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sábado, 23 de novembro de 2013

Jazz. Júlio Resende. «A vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde…»

jdact


«A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas».

JDACT

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Jazz. Amina Figarova. «Andávamos tranquilamente pelos bazares de nariz no ar, respirando o odor do sândalo que pairava à nossa volta, quando de repente, ao virar a esquina de uma rua, fomos ter ao bairro das prostitutas»

Cortesia de wikipedia


«Andávamos tranquilamente pelos bazares de nariz no ar, respirando o odor do sândalo que pairava à nossa volta, quando de repente, ao virar a esquina de uma rua, fomos ter ao bairro das prostitutas. Imagina cinco ou seis ruas com casas de cerca de quatro pés, construídas em barro cinzento seco. Às portas, mulheres em pé, ou sentadas em esteiras. As negras tinham vestidos azul celeste, outras estavam de amarelo, branco, vermelho, roupas largas que esvoaçam ao vento quente. Cheirava a especiarias: e nas gargantas nuas, longos colares de piastras de ouro, que estralejam como charretes quando elas se mexem. Chamam-nos com vozes arrastadas…»

JDACT

sábado, 16 de novembro de 2013

Scodanibbio Reinventions. Quartetto Prometeo. «Água que à água torna, de luz franjada, abre-se a vaga em espuma. Movimento perpétuo, arco perfeito, que se ergue, retomba e reflui. Onda do mar que o mesmo mar sustenta, amor que de si próprio se alimenta»

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«Bem sei que as meias-solas que deitei
nas botas aprazadas não resistem
à calçada do tempo que discorro.
Talvez parado as botas me durassem,
mas quieto quem pode, mesmo vendo
que é desta caminhada que me morro».


«Essa linha que nasce nos teus ombros,
que se prolonga em braço, depois mão,
esses círculos tangentes, geminados,
cujo centro em cones se resolve,
agudamente erguidos para os lábios
que dos teus se desprenderam, ansiosos.
Essas duas parábolas que te apertam
no quebrar onduloso da cintura,
as calipígias ciclóides sobrepostas
ao risco das colunas invertidas:
tépidas coxas de linhas envolventes,
contornada espiral que não se extingue.
Essa curva quase nada que desenha
no teu ventre um arco repousado,
esse triângulo de treva cintilante,
caminho e selo da porta do teu corpo,
onde o estudo de nu que vou fazendo
se transforma no quadro terminado».

(na data do seu nascimento, 16 de Novembro; faria 91 anos)


JDACT

Jazz. Pela Noite. David Virelles and All. «Um corpo, digo, não um cristal. Que permanece, ainda que eu hesite ou falhe ou recomece. E longamente se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde. Só uma distância, ou o desejo, o quer. Mas onde e quando, enquanto existe?»

jdact


«A tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva.
Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata.
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar.
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto».


«Catarina esta palavra vibra
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida.
Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila.
Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente.
Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva».


JDACT

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Jazz. Saxofone. Charles Lloyd. «A mensagem é clara. Não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se alguém se sente infeliz ‘agora’, tome alguma providência ‘agora’, pois só na sequência dos ‘agoras’ é que o cidadão (ã) existe»

Cortesia de wikipedia


«Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda».


JDACT

sábado, 12 de outubro de 2013

Loreena Mckennitt. Meditação. «O acto criador é apenas um momento incompleto e abstracto da produção duma obra; se o autor existisse sozinho, poderia escrever tanto quanto quisesse; nem a obra nem o objecto veriam o dia…»


Cortesia de wikipedia


«Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é»


JDACT

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Música. Brasil. Alberto Nepomuceno. «Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo…»

Cortesia de wikipedia


«E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida».

«Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, flagelos e delícias, desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, húmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana».



A amizade de MMN
JDACT

sábado, 31 de agosto de 2013

Jazz. Anat Cohen. «Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo»

Cortesia de wikipedia


«Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos? Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem».



JDACT

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Jazz. Madeleine Peyroux. «O destino não é coisa que se saiba pelas sinas, nem obra do acaso, nem artes para adivinhos ou leitores de palmas de mão, nem nada que se modifique com caprichos da fatalidade. O destino de cada indivíduo neste mundo está por cima do seu próprio caso pessoal»

Cortesia de wikipedia




«A diferença entre solução e direcção é esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça. Ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade. Nós os portugueses pertencemos à Humanidade, à Europa e a Portugal. Não somos três coisas distintas, senão uma única, inteira, a nossa. Cada indivíduo não pode chegar até si mesmo senão através dessas três unidades a que pertence: o mundo, aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra, e a sua terra. A terra de cada indivíduo não está limitada pelas legítimas fronteiras físicas e políticas do seu próprio território, é além disso um pedaço determinado de uma quinta parte do mundo inteiro. E o indivíduo está tão longe de si mesmo que para chegar até si tem primeiro que dar a sua volta ao mundo, completa, até ao ponto de partida. E todo aquele que queira encontrar dentro de si mesmo a sua própria personalidade, ficará romanticamente sozinho no meio das multidões, na mais terrível solidão de todos os tempos, uma solidão onde o próprio deserto está cheio de arranha-céus e as ruas inundadas de gente! O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua colectividade. E a sua colectividade é a sua própria Terra e mais aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra e mais o mundo inteiro também. Mas que não se julgue por estas palavras que o indivíduo há-de servir apenas de instrumento à sua própria colectividade. Não! Nem vice-versa tão pouco. É um jogo simultâneo da colectividade para os seus indivíduos e de cada indivíduo para a sua colectividade. O destino de cada indivíduo neste mundo está por cima do seu próprio caso pessoal». In Almada Negreiros.



JDACT

domingo, 25 de agosto de 2013

Música. O Prazer. Aimee Mann. «Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da acção para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e idênticas»


Cortesia de wikipedia


«A pluridade humana, condição básica da acção e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da acção para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e idênticas.
Ser diferente não equivale a ser outro - ou seja, não equivale a possuir essa curiosa qualidade de «alteridade», comum a tudo o que existe e que, para a filosofia medieval, é uma das quatro características básicas e universais que transcendem todas as qualidades particulares. A alteridade é, sem dúvida, um aspecto importante da pluralidade; é a razão pela qual todas as nossas definições são distinções e o motivo pelo qual não podemos dizer o que uma coisa é sem a distinguir de outra.
Na sua forma mais abstracta, a alteridade está apenas presente na mera multiplicação de objectos inorgânicos, ao passo que toda a vida orgânica já exibe variações e diferenças, inclusive entre indivíduos da mesma espécie. Só o homem, porém, é capaz de exprimir essa diferença e distinguir-se; só ele é capaz de se comunicar a si próprio e não apenas comunicar alguma coisa - como sede, fome, afecto, hostilidade ou medo. No homem, a alteridade, que ele tem em comum com tudo o que existe, e a distinção, que ele partilha com tudo o que vive, tornam-se singularidades e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade dos seres singulares». In Hannah Arendt


JDACT

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Jazz. Jane Monheit. «Não conhecemos senão as nossas sensações. O universo é pois um simples conceito nosso. O universo porém, ao contrário de e em contraste com, as nossas fantasias e os nossos sonhos, revela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem excepção a que chamamos leis…»


Cortesia de wikipedia


«Uma utopia é mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade não ser uma realidade significa apenas que as circunstâncias com as quais a primeira está articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais não seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas dependências e puder desenvolver-se, nasce a utopia. É um processo semelhante àquele que se verifica quando um investigador observa a transformação de um elemento num composto para daí tirar as suas conclusões. A utopia é a experiência na qual se observam a possibilidade de transformação de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fenómeno composto a que chamamos vida».


JDACT

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Jazz. Rosemary Clooney. «Se não tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens/mulheres para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu espírito, da sua “razão”, dos amigos do ‘bom senso’, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia…»

Cortesia de wikipedia


«Se não tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens/mulheres para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu espírito, da sua “razão”, dos amigos do ‘bom senso’, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia, o menor excesso da imaginação, a humanidade já teria naufragado há muito tempo. A loucura, o seu pior perigo, não deixou nunca, com efeito, de planar por cima dela, a loucura prestes a estalar... quer dizer a irrupção da lei do bom prazer em matéria de sentimento de sensações visuais ou auditivas, o direito de gozar com o jorro do espírito e de considerar como um prazer a irrisão humana. Não são a verdade, a certeza que estão nos antípodas do mundo dos insensatos; é a crença obrigatória e geral, é a exclusão do bom prazer no ajuizar. O maior trabalho dos homens/mulheres foi até agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma ‘lei desse acordo,...’ quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do espírito que preservou a humanidade,... mas os instintos que a combatem são ainda tão poderosos que em suma só se pode falar com pouca confiança no futuro da humanidade».



JDACT

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Jazz. Clairdee. «E eu vou acompanhando-a, corcovado, no trottoir, como um doido, em convulsões, febril, de colarinho amarrotado, desejado o lugar dos seus truões, sinistro e mal trajado. Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário e desvendar a vida, o mundo, o gozo, como um velho filósofo lendário»

Cortesia de wikipedia


Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
do lúbrico Versailles do Rei-Sol!
Aumenta-os com retoques sedutores.
É como o refulgir dum arrebol
em sedas multicores.

Deita-se com langor no azul celeste
do seu landau forrado de cetim;
e os seus negros corcéis que a espuma veste,
sobem a trote a rua do Alecrim,
velozes como a peste.


É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon
se a vissem ficariam ofuscadas
tem a altivez magnética e o bem-tom
das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala,
e as mãos, que o Jock Club embalsamou,
entre peles de tigres as regala;
de tigres que por ela apunhalou,
um amante, em Bengala.


É ducalmente esplêndida! A carruagem
vai agora subindo devagar;
ela, no brilhantismo da equipagem,
ela, de olhos cerrados, a cismar
atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
e a doce brisa dá-lhes de través
nas capas de borracha esbranquiçada,
nos chapéus com reseta, e nas librés
de forma aprimorada.


E daria, contente e voluntário,
a minha independência e o meu porvir,
para ser, eu poeta solitário,
para ser, ó princesa sem sorrir,
teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
preferiria ir, fardado, aí,
ostentando galões de velha prata,
e de costas voltadas para ti,
formosa aristocrata!

Poema de Cesário Verde, in ‘O Livro de Cesário Verde’


JDACT

domingo, 4 de agosto de 2013

Jazz. Majken Christiansen. «Meia vida passada, se isto se for aguentando, tomba daqui, tomba dali. E tudo por fazer! Comecei tarde, sem nenhuma preparação, e com defeitos horríveis, que tenho ido limando pouco a pouco…»

Cortesia de wikipedia


… Nasci afirmativo demais, puritano demais, uno demais, apesar duma timidez confrangedora, duma aceitação natural da volúpia e duma dispersão aflitiva a cada instante. Tenho medo dum polícia e sou capaz de enfrentar um exército; passo a vida a praticar virtudes que proíbo terminantemente aos outros; escrevo um poema, a dar uma consulta. De maneira que nunca consegui encontrar aquele equilíbrio criador onde julgo existir o pomar das grandes obras. Debato-me entre forças contraditórias, e ao cabo de cada livro sinto-me insatisfeito e culpado como um pecador que não cumpriu bem a sua penitência. Não tenho ambições fora da arte, e, dentro dela, só desejo conquistar a glória de a ter servido humilde e totalmente; mas não consegui ainda dar-lhe tudo, jogar a vida e a morte por ela. Para isso era preciso calcar aos pés o homem civil que sou, e não posso. Necessito de ter as minhas contas em dia como qualquer mortal honrado, e afligem-me os assuntos do mundo como casos pessoais. Também tenho afectos. E a trama de deveres e apegos, embora redima um homem do seu egoísmo nativo, rouba-lhe força criadora. Abandono tudo para correr a casa dum amigo que está com dor de dentes, e passo uma noite em claro porque operei um doente, e ele pode ter uma hemorragia. Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer do homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles. A minha grande alegria é admirar os outros, e procuro encontrar em cada um as linhas positivas do seu caminho. Afinal somos todos elos de uma grande corrente, e é pelos ferrujentos que ela pode quebrar. Aflijo-me, solidário com a sua humanidade, que gostava de ver mais generosa, sem reparar que o tempo desaparece, alheio às razões que impedem a semente de germinar…» In Miguel Torga, Diário, 1946.


JDACT

sábado, 20 de julho de 2013

Jazz. A Vida Breve. Chantal Chamberland. «A amargura e a doçura vêm do exterior, as dificuldades do interior, dos nossos próprios esforços quotidianos. Na maior parte das vezes faço as coisas que a minha própria natureza me compele a fazer e a dizer. Acordai!»

Cortesia de wikipedia


Quissico
Deixei o sol
na praia de Quissico
De bruços
sobre o verão
eu deixei o sol
na extensão do tempo
Molhado, quase líquido,
o dia afundava
nas fundas águas do Índico
A terra
se via nua
lembrando, distante,
seu parto de carne e lua
Não o pássaro: era o céu
que voava
O ombro da terra
amparava o dia
A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso suicida
em minhas ocultas asas.

Poema de Mia Couto


JDACT

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Jazz. Amy Cervini. «Nunca parti deste cais e tenho o mundo na mão! Para mim nunca é demais responder sim cinquenta vezes a cada não. Por cada barco que me negou cinquenta partem por mim e o mar é plano e o céu azul sempre que vou! Mundo pequeno para quem ficou...»

Cortesia de wikipedia


Primeiro tu virás, depois a tarde
com terras, mares, algas, vento, peixes.
Trarás, no ventre, a marca das idades
e a inquietude dos pássaros libertos.

Virás para o enorme do silêncio
— flor boiando na órbita das águas —
tu não verás o fúnebre das horas
nem o canto final do sol poente.

Primeiro tu virás, depois a tarde
sem desejos e amor. Virás sozinha
como o nome saudade. Virás única.

Eu não terei a posse do teu corpo
nem me baptizarei na tua essência,
mas tu virás primeiro e eu morro livre.

Poema de Manuel Lopes, in ‘Soneto à Liberdade’



JDACT

sábado, 13 de julho de 2013

Música. Jazz. Dom Salvador Quarteto. «Como um sol de polpa escura para levar à boca, eis as mãos: procuram-te desde o chão, entre os veios do sono e da memória procuram-te: à vertigem do ar abrem as portas: vai entrar o vento ou o violento…»

Cortesia de wikipedia


Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece
Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama
Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura
Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada
Interminavelmente

Poema de Eugénio de Andrade, in ‘Véspera da Água’


JDACT