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terça-feira, 16 de julho de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «És tu a Primavera que eu esperava, a vida multiplicada e brilhante…»

jdact

«(…) Jardim verde e em flor, jardim de buxo
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas».

Promessa
«És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante».

In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «Ó dia de hoje, ó dia de horas leves bailando na doçura e na amargura…»

jdact

«(…)
As Rosas
«Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas».

Dia de Hoje
«Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves».

Abril
«Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,
Pálido de esperança».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

sábado, 20 de abril de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «É esta a hora das longas conversas das folhas com as folhas unicamente. É esta a hora em que o tempo é abolido…»

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«(…)
É esta a hora…
«É esta a hora perfeita em que se cala
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.

É esta a hora em que as rosas são as rosas
Que floriram nos jardins persas
Onde Saadi e Hafiz as viram e as amaram.
É esta a hora das vozes misteriosas
Que os meus desejos preferiram e chamaram.
É esta a hora das longas conversas
Das folhas com as folhas unicamente.
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «Mergulhar as mãos nas ondas escuras até que elas fossem essas mãos solitárias e puras que eu sonhei ter»

jdact

«(…)
Espera
«Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «E no seu bailado levada pelo jardim deliro e divago, ora espreitando debruçada os jardins do fundo do lago…»

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«(…)
Mar Sonoro
«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim».


O Jardim
«O jardim está brilhante e florido.
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.

E Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Dia do Mar. Sophia de Mello B. Andresen. «Jardim onde o vento batalha e que a mão do mar esculpe e talha. Nu, áspero, devastado…»

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«As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim».


Jardim do Mar
«Vi um jardim que se desenrolava
Ao longo de uma encosta suspenso
Milagrosamente sobre o mar
Que do largo contra ele cavalgava
Desconhecido e imenso.

Jardim de flores selvagens e duras
E cactos torcidos em mil dobras,
Caminhos de areia branca e estreitos
Entre as rochas escuras
E, aqui e além, os pinheiros
Magros e direitos.

Jardim do mar, do sol e do vento,
Áspero e salgado,
Pelos duros elementos devastado
Como por um obscuro tormento:
E que não podendo como as ondas
Florescer em espuma,
Raivoso atira para o largo, uma a uma,
As pétalas redondas
Das suas raras flores.

Jardim que a água chama e devora
Exausto pelos mil esplendores
De que o mar se reveste em cada hora.

Jardim onde o vento batalha
E que a mão do mar esculpe e talha.
Nu, áspero, devastado,
Numa contínua exaltação,
Jardim quebrado
Da imensidão.
Estreita taça
A transbordar da anunciação
Que às vezes nas coisas passa».
In Sophia de Mello B. Andresen, Dia do Mar, Obra Poética, Editorial Caminho, 2009, ISBN 978-972-211-586-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT