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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A Trégua. Mario Benedetti. «Simplesmente, sacudiu o braço até se soltar, moveu as asas do nariz e disse: Quando é que você vai crescer?, antes de sair batendo a porta»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esta tarde, quando cheguei do Centro, Jaime e Esteban estavam gritando na cozinha. Consegui ouvir que Esteban dizia ao irmão algo sobre aqueles seus amigos podres. Quando escutaram meus passos, eles se calaram e procuraram falar com naturalidade. Mas Jaime tinha os lábios apertados, e os olhos de Esteban brilhavam. O que houve?, perguntei. Jaime deu de ombros e o outro disse: Nada que lhe interesse. Que vontade de lhe acertar um soco na boca. É isso o meu filho, esse rosto duro, que nada nem ninguém abrandará jamais. Nada que me interesse. Fui até ao frigorífico, peguei a garrafa de leite e a manteiga. Estava sentindo-me indigno, envergonhado. Não era possível que ele me dissesse: Nada que lhe interesse e eu ficasse tão tranquilo, sem lhe fazer nada, sem lhe dizer nada. Servi-me um copo grande. Não era possível que ele me gritasse com o mesmo tom que eu devia empregar com ele e que, no entanto, não empregava. Nada que me interesse. Cada gole de leite me doía nas têmporas. De repente, virei-me e o agarrei pelo braço. Mais respeito com seu pai, entendeu? Mais respeito. Era uma idiotice dizer isso àquela altura, quando o momento já passara. O braço estava tenso, duro, como se repentinamente se tivesse transformado em aço. Ou em chumbo. Minha nuca doeu quando levantei a cabeça para fitá-lo nos olhos. Era o mínimo que eu podia fazer. Não, ele não estava assustado. Simplesmente, sacudiu o braço até se soltar, moveu as asas do nariz e disse: Quando é que você vai crescer?, antes de sair batendo a porta.

Minha cara não devia estar muito tranquila quando me virei para encarar Jaime. Ele continuava encostado à parede. Sorriu com espontaneidade e limitou-se a comentar: Que mau génio, velho, que mau génio! É incrível, mas, nesse preciso instante, senti que minha raiva congelava. É que também seu irmão..., falei, sem convicção. Deixe-o, respondeu Jaime, a esta altura nenhum de nós tem remédio. Mario Vignale foi ver-me no escritório. Quer que eu vá a sua casa na semana que vem. Diz que encontrou fotos antigas de todos nós. Não as trouxe, o cretino. Sem dúvida, constituem o preço da minha aceitação. Aceitei, claro. Quem não é atraído pelo próprio passado? Esta manhã, o novo, Santini, tentou se confessar comigo. Não sei o que tem a minha cara para convidar sempre à confidência. As pessoas me olham, me sorriem, algumas até chegam a fazer a careta que precede o soluço; depois se dedicam a abrir o coração. E, francamente, há corações que não me atraem. São incríveis a cómoda impudicícia, o tom de mistério com que alguns tipos segredam acerca de si mesmos. Porque eu, sabe, senhor?, eu sou órfão, foi logo dizendo Santini, para me obrigar à piedade. Prazer, e eu sou viúvo, respondi com um gesto ritual, destinado a destruir aquela cara-de-pau. Mas minha viuvez o comove muito menos do que sua própria orfandade.

Tenho uma irmãzinha, sabe? Enquanto falava, de pé junto à minha escrivaninha, ele tamborilava os dedos, frágeis e delgados, sobre a capa do meu Livro Diário. Você não pode deixar quieta essa mão?, gritei, mas ele sorriu docemente antes de obedecer. No pulso, usa uma corrente de ouro, com uma medalhinha. Minha irmãzinha tem 17 anos, sabe? O sabe?, é uma espécie de tique. Não me diga. E ela vai bem? Era minha defesa desesperada, antes de que se rompessem os diques do seu último arremedo de escrúpulo e eu me visse definitivamente inundado pela sua vida íntima. O senhor não me leva a sério, disse ele, apertando os lábios, e afastou-se muito ofendido para a sua mesa. Não trabalha muito depressa. Demorou duas horas para me fazer o resumo de Fevereiro». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

JDACT, Mario Benedetti, Literatura,  

sábado, 10 de julho de 2021

A Trégua. Mario Benedetti. «Os Policarpos, os indeformáveis, eternos, inócuos Policarpos da minha infância, balançaram-se e, de repente, fizeram algo totalmente imprevisto»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ontem à noite, depois de trinta anos, voltei a sonhar com meus encapuzados. Quando eu tinha 4 anos ou até menos, comer era um pesadelo. Então minha avó inventou um método realmente original para que eu engolisse sem maiores problemas a batata amassada. Ela vestia um enorme impermeável do meu tio, colocava o capuz e uns óculos escuros. Com esse aspecto, aterrorizante para mim, vinha bater à minha janela. A empregada, minha mãe, alguma tia, diziam então em coro: chegou don Policarpo! Don Policarpo era uma espécie de monstro que castigava as crianças que não comiam. Paralisado no meu próprio terror, eu só tinha forças para mover as mandíbulas numa velocidade incrível e assim acabar com o insosso e abundante purê. Era cómodo para todos. Ameaçar-me com don Policarpo equivalia a apertar um botão quase mágico. No final, aquilo se tornara uma diversão famosa. Quando chegava uma visita, era trazida até ao meu quarto para assistir aos engraçados pormenores do meu pânico. É curioso como às vezes se pode chegar a ser tão inocentemente cruel. Porque, além do susto, havia minhas noites, minhas noites cheias de encapuzados silenciosos, estranha espécie de Policarpos que sempre estavam de costas, rodeados por uma bruma espessa. Sempre apareciam em fila, como que esperando a vez para ingressar no meu medo. Nunca pronunciavam uma só palavra, mas moviam-se pesadamente numa espécie de balanço intermitente, arrastando suas túnicas escuras, todas iguais, pois era isso o que o impermeável do meu tio fizera. Era curioso: no meu sonho, eu sentia menos horror do que na realidade. E, à medida que passavam os anos, o medo ia-se transformando em fascinação. Com aquele olhar absorto que a gente costuma ter sob as pálpebras do sonho, eu assistia como que hipnotizado àquela cena cíclica. Às vezes, noutro sonho qualquer, eu tinha uma obscura consciência de que preferiria sonhar com meus Policarpos. E, uma noite, eles vieram pela última vez. Formaram sua fila, balançaram-se, guardaram silêncio e se esfumaram, como de costume. Durante muitos anos dormi com um inevitável desconforto, com uma quase enfermiça sensação de espera. Às vezes adormecia decidido a encontrá-los, mas só conseguia criar a bruma e, em raras ocasiões, sentir as palpitações do meu antigo medo. Só isso. Depois fui perdendo cada vez mais essa esperança e cheguei insensivelmente à época em que comecei a contar aos estranhos o fácil enredo do meu sonho. Também cheguei a esquecê-lo. Até ontem à noite. Ontem à noite, quando eu estava bem no meio de um sonho mais vulgar do que pecaminoso, todas as imagens se esfumaram e apareceu a bruma, e, no meio da bruma, surgiram todos os meus Policarpos. Sei que me senti indizivelmente feliz e horrorizado. Até agora, se me esforçar um pouco, posso reconstituir algo daquela emoção. Os Policarpos, os indeformáveis, eternos, inócuos Policarpos da minha infância, balançaram-se e, de repente, fizeram algo totalmente imprevisto. Pela primeira vez, viraram-se, só por um momento, e todos eles tinham o rosto da minha avó.

É bom ter uma funcionária que seja inteligente. Hoje, para testar Avellaneda, expliquei-lhe de uma só vez tudo o que se refere à Controladoria Fiscal. Enquanto eu falava, ela foi fazendo anotações. Quando concluí, comentou: veja, senhor, acho que entendi bastante, mas tenho dúvidas sobre alguns pontos. Dúvidas sobre alguns pontos... Méndez, que cuidava disso antes dela, precisou de nada menos que quatro anos para dissipá-las... Depois, coloquei-a para trabalhar na mesa que fica à minha direita. De vez em quando, dava-lhe uma olhada. Ela tem belas pernas. Ainda não trabalha automaticamente, e por isso se cansa. E também é inquieta, nervosa. Acho que minha hierarquia (pobre inexperiente!) a coíbe um pouco. Quando diz: Senhor Santomé, sempre pestaneja. Não é uma formosura. Bom, sorri pousadamente. Já é alguma coisa». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

JDACT, Mario Benedetti, Literatura, 

A Trégua. Mario Benedetti. «Será que o gerente sabe, como todos nós, que Suárez se deita com a filha do presidente? Não é de se jogar fora, essa Lidia Valverde»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esta noite conversei com uma Blanca quase desconhecida para mim. Estávamos sozinhos, depois do jantar. Eu lia o jornal e ela jogava paciência. De repente ficou imóvel, com uma carta erguida no alto, e seu olhar era ao mesmo tempo perdido e melancólico. Vigiei-a durante alguns instantes; em seguida, perguntei em que pensava. Ela então pareceu despertar, dirigiu-me um olhar desolado e, sem conseguir se conter, afundou a cabeça entre as mãos, como se não quisesse que ninguém profanasse seu pranto. Quando uma mulher chora diante de mim, eu me torno indefeso e, ainda por cima, desajeitado. Fico desesperado, não sei como lidar com aquilo. Desta vez, segui um impulso natural: me levantei, me aproximei dela e comecei a lhe acariciar a cabeça, sem dizer palavra. Aos poucos ela foi-se acalmando e as convulsões chorosas se espaçaram. Quando, por fim, baixou as mãos, sequei-lhe os olhos e lhe assoei o nariz com a metade não usada do meu lenço. Nesse momento, ela não parecia uma mulher de 23 anos, mas uma menininha, momentaneamente infeliz porque uma de suas bonecas se quebrou ou porque não a levaram ao zoológico. Perguntei se se sentia descontente e ela respondeu que sim. Perguntei o motivo e ela disse que não sabia. Não estranhei muito. Eu mesmo, às vezes, me sinto infeliz sem motivo concreto. Contrariando minha própria experiência, comentei: oh, alguma coisa deve haver. Ninguém chora por nada. Ela então começou a falar atropeladamente, impelida por um desejo repentino de franqueza: Tenho a horrível sensação de que o tempo passa e eu não faço nada, e nada acontece, e nada me comove até a raiz. Vejo Esteban e vejo Jaime e tenho certeza de que eles também se sentem descontentes. Às vezes (não se aborreça, pai), também olho para si e penso que não gostaria de chegar aos 50 anos e ter sua têmpera, seu equilíbrio, simplesmente porque os considero sem relevo, gastos. Sinto em mim uma grande disponibilidade de energia, e não sei em que empregá-la, não sei o que fazer com ela. Acho que se resignou a ser opaco, e isso me parece horrível, porque eu sei que não é opaco. Pelo menos, não era.Respondi (que outra coisa eu poderia dizer?) que ela estava com a razão, que fizesse o possível para se desligar de nós, de nossa órbita, que me agradava muito vê-la gritar esse inconformismo, que me parecia estar escutando um grito meu, de muitos anos atrás. Ela então sorriu, disse que eu era muito bom e jogou os braços ao meu pescoço, como antes. É uma menininha ainda.

O gerente chamou os cinco chefes de secção. Durante três quartos de hora, falou-nos do baixo rendimento do pessoal. Disse que a Diretoria lhe fizera chegar uma observação nesse sentido, e que no futuro não estava disposto a tolerar que, por causa da nossa negligência (como gosta de acentuar negligência!), sua posição se visse gratuitamente afectada. Portanto, de agora em diante, etc. etc. O que será que eles chamam de baixo rendimento do pessoal? Eu, pelo menos, posso dizer que meus funcionários trabalham. E não somente os novos, os veteranos também. É certo que Méndez lê romances policiais habilmente acondicionados na gaveta central da sua escrivaninha, enquanto sua mão direita empunha uma caneta sempre atenta à possível entrada de algum hierarca. É certo que Muñoz aproveita suas saídas até a Inspectoria de Rendas para surripiar à empresa vinte minutos de ócio diante de uma cerveja. É certo que Robledo, quando vai ao banheiro (exactamente às 10h15), leva escondido sob o guarda-pó o suplemento em cores ou a página desportiva. Mas é também certo que o trabalho está sempre em dia, e que, nas horas em que o trâmite se acelera e a bandeja aérea do Caixa viaja sem cessar, replecta de facturas, todos se afanam e trabalham com verdadeiro sentido de equipa. Cada um, em sua reduzida especialidade, é um entendido, e posso confiar plenamente em que as coisas estão sendo bem-feitas. Na realidade, sei muito bem qual era o destinatário do aperto do gerente. A Expedição trabalha sem vontade e, além disso, executa mal sua tarefa. Todos sabíamos hoje que o sermão era para Suárez, mas então, para que chamar-nos todos? Que direito tem Suárez a que compartilhemos sua culpa exclusiva? Será que o gerente sabe, como todos nós, que Suárez se deita com a filha do presidente? Não é de se jogar fora, essa Lidia Valverde». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

JDACT, Mario Benedetti, Literatura,    

terça-feira, 13 de abril de 2021

A Trégua. Mario Benedetti. «Onde ela estiver, se é que está, que lembrança terá de mim? Afinal, a memória importa alguma coisa?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não tenho saída. A conversa com Vignale me deixou uma obsessão: recordar Isabel. Já não se trata de resgatar a sua imagem por meio das historinhas familiares, das fotografias, de algum traço de Esteban ou de Blanca. Conheço todos os seus dados, mas não quero sabê-los de segunda mão, e sim recordá-los directamente, vê-los em todos os detalhes diante de mim, assim como vejo agora minha cara no espelho. E não consigo. Sei que os olhos dela eram verdes, mas não consigo sentir-me diante do seu olhar.

Encontro meus filhos muito pouco. Nossos horários nem sempre coincidem, e nossos planos ou nossos interesses, menos ainda. Eles são correctos comigo; mas como, além disso, são terrivelmente reservados, sua correcção sempre parece o mero cumprimento de um dever. Esteban, por exemplo, está sempre se contentando para não discutir minhas opiniões. O que nos separa será a simples distância geracional, ou eu poderia fazer algo mais para me comunicar com eles? Em geral, acho-os mais incrédulos do que desatinados, mais fechados do que eu, quando tinha a mesma idade. Hoje jantamos juntos. Fazia provavelmente uns dois meses que não estávamos todos presentes num jantar familiar. Perguntei, em tom de brincadeira, que acontecimento festejávamos, mas não houve eco. Blanca me olhou e sorriu, como se me quisesse comunicar que compreendia minhas boas intenções, e mais nada. Passei a registar quais eram as escassas interrupções do consagrado silêncio. Jaime disse que a sopa estava insossa. O sal está bem aí, a 10 centímetros da sua mão direita, retrucou Blanca, e acrescentou, ferina: quer que eu lhe passe? A sopa estava insossa. É verdade, mas porque aquilo? Esteban informou que, a partir do próximo semestre, nosso aluguer vai aumentar 80 pesos. Como todos contribuímos, a coisa não é tão grave. Jaime começou a ler o jornal. Acho ofensivo que as pessoas leiam quando comem com a família. Disse isso a ele. Jaime largou o jornal, mas foi o mesmo que se tivesse continuado a ler, porque continuou sisudo, distante. Relatei meu encontro com Vignale, tentando ridicularizá-lo para trazer ao jantar um pouco de animação. Mas Jaime perguntou: quem é esse Vignale? Mario Vignale. Um sujeito meio careca, de bigode? Ele mesmo. Conheço. Bela peça, disse Jaime, é colega de Ferreira. Tremendo achacador. No fundo, agrada-me que Vignale seja uma porcaria, assim não tenho escrúpulos em me livrar dele. Mas Blanca perguntou: com que então, ele se lembrava da mãe? Achei que Jaime ia dizer alguma coisa, creio que moveu os lábios, mas decidiu ficar calado. Sorte dele, acrescentou Blanca, eu não me lembro. Mas eu, sim, disse Esteban.

Como será que ele se lembra? Como eu, com recordações de recordações, ou directamente, como quem vê o próprio rosto no espelho? Será possível que ele, que só tinha 4 anos, possua a imagem, e que a mim, em contraposição, a mim, que tenho registadas tantas noites, tantas noites, tantas noites, não reste nada? Fazíamos amor no escuro. Talvez seja por isso. Seguramente, é por isso. Tenho uma memória táctil dessas noites, e esta, sim, é directa. Mas e o dia? Durante o dia, não estávamos no escuro. Eu chegava do trabalho cansado, cheio de problemas, talvez furioso com a injustiça daquela semana, daquele mês. Às vezes fazíamos contas. Nunca chegava. Talvez olhássemos demais os números, as somas, as sobras, e não tivéssemos tempo de nos olhar. Onde ela estiver, se é que está, que lembrança terá de mim? Afinal, a memória importa alguma coisa? Às vezes me sinto infeliz, só por não saber do que tenho saudade, murmurou Blanca, enquanto repartia os pêssegos em calda. Couberam três e meio para cada um.

Hoje entraram para o escritório sete empregados novos: quatro homens e três mulheres. Tinham umas esplêndidas caras de susto, e de vez em quando dirigiam aos veteranos um olhar de respeitosa inveja. A mim, couberam dois pirralhos (um de 18 e outro de 22) e uma moça de 24 anos. Portanto, agora sou totalmente chefe: tenho nada menos que seis funcionários sob minhas ordens. Pela primeira vez, uma mulher. Sempre desconfiei delas em matéria de números. Além disso, outro inconveniente: durante os dias do período menstrual, e até mesmo nos que os antecedem, se normalmente forem espertas, elas ficam meio atarantadas; e se normalmente já forem atarantadas, tornam-se completamente imbecis. Esses novos que entraram não parecem ruins. O de 18 anos é o que menos me agrada. Tem um rosto sem força, delicado, e um olhar fugidio e ao mesmo tempo adulador. O outro é um eterno descabelado, mas tem um aspecto simpático e (ao menos por enquanto) uma evidente vontade de trabalhar. A mocinha não parece ter tanta vontade, mas pelo menos compreende o que a gente explica; além disso, tem testa larga e boca grande, dois traços que, em geral, me causam boa impressão. Chamam-se Alfredo Santini, Rodolfo Sierra e Laura Avellaneda. Vou deixar com eles os livros de mercadorias e com ela o Auxiliar de Resultados». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

 JDACT, Mario Benedetti, Literatura,

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A Trégua. Mario Benedetti. «…a luxuosa esperança de que o ócio seja algo pleno, rico, a última oportunidade de encontrar a mim mesmo. E isso, sim, valeria a pena anotar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esses são os meus desconhecidos, ao menos por enquanto. Estão instalados muito comodamente na vida, ao passo que eu fico neurasténico diante de uma folhinha com o seu Fevereiro consagrado a Goya.

Esta tarde, quando eu vinha do escritório, um bêbado me deteve na rua. Não protestou contra o governo, nem disse que ele e eu éramos irmãos, nem tocou em nenhum dos incontáveis temas do pique universal. Era um bêbado estranho, com uma luz especial nos olhos. Segurou meu braço e disse, quase apoiando-se em mim: sabe o que lhe acontece? Que você não vai a lugar nenhum. Outro sujeito que passou nesse instante me fitou com uma alegre dose de compreensão e até me dedicou uma piscadela de
solidariedade. Mas já faz quatro horas que estou intranquilo, como se realmente não me
dirigisse a lugar nenhum e só agora o percebesse.

Quando eu me aposentar, creio que não escreverei mais este diário, porque então, sem dúvida, me acontecerão muito menos coisas do que agora, e vou achar insuportável me sentir tão vazio e, ainda por cima, deixar disso um registo por escrito. Quando eu me aposentar, talvez o melhor seja me abandonar ao ócio, a uma espécie de modorra compensatória, afim de que os nervos, os músculos, a energia aos poucos se relaxem e se acostumem a morrer bem. Mas não. Há momentos em que tenho e mantenho a luxuosa esperança de que o ócio seja algo pleno, rico, a última oportunidade de encontrar a mim mesmo. E isso, sim, valeria a pena anotar.

Hoje almocei sozinho, no Centro. Quando vinha pela Mercedes, cruzei com um sujeito de castanho. Primeiro, ele esboçou uma saudação. Devo tê-lo olhado com curiosidade, porque o homem se deteve e, com alguma vacilação, estendeu-me a mão. Não era uma cara desconhecida. Era algo assim como a caricatura de alguém que eu, em outros tempos, tivesse visto com frequência. Também estendi a minha, murmurando desculpas e de certa forma confessando minha perplexidade. Martín Santomé?, perguntou ele, mostrando no sorriso uma dentadura devastada. Claro, Martín Santomé, mas meu desconcerto era cada vez maior. Não se lembra da rua Brandzen? Bom, não muito. Faz bem uns trinta anos desde aquela época, e não sou famoso pela minha memória.
Naturalmente, quando solteiro morei na rua Brandzen, mas, ainda que me moessem de pancada, não poderia dizer como era a fachada da casa, quantas sacadas tinha, quem morava ao lado. E do café da rua Defensa? Aí, sim, a névoa se dissipou um pouco e por um instante vi a barriga, com cinturão largo, do galego Álvarez. Claro, claro!, exclamei iluminado. Bem, eu sou Mario Vignale. Mario Vignale? Não me lembro, juro que não me lembro. Mas não tive coragem de confessar. O sujeito parecia tão entusiasmado com o encontro... Então respondi que sim, que me desculpasse, que eu era um péssimo fisionomista, que na semana passada me encontrara com um primo e não o tinha reconhecido (mentira). Naturalmente, era obrigatório tomarmos um café, de modo que ele me arruinou a sesta do sábado. Duas horas e 15 minutos. Obstinou-se em me reconstituir pormenores, em me convencer de que havia participado da minha vida. Eu me lembro até da tortilha de alcachofra que a sua velha fazia. Sensacional. Eu ia sempre às onze e meia, esperando que ela me convidasse para almoçar. E soltou uma bruta gargalhada. Sempre?, perguntei, ainda desconfiado. Então ele sofreu um acesso de vergonha: bom, fui umas três ou quatro vezes. Afinal, qual era a porção de verdade? E a sua velha, vai bem? Morreu há 15 anos. Car… E o seu velho? Morreu há dois anos, em Tacuarembó. Estava morando na casa da minha tia Leonor. Devia estar idoso. Claro que ele devia estar idoso. Deus do céu, que chatice. Só então ele formulou a pergunta mais lógica: e você, acabou se casando com Isabel? Sim, e tenho três filhos, respondi, encurtando o caminho. Ele tem cinco. Que sorte. E como vai Isabel? Sempre bonita? Morreu, respondi, fazendo a cara mais imperscrutável do meu repertório. A palavra soou como um disparo e ele, ainda bem, ficou desconcertado. Apressou-se em terminar o terceiro café e, em seguida, olhou o relógio. Há uma espécie de reflexo automático nisso de falar da morte e em seguida olhar o relógio». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Trégua. Mario Benedetti. «Às quatro da tarde, senti-me de repente insuportavelmente vazio. Tive de pendurar o casaco de lustrina que se usa no escritório»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Talvez, no fundo, eles se ámem bastante, embora isso de amor entre irmãos traga consigo a quota de exasperação mútua que o costume provoca. Não, não se parecem comigo. Nem sequer fisicamente. Esteban e Blanca têm os olhos de Isabel. Jaime herdou dela a testa e a boca. O que Isabel pensaria se pudesse vê-los hoje, preocupados, activos, maduros? Tenho uma pergunta melhor: o que eu pensaria, se pudesse ver Isabel hoje? A morte é uma experiência aborrecida; para os outros, sobretudo para os outros. Eu deveria me sentir orgulhoso por haver ficado viúvo com três filhos e ter conseguido seguir adiante. Mas não me sinto orgulhoso, e sim cansado. O orgulho é para quando se tem 20 ou 30 anos. Seguir adiante com os meus filhos era uma obrigação, o único escape para que a sociedade não me encarasse e me dedicasse o olhar inexorável que se reserva aos pais desalmados. Não havia outra solução, e eu segui adiante. Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse sentir-me feliz.
Às quatro da tarde, senti-me de repente insuportavelmente vazio. Tive de pendurar o casaco de lustrina que se usa no escritório e avisar ao sector de pessoal que precisava passar pelo Banco República para resolver aquele assunto do capital de giro. Mentira. O que eu não suportava mais era a parede em frente à minha escrivaninha, a horrível parede ocupada por aquela enorme folhinha com um Fevereiro dedicado a Goya. O que faz Goya nessa velha casa importadora de autopeças? Não sei o que teria acontecido, se eu tivesse permanecido olhando a folhinha como um imbecil. Talvez gritasse, ou iniciasse uma das minhas costumeiras séries de espirros alérgicos, ou simplesmente submergisse nas esmeradas páginas do Livro-Razão. Porque já aprendi que os meus estados de pré-explosão nem sempre conduzem à explosão. Às vezes terminam numa humilhação lúcida, numa aceitação irremediável das circunstâncias e de suas diversas e agravantes pressões. Gosto, no entanto, de me convencer de que não devo permitir-me explosões, de que devo travá-las radicalmente, sob pena de perder o meu equilíbrio. Então saio como saí hoje, numa encarniçada busca do ar livre, do horizonte, de sei lá quantas coisas mais. Bom, às vezes não chego ao horizonte e me conformo com o acomodar-me à janela de um café e registar a passagem de algumas pernas bonitas.
Estou convencido de que, durante o expediente, a cidade é outra. Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos. Mas existe a outra cidade, a das frescas moçoilas que no meio da tarde saem recém-banhadinhas, perfumadas, desdenhosas, optimistas, espirituosas; a dos filhinhos da mãe que acordam ao meio-dia e às seis da tarde ainda trazem impecável o colarinho branco de tricolina importada; a dos velhos que tomam o autocarro até a Aduana e depois retornam sem desembarcar, reduzindo a sua módica farra à simples mirada reconfortante com que percorrem a Cidade Velha de suas nostalgias; a das mães jovens que nunca saem de noite e entram no cinema, com cara de culpadas, por volta das três e meia da tarde; a das amas que difamam as suas patroas enquanto as moscas devoram as crianças; a dos aposentados e ociosos vários, enfim, que crêem ganhar o céu jogando migalhas aos pombos da praça». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

A Trégua. Mario Benedetti. «Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até também sonhar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos cinco anos que mantenho este cômputo diário do meu saldo de trabalho. Na verdade, preciso tanto assim do ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é do ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem, quem sabe. É bom como descanso activo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra a minha futura e garantida artrite. Mas temo não conseguir aguentar isso diariamente. Violão, outra hipótese. Acho que me agradaria. Mas começar a estudar solfejo aos 49 anos deve ser meio desolador. Escrever? Talvez não o fizesse mal; pelo menos, as pessoas costumam gostar das minhas cartas. E depois? Imagino uma notinha bibliográfica sobre as notáveis qualidades deste autor estreante que beira os 50, e a mera possibilidade me causa repugnância. Que eu me sinta, até hoje, ingénuo e imaturo (isto é, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma das suas virtudes) não significa que tenha o direito de exibir essa ingenuidade e essa imaturidade.
Tive uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa, insistia em mostrá-la a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe havia ficado preso aos lábios desde a época em que se exibia para o namorado motociclista, o qual depois se matou numa de nossas tantas Curvas da Morte. Ela se vestia de maneira correcta, inteiramente de acordo com seus 53; nisso, e no resto, era discreta, equilibrada, mas aquele sorriso reclamava um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de 20 anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que não chegava nunca a parecer ridículo, porque naquele rosto havia também bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético. Para render passavelmente no escritório, preciso obrigar-me a não pensar que o ócio está relativamente próximo. Do contrário, meus dedos se crispam e a letra redonda com a qual devo escrever os itens me sai quebrada e deselegante. A letra redonda é um dos meus maiores prestígios como empregado. Além disso, devo confessar que me dá prazer o traçado de algumas letras como o M maiúsculo ou o b minúsculo, nas quais me permiti algumas inovações. O que eu menos odeio é a parte mecânica, rotineira, do meu trabalho: repassar um lançamento que já redigi milhares de vezes, efectuar um balanço de saldos e constatar que tudo está em ordem, que não há diferenças a buscar.
Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até (por que não dizer a mim mesmo?) também sonhar. É como se eu me dividisse em dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor o seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro de onde pisa, e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde corre a pena nem que coisas escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra.
No meu trabalho, o insuportável não é a rotina; é o problema novo, o pedido repentino dessa directoria fantasmal que se esconde por trás de actas, disposições e gratificações de fim de ano, a urgência com que se reclama um informe ou um balancete analítico ou uma previsão de recursos. Então, sim, como se trata de algo mais do que rotina, as minhas duas metades devem trabalhar para a mesma coisa, eu já não posso pensar no que quiser, e a fadiga instala-se nas minhas costas e na nuca, como um emplastro poroso. Que me importa o lucro provável do item Pernos de Pistão no segundo semestre do penúltimo exercício? Que me importa o modo mais prático de conseguir a redução das Despesas Gerais? Hoje foi um dia feliz; só rotina. Nenhum dos meus filhos se parece comigo. Em primeiro lugar, todos têm mais energias do que eu, parecem sempre mais decididos, não estão acostumados a duvidar. Esteban é o mais arredio. Ainda não sei a quem se dirige o seu ressentimento, mas o certo é que ele parece um ressentido. Creio que tem respeito por mim, mas nunca se sabe. Jaime, talvez seja o meu preferido, embora quase nunca possamos nos entender. Ele me parece sensível, me parece inteligente, mas não me parece fundamentalmente honesto. É evidente que existe uma barreira entre nós dois. Às vezes acho que ele me odeia, às vezes que me admira. Blanca, pelo menos, tem algo em comum comigo: também é uma triste com vocação de alegre. Quanto ao resto, é por demais ciosa de sua vida própria, impermutável, para compartilhar comigo os seus mais árduos problemas. É quem fica mais tempo em casa, e talvez se sinta um pouco escrava da nossa desordem, das nossas dietas, da nossa roupa suja. As suas relações com os irmãos às vezes chegam à beira da histeria, mas ela sabe dominar-se e, mais ainda, sabe dominá-los». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

sábado, 25 de junho de 2016

Primavera num Espelho Partido. Mario Benedetti. «Viu? Óptimo, na estante de baixo estão Relatos da guerra revolucionária e O Estado e a Revolução. Ela perguntou se devia queimar também O cinema socialista e Marx e Picasso»

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«(…)
Exílios (Cavalo verde)
Seis meses antes havia escorregado em um piso encerado de hotel, em outra cidade, batendo violentamente com a cabeça no chão. Como consequência dessa queda, teve descolamento da retina e agora tinha sido operado. Por indicação médica, devia permanecer quinze dias deitado, com os olhos vendados, ou seja, durante esse lapso de tempo dependeria totalmente da mulher. A cada setenta e duas horas aparecia o cirurgião, destapava o olho operado, comprovava que tudo ia bem e voltava a tapá-lo. Era aconselhável que, pelo menos durante a primeira semana, não recebesse visitas, a fim de garantir a quietude completa. Mas podia ouvir rádio e gravador cassete. E, claro, atender o telefone. As notícias do rádio não somente não eram tediosas, como nos bons tempos, mas às vezes chegavam a ser arrepiantes, já que em Janeiro de 1975 costumavam aparecer dez ou doze cadáveres diários nas lixeiras portenhas. Entre noticiários e noticiários, entretinha-se ouvindo fitas de Chico Buarque, de Viglietti, de Nacha Guevara, de Silvio Rodríguez, e também A Truta de Schubert e algum quarteto de Beethoven. Outra diversão era propor imagens a si mesmo, o que passou a ser a mais fascinante de suas actividades passivas, já que sem dúvida incluía um elemento criador, mais original, a bem da verdade, do que o simples e textual registo por meio da visão das imagens que a realidade ia proporcionando. Agora não. Agora era ele quem inventava e recrutava essa realidade, e ela aparecia com todos os seus traços e cores na parede interior de seus olhos fechados. O jogo era estimulante. Pensar, por exemplo: agora vou criar um cavalo verde sob a chuva e fazê-lo aparecer no reverso das pálpebras imóveis. Não se atrevia a ordenar que o cavalo trotasse ou galopasse, porque a instrução do médico era de que as pupilas não se movimentassem, e não tinha muita certeza, em sua recente descoberta, se a pupila enclausurada sentiria ou não a tentação de seguir o galope do cavalo verde. Mas em troca tomava todas as liberdades ao conceber quadros imóveis. Digamos: três meninos (dois louros e um pretinho, como na publicidade dos grandes monopólios norte-americanos), o primeiro com skate, o segundo com um gato e o terceiro jogando com um bilboquê. Ou ainda, por que não?, uma moça nua, cujas medidas pode escolher cuidadosamente antes de concretizar a imagem. Ou uma ampla panorâmica de uma praia montevideana, com uma área de barracas de cores muito vivas e outra, em compensação, quase deserta, com um velho, barbudo, de short, acompanhado de um cão que contempla o dono em estado de rígida lealdade. Então o telefone tocou e foi muito fácil esticar a mão. Era uma boa amiga que, é claro, sabia da operação, mas que não perguntou como estava nem se tudo tinha corrido bem. Também sabia que o apartamento de Las Heras e Pueyrredón não dava para a rua, excepto por uma janelinha do banheiro de onde se viam três ou quatro metros da praça. No entanto, disse: estou ligando só para se debruçar na varanda e ver que lindo desfile militar, bem em frente à sua casa. E desligou. Então ele disse à mulher que olhasse pela janelinha do banheiro. O previsível: uma blitz.
Temos que queimar algumas coisas, disse ele, e imaginou o olhar preocupado de sua mulher. Apesar da urgência, tratou de tranquilizá-la um pouco: não tem nada de clandestino, mas se entram aqui e encontram coisas que podem ser compradas em qualquer quiosque, como os relatos de Che ou a Segunda Declaração de Havana (não digo Fanon ou Gramsci ou Lukács, pois não sabem quem são), ou alguns números da revista Militância ou do jornal Notícias, isso basta para nos trazer problemas. Ela foi queimando livros e jornais, dando olhadas esporádicas ao pedacinho de praça. Teve que abrir outras janelas (as que davam para o jardim dos fundos, que separava os dois blocos) para que saíssem a fumaça e o cheiro de queimado. E assim foi durante vinte minutos. Ele tratava de orientá-la: na segunda estante, o quarto e o quinto livros à esquerda, é Estética e marxismo, em dois tomos. Viu? Óptimo, na estante de baixo estão Relatos da guerra revolucionária e O Estado e a Revolução. Ela perguntou se devia queimar também O cinema socialista e Marx e Picasso. Ele disse que queimasse primeiro os outros. Esses eram mais fáceis de explicar. Não jogue as cinzas na lixeira. Use a descarga. A fumaça o fez tossir um pouco. Será que não vai fazer mal a seus olhos? Pode ser, mas temos que escolher o mal menor. Além do mais, creio que não. Estão bem tapados. O telefone voltou a tocar. A amiga de novo: e então? Gostou do desfile? Pena que terminou tão rápido, não é? Sim, disse ele respirando fundo, foi magnífico. Que disciplina, que cor, que elegância. Os desfiles de soldadinhos me fascinavam desde quando era um moleque. Obrigado por avisar. Bom, não precisa queimar mais. Ao menos por hoje. Já se foram. Ela também respirou, recolheu com a pá as últimas cinzas, jogou na privada, deu a descarga, verificou se tinham sido levadas pela água, lavou as mãos e veio sentar-se, já relaxada, ao lado da cama. Ele conseguiu pegar sua mão. Amanhã queimamos o resto, disse ela, mas com calma. Tenho pena. São textos dos quais preciso, às vezes. Tratou então de pensar no cavalo verde sob a chuva. Mas sem saber bem por que, o cavalo agora era preto retinto e montado por um robusto cavaleiro que usava quepe mas não tinha rosto. Pelo menos ele não conseguia distingui-lo na parede interior de suas pálpebras». In Mario Benedetti, Primavera num Espelho Partido, 1982, Alfaguara, (Editora Objectiva), 2011, ISBN 978-857 962-104-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Primavera num Espelho Partido. Mario Benedetti. «Na nova cidade havia novas rotas. De rota vem derrota, já sei. Nossa derrota pode não ser total, mas é derrota. Já tinha entendido, mas pude confirmá-lo totalmente…»

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Dom Rafael. Derrota e rota
«O essencial é adaptar-se. Já sei que com essa idade é difícil. Quase impossível. E contudo. Afinal de contas, o meu exílio é meu. Nem todos têm um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. Tentativa inútil. Transformei-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem uma revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. É assim com todo o resto. No princípio, andava com uma bengala, como convém, talvez, aos meus sessenta e sete anos. Mas não era coisa da idade. Era uma consequência do desalento. Lá, sempre fazia o mesmo caminho ao voltar para casa. E aqui isso me fazia falta. As pessoas não entendem esse tipo de nostalgia. Acreditam que a nostalgia só tem a ver com céus e árvores e mulheres. No máximo, com militância política. A pátria, enfim. Mas eu sempre tive nostalgias mais cinzentas, mais opacas. Essa, por exemplo. O caminho de volta para casa. Uma tranquilidade, um sossego, saber o que vem depois de cada esquina, de cada sinal, de cada banca de jornal. Aqui, em compensação, comecei a caminhar e a me surpreender. E a surpresa fatigava-me. E ainda por cima, você não chega em casa, mas chega à residência. Cansado de surpreender-me, isso sim. Talvez tenha sido por isso que recorri à bengala. Para amenizar tantas surpresas. Ou talvez para que os compatriotas que ia encontrando me dissessem: mas, dom Rafael, lá o senhor não usava bengala, e eu pudesse responder: bem, vocês também não usavam fato. Surpresa por surpresa. Um desses assombros foi uma loja com máscaras de cores um pouco abusivas, hipnotizantes. Não conseguia habituar-me às máscaras, embora sempre tenham sido as mesmas. Mas junto com a recorrência das máscaras, repetia-se também o meu desejo, ou talvez a minha expectativa, de que as máscaras mudassem, e diariamente me assombrava ao encontrar as mesmas. E então a bengala me ajudava. Porquê? Para quê? Bem, para apoiar-me quando essa modesta decepção me assaltava, quer dizer, quando comprovava que as máscaras não haviam mudado. E devo reconhecer que a minha expectativa não era tão absurda. Porque a máscara não é um rosto. É um artifício, não? Um rosto só muda por acidente. Na sua estrutura, digo; não na sua expressão, que, essa sim, é variável. Em compensação, uma máscara pode mudar por mil motivos. Digamos: por ensaio, por experimentação, por ajuste, por melhoria, por deterioração, por substituição. Só depois de três meses compreendi que não podia esperar nada das máscaras. Não iam mudar, aquelas insistentes, aquelas turronas. E comecei a fixar-me nos rostos. E afinal, foi uma boa troca. Os rostos não se repetiam. Vinham para mim, e deixei a bengala. Já não precisava de me apoiar para suportar o espanto. Talvez um rosto não mude com os dias, mas com os anos; no entanto, os que vinham a mim (com excepção de uma mendiga ossuda e tímida) eram sempre novos. E com eles vinham todas as classes sociais, em carros impressionantes, em carrinhos modestos, em autocarros, em cadeiras de rodas ou simplesmente caminhando. Parei de sentir falta do caminho, montevideano e conhecido, da volta a casa. Na nova cidade havia novas rotas. De rota vem derrota, já sei. Nossa derrota pode não ser total, mas é derrota. Já tinha entendido, mas pude confirmá-lo totalmente quando dei a minha primeira aula. O aluno pôs-se de pé e pediu permissão para perguntar. E perguntou: mestre, por que razão o seu país, uma democracia liberal estabelecida, passou tão rápido a ser uma ditadura militar? Pedi que não me chamasse de mestre. Não é nosso costume. Mas pedi isso apenas para poder organizar a resposta. Repeti o consabido: que o processo começou muito antes, não na calma, mas no subsolo da calma. E fui anotando na lousa as várias rubricas, os períodos, as caracterizações, os corolários. O rapaz concordou. E li em seus olhos compreensivos toda a dimensão da minha derrota, da minha rota. E desde então volto cada tarde por um rota distinta. Por outro lado, agora já não regresso a uma residência. Tampouco é uma casa. É simplesmente um apartamento, ou seja, um simulacro de casa: uma residência com agregados. Mas a nova cidade me agrada, porque não? Sua gente, menos mal, tem defeitos. E é muito divertido especializar-me neles. As virtudes, é claro que também as possuem, são geralmente tediosas. Os defeitos, não. O pedantismo, por exemplo, é uma zona prodigiosa, na qual nunca acabo de especializar-me. Minha bengala, sem ir mais longe, era um indício de pedantismo, e obviamente tive que abandoná-la. Quando me sinto pedante, me deprecio um pouquinho, e isso é péssimo. Porque nunca é bom depreciar-se, a menos que existam razões bem fundadas, o que não é meu caso». In Mario Benedetti, Primavera num Espelho Partido, 1982, Alfaguara, (Editora Objectiva), 2011, ISBN 978-857 962-104-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT