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terça-feira, 13 de agosto de 2019

A invenção da infância nas narrativas autobiográficas de Lya Luft. Sébastien Joachim. « .. as narrativas de Lya Luft serão confrontadas com os escritos autobiográficos de ilustres autores franceses e canadenses envolvidos num empreendimento similar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esta penetração da Literatura num campo de estudos que aparentemente pertence mais aos domínios da Educação, da Psicologia e da Sociologia, não significa que a Literatura teria solução que os outros campos de competência não possuem. Seu papel é outro. A literatura suscita questionamentos, fornece lenha para aquecer a reflexão sobre problemas, talvez para discernir na colocação desses problemas quais são as falsas e quais são as boas perguntas, o que o aproxima bastante da Filosofia, como salta aos olhos ao longo deste projecto até a Bibliografia (Tavoillot e Deschavanne, Ricoeur, Agamben, Wunemburger, Kowan que sintetiza a utopia de Agambén–Lyotard-Deleuze sobre a infância, além de Pierre Bayard que proporciona surpreendentemente a possibilidade de imaginar a infância como esta tríade; Philippe Sabot que defende como Bayard a tese de um pensamento virtual da Literatura). Os modelos elaborados pelos literários a partir das obras de arte providenciam uma delimitação, traçando as fronteiras do não dito, do impossível de dizer, circunscrevendo vazios que as Ciências Humanas não devem se apressar a preencher arbitrariamente. Uma visão prospectiva do objecto de estudo, uma infância não já catalogada: tal será a principal contribuição desta pesquisa. Não está garantida que ela esteja na pasta dos educadores, cientistas sociais, encarregados das políticas educativas do começo do terceiro milénio. Convém lembrar que a Literatura já foi procurada como interlocutora de alto gabarito por grandes personalidades do século XX como Sigmund Freud, Gaston Bachelard, Jean-Paul Sartre, Pierre Bourdieu...
A escritora brasileira Lya Luft tem a nossa preferência entre os bons autores de ficções autobiográficas. Assim como a obra instigante da francesa Amélie Northomb (pense, por exemplo, à Biografia da fome), suas obras não pertencem como tais à Literatura infanto-juvenil. Seus narradores protagonistas são infantes, sim, mas pensam grande e ambicionam ser escritores à imagem de sua autora. Este duplo traço e destino narrativo aparenta a escritora gaúcha a outros produtores de textos estrangeiros: Jacques Ferron (canadense), Nathalie Sarraute (francesa), Marguerite Duras, Jean-Paul Sartre, Georges Perec, Patrick Modiano. Propomos assinalar entre estes escritores estrangeiros e Lya Luft convergências e divergências.

Este projecto investigará as variantes estruturais da identidade e da socialização nos narradores pré-adolescentes das ficções autobiográficas de Lya Luft à luz da hipótese de um pensamento virtual singular da Literatura defendida no século XX por Sigmund Freud, Marcel Proust, Filósofos da Arte, e hoje pelo professor Pierre Bayard, da Universidade de Paris. Partindo disto, a pesquisa destacará a contribuição em valor cognitivo que se descobre na trilogia da autora gaúcha publicada em 2004 pela Editora Record: depois da sua respectiva primeira edição em 1996 (O rio do meio), em 1999 (O ponto cego), em 2002 (Mar de dentro). Nas três obras, serão analisadas por um lado a ontologia do ser criança e por outro lado as suas relações com a alteridade (o social, os artefactos, a natureza, o transcendente). Serão também apresentadas as circunstâncias socioculturais de emergência da forma autobiográfica escolhida pela autora. Pois tal forma, além de ter uma história, se revela um quadro de expressão onde a criança fictícia pode ocupar uma posição de primeiro plano em fala e acção, sobretudo pelo diálogo interior. Neste foro interno, ela sonha, pensa por conta própria, pesa os motivos de suas decisões, avalia criticamente os dizeres e fazeres dos adultos, enfim se libera do adulto-centrismo dominante na vida empírica. É um truísmo que a singularidade de uma obra de criação encontra-se melhor ressaltada mediante o cotejo com obras de feição aparentada.
Por este motivo, todas as vezes que será necessário, as narrativas de Lya Luft serão confrontadas com os escritos autobiográficos de ilustres autores franceses e canadenses envolvidos num empreendimento similar: com Enfance (1983) da francesa Nathalie Sarraute, com L´amélanchier (1970) do canadense Jacques Ferron. São ficções autobiográficas, cujo respectivo narrador é um personagem criança empenhado no duplo processo de autoidentificações e de socializações, e preocupado com o acto de escrever. Pela comparação entre textos de cultura diferente, penetramos no campo de uma interculturalidade susceptível de trazer um conhecimento mais universal e mais nuançado da identidade-criança, de lastrar uma definição mais criteriosa do aporte de Lya Luft como biógrafa e escriba da infância». In Sébastien Joachim, A invenção da infância nas narrativas autobiográficas de Lya Luft, Anais do IV Colóquio Internacional Cidadania Cultural, diálogos de gerações, 2009, Editora Eduepb, 2009, ISBN 217-6590-1.

Cortesia de EEduepb/JDACT

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A invenção da infância nas narrativas autobiográficas de Lya Luft. Sébastien Joachim. «Este projecto parte de uma aposta: uma vez admitido o postulado de uma função cognitiva da Literatura e das Artes, haverá possibilidade de investigar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A despeito da nova filosofia da infância que preconizam os filósofos J-F. Lyotard, Gilles Deleuze e Giorgio Agamben, as crianças com as quais deparamos no quotidiano continuam a ser uma incógnita na segunda Modernidade, no segundo pós-guerra. O filósofo Alain Renaut aponta este facto sem imputá-lo totalmente, como Hannah Arendt (La crise de la culture) à extensão à Infância da Declaração dos Direitos Humanos. Este projecto parte de uma aposta: uma vez admitido o postulado de uma função cognitiva da Literatura e das Artes, haverá possibilidade de investigar no plano da literatura comparada certas narrativas autobiográficas suficientemente ricas na sua forma-conteúdo para sugerir mediante modelos de infância imaginária hipóteses fecundas para a compreensão da infância em construção nos nossos tempos. Temos escolhido para cumprir essa tarefa, ao lado da brasileira Lya Luft, a escritora francesa Nathalie Sarraute e o ficcionista canadense Jacques Ferron. Fomos estimulados a testar aquele postulado pela ideia de Literatura Aplicada defendida desde 1990 pelo professor Pierre Bayard. Para além do citado Alain Renaut, termos como apoio teórico cientistas sociais como Jean-Pierre Kaufmann, François Singly, Claude Dubar para interrogar a identidade infante e adolescente assim como o processo de socialização e principalmente dois filósofos: Paul Ricoeur, sua narratologia e sua Hermenêutica fenomenológica;Jean-Jacques Wunemburger e sua Mitodologia. Está prevista um efeito multiplicador dos resultados através de colóquios e publicações anuais» In Resumo

«Eric Deschavanne et Pierre-Henri Tavoillot, dois professores de Filosofia da Sorbonne, depois de invalidar certas declarações de Philippe Áriès sobre o desconhecimento da infância na Idade Média, contesta igualmente a afirmação de que teria havido uma radical Invenção desta categoria social nos tempos modernos. Eles alertam também quanto à ambivalência das conquistas da nossa Modernidade a favor das crianças, conquistas estas que se iniciaram com o Cristianismo. Pois o triplo ganho em humanização, liberação e individualização pagou-se paradoxalmente a um preço muito alto. Temos hoje mais dificuldade a entender o que é a criança, o que é a sua identidade. É irrecusável que a promoção das crianças ao estatuto integral de indivíduo humano livre abriu uma caixa de Pandora, não mais sabemos o que é o adulto, o que é o fim da infância como fase da vida, nem as características de adulto. Entramos na era do Jeunisme /jovenismo, uma ideologia da juventude que repudia qualquer suspeita de ultrapassagem de uma praia da vida eternamente jovem, que comanda que devamos entrar na onda da última moda. O jeunisme que se experimenta principalmente por aqueles que teriam chegado no fim da adolescência está alicerçado numa gaya ciência para além do bem e do mal, cujo leme é: juventude além de tudo! É uma nova mentalidade que se instala. Nós a identificamos pelo jeito de pensar (se a palavra pensar não fosse desusada), de se vestir, pelo hybris pela exuberância que caracteriza os gestos, os movimentos, os encontros festivos e barulhentos, enfim pela maneira extravagante, arrogante, anti-adulto de estar-no-mundo. Essa epidemia já contaminou aqueles, Homens e Mulheres que, uns tempos atrás, hasteavam bem alto a bandeira do adulto. O amadurecimento virou uma balela. Os pequenos observando o comportamento das gerações anteriores. deram uma resposta à altura: decidiram permanecer crianças, com privilégios de gente grande. Um estranho mito de Peter Pan domina a mentalidade dos 7 a 50 anos. Perdemos a especificidade da criança; perdemos consequentemente a possibilidade de educar. Neste novo rumo das coisas, a situação da infância se complica junto ao caos que se deu nas outras fases de existência privadas de referência. Sem aderir nem à nostalgia de um hipotético outrora mais equilibrado, nem a um progressismo radical, examinaremos a questão da identidade criança nos diferentes meios de actuação, nos diferentes lugares de socialização, à luz da ficção autobiográfica, com a bússola da Mitocrítica e da Narratologia. Utilizaremos também certos recursos da Filosofia e das Ciências Humanas». In Sébastien Joachim, A invenção da infância nas narrativas autobiográficas de Lya Luft, Anais do IV Colóquio Internacional Cidadania Cultural, diálogos de gerações, 2009, Editora Eduepb, 2009, ISBN 217-6590-1.

Cortesia de EEduepb/JDACT

terça-feira, 30 de julho de 2019

Pensar é Transgredir. Lya Luft. «Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Canção das Mulheres
«(…) Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada. Parece fácil: escrever a respeito das coisas é fácil, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espectacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado. Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

O menino e a sua mãe
Faz uns trinta anos, um menino e a sua mãe voltavam das compras no autocarro quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio, de verdade, dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando ele passava a mão no pacote: parece mentira, não é, mãe? Olhar sonhador. No meio do trajecto houve então um desses diálogos inesquecíveis. Mãe, que igreja é essa? Nossa Senhora Auxiliadora. Porque tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma? É uma sim, filho, mas ela tem muitos nomes. E o Nosso Senhor é são Pedro? Não, é Jesus, ora. Quem casou com ela foi são José. São Pedro era amigo de Jesus. A mãe suspirou: não praticar religião em casa dava nisso. Ah..., e por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora? Os olhos azuis, calmos mas interrogativos, começavam a deixar a mãe inquieta. Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho. Mas o José não era o pai dele? Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adoptivo. Ah... Então Jesus não nasceu da sementinha do José? O silêncio no autocarro começava a se tornar imenso. O menino falava em voz alta e clara, p’ra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.
A mãe pensou por um momento, por que a gente inventou isso de falar das coisas como se fossem naturais? E, embora se considerasse uma mulher razoavelmente moderna, com uma visão saudável da vida, que estava transmitindo aos filhos num tempo em que o tema não era tão francamente abordado, naquela hora quase duvidou de que fossem assim tão naturais. Afinal, estavam em público. O menino a seu lado porém aguardava resposta, respostas. Não, filho, Deus fez brotar a sementinha directo em Nossa Senhora, foi um milagre. Então não foi como nas pessoas? Agora o silêncio podia ser cortado com faca. Não, filho, não foi. Ah... A mãe se fez de distraída, olhava pela janela, sentindo os outros passageiros aguçando o ouvido, como será que ela vai se sair dessa? O menino pensava concentrado. Mãe, como é que antigamente, assim beeeem antigamente, no tempo dos dinossauros por exemplo, as primeiras pessoas sabiam como se fazia p’ra ter bebé, se não tinham ninguém p’ra ensinar p’ra elas?
Essas coisas a natureza ensina. Mas a natureza não é pessoa p’ra ensinar a gente... Quer dizer, quando a gente cresce aprende por si. No olhar azul transparecia uma certa pena, quem sabe a mãe não era tão inteligente assim. O menino, generoso, resolveu mudar de assunto. Mãe, olha, aí estava escrito rua Mozart! Será que ele mora aqui? Ele quem, filho? O Mozart, mãe, ora. Quem ia ser? Não, filho, ele viveu na Europa. Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos. Porque Estados Unidos? A mãe começava a se divertir, aliviada com aquele diálogo menos perigoso. Porque é lá que moram pessoas importantes, o presidente Kennedy e o Cyborg. Ah... Finalmente desembarcaram; ainda segurando o pacote, o menino retomou o seu ar sonhador. Mãe, como eu tenho um pai bom, né? Mas aí pensou melhor, espiou de relance com arzinho maroto a mãe que levantava, sorrindo, um dedo em riste, e emendou bem depressa: e mãe também, claro...» In Lya Luft, Pensar é Transgredir, 2004, Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 2011, ISBN 978-850-109-376-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

terça-feira, 7 de maio de 2019

Pensar é Transgredir. Lya Luft. «Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Canção das Mulheres
«(…) Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize. Que quando me levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: mas que chateação essa sua mania, volta p’ra cama! Que se eu peço uma segunda bebida no restaurante o outro não comente logo: caramba, mais um? Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire. Que o outro, filho, amigo, amante, marido, não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso. Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa, uma mulher.

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos, para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos. Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido. Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero-me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do quotidiano. Mais cómodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: parar p’ra pensar, nem pensar! O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da televisão ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afecto, do desafecto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente pára p’ra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão-se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois reflectir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distracções, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de peluche e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida. Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo». In Lya Luft, Pensar é Transgredir, 2004, Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 2011, ISBN 978-850-109-376-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pensar é Transgredir. Lya Luft. «Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta»

Cortesia de wikipedia e jdact

Agendar a Vida
«(…) Ou: quinze minutos para se recostar para trás na cadeira (pode ser do escritório mesmo) e espiar o céu fora da janela; ir até a sala, esticar-se no sofá com as pernas sobre o braço do próprio, e ouvir música, ver televisão, ler, ler, ler..., ou simplesmente não fazer nada. O ócio é uma possibilidade infinita a ser explorada. Não falo da inércia, do desânimo, do vazio melancólico. Jamais falarei de ficar de robe-velho e pantufas (vi numa vitrine algumas com cara de cachorro e até orelhas!) pela casa até ao meio da tarde. Falo de viver. Parar, olhar, escutar, dizia um aviso nos trilhos do trem quando havia trem entre a minha cidade e Porto Alegre. A gente passava de carro sobre o trilho, e eu imaginava o horror de alguém infringir isso e ser explodido pelo monstro de ferro e fumaça. A vida há de rolar por cima da gente, reduzindo a poeirinha inútil quem se esquecer de às vezes parar p’ra pensar..., mas sem se desmontar; olhar em torno ou para dentro: paisagens belas, ou áridas (sempre dá pra plantar um capim) ou quem sabe coloridas (a alma pode brincar de esconde-esconde entre as folhas). E escutar: a música do universo, o canto do sabiá (que tem começado às 3 da madrugada fria, atarantado neste clima estranho); a risada da criança no andar de cima; enfim, o chamado da vida que nos convoca de mil formas: anda, sai do marasmo, viveeeeeeeeeee!! Que nossas agendas (também as interiores) nos permitam muitas vezes a plenitude do nada sorvido como um gole de champanhe, celebrando tudo. Sem culpa.

Canção das Mulheres
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com a minha solicitude, e se ela for excessiva saiba-me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba a minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso. Que se eu faço uma asneira o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco, em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa. Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo olha que estou tendo muita paciência com V.! Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingénua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça». In LyaLuft, Pensar é Transgredir, 2004, Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 2011, ISBN 978-850-109-376-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 28 de abril de 2019

Pensar é Transgredir. Lya Luft. «Abro uma página da minha agenda para demarcar mais uma vez o território de minha liberdade e o dos meus deveres, que é onde ela começa a perder pé»

Cortesia de wikipedia e jdact

Laços e Punhais
«Certa vez errei uma tecla do computador, e em lugar de perdas saiu peras. Eu ia corrigir mas li de novo, achei muito mais bonito e deixei assim. Ninguém reclamou, nem os revisores. Quem sabe um dos que estudam a minha obra, preparando com a maior gravidade a sua dissertação ou tese, pare, pense, morda a ponta da caneta ou fique olhando o computador, perplexo. Para depois discorrer filosoficamente sobre aquelas frutas perdidas num texto que nada tinha a ver com elas. Dessa maneira acontecem mal-entendidos: amizades se perturbam, amores se rompem, pessoas se desencontram e magoam. Mas V. tinha dito peras! Não, eu falei perdas! Peras... Perdas... Perdeu-se nesse jogo inconsistente um pedaço de vida, um brilho de entendimento se apagou. Eu ia dizer que V. me faz muita falta, mas V. entendeu V. está em falta... comigo, com a vida, consigo mesmo. E passamos meia hora evitando nos olhar de frente, nesses momentos o universo esteve em desconserto, e nós desconcertados. Quando eu era menina, certo dia num almoço fiquei observando a família à mesa, e aquelas pessoas tão conhecidas me pareceram umas enormes salsichas com tufos de pêlos no alto, bolinhas se mexendo (chamadas olhos, ansiosos, tranquilos, amorosos ou hostis) e aquele furo no centro que se abria e fechava emitindo sons. A boca do beijo, do silêncio ou do insulto. As outras salsichas também olhavam com os seus botõezinhos de vidro brilhante, viravam-se para os lados, agitavam mãos ou abriam e fechavam os seus furinhos-boca respondendo. Palavras esvoaçavam sobre a mesa como bilhetes, sinais de fumaça ou borboletas perdidas. Um falava, outro compreendia e devolvia sinais sonoros. Mas de repente alguém não ouviu direito: os olhinhos ficaram duros, os sons da boca estridentes, ou baixos mas furiosos. Agitação na sala de jantar. Briga em família. Então nem sempre que alguém dizia flor o outro pensava flor? E podia entender pedra? Em lugar de enviar sobre a mesa palavras-borboleta, jogavam palavras-pedra? Nada era simples. O mundo se desarrumava um pouco por causa desses mal-entendidos. Até ali, para mim palavras eram objectos mágicos: agora via que podiam ser traiçoeiros. Belos de olhar, mas duros, com arestas cortantes; caramelos de vários sabores que eu deixava rolar na boca com delícia, porém a gente podia engasgar-se, até morrer. Não era só prazer a linguagem: peras, perdas, fazer falta, estar em falta ou sentir falta. Desacordo, desconserto. Ambivalentes como nós, palavras preparam armadilhas ou abrem portas de sedução. Embalam ou derrubam, enredam em doces laços, ou nos matam dolorosamente, como punhais.

Agendar a Vida
Abro uma página da minha agenda para demarcar mais uma vez o território de minha liberdade e o dos meus deveres, que é onde ela começa a perder pé. A fantasia não pede licença para se desenrolar: logo vejo uma infinidade de mesas e escrivaninhas, cada uma com a sua agenda, nela a floresta dos compromissos, mal sobrando alguma trilha estreita para andar e respirar. (Nas folhas desta minha actual quero abrir entrelinhas para contemplar a árvore em flor diante da minha janela, ou pegar nos braços uma das crianças que povoam esta casa). Vejo também agendas quase vazias onde se procura melancolicamente algo para quebrar o sem-sentido da vida: nem uma visita, uma data de aniversário, nenhum afecto nomeado, nem ao menos um pagamento nesses dias que parecem um deserto sem contornos. Nem uma miragem ao longe? Pessoalmente não vivo sem uma agenda, aquelas de bloco, ao lado do computador. Às vezes olhar a folhinha me dá alegria: um encontro bom, ou um dia inteiro só pra mim. Noutras folhas, um engarrafamento de garatujas (a minha letra, horror das professoras desde os primeiros anos de escola) com mais compromissos do que meu fundamental desejo de liberdade quereria. Agenda pode ser tormento e prisão. Mas pode ser liberdade, se a gente inventar brechas: em plena tarde da semana, caminhar na calçada; sentar ao sol na varanda do apartamento; deitar na relva do parque ou jardim, por menor que ele seja, e como criança olhar as nuvens, interpretando as suas formas: camelo, coelho, árvore ou anjo». In LyaLuft, Pensar é Transgredir, 2004, Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 2011, ISBN 978-850-109-376-9.

Cortesia de ERecord/JDACT