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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A Rosa de Alexandria. Maria L. Meleiro. «As mais belas tragédias, diz Aristóteles, são aquelas que se debruçam sobre um pequeno número de famílias (...) às quais aconteceram grandes infortúnios, histórias que são do conhecimento de todos»

Cortesia de wikipedia

«Ninguém me é estranho, se for bom. A natureza é só uma para todos; a diferença está no carácter». In Menandro (342-C.242 a. C)

A morte da águia
«(…) Não basta, porém, a mera agitação dos sentimentos humanos, que nada tem de trágico, insiste. É preciso que o medo e a piedade, despertados pelo infortúnio imerecido sofrido por alguém, envolvam o reconhecimento do profundo sentimento de injustiça que precipita na desgraça aquele que é vítima de um erro irreparável. Alguém que poderia estar sob a nossa própria pele. Só esta condição nos poderá fazer tremer. Será que a posteridade fez justiça à memória de Arsínoe Filadelfa? Os testemunhos dos que reavivaram a memória da emética, dois ou quatro séculos depois da sua morte, em nada são lisonjeiros. Mas será que tudo poderia ter acontecido de outro modo? As mais belas tragédias, diz Aristóteles, são aquelas que se debruçam sobre um pequeno número de famílias (...) às quais aconteceram grandes infortúnios, histórias que são do conhecimento de todos. A casa real da Macedónia, ligada aos Lágidas do Egipto, uma família de origem lendária e antepassados míticos, nada menos que Hércules e Aquiles - possui todas as condições. O bisavô de Alexandre, o rei Arquelaus da Macedónia, em cuja corte de Pela Eurípedes teria redigido os seus últimos trabalhos, perece, não como o rei Penteu vitimado pelo furor das Ménades incitadas por Dioniso, mas às mãos de um amante. Amintas, o filho que lhe sucede, amigo de Nicómaco, é morto por sua mulher, a infiel Eurídice. Filipe da Macedónia escapa por algum tempo à fúria de Olímpia, mas seu tio Perdicas quase sucumbe à nova Medeia. Sacerdotisa de um culto de mistério, Olímpia armará o braço do assassino de Filipe, pai de Alexandre. Depois será a vez da outra esposa de Filipe, de seu filho Arrideu e de Eurídice que o desposara, ocupando o casal o poder depois da morte de Alexandre.
Com os olhos postos no cobiçado trono da Macedónia, Ptolomeu Ceraunos, afastado do trono do Egipto pelo pai, Ptolomeu Sóter, assassina os dois filhos adolescentes da meia-irmã Arsínoe. Esta instigara o marido, Lisímaco da Trácia, a mandar executar o filho Agátocles por traição. Incapaz de erguer a mão contra o seu próprio sangue, Lisímaco entrega-lhe a responsabilidade do desenlace final. Arsínoe, depois de uma tentativa gorada de envenenamento do enteado, tece enredos destinados a persuadir Ceraunos ao homicídio. Agátocles perece. Arsínoe ficará na história como a nova Fedra, a da alma doente que, não podendo querer o bem, em consciência não se atreve a seguir o mal. Em nada desmerecem dos Átridas. Quem poderá falar daquele que partiu para o mundo dos mortos deixando atrás uma sombra. Esta vai-se desvanecendo cada vez mais para os que ficaram, os quais, privados da saudosa presença, vão paulatinamente reunindo todos os incidentes, todas as coisas, todos os rostos que o falecido amou ou odiou, juntando-os amorosamente para depois os erguer como obstáculos à absorção ou troca da memória. Desde a morte da rainha Arsínoe Filadelfa que Ptolomeu correra a refugiar-se nos braços da cortesã Bilistiqué. Afastada pela rainha, que não tolerava qualquer influência feminina junto do esposo-irmão além da sua, Bilistiqué brilhava de novo na corte alexandrina.
Era uma mulher já madura, que dissimulava a idade sob uma espessa camada de pintura no rosto, onde brilhavam uns olhos opacos e escuros de expressão rapace e selvagem mascarada de pretensa ingenuidade, abrindo-se lentamente assim como os de um boi, acentuadamente sublinhados por escuros traços de khol. Ainda esbelta, os seios duros, o seu corpo musculoso e reluzente como mármore novo estava acostumado ao rude desporto das corridas de carros; apresentava-se com frequência vistosamente coberta de véus transparentes, umas vezes azuis outras vermelhos, os quais, desprendendo-se da túnica, a envolviam numa aura colorida que de longe chamava a atenção. A sua intimidade com o rei datava dos recuados tempos da primeira Arsínoe. Não obstante, o Filadelfo jamais permitira que se imiscuísse nas suas decisões. Forçada a uma presença decorativa e submissa, tão contrária ao seu desejo de não passar despercebida, Bilistiqué apresentava como único vestígio possível da forte e voluntariosa personalidade que a animava a garridice no trajar, a teatralidade dos modos e um vasto e intenso odor a metópio, mirra, gálbano, cardamomo, tudo na medida exacta, hábil criação de um inspirado perfumista da corte. Era porém no hipódromo de Alexandria, e no leito do rei, que Bilistiqué desfrutava dos seus momentos de maior glória, sensual e selvagem, a cabeleira solta e a túnica erguida acima do joelho, fustigando os cavalos do desejo. Soubera sempre manter-se no seu lugar, mesmo quando era mais jovem e gozava dos favores do rei. Agora, porém, ostentava ares de rainha, exibia uma personalidade fora do comum, e pretendia até descender dos Átridas, ainda que toda a gente soubesse de sobejo quão obscuras eram as suas origens». In Maria Lucília Meleiro, A Rosa de Alexandria, tradução de João Lourenço, Grandes Narrativas nº 192, Editorial Presença, Lisboa, 2002, ISBN 972-232-961-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A Rosa de Alexandria. Maria L. Meleiro. «A falecida caminhará e falará, o seu corpo estará na companhia dos deuses da Casa Grande do Velho em Anu e aí receberá a coroa de Horus, senhor do género humano…»

Cortesia de wikipedia

«Ninguém me é estranho, se for bom. A natureza é só uma para todos; a diferença está no carácter». In Menandro (342-C.242 a. C)

A morte da águia
«(…) Poderia acontecer estar num ponto do caminho um chacal solitário, tentado pelas oferendas dos sacerdotes. Ouvir-se-ia um uivo horrendo talvez várias vezes de seguida, cada um deles num tom ligeiramente mais elevado do que o anterior, dando a sua própria versão do lamento dos coros. Depois desapareceria nas profundezas da Terra sem deixar rasto. Seria o sinal. Numa câmara à entrada do túmulo, sobre a areia, cinco sacerdotes, duas sacerdotisas representando Isis e Néftis, o inconsolável Ptolomeu Filadelfo, irmão e esposo da falecida, o jovem Ptolomeu, filho de Arsínoe e de seu primeiro esposo Lisímaco, rei da Trácia, procederiam às cerimónias de abertura da boca e dos olhos, praticadas sobre a múmia. Com isto pensavam os egípcios devolver ao corpo a sua sombra, ou Kaibit, que se ausentara por ocasião da morte. Segundo eles, estas cerimónias tornavam-se necessárias para a restauração das funções que o corpo da defunta possuía na Terra. A falecida caminhará e falará, o seu corpo estará na companhia dos deuses da Casa Grande do Velho em Anu e aí receberá a coroa de Horus, senhor do género humano, ecoaria a voz do principal sacerdote oficiante, o Querheb, segurando o rolo de papiro na mão. Um intenso e inebriante odor proveniente dos grãos de incenso no turíbulo envolveria os presentes.
Seriam então reveladas as palavras de poder. Era preciso pronunciá-las de forma correcta para que produzissem o efeito desejado. Disso se encarregaria o sacerdote em seguida. Deste modo, a rainha morta poderia transformar as substâncias perecíveis em imperecíveis e abrir as portas da percepção em Duat, o mundo das sombras. A notícia da morte da rainha Arsínoe espalhara-se na cidade de Alexandria. Uma multidão heterogénea invadira as ruas principais. Viam-se homens de barba frisada, magnificamente enfeitada com fios de ouro e prata e, aqui e ali, mulheres maduras cuja pintura dos olhos invariavelmente derretia nos locais menos convenientes, escorrendo ao longo da superfície da pele e manchando as suas vestes de linho; homens na flor da juventude transportavam discretamente pequenas bolsas contendo o último grito em matéria de preservativos, confeccionados com tripa de carneiro, ou similar, os olhos mais fixos nos bandos de raparigas do que nos acontecimentos ou nas notícias sobre o cortejo fúnebre. As crianças encavalitavam-se aos ombros dos pais, transportadas com mais cuidado do que as estátuas dos deuses pelos sacerdotes. Desejosos de voltar para casa, viajantes deambulavam esgotados, saciados de multidão.
Tal como frequentemente sucede quando uma grande massa se aglomera, logo alguns discretos vendedores surgiram não se sabe donde, oferecendo lentilhas e sopa de cebola, amuletos e jóias, algumas provenientes do saque dos túmulos antigos, e pães confeccionados em forma de animais, alguns com motivos algo ousados e até obscenos. A verdadeira morte de Arsínoe iria consumar-se, porém, com o apagamento da própria dinastia, que com ela conhecera os seus momentos mais faustosos. Tornou-se um sangue maldito que deixou cair o ceptro perdendo-se em lutas fratricidas, quando a multidão das concubinas oficiais, das esposas rainhas e das numerosas contestações armadas pôs em constante perigo o exercício do poder, legitimando toda a espécie de ambições. Da primitiva simplicidade de comportamento e de traje, diádocos e epígonos iriam evoluir para a complexidade de uma brilhante vida de corte, patente entre os Lágidas do Egipto, embora entre os Antigonidas, mais próximos das origens, e os Atálidas, de baixa extracção, se conservasse um gosto por uma modéstia mais helénica.
Os deboches, os crimes, os incestos, os assassínios a soldo, actos torpes que depois se iriam tornar regras dinásticas, marcariam com um ferrete sangrento a cidade fundada por Alexandre, consubstanciada na sua forma perfeita nos planos de Dinócrates de Rodes. O neto de Filadelfo, Ptolomeu Filopator, tornar-se-ia num joguete nas mãos da amante Agátocleia e do favorito Agátocles, irmã e irmão, que exploravam a sua volúpia. Manipulado pelo seu sinistro conselheiro e ministro Sosibios, Filopator morre aos trinta e nove anos arruinado pelos deboches, assassino de sua mãe Berenice, de seu tio Lisímaco, de seu irmão Magas e de sua esposa e irmã Arsínoe. Dizia-se até que a mão criminosa de Agátocleia, a concubina real, não fora estranha ao homicídio da malograda Arsínoe.
Nada do que Aristóteles idealizara nas suas lições, nem do plano cultural e político de Alexandre faria prever uma tal evolução. Não obstante, não são os escritos políticos do Estagirita que nos fornecem os modelos para a análise dos factos políticos. E a Poética. Isto na medida em que tanto a política como a tragédia utilizam o mesmo modelo de construção. Não no sentido do teatro político como cena enganadora, sediciosa, simples faz-de-conta, espelho deformador e perverso da essência do real; não como perícia em confundir o que é apresentado e mostrado na cena política com a verdadeira realidade. É fundamentalmente pela criação de uma superfície agitada de emoções tendentes a despertar o medo e a piedade, na origem do desenvolvimento do espectáculo da cena trágica, que a política e a tragédia dão as mãos. O aquecimento dos humores conseguirá a cura e libertação dos males através da catarse trágica provocada pelas emoções do espectáculo, é o que pensa o filósofo». In Maria Lucília Meleiro, A Rosa de Alexandria, tradução de João Lourenço, Grandes Narrativas nº 192, Editorial Presença, Lisboa, 2002, ISBN 972-232-961-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

A Rosa de Alexandria. Maria L. Meleiro. «… de um lado encontravam-se os servidores, do outro os grandes da corte, que enxameavam à volta do trono num clima de suspeita e de intriga em que todos se vigiavam: os amigos e ministros do rei, os encarregados de negócios, embaixadores…»

Cortesia de wikipedia

«Ninguém me é estranho, se for bom. A natureza é só uma para todos; a diferença está no carácter». In Menandro (342-C.242 a. C)

A morte da águia
«(…) Todas as dinastias conhecem dramas familiares. Tomamo-nos porém de espanto com os Lágidas, capazes de conceber projectos generosos e de patrocinar uma civilização eficaz e refinada, mas que ao mesmo tempo se degladiam em rivalidades sangrentas levadas ao limite do admissível. Passado o período heróico das conquistas dos diádocos descendentes de Alexandre, a sucessão ao trono passou a pertencer ao primogénito. Muitas vezes aconteceu, porém, ser este afastado ou mesmo assassinado, por ter o rei preferido outro filho ou mesmo a descendência de uma outra união, como foi o caso de Ptolomeu Sóter. Ambiciosos e usurpadores estavam assim sempre à espreita, criando facções rivais que se combatiam entre si, com isto enfraquecendo o poder real. A ocupação da terra egípcia pelos herdeiros de Alexandre ocorrera, porém, sob bons auspícios. Ptolomeu Sóter, um modelo de soberano, morrera no seu leito, contando a já avançada idade de oitenta e quatro anos. Depois, o bastardo legitimado Filadelfo, que o Sóter associara ao poder desde há algum tempo em detrimento do primogénito Ptolomeu Ceraunos, ocupara praticamente sem problemas de maior o trono do Egipto após a morte do pai. A sábia medida do Sóter tivera o mérito de colocar os ambiciosos perante um facto consumado.
Além da família, Arsínoe Filadelfa não tinha junto dela seu igual. Todavia, o poder ambicionado, sempre tão perto, constantemente lhe passara ao lado. Ela, porém, soubera conquistá-lo. Traçara a sua rota ela mesma. Teve de fazer concessões, pactuar. Era uma questão de condição. Nunca o pai pensou nela, sequer por um instante, para lhe suceder. Nem o próprio Alexandre delegara em Olímpia, sua mãe, a regência do trono da Macedónia, estando ele em campanha na Ásia. Chamara Antípatros, um dos seus mais conceituados generais, que já servira seu pai. Era a lei. Muitos se agitavam na escala social: de um lado encontravam-se os servidores, do outro os grandes da corte, que enxameavam à volta do trono num clima de suspeita e de intriga em que todos se vigiavam: os amigos e ministros do rei, os encarregados de negócios, embaixadores, o grão-chanceler, o arquidicasta, o epiestratego, o dioceta bem como uma multidão imensa de nomarcas, estrategos e secretários reais, artistas, músicos e concubinas. Cada palavra era ouvida, pesada, difundida, e era preciso exercer vigilância sobre si próprio para não cometer erros fatais. O total isolamento na corte não era possível; apenas o tipo de isolamento que se tem no meio de uma multidão.
Satyros fora um esporádico aliado de Arsínoe, um estratego militar que lhe era dedicado para além dos limites do que seria admissível... mas a insegurança de Filadelfo, cioso das atenções da irmã porque na verdade pressentia, com ou sem fundamento, conspirações em toda a parte, condenara-o ao exílio forçado em Coptos, onde acabaria por morrer de forma suspeita. Era um facto que os antepassados de Alexandre deviam o seu poder à lei do mais forte. As cenas de embriaguez, a reputação de alcoolismo de seu pai, Filipe da Macedónia, eram sobejamente conhecidas. Havia taras na família, males incuráveis, que os excessos do monarca, o atraso mental de seu filho Filipe Arrideu, e os métodos sanguinários usados pelo soberano para suplantar os seus rivais no acesso ao trono comprovavam. Sendo regente por morte do irmão Perdiccas, em combate, Filipe rapidamente se desembaraçara do sobrinho herdeiro do trono. Depois, tivera nada menos do que sete esposas! As desordens na casa de Filipe, os seus casamentos e amores, levantavam problemas que por contágio se estendiam do gineceu ao reino, originando violentas querelas sobretudo com Olímpia, sua terceira esposa e mãe de Alexandre, uma fogosa princesa do selvático Epiro, que incitava o filho contra o pai.
O intemperante monarca, amante de mulheres e de vinho, resoluto e liberto de escrúpulos, era, não obstante, dotado de notável talento político, militar e diplomático. Tornou-se, no bom e no mau sentido, modelo de muitos monarcas. Conhecia a fraqueza e a venalidade dos homens e clamava sem pejo que conquistaria qualquer cidade onde pudesse fazer chegar um carregamento de ouro. E não tinha Harpalo, o infiel tesoureiro de Alexandre, deixado bem à vista de todos que assim era? Não foram muitos políticos atenienses, e oradores probos acima de qualquer suspeita, acusados de se terem comprometido com o ouro oferecido por Harpalo? Não recebera também o impoluto Demóstenes, ele próprio, vinte talentos para acalmar os seus credores mais importunos? As minas de ouro da Trácia e da Macedónia rendiam a Filipe nada menos que dez mil talentos por ano. O monarca macedónio podia bem corromper e seduzir os helenos. Se a estirpe macedónia demonstrara por vezes brutalidade, o faraó, bem o sabiam os egípcios, nem sempre era suave. Em resposta à pergunta de Alexandre sobre o segredo da sua origem divina, os sacerdotes de Amon tinham apontado nele um faraó divino, sagrando-o como tal no templo de Ptah.
Por conseguinte, os seus descendentes ocupariam o trono das Duas Terras, do Alto e do Baixo Egipto, ainda que Ptolomeu Sóter clamasse que o Egipto lhe pertencia, pois conquistara-o pela espada... As honras fúnebres a prestar à defunta rainha Arsínoe incluiriam um sumptuoso cortejo, tão ao gosto alexandrino. Os sacerdotes de Anúbis figurariam à frente, desfilando entre a multidão que se aglomerava nas partes laterais da avenida, o passo lento, devido ao peso das máscaras, insistentemente marcado pela cadência dos tambores. A rematar haveria um coro de carpideiras entoando um estranho canto do outro mundo, feito de murmúrios em escala ascendente e descendente, sem palavras, reproduzindo o som de certas vogais. As mãos das dançarinas, ondulando em uníssono com o som produzido, reflectindo luz e sombra, criariam uma atmosfera hipnótica reforçada pelo som dos sistros das sacerdotisas de Isis, agitados por estas a intervalos regulares». In Maria Lucília Meleiro, A Rosa de Alexandria, tradução de João Lourenço, Grandes Narrativas nº 192, Editorial Presença, Lisboa, 2002, ISBN 972-232-961-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 23 de agosto de 2015

As Máscaras da Paixão. Maria Lucília Meleiro. «Aprender com o passado, estar atento ao presente e prever o futuro. E preciso procurar parecer, por não poder ser. O que atrairia ali, com tanta regularidade e persistência a real personagem?»

jdact

«Os reis são homens como os outros; têm desejos, paixões e defeitos, dias de desânimo, e têm de satisfazer esses desejos e ceder ao império das paixões e seguir a via errónea dos seus defeitos, mas devemos também lembrar-nos que existe para eles uma lei moral, mais severa do que para os outros, porque quanto mais elevada é a posição maior é a influência do exemplo». In Pedro V

O Ser e o Parecer
«Todas as noites ele aparecia no teatro com a extrema perseverança de um apaixonado. A sala estava sempre cheia, animada e fremente, bordejada ao longo de todas as varandas laterais por damas que luziam em elaboradas toaletes e faiscantes jóias, acompanhadas por cavalheiros trajando irrepreensíveis casacas verdes ou cor de bronze, coletes de cetim branco bordado a pérolas ou a prata e escarpins luzentes, de verniz. Eram, na sua maioria, ricos comerciantes, burocratas da alta administração, plutocratas bafejados pelas vitórias das guerras liberais, mas também havia membros da antiga nobreza feudal, arruinada e decadente, que perdera muitos privilégios com a revolução, mas ostentava ainda com orgulho os anéis do tio inquisidor ou a glória de um parente que fora vice-rei na Índia.
A mocidade dourada, frequentadora do café Marrare, no centro de Lisboa, marcava presença com as suas alvas camisas de bretanha, de exuberantes folhos, afogados em volumosas gravatas de três voltas, ao lado do dandismo espirituoso e subtil dos emigrés e as suas pitadas de rapé sorvidas com regularidade, ostentando modos elegantes e roupas cosmopolitas, uma consequência do seu exílio temporário por motivos políticos em países desenvolvidos como Inglaterra ou França. Todas as noites ele aparecia, estranhamente indiferente ao que se passava na sala e mesmo até no palco. Era muito jovem, tinha boa aparência e estava elegantemente vestido, embora com muita sobriedade; por vezes vinha fardado de militar de alta patente. Uma melena de cabelo louro escuro pendia-lhe sobre a fronte e os seus olhos de um azul profundo, acinzentado, vagueavam melancólicos, sem se fixarem em nada nem em ninguém, como se estivesse totalmente entregue aos seus pensamentos.
Ocupava o camarote real, e ao ser reconhecido pelos presentes, um frémito de frases ciciadas percorria toda a sala e muitas cabeças se viravam na direcção daquela presença sempre inesperada, mas paradoxalmente regular. Nesse momento os militares presentes agitavam-se nas suas fardas com golas bordadas de palmas douradas e botões luzidios, pensando numa conspiração, e os burgueses enriquecidos de um dia para o outro, ávidos de títulos de nobreza e honrarias entreolhavam-se desconfiados, interrogando-se se não estaria em jogo o seu quinhão no governo e altos cargos administrativos, prémio das suas vitórias nas guerras liberais entre 1820 e 1837. Os polícromos damascos, musselinas, organdis e cambraias de Nápoles dos vestidos das damas pareciam ganhar mais cor e as jóias da moda que cintilavam nos decotes quadrados à império pareciam dardejar chispas, não no terror da perspectiva de uma conjura, mas na avidez de excitantes novidades e episódios romanescos, que os jornais do dia seguinte comentariam, e havia-os em profusão e para rodos os gostos, alimentando boatos e maledicências, criando e destruindo reputações.
A verdade é que, terminado o segundo acto, e pouco depois do início do terceiro o rei retirava-se. Todas as noites. O que atrairia ali, com tanta regularidade e persistência a real personagem? Todas as noites. E novamente, na plateia e camarotes, damascos, musselinas, organdis e cambraias de Nápoles agitaram-se. Era do conhecimento geral que o jovem monarca não era um apreciador de teatro». In Maria Lucília F. Meleiro, As Máscaras da Paixão, Ésquilo, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-983-490-3.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A Rosa de Alexandria. Maria Lucília Meleiro. «Afinal de contas, o casamento entre irmãos era um costume faraónico. O poeta Teócrito, esse, sempre a insistir no facto de o ouro abundante não dormir nos cofres de Ptolomeu mas servir para recompensar os poetas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ninguém me é estranho, se for bom. A natureza é só uma para todos; a diferença está no carácter». In Menandro (342-C.242 a. C)

A morte da águia
«(…) A celebração das cerimónias fúnebres pela morte da rainha Arsínoe Filadelfa duraria dias, exéquias complicadas à maneira egípcia, com toda a pompa e circunstância devidas a uma princesa real, sobrinha de Alexandre, mulher e irmã de um faraó. Não fora Alexandre, o Grande, ele próprio, recebido e coroado pelo clero de Amon como um verdadeiro faraó divinizado? Dizia-se que o fundador da dinastia dos Lágidas, Ptolomeu Sóter, pai de Filadelfo e de Arsínoe, era filho bastardo de Filipe da Macedónia, pai de Alexandre, uma vez que a avó paterna da rainha agora falecida, também chamada Arsínoe, ao casar com o velho Lagos por insistência de Filipe II, se encontraria já grávida do monarca macedónio. Um parentesco secreto uniria portanto os primeiros Ptolomeus ao sangue glorioso e infausto de Alexandre, ao seu génio, aos seus excessos, ao seu talento a um tempo despótico e idealista de governação.
Arsínoe Filadelfa, terceira rainha da dinastia lágida, vivera os seus últimos dias numa corte esplendorosa. Rodeada de artistas e sábios e de uma miríade de funcionários reais, encarnava ela própria a grande sacerdotisa do sagrado carneiro de Amon. Tinha grande fascínio pelas artes e pelas ciências em geral; era, porém, a paixão política que a consumia, e a ela dedicara, com extraordinária e selvática vitalidade, toda uma vida. Ao tornar-se rainha do Egipto, devido ao matrimónio com seu irmão Ptolomeu, algumas vozes tinham-se erguido discordantes, mormente entre os Helenos e Macedónios, que não viam com bons olhos este casamento entre irmãos. Um poeta cretense, Sótades, atrevera-se a desafiar o rei, criticando-o em tom mordaz e versos obscenos: …metes o pénis onde não deves...!, chamava Sótades de olhar turvo, um sorriso escarninho a rasgar-lhe o rosto. Mas longe iam os tempos de irreverência de filósofos e poetas, quando Diógenes dava respostas impertinentes a Alexandre. Sótades pagou com a cabeça a ousadia.
Afinal de contas, o casamento entre irmãos era um costume faraónico. O poeta Teócrito, esse, sempre a insistir no facto de o ouro abundante não dormir nos cofres de Ptolomeu mas servir para recompensar os poetas, não se poupara a fazer os maiores encómios ao enlace, salientando a propósito que também Hera e o divino Zeus eram irmãos. Durante o seu reinado a rainha sempre se abstivera de gastos inúteis e irreflectidos, tão ao gosto sumptuário do monarca, e o povo estava contente. Foram levadas a cabo obras notáveis, lá estavam o farol de Faros, com a sua estátua e a de Ptolomeu à entrada, o Museion e a Biblioteca de Alexandria para o comprovar, e não foram esquecidos o restauro e a edificação dos templos indígenas.
Arsínoe, que apostava no domínio dos mares como condição essencial para o comércio e as conquistas do Egipto, reorganizou a armada, ampliou a frota, dilatou as fronteiras. Engenheiros trabalhavam arduamente no nomo de Arsinoite, procurando a maximização das colheitas e a irrigação perfeita. Glorificada nos templos como synnaós theos, uma deusa em companhia dos deuses ali presentes, depois da sua morte cunharam-se moedas com a sua efígie e foi honrada por Calícrates com um templo próximo de Alexandria consagrado a Afrodite Zefiritis. Mas não confiava em ninguém. E em quem poderia ela confiar?» In Maria Lucília Meleiro, A Rosa de Alexandria, tradução de João Lourenço, Grandes Narrativas nº 192, Editorial Presença, Lisboa, 2002, ISBN 972-232-961-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Rosa de Alexandria. Maria Lucília Meleiro. «Depois de limpo e purificado com as trinta e seis diferentes substâncias requeridas, será primeiro enfaixada a mão esquerda, na qual brilhará um anel; sobre as ataduras figurará uma representação de Isis e de Hapi»

Cortesia de wikipedia

«Ninguém me é estranho, se for bom. A natureza é só uma para todos; a diferença está no carácter». In Menandro (342-C.242 a. C)

A morte da águia
«(…) Depois vem Ptolomeu Ceraunos, meio-irmão da rainha, que por amor de um trono manchou as mãos de sangue assassinando os sobrinhos, seus enteados, jovens vidas de dezasseis e treze anos, enlevo da rainha Arsínoe II, acabando por perder a vida de forma inglória, enredado na teia dos crimes que ele próprio tecera. E a sarabanda espectral prossegue com Satyros, o general sem medo, que nas noites do cão, em que Sothis de novo resplandece no firmamento anunciando a inundação iminente do Nilo, se escapa do túmulo e busca na boca de desconhecidas ocasionais o gosto dos beijos da sua amante. Numa grande casa branca rodeada por um austero e alto muro abriga-se uma espaçosa sala com uma única janela situada muito acima, onde os embalsamadores se dedicam à sua tarefa de execução da beleza imortal. Ao longo das paredes encontram-se fixadas várias mesas de pedra do tamanho do corpo de um homem. Reina um intenso odor a resinas da Fenícia e betumes de Biblos. Nos cantos vêem-se alguns vasos de alabastro repletos de objectos preciosos, amuletos, e também ouro, prata, pedaços de lápis-lazúli, jaspe verde, cornalina, ametista e cristal. Lá ao fundo encontram-se os recipientes de cinadrio e goma para dissolver as folhas de ouro destinadas a pintura.
Tintas e vernizes amontoam-se por toda a parte, e uma pequena mesa articulada exibe uma infinidade de complicados objectos destinados a facilitar aos preparadores de cadáveres o seu mester. A porta abre-se e assomam dois homens envergando roupas leves de linho branco. Um terceiro que os acompanha aproxima-se da mesinha e retira um ferro curvo destinado a extrair o cérebro do cadáver pelas narinas. Em seguida o paraskhites irá proceder à costumeira incisão no flanco esquerdo. Junto da mesa podem ver-se quatro magníficos vasos canópicos de alabastro finamente trabalhado. Mais tarde, depois de quarenta ou mais dias mergulhado no tanque de natrão, o corpo ficará pronto para o enfaixamento. Depois de limpo e purificado com as trinta e seis diferentes substâncias requeridas, será primeiro enfaixada a mão esquerda, na qual brilhará um anel; sobre as ataduras figurará uma representação de Isis e de Hapi. Em seguida será a vez da direita, com figuras de Rá e Amsu, depois os braços e finalmente os pés e as pernas, previamente friccionados com os óleos sagrados e flores de anem. Horus, no seu esplendor, adornará a perna esquerda, enquanto Anúbis velará na direita, e as cavidades do corpo serão preenchidas com diversas substâncias aromáticas, tais como mirra, de odor penetrante, usada na magia e na religião pelo menos durante quatro mil anos.
Um médico real vinha frequentemente observar o labor dos tarikbeutai, os embalsamadores. Herófilo sentava-se a um canto, transportado de alegria pela descoberta da máquina do corpo humano, a constituição do sistema nervoso, as artérias, os tendões, e tomava notas em silêncio. Formado no rigor das ciências exactas por Estratão de Lâmpsaco, discípulo de Aristóteles, Herófilo trazia consigo uma clepsidra da qual jamais se separava; fazia questão de nada escrever na sua Anatómica que primeiro não tivesse observado. Dizia-se que a malograda Arsínoe I dera à luz os dois filhos de Ptolomeu Filadelfo assistida por Herófilo, que lhe aplicara uma técnica de parto sem dor por ele descoberta. Entusiasmados com os conhecimentos demonstrados pelos embalsamadores, outros homens de saber vinham amiúde arrancar à morte os segredos da vida. Um deles era Erasístrato, que talvez por esta razão sabia como ninguém o modo de funcionar dos órgãos do corpo humano. Seria ele a operar o rei a um tumor que o atormentava, poupando-o às terríveis dores que se seguiriam ao adormecê-lo com um extracto de mandrágora. Os dois sábios ali se deleitavam em conjecturas, perdidos no tempo, na vaga sensação de que o seu acto de pensar os fazia de facto existir com os deuses. Reconheciam ambos o muito que deviam ao saber dos egípcios, não apenas em matéria de conhecimento e uso de plantas curativas, mas também no campo da anatomia. Não contente com a observação dos cadáveres, a Erasístrato o rei permitiria mesmo a dissecção de homens vivos, criminosos condenados à morte cedidos pelo monarca. A ética desta liberalidade régia iria todavia tornar-se objecto de acesa discussão em toda a cidade de Alexandria, mas não dera o médico provas da sua perspicácia e dedicação à causa real? Não descobrira e informara o rei do amor do jovem Antígono pela sogra Estratónice, conquistando com isto o favor de Ptolomeu?» In Maria Lucília Meleiro, A Rosa de Alexandria, tradução de João Lourenço, Grandes Narrativas nº 192, Editorial Presença, Lisboa, 2002, ISBN 972-232-961-8.


Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A Rosa de Alexandria. Maria Lucília Meleiro. «Mesmo na morte os velhos ódios acendem-se, e a loucura explode, pois cada um salda as suas contas à sua maneira. Depois de uma vida de luxo e de prazer, má sorte seria terminar os seus dias na cela sórdida de uma masmorra escura»

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«Ninguém me é estranho, se for bom. A natureza é só uma para todos; a diferença está no carácter». In Menandro (342-C.242 a. C)

História de Arsínoe II, Rainha do Egipto
«Nas veias de Arsínoe Filadelfa, rainha do Egipto, corre o mesmo sangue glorioso que inflamou o espírito sonhador e visionário de Alexandre. A mesma paixão política a anima, e consome, e a ela dedicará com extraordinária vitalidade toda a sua existência. Filha de Ptolomeu Soter, irmão e companheiro do grande rei da Macedónia, fundador da dinastia lágida no majestoso país do Nilo, Arsínoe viria a cumprir um destino a um tempo trágico e glorioso. No fausto dos palácios imperiais conhece o esplendor raro dos magnificentes dias passados nos salões faraónicos ou entre os nenúfares e as rosas que perfumam os jardins. Mas sobre a sua bela cabeça coroada oscilou sempre, hesitante, a temível espada de Dâmocles. Muitos conspiraram na sombra, desejando a sua morte e a de seus filhos, cegos pela ânsia de poder. Urdiram intrigas, alianças, traições, revoltas, assassínios. Mas por entre os dedos caprichosos das três Parcas corria ainda, ininterrupto, o fio da sua vida. Arsínoe II havia de deixar um magnífico legado àquela que era a província mais fértil do império de Alexandre. Uma exuberante e poética que convida a sentir de forma quase palpável a magia intensa e subtil do universo egípcio do século III a. C.

A morte da águia
Na estação das cheias a águia adoeceu. O seu estado agravou-se subitamente. Perdeu o apetite, as penas caíram-lhe, o olhar perdeu o brilho. Há no entanto uma mão real que a sustém e alimenta. A águia reconhece a sua ama: ergue a cabeça e estende o bico, mas os olhos velam-se-lhe. Um fio de baba escorre-lhe entre a penugem, as patas tombam flácidas e o bico cerra-se. Nunca mais engolirá uma presa! A mão da rainha, que a segurava pela cabeça tentando em vão deter a morte, retira-se lentamente, enquanto os olhos globulosos do animal, nos quais a íris parece flutuar como um ovo num prato, se enchem de um líquido avermelhado. Um brilho fugaz ilumina o olhar da soberana. Como podia ela ter esquecido a profecia do sumo-sacerdote de Ámon, que lhe fizera saber que um animal da sua estima a antecederia na morte? A águia jaz sem vida a seus pés, insignificante molho de penas, inofensiva. A rainha ergue-se com dificuldade. A náusea tolda-lhe o olhar. Doem-lhe as costas. As pernas trôpegas incomodam-na. Com a mão adornada de anéis, endireita na cabeça a peruca que ultimamente usava, mais para esconder a calvície devastadora do que por elegância mundana, à moda egípcia. Sai da gaiola às arrecuas, e lança-se em corrida desenfreada pelo jardim, tanto quanto os seus membros trémulos ainda lho permitem. Obnubilada pelo horror de um fim próximo, não tem um olhar para o Museion, onde os sábios convidados, vindos de todo o mundo, se entregam à pesquisa, nem para a famosa Biblioteca de Alexandria, tão invejada por Pérgamo e onde todo o saber do tempo se acumulava, nem para o sumptuoso palácio onde seu esposo e irmão Ptolomeu Filadelfo agora reina. Atravessa o jardim percorrido pela brisa do entardecer. Aquela que nunca mais verá florir jasmins e rosas, porque meses depois já terá desaparecido, ladeia a custo as fontes borbulhantes, estrebucha sob os capitéis das colunas do pavilhão real que se debruça sobre o mar de Alexandria, e cai desmaiada. As escravas acorrem e levam-na para os seus aposentos. A sua saúde entra em declínio acentuado: vómitos incontroláveis, frio gélido, paralisia. Algum tempo depois entra em agonia e morre. Corria o ano de 270, sob a calma imperturbável do céu egípcio. Arsínoe II Filadelfa, rainha do Egipto, presumível descendente do sangue de Alexandre, filha do grande Ptolomeu Sóter, fundador da dinastia de faraós macedónios, cessara de existir. Mãos impacientes deslizam em busca do cordão de seda que a defunta sempre usava em torno do pescoço, e retiram um pequeno frasco de prata envolvido em fino linho de Bissos. O cadáver parece sobressaltar-se. Aproveitando a confusão, a desconhecida julga que poderá passar despercebida, mas não teve o tempo suficiente para convencer, seduzir ou subornar as carpideiras e os sacerdotes, indiferentes à sua pessoa e à sua notoriedade e que não hesitarão em denunciá-la caso a surpreendam.
Mesmo na morte os velhos ódios acendem-se, e a loucura explode, pois cada um salda as suas contas à sua maneira. Depois de uma vida de luxo e de prazer, má sorte seria terminar os seus dias na cela sórdida de uma masmorra escura. Cá fora o vento sopra, formando torvelinhos junto ao solo. Alexandria sufoca. A cidade está de luto. No bairro dos embalsamadores, vapores inquietantes, odores suspeitos e pesados, enrolam-se em turbilhão sobre os terraços das casas, nas quais se afadigam os obreiros da eternidade. Uma multidão de vendedores de perfumes e unguentos, astrólogos, adivinhos, magos e sacerdotes ondula num constante vaivém entre lintéis, limiares e ombreiras, ouvindo-se o som abafado do movimento de trancas e ferrolhos. Um fumo espesso cicia, escapando-se de obscuras tinas de natrão onde os cadáveres esventrados se amontoam. O cais do além jamais deveria ser pisado por alguém não autorizado. Era a lei. Quem o fizesse, sofreria um castigo muito simples: não mais o poderia abandonar vivo.
À noite, um vapor opaco flutua sobre o mar. Os fantasmas agitam-se, perturbados pelos encarregados da vigilância que circulam entre as casas, fazendo tilintar as armas. Espectros balançam-se sob os raios da lua, conhecidos e desconhecidos, desterrados que morreram na prisão, uns trespassados por uma lança ou mordidos por serpentes, outros lançados às feras. Arsínoe I, esposa repudiada de Ptolomeu Filadelfo, é a primeira a aproximar-se. Foi depois de a mulher do Filadelfo ter partido para o exílio em Coptos e aí ter morrido, que alguns julgam ter lobrigado o seu fantasma no Bruquíon, bairro elegante de Alexandria, junto ao palácio real, a saltar ao caminho dos passantes, querendo obrigá-los a ir juntamente com ela assombrar o palácio do rei». In Maria Lucília Meleiro, A Rosa de Alexandria, tradução de João Lourenço, Grandes Narrativas nº 192, Editorial Presença, Lisboa, 2002 ISBN 972-232-961-8.

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