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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Infante Henrique. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Pois o pae mandara ‘trigosamente’ cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão…»

jdact

A Tomada de Ceuta
«(…) Nun’Alvares desceu a estreitar nos braços o antigo companheiro de armas, e divagando os dous em passeio, João I narrou ao amigo tudo o que havia acerca do designio da empreza de Ceuta. Ouvio-o o condestavel serenamente a principio, mas depois as lagrimas soltaram-se-lhe de entre as palpebras cansadas, e proferiu, tremente a voz: pois eu vos digo que esse feito foi inspirado por Deus! João I exultou com o parecer de Nun’Alvares e comoveu-se tambem. E os dous entreolhando-se, sentiram a um tempo nos corações amigos a mesma saudade pelos dias idos de gloria e ardor. Porém era necessario cuidar dos novos que tambem almejavam glorioso futuro. E o condestavel, sempre bom, sempre leal, recommendava ao rei: reuni conselho que eu serei comvosco. Separaram-se. O rei e o infante Pedro volveram a Santarem e os dous outros infantes foram para Evora, de onde haviam partido. Os infantes socegaram e razão tinham. Pois o pae mandara trigosamente cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão, punha a postos toda a sua gente: patrões, alcaides, arraes, pintitaes, comitres, besteiros, galeotes e marinheiros; João Alfonso Azambuja dava ordem a Ruy Peres Alandroal, thesoureiro da moeda, para que as fornalhas de fundição estivessem sempre a trabalhar, á uma; e o Gomide, escrivão da puridade, e o ajudante Caldeira iam escrevendo a todos os Anadeis para que fizessem seus alardos de besteiros e arricaveiros e mandassem relação das forças nos alcaizes, ou livros de revistas. A azafama era grande nos preparativos da expedição, da qual se ignorava o destino.
Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Magdalena e de Villa Nova, os arcabouços das galés e naus e galeotas em construcção arqueavam-se como costellas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos dobadoyras aprestavam-se a lançar á agua as embarcações já promptas; estrinqueiros torciam e retorciam a cordoalha; enxerqueiras preparavam carne e pescado para as armadas; accorriam a Lisboa as mesnadas da Beira, da Extremadura e do Alemtejo, apresentando-se ao infante Pedro, que tinha a seu cargo commandal’as e fazel’as embarcar na frota que organisava; e as do Minho e Traz os-Montes eram trazidas pelo conde de Barcellos ao Porto, onde o infante Henrique, auxiliado pelo senado, dirigia os preparativos fadigosos da expedição e em cuja cidade Bento Fernandes e João Basto levantavam um grande numero de besteiros e galeotes. Toda essa decisão de trabalho fora resultado do tal conselho que Nun’Alvares induzira o rei a reunir. Tivera elle lugar em Torres Vedras.
Viera o rei João I, de Cintra, e os infantes Henrique e Pedro chegaram de Tentugal. Approximava-se o infante Henrique da villa e encontrando o pae, beijou-lhe a mão e pediu-lhe: Senhor, quando formos em nossa sagrada expedição, que seja eu o primeiro que filhe terra, vos peço. E accrescentara: quando vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que va primeiro por ella, que outro algu. E o pae, rindo, retorquiu-lhe: em tempo proprio te darei resposta. E foram todos ao conselho: rei, infantes, Nun’Alvares e os maioraes da corte. O condestavel dissera a João I que apresentasse o negocio como feito já determinado, e socegava-o: fallai assim que eu serei comvosco. E todos, crentes, ouviram, em antes da reuniao, missa do Espirito Santo. Depois o rei fallou, fallou, allegando não querer guerrear christãos e só almejar combater os infieis, em gracas a Jesus Senhor Nosso. Ouviam todos, silenciosos. O rei, afinal, pediu conselho. O infante Duarte devia ser o primeiro a fallar; desistiu comtudo em favor do condestavel, como se combinara. E este com o seu aspecto patriarchal, grave, sereno, como uma visão do passado, alii mostrou na sua phrase suasoria toda a importancia e justica da empreza. E terminando ajoelhara-se aos pes do rei, oferecendo-lhe mais uma vez a sua espada gloriosa de cavalleiro. Todos se electrisaram ao ouvirem o condestavel; alii haviam estado os bons veteranos de Valverde e Aljubarrota, escutando a voz do cavalleiro-modelo, attentos, mas aquellas phrases suggestionadoras de impetos bellicosos, João Gomes Silva, um dos antigos, enthusiasmado, encarou os companheiros das lides passadas, em todos elles já as cans se destacavam, e gritou-lhes: russos, além! Além, assim seja, apoiaram os outros. Os velhos de Aljubarrota, os de cabellos brancos, os russos tinham de ir levar os rapazes á conquista da gloria, pois não! Além! Além!, clamavam todos, abraçando-se». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Galant de bien ferre, Memória Histórica, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de TCommercioPorto/1894/JDACT

domingo, 7 de junho de 2015

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «Todavia, no caso em que o homem de ciência, obcecado pelas suas ideias a ‘priori’, falseia os resultados, ou supõe lícito interpretá-los abusivamente de modo favorável ao seu ponto de vista…»

jdact

«(…)
Sobre o Descobrimento da América. Uma pedra e um mapa I
Começarei pela pedra com inscrições, que é uma fantasia relativamente recente sobre o descobrimento do nordeste da América do Norte, com honras de museu, que merecia em termos diferentes, e também com honras de réplicas, que de modo algum merece com o significado que lhe dão; iremos ver porquê. O rochedo, matéria de acesa e longa polémica, encontrava-se numa das margens do rio Tauton, mas de facto foi removido há anos para o Dighton Rock Museum, de mistura com objectos associados com os Descobrimentos portugueses, em parte ofertas do Museu da Marinha de Lisboa e em parte dádivas da Fundação Calouste Gulbenkian; isto diz-nos o médico português emigrado naquela área dos Estados Unidos, Manuel Luciano Silva, que tem sido um estrénuo defensor da teoria de a pedra ser um testemunho irrecusável da presença naquelas terras americanas, durante pelo menos quase uma década, do infeliz navegador Miguel Corte Real. Com persistência e convicção notáveis, mas também dignas de causa com melhores raízes, tem publicado folheto após folheto, escrito carta sobre carta a sucessivos governantes do nosso país, pronunciando palestra atrás de palestra em rádios lusófilas do estado americano em que se radicou (e em que vivem inúmeros portugueses) e indo até ao limite de romper relações pessoais com quem põe sérias dúvidas em decifrar no pedregulho o que ele lá teima em ler e ver. Como se divergências de leituras epigráficas tivessem alguma coisa a ver com o possível convívio amável entre os que vivem a mesma época e falam a mesma língua materna.
E, no entanto, a celebridade da pedra de Dighton não começou por diligências deste médico beirão; iniciou-se até uns dez anos antes de ele ter nascido. De facto, Edmund Delabarre, professor da Brown University, e por sinal professor de Psicologia, interessado nas inscrições gravadas em pedras da região, publicou em 1916 um primeiro artigo sobre o rochedo do rio Tauton e o emaranhado das inscrições que nele se desenharam; outros artigos seus se seguiram, e a teoria, sobre a pedra acabou por ser exposta num volumoso livro (360 páginas) intitulado The Dighton Rock, que saiu a lume em 1928 na cidade de Nova Iorque. Delabarre teve a princípio naturais perplexidades perante os traços entrecruzados e sobrepostos do rochedo; e quem quer que o tenha visto (vi-o ainda junto do rio Tauton há muitos anos) logo compreende as dúvidas iniciais do professor americano; dúvidas que também então me assaltaram, e, o que é mais sério, igualmente intrigaram peritos em epigrafia; não o sou, nem o era Delabalre, nem o é, que eu saiba, Manuel Luciano Silva.
Perante essas dificuldades lembrou-se Delabarre de fotografar a pedra iluminada artificialmente; penso que com diversas luzes, e estou certo que de vários ângulos de incidência; entre as muitas fotografias feitas, algumas foram colhidas quando no traçado fez incidir uma luz rasante. Isto foi realizado em meados de 1918, e marcou o ponto de partida de uma contenda histórica, que devia estar encerrada há muito tempo, mas continua viva, e agora com pompa, graças à teimosia daquele nosso compatriota. Metido em casa com as suas fotografias, Edmund Delabarre começou a procurar nelas a confirmação de ideias que o perseguiam, ou seja, a ver no conjunto de traços rectilíneos e curvilíneos das mais variadas formas, que tinha na sua frente, o que desejava ver. Seja-me permitida aqui uma reflexão à margem. Em qualquer ciência, mesmo a mais ligada à parte experimental (e muitas vezes não é bem claro para mim onde se encontra a raia de demarcação entre o teórico e o experimental…), em qualquer ciência, ia dizendo, parte-se naturalmente de hipóteses, que análises insistentes e repetidos ensaios confirmam ou desmentem; e os ensaios frustrados serão decerto em muito maior número do que os resultados espantosos (haja em vista o extraordinário número de experiências inconsequentes sobre o cancro!), sem esquecer que os positivos muitas vezes se devem a um acaso feliz (estou a lembrar-me, é claro, de Fleming e da sua descoberta da penicilina!). Se um cientista falha, volta ao princípio e retoma as suas experiências noutro sentido, tendo de ser corajoso e repetir o caminho tantas vezes quantas as necessárias para chegar a algum resultado, ou morrer sem lamentavelmente ter contribuído com qualquer novidade, por ínfima que seja, para a ciência por si cultivada. Nenhum mal vem daí ao mundo, para além do lamentável tempo perdido pelo cientista fracassado.
Todavia, no caso em que o homem de ciência, obcecado pelas suas ideias a priori, falseia os resultados, ou supõe lícito interpretá-los abusivamente de modo favorável ao seu ponto de vista (e neste caso nem sempre haverá desonestidade…), então criam-se problemas muito graves que chegam a ter repercussões de ordem social e de ordem política (claro: estamos todos a lembrar-nos de Lissenko!) Em História também assim é, evidentemente: perante um conjunto de acontecimentos ou até de um simples facto isolado (no caso vertente, a descoberta da pedra de Dighton, coberta de sinais variados), é lícito colocar hipóteses, mas é ilícito forçar tudo e usar de batota para que elas se confirmem, por muito que tais hipotéticas conclusões forçadas sejam gratas à nossa perspicácia e à nossa argúcia». In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Um Contemporâneo do Infante Henrique. Carta a Mathieu Lugan. Alberto Pimentel. «Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos, cometeu erros, mas não é a hora própria para os relembrar. O príncipe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção benéfica na história da humanidade…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas gerais, a biografia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de tomar outro rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a feição proeminente de uma época, de que o infante Henrique foi a culminação, mas que se assinalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente prestigiosos. Como na vida de todos os heróis, há manchas, claro-escuro na vida do infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos, cometeu erros, mas não é esta a hora própria para os relembrar. O príncipe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção benéfica na história da humanidade, e marca o período que, elevando Portugal, aproveitou ao mundo todo. Mas, quanto à época, é justo, sem nunca perder de vista o infante, procurar medir a estatura dos portugueses do século XV, que com ele colaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os elementos de caracterização do espirito arrojado, leal, cavalheiresco, épico, dos inexcedíveis heróis desse tempo. A alma portuguesa era então um misto de poesia e valor, sobretudo de poesia no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, dificuldades, resistências. O infante, estimulando a coragem para as empresas marítimas, era a expressão do sentir de heróis, que avançavam sempre, contra o Mar Tenebroso, contra os mouros, os inimigos exteriores, ou contra as agitações da política interna, sem medirem os percalços do cometimento.
A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume de santidade impecável às ideias e aos sentimentos da época. A religião era mais alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por onde cada um regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e feitos, nas suas relações com Deus ou com os homens. O fanatismo religioso levava a ver inimigos naqueles que, não comungando na mesma religião, não poderiam atingir o grau de perfeição moral em que todas as crenças se purificavam. Era um preconceito do tempo, eram as ideias da época. Mas há nesse sentir, que hoje se nos afigura bárbaro, uma noção mal compreendida, posto que sincera, de que o catolicismo era a única expressão possível da civilização dos costumes. Alongados os descobrimentos marítimos pela costa ocidental da África, iniciado, com chave de oiro, o período dos factos gloriosos, que nos deram farta participação nos progressos da civilização universal, fechava-se, simultaneamente, a porta do espírito cavalheiresco que dominara o coração dos portugueses da Idade Média. Depois disso fomos guerreiros, mas não eramos já cavaleiros. Fomos ainda conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um móbil limpo de ambições mesquinhas.
O jovem rei Sebastião, voltando da sua primeira jornada a África, quis desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e ali se demorou nove ou dez dias, como ele próprio contou, meditando ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve, como uma águia, havia no tempo do infante Henrique arrancado voo para ir assombrar o mundo inteiro. Tinha pena o jovem e valoroso rei de não ser dessa época. E com razão (?). Mas Portugal havia começado a descer: Álcacer Quibir, o abismo cavado pelas mãos do imprudente monarca, breve se transformaria na sepultura de um século de glória.
Não trarei novos subsídios á biografia do infante Descobridor, de quem tantas penas ilustres se irão por certo ocupar; mas procurarei desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de um homem, que é um elemento importantíssimo de caracterização e de síntese, de um homem sem o qual essa enorme e brilhante conjugação de heróis, apostados em glorificar o nome da pátria, ficaria incompleta. Refiro-me a Álvaro Vaz Almada, que foi contemporâneo do infante Henrique, e que bem se pode chamar o último cavaleiro português. Herculano escreveu dele no Panorama: D. Álvaro, caindo morto, era o symbolo da cavallaria expirando. O próprio infante Henrique dizia de Álvaro Vaz Almada que não somente Portugal, mas também toda a Espanha, podiam ter grande gloria de criar tão famoso cavaleiro. E o rei Afonso de Nápoles e seu irmão o infante Henrique de Aragão diziam que tinham encontrado em Portugal bom pão e bom capitão. Bom capitão, Álvaro Vaz. Tal era o homem.
Resumirei, quanto me for possível, o quadro genealógico de Álvaro Vaz Almada. Sueiro Viegas Coelho, fidalgo de velha estirpe, teve dois irmãos e uma irmã. Deles, o mais velho foi frade; o outro, Gonçalo Magro, continuou-se num filho bastardo, Lourenço Gonçalves, que casou com D. Thereza Godins. Deste casamento houve dois filhos, um dos quais, Vasco Lourenço, teve por sucessor João Annes Almada, que foi chamado o Grande, e foi vedor da fazenda d'el-rei Pedro e d'el-rei Fernando. É com este cavaleiro, que por seu bom conselho, reflectida experiência, alta posição politica e aparatosa apresentação mereceu o cognome de Grande, que principia, na sua família, o apelido de Almada, pelo facto dele ser natural daquela vila. Diz António Lima, no Nobiliário, que João Annes fôra por duas vezes enviado ao estrangeiro como embaixador, e que por lembrança sua mandara o rei Fernando começar a cerca nova de Lisboa. Casado com D. Urraca Moniz, deixou um filho, Vasco Lourenço Almada, que foi o instituidor do morgado da sua família na vila do mesmo nome, e que morava em Lisboa nos seus paços de Valverde, junto ao Rossio. Este Vasco Lourenço teve um filho e uma filha». In Alberto Pimentel, Um Contemporâneo do Infante Henrique, Carta a Mr Mathieu Lugan, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Typografia Silva Teixeira, Casa Editora M. Lugan Sucessor, Porto, 1894.

Cortesia de CEMLugan/JDACT

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Regente Pedro. Príncipe Europeu. Mário José Domingues. «… teve uma conversa particular com o infante Henrique, então de dezoito anos, o mais novo dos três primeiros filhos de D. Filipa. Falou-lhe numa expedição a Ceuta. Ceuta?»

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A Ínclita Geração
«(…) Para distrair seus filhos e dar prazer à fidalguia do seu reino, pensou João I em organizar em Portugal uns luzidos torneios, com basta participação de campeões estrangeiros que por muito tempo recordassem esses festejos como a coisa mais bela de que houvesse memória. Seria um pretexto para armar solenemente cavaleiros os seus filhos Duarte, Pedro e Henrique. Supunha que eles iriam ficar maravilhados com esta ideia. Enganou-se, porém. Os rapazes queriam ganhar as suas esporas de ouro, ser armados cavaleiros, é certo, mas não numa lide em família, sob os olhares complacentes das damas, diante do palanquim engalanado, onde o pai, todo benevolência, cercado da corte embevecida, lhes concederia honras, que eles só entendiam por genuinamente merecidas, quando conquistadas com risco de sua vida ou ao preço do seu próprio sangue. Por um ideal bem diferente do de cavalaria medieva, que ainda animava a nova geração no primeiro quartel do século XV, a mentalidade burguesa dos governantes de então achava-se de acordo com os filhos do monarca. E assim se formou no seio da corte uma espécie de conjura benévola entre nobres e burgueses contra o comodismo um tanto ingénuo de João I.

A semente do ódio
Não era muito fácil tirar-se da cabeça do antigo mestre de Avis a ideia pueril dos torneios que ele vinha acarinhando com tanto enlevo. Os filhos, não a aceitando de boa mente, não se sentiam, entretanto, com coragem de tentar dissuadi-lo. Andavam desgostosos, e a sua contrariedade não passava despercebida aos conselheiros do monarca, a quem a ideia tão-pouco seduzia. O problema que mais os preocupava, o de dar uma tarefa de certo modo absorvente à juventude nobre, cuja idade rondava a dos infantes, não se resolveria com festejos mais ou menos vistosos, muito agradáveis, mas sem qualquer finalidade prática. Essas festas, em que haveria necessidade de fazer ostentação de riqueza, apenas serviriam para desfalcar o Tesouro, que, continuando uma velha tradição, não era dos mais desafogados. Extintos os últimos ecos dos combates na liça, das canções dos jograis na praça pública e das vozes maviosas dos trovadores nos paços régios, que ficaria à nação mais do que um vácuo no erário e na alma de uma mocidade, que tanto desejava realizar-se plenamente?
Os conselheiros de espírito prático, de mentalidade acentuadamente burguesa, esses, tinham uma ideia que se lhes afigurava muito mais vantajosa do que os festejos com que o monarca sonhava. Parece que essa ideia brotara da mente de João Afonso Azambuja, um dos homens que mais se esforçava, como João das Regras e Lourenço Vicente, arcebispo de Braga, por imprimir um rumo novo à barca do Estado, nessa época em que já se apercebiam os primeiros alvores da Renascença. Portugal, país de modestos recursos naturais, precisava de enriquecer. Limpo o seu território, primeiro, dos mouros, que por tantos séculos o ocuparam, depois, dos seus vizinhos castelhanos, que em vão intentaram submetê-lo, porque não ir bater o inimigo tradicional em sua própria casa?
Muito em segredo, os conselheiros vinham premeditando uma conquista, sem se atreverem a falar dela ao seu rei, que se mostrava cada vez mais satisfeito na sua inactividade. Decidiram então aproveitar-se do descontentamento dos infantes e, por intermédio deles, comover o coração do pai. João Afonso Azambuja teve uma conversa particular com o infante Henrique, então de dezoito anos, o mais novo dos três primeiros filhos de D. Filipa. Falou-lhe numa expedição a Ceuta. Ceuta? Esta cidade muçulmana tinha fama de fabulosamente rica e encontrava-se, por assim dizer, a dois passos, no Norte de África. O seu comércio de produtos, que recebia do Oriente e reexportava para a Europa, era considerável. Se fosse possível conquistar essa praça e fortificá-la, lograr-se-ia cravar uma lança cristã em território de infiéis e simultaneamente canalizar para Portugal o imenso rendimento do tráfego mercantil do seu porto. Transmitida por Henrique a ideia da expedição a Pedro e a Duarte, herdeiro do trono, os três irmãos sentiram-se empolgados. Tal empresa não podia ajustar-se melhor às suas vagas aspirações de acção, nem corresponder de maneira mais perfeita à ansiedade da nobreza, que dir-se-ia angustiada na sua ociosidade. Parecia impossível nunca lhes ter ocorrido esta ideia, que já se lhes afigurava tão simples. Conhecedores da predilecção que o pai experimentava por seu filho Henrique, foi este incumbido pelos outros dois irmãos de expor-lhe os seus desejos». In Mário Domingues, O Regente Pedro, Príncipe Europeu, Empresa Nacional de Publicidade, Colecção de História de Portugal, nº 7, Lisboa, 1964.

Cortesia de EN de Publicidade/JDACT

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «Baste-nos por agora considerar que cerca de 1483 Colombo se oferecera a João II para descobrir a Índia pelo Ocidente […]; e que o monarca encarregou um dos seus astrónomos de observar as latitudes do Sol ao meio-dia…»

jdact e cortesia de wikipedia

Ainda o Segredo de Estado
«(…) A cultura do infante era a de um homem piedoso do seu tempo; e a sua acção pautava-se por ideais cavaleirescos e religiosos, que tinham bem pouco a ver com uma cultura vasta e empenhada. Supô-lo embrenhado em complicadas leituras é desvirtuá-lo, e também esquecer (ou conhecer mal) a que se limitavam os estudos correntes do seu tempo. As navegações vieram, com os anos, a mostrar uma outra utilidade da Astronomia, o infante só teve nisso interferência na medida em que impulsionou navegações; pode-se creditar-lhe sem rebuço essa glória.
Não vou continuar esta análise com os pretensos erros em que o maquiavélico João II fez cair o genovês Critóvão Colombo, quanto ao valor do grau terrestre e quanto à aproximação dos continentes asiático e europeu, quando a distância fosse medida para teste do segundo. Limitar-me-ei a comentar o seguinte trecho em que Jaime Cortesão analisa uma frase latina atribuída a Colombo e referente à observação de latitudes pelo Sol feitas por José Vizinho na Guiné: Os cálculos de latitude mencionados nesta nota estão ambos errados por carência. Baste-nos por agora considerar que cerca de 1483 Colombo se oferecera a João II para descobrir a Índia pelo Ocidente […]; e que o monarca encarregou nesse ou no ano seguinte, um dos seus astrónomos de observar as latitudes do Sol ao meio-dia, o que [...] exige o estudo anterior do processo respectivo e, como consequência, a averiguação do valor do grau terrestre.
Comentários: l.º - Há, na verdade, erros nas latitudes indicadas, mas normais para um primeiro ensaio prático da observação da coordenada; pensar José Vizinho como mistificador às ordens do Príncipe Perfeito parece-me abusivo. 2.º - Não houve necessidade de um estudo deste processo de determinação de latitudes' porque estava exposto em vários liuros antigos, desde o Tratado do Astrolábio de Messahala, século IX, até aos Libros del Saber de Astronomia, século XIII. 3.º - A averiguação do comprimento de 1º de meridiano terrestre não é suporte indispensável à determinação de latitudes, antes o contrário. E já John Hollywood o intuiu na segunda metade do século XIII!

Mais umas notas dispersas, mas talvez necessárias; a) fala-se sempre do astrolábio de três palmos de diâmetro que Vasco da Gama mandou montar em terra na baía de Santa Helena para medir a latitude; mas esquece-se muitas vezes de acrescentar que no mesmo passo de João de Barros se diz que os pilotos usavam a bordo pequenos astrolábios metálicos; se Gama desconfiava dos resultados através dos últimos, como se dá a entender, talvez o fizesse por não ter prática de pilotagem; b) na carta de Henricus Martellus é arbitrária qualquer leitura de latitudes, pois não está nela desenhada uma escala dessas coordenadas; c) a suposição de que o primeiro manuscrito do guia náutico dito de Munique data de 1483, inferiu a Fontoura Costa de uma análise das tábuas solares nele contidas; d) juntar o Príncipe Perfeito, Bartolomeu Dias e José Vizinho para, numa acção concertada, enganarem Colombo, parece-me apenas um razoável tema para um bom livro policial; e) quanto à escola científica de navegação por alturas dos astros, fundada por João II, tem tanto de verdade como a escola de Sagres; se assim não é, que os sigilistas nos digam os dados que provam a sua existência.
Por último: se me servir de palavras de Jaime Cortesão, talvez me seja lícito concluir que o segredo de estado funcionou ao contrário. Transcrevi atrás uma sua frase que repito agora [...] quanto mais secretas [refere-se às cartas] mais foram objecto de curiosidade interessada de estranhos. E o que se diz das cartas pode-se dizer com certeza do restante. Será que a estreita política de sigilo, teve assim o efeito de levar as conquistas náuticas portuguesas a um mais rápido conhecimento de todos? Estranho sigilo, então!» In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «… para quê guardar um segredo que já o não era, pois desde 1490 circulava na Europa o desenho de Henricus Martellus Germanus, que ilustrava cartograficamente a viagem de “Dias” e as dos seus predecessores, com rigor e minúcia? Seriam João II e os seus conselheiros tão tolos que procurassem esconder o que todos sabiam?»

jdact

Ainda o Segredo de Estado
«(…) A origem que apontamos para as cartas portuguesas sobreviventes explica bastante bem que elas se encontrem no estrangeiro, facto que tanto surpreendia Jaime Cortesão e o levou a escrever vitoriosamente: A razão é óbvia: quanto mais secretas mais foram objecto da curiosidade de estranhos! E foram-no, de facto; mas pelas novidades que transmitiam: quando o duque de Este deu 12 ducados de ouro pelo planisfério dito de Cantino, em 1502, não foi com a cavilosa ideia de se preparar para fazer concorrência ao comércio marítimo de Manuel I; foi para saber como era o mundo!
A cartografia merece ainda mais um momento de atenção. Em Portugal ela iniciou-se cerca de 1445, como há poucos anos mostrou Charles Verlinden, a partir de uma leitura atenta da Crónica dos Feitos da Guiné. Repito: essas cartas, com a costa africana traçada como coisa vista por olho, eram desenhadas para uso dos pilotos, e nesse uso se gastaram e perderam. Não vale a pena dizer e repetir que delas copiaram os contornos e topónimos para as suas alguns cartógrafos italianos, porque estes, exímios como eram, podiam muito bem concluir os seus desenhos a partir de relatos e informações avulsas, como aliás fizeram os primeiros cartógrafos portugueses. As cartas desenhadas em Portugal no século XV não se limitam, porém, às duas que Jaime Cortesão contou, embora essas sejam importantíssimas para a sua teoria, facto que se não lembrou de assinalar.
A mais antiga, de Pedro Reinel, datará de c. 1485 (segundo Armando Cortesão): a outra está datada de 1492 e assinada por Jorge Aguiar, que ninguém sabia ter sido um cartógrafo até 1968, data do aparecimento da carta; ambas representam a costa ocidental africana (em parte, sobre o continente) até limites que ficam muito aquém dos reconhecimentos feitos à data dos desenhos. Esta particularidade é absolutamente segura em relação à de Jorge Aguiar: em 1492 já Bartolomeu Dias torneara há quatro anos a ponta sul da Africa. Eis uma prova que Se não pode recusar! A carta ficou assim em obediência à teoria de segredo dirão, triunfantes, os sigilistas vigilantes. Tenho duas razões para supor o contrário. A primeira é ignoramos de todo a razão ou razões porque Jorge Aguiar terminou ali o seu desenho, e até nem sabemos o motivo pelo qual o seu traçado ficou a norte do limite do de Pedro Reinel, que supostamente lhe é anterior.
Aceito sem rebuço a fragilidade desta razão, mas não a da seguinte: para quê guardar um segredo que já o não era, pois desde 1490 circulava na Europa o desenho de Henricus Martellus Germanus, que ilustrava cartograficamente a viagem de Dias e as dos seus predecessores, com rigor e minúcia? Seriam João II e os seus conselheiros tão tolos que procurassem esconder o que todos sabiam?
É certo que em 1504 o rei Manuel I emitiu um mandado determinando que não houvesse suas navegações das cartas de marear de Guiné
até as ilhas do Príncipe e de S. Tomé […]; mas também é certo que pouco depois estendeu o limite até o rio do Manicongo, talvez por reconhecer que a primeira decisão era inútil, por tardia; como o foi a segunda, e pela mesma razão, e basta o planisfério de Cantino para o mostrar. Quer dizer, e em resumo: o segredo, se existiu, andava atrasado em relação à realidade, e isso é o mesmo que o afirmar de valor nulo. Através da tese do sigilo, criam-se fantasmas importunos, mas não se vai seja onde for.

Ora bem, todas as coisas de tal espólio que nos interessariam, e não estão mencionadas nas relações de bens deixados pelo Navegador, provavelmente nunca se encontraram em suas mãos. Em que se baseou Jaime Cortesão para afirmar de ciência certa, que existiram em seu poder em magna quantidade? Para que lhe servia um livro de Astrologia? E livros de viagens? Pode supor-se que leu Marco Polo, e admitir-se, com fundadas dúvidas, que fosse tradutor do livro Segredo dos Segredos, falsamente atribuído a Aristóteles e absolutamente alheio a qualquer propósito náutico. O infante personifica o tipo de homem de acção e não de reflexão erudita. Quanto ao resto, é quase certo que passou muito bem sem roteiros, cartas, planisférios e outras coisas que, a partir de determinado momento, terão interessado vivamente navegadores e pilotos». In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «Numa palavra: o segredo sobre a caravela já de facto não existiria quando o incluíram como preceito legal nas ordenações manuelinas! Deve ter sido incluído nelas por mera rotina jurídica…»

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Ainda o Segredo de Estado
«(…) No entanto, o autor referencia ainda uma carta de Fernando Aragão pedindo ao rei Manuel I três caravelas (em 1504), que lhe foram vendidas; e depois, com outros intervenientes nas transacções, o Venturoso vendeu mais duas caravelas em 1510 e outras duas em 1512. Manuel I levantava, portanto, mão do segredo; e isso, por incrível que pareça, apesar da venda de caravelas a estrangeiros aparecer proibida nas ordenações manuelinas! Nem chegarei a perguntar se não houve sempre alguém capaz de fazer um bom negócio mesmo quando a lei lho veda. Admitamos por comodidade esta coisa falsa: os portugueses desse tempo procediam todos, e sem exceptuar os ligados aos meios marítimos, com um irrepreensível respeito pelas leis e pelas disposições reais; pelos vistos, só as não cumpria o rei, o que me parece no mínimo estranho, para não dizer anacrónico!
Todavia, para além do mau exemplo do monarca, ao largar o segredo da mão, não podemos esquecer o facto de navios portugueses, e entre eles seguramente caravelas, terem sido frequentes vezes apresados por castelhanos ao largo da costa da Guiné antes de 1479, ou seja, antes das vendas referidas por Cortesão. E essas caravelas podiam ser vistas, analisadas, medidas e estudadas, e dar lugar a cópias ou réplicas, coisas que estavam ao fácil alcance de qualquer bom construtor de navios. Numa palavra: o segredo sobre a caravela já de facto não existiria quando o incluíram como preceito legal nas ordenações manuelinas! Deve ter sido incluído nelas por mera rotina jurídica…
E é neste ponto que entra em jogo um tipo de raciocínio quase silogístico que é pau para toda a obra na tese do segredo de estado: se havia secretismo quanto às caravelas, logo não tinham licença para sair do reino de Portugal capitães de navios, pilotos, cosmógrafos e cartógrafos, encarnação viva da marinha e da ciência náutica portuguesa, que nas caravelas se praticava. Jaime Cortesão reconhece, porém, serem parcos os testemunhos directos sobre os meios com que o Estado se opôs à saída de pilotos para o estrangeiro durante o século XV. Por mim não conheço um único a que tal fosse proibido, e Jaime Cortesão não devia saber mais do que eu, porque ao referir casos concretos cita seis pilotos (eventualmente acumulando esse ofício com o de capitães) e três cartógrafos (de modo um tanto abusivo dados também como cosmógrafos) mas todos do século XVI, e sendo alguns até de segunda metade desta centúria. Ora no tempo em que Bartolomeu Velho foi para França (1567), para propor ao rei galês um rol de dispositivos náuticos sem o mínimo valor prático, a arte de navegar e a cartografia portuguesa eram lá conhecidas há muito, como o eram em Espanha, em Itália, em Inglaterra e na Alemanha.

Rebuscando-se uma cronica de Garcia de Resende encontra-se a história de um piloto e dois marinheiros fugidos para Castela com dinheiro da Mina furtado, que João II conseguiu fazer prender, para em seguida mandar esquartejar o primeiro e decapitar os outros dois. A história é recordada por Jaime Cortesão, que se não lembrou de perguntar porque motivo se considerava o monarca desservido dos três marítimos; dá a entender que as profissões dos prisioneiros ditaram as sentenças, mas o cronista acusa-os de ladrões, crime bem grave no tempo (e ainda mais grave por ter sido cometido na Mina). Para o autor da teoria de sigilo aquele procedimento penal fundamentava-se em qualquer desconhecida lei que definia o crime e estabelecia a pena; é verdade que existiam leis em relação a crimes de furto, mas não conhecemos alguma a respeito de fugas de informações. Quando o cartógrafo Jorge Reinel se transferiu para Sevilha e começou a exercer aqui a sua actividade, Manuel I não mandou esbirros que o trouxessem forçadamente para Lisboa, como naquele caso terá acontecido; mandou-lhe o pai, Pedro Reinel, também cartógrafo, que lá conseguiu persuadir o fugitivo a voltar aos ares pátrios, não sem antes ter colaborado com ele em trabalhos cartográficos para os meios náuticos sevilhanos; e, ainda por cima, os trabalhos de Jorge Reinel estiveram muito provavelmente relacionados com a viagem de Fernão de Magalhães, que tantos dissabores deu a Manuel I e, sobretudo, ao filho João III. Pois, apesar disso, o Piedoso deu-lhe uma tença de 10 000 réis!
É verdade,  e Jaime Cortesão lembra-o, que Manuel I procurou reter ao serviço do Reino homens sabedores do mar, ameaçando-os, através de um diploma, que caso tentassem expatriar-se lhes confiscaria os bens e os degradaria para a ilha de Santa Helena; não chega, no entanto, à ameaça de pena de morte, e explica a determinação não pelo desejo de manter segredo mas pela necessidade que nesse momento deles tinha: em nossos reinos têm bem em que ganhar suas vidas; não era por isso razoável, no entender do monarca, que exercessem a sua arte fora do Reino, por termos tanta necessidade deles (confessa Manuel I). Quantos se não terão escapado antes desta disposição (e só isso a explica) e quantos se não terão escapulido depois dela!

Todavia, o grande cavalo de batalha da teoria do sigilo é a inexistência de roteiros, de livros de bordo, de relações de escrivães e de cartas de marear, anteriores a 1470. Ora quanto aos três primeiros textos náuticos indicados não temos a menor suspeita de que tenham circulado mesmo secretamente até àquela data; é possível que sim, mas gastaram-se nas mãos dos que deles se serviam, não sendo estranho que nem um tivesse chegado aos nossos dias. O mesmo aconteceu, de resto, com as cartas de marear: todas ou quase todas as que conhecemos, de esmerado acabamento e bem iluminadas, constituem exemplares que se ofereceram a pessoas importantes da época, ou que alguém endinheirado encomendou e pagou em Lisboa a cartógrafo de renome; das cartas que poderíamos dizer de trabalho não há traço; e digo-o com uma certeza: a de nunca ter encontrado nelas qualquer indicação de pontas de compassos, que eram usados para marcar quer o ponto de fantasia quer o ponto de esquadria; aliás não se pode aceitar que um planisfério alguma vez fosse usado na prática da navegação, o que exclui logo desse uso muitas das cartas conhecidas». In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «No subtítulo o leitor é logo avisado que o problema apenas é tratado para os tempos do “infante e de João II”; embora tal não seja estritamente cumprido, há sem dúvida limitações na abordagem do tema»

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Ainda o Segredo de Estado
«Segundo uma breve nota, tirada de um comentário publicado há trinta anos, e que nunca foi posta em causa, a ideia de segredo ou sigilismo de estado passou de mera hipótese de explicação, posta pelo cardeal Saraiva, a tese fundamental na grelha explicativa dos Descobrimentos portugueses, proposta por Jaime Cortesão. E como tem a seu favor a capacidade, tão agradável aos amantes de novidades capitosas, de dar pintura de aparência agradável a loas que, na sua forma crua, seriam facilmente contestadas, a sua aceitação tem sido muito mais ampla do que merece. O mais antigo documento dedicado por Jaime Cortesão ao tema data, se não erro, de 1924, e saiu na revista Lusitânia. O autor retomou depois o assunto diversas vezes, partindo sempre do que antes dissera, mas enroupando o seu discurso de novas observações e de novos argumentos.
No âmbito destas notas não é possível acompanhar toda essa evolução definida através de uma série de número elevado de textos saídos do punho de um homem inteligente e sagaz, historiador a quem devemos belíssimas páginas, mas que em tal matéria se deixou de tal modo envolver pelo mito que acabou por não reconhecer a fronteira do credível, passando com facilidade ao domínio do puro devaneio. Pela impossibilidade apontada limitar-me-ei a recorrer ao livro da Colecção Henriquina, intitulado precisamente A Política do Sigilo nos Descobrimentos, de 1960. No subtítulo o leitor é logo avisado que o problema apenas é tratado para os tempos do infante e de João II;
embora tal não seja estritamente cumprido, há sem dúvida limitações na abordagem do tema; em compensação, no entanto, pode-se ter quase a certeza de que se espelham no escrito as últimas e mais trabalhadas peças da tese sigilista de Jaime Cortesão, pois o livro veio a lume no ano da sua morte, e terá sido, porventura, o último ensaio que saiu completo da mesa de trabalho.
Tão-pouco poderei seguir uma por uma as 167 páginas deste livrinho, para apontar nelas tudo o que parece excessivo ou passível de concorrência com outras explicações paralelas, tanto ou mais válidas que as radicadas numa apertada teoria de segredo. Esse trabalho total exigiria algumas (muitas) dezenas de páginas, afinal inúteis; e inúteis porque nunca me propus desmantelar de modo total o fantasma do sigilismo, antes tem sido minha preocupação mostrar, através de exemplos, que ele não passa de uma explicação fácil e frágil, usada para iluminar pequenos problemas da história dos Descobrimentos que se encontram na sombra. Se conseguir esse objectivo, de futuro o leitor estará de sobreaviso para novas situações em que apareça o mesmo tipo de esclarecimento para arrumar de uma penada dificuldades, em relação às quais valerá decerto a pena ensaiar outras vias de justificação.

Esse capítulo, em que se estuda O Segredo das Cartas de Marear, dos Roteiros, do Valor do Grau, dos Regimentos e das Coordenadas, inicia-se com a seguinte frase: Se o Infante Henrique e os dirigentes portugueses que se lhe seguiram proibiram a venda de caravelas ao estrangeiro, mandava a lógica que se opusessem igualmente à saída de capitães, pilotos, cosmógrafos […] e com eles dos roteiros para as novas terras, das cartas de marear e de tudo que ensinasse a nova ciência da posição e da direcção do navio e, mais que tudo, da do Sol ao meio-dia. Tenho como dado indiscutível que a caravela, ou para ser mais exacto: as caravelas, pois se conheceram vários tipos delas nos séculos XV e XVI, como expressamente afirma Fernando Oliveira, tenho por assente, serem as caravelas os navios que melhor se adaptaram a viagens de reconhecimento; mas concordo com Francisco Contente Domingues quando ele escreveu que este tipo de navio não representou uma verdadeira revolução tecnológica.
Sem reforçar esta opinião, reconheço ser facto apurado (e a favor da tese do sigilo) que o rei Afonso V, em 1471, castigou severamente Pero Roiz (perda de todos os bens móveis e de raiz) por vender uma caravela no reino de Aragão, informando o rei que tinha promulgado uma disposição sobre o assunto. Valeria a pena averiguar como foi aplicado o castigo e que tipo de pessoa era o prevaricador. A este exemplo junta Cortesão o de Vicente Dias Rebolim, pescador de Lisboa, castigado por desatino semelhante em 1473. Estes dois casos são perfeitamente claros, e mostram ou parecem mostrar que o monarca se preocupava em resguardar a divulgação na Europa de navios desse tipo. Mas também mostram, que a despeito das severas penas previstas, esses navios se vendiam fora do país; nos dois casos referidos os prevaricadores foram apanhados, mas quantos não teriam passado pelas malhas da fiscalização? E, sendo assim, de que serviam as medidas secretistas, para além de talvez atenuarem um pouco o contrabando?

Cortesão cita um terceiro caso: o do valenciano James Timer, mestre de açúcar da Madeira, autorizado pelo Príncipe Perfeito para, associado com portugueses, adquirir qualquer navio de gávea que não fosse caravela; neste caso a limitação pode não ter sido tomada pela mesma intenção cautelar (um mestre de açúcar da Madeira devia estar farto de ver caravelas!), mas não custa aceitá-lo como exemplo favorável ao sigilismo».

In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

sábado, 14 de setembro de 2013

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «Não é verdade que todas as regras da futura navegação astronómica, com excepção do “regimento das léguas” (este aliás adaptado da raxon ou toleta de marteloio), andavam de há muito em tratados do “astrolábio ou do quadrante?”»

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Os sábios henriquinos e a escola de Sagres
«(…) Nada disto oferece qualquer dúvida. Creio, porém, que deve ser tomada à conta de balela uma historieta que se impingia, com a melhor boa fé (diga-se) nas escolas primárias do meu tempo de criança, parafraseando, por vezes com um pouco de imaginação, o seguinte passo escrito por uma autoridade de peso, como é considerado o cronista João de Barros: mas os navios, que daquela vez e de outras foram, em tempo do infante, e vieram, não descobriram mais que até o cabo Bojador […]. Porque como este cabo começa de incurvar a terra de mui longe, e ao respeito da costa, […] lança e boja para oeste perto de quarenta léguas (onde deste muito bojar lhe chamaram Bojador...); tal nome teria sido posto por Gil Eanes, segundo o mesmo Barros: … o qual nome lhe ele [Eanes] pôs pelas razões que atrás dissemos (Década I, capítulo IV). O que não é verdade: Bojador não tem nada a ver com bojar; é aportuguesamento do nome que o cabo tinha no século XIV Buyetder e outras formas aparentadas, como a cartografia mostra.
Passar o cabo não seria considerada uma empresa difícil; árduo era o regresso ao continente europeu de navios que se encontravam numa área marítima em que ventos e correntes contrariavam por via de regra tal retorno por uma rota directa e costeira. Azurara não terá compreendido o alcance da viagem de volta de Eanes; tão-pouco a entendeu João de Barros, que concorda com Azurara ou o utiliza, mas exagerando um pouco o que ele escreveu, quando afirma: e posto que a obra desta passagem [do Cabo Bojador]  não foi grande em si, […] então lhe foi contada por um grande feito, e houveram que era igual a um dos trabalhos de Hércules [...].
Foi por vencer essa dificuldade, a partir do exemplo de Gil Eanes, que marinheiros posteriores vieram a perder de todo o receio de se engolfar no oceano; com uma consequência do maior significado: o reconhecimento da necessidade de alterar a arte de navegação, introduzindo nela práticas astronómicas (observação de alturas meridianas de estrelas, e logo a seguir determinações das latitudes geográficas do lugar dia a dia ocupado pelo navio), que constituíram os primeiros mas decisivos passos da transformação dessa arte numa técnica.
E eis que, para explicar esta alteração, ou com o pretexto dela, se introduz capciosamente um novo mito na história das navegações portuguesas. Segundo uma lenda que em torno da sua figura se enredou, o infante Henrique, como infante avisado, soube prever tudo a tal respeito, embora haja quem de tal não esteja convencido, por admitir, e com as razões de uma lógica transparente, que o infante decerto nada conhecia dos regimes de ventos e correntes existentes em mares para sul do cabo Bojador, e só com poderes divinatórios, que decerto não teve, saberia que os seus marinheiros encontrariam a solução de os contornar e lançariam mão da astronomia mais elementar, para se não perderem no mar imenso. Mas isso, dizem os defensores do endeusamento do infante  Henrique, é o que pensam as pessoas simples ou de fraco entendimento, grupo em que serei decerto incluído; eles, os de forte entendimento, vêm as navegações dos séculos XV e XVI à medida dos grandes feitos tecnológicos do nosso tempo, ou seja, com estudos prévios até à menor das minúcias, para serem mínimas as probabilidades de fracasso. Quem assim pensa não tem qualquer dificuldade em visionar o infante empenhado, primeiro em construir um observatório em Sagres, e depois, ou simultaneamente (tanto faz), em reunir à sua volta um punhado de sábios de grande nomeada.
Vamos por partes, a começar pelo fantástico observatório, o primeiro que houve em Portugal, segundo escreveu o erudito Beasley: mas não foi só Beasley: muitos historiadores que se ocuparam do infante referiram a construção do célebre observatório, e a ideia estendeu-se no tempo até os nossos dias, passando de autor em autor sem qualquer reparo, porque nunca houve o mínimo cuidado em saber em que dados ela se baseia.
Ainda não há muito, um jovem historiador alemão, Ulrich Knefelkamp, ao fazer um resumo analítico da lenda medieval do Preste João, em um dos últimos capítulos do seu estudo tropeça no observatório henriquino lamentavelmente, porque a partir daí logo surgem ao leitor dúvidas quanto à fidedignidade das informações que anteriormente nos transmitiu, e nos pareciam um bom apanhado sobre o tema de que no livro se ocupa. Eis o que escreveu: as condições iniciais para as navegações dos Portugueses têm sido para uns a tomada de Ceuta levada a bom termo (1415) e para outros a edificação de uma academia de navegadores com um observatório em Sagres [….]. Assim, ele [o infante] fez construir em Sagres majestosos edifícios, nos quais reuniu muitas informações e homens capazes, a fim de preparar cuidadosamente o seu projecto. É claro, creio, a opção do autor para a segunda alternativa, a de observatório e sábias informações.
Ora um observatório astronómico, em tempos do infante, é desde logo uma ideia suspeita; mas admitindo que o infante Henrique tivesse assim esbanjado o seu dinheiro (ou o dinheiro da Ordem de Cristo), para que lhe servia tal observatório? Não é verdade que todas as regras da futura navegação astronómica, com excepção do regimento das léguas (este aliás adaptado da raxon ou toleta de marteloio), andavam de há muito em tratados do astrolábio ou do quadrante?»

In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses. Luís de Albuquerque. «Sabendo-se que Gil Eanes foi pressionado pelo infante a fazer a viagem precursora, duas interrogações surgem: ‘Aquela navegação de 1434 foi assim tão extraordinária?’ E que ‘objectivo pretendia o infante alcançar com ela?’»

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Os sábios henriquinos e a escola de Sagres
«Sobre a figura do terceiro filho sobrevivo de D. Filipa de Lencastre e de João I de Portugal, e não quinto filho, como por vezes tenho lido, e talvez em alguns casos por responsabilidade de uma gralha, que pousou em um pequeno texto por mim assinado, acumularam-se bastantes lendas, veiculadas sobretudo por alguns historiadores portugueses e ingleses; e estes com o fim de também reivindicarem para a sua terra, o infante Henrique era meio inglês, alguns dos, ou uma parte dos feitos gloriosos que, segundo se diz, tiveram nele a sua origem.
Num período de desenvolvimento da história romântica, Henri Major terá sido o primeiro responsável disso, ao editar em 1868 uma biografia panegírica do infante, tradução portuguesa de 1876: Vida do Infante D. Henrique de Portugal, Appellidado o Navegador, e seus Resultados; foi seguido, aliás, muito de perto pelo seu compatriota Raimond Beazley, com o seu ensaio Prince Henry the Navigator, The Hero of Portugal and of Modern Discovery 1394-1460 A.D., editado em 1895. Entre os dois coloca-se o nosso Oliveira Martins, que lhes não ficou atrás. Note-se, para começar, que este lendário filho do primeiro par real da nossa segunda dinastia é habitualmente designado, e em várias línguas, por Príncipe Navegador. Ora bem: O infante Henrique nunca teve título de príncipe, mas de infante, embora não escandalize que pelo primeiro seja tratado, eu mesmo o fiz por distracção há muitos anos, e Azurara assim o trata na crónica da Guiné; mas em respeito à verdade deve-se saber que nesse tempo a designação não estava em uso no reino de Portugal; o primeiro príncipe português, depois chamado Príncipe Perfeito, foi o futuro rei João II, sobrinho-neto do infante Henrique. E, quanto a navegações deixou-se transportar algumas vezes ao norte de África, a Ceuta para a tomar e depois descercar, a fim de ir a Tânger para um desastre, 1437, e nada mais (é quase certo que não foi com Afonso V a Alcácer Ceguer em 1458); ao todo, quando muito, umas três viagens, e bem curtas viagens; como quer que seja, também não repugna que lhe chamem navegador, desde que se entenda o epíteto num sentido um tanto metafórico: o infante Henrique não navegou muito, é certo, mas fez navegar muito os outros, e por isso merece o nome com que passou à História e que já ninguém pode tirar-lhe.
Fique, pois, aceite que é o príncipe navegador com as reservas aqui postas, mas sem grande significado em relação à imensa actividade que lhe está creditada, mesmo que a reduzamos só ao que se encontra ou pode ser comprovado. Deixando de lado os feitos guerreiros no norte de África, em que avulta o sucesso de Ceuta e o malogro de Tânger, o seu primeiro grande acto naval de vulto foi impulsionar as navegações para além do Cabo Bojador; e Gil Eanes, que pela primeira vez ultrapassou esse limite, em 1434, é geralmente apontado como o hábil e corajoso navegador que abriu o caminho à grande expansão marítima portuguesa, e logo a seguir europeia, na colónia atlântico, e depois em todos os outros novas colónias, a primeira, ainda bem dentro da Idade Média, fora a Terra Santa!
Sabendo-se que Gil Eanes foi pressionado pelo infante a fazer esta viagem precursora, duas interrogações surgem naturalmente: Aquela navegação de 1434 foi assim tão extraordinária? E que objectivo pretendia o infante alcançar com ela? À primeira pergunta é fácil encontrar resposta, se dermos crédito ao testemunho de um cronista do século XV, Gomes Eanes de Azurara: no capítulo X da sua Crónica dos Feitos da Guiné, ele diz textualmente: E já seja que o feito, quanto à obra, fosse pequeno, só pelo atrevimento foi contado por grande, porque se o primeiro que chegou acerca daquele cabo fizera outro tanto, não lhe seria tão louvado,…
A viagem de Gil Eanes não terá sido, por consequência, considerada no seu tempo como extraordinária, e só o é, na verdade, pelo facto de o navegador ter sido capaz de regressar! Lembremo-nos por ser ainda Azurara quem diz, no capítulo navegador ter sido capaz de regressar! Lembremo-nos por ser ainda Azurara quem diz, no capítulo VII da citada Crónica, haver notícia de uma tentativa no mesmo sentido levada a efeito por genoveses, Ugolino Vivaldi e seu irmão, que terminou ao que parece tragicamente; a memória desta malograda expedição estava muito viva no século XV, porque Antoniotto Usodimare, ao escrever aos seus patrícios uma carta sobre as navegações por si empreendidas em mares da Guiné, não hesita em dizer ter encontrado um da nossa nação, creio que das galés de Vivaldi, as quais se perderam; o qual me disse […] que da sua estirpe só ele restava; tratava-se naturalmente, se é que a notícia de Usodimare não foi simplesmente inventada, de um dos descendentes de algum tripulante dos navios de Vivaldi. Não menos trágico terá sido o fim do catalão Jaime Ferrer, que por meados do século XIV, segundo alguma cartografia desenhada por cartógrafos seus compatriotas, ultrapassou o cabo para se dirigir ao chamado rio do Ouro, sem que em qualquer crónica, documento oficial, ou outro texto avulso se tenha escrito que voltou». In Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, Colecção Documenta Histórica, Vega, Lisboa, 1990, ISBN-972-699-258-3.

Cortesia de Vega/JDACT

terça-feira, 9 de julho de 2013

O Príncipe Constante. Pedro Calderón de la Barca. O Infante Santo. Maria Idalina Rodrigues. «Assi escrevio al Rey su hermano que diese orde como salliese de aquella vida tan miserable, [...] no lo tuuo por bie, que acudiese o cõ dinero, o por otro camino a rescatarlo. Pero aduirtiose que en ninguna manera passase por lo que su hermano el Infante don Enrique…»

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Com Camões na encruzilhada
«(…) Em 1573, Mármol Carvajal, na sua Descripción General de Africa, Libro IV, apesar de razoavelmente informado (conheceria a versão de Rui de Pina?) quanto às circunstâncias da restituição do seu corpo aos portugueses (de troca pela mulher, pela filha e, não sabia ao certo, se também por um filho) de Muley Xeque, apresenta o Infante Fernando como o autêntico responsável pela expedição a Tânger e, o que mais nos importa, igualmente como acalorado resistente à devolução de Ceuta:
  • Y como despues el propio Infante fuesse en que no se entregase aquella frontera a los Moros quiriendo mas morir en captiuerio que ver a los Christianos desapoderados de ella, el Rey de Fez le hizo tantos malos tratamientos teniendole aprisionado en una mazmorra y haciendole almohaçar cauallos que vino a enfermar y murio.
Entre frei João Álvares e frei Jerónimo Ramos, nem milagres, nem visões, depois de Camões, nada de comparações elogiativas com grandes patriotas, mas, isso sim, auto-sacrifício e suas justificadas razões, entre as quais a preservação de uma fé que por si mesma se sustentava sem alarde. Alguns anos passarão até que, em 1585, outros elementos serão carreados na Relación del Origen y Suceso de los Xarifes, de Diego de Torres; sem deixar de insistir na liderança do Infante, o autor traz a informação de uma primeira fase de bom acolhimento em Fez (o rei mouro siempre tratou al Infante manificamente, antes de ser por ele agressivamente defendida a recusa de Ceuta), conserva a mais credível variante da recuperação dos restos mortais e exalta com algum pormenor o milagre da cura de um cego, perseverando, no entanto, a graça de Deus, como principal motor do favorecimento. No que aos padecimentos se refere, defende persistentemente a atitude de voluntário sacrifício, negando que alguma vez Fernando tivesse posto a hipótese da permuta de Ceuta:
  • Jamas lo consentio, diciendo que Dios nunca quisiese que fuerça que tanta sangre de Cristianos avia costado y tanto importava al bien de la Cristiandad, él fuese suelto por ella, y assi se quedó en poder de aquel infiel.
Pontos de contacto, evidentemente; insistamos na inquebrantável fé, postura que, de ora avante, não deixaremos de encontrar sublinhada. Será, de facto, a conotação religiosa (admitamos que, ao menos em parte, legada, pelo Trautado e pela Chronica) que, à medida que os anos correm e a fama do Infante vai crescendo e recebendo mais afectivos contornos, simultaneamente se vai recheando de visitas do sobrenatural; porque, se é verdade que o aparecimento da Virgem, de São Miguel e de São João ao desditoso prisioneiro vinha já do relato de João Álvares, e se, sobre milagres, algo também sabíamos há muito, será na Historia y Vida del Religioso Infante Don Fernando, de Jerónimo Román, que mais empoladamente de muitos extraordinários sucessos se retiram direccionadas conclusões. E com isso nos não admiramos, confrontamo-nos com uma biografia, com uma forte tendência digressiva de um escritor e com uma intenção bem expressa, desde o prólogo, de fazer frente aos novos hereges, com o recurso a materiais (nomeadamente da Torre do Tombo) que ainda não tinham sido devidamente examinados.
O que, porém, mais agradavelmente nos surpreende, recuando o olhar até Camões e antevendo já Calderón, é talvez o enlace feito por Román entre o santo e o guerreiro, o religioso e o patriota, abertamente se recuperando o motivo de Régulo que nos não era estranho, mas quase tínhamos posto de lado, sem prejuízo, antes com redobrado panegírico do fervor religioso de um cristão que não deixava de conhecer a fragilidade humana.
Alguns passos do texto são, quanto a isto, particularmente elucidativos e precisos; o Infante não recusa a libertação, mas nunca a aceitará à custa de Ceuta:
  • Assi escrevio al Rey su hermano que diese orde como salliese de aquella vida tan miserable, la qual el huuiera holgado de auer perdido cuando en el campo peleauan, mas pues Dios no lo tuuo por bie, que acudiese o cõ dinero, o por otro camino a rescatarlo. Pero aduirtiose que en ninguna manera passase por lo que su hermano el Infante don Enrique el y los demas auian tratado sobre el restituirse a Ceuta, porque de mas importancia era a la Christiandad que se conseruasse aquella fuerça y ciudad para honra del nombre de Christo que no que fuese rescatado un hombre particular, y que no era Rey, porque dandose la ciudad, quedaua hecha morada de los demonios y poblada de moradores del infierno. (…) quiso antes quedar preso y captiuo y morir que no se perdiese una ciudad de Christianos y se entregase a los Moros.
Mais claro não pode ser-se quanto ao voluntariado da decisão. Como mais claro não pode ser-se quanto à aferição da atitude de Fernando pela de Régulo, ainda mais digno do que o patriota romano de ficar na memória dos homens:
  • Pues si esta gloria deran a aquel Romano, porque antepuso la honra de su ciudad, a su uida y libertad, porque no sera con mayor razón, illustrada la memoria de un Cathólico Príncipe, que por la gloria de Dios y honra de su fee, y ensalçamiento de su nombre, quiso quedar preso y morir porque los demas quedasen libres. »
In Maria Idalina Rodrigues, Do Muito Vertuoso Senhor Ifante Dom Fernando a El Príncipe Constante, Via Spiritus 10, 2003.

Cortesia de Via Spiritus/JDACT

O Príncipe Constante. Pedro Calderón de la Barca. O Infante Santo. Maria Idalina Rodrigues. «Estaria Camões a par dos factos e das linhas em torno deles urdidas pelos narradores dos acontecimentos históricos? Podemos admitir, sem qualquer espécie de garantia, que lhe não fosse estranha a Crónica de 1527»

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Com Camões na encruzilhada
«(…) Novidade em 1577 (ou já estaria ela na edição perdida de 1527?) é um último capítulo em que se trata da trasladação do corpo do príncipe; segundo então se diz, teria sido um sobrinho do Rei de Fez, com o tio ofendido por injúrias recebidas, auxiliado por dois cativos cristãos, numa noite muito escura e de muita chuua», a furtar o ataúde e a programar a sua passagem para Arzila, de onde em conjunto partiram para o Restelo, e aí foram, com mostras de muita alegria e comoção, acolhidos por Afonso V; fizeram-se procissões sendo juntos todos os prelados, Bispos e Arcebispo com a clerezia; ouvida uma pregação, partiram em cortejo para a Sé, onde se depositaram os ossos, transbordando o contentamento de todos em jogos de canas e corridas de touros, apesar da consternação do jovem rei por não querer o Mouro converter-se ao Cristianismo e ficar em Portugal: despedido delRey e da Raínha e do Príncipe dom João, e de toda a corte (que de todos era prezado) se embarcou pera Fez.
Celebradas as devidas exéquias, Afonso V cumprindo todas as
cousas, que à sua alma pertenciam, como era obrigado, mandou sua ossada pera o moesteiro da Batalha da ordem de Sam Domingos, com muita honra, pompa e solenidade.
Fundamento histórico para tal muçulmana simpatia, parece não existir; fez-se, na verdade, o resgate do corpo do Infante, em 1471, mas tudo indica que em diferentes circunstâncias.... Claro, que ao Trautado de frei João, dedicado ao Infante Henrique (1460), sempre teria de faltar a notícia sobre a trasladação da ossada do cativo, apenas vários anos depois conseguida por troca com familiares do rei de Fez, entretanto feitos prisioneiros pelos portugueses, a convençã a que se refere Rui de Pina. Nós, no entanto, não iríamos secundarizar este passo, pelo simples facto de, em futuras considerações, ainda um sobrinho do rei de Fez connosco vir uma vez mais a travar agradável conhecimento. Quanto, porém, a um Infante émulo de um Régulo cantado por Horácio e por outros celebrado, nem traços surpreendemos nestes escritos. O Infante Fernando sofre e ajuda os seus a suportar o sofrimento, não temos dúvidas, mas nunca por vontade de pela pátria se sacrificar; não se oferece, aceita, não se auto-martiriza, resigna-se a um martírio imposto.
De Arzila, segundo Álvares, concorda em fazer petição ao rei, seu irmão:
  • (…) E por aazo das cortes e dos conselhos que se faziam sobre esto em Portugal, nom embargando que este Ifante escrepvese por seu livramento o melhor que entendia, Çala bem Çala se anojava da perlonga por nom veer o recado que esperava. (…) Esto todo [o pedido para a libertação] escrepveu este Ifante a elREy e a[a] Raínha e aos Ifantes seus irmãos.
Temendo o envio para Fez, insiste:
  • (…) temendo a aspereza dos vindoiros trabalhos, escrepveo a elRey todalas razões que tiinha pera o aver de livrar de tanto prigo e esperadas tribulações, pedindo-lhe por merçee que quisesse aver dele piedade e tomase compaixom de sua atribulada vida, a qual a qual a ele aprouvera que já fezera fim (…).
Não são, porém, semelhantes, mas compreensíveis fraquezas que retiram ao desditado príncipe a aura da santidade, pois é por Deus e pela fé que sofre sem desespero: a prática religiosa, como ficou dito, acompanhou-o sempre, à conquista de Tânger se dispôs armado do sinal da + sob a guarda do alferezde Jhesu Christo Sã Miguel, que em seu estandarte levava pintado, os trabalhos, os aceitou como quem todo padecia por amor de Deus.
Que espanta que, antes de morrer, o viessem confortar a Virgem, S. João Evangelista (que aos pés da cruz de Cristo estiveram) e o seu protector S. Miguel? Sempre os poderes celestes se preocuparam com os homens que a eles souberam acudir, tanto nas ditas como nas desditas.
Estaria Camões a par dos factos e das linhas em torno deles urdidas pelos narradores dos acontecimentos históricos? Repito que sempre nos têm dito ter ele manuseado escritos de Rui de Pina e podemos admitir, sem qualquer espécie de garantia, que lhe não fosse estranha a Crónica de 1527. Ele, porém, escrevia um poema épico, propunha-se aclamar os valorosos feitos dos portugueses, sobretudo aqueles que mais amor pátrio revelavam, era bom apreciador dos clássicos e escrevia numa época em que a cultura antiga pontificava nas letras e nas artes. O seu poema adopta esquemas de Virgílio e de Homero, os seus heróis são modelados muitas vezes pelos de gregos e latinos, porque não converter então (ou arrecadar o que provavelmente, em parte, o povo já havia sancionado) o realmente mártir Fernando num real e voluntário mártir da portuguesa valentia na defesa da integridade do Império?
Em situação semelhante, dera Régulo o exemplo de condenar-se para salvar Roma dos Cartagineses, recusara a liberdade (a de um homem) para que livres de jugo alheio ficassem outros (muitos homens); o paradigma estava encontrado, encaixava-se bem na epopeia, era grato a Portugal e ao seu rei. Pela nossa parte, vamos avançar, se não com certezas, pelo menos, com alguma convicção. Porque, não se pode negar que, com responsabilidade ou não de Camões, meio envolvida pela lenda, sem deixar de conservar o seu fundo histórico, a acarinhada figura do Infante conservaria, em escritos posteriores, a marca de uma austera resistência à entrega de Ceuta em troca da sua própria salvação».

In Maria Idalina Rodrigues, Do Muito Vertuoso Senhor Ifante Dom Fernando a El Príncipe Constante, Via Spiritus 10, 2003.

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