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quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Essa era a nossa situação actual. Será que eu poderia ter evitado tudo isso de alguma maneira, tomando um rumo que nos conduziria a um caminho diferente…»

Cortesia de wikipedia

Isabel. Maio de 1588

«(…) Tinha guardado aquele retrato para me lembrar dos seus sofrimentos e também dos seus erros, não para julgar sua alma. Uma lembrança sempre triste com o leve brilho de esperança no seu olhar e a boca retorcida como se guardasse um segredo. Ostentava no peito um broche com uma pérola creme em forma de lágrima, presente de seu esposo, Filipe. Mas seria uma ilusão da luz agora? O olhar não estava nada melancólico, mas sim dissimulado. A curva da boca expressava ironia. O retrato todo pulsava com um brilho avermelhado, como se demónios o estivessem iluminando. Ela havia trazido o demónio espanhol para nossa costa, ligando-nos àquele país. A comitiva de casamento de Filipe, na sua Armada, chegara em Julho, há trinta e quatro anos, e agora retornava para terminar o que havia começado no casamento de Maria em 1554: fazer com que a Inglaterra retornasse ao rebanho papal. Devia guardar o retrato n’outro lugar. E quanto à pérola, por mais cara que fosse, tinha trazido uma maldição consigo. Devia voltar ao dono original. Nem mesmo vendê-la faria com que conseguisse livrar-me dela. Quando tudo isso acabar..., quando tudo isso acabar, Filipe terá sua maldita pérola de volta. Ela matou minha irmã e agora estava contaminando o meu quarto. O brilho do sol desapareceu, e o quadro voltou ao normal, a tonalidade demoníaca sumira. O rosto de minha irmã voltou a ser daquela jovem orgulhosa e cheia de esperança que havia recebido Filipe como esposo. Marjorie e Catherine estavam logo atrás de mim, diplomaticamente silenciosas, mas muito provavelmente perguntando-se o que eu estaria fazendo. Virei-me e disse: devemos nos preparar para dormir. Gostaria que ficassem comigo, mas devo enviar as jovens para bem longe até que o perigo tenha passado. Havia nomeado o marido e o filho de Marjorie, os soldados Norris, chefes das forças em terra do sueste, e o marido de Catherine comandante-geral tanto das forças em terra como em mar. Além disso, o pai dela, lorde Hunsdon, deveria cuidar da nossa segurança pessoal. Temo que estejamos juntas nisso: minha Gralha e minha Gata. Constrangida, voltei a usar os antigos apelidos que um dia lhes dei: Marjorie, com olhos e cabelos escuros e voz rouca, chamei de Gralha. Minha gentil, quieta e ronronante Catherine era minha Gata. Deitei-me na escuridão que no começo do Verão nunca é tão escura assim. Os sons habituais de felicidade tinham desaparecido do rio que corre pelo palácio. O reino vivia um momento de tensão. Nada se movia nem por água nem por terra.

Essa era a nossa situação actual. Será que eu poderia ter evitado tudo isso de alguma maneira, tomando um rumo que nos conduziria a um caminho diferente, talvez a um destino mais seguro? Não se quisesse manter-me fiel a quem era. O meu nascimento sancionara a entrada do protestantismo em meu país. Renunciá-lo ao chegar à idade adulta seria negar meus pais e rejeitar o meu destino. Sabia em primeira mão o que isso significaria, pois vi minha irmã passar esse dilema. Ao submeter-se a nosso pai e concordar que o casamento de sua mãe era inválido e ela própria filha bastarda, acabou por espezinhar suas mais profundas crenças. Odiando a sua fraqueza por ter cedido, ela tentou acalmar sua consciência e desfazer o dano depois. O resultado foi a tentativa infeliz de voltar a impor o catolicismo à Inglaterra. Isso trouxe muita crueldade, ainda que ela não fosse por natureza uma mulher cruel. A consciência ferida de um governante cobra um preço muito alto de seus súbditos. O destino havia me lançado como símbolo do protestantismo. Portanto, era apenas questão de tempo até que os defensores da antiga crença me confrontassem». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

JDACT, Margaret George, História, Literatura, Saber, 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Enquanto saíam, percebi que estavam surpresos, e aliviados, por termos todas as nomeações feitas. Bons guerreiros que eram já estavam com o pensamento no campo de batalha e no trabalho que teriam pela frente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Isabel. Maio de 1588

«(…) Levantei a mão para calá-lo por um instante e disse: mais tarde. Por enquanto temos que decidir a implantação de nossos recursos gerais. Assim, almirante Howard, você recomenda dois esquadrões separados de navios? Não seria melhor posicioná-los todos na entrada do Canal? Não. Se eles passarem por nós lá, terão o resto do caminho livre. Tomarão o Canal, a menos que já estejamos esperando por eles mais adiante. Não acho, interrompeu Drake. Quieto!, silenciei-o. E as nossas forças de terra? O que diz, primo?, perguntei para Henry Carey, lorde Hunsdon. Era um homem grande que me fazia lembrar um urso, e como tal parecia pertencer à natureza. Fora responsável pelas Marchas do Leste, montando sua base próxima à fronteira escocesa. Serei responsável pela sua segurança, disse. Terei forças com base em Windsor. Caso as coisas fiiquem mais..., incertas..., posso garantir-lhe um local seguro no interior. Nunca me esconderei no interior!, respondi. Mas Vossa Majestade deve pensar no seu povo, insistiu Walsingham. Deve designar substitutos para supervisionar a administração de suprimentos e para o controle dos preparativos defensivos, ao mesmo tempo em que cuida de si mesma. Pelo amor de Deus!, gritei. Eu mesma supervisionarei tudo isso! Mas isso não é aconselhável, disse Burghley. E quem é contra?, indaguei. Comando este reino e não devo em hipótese alguma delegar seu alto-comando a outros. Ninguém se preocupa mais com a segurança do meu povo do que eu. Mas a senhora não é..., Leicester tentou iniciar um contra-argumento. Competente? É isso o que você acha? Guarde sua opinião para si mesmo! Ah, ele me enlouquecia às vezes! E só ele se sentia seguro o suficiente para expressar sua péssima opinião sobre mim como líder de guerra.

Agora, e o restante das forças? Virei-me para Hunsdon e perguntei: quantos homens conseguiremos reunir? Nos condados do sul e do leste, talvez uns 30 mil. Mas muitos são garotos ou velhos. E muito mal treinados. Medidas defensivas?, perguntei. Farei com que algumas das pontes antigas sejam demolidas e podemos colocar barreiras no Tamisa para impedir que a Armada navegue até Londres. Lamentável, esbravejou Drake. Se a Armada chegar assim tão longe, será única e exclusivamente porque eu, John Hawkins, Martin Frobisher e o grande almirante aqui presente estaremos mortos. Aquela era uma observação importante. Fiz um gesto com as mãos para que eles ficassem quietos. Fechei os olhos e tentei organizar meus pensamentos, procurando entender tudo o que havia sido dito. Muito bem, sir Francis Drake, concordei. Vou permitir a sua estratégia. Navegue até ao sul para enfrentar a Armada. No entanto, deve retornar no mesmo instante em que sentir que estamos em perigo. Quero todos os navios aqui para enfrentar o inimigo se ele vier. Encarei os olhares dos demais, fixos em mim e continuei a delegar: almirante Howard, deve comandar o esquadrão oeste, com base em Plymouth. Além disso, será comandante-geral das forças tanto em terra quanto em mar. Seu navio será o Ark. Drake será seu segundo comandante. Se importa, Francis? O almirante Howard será seu oficial comandante. Drake concordou. Lorde Henry Seymour, cujo posto habitual é almirante dos mares estreitos, comandará o esquadrão leste em Dover. Olhei para Hunsdon e disse: lorde Hunsdon, você comandará as forças responsáveis pela minha segurança, com base próxima a Londres. Nomearei a família Norris, sir Henry o pai e seu filho sir John, vulgo Black Jack, como general e sub-general dos condados do sueste. O jovem Robert Cecil será mestre de artilharia do exército principal. E você, falei, olhando directamente para Robert Dudley, lorde Leicester, será tenente-general das forças de terra para a defesa do reino. Sua expressão era de espanto, assim como a dos demais. Faça melhor do que fez nos Países Baixos, foi minha resposta ao insulto anterior.

Enquanto saíam, percebi que estavam surpresos, e aliviados, por termos todas as nomeações feitas. Bons guerreiros que eram já estavam com o pensamento no campo de batalha e no trabalho que teriam pela frente. Finalmente anoitecia, o silêncio da noite caía como uma chuva leve e, enfim, conseguiria descansar. Meus aposentos, de frente para o rio, foram invadidos pelos reflexos da luz do sol por alguns instantes, antes que o brilho dourado desaparecesse. Ainda acariciavam o retrato da minha falecida irmã, a rainha Maria, pendurado na parede na minha frente». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

JDACT, Margaret George, História, Literatura, Saber, 

quarta-feira, 18 de março de 2020

A Verdadeira História. Margaret George. «Então, podemos falar à vontade. Antes que pudesse continuar, alguém bateu à porta. Depois de um susto, todas começaram a rir»

jdact

A Mulher que Amou Jesus
«(…) Por volta de meio-dia, as mulheres começaram a chegar à casa de Zebida, com as cabeças cobertas devido à poeira e ao sol quente. Logo se sentaram, tomando iogurte com hortelã e conversando sobre Maria. Esta sentia-se como se fora um daqueles cordeiros, no mercado, que as pessoas ficavam inspeccionando. Débora, que chegara com sua mãe depois das outras, afinal era muito parecida com Joel, o que Maria achou reconfortante. Quando terminaram de se cumprimentar umas às outras e de pôr em dia os mexericos mais recentes, a mãe de Maria ergueu as mãos e pediu silêncio. Olhando em volta, com um certo exagero, disse: podemos ter a certeza de que não há homens aqui? A senhora olhou nos quartos, lá atrás?, perguntou uma das primas de Maria. Eles gostam de se esconder lá! Dando risada, correram lá atrás para ver e voltaram, abanando a cabeça. Estamos sozinhas! Bom!, disse Zebida. Então, podemos falar à vontade. Antes que pudesse continuar, alguém bateu à porta. Depois de um susto, todas começaram a rir.
Até parece que estamos com medo que entre um soldado romano aqui dentro, disse Ana, tia de Maria. Zebida abriu a porta e viu o vulto curvado de Ester, a viúva que morava do outro lado da rua. Os olhos negros de Ester perceberam o grupo de mulheres e disse: desculpem-me, eu só vinha perguntar se teria um pouco de farinha de cevada, mas acho que... Não, por favor, entre!, disse Zebida, quase puxando Ester para dentro. Precisamos dos seus conhecimentos. Conhecimentos? Sobre o que significa o passar dos anos para um homem e uma mulher, disse Zebida. Como sabe, minha filha Maria vai casar-se em breve. Então, juntamo-nos, todas as mulheres da família, para ajudá-la e transmitir-lhe o que sabemos. Mas não temos pessoas mais idosas, pois minha mãe e a mãe de Natã morreram há muito tempo, assim como nossas tias. Então, poderia ajudar-nos!
A velha senhora olhou em torno de si, atentamente. Não sei que tipo de conhecimentos eu poderia ter. Só sei que vivi por muitos anos, só isso. Vivi mais tempo sozinha do que o tempo que passei casada. Já sou viúva há mais de 40 anos. As mulheres na sala tentaram não olhar para ela com piedade, mas todas sabiam o que significava ser viúva, principalmente sem filhos. Venha sentar-se, disse Zebida. Ester não deu atenção e dirigiu-se a Maria. Conheço-a desde que nasceu, disse. E desejo-lhe muita felicidade. E deu-lhe uma pancadinha suave no braço. Maria tentou disfarçar: os machucados e os arranhões doíam-lhe muito, hoje, e ela só orou para que ninguém lhe pedisse para pôr o vestido de noiva e mostrar os braços. Agora, faltava pouco para deixar esta casa assombrada, esta casa onde pairava algum espírito maligno, que a atormentava. Faltava pouco... Joel poderia não ser o marido ideal para ela, mas podia salvá-la das angústias que existiam dentro das paredes da sua própria casa. Obrigada, disse Maria, puxando o braço para si. Mas devo dizer-lhe, continuou Ester, que boa parte dessa felicidade depende da sua própria força. O homem tem pouco a ver com isso.
A mãe de Joel olhou para ela, indignada. O que a senhora quer dizer com isso?, perguntou. É claro que meu filho tem tudo a ver com isso! Se seu filho for um bom homem, ele terá, disse Ester. Mas caso Maria fosse escolhida por alguém não tão bom, ainda assim poderia depender da sua própria felicidade. E se algo trágico acontecesse que Javé não o permita!, e ela se tornasse viúva, como eu, sua felicidade estaria exclusivamente em suas mãos. Eu acho que a senhora está velha e não compreende que esta é uma ocasião de alegria, disse Judite. Se não fosse conhecida de Zebida, eu suspeitaria que tivesse alguma ligação com o Mal. Peço-lhe, no entanto, que retire o que disse do meu filho! Eu não quis dizer nada de mal, mas fingir que o mal não existe só significa fortalecê-lo, insistiu Ester, teimosamente. Tudo o que desejo é uma vida longa e saudável para seu filho e para Maria. Zebida enfiou uma xícara na mão de Ester e afastou-a do grupo, dirigindo-se com ela para um canto da sala». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «O preço, porém, era absurdo. Maria não poderia permitir-se pagar tão caro. Veja só!, disse Quezia, erguendo um cálice. Não dá para imaginar…»

jdact

A Mulher que Amou Jesus
«(…) Como somos desleixados!, disse Sara, levantando-se. Não demos parabéns a Maria, nem lhe demos a nossa bênção. Em breve estará casada! Ficaram todos de pé e Benjamim estendeu a sua mão sobre a cabeça de Maria. Querida amiga de minha filha, que é como filha minha, que a bênção do casamento traga felicidade à sua casa. Maria nunca o tinha visto tão solene. Quezia apertou sua mão enquanto o pai pronunciava as palavras, e sua pele se arrepiou. Depois do Sabá seguinte, Quezia levou Maria para conhecer os comerciantes que tinham lojas perto da de seu pai, apresentando-a a eles. Quando dizia minha amiga Maria, que se irá casar em breve com Joel, de Naim, a felicidade que transparecia na sua voz era inconfundível. Ser noiva era resolver um dos mistérios da vida. Aquela era uma parte da cidade em que somente os ricos faziam compras. Um mero colar podia custar o equivalente ao salário pago a um pescador por toda uma estação de pescaria; uma tigela de cerâmica bem torneada podia corresponder à pensão de uma viúva. Era um bairro frequentado pelos outros saduceus da cidade, que não se importavam de caminhar ombro a ombro com romanos e gregos. Minha família jamais permitiria que eu fizesse compras aqui, pensou Maria. Mas sorria, educadamente, e acenava com a cabeça para os comerciantes. Desde a sua primeira visita à casa de Quezia, há tanto tempo, Maria havia compreendido que a sua família também poderia ser rica, porém eles escondiam as suas riquezas. Só algumas coisas valiam a pena; as outras eram vaidade. Eram generosos com os pobres, davam contribuições consideráveis para a caixa de caridade da sinagoga, mas não comprariam louça na cidade alta. Imagine!, uma tigela de cerâmica por um preço daqueles? Jamais!
Em consequência disso, embora Maria gostasse de olhar as coisas que Quezia tinha, também se censurava, em parte, por essa tolerância. Sentia-se dividida entre o seu bom senso, as normas de sua família, e seus próprios desejos. Aquela tigela era tão linda, tão delicada e fina que se podia ver o contorno da mão do outro lado, contra a luz. Um trabalho desses merecia respeito. O preço, porém, era absurdo. Maria não poderia permitir-se pagar tão caro. Veja só!, disse Quezia, erguendo um cálice. Não dá para imaginar você enchendo este cálice e dizendo: e aqui, eis o nosso melhor vinho?
O cálice era de ouro. Não, disse Maria. Um cálice de ouro é o tipo de coisa que nunca terei. Pegou-o na sua mão, examinou-o atentamente, reparando na superfície lisa e bem trabalhada e, com uma certa resistência, colocou-o de volta no seu lugar. Sem nunca lhe ter perguntado, sabia que Joel jamais compraria uma coisa daquelas. O mundo de cálices de ouro não era o seu. Bom, eu espero que ele deixe você escolher alguma coisa bonita, uma coisa que lembre você do seu casamento, disse Quezia. Acho que nunca esquecerei o dia do meu casamento, mesmo que não receba um presente especial, disse Maria. Lembrarei de tudo aquilo em que tocar nesse dia. O próprio dia tornará as coisas sagradas. À medida que o dia do casamento se aproximava, os preparativos iam tomando cada vez mais tempo da família. A mãe de Maria, que cuidava com tanto zelo da casa, deixava agora algumas coisas de lado para se entregar aos projetos de casamento de sua única filha. Ela até cantava enquanto arrumava a casa, coisa que Maria não se lembrava de ter visto.
Certa noite, anunciou que o dia seguinte seria inteiramente por conta dos preparativos pelas mulheres da família. Suas primas, suas tias e a irmã de Joel estão vindo!, disse, orgulhosa. É verdade, a irmã dele, Débora, está vindo de Naim! Jeol falava de Débora com muito carinho, mas Maria nunca a havia encontrado. Conhecera a mãe dele, Judite, e o pai, Ezequiel, que tinham vindo a Magdala pouco após o pedido de casamento. Maria constatara, com surpresa, que Joel não se parecia muito com qualquer deles: ambos eram baixinhos e atarracados, enquanto Joel era alto e magro. Ficara imaginando como seria Débora». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

domingo, 1 de março de 2020

As Memórias de Cleópatra. Margaret George. «A geografia é muito interessante, acrescentou o outro homem, cuja língua era o grego. Alguém o chamou de Teófanes. Muito difícil de mapear...»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Filha de Isis
O primeiro pergaminho. Calor. Vento
«(…) Sem esperar pela resposta, ele deu uma cutucada (toque para chamar a atenção) nas costelas do seu companheiro. Moram lá, mas precisam trabalhar para o rei. Quando ele quer saber alguma coisa, digamos, qual a profundidade do Nilo perto de Mênfis, por exemplo, o rei só precisa chamar alguém que saiba a resposta, mesmo no meio da noite! Não é verdade? Meleagros ficou rígido; era como se ele quisesse bater no romano. Não é bem assim, respondeu. É verdade que somos sustentados pela generosidade da coroa, mas o nosso rei nunca foi tão indelicado fazendo exigências exorbitantes. De facto, interpôs meu pai. Eu o chamei aqui para que ele questione você, Varro. Meleagros tem enorme interesse por plantas e animais incomuns e, pelo que ouvi, muitos de vocês andaram observando e reunindo espécies perto do Mar Cáspio, depois de afugentar Mitridates, quero dizer. É verdade, admitiu o romano chamado Varro. Tínhamos esperança de aprender mais sobre o comércio famoso da Índia através do Mar Cáspio. Mas Mitridates não foi o único a fugir, nós também, por causa das serpentes venenosas. Nunca vi tantas serpentes, dos mais diversos tipos. Mas o que se podia esperar de um lugar à beira do fim do mundo conhecido como aquele...
A geografia é muito interessante, acrescentou o outro homem, cuja língua era o grego. Alguém o chamou de Teófanes. Muito difícil de mapear... Vocês têm mapas? Meleagros pareceu interessado. Completamente novos. Talvez gostasse de vê-los? E assim continuou a conversa educada. O menino ao meu lado estava quieto. O que veio fazer aqui? O vinho foi distribuído, e a conversa cresceu em volume, ficou mais animada. Os romanos esqueceram-se de falar grego e voltaram a conversar em latim. Como soava estranha e monótona se não se compreendia a língua. E eu não a tinha estudado. Havia pouca razão para sabê-la. Nada importante fora escrito nela; nenhum discurso famoso ou qualquer coisa assim. Outras línguas, como o hebreu, o siríaco e o aramaico eram muito mais úteis. E no momento, eu tinha decidido tentar falar egípcio, para que pudesse compreender o povo em qualquer lugar no meu país. Mas latim? Mais tarde, talvez.
Fiquei olhando as minhas irmãs, que mal continham o desprezo pelos romanos; quando a conversa mudou para o latim, Berenice e Cleópatra reviraram os olhos. Isto me preocupava; e se os romanos as vissem assim? Pensei que devíamos ter cuidado para não ofendê-los. De repente, as trombetas soaram e uma multidão de servidores apareceu, como se saíssem das paredes, e levaram os cálices de ouro embora, trocando-os por outros cálices de ouro, ainda mais decorados e cobertos de pedras preciosas do que os primeiros. Os romanos simplesmente ficaram boquiabertos, o que imaginei ser exactamente o efeito desejado. Mas para quê? Porque o pai estava tão ansioso em mostrar a nossa riqueza? Será que isto não os faria ainda mais desejosos de abocanhá-la? Isto me deixava confusa. Vi Pompeu olhando com uma expressão sonhadora para o cálice à sua frente, como se o imaginasse sendo derretido.
Então ouvi o nome de César, junto com algo a ver com ganância e necessidade de dinheiro. Parece que ouvi Pompeu dizer para o pai, fiz um esforço grande para ouvir - que César (quem quer que fosse ele) queria tomar o Egipto e anexá-lo a Roma como província, já que o Egipto tinha sido deixado para Roma num testamento... O testamento era falso, ouvi o pai dizer e a sua voz soou tão fina como a de um eunuco. Ptolomeu Alexandre não tinha o direito de fazer tal doação... Ha, ha, ha! Pompeu riu. Isto depende de quem o interpreta... Então, você quer ser um cientista também? Teófanes perguntou educadamente ao menino ao meu lado. É por isso que está aqui com o seu pai? Maldição! Agora não dava mais para eu ouvir o que meu pai e Pompeu diziam, e era tão importante. Tentei bloquear as vozes ao meu lado, mas era inútil. Não, o menino respondeu, sua voz afogando as vozes mais distantes. Embora tenha interesse em botânica e no mundo animal, meu interesse maior é pelo mais complexo dos animais: o homem. Quero estudá-lo, por isso vou ser um médico.
Como se chama? Teófanes perguntou como se estivesse realmente interessado. E que idade tem? Olímpio, respondeu. Tenho nove anos. Vou fazer dez no próximo Verão. Fique quieto! Mandei no meu pensamento. Mas Teófanes continuou fazendo perguntas. Ele morava no Museion também? Estava interessado num tipo particular de medicina? Que tal pharmakon, drogas? Esta é uma maneira de combinar o conhecimento de drogas com a medicina. Sim, claro, Olímpio dizia. Gostaria de perguntar a vocês sobre o mel louco. Foi para isso que vim aqui esta noite. Ou convenci meu pai a me trazer, para ser exacto. Teófanes parou de sorrir». In Margaret George, As Memórias de Cleópatra, 1997, tradução de Lídia Zanon, Geração Editorial, 2000-2001, Edições Chá das Cinco, 2007, IBSN- 978-989-803-200-3.

Cortesia de GEditorial/ECdasCinco/JDACT

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Leicester tentou iniciar um contra-argumento. Competente? É isso o que você acha? Guarde a sua opinião para você mesmo!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Isabel. Maio de 1588
«(…) Levantei a mão para calá-lo por um instante e disse: mais tarde. Por enquanto temos que decidir a implantação dos nossos recursos gerais. Assim, almirante Howard, você recomenda dois esquadrões separados de navios? Não seria melhor posicioná-los todos na entrada do Canal? Não. Se eles passarem por nós lá, terão o resto do caminho livre. Tomarão o Canal, a menos que já estejamos esperando por eles mais adiante. Não acho, interrompeu Drake. Quieto!, silenciei-o. E as nossas forças de terra? O que você diz, primo?, perguntei para Henry Carey, lorde Hunsdon. Era um homem grande que me fazia lembrar um urso, e como tal parecia pertencer à natureza. Fora responsável pelas Marchas do Leste, montando a sua base próxima à fronteira escocesa. Serei responsável pela sua segurança, disse. Terei forças com base em Windsor. Caso as coisas fiquem mais..., incertas..., posso garantir-lhe um local seguro no interior. Nunca me esconderei no interior!, respondi. Mas Vossa Majestade deve pensar no seu povo, insistiu Walsingham. Deve designar substitutos para supervisionar a administração de suprimentos e para o controle dos preparativos defensivos, ao mesmo tempo em que cuida de si mesma. Pelo amor de Deus!, gritei. Eu mesma supervisionarei tudo isso! Mas isso não é aconselhável, disse Burghley. E quem é contra?, indaguei. Comando este reino e não devo em hipótese alguma delegar o seu alto-comando a outros. Ninguém se preocupa mais com a segurança do meu povo do que eu.
Mas a senhora não é... Leicester tentou iniciar um contra-argumento. Competente? É isso o que você acha? Guarde a sua opinião para você mesmo! Ah, ele me enlouquecia às vezes! E só ele se sentia seguro o suficiente para expressar sua péssima opinião sobre mim como líder de guerra. Agora, e o restante das forças? Virei-me para Hunsdon e perguntei: quantos homens conseguiremos reunir? Nos condados do sul e do leste, talvez uns 30 mil. Mas muitos são garotos ou velhos. E muito mal treinados. Medidas defensivas?, perguntei. Farei com que algumas das pontes antigas sejam demolidas e podemos colocar barreiras no Tamisa para impedir que a Armada navegue até Londres. Lamentável, esbravejou Drake. Se a Armada chegar assim tão longe, será única e exclusivamente porque eu, John Hawkins, Martin Frobisher e o grande almirante aqui presente estaremos mortos. Aquela era uma observação importante. Fiz um gesto com as mãos para que eles ficassem quietos. Fechei os olhos e tentei organizar meus pensamentos, procurando entender tudo o que havia sido dito.
Muito bem, sir Francis Drake, concordei. Vou permitir a sua estratégia. Navegue até ao sul para enfrentar a Armada. No entanto, deve retornar no mesmo instante em que sentir que estamos em perigo. Quero todos os navios aqui para enfrentar o inimigo se ele vier. Encarei os olhares dos demais, fixos em mim e continuei a delegar: você, almirante Howard, deve comandar o esquadrão oeste, com base em Plymouth. Além disso, será comandante-geral das forças tanto em terra quanto em mar. Seu navio será o Ark. Drake será seu segundo comandante. Você se importa, Francis? O almirante Howard será seu oficial comandante. Drake concordou». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «Quando conhecera Quezia e os seus pais, percebera que eram diferentes da sua família, mas não compreendera que as duas famílias eram originárias de tradições religiosas distintas: fariseus e saduceus»

jdact

A Mulher que Amou Jesus
«(…) Descreveu Joel da forma mais simpática que podia, mas enquanto o fazia pensava que ele ainda ficava bem longe do soldado. Quando terminou, Quezia disse, amavelmente: parece que V. fez uma boa escolha. Teremos de aposentar o Soldado e o Diplomata. Construiremos nossas vidas com um tratador de peixe e... Meu pai recebeu recentemente uma oferta da parte de um homem chamado Reuben ben-Asher, que fabrica espadas. Não espadas comuns, apressou-se a explicar. São espadas muito elegantes, finas como um véu e afiadas como uma navalha. Mas você não tomou uma decisão?, perguntou Maria. Meu pai não decidiu, respondeu Quezia. Só irei encontrá-lo depois que ele disser sim ou não. Naquele instante, Maria sentiu-se grata à sua família. Embora muito rigorosos e tradicionalistas, pelo menos não haviam tomado a decisão por ela. Apesar de uma liberdade aparente, Quezia estava em pior situação que ela. Talvez estivesse consciente disso e isso tivesse servido para alimentar as suas fantasias.
Se seu pai disser que sim, espero que esse homem seja uma pessoa agradável, foi tudo o que conseguiu dizer. A ideia de ser apresentada a um estranho e receber ordens de viver com ele até um dos dois morrer era bastante grave. Quezia deu de ombros, tentando aliviar o ambiente. Nós somos mulheres, disse. No final, nunca temos escolha. Quezia insistiu que Maria deveria ficar para falar com a sua mãe e o seu pai. Satisfeita, Maria ficou; não só porque gostava deles, mas também porque estava curiosa de ver o que diriam. Sara, a mãe de Quezia, ficou encantada. Parece uma excelente proposta, disse. Ele junta-se à sua família, mas V. não tem de se unir à dele. E ele é atraente? É..., acho que sim, disse Maria. Aquele passeio à beira do lago parecia insuficiente para servir de base a uma vida conjunta, mas ela achava que descobrira uma certa afinidade espiritual com ele. É religioso?, perguntou Sara. Pergunto porque sei que é importante para a sua família. Não..., não sei, respondeu Maria, dando-se conta de que não haviam discutido o assunto.
Quando conhecera Quezia e os seus pais, percebera que eram diferentes da sua família, mas não compreendera que as duas famílias eram originárias de tradições religiosas distintas: fariseus e saduceus. Os fariseus eram rigorosos na interpretação da Lei e não faziam quaisquer concessões; os saduceus, embora mantendo a tradição sagrada, adaptavam-se, no dia a dia, às circunstâncias materiais de menor importância. Em consequência disso, os fariseus não faziam amizade com romanos ou gentios, temendo serem contaminados, enquanto os saduceus acreditavam que era preferível conhecer o inimigo de perto. Ambos se acusavam mutuamente de trair os interesses do judaísmo. Mas é uma questão importante, você não acha?, perguntou Sara. Ele não parece uma pessoa intolerante, respondeu Maria. Fora essa a sua primeira impressão. Mas ele pode imaginar que todos os canecos devem ser quebrados, se forem tocados por uma impureza, disse Benjamim, o pai de Quezia. E pode querer que V. se vista com aquelas roupas austeras. Maria estremeceu. Mas ele não as usa. Sério, Benjamim disse: e o que pensa ele do Messias? Nós não..., não falamos sobre o Messias, disse, finalmente. Bom, isso é um bom sinal, disse Benjamim. Se ele fosse do tipo daqueles que andam procurando o Messias, não iria deixar de falar nisso.
Não conseguem evitá-lo. Você fica um instante com eles, fala sobre a safra ou sobre o imperador, e imediatamente eles fazem aquele olhar distante e dizem: quando o Messias vier... É bom ficar longe dessa gente! Agora é tarde, pensou Maria. Como poderei ficar longe? Será que Joel está esperando pelo Messias? Parece muito sensível. As pessoas que se interessam pelo Messias são mais apaixonadas. Eu acho que Maria devia sentir-se satisfeita por não ter sido procurada por aqueles pescadores, disse Quezia. Aqueles que entregam peixe no armazém, você sabe, não é? Balançou a cabeça, sacudindo o cabelo brilhante, que na privacidade de casa podia ficar descoberto. Eles fedem. Você mesma disse isso!, disse, apontando para Maria. Encontramos com eles quando íamos chegando ao cais, contou Maria. Os filhos de Jonas, Simão e André. Ah, eu sei, disse Benjamim. Conheço Jonas. E, voltando-se para sua filha, disse, com ar sério: você não estaria sendo tão arrogante se soubesse que Zebedeu me procurou para falar sobre você. E quem é Zebedeu?, perguntou Quezia, assustada. Um pescador famoso de Cafarnaum. Tem uma casa em Jerusalém e relaciona-se com pessoas da casa real. E tem vários filhos?, perguntou Quezia. Tem dois, disse Benjamim. Tiago, o mais velho, é um jovem muito ambicioso. Pelo menos é que o diz Zebedeu: que ele está ansioso para que seu pai se aposente. E o filho mais novo é João. Como quase todos os segundos filhos, João fica na sombra do irmão mais velho. E o senhor..., o incentivou? Na verdade, não. Eu conheci Tiago e o achei muito arrogante. E João é muito sonhador para o meu gosto. Nunca irá se dar bem, nem mesmo se herdar os negócios de seu pai. Há algo de suave em João e as pessoas logo irão se aproveitar dele. Não, você não precisa se preocupar, não terá de se unir à família de Zebedeu». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

As Memórias de Cleópatra. Margaret George. «A minha ama me contou que, em Roma, as mulheres e as crianças ficavam relegadas a sentar em bancos, mas aqui nem a rainha…»

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A Filha de Isis
O primeiro pergaminho. Calor. Vento
«(…) Acreditamos que esta idade é o portão do entendimento..., diplomaticamente, ele indicou que as mesas do banquete estavam à espera no salão ao lado, quase das mesmas proporções, e encaminhou o general romano naquela direcção. Ao meu lado, as minhas irmãs mais velhas sorriam debochadamente. Pareciam divertir-se com o meu embaraço. Que criança encantadora!, disse Berenice, imitando Pompeu. Olhe, tem mais um, a Cleópatra mais velha falou, indicando um menino que nos olhava. O banquete está virando uma festa infantil. Fiquei surpresa de vê-lo e me perguntei qual a razão da sua presença ali. Ele me pareceu totalmente fora de lugar. Será que Pompeu pararia e faria algum comentário sobre ele também? Por sorte ele pareceu mais interessado em chegar até à mesa no salão adjacente. Todo o mundo diz que os romanos são comilões. O menino, que estava vestido em trajes gregos e segurando a mão de um homem de barba com aparência grega, devia ser um alexandrino. Estava observando-nos da mesma maneira que eu observara os romanos. Talvez fôssemos uma curiosidade para ele. Nossa família não aparecia muito em público nas ruas de Alexandria por receio aos tumultos. Passamos devagar e, eu esperava, majestosamente por ele e entrámos no salão transformado para o nosso banquete. Alguns raios teimosos do sol de fim de tarde atravessavam quase que horizontalmente o salão, no exacto nível das mesas, em que uma floresta de copos e pratos de ouro nos esperava. Para mim parecia mágica o jeito que estavam iluminados, e também para os romanos, porque todos sorriam e apontavam. Apontavam! Que falta de etiqueta! Mas..., fui avisada que isto era de se esperar. Pompeu e os seus acompanhantes não apontavam. Ele nem mesmo parecia interessado; e, se estava, escondeu muito bem. Tomámos os nossos lugares; todos os adultos se inclinariam em divãs, com apenas os menos privilegiados tomando lugar nos bancos, e parecia haver menos dos que não eram privilegiados. A minha ama me contou que, em Roma, as mulheres e as crianças ficavam relegadas a sentar em bancos, mas aqui nem a rainha nem as princesas mais velhas tolerariam isto. Tentei contar quantos divãs eram precisos para mil pessoas se reclinarem e cheguei à quantia de trezentos, mesmo assim cabiam neste salão impressionante, com espaço livre para os servidores passarem entre eles com as bandejas e os pratos. Meu pai indicou um banco para mim, enquanto Pompeu e a sua comitiva se acomodaram em divãs reservados para os mais altos escalões. Seria eu a única a sentar-me num banco? Seria como carregar um aviso no peito chamando a atenção para mim. Fiquei olhando a minha madrasta e irmãs se acomodarem num divã, caprichosamente arrumando os trajes e cruzando os pés. Como desejei ser um pouco mais velha só para me sentar num sofá também! Senti-me tão à vista que não sabia como conseguiria sobreviver à refeição inteira. Naquele momento, meu pai deu ordens para que o homem de barba e o menino se juntassem a nós; vi quando ele enviou alguém com as ordens. Sabia que estava fazendo isto para diminuir o meu embaraço; era do seu carácter perceber a aflição dos outros, mesmo antes que fosse expressa. Meu caro Meleagros, o pai falou para o homem. Porque não se senta onde possa aprender o que desejar? O homem inclinou-se, aceitando o convite, imperturbado em ter sido convidado para o lugar mais proeminente no banquete. Devia ser um filósofo; filósofos viam o mundo com equanimidade. E é claro que a barba confirmava este facto. Ele puxou o seu filho para a frente, e um banco foi colocado para ele. Agora, éramos dois. Acho que o pai pensou que isto faria as coisas mais fáceis. Na verdade, serviu para atrair mais atenção. Meleagros é um de nossos sábios, explicou meu pai. Ele reside no... No Museion, disse um romano de rosto quadrado. É onde vocês guardam os sábios inofensivos e os cientistas, não é mesmo?» In Margaret George, As Memórias de Cleópatra, 1997, tradução de Lídia Zanon, Geração Editorial, 2000-2001, Edições Chá das Cinco, 2007, IBSN- 978-989-803-200-3.

Cortesia de GEditorial/ECdasCinco/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «O seu diplomata rico, de Jerusalém, e o meu soldado... A sua voz sumiu. Mas também sabíamos que isso não era o mundo real»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Maria precipitou-se para a rua que levava à casa de Quezia, louca para lhe contar sobre Joel. Durante todos aqueles anos, conseguira manter em segredo a amizade com ela, embora Silvanus soubesse, e aprovasse. As moças, que há muito tinham deixado de brincar com os pratinhos de miniatura, haviam transferido as suas atenções para a vida real, planeando as suas futuras casas e especulando sobre os seus companheiros, uma brincadeira sem fim, pois nenhuma delas tinha em vista um noivo. Quezia estava encantada com um homem rico, de Jerusalém, que morava na zona alta da cidade e recebia muitos visitantes estrangeiros. Às vezes passava um tempo no exterior, ocupando um posto de diplomata ou em missão comercial. Tinha também uma casa à beira-mar. Maria, por seu lado, imaginava um soldado, de um poderoso exército judeu, que também era um estudioso. Era corajoso, poético e paciente.
Paciente porque ficava muito tempo fora, cumprindo missões militares, e não podia acompanhar de perto a vida quotidiana na sua casa. Ela não lhe era infiel, mas era maravilhoso poder comprar o que quisesse sem que ele o percebesse. Como sua mãe sempre percebia e, em geral, criticava. Aos 16 anos, Quezia já recebera várias ofertas de casamento e recusara todas. Seu pai tinha ambições maiores do que os pescadores e aprendizes que se tinham apresentado. Maria bateu à porta e foi rapidamente atendida por um grito de Oba!, da própria Quezia. Era encantadora; dava sempre a impressão de que havia esperado o dia inteiro por uma visita e que não havia nada tão importante quanto isso. O que aconteceu?, perguntou. Está muito corada! Aconteceu, disse Maria, entrando. O quê? Quezia... Fui pedida em casamento. A bela carinha de Quezia ficou perplexa. Quem? Chama-se Joel, disse Maria. Trabalha com meu pai. Oh, não! Quezia pôs a mão sobre a boca. Nós sempre dissemos... Que não nos conformaríamos com isso, disse Maria. Eu sei. E os nossos homens imaginários eram fabulosos. O seu diplomata rico, de Jerusalém, e o meu soldado... A sua voz sumiu. Mas também sabíamos que isso não era o mundo real. Sabíamos que não iria acontecer.
Claro. E Quezia acenou com a cabeça, devagar. Foi sempre de mentirinha. Sorriu e pôs o braço em torno dos ombros de Maria, levando-a para dentro de casa. Agora terá de me contar sobre esse homem de verdade. Maria queria não ter vindo. As fantasias de ambas poderiam ter durado um pouco mais, se não tivesse vindo. Mas que diferença tinha um dia? Porque se não tivesse vindo hoje para contar a Quezia, viria amanhã. Não se guardam de uma amiga segredos como um pedido de casamento. Ao chegar ao vestíbulo de entrada da casa de Quezia, Maria já se sentia tão familiar quanto na sua própria casa. Dirigiram-se ao velho quarto, de que ela tanto gostava, agora mobiliado de acordo com gostos adultos. Quezia jogou-se numa banqueta enquanto, apontando para uma jarra numa bandeja, perguntava, gentilmente: quer suco de tamarindo? Maria disse que não. Quezia inclinou-se para a frente, com os olhos brilhando. E aí? Conte-me, conte-me! Bom, este rapaz, Joel, é de Naim...» In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Ah, ele me enlouquecia às vezes! E só ele se sentia seguro o suficiente para expressar a sua péssima opinião sobre mim como líder de guerra. Agora, e o restante das forças?»

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Isabel. Maio de 1588
«(…) Não. Se eles passarem por nós lá, terão o resto do caminho livre. Tomarão o Canal, a menos que já estejamos esperando por eles mais adiante. Não acho, interrompeu Drake. Quieto!, silenciei-o. E as nossas forças de terra? O que você diz, primo?, perguntei para Henry Carey, lorde Hunsdon. Era um homem grande que me fazia lembrar um urso, e como tal parecia pertencer à natureza. Fora responsável pelas Marchas do Leste, montando a sua base próxima à fronteira escocesa. Serei responsável pela sua segurança, disse. Terei forças com base em Windsor. Caso as coisas fiquem mais..., incertas..., posso garantir-lhe um local seguro no interior. Nunca me esconderei no interior!, respondi. Mas Vossa Majestade deve pensar no seu povo, insistiu Walsingham. Deve designar substitutos para supervisionar a administração de suprimentos e para o controle dos preparativos defensivos, ao mesmo tempo em que cuida de si mesma. Pelo amor de Deus!, gritei. Eu mesma supervisionarei tudo isso! Mas isso não é aconselhável, disse Burghley. E quem é contra?, indaguei. Comando este reino e não devo em hipótese alguma delegar o seu alto-comando a outros. Ninguém se preocupa mais com a segurança do meu povo do que eu. Mas a senhora não é... Leicester tentou iniciar um contra-argumento. Competente? É isso o que você acha? Guarde a sua opinião para si mesmo!
Ah, ele me enlouquecia às vezes! E só ele se sentia seguro o suficiente para expressar a sua péssima opinião sobre mim como líder de guerra. Agora, e o restante das forças? Virei-me para Hunsdon e perguntei: quantos homens conseguiremos reunir? Nos condados do sul e do leste, talvez uns 30 mil. Mas muitos são garotos ou velhos. E muito mal treinados. Medidas defensivas?, perguntei. Farei com que algumas das pontes antigas sejam demolidas e podemos colocar barreiras no Tamisa para impedir que a Armada navegue até Londres. Lamentável, esbravejou Drake. Se a Armada chegar assim tão longe, será única e exclusivamente porque eu, John Hawkins, Martin Frobisher e o grande almirante aqui presente estaremos mortos. Aquela era uma observação importante. Fiz um gesto com as mãos para que eles ficassem quietos. Fechei os olhos e tentei organizar os meus pensamentos, procurando entender tudo o que havia sido dito.
Muito bem, sir Francis Drake, concordei. Vou permitir a sua estratégia. Navegue até ao sul para enfrentar a Armada. No entanto, deve retornar no mesmo instante em que sentir que estamos em perigo. Quero todos os navios aqui para enfrentar o inimigo se ele vier. Encarei os olhares dos demais, fixos em mim e continuei a delegar: almirante Howard, deve comandar o esquadrão oeste, com base em Plymouth. Além disso, será comandante-geral das forças tanto em terra quanto em mar. O seu navio será o Ark. Drake será o seu segundo comandante. Não se importa, Francis? O almirante Howard será o seu oficial comandante. Drake concordou.
Lorde Henry Seymour, cujo posto habitual é almirante dos mares estreitos, comandará o esquadrão leste em Dover. Olhei para Hunsdon e disse: lorde Hunsdon, você comandará as forças responsáveis pela minha segurança, com base próxima a Londres. Nomearei a família Norris, sir Henry o pai e seu filho sir John, vulgo Black Jack, como general e sub-general dos condados do sudeste. O jovem Robert Cecil será mestre de artilharia do exército principal. E você, falei, olhando directamente para Robert Dudley, lorde Leicester, será tenente-general das forças de terra para a defesa do reino. A sua expressão era de espanto, assim como a dos demais. Faça melhor do que fez nos Países Baixos, foi a minha resposta ao insulto anterior. Enquanto saíam, percebi que estavam surpresos, e aliviados, por termos todas as nomeações feitas. Bons guerreiros que eram já estavam com o pensamento no campo de batalha e no trabalho que teriam pela frente». In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

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domingo, 3 de novembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «O rosto de Simão iluminou-se com um sorriso enorme. Você é um homem abençoado! Os meus parabéns! Piscou o olho, brincando: quer dizer que é você que eu terei de procurar no futuro?»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Na realidade, parecia bastante contente e a sua atitude mudou de desconfiança para alegria, à medida que continuavam a caminhada à beira do lago. Vários barcos de pesca dirigiam-se para um pequeno cais de águas quentes, que era chamado de Sete Fontes. Os pescadores das cidades de Cafarnaum e Betsaida gostavam dali, pois a água quente atraía certos tipos de peixe; devido a isso, o cais ficava repleto de pequenos barcos, todos querendo descarregar o peixe ao mesmo tempo. O cais estava alvoraçado, numa atmosfera de alegria. Os pescadores são pessoas interessantes, disse Joel. Têm características tão contraditórias, uma reputação de devoção, embora lidem com coisas bem materiais. Trabalham de noite, remendam as redes... As suas vidas são exactamente o contrário da vida dos escribas religiosos. Talvez por isso é que a sua religiosidade seja suspeita, disse Maria, pelo menos para os rabinos de Jerusalém. Afinal, como poderia um pescador manter a sua pureza ritual? Tem de lidar com peixe sujo todos os dias, quando descarrega as redes. Entretanto, num caso de necessidade, você preferiria poder contar com um pescador ou com um escriba de Jerusalém? Joel ria. Veja o caso de Zebedeu, acenou para um homem forte, de rosto vermelho, que acenou de volta, embora provavelmente nem tivesse reconhecido Joel àquela distância. Sozinho no barco, ainda assim trouxe uma boa pescaria no meio de um temporal. Tem vários barcos, um autêntico empreendimento. Seus filhos trabalham com ele e também contratou pescadores. Aproximaram-se do cais, onde reinava a confusão com a chegada do peixe.
Atenção!, berrou uma voz forte. Fique longe dessa cesta! Passavam ao lado de uma cesta enorme, de onde escorria uma água suja. Os peixes faziam a cesta tremer. Desculpe, Simão, disse Joel, dando um passo para trás. Trabalhei três horas para separar esse peixe, disse Simão, um gigante que estava de pé, junto à cesta, de braços cruzados. Parecia ameaçador. Depois deu uma gargalhada. Eu seria o último a prejudicar o seu trabalho, disse Joel. Por um instante, hesitou. Maria sentia que estava pensando. Simão, você conhece os filhos de Natã, Samuel e Eli. Esta é a irmã deles, Maria. Simão olhou-a atentamente. Tinha olhos enormes, que pareciam perfurá-la. Sim, já a vi no armazém. Acenou com a cabeça, energicamente. Maria concordou em ser minha mulher, disse Joel. E olhou para ela, orgulhoso.
O rosto de Simão iluminou-se com um sorriso enorme. Você é um homem abençoado! Os meus parabéns! Piscou o olho, brincando: quer dizer que é você que eu terei de procurar no futuro? Joel ficou sem jeito. Não, claro que não. Quem continua mandando é Natã. Ele não é velho. Isso é o que meu pai diz dele mesmo, disse Simão. Mas o André e eu percebemos que ele está querendo passar o trabalho pesado para nós. Apontou com o dedo outro rapaz, sozinho, no cais. Tinha cabelo encaracolado, escuro, mas não se parecia em nada com a exuberância de seu irmão. Era mais magro e mais baixo. E desde que casei, continuou Simão, sinto-me cada vez mais respeitável. Você casou?, disse Joel. Não sabia. Então você também merece parabéns. Simão sorriu. É, levou algum tempo para me acostumar. Agora, tenho uma sogra, o que é bastante diferente de uma mãe, é bom que lhe diga. Coçou a cabeça. Certa vez, uma pessoa disse-me: se você quiser saber como vai ser uma moça em 20 anos, olhe para a mãe dela. Bom, não é verdade. Ou, se for, Deus que me ajude! Aproximava-se o barco de Zebedeu, seguido por outro, com dois rapazes, um de rosto largo e cabelo claro e o outro mais magro, alourado. Ei, você aí!, gritou Zebedeu para ninguém especificamente. Jogue a corda! Um garoto meio assustado, que estava no cais, apressou-se em obedecer. Atrás de Zebedeu, o outro barco atracou. Antes que desembarcassem e pudessem começar uma conversa, Joel olhou para o céu. Já passa de meio-dia, disse. É hora de voltar. Acenou para os pescadores e dirigiu-se à cidade.
Maria também queria voltar para casa. Queria ficar sozinha e meditar sobre o que se passara. Tinha concordado em casar com aquele homem. Tinham discutido o assunto, e concordado. Parecia tão estranho, tão irreal. Queria ficar a sós e reflectir. Mas sentia-se bem, caminhando ao lado dele, ouvindo as suas opiniões sobre os pescadores e os seus desejos de viajar e de ajudar as pessoas. Eram coisas agradáveis, que a reconfortavam. Deve ser a coisa certa, pensou. Tem de ser. Cresceremos juntos, ao longo dos anos, pois já parecemos pensar da mesma maneira sobre o que queremos». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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A Verdadeira História. Margaret George. «… quando você vier a compreender, serei eu que estarei no círculo de sua escolha. Por ora, basta-me que você tenha dito que sim. Sou um homem de sorte»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) E Jacob amava Raquel. Porquê? Havia acabado de a conhecer. Ela só tinha dado água às suas ovelhas. Isso foi há muito tempo e não passa de uma lenda. Teria de se esforçar um pouco mais. E por amor a Raquel, serviu Jacob sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava. É uma história verdadeira, Maria. Acontece o tempo todo. Aconteceu comigo. Fez uma pausa, encabulado, tentando recuperar a dignidade. Trabalho no armazém há quase três anos! Quase a metade do tempo que Jacob serviu a Raquel. Agora era a vez de ela ficar encabulada. Espero que não tenha sido por isso que trabalha lá. Não, me senti atraído pelo ofício. Gosto da ideia de alimentar as pessoas, trabalhar com uma coisa que é necessária, assim como ter a oportunidade de viajar e conhecer novos fregueses. O mundo é muito grande, Maria. Grande demais para me contentar em nunca sair da Galileia, por mais bonita que seja esta terra. Ele desejava conhecer o mundo, aventurar-se além dos limites do negócio do peixe. Já saíra de Naim e escolhera um ofício que não era o de seu pai. Também era assim que ela se sentia, atraída por alguma coisa bem distante. Eles eram iguais: inquietos, procurando espíritos. Compreendo. Agora, teria de dar a sua resposta. Sinto-me honrada com o facto de ter pensado em mim como Raquel. E, como Raquel, consinto em me casar com você. Mas não confio nesse tipo de decisões que você descreveu. Ah, Maria, então eu espero..., que um dia..., quando você vier a compreender, serei eu que estarei no círculo de sua escolha. Por ora, basta-me que você tenha dito que sim. Sou um homem de sorte.
Ela não o considerava um homem de sorte, e sim iludido. E se ele soubesse de um dos motivos pelos quais ela se dispusera a sair da casa dos pais, não ficaria contente. Mas sentia-se aliviada. Tudo iria dar certo. As dores de cabeça, as insónias, as confusões iriam sumir, podia senti-lo aqui mesmo, na luz do dia. Ficaria livre de tudo aquilo. Joel a levaria embora da casa que a assombrava. Ao invés de se sentirem menos encabulados, as palavras solenes que haviam acabado de pronunciar faziam que se sentissem, agora, ainda menos à vontade um com o outro. Mas continuaram caminhando, resolutos, tentando parecer tranquilos. O sol brilhante fora encoberto pela passagem de umas nuvens, o que fazia o lago parecer um mosaico de cores distintas. Um vento suave fazia balançarem os juncos e as urtigas que cresciam junto ao caminho. Uma pedra de culto!, disse Joel, de repente, apontando para um objecto preto, arredondado, quase escondido atrás de uns arbustos. Tinha um buraco na parte de cima e parecia uma âncora de pedra, mas maior. Olhe! Nunca vi um num lugar como este! Aproximou-se, com cuidado, como se esperasse que o objecto se movesse. O que quer dizer com isso? Não é uma âncora velha? Maria já vira coisas parecidas, mas não se lembrava onde. Não dera muita atenção. Não. Joel abaixou-se, afastando o mato que crescera à sua volta. Realmente parece, mas está vendo como é grande? É uma relíquia dos cananeus. Um dos seus deuses. Ou então, uma oferenda aos deuses. Talvez ao deus do mar, que imaginavam que morasse aqui no lago. A terra está cheia de ídolos, disse Maria, sem perceber. Debaixo do chão, à beira de um caminho...
É bom que ainda existam, aqui e ali, disse Joel. Para nos lembrar de que poderão voltar um dia. Não temos certeza de nada. Maria sentiu um arrepio de frio, mas conseguiu ocultá-lo. É verdade, concordou. Não temos certeza de nada. De repente, uma rajada de vento arrancou a mantilha da cabeça de Maria e, instintivamente, ela cruzou os braços. Ao fazê-lo, Joel viu os arranhões que ela tentava encobrir. O que é isso?, perguntou, olhando para eles. Não é nada..., estava pegando um pouco de lenha, perto da praia, e... E aí? Você lutou com a lenha? Joel sorriu. Nunca se deve catar lenha sem uma protecção nos braços. E deixou o assunto para lá». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
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sábado, 21 de setembro de 2019

A Verdadeira História. Margaret George. «De qualquer maneira, é uma história interessante. Naftali é uma gazela solta, disse Joel. Não foi isso que disse Jacob na sua oração quando morria?»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Saíram do prédio escuro e ficaram em frente a um grande casebre, coberto e com pisos de mosaico. Era ali que os barcos de pesca descarregavam o peixe, o que tornava o chão escorregadio. Os peixes, prateados, listrados, coloridos, eram separados em pilhas. À altura do nível da água, havia uma vasilha de pedra onde peixes ainda vivos ficavam por algum tempo. Foram caminhando pelo passeio de pedra que beirava o lago, na direcção norte, para longe de olhares curiosos. Era um caminho largo, muito usado, fazendo uma curva que acompanhava o lago oval. Você não é de uma família do lago, nem de pescadores, disse Maria, finalmente, como se fosse uma pergunta. Não, disse ele, olhando em frente enquanto falava. Minha família mora na Galileia há muitas gerações. Há, inclusive, quem diga que ficamos nessas terras durante todas as guerras. Os assírios alegam ter evacuado toda a população da região. Mas, obviamente, não o fizeram; se o tivessem feito, haveria tantos israelitas quanto assírios na terra deles. Não creio que quisessem repetir a experiência do faraó e ter sua população superada pela nossa! Sua voz era agradável, pensou Maria, e reflectia sobre suas palavras. O seu rosto era simpático e agradável para se olhar. Talvez..., talvez..., eu até venha a amar esta pessoa. Talvez ele seja como eu. Também há uma lenda sobre isso na minha família, disse Maria. Que pertencemos, ou pertencíamos, pois supõe-se que já tenham desaparecido, à tribo de Naftali, desta região. Logo ali, na curva, é onde fica a antiga cidade deles. De qualquer maneira, é uma história interessante. Naftali é uma gazela solta, disse Joel. Não foi isso que disse Jacob na sua oração quando morria?
Maria riu. É, e ninguém compreendeu o que ele quis dizer! Jacob também disse que trazia palavras bondosas. Joel diminuiu a passada. Espero pelas suas palavras, Maria. E espero que sejam bondosas para nós dois. Deixe o seu coração falar. Era tão directo! Será que não podiam caminhar um pouco mais, conversar um pouco mais? E como se podia ter essa conversa de uma maneira natural? Ajustou o lenço de sua cabeça, para ganhar tempo. Eu... Eu disse a meu pai que..., que aceitaria a sua oferta de se juntar à nossa família. Não foi exactamente isso que ofereci, disse ele. Você não pode dizer as palavras concretamente?
Não, não podia. As palavras não saíam de sua garganta. Palavras como casar, esposa e casamento estavam para além da sua força. Balançou a cabeça. Então, se você não consegue pronunciá-las, você não deve assumi-las. Parecia frustrado, mas resignado. Você também não pronunciou as palavras. Como ela, também ele as evitara. Pareceu desconcertado. Mas para seu pai, eu... Mas, para mim, tudo que você disse foi espero por suas palavras. Palavras sobre o quê? Ele sorriu. Você tem razão. Mas você não vai escapar, pois não tenho medo de dizer: quero que seja minha mulher. Quero ser seu marido e quero que sejamos uma família. Pronto. Falei. Um bando de crianças barulhentas surgira na curva do lago, correndo atrás uns dos outros e gritando. Por quê?, foi tudo que Maria conseguiu dizer. Porque, desde criança, sabia que não queria ser agricultor, como meu pai. Queria procurar o meu ofício, ter minha casa e minha família. Quando vi você, tive a certeza de que era a pessoa com quem queria partilhar a minha vida. Mas porquê? Ele praticamente nunca falara com ela. Como podia ter a certeza?» In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Maria viera caminhando devagar, pelas ruas, adiando o encontro o máximo que podia. Passou por várias pessoas que conhecia, e fez questão de parar e conversar com cada uma delas…»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Primeiramente, esses métodos eram utilizados com sardinhas, o peixe que constituía a base alimentar de toda a região. As sardinhas eram pequenas e fáceis de ser tratadas: os peixes maiores, que não podiam ser preservados, deviam ser consumidos rapidamente. Mas as sardinhas eram susceptíveis de serem tratadas e eram enviadas, preservadas, para Roma, onde se dizia que eram consideradas um prato requintado, servido, inclusive, à mesa do imperador. Certa vez, Natã recebera uma encomenda da casa do imperador Augusto, e guardara o pedido escrito, como lembrança. Cerca de 15 empregados encarregavam-se do trabalho pesado, desde a disposição dos barris até ao processo de salgar e, depois, colocar o peixe em frascos. Nos meses mais quentes, o cheiro era bastante forte dentro do armazém; só aguentava trabalhar ali quem tivesse um estômago forte. Hoje, estava relativamente fresco e o vento, que entrava pelas portas abertas, levava o cheiro em direcção ao lago.
Maria viera caminhando devagar, pelas ruas, adiando o encontro o máximo que podia. Passou por várias pessoas que conhecia, e fez questão de parar e conversar com cada uma delas enquanto pensava: pelo menos, não terei que sair daqui e perder de vista todas estas pessoas que conheci a vida inteira, todas estas mulheres. Pelo menos, sou grata por isso. E Joel não era um pastor, ou um caixeiro-viajante ou um contador da casa real, profissões que implicariam uma mudança brusca no seu modo de vida. O trabalho de pastor de ovelhas, além de ser duro, fedia e, com todo o respeito pelo rei David, não era um modo de vida muito atraente. O trabalho do caixeiro exigia ficar constantemente barganhando preços para conseguir algum lucro nas mercadorias compradas, assim como exigia viajar o tempo todo. Quanto a trabalhar na casa do rei, Herodes Antipas, e embora este fosse mais humano que seu pai, o rei Herodes, cruel e imprevisível, sua proximidade e seus vínculos com Roma incomodavam os judeus que ali serviam. Dizia-se que, dependendo da pessoa a quem ele queria agradar, poderia ser um judeu ou um pagão. Era ele, no entanto, o único intermediário entre os galileus e o poder romano.
Não dava para adiar mais. Maria estava em frente à grande casa de pedra onde ficava o comércio de peixe da família. Endireitou os ombros. Entrando e saindo pela porta principal, trabalhadores que ela conhecia desde criança empurravam barris e carroças, mas ela nem olhava para eles. Tinha de ir lá dentro; tinha de falar com ele. Entrou. Estava escuro e demorou um pouco para os seus olhos se acostumarem. Formas pouco nítidas, que se moviam, foram-se transformando em homens. Silvanus estava em pé, junto a um monte de sal que tinha sido descarregado num dos cantos do galpão. Tinha um bloco na mão e discutia números com outro homem. Outros homens moíam o sal grosso.
E então Maria viu Joel, junto a uma fileira de ânforas de barro que seriam enchidas com o molho usado pela família, receita que ficara famosa, para a preservação do peixe. Havia dois tipos desse molho: um para os pagãos e outro estritamente kosher. Muita gente fazia esse molho, mas o de Magdala era tido como excelente e sua qualidade tornara famosa a família de Maria. Lá está ele, pensou Maria. Eu o ficarei procurando pelo resto de minha vida, no armazém, na rua, em casa. Ele é..., atraente. Alto e esbelto. E parece, mas, antes que pudesse continuar com as suas elucubrações, Joel a viu. Seu rosto iluminou-se e correu para ela. Obrigado por ter vindo, disse, aproximando-se. Ela só acenou com a cabeça, pois, de repente, sentiu que não conseguia falar. Limitou-se a ficar olhando para ele, sem avaliar aquela pessoa, o que sempre fazia em outras situações. Também um pouco atrapalhado, ele parou na sua frente. Sei que isso é difícil, disse. Embora nos tenhamos encontrado por várias vezes... Não demos atenção um ao outro, disse Maria, terminando a frase para ele. Eu dei, disse ele. Ah. Vamos lá para fora, disse Joel. Com um gesto, apontou as movimentadas idas e vindas no armazém, assim como a atenção que prestavam alguns dos outros, que poderiam estar suspeitando. Por um instante, Maria hesitou, pois desejava a protecção das outras pessoas presentes. Depois, seguiu-o». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.
                                       
Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Isabel I. O Anoitecer de um Reinado. Margaret George. «Achei que essa fosse a sua função, disse Drake. Walsingham ficou mais tenso e disse: faço o melhor que posso com o que está ao meu dispor»

Cortesia de wikipedia e jdact

Isabel. Maio de 1588
«(…) Toda a frota?, perguntou Charles Howard. Isso nos deixaria desprotegidos. Se a Armada conseguir escapar, entrará aqui sem resistência alguma, afirmou, arqueando as sobrancelhas para expressar a sua preocupação. Charles era um homem calmo, diplomático, que conseguia lidar com personalidades difíceis, o que fazia dele um alto comandante ideal. Mas Drake era difícil de ser controlado e acalmado. Nós os encontraremos, disse. E, quando o encontrarmos, não poderemos ter poucos navios. Robert Dudley, conde de Leicester naquele ambiente formal, irritou-se com a afirmação e disse: preocupa-me mandar todos os navios de uma só vez. V parece uma velhota falando!, bradou Drake. Então somos duas velhotas, disse Knollys. Ele era reconhecidamente cauteloso e tinha muitos escrúpulos. Se fosse um monge, usaria uma camisa de silício com frequência para punir a si mesmo. A sua militância pelo protestantismo foi um bom substituto. Somos três, disse Burghley, unindo-se aos demais. William Cecil sempre defendeu uma estratégia defensiva, tentando manter tudo dentro das fronteiras inglesas. Tudo depende de recebermos informações precisas sobre quando a Armada sairá de Lisboa, disse o secretário Walsingham. Caso contrário, será um risco inútil e perigoso.
Achei que essa fosse a sua função, disse Drake. Walsingham ficou mais tenso e disse: faço o melhor que posso com o que está ao meu dispor. Mas não há meios para transmissão instantânea de notícias. Os navios são mais rápidos do que meus mensageiros. Ah, posso ver portos distantes, disse Drake com uma risada.
V não sabia disso? Sei que os espanhóis creditam a El Draque, o dragão, esse feito, disse Walsingham. Mas eles são ingénuos e simplórios em geral. Concordo! Chega dessa conversa. Quais são as outras opções de defesa? Proponho dividirmos a frota em duas: esquadrão oeste para vigiar a entrada do Canal e esquadrão leste para vigiar o estreito de Dover, explicou Charles Howard. Sei qual é o plano do inimigo, disse Drake, interrompendo Charles. A Armada não está vindo para lutar. O exército de Parma de Flandres fará isso, a Armada os escoltará pelo Canal. Vão vigiar os barcos cheios de soldados a fim de encurtar a travessia. São somente trinta e poucos quilómetros. O exército inteiro poderia fazer a travessia entre oito e doze horas. Esse é o plano deles! Drake bradou, olhando em redor com os olhos claros penetrando nas dúvidas dos conselheiros, e continuou a argumentar: devemos desarmar a frota. Devemos impedi-los de aportar na Costa de Flandres. Os nossos aliados holandeses nos ajudarão. Eles já vêm impedindo Parma de conseguir um porto para ancorar há anos e podem atrapalhar quando tentarem usar os canais menores. A imensa frota da Armada, destinada a assegurar uma travessia segura, pode ser também a sua ruína.
Ele fez uma pausa e continuou a dizer: claro que um plano alternativo seria conquistar a Ilha de Wight do nosso lado do Canal e construir uma base lá. Mas, se passarem por ela, só avistarão um porto novamente quando chegarem a Calais. O nosso papel é apressá-los. Isto é, obviamente, supondo que consigam chegar lá. Agora, se seguirmos o meu plano original para interceptá-los... Levantei a mão para calá-lo por um instante e disse: mais tarde. Por enquanto temos que decidir a implantação dos nossos recursos gerais. Assim, almirante Howard, V recomenda dois esquadrões separados de navios? Não seria melhor posicioná-los todos na entrada do Canal?» In Margaret George, Isabel I, O Anoitecer de um Reinado, tradução de Lara Freitas, Geração Editorial, 2012, ISBN 978-858-130-076-4.

Cortesia de GeraçãoE/JDACT