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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Improvisos de Bocage. Manuel Maria B. du Bocage. «Monumento honrador da Humanidade, (se o Fado me sumir da Morte no Ermo), grato vos deixa cordial Saudade»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aos Amigos
I
«Terno Paz, bom Maneschi, Aurélio caro,
Alvares extremoso, Almeida humano,
Ferrão prestante, valedor Montano,
Moniz, que extrais teu nome ao Tempo avaro:

Freire, Viana, Blancheville, ó raro,
Moral tesoiro, que possui Elmano;
Sócio de Flora; e tu de som Tebano
Ó Cisne! E tu, Cardoso, em letras claro:

Monumento honrador da Humanidade,
(Se o Fado me sumir da Morte no Ermo)
Grato vos deixa cordial Saudade.

Ireis nos versos meus do Globo ao termo,
Por serdes, com benéfica Piedade,
Núncios, Núncios de um Deus ao Vate enfermo».

II
«Se o Grande, o que nos Orbes diamantinos
Tem curvos a seus pés dos Reis os Fados,
Novamente me der ver amimados
De modesta Ventura os meus Destinos;

Se acordarem na Lira os sons Divinos,
Que dormem (já da Gloria não lembrados)
Ao Côro etéreo, cândidos, e alados,
Honrar com Ele hum Deus ireis, meus hinos.

Mas, da humana Carreira inda no meio,
Se a débil flor vital sentir murchada
Por Lei que envolta na existência veio;

Co'a mente pelos Céus toda espraiada,
Direi, de Eternidade ufano, e cheio:
A Deus, ó Mundo! ó Natureza! ó Nada!»

III
«Pela voz do Trovão Corisco intenso
Clama, que á Natureza impera hum Ente,
Que cinge do áureo Dia o véu ridente,
Que veste d'atra Noite o manto denso.

Pasmar na Imensidade é crer o Imenso:
Tudo em nós o requer, o adora, o sente.
Provam-te olhos, ouvidos, peito, e mente?
Numen! Eu oiço, eu olho, eu sinto, eu penso.

Tua Ideia, ó Grão Ser, ó Ser Divino,
Me he vida, se me dão mortal desmaio
Males que sofro, e males que imagino.

Nunca Impiedade em mim fez bruto ensaio:
Sempre (até das Paixões no desatino)
Tua Clemência amei, temi teu Raio».
[…]

In Manuel Maria B. du Bocage, Improvisos de Bocage, Lisboa, Impressão Régia, 1805, Por Ordem Superior, Wikipédia.

Cortesia de ImpressãoRégia/Wikipédia/JDACT

terça-feira, 13 de março de 2018

Manuel Maria Barbosa du Bocage. Poesia. «Amor que diga qual é mais bela, qual é mais pura, se tu, ou ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Rosa
«Tu, flor de Vénus,
Corada Rosa,
Leda, fragrante,
Pura, mimosa.

Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores.

Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a nocturna
Lua inconstante.

Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.

O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor.

Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos.

Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favónio
Te dá mil beijos.

Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve e suspira.

A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera.

Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.

Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela.

Que diga Vénus…
Ela aí vem…
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem».

Poema de Bocage, in “A Rosa, canconeta anacreôntica”

Cortesia de Portal da Literatura/JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Poesia. Eróticas, Satíricas e Burlescas. Bocage. «… essa da Rússia imperatriz famosa, que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta) entre mil pi… expirou vaidosa»

jdact

Soneto de todas as …

«Não lamentes, ó Nize, o teu estado;

p… tem sido muita gente boa;

pu… fidalgas tem Lisboa,

milhões de vezes p… têm reinado;



Dido foi p…, e p… de um soldado;

Cleópatra por p… alcançou a coroa;

tu, Lucrécia, com toda a tua proa,

o teu co... não passa por honrado:




que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta)

entre mil pi… expirou vaidosa;



Todas no mundo dão a sua gre…;

não fiques pois, ó Nize, duvidosa

que isso de virgem e honra é tudo peta».



Soneto de todos os cor…

«Não lamentes, Alcino, o teu estado,

Cor… tem sido muita gente boa;

Cor… fidalgos tem Lisboa,

milhões de vezes cor… têm reinado.



Siceu foi cor…, e cor… de um soldado;

Marco António por cor… perdeu coroa;

anfitrião com toda a sua proa

na fábula não passa por honrado;



Um rei Fernando foi cab… famoso

(segundo a antiga letra da gazeta)

e entre mil cor… expirou vaidoso;



tudo no mundo está sujeito à gre…;

não fiques mais, Alcino, duvidoso,

pois isto de ser cor… é tudo peta».



In Bocage, Poesia, Eróticas, Satíricas e Burlescas, Projecto Livro Livre, livro 270, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes, 2014.


Cortesia de IMendes/JDACT

segunda-feira, 27 de março de 2017

Poesia. Eróticas, Satíricas e Burlescas. Bocage. «Devoto incensador de mil deidades, (digo de moças mil) num só momento. Inimigo de hipócritas, e frades»

jdact

Auto-retrato
«Magro, de olhos azuis, carão moreno,

bem servido de pés, médio na altura,

triste de cara, o mesmo de figura,

nariz alto no meio, e não pequeno.


Incapaz de assistir num só terreno,

mais propenso ao furor do que à ternura,

bebendo em níveas mãos por taça escura

de zelos infernais letal veneno.



(digo de moças mil) num só momento.

Inimigo de hipócritas, e frades.


Eis Bocage, em quem luz algum talento;

saíram dele mesmo estas verdades

num dia, em que se achou cagando ao vento».


Soneto do membro monstruoso
«Esse disforme, e rígido porás

do rosto me faz perder a cor;

e assombrado de espanto, e de terror

dar mais de cinco passos para trás;


A espada do membrudo Ferrabrás

decerto não metia mais horror;

esse membro é capaz até de pôr

a amotinada Europa toda em paz.


Creio que nas f… recreações

não te hão de a rija máquina sofrer

os mais corridos, sórdidos cações;


de Vénus não desfrutas o prazer;

que esse monstro, que alojas nos calções,

é pi… de mostrar, não de f…»


Soneto (des)pejado
«Num capote embrulhado, ao pé de Armia,

que tinha perto a mãe o chá fazendo,

na linda mão lhe foi (oh céus) metendo

O meu …, que de amor fervia;


entre o susto, entre o pudor, a moça ardia;

e eu solapado os beijos remordendo,

pela fisga da saia a mão crescendo

a cha… saca… lhe fazia;


começa a … a menina... Ah! Que vergonha!

Que tens?, diz-lhe a mãe sobressaltada;

Não pôde ela encobrir na mão ...;


sufocada ficou, a mãe corada;

Finda a partida, e mais do que medonha

A noite começou à bofetada».
[…]


In Bocage, Poesia, Eróticas, Satíricas e Burlescas, Projecto Livro Livre, livro 270, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A morte de D Ignez de Castro. Cantata. Bocage. «Toldaõ-se os ares, murchaõ-se as flores: morrei, Amores, que Ignez morreo. Misero Esposo, desata o pranto, que o teu encanto já naõ he teu»

jdact

«As filhas do Mondego a morte escura, longo tempo, chorando, memória». Luís de Camões

De acordo com o original

Cantata
[…]
Ah! Que fausta Visaõ de Ignez se apossa!
Que scena, que espectaculo assombroso
A paixaõ lhe afigura aos olhos d'alma!
Em marmóreo salaõ de altas columnas
A Sólio magestoso, e rutilante
Junto ao regio Amador se crê subida;
Graças de neve a púrpura lhe envolve,
Pende augusto Docel do tecto de oiro;
Rico Diadema de radioso esmalte
Lhe cobre as tranças, mais formosas que elle;
Nos luzentes degráos do Throno excelso
Pompósos Cortezãos o orgulho acurvaõ;
A Lisonja sagaz lhe adoça os lábios,
O Monstro da Politica se aterra,
E se Ignez perseguia, Ignez adora.

Ella escuta os extremos,
Os vivas populares, vê o Amante
Nos olhos estudar-lhe as leis que dicta;
O prazer a transporta, Amor a encanta;
Premios, dádivas mil ao Justo, ao Sábio
Magnanima confere,
Rainha esquece o que soffreo Vassalla:
De sublimes acções orna a Grandeza,
Felicita os Mortaes, do Sceptro he digna,
Impera em corações... mas Ceos! Qu'estrondo
O sonho encantador lhe desvanece!
Ignez sobresaltada
Desperta, e de repente aos olhos turvos
Da vistosa illusaõ lhe foge o quadro.
Ministros do Furor, tres vís Algozes,
De buidos punhaes a dextra armada,
Contra a bella Infeliz bramindo avançaõ.
Ella grita, ella treme, ella descóra,
Os Fructos da ternura ao seio aperta,
Invocando a piedade, os Ceos, o Amante;
Mas de marmore aos ais, de bronze ao pranto,
Á suave attracçaõ da formosura,
Vós, bruto Assassinos,
No peito lhe enterrais os ímpios ferros.

Cahe nas sombras da Morte
A Victima de Amor, lavada em sangue,
As rosas, os jasmins da face amena
Para sempre desbotaõ.
Dos olhos se lhe sóme o doce lume,
E no fatal momento
Balbucia, arquejando: "Esposo, Esposo."
Os tristes Innocentes
Á triste Mãi se abraçaõ,
E soltaõ de agonia inutil chôro.
Ao suspiro exhalado,
Final suspiro da formosa Extincta,
Os Amores acodem.
Mostra a Próle de Ignez, e a tua, ó Venus,
Igual consternaçaõ, e igual belleza:
Huns dos outros os candidos Meninos
Só nas azas differem,
(Que jazem pelo campo em mil pedaços
Carcazes de marfim, virotes de oiro)
Súbito voaõ dois do Côro alado:
Este, raivoso, a demandar vingança
No Tribunal de Jóve,
Aquelle a conduzir o infausto annuncio
Ao descuidado Amante.

Nas cem tubas da Fama o graõ desastre
Irá pelo Universo:
Haõ de chorar-te, Ignez, na Hircania os Tigres,
No torrado Certaõ da Libya féra
As Sérpes, os Leões haõ de chorar-te.
Do Mondego, que attonito recua,
Do sentido Mondego as alvas Filhas
Em tropel doloroso
Das urnas de crystal eis vem surgindo,
Eis, attentas no horror do caso infando,
Terriveis maldições dos lábios vibraõ
Aos Monstros infernaes, que vaõ fugindo.
Já crôaõ de cipreste a Malfadada,
E, arrepejando as nítidas madeixas,
Lhe urdem saudosas, lúgubres endeixas.
Tu, Eco, as decoraste,
E, cortadas dos ais, assim resoaõ
Nos côncavos penedos, que magoaõ:

Toldaõ-se os ares,
Murchaõ-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Ignez morreo.
Misero Esposo,

Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já naõ he teu.

Sua alma pura
Nos Ceos se encerra:
Triste da Terra
Porque a perdeo!

Contra a cruenta
Raiva ferina
Face divina
Naõ lhe valeo.

Tem rôto o seio,
Thesouro occulto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveo.

De dôr, e espanto
No carro de oiro
O Numen loiro
Desfaleceo.

Aves sinistras
Aqui piáraõ,
Lobos uiváraõ,
O chaõ tremeo.

Toldaõ-se os ares,
Murchaõ-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Ignez morreo».
Cantata de Bocage, in ‘A Morte de D. Ignez de Castro’

In Manuel Maria Barbosa du Bocage e Luiz de Camões, A morte de D Ignez de Castro, Cantata, Bocage, The Project Gutenberg, Produção de Tiago Tejo, Cantata, A Morte de D. Ignez, 2007, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1824.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

A morte de D Ignez de Castro. Cantata. Bocage. «Lê, suspira, meu Bem, vendo hum composto de raras perfeições aniquilado por maõs do Crime, á Natureza opposto. Tu és cópia de Ignez, encanto amado, tu tens seu coraçaõ, tu tens seu rosto... Ah! Defendaõ-te os Ceos de ter seu Fado»

jdact

«As filhas do Mondego a morte escura, longo tempo, chorando, memória». Luís de Camões

De acordo com o original

Aulina. Soneto
«Da miseranda Ignez o caso triste,
Nos tristes sons que a magoa desafina,
Envia o terno Elmano á terna Ulina,
Em cujos olhos seu prazer consiste.
Paixaõ que se a sentir naõ lhe resiste
Nem nos brutos certões Alma ferina,
Belleza funestou quasi divina,
De que a memoria em lagrimas existe.
Lê, suspira, meu Bem, vendo hum composto
De raras perfeições aniquilado
Por maõs do Crime, á Natureza opposto.
Tu és cópia de Ignez, encanto amado,
Tu tens seu coraçaõ, tu tens seu rosto...
Ah! Defendaõ-te os Ceos de ter seu Fado».


Cantata
«Longe do caro Esposo Ignez formosa
Na margem do Mondego,
As amorosas faces aljofrava
De mavioso pranto.
Os melindrosos, candidos Penhores
Do Thálamo furtivo,
Os Filhinhos gentís, imagem della,
No regaço da Mãi serenos gozaõ
O somno da Innocencia.
Côro subtil de alígeros Favónios,
Que os ares embrandece,
Ora enlevado afaga
Com as plumas azues o Par mimoso,
Ora, sôlto, inquieto

Em léda travessurá, em doce brinco,
Pela Amante saudosa,
Pelos tenros Meninos se reparte,
E com ténue murmúrio vai prender-se
Das aureas tranças nos anneis brilhantes.
Primavera louçãa, Quadra macia
Da ternuia, e das flores,
Que á bella Natureza o seio esmaltas,
Que no prazer de Amor ao Mundo apuras
O prazer da existencia,
Tu de Ignez lacrimosa

As mágoas naõ distrahes com teus encantos.
Debalde o Rouxinol, cantor de amores,
Nos versos naturaes os sons varía,
O límpido Mondego em vaõ serpêa
C'um benigno susurro, entre boninas
De lustroso matiz, almo perfume;
Em vaõ se doira o Sol de luz mais viva,
Os Ceos de mais pureza em vaõ se adornaõ
Por divertir-te, ó Castro:
Objectos de alegria Amor enjoaõ
Se Amor he desgraçado.
A meiga voz dos zephyros, do rio
Naõ te convida o somno:
Só de já fatigada
Na luta de amargosos pensamentos,
Cerras, misera, os olhos;
Maõ naõ ha para ti, para os Amantes
Somno plácido, e mudo;
Naõ dorme a fantasia, Amor naõ dorme:
Ou gratas illusões, ou negros sonhos
Assomando na idéa, espertaõ, rompem
O silencio da Morte».
[…]

In Manuel Maria Barbosa du Bocage e Luiz de Camões, A morte de D Ignez de Castro, Cantata, Bocage, The Project Gutenberg, Produção de Tiago Tejo, Cantata, A Morte de D. Ignez, 2007, Lisboa, Typographia Rollandiana, 1824.

Cortesia de PGutenberg/JDACT

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Bocage. Retratos. Fantasmas. Desencantos. Teresa Duarte Carvalho. «… como as Cantatas, as Epístolas, as Odes ou os Idílios, revelará, desde logo, uma tensão dialéctica entre a memória e o esquecimento, a traduzir o receio de ficar aquém do limiar da eternidade que tanto o atraía»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não tremo de que os séculos me ultrajem:
lá (mercê do pincel, mercê do canto)
meu nome viverá, e a minha imagem».
In Bocage

«A erosão do Tempo conduz à morte. O retrato realiza, pelo seu poder mágico, uma luta contra a morte: ele traz, na ilusão dos volumes, nas sombras do rosto, nos contrastes da alma, na luz pessoal e nos seus sinais, dispersos pelos contornos, um tempo que sobrevive ao Tempo. A morte pode transformar-se, assim, numa cortina para além da qual os vivos do passado continuam a viver no presente. Manuel Maria Barbosa du Bocage parece ter acreditado, como poucos, na possibilidade de atravessar essa cortina. Os versos, dirigidos pelo poeta a um membro da maçonaria que havia composto um soneto na presença do retrato do Senhor Bocage, que muito [o] enterneceu, são disso um óbvio sinal. Com menor clareza, mas, ainda assim, suficiente para o leitor atento, se apresentam algumas composições em que a confiança no talento próprio e na imortalidade poética é notória. Refiro-me, concretamente, quer às composições em que, de forma directa, se dirige ao leitor vindouro (Incultas produções da mocidade / exponho a vossos olhos, ó leitores, soneto 5), quer àquelas que o pressupõem (Quer tristes, quer ditosos amadores, / hão-de falar de mim com dor e espanto). E muitas foram as vezes em que se lhe dirigiu: para fazer coincidir alguma produção poética com a voz da dependência, a que o obrigara a vida instável; para fundamentar certa falta de melodia, pois, em princípio, não pode cantar com melodia / um peito, de gemer cansado e rouco, (soneto 6). A verdade é que, muito embora Bocage parecesse acreditar que a sua imagem literária reunia atributos suficientes para viver depois da morte, e estava certo, uma leitura de superfície, quer da parcela mais conhecida da sua obra poética, os Sonetos, modalidade em que se revela dos mais perfeitos cultores, quer de outros pelouros menos conhecidos da sua escrita, como as Cantatas, as Epístolas, as Odes ou os Idílios, revelará, desde logo, uma tensão dialéctica entre a memória e o esquecimento, a traduzir o receio de ficar aquém do limiar da eternidade que tanto o atraía. Com efeito, de um lado, surge-nos um profuso leque de expressões que aponta claramente no sentido da imortalidade, a que aspira toda a grande criação literária: perpétua fama, grau sublime, nome permanente, padrões e estátuas, véu da eternidade, posteridade, imortal memória e até um Letes preguiçoso; do outro, as formas do apagamento e da morte: o esquecimento, negro e mudo; o Tempo, que gastará, que tudo gasta, como faz questão de sublinhar num idílio; os próprios letreiros da Morte! Oh lei do Fado! / É verdade, é verdade: acaba tudo (soneto 368).
A complexa personalidade poética de Bocage permitiu que, ao longo do tempo, dele se tivessem traçado múltiplos retratos. Começo justamente por aquele que, sendo falso, nunca é demais apresentar, para pôr de lado ou destruir, retrato pintado com tintas malévolas de gosto plebeu, que lhe mancharam a imagem e que sucessivas gerações se habituaram a fixar na parede lisa da comodidade. Nele sobressaem, mais que os olhos azuis ou o nariz alto no meio e não pequeno (soneto 1), uns lábios finos, pelo riso nunca unidos, donde brota um anedotário sem fim que não deixa fissura para a grandeza do seu amplo universo poético, tão marcado pelo lirismo. Sobre este retrato (que, decerto, poria rubras as magras maçãs do rosto do poeta sadino) não luz qualquer talento, traço de que se serviu, com acerto, para a si mesmo se retratar. Perante o perfil desenhado, Bocage repetiria talvez, pudesse ele, a pergunta que, num soneto, a si próprio fizera, ao ver-se envolvido nos braços de uma dama venal: Céus! Quem me reduziu a tal baixeza? (soneto 117). Dir-se-ia que foi a sua própria fama, mais difundida que a obra, excessiva fama que, de clima em clima, nas suas próprias palavras, bebidas em Ovídio, por cem bocas, alígera, semeia.
Houve quem, optando pela linha satírica, preferisse retratá-lo de corpo inteiro, com um pé mergulhado nos botequins das horas tardias da improvisação repentista e maldizente, outro no lodo, a que conduziu a baixa boémia. Na mesma linha, outros, mais fixados no rosto (que no retrato anterior, entretanto, se afundava), desalinharam-lhe irremediavelmente a cabeleira, carregaram demais no azul revolto dos olhos, para os fazer sair das órbitas, esquecidos dos sombreados, das horas de solidão amargamente vividas na residência fixa que a Inquisição (maldita) por duas vezes lhe impôs (das poucas que teve), da entrega ao trabalho disciplinado. Há perfis cujo desenho não se coaduna com suposições apressadas e que exigem o domínio do claro-escuro: Bocage não foi apenas o boémio improvisador, foi também o burilador dos seus versos, o estudioso da tradição clássica, o homem de vasta cultura humanística, tão presente na sua obra, o tradutor elogiado, até por Garrett. Com fundada razão, afirmou Hernâni Cidade que ele soube erguer do lodo os pés jamais nele presos, posto que, mais de uma vez, fundamente mergulhados». In Teresa Duarte Carvalho, Bocage, Retratos, Fantasmas, Desencantos, Revista Humanitas nº LXII, Universidade de Coimbra, 2010, ISSN 0871-1569.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Vida Breve. Poesia. «Da verdade não quero mais que a vida. Sob a leve tutela de deuses descuidosos, quero gastar as concedidas horas desta fadada vida. Nada podendo contra o ser que me fizeram, desejo ao menos que me haja o Fado dado a paz por destino»

jdact

Próximo aos Seus Últimos Dias
Ave da morte, que piando agouros
tinges meus ares de funéreo luto!
Ave da morte (que em teus ais a escuto),
meus dias murcharás, mas não meus louros:

Doou-me Febo aos séculos vindouros,
deponho a flor da vida, e guardo o fruto,
pagando em vil matéria um vão tributo,
retenho a posse de imortais tesouros.

Nome no tempo e ser na eternidade!
Que fado! Ó ponto escuro, assoma embora,
dê-me o piedoso adeus comum saudade:

E rindo-me na campa os dons de Flora,
mais do que eles a adorne esta verdade:
“Lísia cantava Elmano e Lísia o chora”.


Sobre o Mesmo Assunto
Nestóreos dias, que sonhava Elmano,
brilhantes de almos gostos, d'áurea sorte,
pomposa fantasia, audaz transporte,
as asas cerceai do orgulho insano:

Plano de um nume contradiz meu plano,
e quer que se esvaeça, e quer que aborte;
eis, eis palpita, precursor da morte,
No túmido aneurisma o desengano:

Adeus, ó génios que Olisseia admira!
Cantor, que honrastes, honrareis cantores,
versos, pranto lhe dai, que Elmano expira

deixai-lhe a cinza em paz, fatais Amores;
e vós do extinto vate a campa, e lira,
virtudes, que exaltou, cobri de flores!


Ditado entre as Agonias do seu Trânsito Final
Já Bocage não sou!... À cova escura
meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
leve me torne sempre a terra dura:

Conheço agora já quão vã figura
em prosa e verso fez meu louco intento;
musa!... Tivera algum merecimento
se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
brade em alto pregão à mocidade,
que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
rasga meus versos, crê na eternidade!

Sonetos de Bocage, in ‘Sonetos’

JDACT