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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Montespan. Jean Teulé. «Próximo do pórtico da igreja, sentado num genuflexório, um duque bochechudo, olhos verdes e salientes, boca pequena de lábios orlados, exclama, extasiado, ao companheiro do lado: a minha filha é extremamente divertida»


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«(…) As abóbadas da igreja de Saint-Sulpice formam um altíssimo tecto de pedra onde até um riso ecoa. Depois da leitura do Evangelho, a loura de vestido vermelho bordado a pérolas, que se ajoelha frente ao altar ao mesmo tempo que o marquês de fato cinzento-lavanda, murmurara-lhe, entre risos, ao ouvido: esses quadradinhos para nos ajoelharmos, estás a ver..., são as almofadas de seda de que nos tínhamos esquecido e que mandámos buscar ao hotel Mortenart, na Rue des Rosiers... E daí?, pergunta-lhe o jovem gascão. A criada enganou-se. Trouxe as almofadas dos cães. A sério? Desatam a rir e a sacudir os pêlos caninos que mais pareciam ornamentos sobre aquelas suas roupas de sedas e bordados no meio daquela enorme igreja em obras onde, por trás deles, se sentaram os convidados. Da fisionomia do noivo irradia felicidade: traz uma peruca em rabo-de-cavalo, elegante e distinta. Toda ela graça, toda ela repleta de diferentes matizes no doce esplendor dos seus vinte e dois anos, a noiva possui a candura da infância. Próximo do pórtico da igreja, sentado num genuflexório, um duque bochechudo, olhos verdes e salientes, boca pequena de lábios orlados, exclama, extasiado, ao companheiro do lado: a minha filha é extremamente divertida! Com ela, nunca nos aborrecemos. Estais a ver aquele obeso, ali, na primeira fila? É o meu filho mais velho, Vivonne. Um dia destes, estava eu a ralhar com a minha menina por não fazer exercício, e responde-me ela: que maledicência! Não passa um único dia em que não dê quatro vezes a volta ao meu irmão.
Aquele a quem se dirige, um velhote com um enorme nariz de papagaio que lhe ocupa o rosto inteiro, pergunta: é a sua mulher aquela senhora que está ao lado do seu filho? Tem um ar muito, muito devoto... Lá isso, diz o outro, no que se refere a adultério, acho que me safei perante os homens mas considero-me cornudo perante Deus! Olhe bem para a minha, que prefere viver longe de mim, a grande Chrestienne Zamet, que ali está à direita. Passa-se a mesma coisa, resmunga o homem com bico de papagaio. Sabe perfeitamente temperar a sua ternura de mãe com a de esposa de Jesus Cristo. Ah, ah, ah! Riem-se ambos à socapa, os pais dos noivos, espirituosos e galhardamente debochados. À frente deles, há alguém que se volta franzindo as sobrancelhas e diz depois à companheira do lado: estão bem um para o outro, aqueles dois!
Também estão bem um para o outro, aqueles dois que se casam oito dias apenas depois de se terem conhecido. Perante o sacerdote e quatro testemunhas dignas de confiança, recebem o sacramento num domingo de Inverno. O sacerdote inscreve a data, 28 de Janeiro de 1663, no registo da paróquia e depois o nome dos pombinhos, que pronuncia em voz alta: Françoise Rochechouart Mortemart, conhecida como de Tonnay-Charente e... A voluptuosa loura Françoise pega na pena de ganso que lhe é apresentada e, enquanto o sacerdote articula a seguir a identidade do seu esposo, Louis-Henri Pardaillan Gondrin, marquês de..., assina pela primeira vez com o seu novo nome: montespan». In Jean Teulé, Montespan, Prémio Maison de La Presse 2008, Grande Prémio Palatine du Roman Historique, colecção Tempos Modernos, Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8174-28-4.

Cortesia de Guerra e Paz/JDACT

Montespan. Jean Teulé. «Digo isto, atrapalha-se o marquês, sobretudo por causa das traças. A verdade é que por vezes arrumamos roupas velhas em arcas e, mais tarde, quando voltamos a desdobrá-las, estão já todas estragadas, roídas…»

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«(…) Acabados de sair do palácio de justiça do Châtelet, sentem-se ambos imediatamente envolvidos pela extraordinária animação que ali reina, pelo engarrafamento permanente, o barulho, a lama, o odor desagradável da cidade. Os esgotos a céu aberto, os montes de excrementos e os porcos de focinho enfiado na porcaria fazem das luvas perfumadas ou dos ramos de violeta que lhes passam pelo nariz remédios indispensáveis contra a náusea. Mas o marquês esquece-se de tudo: já não tenho irmãos, diz com ar espantado. Roger, o mais velho, morreu durante o cerco de Mardyck, Just de Pardaillan morreu quando cumpria o serviço militar e o marquês d'Antin foi morto ontem num duelo... Já não tenho futuro marido, responde a bela, como num eco. O hálito que expira é mais puro que o que inspira. Noirmoutier, é mais que evidente, prefere salvar a pele do que preocupar-se comigo. Tem um perfil orgulhoso e nobre. Por baixo do capuz do casaco saem-lhe mechas rebeldes de cabelos louros. Tem as narinas móveis como asas de pássaro. A boca, sorridente e com um quê de sedutor, enlouquece o marquês, deixa-o em fogo, tal como os raios de sol que deslizam por entre as árvores...
A dupla perda aproxima-os. À medida que se vão cruzando com vendedores de canções, canções para beber, para divertimento à mesa, canções para dançar ou de actualidade, os dois jovens falam do defunto, do noivo no exílio, felicitam-se reciprocamente, confortam-se, consolam-se. Cantores de rua vindos da Sabóia clamam: devolve-me o pardal, ó ruiva, ah, como o mundo é grande. Ainda é mais terrível, diz a bela abanando a cabeça, porque quando me deram a notícia, na Rue Saint-Honoré, estava precisamente no meio de uma prova do fato de noiva que iria vestir no domingo que vem. Não sei o que fazer com ele. Seria pena que se estragasse... Um saltimbanco engole água e cospe-a em seguida envolta em várias cores e odores.
Digo isto, atrapalha-se o marquês, sobretudo por causa das traças. A verdade é que por vezes arrumamos roupas velhas em arcas e, mais tarde, quando voltamos a desdobrá-las, estão já todas estragadas, roídas, cheias de buracos de traça... Ficamos então cheios de pena por nunca as termos voltado a vestir... A menina dos sapatos pontiagudos com saltos altíssimos contempla aquele gascão atrapalhado, divertido e dotado de certa sedução: estareis por acaso a tentar dizer-me que... Como só uma vez na vida se ama. À porta da loja, um pasteleiro dá um jeito na vestimenta, lenço à laia de gravata, bóina com grande laço e um raminho de flores para atrair as senhoras. A noiva abandonada pousa familiarmente a cabeça no ombro do marquês. Este, que é frequentador assíduo dos círculos de lansquené e das mesas de jogos de cartas dos palacetes do Marais, julga ter ao seu alcance o mais belo jogo do mundo. Atordoado e perdido no meio de uma praça invadida por carroças e eclesiásticos, coça a cabeleira postiça. Não será isto o Paraíso? Nunca, caro senhor: no Paraíso não haveria tantos bispos! Desatam a rir. No que lhe diz respeito, o marquês julga ter recebido a bênção de um anjo e ergue os olhos para o céu». In Jean Teulé, Montespan, Prémio Maison de La Presse 2008, Grande Prémio Palatine du Roman Historique, colecção Tempos Modernos, Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8174-28-4.

Cortesia de Guerra e Paz/JDACT

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Leituras. Jean Teulé. Montespan. «Os duelos dizimam a aristocracia francesa e os éditos reais interditam, já desde 1651, sob pena de condenação à morte, essa forma sangrenta de lavar a honra. … o gascão baixa a cabeça e põe-se a olhar para os sapatos de tacões vermelhos quando, de repente, se apercebe de um roçagar de casaco e saias que se senta à sua direita…»


Cortesia de wikipedia e letrassemfundo

«- Senhor Marquês, não há nada que viole de forma mais sacrílega a lei que vem do alto do que a fúria desenfreada dos duelos. Não lhe ensinaram isso na sua Guyenne natal?!...
O jovem gascão que assim insultam naquela sala de tribunal do Châtelet contempla à sua frente, através de uma janela, o sol do final da tarde... Única pessoa sentada numa das cadeiras da sala do tribunal, suspira:
- Dizeis-me isso a mim, que não estou de modo nenhum implicado no assunto, uma vez que não tenho uma natureza conflituosa. O meu irmão tão-pouco a tinha, aliás...
- Mas esteve, apesar disso, implicado num duelo! - interrompe, brutal, La Reynie. - A nobreza não pode, de forma nenhuma, continuar a sacar da espada à mínima oportunidade! Os duelos dizimam a aristocracia francesa e os éditos reais interditam, já desde 1651, sob pena de condenação à morte, essa forma sangrenta de lavar a honra. Os duelos são, para começar, um desafio à autoridade de Sua Majestade, que é a única pessoa a poder decidir quem deve morrer e a forma como cada um deverá viver!...

De pé e cheio de solenidade, La Reynie está nesse ponto do seu discurso quando, no fundo da sala, nas costas do jovem marquês, este ouve o ranger de uma porta e os passos de alguém que avança pelo soalho coberto de ladrilhos. Acabrunhado, o gascão baixa a cabeça e põe-se a olhar para os sapatos de tacões vermelhos quando, de repente, se apercebe de um roçagar de casaco e saias que se senta à sua direita:
- Desculpai o meu atraso, senhor de La Reynie, mas só agora soube a notícia.
A voz é doce e calma. O procurador anuncia:
- Minha Senhora, se o vosso futuro esposo Louis-Alexandre de La Trémoille, marquês de Noirmoutier, voltar a França, será decapitado.

Quando ouve a sua vizinha desabotoar o casaco e baixar depois o capuz sobre os ombros, Le Gascon observa de repente La Reynie de boca aberta, de cada um dos lados de um nariz aquilino, os olhos dele endurecem. Quem poderá ser aquela rapariga capaz de perturbar de tal modo um procurador daqueles? Será uma medusa que transforma os homens em pedra?... Mas La Reynie recompõe-se e vem colocar-se em frente do gascão, que esfrega as mãos húmidas nas calças de cetim branco:
- Meu senhor -, declara-lhe o procurador -, Sua Majestade acusa sem misericórdia o falecido senhor d'Antin, levantando-lhe, inclusivamente, um processo por contumácia.
Dócil, o marquês responde:
- Sou, com todo o respeito possível e todo o zelo imaginável, um muito humilde, muito obediente e muito reconhecido servidor de Sua .Alteza Sereníssima...

Sentada próximo dele, a rapariga informa-se:
- Quem vos avisou deste duelo? - Os homens das lanternas que estão à saída dos espectáculos e dos bailes são os nossos melhores informadores, sorri o chefe da polícia.
Perturbado, o marquês pega tristemente no seu chapéu de plumas que depositara na cadeira à sua esquerda, levanta-se e volta-se, por fim, para a vizinha que, também ela, se levanta. Com a breca!...

Quase se ia sentando de novo. Não é uma beleza, é “A BELEZA” encarnada. O grande gascão, de vinte e dois anos, fica sem fôlego. Ele, que sempre gostara das louras um pouco gorduchas, fica subjugado por aquela sumptuosa maravilha da mesma idade que ele. Tez de leite, olhos verdes dos mares do Sul, caracóis louros à camponesa... O vestido, com um enorme decote, cobre-lhe os ombros, embora as mangas não vão mais além dos cotovelos, numa onda de rendas. Usa luvas. O marquês julga que vai cair-lhe o queixo.
Por cima da sua enorme peruca em forma de crina, que pesa mais de um quilo e faz bastante calor, penteia-se com o chapéu branco mas fá-lo ao contrário. A pena de avestruz que lhe guarnece o chapéu cai sobre o rosto do marquês. Ao querer girar o chapéu ao contrário desloca a peruca, que lhe cai por cima de um olho.

A rapariga solta uma gargalhada encantadora que lhe evoca ternura bem no fundo da alma. Cumprimenta La Reynie – “Até à vista, minha senhora! Oh...”, pede desculpas enquanto a bela, divertida, adapta o passo e os movimentos das ancas ao ritmo daquele desengonçado que se dirige ao fundo da sala. O marquês quer abrir-lhe a porta mas não consegue chegar a tempo, decide deixá-la sair em primeiro lugar mas acaba por lhe passar à frente.
A rapariga fica imediatamente comovida pela sua cortesia desajeitada e pelos olhares de adoração que lhe dirige.
-Para onde ides? - pergunta-lhe com um sorriso. - Por ali, hum... por acolá, e vós?!
- Sempre em frente.



In Jean Teulé, Montespan, Prémio Maison de La Presse 2008, Grande Prémio Palatine du Roman Historique, colecção Tempos Modernos, Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8174-28-4.

Cortesia de Guerra e Paz/JDACT