoça e a dúvida que alimentara o seu desassossego sobra a débil saúde de sua mãe. Ainda continuaria enferma ou já se sentiria melhor? Apenas nessas alturas lhe vinha à memória também o tesouro dos Lascaris, ou melhor, o tesouro de Niceia. E dizia para si própria que jamais desiludiria sue mãe e que tudo faria para corresponder aos seus desejos.
Certo dia, tendo ido a uma caçada com el-rei e com a rainha Constança, quando os arqueiros perseguiam um veado a toda a corrida dos cavalos, e Vataça se aproximava do veado com o arco em riste e a seta apontada ao coração do animal, um enorme clarão cegou-a por instantes e o cervo escapou. Vataça estacou o seu cavalo e olhando para o céu viu de relance uma enorme cruz prateada, que tal como surgira de imediato, desaparecera. Coisa extraordinária aquela porque pouco depois perguntava ao seu rei se também havia avistado a tal cruz prateada. Mas nada, ninguém a vira e Vataça Lascaris ainda seria objecto de chacota por ter deixado fugir a caça, coisa em que era exímia e sempre que vestia bragas como homem e se equipava de caçadora era seguro que algum cervo ou algum javali ficaria para a ceia. Já não esqueceria aquele episódio e relacionava-o com sua mãe e com a Cruz do Santo Lenho.
Corria ainda o ano do Senhor de 1304. Havia chegado o Verão e calotes abrasadores se faziam sentir por terras de Castela. Temperaturas altíssimas aconselhavam à permanência dentro das paredes do palácio, muito mais frescas e convidativas ao repouso e à sesta. Corriam rumores pelos corredores da corte, de que se preparava uma cimeira entre Castela e Aragão, para pôr fim às constantes lutas entre os dois reinos, pela posse do reino de Múrcia. E tais rumores também referiam a presença do rei de Portugal, nessa cimeira, entre os mais altos responsáveis do poder político da Ibéria. Vataça Lascaris não cabia em si de contente e a ansiedade que sentia, apenas pela possibilidade de rever o seu amado rei, quase a sufocava. Mas de facto fazia todo o sentido a presença do monarca Dinis I. Primeiro, porque era casado com Isabel de Aragão, filha de Pedro III, rei de Aragão, Valência, Maiorca, Sardenha, Sicília e conde de Barcelona, e depois porque também era pai de Constança, rainha e esposa do rei Fernando IV de Castela. Logo, os diferendos entre Castela e Aragão tinham tudo a ver com Dinis I de Portugal. Por isso, Toledo preparou-se para receber o rei de Portugal e decorou as suas ruas e praças com os mais belos enfeites, os seus artesãos e artistas prepararam as suas melhores obras para venda aos milhares de pessoas que viriam até à capital de Castela. Enormes tapetes árabes pendurados nas janelas e varandas emprestaram à cidade o ambiente da grandiosidade da romaria e do arraial, apenas visto quando das comemorações religiosas ou reais, mas desta vez muito mais espectacular. As mais belas espadas, cimitarras, adagas, punhais e facas de todos os feitios, autênticas obras dessa arte especial de Toledo, enchiam enormes bancas de madeira, em exposição, aos olhares e às bolsas de locais e visitantes. O próprio palácio de Alcazar era objecto de embelezamentos interiores e exteriores, que ainda o faziam sobressair mais, de forma mais imponente, do casario da cidade. Até as rochas que o sustentavam foram limpas de ervas e plantas daninhas e cobertas de heras e chorões vermelhos». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam».

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«(…) E de facto tudo aconteceria como havia sido dito e no dia seguinte a galé do grego Ulisses Patrai âncorava em Barcelona e à sua chegada lá tinha o jovem cavaleiro Manolo Ratia pedindo-lhe que se dirigisse ao palácio de Beatriz Lascaris onde, sua amiga de infância Eudóxia Lascaris, que se encontrava doente, queria e muito falar com ele. Ulisses era um homem enorme com mais de um metro e noventa de altura e seguramente com mais de cento e vinte quilos de peso. Apesar da idade continuava enxuto, sem ponta de gordura, apenas e só osso e músculo. Havia quem lhe chamasse desde muito jovem o novo Hércules, lá para os lados do mar Egeu, pela força descomunal que que era portador. Prontamente acedeu ao pedido do jovem mensageiro e seguiram de imediato para o palácio de Beatriz Lascaris. Para Ulisses andar no meio da confusão da actividade portuária era simples porque não precisava de se desviar de ninguém. Quem com ele chocasse, estivesse o que estivesse a transportar, era queda certa e se apenas ficasse a bandear o próprio Ulisses se encarregava de o afastar do seu caminho com um ligeiro empurrão, como se uma mão das suas, quando tocasse alguém, fosse apenas um pequeno empurrão. Quem gozava com todo o aparato da situação era o jovem Manolo que com a sua magrra figura pedia com alguma arrogância que o deixassem passar e quando não lhe ligavam nenhuma logo se esquivava e deixava que surgisse Ulisses e abrisse o caminho.
Pouco depois Ulisses encontrava-se com Eudóxia e para ele foi um grande choque ver a situação de doença e de definhamento em que a sua amiga se encontrava. O próprio sorriso dela que trazia na memória, outrora branco e alegre, não passava agora de algo acinzentado e amarelo quase sem expressão. Ficou deveras combalido mas tentou não o demonstrar e como quase sempre, quando os amigos se encontram, as saudações são sempre de aspecto reluzente, quando não existe brilho, ou de votos de muita saúde, quando esta já não abunda. Ulisses ouviu atentamente a história que Eudóxia lhe contou e colocou-se de imediato ao seu serviço e logo que chegasse a Constantinopla, dentro de alguns meses, tentaria saber o que teria acontecido ao tesouro dos Lascaris, à Cruz do Santo Lenho e à Cabeça-Relicário de S. Fabiano e principalmente, a João Lascaris, irmão de Eudóxia. Estava prometido, ele e seu filho Diógenes, se encarregariam de trazer tais informações a Barcelona dentro de uns cinco meses ou talvez menos. Portanto, dizia Ulisses Patrai para Eudóxia, tens de te pôr bem, porque dentro desse intervalo de tempo, quando regressar, quero ver-te com saúde e com alegria. E assim dito, logo se foi, após beijar suavemente a face de Eudóxia e de se ter despedido de todos os seus filhos.
No dia seguinte, Eudóxia Lascaris partia com as suas aias mais chegadas e com sua filha Vataça para Zaragoça, contra a vontade de todos os seus filhos que lhe haviam insistentemente sugerido, que ficasse mais uns dias em casa de Beatriz e mais tarde, quando se sentisse melhor, logo partiria para Zaragoça. Mas não. Eudóxia queria assim e não havia nada a fazer. Com muito cuidado e carinho fizeram uma espécie de cama num dos bancos do coche do rei de Castela, onde deitaram Eudóxia, e Vataça seguia mesmo na sua frente, cuidando que os solavancos dos caminhos a não incomodassem muito. Chegadas a Zaragoça. depois de uma viagem bem cansativa que causou muitas apreensões e receios a Vataça, chegaram a casa de Eudóxia. Com todos os cuidados os criados ajudaram a sua senhora a descer do coche e a deslocar-se até à sua câmara, onde a deitaram e cobriram delicadamente. Antes de adormecer beijou sua filha e com um leve acenar despediu-se de Vataça. Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam».

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«(…) E de facto tudo aconteceria como havia sido dito e no dia seguinte a galé do grego Ulisses Patrai âncorava em Barcelona e à sua chegada lá tinha o jovem cavaleiro Manolo Ratia pedindo-lhe que se dirigisse ao palácio de Beatriz Lascaris onde, sua amiga de infância Eudóxia Lascaris, que se encontrava doente, queria e muito falar com ele. Ulisses era um homem enorme com mais de um metro e noventa de altura e seguramente com mais de cento e vinte quilos de peso. Apesar da idade continuava enxuto, sem ponta de gordura, apenas e só osso e músculo. Havia quem lhe chamasse desde muito jovem o novo Hércules, lá para os lados do mar Egeu, pela força descomunal que que era portador. Prontamente acedeu ao pedido do jovem mensageiro e seguiram de imediato para o palácio de Beatriz Lascaris. Para Ulisses andar no meio da confusão da actividade portuária era simples porque não precisava de se desviar de ninguém. Quem com ele chocasse, estivesse o que estivesse a transportar, era queda certa e se apenas ficasse a bandear o próprio Ulisses se encarregava de o afastar do seu caminho com um ligeiro empurrão, como se uma mão das suas, quando tocasse alguém, fosse apenas um pequeno empurrão. Quem gozava com todo o aparato da situação era o jovem Manolo que com a sua magrra figura pedia com alguma arrogância que o deixassem passar e quando não lhe ligavam nenhuma logo se esquivava e deixava que surgisse Ulisses e abrisse o caminho.
Pouco depois Ulisses encontrava-se com Eudóxia e para ele foi um grande choque ver a situação de doença e de definhamento em que a sua amiga se encontrava. O próprio sorriso dela que trazia na memória, outrora branco e alegre, não passava agora de algo acinzentado e amarelo quase sem expressão. Ficou deveras combalido mas tentou não o demonstrar e como quase sempre, quando os amigos se encontram, as saudações são sempre de aspecto reluzente, quando não existe brilho, ou de votos de muita saúde, quando esta já não abunda. Ulisses ouviu atentamente a história que Eudóxia lhe contou e colocou-se de imediato ao seu serviço e logo que chegasse a Constantinopla, dentro de alguns meses, tentaria saber o que teria acontecido ao tesouro dos Lascaris, à Cruz do Santo Lenho e à Cabeça-Relicário de S. Fabiano e principalmente, a João Lascaris, irmão de Eudóxia. Estava prometido, ele e seu filho Diógenes, se encarregariam de trazer tais informações a Barcelona dentro de uns cinco meses ou talvez menos. Portanto, dizia Ulisses Patrai para Eudóxia, tens de te pôr bem, porque dentro desse intervalo de tempo, quando regressar, quero ver-te com saúde e com alegria. E assim dito, logo se foi, após beijar suavemente a face de Eudóxia e de se ter despedido de todos os seus filhos.
No dia seguinte, Eudóxia Lascaris partia com as suas aias mais chegadas e com sua filha Vataça para Zaragoça, contra a vontade de todos os seus filhos que lhe haviam insistentemente sugerido, que ficasse mais uns dias em casa de Beatriz e mais tarde, quando se sentisse melhor, logo partiria para Zaragoça. Mas não. Eudóxia queria assim e não havia nada a fazer. Com muito cuidado e carinho fizeram uma espécie de cama num dos bancos do coche do rei de Castela, onde deitaram Eudóxia, e Vataça seguia mesmo na sua frente, cuidando que os solavancos dos caminhos a não incomodassem muito. Chegadas a Zaragoça. depois de uma viagem bem cansativa que causou muitas apreensões e receios a Vataça, chegaram a casa de Eudóxia. Com todos os cuidados os criados ajudaram a sua senhora a descer do coche e a deslocar-se até à sua câmara, onde a deitaram e cobriram delicadamente. Antes de adormecer beijou sua filha e com um leve acenar despediu-se de Vataça. Um suave sorriso de adeus deu-lhe um ar infantil de harmonia angelical. Era como se estivesse feliz por ter já transportado para os seus filhos os problemas, que de há muito a incomodavam». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

domingo, 7 de agosto de 2016

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Por entre a azáfama da actividade portuária de Barcelona, Manolo e Juan Lascaris procuraram a nau de Ulisses Patrai. Homens com enormes fardos às costas, barris aos ombros cheios de vinho ou de mel»

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«(…) Fechou a porta do quarto levemente e deixou que sua mãe descansasse por mais um pouco. Juntou-se a seus irmãos que conferenciavam no salão principal e questionou-os sobre o pedido da mãe. Havia várias opiniões mas todas elas não passavam pela ida de qualquer dos Lascaris a Constantinopla ou a Niceia. Para uns, a questão não tinha razão de ser, porque os objectos sagrados deveriam estar na posse da igreja de Constantinopla, quando o tal imperador usurpador Miguel Paleólogo tomou conta do império e acabou com o estado de Niceia. Para o irmão mais ve1ho, Juan, seria ajuizado, dizia ele, enviar uns emissários à procura do tio em Niceia e saber se este ainda viveria ou não, e onde parariam os objectos que a mãe dizia estarem escondidos, em local que apenas seria do conhecimento do seu irmão João Lascaris. E mais tarde, caso as respostas sobre a existência do tio João fossem positivas, decidiriam então quem, como e quando, para Constantinopla se deslocariam. Pareceu ajustada e prudente a sugestão de seu irmão e decidiram trabalhar melhor a ideia. À noite, à ceia, sua mãe decidira levantar-se e sentar-se à mesa grande do salão e com algum custo partilhar a refeição com os seus filhos. Não que fosse a sua última refeição, mas porque tinha resolvido voltar para sua casa em Zaragoça e por lá ficar durante uns tempos, até que Deus quisesse. Ninguém apoiou tal ideia mas Eudóxia era obstinada nas suas decisões e não valia a pena contrariá-la. Vataça iria com sua mãe até Zaragoça, quando fizesse a viagem de regresso e depois seguiria para Toledo de Castela, onde aguardaria informações sobre os resultados da tal deslocação dos emissários a Niceia.
Quando ouviu a proposta dos filhos, sobre o envio de emissários a Constantinopla e a Niceia, Eudóxia concordou com algum entusiasmo e logo de seguida sugeriu, que ainda nessa tarde e no dia seguinte, pela manhãzinha, alguém fosse com Manolo Ratia ao porto de Barcelona. Aí procurariam a nau do grego Ulisses Patrai, mercador, que percorria há anos todo o mar Mediterrâneo e o mar de Mármara, desde Constantinopla a Barcelona. E também todo o norte de África, de Argel a Alexandria, além de algumas incursões que por vezes fazia para além das colunas de Hércules, Para o grande oceano Atlântico, até terras de Portugal. Além disso, desse seu imenso conhecimento náutico, Ulisses tinha sido seu companheiro de brincadeiras, enquanto jovens, em Niceia, pois seu pai fora instrutor-chefe da guarda do palácio real e viveram e brincaram então, conjuntamente, no palácio de Niceia. E, ele, Ulisses, seria a pessoa indicada para tal tarefa.
Por entre a azáfama da actividade portuária de Barcelona, Manolo e Juan Lascaris procuraram a nau de Ulisses Patrai. Homens com enormes fardos às costas, barris aos ombros cheios de vinho ou de mel, caixotes e barricas cheias de sal ou de cereais, percorriam apressadamente os caminhos entre as grandes barcaças e as carroças que os levariam aos mercados de muitas vilas e cidades de Aragão. Percorreram todas as embarcações que se encontravam acostadas ao cais, perguntaram a muitos mercadores e a outros tantos descarregadores se o grego Ulisses, o Grande, como era conhecido nas lides portuárias, estaria no porto. Depois até questionaram os donos dos pequenos botes que percorriam as distâncias entre as naus ancoradas mais longe e o cais, trazendo pessoal das tripulações para terra ou levando-os de volta às naus, se o tinham visto em águas de Barcelona. Mas nada. Apenas souberam por outro mercador que o havia encontrado, cerca de um mês atrás, em Veneza, mas que deveria estar a chegar a Barcelona, dentro de um ou dois dias. Essa a notícia que levariam para casa. Mais valia então esperar algum tempo, encontrar o grego e depois face àquilo que ele dissesse, decidir o que fazer». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

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terça-feira, 31 de maio de 2016

A Favorita no 31. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «E o casório presencial consumou-se com a graça de Deus, corria o ano do Senhor de 1282, aos 26 do mês de Junho, tinha dona Isabel de Aragão 12 anos e o seu rei e esposo, Dinis, já caminhando pelos 20 anos adentro»


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«(…) Quando partiu com a mãe e os irmãos, de Ventimiglia para Zaragoça de Aragão, Vataça teria pouco mais de doze anos e foi então que conheceu a infanta Isabel, ainda sua parente afastada, filha do rei de Aragão, Pedro III e da rainha Constança da Sicília, e neta de Jaime I. Não ficou muito tempo na corte de Aragão, porque dona Isabel casara por procuração com o rei de Portugal, Dinis I, como já estava previsto entre as duas coroas, desde 1280. No ano seguinte, o rei de Portugal enviava a Barcelona três emissários, tendo por sua vez o rei de Aragão enviado também uma embaixada a Portugal e assim ficava resolvida a questão das arras, isto é, dos bens que ficariam para a rainha, caso ela sobrevivesse ao rei. Nessa carta de doacção, o monarca Dinis concedia à noiva, as vilas de Óbidos, Abrantes e Porto de Mós. Foi já em 1282 que a rainha dona Isabel e sua comitiva, onde se encontrava Vataça Lascaris, entraram em Portugal por Bragança e se dirigiram para Trancoso, onde o rei e esposo a aguardava para que se consumasse a boda real e lhe concedesse o senhorio da vila.
Viagem inesquecível, pensava Vataça. De um momento para o outro deixara a sua casa e os seus amigos em Ventimiglia e partira para Saragoça de Aragão. Pouco depois fazia caminho para Portugal, com dona Isabel de Aragão, que ia ser rainha desse reino, de que pouco tinha ouvido falar até então. Mas tal viagem jamais sairia de sua memória. E recordou o casamento de dona Isabel com o rei Dinis I, que quase não pode ser celebrado, religiosamente, em Trancoso nem em qualquer outra terra de Portugal, porque as igrejas se mantinham todas fechadas e sem cerimónias de culto, por interdição do papa, desde o reinado de Afonso III. Tudo porque aquele rei de Portugal estava excomungado, sob a acusação de ofensas à liberdade da igreja. Apesar das várias tentativas, no fina1 do reinado do rei bolonhês para terminar o conflito com Roma, só em 1289, já em pleno reinado de Dinis, o papa Nicolau IV colocou um ponto final a tão prolongado litígio. Para que não se agravassem as relações com o papado Dinis I mandou que as bênçãos eclesiásticas se fizessem com os prelados aragoneses que acompanhavam dona Isabel. E o casório presencial consumou-se com a graça de Deus, corria o ano do Senhor de 1282, aos 26 do mês de Junho, tinha dona Isabel de Aragão 12 anos e o seu rei e esposo, Dinis, já caminhando pelos 20 anos adentro, pois a 9 do Outubro seguinte, completaria a bonita idade de vinte e um anos. Começavam então os folguedos, grandiosos. que os casamentos reais sempre proporcionam aos povos, quaisquer que eles sejam e onde quer que se encontrem». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

domingo, 17 de abril de 2016

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Terás que te contentar com os filhos dos meus irmãos e meus sobrinhos. Deus também não quis que tivesse filhos de Dinis. Mas minha adorada mãe…»

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«(…) De facto, Vataça casaria aos dezassete anos com Martim Anes Soverosa em 1285, um fidalgo que já passara o meio século de vida. Coisas da política e de um poder régio mais ou menos absoluto. Tudo começara com a morte do rei de Castela, Afonso X, no ano de 1284. Queria Afonso de Castela que o seu sucessor fosse o seu primeiro filho, Fernando de la Cerda, mas face ao falecimento deste e não querendo que o seu segundo filho, Sancho, ocupasse o trono, determinou que seu neto, Afonso de la Cerda, lhe sucederia. Puro engano. Seu segundo filho, Sancho, com uma forte coligação de nobres, deserdou o sobrinho e fez-se coroar rei em Toledo nesse mesmo ano. Os tempos que se lhe seguiram foram terríveis para todos aqueles que se lhe haviam oposto. Mandou matar milhares de castelhanos de todas as classes sociais, criando em Castela e Leão um clima de terror nunca antes visto. Muitos nobres pediram auxílio a el-rei Dinis I e este, com receio de represálias pela parte de Sancho IV, encetou contactos com Aragão no sentido de se ajudarem mutuamente em caso de agressão. Mas o monarca Dinis quis ir mais longe e iniciou contactos com vários nobres da Galiza mesmo sabendo da ligação destes a Castela. A verdade é que a Galiza sempre gozara de um estatuto de grande autonomia em relação a Leão e Castela e essa autonomia poderia ser útil a Portugal. Logo, nada melhor para tais objectivos que ter um nobre português, dos mais credenciados junto da nobreza galega, para consolidar uma política de boa vizinhança e ajuda mútua. E tal nobre só podia ser Martim Anes Soverosa cuja família estivera fortemente ligada à Galiza e aos primeiros reis de Portugal desde Afonso Henriques. Martim Anes gozava de enorme prestígio junto dos nobres galegos e poderia conseguir perfeitamente os propósitos do rei de Portugal. Mandou por consequência Dinis I a Vataça Lascaris, que o desposasse e garantisse que os fins pelos quais o casamento se iria realizar seriam alcançados.
Pala além desta iniciativa diplomática junto da Galiza, Dinis I ainda conseguia resolver um outro problema. Afastava dona Vataça Lascaris da Corte, onde os zunzuns da sua relação com a princesa bizantina soavam cada vez mais alto, apesar da Rainha dona Isabel ser insensível ao ciúme. E encontros com Vataça em Soverosa, que ficava a sete ou oito léguas a leste do Porto ou a dez léguas ao su1 de Braga, seriam frequentes. mas muito mais seguros. Bastaria levar a Corte ou parte dela ao norte para saber como estavam as relações com a nobreza galega e visitar o palácio dos Soverosa e reencontrar a sua concubina favorita. Mas pouco adiantou para Portugal aquele casamento, pois Sancho IV de Castela acabana por invadir Portugal e a guerra entre os dois reinos só terminaria com a sua morte, em 1295, por acaso o mesmo ano do falecimento de Martim Anes Soverosa. Depois o Tratado de Alcanizes resolveria todos os diferendos entre os dois reinos.
Mas não me deste nenhum neto até agora, filha! Disse Eudóxia com tristeza. Pois não, mãe. Terás que te contentar com os filhos dos meus irmãos e meus sobrinhos. Deus também não quis que tivesse filhos de Dinis. Mas minha adorada mãe e desculparás esta minha pergunta, tens de me dizer o que se passou entre ti e o meu pai para que tivéssemos de sair de Ventimiglia. Fomos expulsos como deste a entender ontem à tarde? Nem eu sei ao certo o que se passou. Tudo aconteceu já depois da morte de teu pai. Foi então que me comunicaram que tínhamos sido deserdados e que deveríamos abandonar Ventimiglia. Falaram-me que por detrás dessa terrível decisão política estaria a mão de Miguel Paleólogo, de Constantinopla, e que a principal razão teriam sido as minhas tentativas de angariar apoios para que os Lascaris regressassem ao império bizantino, como era seu direito. Comecei então os contactos com Jaime I de Aragão, ainda nosso familiar, para que pudéssemos ser acolhidos em Zaragoça, tal como veio a acontecer». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências. Giulia Vairo. «A exortação do papa não foi vã porque, de facto, em 1318 não se registam outros confrontos directos entre pai e filho, nem entre marido e mulher»

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«(…) A confirmação ideal dos limites temporais (12 de Janeiro / 22 de Fevereiro de 1318) é a carta apostólica, até hoje inédita, de João XXII, datada de 14 de Março 1318, em que o papa concede ao rei Dinis I a possibilidade de outorgar a total remissão dos pecados in articulo mortis, precedida de uma prévia, sincera e contrita confissão, enviada em resposta a uma súplica do soberano, remontando evidentemente a algum tempo antes de jornada ser empreendida, e que poderá ser lida na perspectiva do percurso de purificação ou de preparação ao caminho penitencial ou, mais simplesmente, de reflexão pessoal protagonizada pelo monarca.

O ano da pacificação. 1318
Desde logo, 1318 apresenta-se como um ano chave na vida de Dinis I, a nível público e privado, pois, nos meses que seguiram, irá tomar decisões delicadas, cheias de implicações futuras para si próprio, para a sua família e para o reino de Portugal. O ano de 1317 tinha começado sob os melhores auspícios com o nascimento do neto a que tinha sido atribuído o nome do rei, o infante Dinis (12 de Fevereiro de 1317, terceiro filho do casal formado por Afonso e dona Beatriz, nasceu a 12 de Fevereiro de 1317, S. Eulália), e não a 12 de Janeiro, como a Monarquia Lusitana refere, transcrevendo erroneamente a notícia extraída do Livro da Noa), mas logo foi abalado pelas inquietações, suspeitas e desavenças surgidas na família real, primeiros sinais da guerra civil que, poucos anos depois, entre 1319 e 1324, terá posto à prova a estabilidade do reino. A gravidade da situação foi tal que exigiu mesmo a intervenção do pontífice João XXII, que se expressou sem demora a favor do rei e contra todos os que se opunham e obstavam ao seu governo, ameaçando-os com pena de excomunhão.
Um tal estado de tensão teve que se prolongar até aos inícios de 1318, pois remontam ao mês de Março três cartas apostólicas em que, com tons ligeiramente diversos, João XXII se dirige ao rei, à rainha e ao herdeiro do trono (estes últimos dois mancomunados no ressentimento contra o soberano), exortando-os à reconciliação em nome da concórdia familiar e da paz do reino de Portugal. A exortação do papa não foi vã porque, de facto, em 1318 não se registam outros confrontos directos entre pai e filho, nem entre marido e mulher, mas, pelo contrário, assistimos a uma substancial recomposição do conflito: será necessário esperar pelo ano de 1319 para ver novamente e mais dramaticamente contraporem-se os contendentes. Numa leitura retrospectiva dos acontecimentos, poderia afirmar-se que 1318 se apresenta como um ano de trégua, um ano suspenso entre as primeiras e mais concretas manifestações do conflito (1317) e o violento e definitivo rebentar da guerra civil [(1319-1324), os primeiros sinais da desavença entre Dinis I e o herdeiro do trono tiveram lugar alguns anos antes, entre 1312 e 1313, por ocasião da disputa da herança de João Afonso, conde de Barcelos, que, no princípio, tinha visto contrapor-se o conde Martim Gil, mordomo mor do príncipe herdeiro, e Afonso Sanches, filho natural do rei Dinis. Este último, com o apoio do pai, saiu vencedor da contenda. Também a herança de Martim Gil, falecido no fim de 1312, transitou para Afonso Sanches que, no ano seguinte, foi nomeado mordomo mor do rei]. Uma série de iniciativas empreendidas por Dinis I ao longo de 1318, nos meses seguintes à peregrinação a Compostela, parecem ir na direcção de uma pacificação familiar e de uma diminuição das tensões, que podem ser atribuíveis mesmo à experiência espiritual vivida em primeira pessoa pelo soberano. A Monarquia Lusitana conta que, após a viagem à Galiza, o ano passou tranquilo e sem problemas. A partir dos finais do mês de Abril, o rei mudou-se para Torres Vedras, onde ficou até ao início de Julho, segundo os itinerários. Foi provavelmente durante esta longa estada que Dinis I, numa área rural pertencente ao concelho de Torres Vedras, junto à foz do rio Alcabrichel, ordenou a realização de uma obra pública, um porto, recordado nas fontes como o Porto de S. Dinis, o actual Porto Novo. Além disso, determinou ainda que quem quisesse podia estabelecer-se e construir ali a sua casa, a fim de povoar e tornar viva uma zona até àquele momento desabitada. Na ocasião, decidiu também que, naquela mesma área, se levantasse uma igreja intitulando-a da invocação do seu santo protector, São Dinis, ao qual, por devoção, em 1295, já tinha dedicado a construção de um mosteiro cisterciense, confiado ao ramo feminino da ordem, em Odivelas, nos arredores de Lisboa». In Giulia Rossi Vairo, Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências, Grupo Informal de História Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Incipit.  Workshop de estudos medievais da U. do Porto, 2009-2010. GIHM. Coordenação de Flávio Miranda e Joana Sequeira, CITCEM, Porto 2012, IHA, Universidade Nova de Lisboa, ISBN 978-972-8932-94-7.

Cortesia da UPorto/JDACT

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vataça. A Favorita do rei Dinis. Francisco do Ó Pacheco. «… ao longo dos seus anos de criança e de jovem uma espécie de Maria-rapaz que adorava os jogos de espada, atirava ao arco como o mais certeiro atirador»

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«(…) E o papa chamou o mais conceituado dos ourives de Roma e encarregou-o de construir um elmo em prata, artisticamente trabalhada, que cobrisse toda a calote craniana e lhe reconstituísse as formas da face. Assim foi feito e a Cabeça do papa Fabiano passou a fazer parte dos tesouros da igreja de Cristo. Por outro lado, a Cruz de prata dourada do Santo Lenho não é uma peça muito grande. Tem apenas cerca de sessenta centímetros de comprimento e trinta de largura e assenta numa base decorada com querubins, em relevo. Dizia tua avó que era lindíssima. Pronto mãe, pára. Descansa um pouco, disse Vataça. Toma um pouco de água e mais tarde continuarás. Vamos irmãos, deixemos nossa mãe descansar. Logo regressaremos.
Ficavam mais claros para todos os interesses religiosos, políticos e económicos que haviam envolvido a 4ª cruzada quando os cruzados francos, apoiados pela poderosa cidade-estado de Veneza, atacaram Constantinopla em 1204 e forçaram o imperador bizantino Alexis V Murtzouphlos a fugir. Provocaram a divisão do império romano do oriente, fundaram, sob o beneplácito de Veneza, o império Latino e coroaram como imperador o conde Balduíno I da Flandres. Até que um outro papa, com o apoio de uma outra potência económica, a cidade de Génova, e com Miguel Paleólogo como executante, voltou a atacar Constantinopla em 1261 e a repor o império bizantino na sua plenitude.
Vataça era a única dos filhos de Eudóxia Lascaris que tratava a mãe por tu. Era assim desde criança e Eudóxia sorria, com esse atrevimento, enquanto fechava os olhos para descansar mais um pouco. Recordou-se ainda dos tempos de menina quando quer ela, quer o pai, Guillermo Pedro, teria ela então entre dez a doze anos, tentaram arranjar-lhe um noivo. Vieram vários rapazes, todos de famílias nobres, da alta nobreza Liguriana e genovesa, mas a todos Vataça despachou em alta velocidade como se fossem ainda crianças de mama. Um houve, um Fábio qualquer coisa, que até mereceu as simpatias de Eudóxia, mas que foi muito maltratado por Vataça, ao ponto de o correr do quarto, a pontapé, chamando-lhe alto e bom som, medricas e cagarola. Vataça tinha sido ao longo dos seus anos de criança e de jovem uma espécie de Maria-rapaz que adorava os jogos de espada, atirava ao arco como o mais certeiro atirador e fazia corridas de cavalo com os mais velhos, fossem nobres ou plebeus. Claro que também aprendeu as coisas das mulheres, a administração do palácio e dos criados, as rendas e bordados, a poesia, a música, a teologia e os cânones da igreja e da corte. Mas do que ela mais gostava todos sabiam e logo que podia, saía de casa e brincava com os filhos e as filhas dos criados, aos torneios simulados em cima de cavalos de cana e jogava a espada, chamando-se a si própria de cavaleira bizantina combatendo os infiéis e libertando a terra santa. Corria Vataça os cortinados das enormes janelas, para que a luz do dia não incomodasse o descanso de sua mãe, quando ouviu a sua voz, muito baixinha, que perguntava: já foste de novo desposada, filha? Não, mãe, continuo só e viúva. Estou com 36 anos e isso já não me preocupa, respondeu Vataça Lascaris secamente denotando na voz alguma amargura. Aquele por quem me apaixonei não me podia ter por esposa, porque estava casado com a minha melhor amiga. Depois mandou que me casasse com um velho nobre que tinha mais de três vezes a minha idade». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

Vataça. A Favorita do rei Dinis. Francisco do Ó Pacheco. «Mas ouvi muitas histórias em Niceia e em Constantinopla, aos meus pais e aos meus avós, desde muito pequena, sobre esses tesouros da igreja»

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«(…) O primeiro imperador de Niceia foi Teodoro I Lascaris, que viria a conquistar durante o seu reinado uma boa parte da Anatólia. O império de Niceia apenas duraria 57 anos, até 1261, altura em que foi dissolvido em consequência da tomada de Constantinopla, em 1260, por Miguel VIII Paleólogo, em aliança com a cidade de Génova, rival visceral de Veneza. Fora este mesmo Miguel Paleólogo, que retirara o trono ao tio de Vataça, João IV Lascaris, e que depois de tal usurpação o mandara cegar e o fizera prisioneiro. Para se libertar de todos os Lascaris e evitar conflitos com a sucessão ao trono, Miguel Paleólogo, depois de prender João Lascaris, ordenara o casamento das três irmãs, Eudóxia, Irene e Maria, com estrangeiros, para as afastar do império. Por isso Eudóxia havia casado, aos nove anos, em Constantinopla com Guillermo Pedro de Tende, conde de Ventimiglia e havia partido para a Ligúria, junto aos Alpes marítimos, próximo de Génova, onde mais tarde nasceriam os seus cinco filhos. Chegou a ver esses objectos religiosos, minha mãe? Perguntou Beatriz. Não minha filha, nunca os vi. Mas ouvi muitas histórias em Niceia e em Constantinopla, aos meus pais e aos meus avós, desde muito pequena, sobre esses tesouros da igreja. Por isso habituei-me a respeitá-los e também e venerá-los ao longo da minha vida.
A história da Cabeça-Relicário de S. Fabiano, que foi o vigésimo papa depois de S. Pedro, é assaz curiosa. S. Fabiano foi eleito bispo de Roma, o que significava ser, nesse tempo, o sumo pontífice da igreja cristã, corria o ano de 236 e a sua eleição para o cargo ficou na memória de todos, pela sua natureza peculiar, embora também se tenha dito sobrenatural e divina. Diz a história que estavam os cristãos em assembleia, em Roma, discutindo sobre quem sucederia ao papa Antero. Mas estavam tão divididos em relação à escolha do novo papa que parecia impossível tal decisão. É então, nessa babilónia de argumentação e contra-argumentação, que uma pomba branca descendo dos céus, pousou em cima de cabeça de Fabiano. Aleluias terão gritado, interpretando como vontade de Deus a escolha de Fabiano, para próximo papa de Roma. O que é certo, minhas filhas, é que todos votaram por unanimidade a eleição de Fabiano. Mas Fabiano teve azar, porque foi encontrar Décio como imperador romano e Décio tinha uma forte aversão e inimizade aos cristãos.
Para além de novamente os reprimir e perseguir, voltou a promover a construção de templos pagãos e reforçou os cultos e sacrifícios do passado em todo o império. Esta severa perseguição aos seguidores de Cristo, levada a cabo pelo imperador de Roma, culminou com a decapitação de muitos cristãos, entre eles também do papa Fabiano, o que o transformou em mártir da igreja. Fabiano seria depois enterrado nas catacumbas de Calisto, na via Ápia, em Roma onde já se encontravam sepultados todos os papas desde S. Pedro. Muitos anos depois, cerca de seiscentos anos depois, e após a reconstrução e a decoração da Basílica de S. Silvestre e S. Martinho aos Montes pelos papas Sérgio II e Leão IV, no ano de 855, foram trasladados para essa basílica os corpos dos papas que se encontravam nas catacumbas, já decorria a segunda metade do século IX. E foi nesta altura, quando alguém encontrou no túmulo da via Ápia a cabeça de S. Fabiano, descolada do corpo e ainda com os miolos intactos, que a igreja decidiu perpetuar a sua memória. Afinal a lenda sobre a eleição de Fabiano para papa de Roma, através da pomba enviada por Deus que lhe pousou na cabeça naquela longínqua assembleia de cristãos do ano 236, bem merecia que se perpetuasse a sua cabeça para todo o sempre». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Sabe-se que a sua primeira mulher foi, ou devia ter sido, a infanta dona Branca, filha de Pedro, regente de Castela, e da princesa dona Maria de Aragão. Segundo uns, o casamento com a infanta castelhana não chegou a realizar-se…»

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A Bastarda do rei Bravo
«(…) Do seu casamento com a infanta dona Beatriz de Castela, teve Afonso IV (1291-1357) sete filhos, quatro dos quais não terão sobrevivido ao primeiro ano de vida. Dos três restantes, Pedro foi rei de Portugal; dona Maria, a primogénita, foi rainha de Castela; e dona Leonor, que morreu com 20 anos, foi, por pouco tempo embora, rainha de Aragão. Fora do seu casamento, afirmam alguns que D. Afonso IV não teve descendência, o que não seria para estranhar num monarca que tanto se empenhou em tolher os usos e costumes que são contra a vontade de Deus e a prol [o bem] comunal, combatendo especialmente os adultérios com mulheres alheias e os homens casados que tiverem barregãs. A estes chegou aliás a castigar com a pena de morte. Sucede, porém, que o rei Bravo foi, na opinião de autorizados genealogistas, o pai de uma dona Maria, ou Maria Afonso, de Portugal, nascida em 1316 e falecida em 1384. Esta bastarda casou com Fernando Afonso, senhor de Valência de Campos e grão-mestre da Ordem de Santiago, que era bisneto do rei Afonso X da Castela, e deu-lhe
três filhos: João, marechal de Castela, Pedro; e Fernando, monge na Ordem de São Jerónimo. Além desta bastarda, disseram as más-línguas que Afonso IV também fora pai de uma criança nascida de dona Violante Sanchez, outra bastarda real, filha do rei Sancho IV de Castela e Leão e de dona Maria Alfonso Ucero. Mas nenhuma prova foi apresentada dessa relação nem ninguém nomeou alguma vez este ou qualquer outro putativo bastardo do rei Bravo.

El-rei Bastardo
Em 1383 nas Cortes de Coimbra, João das Regras deu a entender que o rei Pedro I, em toda a sua vida, só uma vez estivera bem casado: com dona Branca de Castela, sua primeira mulher. Todos os casamentos que celebrara ou dizia ter celebrado depois não eram válidos, porque esse primeiro matrimónio, tendo sido consumado, nunca fora anulado e a infanta espanhola não morrera antes das outras esposas do monarca. Daí resultava que todos os filhos do rei Cruel eram bastardos, e não valiam mais do que João, Mestre de Avis, o filho que o rei Pedro I houvera fora dos seus casamentos. João das Regras (o Doutor) era o melhor advogado da aclamação do Mestre como rei de Portugal. E, por isso, dizem muitos, as suas palavras não deviam ser levadas a sério. Não deviam pelo menos ser levadas à letra. É verdade. Mas verdade é também que a história dos casamentos de Pedro I constitui ainda hoje um intrincado novelo muito difícil de deslindar.
Sabe-se que a sua primeira mulher foi, ou devia ter sido, a infanta dona Branca, filha de Pedro, regente de Castela, e da princesa dona Maria de Aragão. Segundo uns, o casamento com a infanta castelhana não chegou a realizar-se, tendo a noiva sido devolvida ao reino em que nascera por ser apoucadinha de corpo e de espírito. Segundo outros, tratou-se de um casamento celebrado mas não consumado. E há ainda quem defenda que esse casamento, celebrado em 1325, foi consumado, sendo o único casamento legítimo que o monarca celebrou. Em qualquer caso, Pedro I voltou a casar em 1339, desta feita com dona Constança Manuel, filha do príncipe de Vilhena e mulher do rei Afonso XI de Castela. Este repudiara-a antes de consumar o matrimónio, para casar, três anos depois, com a infanta dona Maria de Portugal, irmã mais velha de Pedro I.
Na sua companhia dona Constança Manuel trouxe dona Inês de Castro, uma dama galega por quem o infante Pedro logo se perdeu de amores e que se tornou sua amante. O monarca víria a casar com ela após a morte da sua segunda mulher, ocorrida em 1349. Mas, segundo o próprio infante Pedro e futuro rei Pedro I dirá, este seu casamento foi secreto, pelo muito medo que tinha de seu pai, tendo-se realizado em dia de que ele não se lembrava, no ano de 1350. Esta declaração, feita em Cantanhede, em Junho de 1360, levantou, desde sempre, as maiores dúvidas, e a Igreja nunca aceitou que Pedro tivesse alguma vez casado com dona Inês de Castro. Até porque seria, em qualquer caso, um casamento ilegítimo: dona Inês era prima de Pedro, já que ambos eram netos de Sancho IV, o Bravo, rei de Castela; e era, além disso, sua comadre, por ter sido madrinha do infante Luís, filho primogénito de Pedro e de dona Constança, que morreu menino». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Pedro Afonso, conde de Barcelos, foi viver para os seus paços de Lalim, na companhia da sua amásia (e não, como alguns disseram, sua terceira mulher). Foi aí que coligiu o interminável Livro de Linhagens e redigiu a Crónica Geral de Espanha de 1344»

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A fina-flor do reino de Dinis I
«(…) Mal subiu ao trono, após a morte do monarca Dinis I, a 7 de Janeiro de 1325, Afonso IV convocou as cortes para que o recebessem como rei e senhor e lhe prestassem menagem. Logo a seguir, tratou de perseguir o meio-irmão, exilado em Castela, não obstante ele ter reconhecido a sua realeza. Acusou-o de traição, confiscou-lhe os bens e condenou-o a desterro perpétuo. Afonso Sanches protestou mas em vão. E, não sendo ouvido, resolveu agir. Pegou em armas, reuniu forças de Castela e invadiu Portugal, espalhando a lei do ferro e do fogo nas terras de fronteira, desde Trás-os-Montes até ao Alentejo. Afonso IV retribuiu na mesma moeda, visando em especial Albuquerque, que era onde o adversário tinha sede e principais apoios. A contenda durou três anos e só terminou porque Afonso Sanches adoeceu. Negociou-se então a paz, tendo o bastardo querido de Dinis I obtido a restituição de todos os bens que lhe tinham sido confiscados. Assim que lhe foram devolvidos, morreu, sendo enterrado no Convento de Santa Clara, que fundara em Vila do Conde, de que era senhor. Deixou um filho, João Afonso Albuquerque, o do Ataúde, 6.º senhor de Albuquerque, que foi mordomo-mor do rei Pedro I e deixou numerosa descendência, legítima e ilegítima.
Já então Afonso IV, cognominado o Bravo, menos por ser corajoso do que por ser violento, tinha mandado matar outro dos seus irmãos bastardos, João Afonso, que fora, também ele, mordomo-mor de Dinis I e, depois, seu alferes-mor. Acusado de traição por se ter conluiado com Afonso Sanches nosso inimigo, João Afonso fora condenado à morte por uma sentença de 4 de Julho de 1326, em que Afonso IV se declarava muito pesaroso por ter de castigar um homem que se chama filho de el-rei Dinis, nosso padre.
Senhor da Lousã, João Afonso deixara viúva dona Joana Ponce Leon (bisneta de Afonso IX, rei de Leão e Castela), que lhe dera uma filha: dona Urraca Afonso, mulher de Álvaro Perez Guzman, senhor de Manzanedo. Mas deixara também uma bastarda, dona Leonor Afonso, que casou com Gonçalo Martins Portocarreiro. Quanto a Pedro Afonso, conde de Barcelos, afastou-se da corte de seu irmão e foi viver para os seus paços de Lalim, na companhia de dona Teresa Anes Toledo, sua amásia (e não, como alguns disseram, sua terceira mulher). Foi aí que coligiu trovas e cantigas, compôs o interminável Livro de Linhagens e redigiu a Crónica Geral de Espanha de 1344.
Em 1347, tinha-se definitivamente separado de sua segunda mulher, dona Maria Ximenez Coronel, com quem, aliás, quase não coabitara. Com efeito, desde o seu casamento, marido e mulher tinham quase sempre vivido apartados um do outro. No ano em que se consumou a ruptura, o conde doou à condessa todos os bens que o casal possuía em Aragão, enquanto a condessa lhe doava a ele todos os bens que o casal tinha em Portugal e no Algarve. Figura central no panorama político e cultural português da primeira metade do século XIV (como o marquês de Castelo Melhor o descreve), Pedro Afonso morreu entre 2 de Fevereiro e 5 de Julho de 1354, sendo sepultado no Mosteiro de S. João de Tarouca». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

domingo, 19 de julho de 2015

O Conto da Sereia. Lenda dos Marinhos. Gonzalo Ballester. «Sei pouco dele agora. Quem o vem ver todos os anos e passam um mês juntos é a mãe. Eu não o vejo desde que acabou a guerra. Claro, é o tempo que tenho andado embarcado…»

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«(…) Não voltei a saber deles, dos Marinho, durante tempo, e julgo-me autorizado a conjecturar que Payo não pescou no Grão-Sol até passarem aqueles anos em que os submarinos andavam no mar e podiam avariar as redes com os seus ímpetos cegos. Mas também aquela guerra acabou sem que tivéssemos saído disparados pelos ares, e mais ou menos depois foram-se aconchegando as coisas, ou talvez se desaconchegaram de outra maneira, pois muita gente andou de um lado para o outro, eu entre ela, para ver se encontrava um cantinho ou uma esquina onde manter-me erguido. Seria nos fins dos quarenta ou talvez no princípio dos cinquenta: eu encontrava-me em Madrid sem a minha família. Uma vez escreveu-me Josefina dizendo que Payo se casara com uma rapariga irlandesa, que tinham ido visitá-la e que em breve passariam por Madrid: que os tratasse bem. E foi assim que chegaram Payo e Aileen num comboio da manhã, um pouco fatigados, mas contentes, com a ilusão inteira dos recém-casados. Vinham não tanto em lua-de-mel quanto para que ela conhecesse um pouco do país. Acompanhei-os ao hotel, deixei-os instalados e combinámos almoçar juntos, e jantar também, pois como convidara eu ao almoço, insistiram em fazê-lo eles ao jantar. Observei que Payo gostava da minha companhia e até, que estava um pouco envaidecido dela, e pelas palavras de Alleen, compreendi que lhe falara de mim e de como me corriam as coisas na profissão. As voltas que a vida dá!
Aileen era uma rapariga de grandes olhos cinzentos, a boca um pouco irregular mas graciosa; falava um espanhol pitoresco mas expressivo, e de certas matérias sabia mais que o marido, por exemplo das lendas e das histórias celtas, que foi do que falámos principalmente, por insinuação minha, perante a estupefacção de Payo, que fazia de espanto e de surpresa a sua cara de bom rapaz ingénuo. Contaram-me também, muito por alto, a história do namoro, que começara por causa de uma invernada forçosa em não sei que porto da costa sul da Irlanda, perto de Limmerick, onde ela morava e tinha servido de intérprete com o seu pouco espanhol. A mãe, ao princípio, ficou assustada com uma mulher de tão longe, mas como Aileen é católica, acabou por transigir, espero que cheguem a ser amigas. E Aileen acrescentou que, para o ser, sentia-se disposta a não falar à frente dela nem de leprecauns nem de Finn McCool. Falou-se depois que de Madrid iriam para Cuenca, onde estava Alfonso. Que faz ele lá?, perguntei-lhes. Então Payo. explicou-me que Alfonso obtivera uma cadeira no Liceu, uma cadeira de Geografia e História, e que estava lá colocado. Acrescentou ainda que era violoncelista e diziam que tocava muito bem, mas aqui acabaram-se as explicações. Perguntei-lhes se Alfonso não vinha nunca a Madrid. Payo encolheu os ombros. Sei pouco dele agora. Quem o vem ver todos os anos e passam um mês juntos é a mãe. Eu não o vejo desde que acabou a guerra. Claro, é o tempo que tenho andado embarcado, e quando venho a Espanha estou cá muito poucos dias. Aileen olhou-me longamente, e sem que parecesse vir a propósito começou a falar das cunhadas Elvira e Sol, que já eram umas mulherzinhas e que namoravam. Quando nos despedimos, não sei se no dia seguinte, pedi-lhes que não deixassem de cumprimentar Alfonso da minha parte, mesmo sem nos conhecermos, já que éramos colegas. Payo prometeu-me que o faria e eu agradeci-lhe sem demasiado entusiasmo.
Não julguei que voltassem a Madrid, e menos tão cedo. Combináramos vagamente ver-nos durante o Verão e Aileen chegara a esboçar o convite para que passássemos todos, quer dizer eu e a minha família, uns dias em Vilaxuân, onde a casa era grande e capaz e havia barcas e chatas para as crianças se exercitarem na navegação à vista da mãe. Eu andava naquela altura metido num árduo trabalho, provavelmente daqueles que se fazem com dificuldade insalvável porque se aceitam sem gosto só para ganhar algum dinheiro. Lembro-me que quando passados poucos dias Payo me telefonou e me pediu um encontro, trabalho me custou não o adiar com um pretexto qualquer. Demorei certamente a responder porque antes de eu dizer que sim ou que não, repetiu o pedido com palavras diferentes, estas de súplica. Respondi-lhe que com certeza, que sim e que para já, e combinámos encontrar-nos no hotel imediatamente, e para não me atrasar apanhei um táxi (ainda era o tempo dos eléctricos ronceiros). Para já pensei que alguma coisa teria sucedido a Aileen e que ele estivesse numa aflição, mas quando entrei no vestíbulo onde me esperavam, vi o cabelo louro-cinza da rapariga que lhe saltava por cima dos ombros. Também foi ela a primeira a avistar-me e acenou-me ao longe com a mão. Payo levantou-se e veio ter comigo. Sossegou com um sorriso e umas palavras de desculpa as minhas perguntas urgentes. Bem sabia eu que te ias assustar, disse Aileen enquanto me beijava na face; e voltando-se para o marido acrescentou: eu não te disse? Payo parecia envergonhado. Não é nada connosco, esclareceu logo. Como vês, estamos bem. É coisa do Alfonso, já te contamos, e se calhar não passa de suposições. Agora toma alguma coisa, e obrigaram-me a beber um whisky irlandês fortíssimo». In Gonzalo Torrente Ballester, El Cuento de la Sirena, Dafne Ensueños, O Conto da Sereia, Lenda dos Marinhos, Difel, Lisboa, 1986.

Cortesia de Difel/JDACT

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Favorita do rei Dinis. Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «O controlo de Balduíno sobre o império bizantino era muito reduzido e a oposição que sofreu não tardou a gerar o surgimento de vários outros estados imperiais que dominaram durante muitos anos toda a Anatólia e a parte norte da Grécia»

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«(…) Eudóxia, sua mãe, havia explicado o que eram esses símbolos da cristandade e a sua importância. A Cruz do Santo Lenho era uma cruz de prata dourada de elevada decoração artística, que guardava no espaço interior do cruzamento dos dois braços, um pequeno bocado, ensanguentado, da madeira da cruz onde Jesus Cristo fora crucificado. Da cruz original, onde Jesus Cristo falecera, que fora descoberta no Monte do Calvário, em Jerusalém, no século IV por Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino I. Essa cruz de madeira tinha sido repartida entre o oriente e o ocidente e distribuída ao longo dos séculos em pequeníssimos fragmentos por toda a cristandade. A Cruz do Santo Lenho, das mais antigas da cristandade, deveria estar ainda na posse de João IV Lascaris. A Cabeça-Relicário de S. Fabiano era uma cabeça antropomórfica em prata, de tamanho natural, que diziam conter no seu interior um crânio humano, que afirmavam ser do papa mártir S. Fabiano.
Estes objectos sagrados teriam ido de Roma para Constantinopla no ano de 974, levados pelo anti-papa Bonifácio VII, quando foi expulso de Roma pelo imperador Otão II, do Sacro-Império Romano-Germânico, que havia escolhido Bento VII para papa. Quando da divisão do império do oriente, em 1204, parte desses tesouros sagrados tinham ficado na posse dos imperadores de Niceia e o primeiro dos imperadores tinha sido Teodoro Lascaris. E desde essa altura os Lascaris tinham sido os fiéis depositários e guardadores de vários desses objectos sagrados. Coisas que à partida pareciam demasiado importantes para uma simples princesa bizantina, dama de companhia e aia das rainhas dona Isabel de Portugal e dona Constança de Castela. Mas seria que seu tio ainda as guardaria? E a expulsão de sua mãe, por seu pai, de Ventimiglia, a que se deveria? Com muitas dúvidas e muitas interrogações no pensamento Vataça Lascaris deixava-se dormir, já tarde, nessa noite, em Barcelona..., com o pensamento em sua mãe, que tinha feito um esforço enorme para lhes contar todas estas coisas que tanto a atormentavam. Até parecia que não queria morrer enquanto as não tivesse contado a seus filhos..., coitada..., estava tão fraquinha... No dia seguinte, já mais animada Eudóxia Lascaris continuou a contar a todos a história da família. Tudo começara com a quarta cruzada à Terra Santa, convocada em 1202 pelo papa Inocêncio III, com o apoio económico e financeiro da cidade de Veneza, que em vez de se dirigir a Jerusalém, como era suposto, se dirigiu a Constantinopla onde desferiu um ataque selvático à cidade. Disse-se então que esse ataque à capital do império romano do oriente fora em larga medida um correctivo às tendências independentistas e hereges dos clérigos do império do oriente, cuja ortodoxia vinha de há muito incomodando Roma. Em consequência, o imperador bizantino Alexius V fugiu de Constantinopla e os cruzados, que eram comandados pelo rei Balduíno da Flandres, criaram aquilo a que chamaram o novo Império Latino e instalaram-se na cidade.
O controlo de Balduíno sobre o império bizantino era muito reduzido e a oposição que sofreu não tardou a gerar o surgimento de vários outros estados imperiais que dominaram durante muitos anos toda a Anatólia e a parte norte da Grécia. Foram criados os novos estados do Epiro, no território junto ao mar Adriático, em terras gregas e albanesas. O estado de Trebizonda, no território mais oriental a sul do mar Negro e o estado de Niceia, na Bitínia, cuja cidade do mesmo nome, ficava na longitude de Constantinopla, no território ao su1 do mar de Mármara. Destes vários estados, Niceia era o que estava em melhores condições para o restabelecimento do poderoso império bizantino. E assim aconteceria». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «E só a 26 de Fevereiro de 1324, em Santarém, é que as pazes foram finalmente estabelecidas, depois dos esforços nesse sentido desenvolvidos pela rainha Santa Isabel, ‘boa advogada de causas barulhentas e perniciosas’»

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A fina-flor do reino de Dinis I
«(…) Filho de dona Grácia Anes, mulher de qualidade, natural de Torres Vedras, senhora da Ribeira de Sacavém, que era proprietária de umas casas a par da Sé de Lisboa, onde seu filho veio a fundar um hospital, e de duas tendas à Porta de Ferro, doadas pelo monarca Dinis I, Pedro Afonso foi beneficiado pelo rei seu pai com grandes e valiosas doações, a primeira das quais ocorreu em 1289. Entre esse ano e o de 1306, recebeu bens em Estremoz, Évora-Monte, Sintra e Tavira, bem como a terra de Gestaçô. E, em 1307, foi nomeado mordomo da infanta dona Beatriz, sua cunhada. Já então Pedro I estaria viúvo de dona Branca Pires (ou Peres) Portel, com quem terá casado no último ano do século XII ou no primeiro do século seguinte. Herdeira de uma das maiores fortunas senhoriais daquele tempo, dona Branca deu à luz um filho que sobreviveu o tempo suficiente para seu pai [o dito Pedro Afonso] herdar a parte da casa de Sousa possuída por sua mãe. Em 1308, o primogénito de Dinis Ivoltou a casar, desta feita com Maria Ximenez Coronel, uma das damas que viera de Aragão com a rainha Santa e que esta se empenhou em unir ao bastardo do marido, requerendo a seu irmão, o rei Jaime II, que consentisse naquela união por amor de nós e para nos fazerdes prazer. Em 1314, Pedro Afonso foi feito conde de Barcelos, sucedendo ao 2.º conde, Martim Gil, seu parente por afinidade, a quem também sucedeu no posto de alferes-mor, que conservou até morrer.
Quando, na guerra contra Dinis I, tomou o partido do infante Afonso, seu meio-irmão, houveram os outros irmãos deles mui grande escândalo e buscaram-lhe mal com el-rei seu pai, como o próprio conde há-de escrever na sua Crónica de Espanha de 1344. E tanto foi crescendo este escândalo que houveram dom Afonso Sanches e seu irmão [João Afonso] de ajuntar todos seus vassalos e amigos e ainda grande parte dos d'el-rei por seu consentimento e enviaram todo este poder com João Afonso que fosse fazer mal e desonra a seu irmão, o conde Pedro., Desafiado, o conde de Barcelos, que era muito amado dos filhos d'algo, reuniu tantos vassalos e amigos que foram mãos que os outros. E esperou pelo ataque em Pinheiro de Ázere, próximo de Santa Comba Dão. Mas o combate não se travou porque o infante Afonso veio de Lisboa por partir a contenda.
Depois disso, porém, ordenou Afonso Sanches com el-rei que tolhesse a terra ao conde Pedro e ele foi-se para Castela, e andou lá quatro anos e meio, entre 1317 e 1322. Durante esses anos, agravou-se o conflito entre o monarca Dinis e o seu filho legítimo, que, instigado por mentirosas palavras de intriguistas, não desistia de abater o poder e a influência que no pai tinha Afonso Sanches, em quem o monarca depositara toda a sua complacência.
O bastardo muito amado do rei Trovador (o qual, reconhece o conde de Barcelos, fazia muito do que ele queria) era filho de dona Aldonça Rodrigues Talha. Nascido talvez em 1286, mas, em qualquer caso, antes de 1289, Afonso Sanches tivera por tutores Pedro Afonso Ribeiro e, mais tarde, a própria rainha Santa, sua madrasta (por carta passada na Guarda, a 21 de Junho de 1298). Já então tinha recebido várias doações de seu pai, que o casou, antes de 1307, com dona Teresa Martins Telo, filha do 2.º conde de Barcelos, e que, em 1312, o nomeou seu mordomo-mor. Afonso Sanches conservaria essas altas funções até 1322. Perdeu-as porque foi essa uma das condições impostas pelo infante Afonso para firmar tréguas com o pai nesse ano de 1322. Mas essas tréguas não puseram definitivo termo à guerra civil. E só a 26 de Fevereiro de 1324, em Santarém, é que as pazes foram finalmente estabelecidas, depois dos esforços nesse sentido desenvolvidos pela rainha Santa Isabel, boa advogada de causas barulhentas e perniciosas, e também pelo conde de Barcelos, entretanto regressado de Castela. Com essas pazes, o infante, obtendo a solene garantia da sucessão do trono, alcançava também que Afonso Sanches fosse afastado da corte, a troco de dez mil libras que lhe foram dadas como compensação. O bastardo refugiou-se em Castela. Mas Afonso não o esqueceu nem lhe perdoou». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT