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terça-feira, 12 de junho de 2012

A Vide e o seu Castelo. Outros Topónimos da Terra de Cristovam Pavia. Ruy Ventura. «Partindo dalguns autores peninsulares, cujos estudos demonstram uma consciência superior no entendimento dos processos de formação da toponímia antiga, sobretudo a partir do momento em que a designação de uma parcela do espaço passou a ser vista como instrumento de propaganda política ou de homenagem, justa ou injusta»



Pintura de Maluda, 1971, 1985
Cortesia de wikipedia

Não é fácil escrever sobre toponímia quando se deseja ser rigoroso. César Videira, investigador atento, deu conta dessa dificuldade num passo da sua Memoria Historica da Muito Notavel Villa de Castello de Vide. Depois de abordar as diversas teorias referentes à origem da sua terra natal, achou por bem registar:
  • “Se as trevas espessas do passado não permitem ver clara a origem de Castelo de Vide, afigurase-me que outro tanto sucede relativamente à do seu nome. Donde veio ele? A resposta não é fácil. Tudo que possa dizer-se neste sentido não passa de simples suposições. Posto que não tenha fé em nenhuma delas, reproduzo-as contudo, para que, apreciando-se a sua plausibilidade, se escolha a que deve aceitar-se por mais provável. […]”.
Este artigo não andará por caminhos muito diferentes. Apresentando nas suas linhas uma apreciação poliédrica da solidez dos mitos, das especulações e das leituras etimológicas que rodearam/rodeiam o nome “Castelo de Vide”, ninguém espere no seu final afirmações dogmáticas baseadas em crenças. Desejo apenas reflectir e partilhar essa reflexão, apresentar hipóteses e os alicerces que as sustentam, encontrar explicações e manifestar as suas forças e fraquezas. Com os anos que levo de leitor e de investigador da nomeação espacial, já me habituei a concordar com o escritor francês Marcel Proust, que considerava a toponímia uma ciência sem exactidão. Talvez por isso seja tão fascinante.
Partindo dalguns autores peninsulares (Galmés de Fuentes e Espírito Santo, por exemplo), cujos estudos demonstram uma consciência superior no entendimento dos processos de formação da toponímia antiga, neste pequeno trabalho terei em conta que a nomeação ancestral dos lugares possui características invariáveis que só nos últimos dois ou três séculos foram relativamente dissolvidas (sobretudo a partir do momento em que a designação de uma parcela do espaço passou a ser vista como instrumento de propaganda política ou de homenagem, justa ou injusta). Nenhuma das suas linhas esquece, portanto, que:
  • um topónimo, sendo produto da oralidade, tem sempre uma origem racional, distintiva e objectiva, nascida de evidências materiais ou sociais permanentes ou prolongadas, nunca acidentais ou esporádicas;
  • as designações transformam-se ao longo do tempo, tornando-se obscuras quando a sua língua de origem cai em desuso;
  • na sua evolução diacrónica, a nomenclatura dos lugares vai sofrendo reinterpretações, nas quais o falante metamorfoseia uma forma opaca (pertencente à língua em desuso) numa forma clara com som igual ou semelhante na língua do momento, ainda que tenha um significado completamente distinto do original;
  • os topónimos, quando passados à escrita, podem sofrer uma intervenção exterior que os modifica na sua aparência, ao serem alterados por escribas que, com frequência, não são falantes dos dialectos locais;
  • é possível que duas designações aparentemente iguais tenham tido origens diferentes e que dois nomes hoje distintos tenham nascido de uma mesma raiz.

Cortesia de wikipedia

A consciência destes cinco pilares evita, só por si, muitos erros, inviabilizando leituras apressadas e apenas baseadas numa vaga analogia fonética. Os topónimos antigos devem, além disso, ser entendidos no seu contexto alargado. Reafirmo aqui que a “nomeação de um lugar nunca pode separar-se da geografia deste, da sua história e da sua mitologia”, bem como das práticas sociais aí desenvolvidas. Daí que defenda, com outros autores, que a sua interpretação só se poderá fazer com um mínimo de fiabilidade se se usar um “método etnológico” (ou “dos sistemas”) que reúna os melhores contributos dos métodos “filológico” (também chamado “etimológico”) e “histórico”, com contribuições vindas da Geografia, da Sociologia e da Antropologia.
Só o “método dos sistemas” permitirá a apresentação de hipóteses certificadas, ainda que incertas e/ou supostas. Desenvolvendo a proposta de Moisés Espírito Santo, penso que devem ser rejeitadas quaisquer explicações que não possuam pelo menos duas correspondências, uma do sistema linguístico e outra do sistema contextual, sendo obrigatoriamente uma delas a correspondência fonética. A segurança da interpretação será tanto maior quanto mais largo for o número de correspondências verificadas e/ou verificáveis. No sistema linguístico poder-se-á verificar qualquer destes fenómenos:
  • correspondência fonética (o étimo antigo tem um som próximo do nome actual); 
  • correspondência vocabular (o topónimo integra-se numa “constelação de nomes”, numa relação de complementaridade semântica entre termos próximos no espaço); 
  • correspondência sinonímica (a divisão da propriedade pode ter originado uma multiplicação de palavras com significado próximo, numa mesma língua ou em línguas diferentes, ou a produção de diminutivos ou de aumentativos).
No sistema contextual, deve existir pelo menos um destes fenómenos:
  • correspondência geográfica (o topónimo diz respeito ao acidente natural onde se “localiza”); 
  • correspondência mitológica (há mitos ou lendas que certificam a explicação objectiva/racional ou que a reflectem); 
  • correspondência histórica ou arqueológica (o nome está ligado a factos comprovados por documentos ou por vestígios arqueológicos existentes no local); 
  • correspondência social (o designativo liga-se a práticas sociais ou rituais desenvolvidas no lugar).
Convém, entretanto, lembrar que, até à entrada da televisão em todas as casas, os falares das nossas aldeias e dos nossos campos nos permitiam dizer que em Portugal não se falava “português”, mas “portugueses”, pelo menos dois: um erudito, derivado do latim com contributos posteriores; e outro popular, quase paralelo, com traços de uma maior ancestralidade. Terá sido este, aliás, que levou à criação de grande parte dos topónimos antigos, ainda antes de existir a língua portuguesa.
Como uma suculenta sopa de pedra, no caldeirão, fervente ao longo de vários milénios, se juntaram ingredientes linguísticos diversos para dar origem ao caldo que ainda ouvimos falar até há poucas décadas (hoje em perigosíssima, mas quiçá irremediável, erosão). Não se sabe qual terá sido a água limpa inicial, mas sabe-se que aí se foram depositando fonemas, palavras e estruturas vindas do Próximo Oriente (fenício/hebraico), da Arábia (árabe dialectal), do Norte de África (púnico e berbere), da Grécia e da Península Itálica (grego e latim). Sabe-se também que fenício, hebraico, árabe e berbere são línguas pertencentes à mesma família semita. Está provado que os berberes que atravessaram o Estreito de Gibraltar e por aqui ficaram depois do século VIII falavam dialectos com origem fenícia-púnica e o latim do Norte de África. Não há dúvidas de que mesmo o grego e o latim não fecharam portas às influências vocabulares e de outra índole provenientes da margem sul e oriental do Mediterrâneo». In Ruy Ventura, A Vide e o seu Castelo, e outros Topónimos da Terra de Cristovam Pavia, Fonte da Vila, Castelo de Vide, História e Património, ta_rv_cv_toponimo, Pdf.

Cortesia de Fonte da Vila/JDACT

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Salvaterra de Magos: Um topónimo auspicioso?

Cortesia de fisicohomepage

De entre as folhas avulsas da minha biblioteca, encontrei este discurso do Prof. Justino Mendes de Almeida.

Salvaterra de Magos: um topónimo auspicioso?

Sobre Salvaterra de Magos não há uma bibliografia abundante. Há, no entanto, alguns trabalhos publicados, a que não recusamos valor, mas sobre Salvaterra há uma imensidade de documentação no Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo. Sobre os elementos informativos existentes, foi-me possível redigir um extenso trabalho, insusceptível de ser apresentado como comunicação, mas que publicarei na íntegra. Aqui, por escassez de tempo, darei apenas um sumário, que distribuí para mais fácil acompanhamento da exposição.

1. Devo, antes de mais, explicar a razão do uso do qualificativo «auspicioso», no título. Para mais, com uma interrogação: porquê? «Auspicioso» significa «que se apresenta como bom, prometedor, promissor». O uso deste adjectivo aplicado a Salvaterra tem a ver com a convicção, que se criou e se afirmou, pelo menos no meu espírito, de que para a vila estava destinado um futuro próspero, como que divinizado pela fixação da palavra «Magos».

Escaroupim, Salvaterra de Magos
Cortesia de velocipedia
2. Ninguém até hoje, que eu saiba se ocupou completamente da origem e significado do nome de Salvaterra de Magos. Há pequenas abordagens em dicionários antigos e em enciclopédias actuais, e leves alusões em trabalhos de investigação histórica, mas que não satisfazem as exigências da ciência linguística. Para aumentar as dificuldades, o nome nem sequer vem mencionado no Onomástico Medieval, de A. A. Cortesão, que regista as formas mais antigas dos antropónimos e topónimos portugueses.

Porquê «Salvaterra»? E porquê «de Magos»?

3. É conhecido como, à medida que se procedia à reconquista cristã, os monarcas portugueses distribuíam as terras a arrotear por colonos estrangeiros. Para Benavente, uma vila aqui ao lado, vieram colonos da Benevento italiana. Uma forma de genitivo (vila Beneventi) está na origem do nome actual, cuja evolução fonética já expliquei em outras oportunidades.
Para Salvaterra vieram colonos francos (povos que ocupavam a antiga Gália romana) e aqui deram a um local já existente, o nome da sua terra: em francês Sauterre evolução do latim salva terra «terra salva» por qualquer acontecimento, porventura de natureza histórica. Os naturais ou habitantes deste lugar adoptaram a designação mais conforme com o original. E não foi esta a única: outras Salvaterras nasceram no território hispânico, todas com uma génese francesa.

Cortesia de pbase
4. ..«de Magos», o que vem a ser? É também palavra latina «plural de mago, proveniente de magus, com o sentido de «mago, mágico, feiticeiro» Esta palavra tem uma história linguística curiosa: deveria ter evoluído para majo, como Tagus evoluiu para Tejo, Pace para Beja. A manutenção de magus só se compreende por um uso moçarábico (do árabe musta’rib «arabizado»: cristão que vivia na Península Ibérica sob a dominação muçulmana, conservando as suas crenças a sua língua e o direito de praticar a sua religião), como me explicou oralmente o Prof José Pedro Machado.
Temos, portanto, em Magos uma palavra grega uayos, de origem persa, que chegou até nós por intermédio do latim magus, com o significado primitivo que já indicámos. Pensa ainda o Prof, José Pedro Machado que a palavra magus era muito usada pelos moçárabes e que é provável que ali existisse um templo que deu o nome ao lugar, designado Magos.

5. Que Salvaterra conviveu com Magos, e que Magos precedeu Salvaterra, são conclusões que se tiram da leitura do início do foral concedido por D. Dinis, em boa hora divulgado pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, sob a responsabilidade científica do saudoso Prof. Borges de Macedo. Diga-se, no entanto, que, em verdade, o foral então publicado não era destinado a Salvaterra de Magos, mas a Salvaterra próxima do lugar de Magos, depois Salvaterra de Magos. Isto está na origem da confusão existente em alguns autores, ao julgarem que o foral de Salvaterra, publicado por Alexandre Herculano nos Portugaliae Monumenta Historica, se referia a Salvaterra de Magos, quando afinal é o foral de outra Salvaterra depois designada por Salvaterra do Extremo, em terras egitanienses.

Cortesia de pbase
6. Mas, afinal, como prevalece um nome que contém em si um vocábulo de sentido anticristão, e que eu, no título da comunicação, considerei «auspicioso»?
O significado primitivo de Magos desvanece-se com os tempos. E sobretudo a partir do séc. XVI, mais exactamente desde a fundação do Convento de Jenicó pelo infante D. Luís, a quem se deve o mais majestoso palácio real construído – ou reconstruído - em Salvaterra que se radica a convicção de que Magos mais não era do que uma evocação dos Reis Magos, do episódio bíblico.

JDACT
Não é difícil reconstruir a imagem: assim como os Reis Magos tinham vindo do Oriente para adorar o Deus Menino, assim os monarcas portugueses demandavam Salvaterra - que rivalizava então com Almeirim. Magos, no nome de Salvaterra não poderia ser senão uma lembrança dos Reis Magos, como se Salvaterra se identificasse com Salvaterra dos Reis Portugueses, de significação idêntica a Salvaterra dos Reis Magos, na sua expressão mais simples Salvaterra de (por dos) Magos. Assim acreditavam, e assim ficou para sempre. Não se creia porém como alguns disseram, que Salvaterra foi buscar a segunda parte do nome à designação de Paul de Magos. A documentação regista a existência de muitos paúis na região e o que veio a ser designado por Paul de Magos só teria sido aberto em tempos de D. João IV.

Cortesia de portucale
7. Com a invocação, e não apenas evocação, dos Reis Magos na sua designação, a vila ficava por assim dizer, divinizada, assegurando-lhe um futuro promissor, como de facto aconteceu.

Entendam-se estas minhas palavras como uma homenagem a Salvaterra de Magos.
Salvaterra de Magos, 8 de Maio de 2004
Justino Mendes de Almeida, 1º Vice-Presidente da Academia Portuguesa da História e Reitor da Universidade Autónoma de Lisboa

Prof. Justino Mendes de Almeida
Cortesia de semanal.omirante
Com amizade.
JDACT