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domingo, 28 de dezembro de 2014

Efeito borboleta. Ou a Vida como Caos Causalidade e Casualidade em Outrora Agora. Edimara Sartori. «Os versos retirados do poema “Pobre velha música!”, de Fernando Pessoa, servem de epígrafe e de motivo ao romance ‘Outrora Agora’: Com que ânsia tão raiva / quero aquele outrora! / E eu era feliz? Não sei: / fui-o outrora agora»

Cortesia de wikipedia

Resumo:
«Este estudo constitui uma análise do romance Outrora Agora, de Augusto Abelaira, observando, por um lado, a imprevisibilidade que condiciona as relações pessoais e, por outro, uma certa previsibilidade que norteia as relações político-económicas. A nossa análise busca sustentação teórica nos estudos de Bauman acerca da modernidade líquida, fazendo uma breve alusão à teoria dos sistemas dinâmicos, a fim de ilustrar os movimentos caóticos que determinam o comportamento e as relações das personagen».

«A maior parte das histórias nunca chega a acontecer, às vezes por pequenos nadas de que nem temos consciência. Se no dia tantos de tal, em vez de ficar em casa, saísse... Já pensei em coleccionar as histórias por acontecer, registá-las, as cem mil histórias que não chegaram a acontecer. Pelo menos as que poderiam ter acontecido. Que posso imaginar e tenho razões para imaginar. Inesperadamente doutoral: não somos unicamente o que fizemos, somos também o que não fizemos e poderíamos ter feito. Mais ainda o que poderíamos ter feito, o que fizemos é pouquíssimo em relação ao que poderíamos ter feito e, se calhar, nem depende de nós. Estas palavras também ele as poderia ter dito, já as terá dito até. Com um novo parágrafo: também o que não fazemos não depende de nós». In Augusto Abelaira, Outrora Agora.

«Os versos retirados do poema Pobre velha música!, de Fernando Pessoa, servem de epígrafe e de motivo ao romance Outrora Agora: Com que ânsia tão raiva / quero aquele outrora! / E eu era feliz? Não sei: / fui-o outrora agora. O poema, que alude ao vago e à incerteza sugeridos pela recordação da velha música, que comove, embora o sujeito lírico não saiba porque agrado a melodia lhe enche os olhos de lágrimas, nem esteja certo de tê-la ouvido na infância que é, aliás, relembrada pela própria música, é marcado sobretudo pelo paradoxo criado pela sobreposição de tempos. A aproximação dos advérbios outrora, indicando um tempo passado, e agora, situando o presente, tenta captar o ápice de um momento de felicidade, que é, entretanto, indeterminado. O estado emocional do sujeito lírico emana angústia, fúria e desespero (ânsia tão raiva), querendo recuperar aquele outrora, tempo em que talvez tenha sido feliz. No entanto, a sua indefinição sentimental deixa transparecer que a felicidade pode existir também num momento indefinido do presente. Como observa Lélia Duarte, surge, assim: um desejo contraditório que se afirma e se nega, sendo ao mesmo tempo impulso de distanciamento e de aproximação, (im)provável felicidade daquele outrora que se deseja, numa mistura de tempos que esvazia a suposta felicidade do passado e também a que poderia existir no presente; fui-o outrora agora (2006).
A incerteza acerca da própria felicidade reside na simultaneidade entre um momento do passado e o presente, sugerindo um tempo irreal, possível somente no espaço da linguagem. A felicidade estaria então, no poema, apenas na provável sobreposição de tempos, operada nesse lugar vazio em que se joga com a linguagem e em que parece subsistir apenas a palavra literária, que é fundadora de sua própria realidade (Duarte, 2006). O romance de Abelaira, cujo título é uma apropriação do verso de Fernando Pessoa, também apresenta um enredo que joga com os liames do tempo, recuperando pela memória fragmentos de um passado, inventando outros, que, por sua vez, são até certo ponto (re)vividos no presente. Com esse jogo temporal confunde-se o próprio acto de escrever, é linguagem, como no poema, pois somente pela escrita é possível reviver o passado no tempo presente do sujeito. Podemos dizer que a intriga de Outrora Agora, da mesma forma que o poema de Pessoa, busca recuperar um intervalo de tempo que não pode existir senão no espaço da linguagem. Isso é representado pelo confronto de duas gerações, a de Jerónimo e Cristina versus a de Filomena e Cecília, separadas pelo movimento cultural de 1968, que abalou o comportamento e os princípios ético-morais principalmente nas sociedades ocidentais. A personagem-narradora avalia sua condição: Entre o amor possível (ou a amizade amorosa, ainda não sabe de que serão capazes, emotivamente, esses seus sessenta e tal anos) e o risco de perturbar o sossego de uma vida estabilizada, embora à custa de prudente resignação. De um lado, a velhice (a maturidade?), a mais ou menos serena expectativa da morte; do outro, a juventude renovada (pouco importa se ilusória), o regresso, através do amor (lugar comum literário) aos verdes anos. Sim ou não, vale a pena recomeçar, aceitar um último desafio? O último desafio e morrer, conclui, com a falsa ironia do céptico que procura mascarar-se no palco da intimidade. Tristão e Isolda, amor e morte (Outrora Agora).
Sempre acompanhado do olhar irónico, Jerónimo, que afirma desconhecer as suas capacidades emotivas, (re)velando assim que a sua virilidade já não é mais a mesma, pois refere-se somente aos sentimentos, vê-se obrigado a optar entre a estabilidade da sua vida e o desafio, o desconhecido. Podemos entrever mais uma vez a ironia quando o tradutor assume a sua velhice, mas duvida da sua maturidade, que é grafada entre parêntesis e de forma interrogativa, o que reforça a sua condição de desassossego no tempo presente do relato. O olhar crítico que o narrador-protagonista lança sobre si mesmo e à situação na qual se encontra refere-se tanto à tentativa de resgate do relacionamento com Cristina como à aventura que pode vir a ter com Filomena ou Cecília, e nas duas situações o amor equivale ao retorno da juventude, o prazer e depois a morte. No primeiro caso, Jerónimo reviverá a história da sua geração, com desejos reprimidos, atitudes e gestos comedidos, a velhice, a maturidade; no segundo caso, poderá viver a liberdade moral e comportamental, a juventude renovada». In Edimara Luciana Sartori, Efeito borboleta, Ou a Vida como Caos Causalidade e Casualidade em ‘Outrora Agora’ (Augusto Abelaira), Tese de Doutoramento em Literatura Portuguesa, Imagens líquidas na obra de Augusto Abelaira: sujeito e história na pós-modernidade, CEFET-RS, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2007.

Cortesia da UFRJaneiro/JDACT

terça-feira, 6 de maio de 2014

De como Identifiquei o Tratado de Confissom. Chaves 8. VIII. 1489. José Pina Martins. «… trata-se de um fresco colorido da sociedade portuguesa do século XV. Nesse fresco encontramos desenhado o gráfico existencial do homem português antigo, nas suas grandezas e nas suas misérias»

Cortesia de wikipedia

«(…) Fui informado de que, durante a refeição, quase só se havia falado do Tratado de Confissom. Com a concordância de Lopes Almeida, Marcelo Caetano exprimia-se mais ou menos assim: Sem querer desfazer do valor do rapaz, estou convencido de que ele não tem razão. A data do colofão não é o termo na composição e impressão do livro, mas da redacção do manuscrito. O livro acabou-se na vila de Chaves, o que quer dizer, o manuscrito foi concluído na vila de Chaves, na data indicada. Informado telefonicamente desta objecção, preparei novo artigo, não só reduzindo à sua insignificância estes reparos, que não tinham fundamento, mas trazendo novos elementos que, entretanto, eu tinha alcançado de um confronto muito pormenorizado com incunábulos espanhóis de Zamora e Salamanca um pouco anteriores a 1489. O meu artigo começava por indicar que, de facto, se destinava a pessoas cultas (e M. C. era cultíssimo), mas não especialistas de bibliografia. Este segundo artigo foi publicado em fundo do Diário de Notícias a 20 de Junho de 1965. M. C., em carta escrita no final desse mês, confessou-se vencido e convencido, havendo reconhecido a importância da descoberta para a incunabulística nacional.
Em Dezembro de 1974 (exactamente no dia 19), perante um juiz formado por Eugénio Asensio, Robert Ricard, Paul Teyssier, Raymond Cantel, André Saint-Lu e Marcel Bataillon, que presidia, defendi as minhas teses de doutoramento de Estado na sala Louis Liard da Sorbonne. Uma das teses era exactamente a edição diplomática do Tratado de Confissom e principalmente o meu estudo sobre os problemas do Livro português no século XV. Robert Ricard, não tendo compreendido inteiramente a ironia da minha interpretação de alguns aspectos mais pitorescos e picantes daquele texto, procurou com muita seriedade convencer-me da importância do sacramento da confissão na sociedade portuguesa do século XV, sem se aperceber de que estava a arrombar... uma porta aberta. Mas fê-lo com uma impecável delicadeza e com uma erudição excepcional. Marcel Bataillon discutiu comigo problemas erasmianos e erasmistas, domínio em que era o mais consumado investigador da época contemporânea. Mas Eugénio Asensio ocupou-se exclusivamente do Tratado de Confissom, lendo, um estudo que veio mais tarde a ser publicado, com o título de Une découverte bibliographique, nos Arquivos do Centro Cultural Português de 1977. Recentemente, em 1986, uma distinta bibliógrafa, Rosemarie Erika Horch, sustentou que o Sacramental, de que o único exemplar conhecido, numa edição quatrocentista, existe na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, foi publicado em 1488, também em Chaves, fundando-se, para tal afirmar, num testemunho indirecto.
Na verdade não repugna aceitar que a data do Sacramental seja anterior à do Tratado de Confissom. Infelizmente, porém, o exemplar da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é mutilado, faltando-lhe exactamente o fólio em que devia aparecer o colofão. Estou, contudo, convencido de que a tipografia de língua portuguesa deve ter aparecido em Portugal na década de 1480, embora não possa apoiar, com documentos indispensáveis, esta minha convicção. A qual, por isso mesmo, não pode ser apresentada em termos científicos, exactamente como a hipótese da distinta bibliógrafa Rosemarie Erika Horch. Levar-me-ia muito longe esta breve dissertação se, agora, me dispusesse a pôr em evidência aspectos fundamentais do texto. De facto, trata-se de um fresco colorido da sociedade portuguesa do século XV. Nesse fresco encontramos desenhado o gráfico existencial do homem português antigo, nas suas grandezas e nas suas misérias. Talvez que a parte mais original do Tratado de Confissom seja aquela em que o autor anónimo, que Eugénio Asensio pensa ser um franciscano observante, faz a exaltação do homem, na esteira do De hominis dignitate de Giovanni Pico della Mirandola, e critica pesadamente a corrupção eclesiástica, citando S. Francisco e exaltando o espírito de pobreza. Seria, porém, exorbitar do tema, pois, nesta nota, propus-me apenas recordar algumas ocorrências do debate que se travou em 1965, quando tive a sorte de identificar ou descobrir, como autêntico, um novo incunábulo que, na expressão de Eugénio Asensio, supposait une petite révolution dans I’histoire de Ia culture portugaise et une grande révolution dans celle de Ia typographie». In Lisboa, 13 de Dezembro de 1988.

In José Pina Martins, De como Identifiquei o Tratado de Confissom, Chaves 8. VIII, 1489, Revista ICALP, vol. 15, 1989.

Cortesia de ICALP/JDACT

De como Identifiquei o Tratado de Confissom. Chaves 8. VIII. 1489. José Pina Martins. «Não é que a Democracia seja incompatível, antes pelo contrário, com a cultura antiga e moderna. “Mas nem sempre os homens que se dizem democráticos o são verdadeiramente”.

Cortesia de wikipedia

«(…) Uns meses depois o cimélio foi declarado de interesse e arrolado. O jovem que identificara o livro ficou, naturalmente, de lado. Jorge Peixoto que, desde a primeira hora, manifestara a sua concordância, veio visitar-me para me dizer que, não conhecendo bem a obra, se sentia mortificado por ser chamado a participar num tal acto. Tranquilizei-o: pour être heureux, vivre cache. Era natural que fossem chamados ao Ministério os representantes da ciência bibliográfica oficial. O artigo de 25 de Maio desencadeou, portanto, um debate e provocou uma certa efervescência em meios cultos. Na Universidade os reflexos foram diversos e graduados. Os professores mais preparados como Virgínia Rau e Lindley Cintra manifestaram logo um grande interesse pelo achado. A historiadora, que não simpatizava muito comigo, não sei se pelas minhas relações com a cultura estrangeira, se por eu não ser da sua escola nem seguir muito as suas directrizes de história económica, convidou-me a orientar um seminário no seu departamento. Lindley Cintra desejou colaborar, com Virgínia Rau, com o padre Mário Martins e comigo, num estudo a quatro acerca do cimélio (estudo que nunca foi possível levar a bom termo):
  • Virgínia Rau estudaria aspectos do contexto histórico em que aparecera o livro;
  • Lindley Cintra, grande filólogo, ocupar-se-ia dos lados linguísticos;
  • Mário Martins da parte casuística;
  • eu, do tema bibliográfico.
Sendo, dos quatro, o menos competente, mas porventura o mais diligente, foi-me forçoso estudar sozinho todos esses aspectos na edição publicada em 1973, como primeiro livro de uma colecção, os Portugaliae Monumenta Typographica, que a Imprensa Nacional se comprometeu a editar e os acontecimentos de 1974-1975, estabelecendo, com alguma confusão, um regime democrático em Portugal, prejudicaram. Não é que a Democracia seja incompatível, antes pelo contrário, com a cultura antiga e moderna. Mas nem sempre os homens que se dizem democráticos o são verdadeiramente. Uma tal colecção, parecendo a alguns espíritos modernos e abertos surgida de uma concepção elitista da vida intelectual, estava naturalmente condenada, em período de confusão, a desaparecer. Felizmente o Tratado de Confissom foi editado e teve mesmo a honra de ser discutido na Sorbonne, em Paris, perante um júri presidido por um sábio de prestígio mundial, Marcel Bataillon.
O artigo de 25 de Maio de 1965 teve eco nalguns países europeus: na Alemanha, na Bélgica, na Itália, na própria Inglaterra. Em Roma, L’Osservatore Romano consagrou-lhe um artigo. Os técnicos do Gesamtkatalog de Berlim pediram-me esclarecimentos e vieram a reconhecer como boas as minhas razões. Talvez valha a pena evocar, ainda, outros comentários. Em fins de Maio ou inícios de Junho de 1965 os professores universitários que participaram num congresso luso-brasileiro de cultura, que tinha sido presidido por Marcelo Caetano, encontraram-se com ele num jantar, que teve lugar num restaurante de Lisboa. Era, no espírito de todos, uma homenagem ao presidente que, fora de toda a política e só atento ao prestígio da ciência e da cultura, conduzira com dignidade a representação portuguesa. Lembro-me só de alguns nomes, entre os participantes: além de Marcelo Caetano, Manuel Lopes Almeida, Mário Tavares Chicó, Joaquim Veríssimo Serrão, Maria de Lourdes Belchior e outros». In José Pina Martins, De como Identifiquei o Tratado de Confissom, Chaves 8. VIII, 1489, Revista ICALP, vol. 15, 1989.

Cortesia de ICALP/JDACT

sábado, 19 de abril de 2014

De como Identifiquei o Tratado de Confissom. Chaves 8. VIII. 1489. José Pina Martins. «… neste caso, tomou a nuvem por Juno. Não dê importância, porque o nosso primeiro livro impresso em português é o ‘De uita Christi’, não tenha disso a menor dúvida. Consulte o patriarca da nossa Bibliografia, Barbosa Machado. Leia Inocêncio…»

Cortesia de wikipedia

«(…) Era, em 1965, uma quantia elevada (hoje não passa de um montante modesto, que mal dá para adquirir o De rebus Emanuelis gestis de Jerónimo Osório, de 1571, que é obra importante mas não edição muito rara). Tarcísio Trindade, como livreiro, estava então nos seus princípios. Era um bibliógrafo inteligente, culto e informado, mas sem a experiência que hoje tem, e aprestava-se a constituir família. Se lhe fosse dado fabricar, com a venda da obra umas centenas de contos, seria esse um bom primeiro passo para que o matrimónio começasse a converter-se em património. Despedimo-nos com a promessa para muito breve, de um artigo acerca do Tratado de Confissom. O mês de Maio, para um jovem assistente universitário, era, porém, nesses tempos, um período difícil. Impunha-se corrigir e classificar todos os exames escritos, pois se aproximava o momento das reuniões dos conselhos de docentes correspondendo a um determinado ano de cada secção. Por outro lado, não tendo ainda em meu poder a fotocópia do livro e dispondo apenas das notas que redigira durante os escassos sessenta minutos do encontro, fui tomado por um certo receio. Deixei, pois, correr alguns dias, dedicados à tarefa de corrigir as provas dos alunos, sem me ocupar do livro.
No dia 15 ou 16 Tarcísio Trindade chamou-me ao telefone, da sua casa de Alcobaça. Desejava saber se já tinha escrito o artigo e quando seria publicado. Disse-lhe da grave responsabilidade que representava, a nível público, anunciar uma descoberta tão importante e revolucionária. Não escreveria o artigo se me não fosse dado poder dispor da obra durante, pelo menos, três horas de estudo. Pusemo-nos de acordo para um novo encontro em minha casa, das 21 às 24 horas do dia 18 de Maio. Se retive esta data, é porque, nesse dia, proferi, no teatro do Palácio Foz, uma conferência sobre a Divina Commedia de Dante, pois em 1965 celebrava-se o sexto centenário do nascimento do grande poeta. Foi-me dado, no serão desse dia, fazer um exame aprofundado do paleótipo. Tomei novas notas, desenhei cuidadosamente a marca de água, para a confrontar com as que Briquet reproduz no seu célebre manual e fiquei de posse de uma xerocópia. O artigo foi escrito de jacto, entusiasticamente. O título apareceu com pouco rigor, porque se não trata, de facto, do primeiro incunábulo português, mas do primeiro incunábulo em português.
Escrevi a Natércia Freire uma carta evidenciando a importância extraordinária do anúncio: o Tratado de Confissom antecipava de seis anos a entrada da tipografia de língua portuguesa no nosso país. Além disso, abriam-se novos horizontes ao estudo da nossa incunabulística. Se, em 1965, se descobria um livro quatrocentista anterior ao De uita Christi, totalmente ignorado por todos os bibliógrafos portugueses e do qual não havia rastro em nenhum grande reportório bibliográfico, quem pode garantir-nos que não existirão outros livros impressos em português, e porventura mais antigos? Natércia Freire, que é uma mulher cultíssima, além de muito inteligente, e é igualmente poeta, de uma sensibilidade delicada e subtil, portanto capaz de entender e de sentir o significado espiritual de uma tal descoberta, mandou logo publicar o artigo que apareceu em fundo no Diário de Notícias de 25 de Janeiro desse ano de 1965. Cumprira o prometido e, absorvido pelas reuniões de final do ano, não saía de casa. Os diários desse final de mês não falavam, porém, senão do Tratado de Confissom. Raúl Rego, distinto bibliófilo, e elemento muito activo na militância contra a situação política, soube aproveitar os factos então ocorridos para pôr em causa a negligência do poder. Acontecera que uma senhora adquirira por 400 000 escudos o Tratado de Confissom que Tarcísio Trindade e Américo Marques entregaram ao livreiro mais prestigioso de Lisboa, João Rodrigues Pires, director de O Mundo do Livro. A pessoa que, em troca dos quatrocentos contos em bilhetes de mil escudos, recebera o documento, desapareceu tendo deixado ao livreiro um endereço desconhecido e, como é fácil de adivinhar, não correspondendo à verdade. A polícia ocupou-se do acontecimento e acabou por deslindar a meada. Teria o livro sido vendido para o estrangeiro? perguntava Raúl Rego. Pelo que me diz respeito, antes de enviar o artigo ao jornal, dirigi uma carta ao … anunciando-lhe o achado e exortando-o a adquirir a obra para a Biblioteca Nacional. Estava, portanto, tranquilo com a minha consciência. Aquele alto funcionário do Ministério deve ter consultado as autoridades neste domínio bibliográfico. Esses ilustres técnicos tranquilizaram-no decerto com um discursozinho mais ou menos deste teor:

Senhor Director Geral: Não dê V. Ex.ª ouvidos a palavreado sem consistência. O P.M. é um moço cheio de entusiasmo e de muitas leituras, mas, neste caso, tomou a nuvem por Juno. Não dê importância, porque o nosso primeiro livro impresso em português é o De uita Christi, não tenha disso a menor dúvida. Consulte o patriarca da nossa Bibliografia, Barbosa Machado. Leia Inocêncio. Veja no Samodães e no Ameal. Leia o Brunet, o Hain, o Graesse, o Polain, o GesamtKatalog. Nenhum destes clássicos menciona o Tratado de Confissom. Não duvide, Excelência: trata-se de um presunto incunábulo.

Um comunicado oficial falou, de facto, do presunto incunábulo. O comprador tinha sido um culto banqueiro, o Miguel Gentil Quina, possuidor de uma excelente livraria, o qual, não desejando que se soubesse quem era o comprador, encarregou uma sua secretária de agir por ele. Acabou por ir pessoalmente ao Ministério para pôr à disposição das autoridades o corpo do delito per amor di pátria». In José Pina Martins, De como Identifiquei o Tratado de Confissom, Chaves 8. VIII, 1489, Revista ICALP, vol. 15, 1989.

Cortesia de ICALP/JDACT

quinta-feira, 6 de março de 2014

De como Identifiquei o Tratado de Confissom. Chaves 8. VIII. 1489. José Pina Martins. «Este tratado de confissom se aca / bou na uila de chaues aos oyto di / as do mes de agosto. Ano de mill / e quatrocentos e oytenta e noue anos: / Laus tibi x¨pe. / Deo gratias / Amen. Li, reli, voltei a ler e a reler…»

Cortesia de wikipedia

«(…) A única diferença era apenas este insignificante pormenor: eles eram ricos ou, pelo menos, suficientemente abastados para poderem adquirir tesouros bibliográficos que conheciam menos bem, enquanto eu vivia apenas, junto de minha pequena família, com um salário que mal bastava para satisfazer a renda do apartamento, como era, então, o de um segundo assistente da Universidade de Lisboa. A magreza dos recursos tinha, porém, a vantagem de aguçar a inteligência na pesquisa ou procura de meios ortodoxos que permitissem não só manter um nível decoroso de vida mas também poder, através de um jogo de trocas bibliográficas entre a Itália, a França e Portugal, dar-me a ilusão de rivalizar com aqueles potentados da bibliografia lusíada. Nos inícios de Maio de 1965 visitei o livreiro Américo Francisco Marques, sito então num primeiro andar da Rua da Misericórdia. Era uma manhã radiosa, com um céu cristalinamente azul. Depois dos cumprimentos cordiais, formulei a pergunta que ritualmente vinha repetindo desde Março desse ano: Sabe da existência de um incunábulo em português, do qual se diz ser anterior ao De uita Christis? O meu interlocutor hesitou, numa pausa. Mesmo antes que tivesse murmurado um só monossílabo, compreendi que tinha ido bater à porta justa. Com um sorriso entre enigmático e malicioso, abriu uma gaveta, estendeu-me uma página de fotocópia e, acompanhando o gesto franco com uma inflexão interrogativa, perguntou: Será este o documento que procura? Devorei com os olhos as duas colunas da página, impressas num gótico cansado. Lá estava o colofão redigido na nossa língua: Este tratado de confissom se aca / bou na uila de chaues aos oyto di / as do mes de agosto. Ano de mill / e quatrocentos e oytenta e noue anos: / Laus tibi x¨pe. / Deo gratias / Amen. Li, reli, voltei a ler e a reler. Respondi ao meu amigo livreiro que sim, que era aquele o documento que eu procurava. No meu entusiasmo, afirmei logo que era autêntico e que desejava dar notícia da sua existência. Américo Francisco Marques procurou refrear-me, esboçando o seu tempo e sem pressas. Não é que ele tenha uma concepção panglossiana da vida. Sereno e confiante, da serenidade e confiança que exornam geralmente a personalidade do self made man, prometeu-me que dentro de pouco tempo apresentaria os dois indivíduos que eu desejava conhecer: o incunábulo e o seu dono. Fiquei aguardando.
Dias depois, pelo telefone, marcou-se um encontro a quatro com o cimélio, o seu proprietário, Américo Marques e o autor destas linhas. Na espectativa, eu perguntava-me a mim mesmo se não podia nascer, deste encontro a quatro, uma pequena revolução cultural para o nosso século XV. Não recordo exactamente em que dia ocorreu este encontro, mas posso situá-lo com uma pequena margem de erro: teve lugar entre o dia 8 e o dia 12 de Maio, às 16 horas, na própria livraria de Américo Francisco Marques. Às 15,45 horas subi de três em três os degraus da escada que levava ao primeiro andar e abri a porta, sobre a direita. O livreiro disse-me que Tarcísio Trindade, pois era este o nome do feliz possuidor do cimélio, seria pontual. Este jovem educadíssimo chegou à hora marcada, desembrulhou um conjunto de fólios in-quarto sem encadernação e depô-los nas minhas mãos. Todos os homens que se consagram à actividade intelectual têm pelo menos uma vez na vida, um átimo de graça em que estão convencidos de estarem possuídos por um espírito paraclético ou habitados fugazmente por uma iluminação indefinida. Foi-me dada uma tal experiência (que repetia momentaneamente uma outra que me fora facultada em Florença, às 7 horas da manhã, de um dia de Junho de 1949, entre il Duomo e il Battistero) no próprio instante da primeira impressão táctil com o incunábulo: senti a sua autenticidade. (Em Florença não fora só a revelação fugacíssima do déjà vu, mas algo de mais profundo). Ao contacto com o papel daquele venerável livro, que completará o seu milénio (?) dentro de alguns meses, a perturbação manifestou-se no tremor das mãos: tinha uma certeza intelectual bem sólida de que se tratava de uma descoberta. Mas esta não estava ainda cumprida, era apenas pressentida. Havia, agora, que estabelecer um trânsito lógico, através de argumentos concretos, da fé que arrasta montanhas para a razão que no-las ajuda realmente a transpor, subindo e descendo. Li em diagonal algumas páginas, observei em contra-luz a filigrana do papel, percorri o latim litúrgico das três últimas páginas (as outras todas são em vernáculo) a precederem o colofão, tomei notas com atenção meticulosa e propus, a Tarcísio Trindade, um do ut des que fosse reciprocamente útil: eu desejava estudar o livro, gratis et pro amove scientiae; ele, como mercante, era legítimo que alcançasse o seu ganho. Pedi uma fotocópia e comprometi-me a escrever um artigo de fundo no Diário de Notícias, o jornal português então mais lido e prestigiado. Tarcísio Trindade residia então em Alcobaça e não escondia o seu desejo de vender o livro. Disse-lhe que, com o meu artigo, ia logo vendê-lo. Por quanto?, perguntou, entre curioso e subtilmente ingénuo. Pode pedir o que quiser, repliquei; mas não ultrapasse os quatrocentos contos». In José Pina Martins, De como Identifiquei o Tratado de Confissom, Chaves 8. VIII, 1489, Revista ICALP, vol. 15, 1989.

Cortesia de ICALP/JDACT

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

De como Identifiquei o Tratado de Confissom. Chaves 8. VIII. 1489. José Pina Martins. «… eu era forçado a reconhecer que, se isso ocorresse, ter-se-ia a compensação de um achado de extraordinário valor pelas perspectivas novas»

Adoração, na ‘Vita Christi’, Nicolau de Saxónia e Valentino de Morávia, 1495
Cortesia de wikipedia

«As descobertas científicas situam-se às vezes numa teia de acontecimentos comezinhos, anedóticos e até burlescos. Empregando a expressão descobertas científicas num artigo sobre o Tratado de Confissom, não me proponho reivindicar o diploma de descobridor do primeiro livro, até hoje conhecido, impresso na nossa língua, embora identificar queira dizer, neste contexto, descobrir. O agricultor que, trabalhando numa sua quintarola, desenterra um mármore grego ou romano tem méritos indiscutíveis, mas só o arqueólogo que, pela sua ciência e experiência, seja capaz de definir a caracterização estilística da estátua e situá-la rigorosamente na sua época, pode ser tido como seu verdadeiro descobridor. O homem que a encontrou nas leivas da sua várzea limitou-se a desenterrá-la. Pediram-me um artigo sobre o Tratado de Confissom. Redigi-lo não seria talvez muito difícil, já que o estudei longamente e com grande atenção e sobre ele tenho publicado trabalhos vários e, até, um largo estudo editado em tradução francesa no meu livro Humanisme et Renaissance, - Les deux regards de Janus. Mas a história deste achado bibliográfico nunca foi contada. Valerá a pena fazê-lo hic et nunc.
Nos primeiros meses do já longínquo ano de 1965, corria insistentemente, entre os alfarrabistas de Lisboa, o rumor de se haver encontrado um incunábulo em língua portuguesa anterior ao De uita Christi (Lisboa, 1495), livro que era, até então, considerado como a primeira obra impressa no nosso idioma. O De uita Christi é um cimélio extraordinário por uma série de razões que concorrem neste genuíno momento da nossa prototipografia:
  • O seu formato, sendo o in-folio, impõe-no imediatamente como um livro grande, sendo ao mesmo tempo um grande livro;
  • A sua beleza gráfica e iconográfica é excepcional. Os caracteres são talhados num gótico robusto e claro, impressos a duas colunas num papel consistente e resistente, enquanto as gravuras, pela sua nobreza estilística e pela sua inspiração expressiva são dignas de um grandíssimo artista;
  • Apesar do título latino, o texto é em vernáculo e é um documento valiosíssimo para o estudo do nosso idioma, então a sair da sua infância.
Seria possível que outro livro, sem a beleza daquele, viesse destroná-lo como primeira obra impressa, nem em hebraico nem em latim mas na nossa língua? Reflectia, de mim para comigo, que seria lamentável que um opúsculo insignificante pelas suas características gráficas, se esse fosse verdadeiramente o caso, colocasse em segundo lugar na ordem da hierarquia cronológica aquele que é sem discussão um dos mais belos cimélios de toda a tipografia europeia. Por outro lado, porém, eu era forçado a reconhecer que, se isso ocorresse, ter-se-ia a compensação de um achado de extraordinário valor pelas perspectivas novas que, assim, poderiam abrir-se. Alguns livreiros amigos segredavam-me, contudo, que se tratava de um pretenso incunábulo ou de um pseudo incunábulo, para não dizer um incunábulo falso. Perante estes rumores, com a minha experiência e o meu conhecimento da tipografia quatrocentista, não hesitava exprimir o meu cepticismo.
De facto nada é mais difícil, em termos de restauro arqueológico, do que forjar um incunábulo a partir dos materiais gráficos do nosso tempo, dando-lhe, no século XX, todos os caracteres de um livro do século XV. Rejuvenescer uma amadurecida matrona de 70 anos fazendo-a recuar ao viço de mulher trintona é decerto menos difícil do que efectuar, com êxito, a operação de falsificar um livro nosso contemporâneo dotando-o da frescura, da pátina e da beleza de um cimélio do Quattrocento. Como quer que seja, não sabendo como proceder para apurar a verdade e remontar às origens, fui aguardando. Tinha a certeza íntima de que, mais tarde ou mais cedo, o livro viria ao meu encontro. Os objectos nobres procuram, com efeito, e acabam por encontrar as pessoas que os amam: eu não alimentava qualquer dúvida a esse respeito. Na Lisboa de 1965, e já, de verdade, na Lisboa de 1960, havia talvez estudiosos mais sabedores do que eu no domínio da bibliologia e da bibliografia; mas eu reivindicava, com a minha juventude de então, afirmativa e ingénua, o primeiro lugar em termos de amor autêntico consagrado aos livros antigos: na minha incomensurável suficiência, colocava o comandante Ernesto Vilhena em segundo lugar e o visconde da Trindade em terceiro». In José Pina Martins, De como Identifiquei o Tratado de Confissom, Chaves 8. VIII, 1489, Revista ICALP, vol. 15, 1989.

Cortesia de ICALP/JDACT

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eleonor na Serra de Pascoaes. António Cândido Franco. «… porque o génio panteísta do Poeta dá iluminado relevo à treva e colorida carne aos esqueletos… D'este casamento entre a névoa sebastianista e o sol apolíneo nasceram o Ar Livre, o Pão e as Rosas e as Canções do Sol e do Vento...»

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«(…) Ao lado das Odes Modernas de Antero é indispensável colocar as Claridades do Sul de Gomes Leal, as Heras e Violetas de Guilherme Braga, as Poesias de Cesário Verde, certos poemas de João de Deus e de Guerra Junqueiro, que são sem dúvida dos mais perenes da nossa língua. Também a poesia de Teixeira de Pascoaes não está, no apogeu de todo este ciclo, isolada; a ela se devem juntar, na primeira fase, que é a de Coimbra, as de João Lúcio, Afonso Lopes Vieira, António Corrêa d’Oliveira, e as de Augusto Gil e Fausto Guedes Teixeira, e depois, numa segunda fase, que é a da revista A Águia e a da Renascença portuguesa, as de Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, Afonso Duarte Mário Beirão, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
A João Lúcio(1880-1918) dedicou Teixeira de Pascoaes uma conferência inteira, que foi editada vinte anos depois da sua morte, pela revista Brotéria.  A conferência foi escrita, mas parece que nunca lida, em Maio de 1951. Nela diz Pascoaes de João Lúcio e da sua poesia:
  • Assim o vulto de João Lúcio se destaca na turba de estudantes. Vejo-o. Estou a vê-lo e a ouvi-lo através de 52 anos! E é como se ele estivesse ao pé de mim. Com o Augusto Gil e o Fausto Guedes! O Lúcio era o mais distinto de aparência, e o maior criador de poéticas imagens! Que fantasia sensual! Que primavera a do seu génio! (…) Lede O Meu Algarve. O Na Asa do Sonho! Que turbilhão de imagens multicolores, onde cristalizam ou se esculpem, a cada instante, as formas mais perfeitas de Poesia. O seu verbo tem todas as cores do arco-íris. As suas palavras, no papel, são pinceladas numa tela. Não esqueçamos que era tio do poeta o grande pintor Pousão. As tintas do tio enchiam-lhe o tinteiro, que as não continha.
A António Corrêa d’Oliveira (1879-1960) dedicou Teixeira de Pascoaes muitas páginas dos seus livros, quer falando no poeta quer da sua poesia. Numa dessas páginas comparou-o Pascoaes a Gil Vicente, ao mesmo tempo que comparava Raúl Brandão, outro dos diálogos fundamentais da obra de Pascoaes, com Tolstoi e Dostoievski: E há ainda Corrêa d’Oliveira, esse faminto de terra e céu, esse povo português, como Gil Vicente; e Raúl Brandão, esse genial faminto russo, como Tolstoi e Dostoievski.
Também a Afonso Lopes Vieira (1878-1946) e à sua poesia dedicou Pascoaes outras páginas, até pelas memórias que dele tinha do tempo de Coimbra, onde chegou a assinar conjuntamente com ele um livro de versos, e em muitos parágrafos da sua obra praticou
Pascoaes a exegese poética dos versos deste seu companheiro. Foi com a poesia de Lopes Vieira que ele abriu o capítulo VI de Os Poetas Lusíadas (l.ª edição, 1919), onde de resto encontramos a melhor visão que o próprio Pascoaes tem da sua contemporaneidade. Lopes Vieira veio ao mundo envolto na sombra do Encoberto. A Lembrança do Rei camoneano amanhece florescida nos seus versos, porque o génio panteísta do Poeta dá iluminado relevo à treva e colorida carne aos esqueletos… D'este casamento entre a névoa sebastianista e o sol apolíneo nasceram o Ar Livre, o Pão e as Rosas e as Canções do Sol e do Vento...»

In António Cândido Franco, Eleonor na Serra de Pascoaes, Edições Átrio, Lisboa, Colecção o Chão do Touro, 1992, ISBN-972-599-042-0.

Cortesia de Átrio/JDACT

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Obra poética de Ruy Belo. Aquele grande rio Eufrades. «A morte é a grande palavra desse homem não há outra que o diga a ele próprio. É terrível ter o destino da onda anónima morta na praia»

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Para a Dedicação de um Homem
Terrível é o homem em que o senhor
desmaiou o olhar furtivo de searas
ou reclinou a cabeça,
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina.
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima.
A morte é a grande palavra desse homem
não há outra que o diga a ele próprio.
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia.

A Multiplicação do Cedro
O senhor deus é espectador desse homem.
Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe
nos olhos o tempo suave das árvores.
Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma
cada uma das quatro estações.
A Primavera veio e ele árvore singular
à beira do tempo plantada
vestiu-se de palavras.
E foi a folha verde que deus passou
pela terra desolada e ressequida.
Quando as palavras o deixaram de cobrir,
ficaram-lhe dois dos olhos por onde
o senhor olha finitamente a sua obra.
Até que as chuvas lhe molharam os olhos
e deles saíram rios que foram desaguar
ao grande mar do princípio.

Poema quase Apostólico
Está sereno o poeta.
Desprende-se-lhe dos ombros e cai
depois em pregas por ele abaixo a manhã.
Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
não morrerão na noite seus assombrosos passos
dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
de crianças de atitudes desmedidas
que o vento varreu e parque algum queria.
E abre os braços para deixar cair na cidade
um ano favorável ao senhor
e põe o rosto do senhor por trás das suas palavras.
Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.

Homem para Deus
Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra,
temei não partam dele as grandes negações.
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
É no seu coração que todo o homem ri e sofre,
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre.
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar,
embora diminuta uma qualquer consequência.
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes.

Oh que difícil não é criar um homem para deus!

Poemas de Ruy Belo, in ‘Obra Poética’

JDACT

quarta-feira, 9 de maio de 2012

BNP. Horas de Nossa Senhora...Rezar em Português. «A reimpressão (em edição fac-similada) que hoje se apresenta fica-se a dever à amabilidade e ao apoio da Fundação Luso‑Americana (FLAD) que não só disponibilizou o acesso ao livro e à sua digitalização, como tornou possível que a Biblioteca Nacional de Portugal o publicasse»


Cortesia de bnp

Lisboa: BNP, 2009. 2 vol. (Fac-similados).
  • Vol. 1.: Fac-símile do exemplar da Biblioteca do Congresso, em Washington,Rare Book Division, Rosenwald, 451. 240 p.; 
  • Vol. 2.: Estudo de João José Alves Dias. Rezar em português: introdução ao livro de Horas de Nossa S[e]n[h]ora segundo costume Romaa[n]o… Paris, Narcisse Brun, 13 de Fevereiro de 1500 [i. é 1501]. 187 p.
Apresentar uma edição fac-similada de um “Livro de Horas” cujo original não é nem um manuscrito iluminado nem em latim pode parecer estranho. Na verdade trata-se de um livro impresso, mas com uma particularidade singular. É composto em português, impresso em Paris, em 1500/1501, e o único exemplar conhecido encontra‑se na Biblioteca do Congresso, em Washington.
É tão raro como um manuscrito.

Trata-se das “Horas de nossa Senhora segundo costume Romaano . com as horas do spirito sancto . e da cruz e dos finados . e sete psalmos . e oraçam de sam lyom papa e oraçam da empardeada . e com outras muytas e deuotas orações”. A sua singularidade e raridade deve-se, por um lado, à sua natureza – que motivava um uso e manejo quotidiano o que lhe provocava fragilidade – e, por outro, ao seu conteúdo – dado incluir os conjuros chamados “Oração de São Leão Papa [p. 200‑221] e Oração da Emparedada [p. 222-239], a Oração de Nosso Senhor Jesus Cristo (Juste judex) [p. 177‑179], antífona e oração de São Cristóvão” [p. 192-194] e «indulgências fingidas» [p. 173] dos Papas João XXII e Inocêncio III, todos proibidos pela Inquisição (maldita) do século XVI.

Cortesia de bnp

A reimpressão (em edição fac-similada) que hoje se apresenta fica-se a dever à amabilidade e ao apoio da Fundação Luso‑Americana (FLAD) que não só disponibilizou o acesso ao livro e à sua digitalização, como tornou possível que a Biblioteca Nacional de Portugal o publicasse.
À Biblioteca do Congresso, em Washington (USA), à Fundação Luso‑Americana (Lisboa) e à Biblioteca Nacional de Portugal agradeço todo o carinho que dedicaram a esta edição». In João José Alves Dias, Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia de BN de Portugal/JDACT

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Paesi novamente retrovati… Obra Rara: « Contém em seis livros a descrição das viagens de Cadamosto a Cabo Verde e Senegal ao serviço de Portugal, de Lisboa a Calecut, a viagem de Pedro de Sintra ao Senegal…»

Cortesia de bibliotecajoanina
 
«Paesi novamente retrovati… é a primeira edição, impressa em Vincenza, em 3 de Novembro de 1507, de uma colectânea que foi verdadeiro sucesso editorial no século XVI. Organizada por Fracanzano da Montalboddo, compila diversos relatos de viagens de descoberta (ou redescoberta) empreendidas por portugueses, espanhóis e italianos, estes ao serviço das coroas peninsulares.

Contém em seis livros a descrição das viagens de Cadamosto a Cabo Verde e Senegal ao serviço de Portugal, de Lisboa a Calecut, a viagem de Pedro de Sintra ao Senegal, a narrativa da viagem de Vasco da Gama e a de Pedro Álvares Cabral à Índia e ao Brasil. Trata-se da primeira vez que se editou em italiano a terceira viagem de Américo Vespúcio. Mas, muito mais importante do que isso, inclui um dos primeiros relatos publicados sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Essa uma das razões do seu sucesso e da sua quase imediata tradução para latim e alemão». In Biblioteca Joanina, Universidade de Coimbra.

Cortesia de jcblunaimaging

Cortesia da U. C./JDACT

quinta-feira, 21 de julho de 2011

António Ventura: A Maçonaria no Distrito de Portalegre (1903-1935). «A Maçonaria moderna surgiu em 1717,com a formação da Grande Loja de Londres, herdeira de uma tradição mais antiga que remonta às corporações medievais e, eventualmente, a outras organizações iniciáticas cristãs e até da Antiguidade»


Cortesia de wikipedia

Poucos temas provocaram tanta polémica nos últimos três séculos como o das sociedades secretas. Mas a verdade é que, nas mais diversas épocas, culturas e civilizações, desde as sociedades tecnologicamente mais atrasadas até às mais evoluídas, a existência real ou alegada de associações desse tipo provocou aceso debate, acaloradas discussões, condenações liminares e elogios igualmente ilimitados. Ainda hoje, quando algum periódico sente necessidade de apimentar as primeiras páginas, recorre a essa temática que se pretende sensacionalista. O conceito de sociedade secreta não se manteve imutável ao longo dos tempos, evoluiu e ganhou novas dimensões. As associações secretas de carácter mágico e religioso que encontramos na Antiguidade, no Egipto, na Grécia, em Roma, na Índia ou na Pérsia, possuíam características diferentes das sociedades secretas africanas ainda hoje existentes. Por outro lado, há um certo equívoco em torno do conceito de secreto, identificando-se secretismo com práticas ilícitas, pouco claras e censuráveis. Mas secretas eram também as reuniões dos cristãos nos primeiros tempos do cristianismo, ou no Japão dos séculos XVII e XVIII, dos judeus e dos protestantes durante as perseguições...

Cortesia de wikipedia

Tem havido, também, uma utilização demasiado generalizada da expressão «sociedade secreta». É que nem todos os agrupamentos que procuraram furtar-se aos olhares indiscretos foram ou são necessariamente «sociedades secretas».

De todas as sociedades secretas, a que suscitou maior polémica foi, sem sombra de dúvida, a Maçonaria. A Maçonaria moderna surgiu em 1717,com a formação da Grande Loja de Londres, herdeira de uma tradição mais antiga que remonta às corporações medievais e, eventualmente, a outras organizações iniciáticas cristãs e até da Antiguidade. Em 1723 foi dotada de um quadro legal, as famosas Constituições de Anderson. Influenciada pelos ideais iluministas e pelas correntes deístas muito difundidas no Velho Continente nos finais do século XVII e início do seguinte, a Maçonaria disseminou-se com rapidez pela Europa mas também pelas colónias americanas, onde teve um papel decisivo na independência daqueles territórios, deste os Estados Unidos até às colónias espanholas e ao Brasil.

Cortesia de wikipedia

A Maçonaria também chegou a Portugal ainda nas primeiras décadas do século XVIII Em 1727 já existia em Lisboa uma Loja formada por comerciantes britânicos que a Inquisição classificava como «dos Hereges Mercadores», por serem protestantes quase todos os seus membros. Esta Loja foi regularizada em 1735, filiando-se na Grande Loja de Londres. Em 1733 fundou-se uma segunda Oficina na capital portuguesa, a «Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia», formada por elementos predominantemente católicos, de nacionalidade irlandesa, comerciantes, militares, marítimos, médicos e três frades de S. Domingos.

Obreiro desta Loja foi o oficial húngaro Carlos Mardel, um dos arquitectos da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755. Uma terceira Loja surgiu em 1741, também em Lisboa, fundada pelo lapidário de diamantes John Coustos. De nacionalidade Suíça, depois naturalizado inglês, John Coustos descreveu as perseguições que sofreu por parte da Inquisição portuguesa, que o levaram à prisão e depois à expulsão do país. Desta Loja fizeram parte três dezenas de estrangeiros residentes em Portugal - franceses, ingleses, holandeses, italianos... - quase todos comerciantes». In António Ventura, A Maçonaria no Distrito de Portalegre, Editora Caleidoscópio, 2007; ISBN 978-989-8010-84-1.

Cortesia de Caleidoscópio
Com amizade, JDACT