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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Os Passos em Volta. Herberto Helder. «Ouviu? Tenho medo. Ninguém responde, e eu deito-me de novo, vendo a luz amarela sobre o meu próprio corpo e escutando um ralo devasso a coaxar dentro deste terror»

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O Grito
«(…) por favor, dirijo-me a alguém por entre a música, diga que compreende. Diga-me agora, já. Mesmo que não compreenda. O inspector sorri. Como pode este sorrir tanto? O senhor decerto concorda em que somos necessários. Asseguramos uma ordem que permite a criação. Estabelecemos o clima próprio… Claro que nunca mais dormi. Espero os gritos. Espero-os todas as noites. Fico sentado na tarimba, tiritando. Estou vazio. O meu desespero é este vazio total, estranha forma de terror que nunca mais me abandonará. Ouço um ralo, e isso impacienta-me. Um ralo é uma coisa estúpida. Pode até fazer com que eu adormeça. Também ouço todas as noites os gritos que partem de algures na prisão, talvez do piso em cima, de qualquer cela semelhante a esta. São cada vez mais fracos e agora, na quinta noite, esforço-me por destacá-los do silêncio amarelo do corredor. Serei um colecionador de gritos? Não consigo senão ter medo, esta força desordenada e súbita que me arrasta para o pote. Chamo por alguém. Digo nomes ao acaso. Há-de haver algum preso nas celas próximas, alguém a quem dizer: Ouviu? Tenho medo. Ninguém responde, e eu deito-me de novo, vendo a luz amarela sobre o meu próprio corpo e escutando um ralo devasso a coaxar dentro deste terror.
O jacto de fogo sobe do fundo até às estrelas. Sou um bêbado. O poço estremece. É o último grito, a agonia do mundo. Uma coluna de pedra que se parte de repente. Nasceu num homem. Propagou-se. Está em mim. Caio então muito depressa no sono. Durmo. Durmo cada vez mais. Um dia já não não acordarei. Espero nunca mais acordar. Acendo um cigarro, e o espelho mostra que não tremo. Quem sabe se a morte desse homem… Como digo? Não é verdade que o seu sofrimento acabou para sempre? Sim, mas como posso libertar-me desses gritos, esse espantoso grito final, e adormecer, morrer? Bebemos. Digo: bela cerveja.
E meto as mãos pelas coxas de uma das raparigas. Somos três à mesa. As duas mulheres riem continuamente. Um soluço cresce pela cerveja acima, e então bebo dois grandes goles. Enterro-me na música violenta. Pensam acaso que não estive também a gerar esse grito? Que ele não foi do mesmo modo um sofrimento meu, um crime? A névoa afoga-me. Por dentro da névoa as raparigas riem como loucas. Dizem piadas obscenas. Vou cair com a cabeça sobre a mesa fria. Vou dormir mais uma vez. Um bêbado que dorme caído sobre o tampo de uma mesa ressona como um porco. É sempre assim. Ressonamos como porcos, e as mulheres a nosso lado riem loucamente nos seus vestidos de cor. 
 
Os comboios que vão para Antuérpia
Em Janeiro eu estava em Bruxelas, nos subúrbios, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Fora-se o Natal. Algo desaparecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro nem livros nem cigarros. Não tinha trabalho nem ócio, porque estava desesperado. Por isso passava o dia e a noite no quarto. Na linha em baixo rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pensava em Deus quando os comboios trepidavam nos carris e apitavam tão perto de mim. Quando iam possivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos comboios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus, um comboio: algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino indefinido: Antuérpia, que possivelmente (evidente) não era. Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho-de-ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita, tímida mas tenazmente viva num quintal próximo». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.
 
Cortesia A Alvim/JDACT

sábado, 20 de julho de 2013

O Bebedor Nocturno. Herberto Helder. A Vida Breve. «O que é significativo na existência de cada um é algo de que dificilmente temos consciência e não deve seguramente incomodar os outros. O que sabe um peixe-político acerca da água do reino do sul na qual nada durante toda a vida?»

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Poema do Velho Testamento
[…]
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face
tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.

Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me pera eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.

Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.

Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.

Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem à mesa e que a cegueira os
fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas
costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar o teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.

E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
FIM

Poema de Herberto Helder, in “O Bebedor Nocturno”

JDACT

O Bebedor Nocturno. Herberto Helder. A Vida Breve. «Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia pelo estado amordaçado da crise, da incerteza do quotidiano. Assusto-me»

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Fragmento do Cairo
Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.

Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
‘Dá-me esta noite a minha amada’.
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de
flores.

E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.

Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
Olha para mim.

Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.

Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos.


Poema do Velho Testamento
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.

Porque nos pedem cânticos e alegria.
Entoai, dizem eles, as canções de Sião.

Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!

E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.

Lembra-te, ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: - Devastai-a
até às raízes!

Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!

De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.

Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos
incansáveis
mas que esperas tu dos mortos? Que te importam
sombras idas?

Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo?
Conhece-se o que é justiça na noite do esquecimento?

Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país
das trevas.

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.

Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme, a vergonha do
meu Povo.
Escarnece quem me vê:
Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que
ama.

Foste tu quem me tirou do ventre de minha máe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matrï2.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
[…]

Poemas de Herberto Helder, in “O Bebedor Nocturno”

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sábado, 15 de junho de 2013

Os Passos em Volta. Leituras. Herberto Helder. «Está com um pouco de vergonha de si mesmo, porque pensou durante cinco minutos que nem toda a gente tem o direito de estar presa. Dorme num poço situado sob as mais belas estrelas…»

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Polícia
«(…) Sou uma criatura sã, digo. Sou um bêbado. Vou dormir vestido vermelho, vou morrer. Mas não está ninguém a meu lado. A máquina bate as nossas estúpidas palavras. O inspector estende as mãos exangues e parece cada vez mais inteligente. – Claro, diz. - Nunca pretendi chamar-lhe comunista. Imagino apenas que, por ingenuidade, por exactamente não ser comunista, o senhor tenha colaborado com eles. Por ingenuidade. Por nada saber. Vê onde quero chegar? Só desejamos que diga os nomes. Os nomes? Que nomes? Três horas à volta desta porcaria. Depois mandam-me embora. A cela fica no segundo piso, a meio de um corredor frio, alumiado por algumas lâmpadas amareladas. De um lado e outro existem celas, quase todas vazias agora, pois fizeram há pouco tempo transferência de presos para outras cadeias. São celas pequenas e escuras, de cimento. Encostada à parede, a tarimba com um cobertor. Ao canto, o pote onde se urina e defeca. O silêncio é completo através do canal do corredor. Nada disto me faz grande mal. Talvez o silêncio me impressione, mas depois deixo de senti-lo. Começo a pensar e já não tenho consciência desse frio silêncio amarelo em que tudo se consome. Vejo-me no espelho a brincar com um cálice vazio na ponta dos dedos. Mas o olhar apaga-se de súbito, e as pálpebras batem. - Tenho medo, digo.

Uma cara olha-me atonitamente. É agora o vestido vermelho com uma idiota flor branca por cima: a cabeça. - O quê? - Não, não é de ser preso outra vez que tenho medo. Peço-lhe que aceite mais um copo de cerveja, minha senhora. Gostaria de sentir-me solidário com alguém. - Ouvem?! - exclama ela para as outras. - Este gajo tem uma bêbeda porreira. Peço-lhe que aceite mais um copo de cerveja, minha senhora. Pois não, meu caro senhor. Amanda-me aí uma imperial bem tirada, ó Juca! Vejo dois copos de cerveja sobre o balcão e agarro num deles. O frio sobe-me pelos dedos. Daqui a pouco não sentirei as mãos: estarão adormecidas. Suponho que rio baixinho. Foi isto que me fizeram. Estou cheio de frio. Durmo. Nunca mais acordarei. – Ouça, digo para ninguém. - Não me bateram. Foram amáveis durante os interrogatórios. Ele tinha mesmo uma cara honesta. Às vezes pergunto: quem sabe se não seria uma pessoa honesta?

Alguém senta-se no banco ao lado e pede qualquer coisa. - Sou um homem honesto, digo ao meu novo vizinho. - Procuro sê-lo. - O vizinho sorri, condescendente. Pisca o olho ao empregado, que também sorri. - Agora não sei bem se isto é honestidade. Mas de qualquer modo eu nunca pertenceria à polícia. O outro pertencia, e pareceu-me honesto. Que sentido há nisto? - É que ele não era um homem honesto. - E o vizinho dá uma gargalhada. - Não? - Julgo que sonho. - Claro, era um assassino. Um assassino honesto. E de novo a música louca enche tudo. Bebo depressa. Sinto-me no fundo de uma turbulenta e exasperada corrupção. Calo-me para lembrar melhor. Na terceira noite de cadeia estive a pensar que não era um revoltado, mas um simples empregado de escritório pouco imaginativo. Não merecia estar preso. Talvez fosse bom merecê-lo. Um momento mais, e estaria perto da fraternidade. Mas eu era um pequeno homem honesto. Da espécie de honestidade que não ligava com a do inspector só talvez por ser inerme. Uma vil honestidade passiva. Anuidora, silenciosa. Que não desejava incómodos. Apenas por não ter um temperamento activo é que eu nunca seria da polícia? Bem sei, é absurdo. Estou doente. Não devo pensar nisto. - Bebemos mais uma cerveja?

Não está ninguém para beber. Continuo a beber só. E rio baixinho, um pequeno riso mortificado e cruel por trás do copo enevoado da cerveja. Por trás ainda da minha vida de burguês destruída pela peste. Sempre dormi bem. Hoje imagino que, durante todos os tranquilos sonos da minha vida, se preparavam e realizavam os crimes. Dormi como um justo. Não é assim que se diz? Como se fosse um justo. Mas um estremecimento qualquer entrara no meu sono, um rato entrara no sono. Conseguem imaginar o que se passou? Um empregado de escritório está metido numa cela por suspeitas políticas. É tudo infundado, e ele acredita que o caso se há-de esclarecer. Por isso dorme tranquilamente como durante a liberdade. Está com um pouco de vergonha de si mesmo, porque pensou durante cinco minutos que nem toda a gente tem o direito de estar presa. Dorme num poço situado sob as mais belas estrelas (imagem esta de agora, quero dizer: poesia irresponsável de bêbado). Serenidade por toda a parte. Serenidade cósmica, prisional, pessoal.

Fora o rato que trabalhava no escuro da serenidade. E então acordo. Não acordo como se o rato estivesse a roer. Acordo por explosão. É um grito. Depois, vários ruídos. Um rumor espalhado e, no centro, esse grito, alto, material como ume agulha de gelo. Uma coisa impossivelmente terrífica Um grito humano. E só distingo a penumbra amarela que vem do corredor. O silêncio contamina tudo, o frio cerra-me. E a luz amarela estende-se pelo chão e atinge o pote de urina, que fede. Então sinto uma dor na barriga e corro pare o pote». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

sábado, 25 de maio de 2013

Os Passos em Volta. Leituras. Herberto Helder. «De repente lembro-me que sou empregado de escritório. - Sou empregado de escritório - digo baixinho. - Nem sei o que seja comunismo, não sei bem o que seja. - Sorrio um pouco, no fundo de uma pequena alegria humilhada»

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Polícia
«(…) Annemarie tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a arriscaria, sempre e sempre, que perderia, mas nada cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me. Começámos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro. Quando anoiteceu saímos do bar e fomos a pé, vigilantes, protegidos, até ao meu quarto de Laeken. Contornámos o que nos parecia suspeito: um carro parado, um vulto vagaroso, as sombras, as vozes. Foi ainda preciso subir furtivamente as escadas do prédio, pois a senhoria já me mandara embora, porque 1.º eu não lhe pagava a renda, porque 2.º não queria complicações com a polícia. Mas depois o quarto foi nosso. Annemarie despiu-se e deitou-se nua sobre o cobertor enquanto eu tentava aquecer um pouco de água. Falámos longamente da chuva, do amor e das leis. Às duas da manhã fomos à janela e vimos passar dois guardas na rua. Pareceu-me que observavam a nossa janela. Cumplicidade e ardor, a partilha da vulnerabilidade mútua, a coragem de tudo enfrentar com tão pouco: essas eram as nossas armas. E dispúnhamos dos melhores talentos da libertinagem. Annemarie puxou-me para dentro e amámo-nos sobre o cobertor até de manhã, até a luz fria nos afogar. Choveu sempre. Sentíamos a chuva sobre a terra inteira. Éramos invencíveis. Seja dito que vós, os desta nação, ignorais muitas coisas. Talvez Deus vos não inspire.

O Grito
Imaginem que sou um empregado de escritório, um pequeno burguês calafetado cuja existência foi de súbito invadida pela peste. Volto sempre ao mesmo. Esta ideia da peste não me sai da cabeça. Podem supor o que era a minha vida. O trabalho, as noites no café ou no cinema, um livro, a visita a um prostíbulo. Vida sem imaginação, não é? Pois bem, estive preso durante um mês. Não é muito. Agora parece-me que já não poderei ter qualquer espécie de esperança. Sento-me neste bar e embebedo-me. Preciso estar bêbado. Vejo os vestidos vermelhos e azuis das raparigas escoando-se por entre as mesas. Toca-se uma música lancinante. Gosto deste bar. Atordoa-me. O espelho mostra-me um olhar aflito. Levanto o copo com a mão hesitante, e saúdo-me. Noto perfeitamente a minha mediocridade. Uma bebedeira dolorosa, um pouco repugnante, não? - Pagas-me uma bebida? - Um vestido encarnado sobe pelo meu lado esquerdo. É bem suja esta vidinha, meus amigos.
 - Claro que pago, digo eu. - Vou dormir e não acordo mais. O inspector da polícia olha-me com cordialidade. Estes tipos são bestialmente cordiais. - Nada receie, meu caro - diz. - Nós tratamos bem as pessoas. Fuma? Recuso o cigarro. Ele está por trás da secretária, curva-se para mim sobre o mata-borrão. Insinuante. - Somos todos seres humanos, não é? Essas histórias de tratamentos brutais aos presos são pura lenda. Coisas da propaganda comunista. Há nos seus olhos uma malícia inteligente. Pode parecer um homem culto, um intelectual. Na mesa ao lado o dactilógrafo regista as perguntas essenciais e as minhas respostas. Um agente está encostado à janela. Folheia uma revista. Nada receio, afirmo eu. - Nunca tive actividade política. Sequer convicções. É um equívoco. O vestido vermelho ri. – Já estás bêbado, velhinho. - Não chateie. Beba o chá, e bico. Vou morrer. Preciso morrer.
Ri sempre, e o dactilógrafo escreve. Reparo num mapa do país, encerado, pendendo ao lado direito da porta. Tem bandeirinhas de várias cores. - Creio nisso. - De onde vem esta voz generosa? - O senhor não tem aquele ar… Como direi?... Penso que a temperatura é muito alta. Porque não fecham o aquecimento? Em contrapartida faz bastante frio na cela. É toda de pedra, e estamos no inverno. - Aquele ar febril… aaa… acossado... aaa... dos verdadeiros criminosos. - Como? - Falo dos comunistas. Mas existem culpados com muito sangue-frio. Claro, eu sei que o senhor não é comunista. De repente lembro-me que sou empregado de escritório. - Sou empregado de escritório - digo baixinho. - Nem sei o que seja comunismo, não sei bem o que seja. - Sorrio um pouco, no fundo de uma pequena alegria humilhada. - Sou um homem comum. - Ele faz um gesto penetrante, um tanto ambíguo. Sorri inteligentemente.
 - Os comunistas são empregados de escritório. Como está quente! Penso. São isto e aquilo. E poucos na realidade conhecem o comunismo. Conhecem a propaganda. A música gira cada vez mais depressa. Que coisa boa, a música louca. Olho de novo a minha cabeça no espelho. Parece que estou só no bar, horrivelmente só no meio de tanto barulho. Uma cabeça empesada, branca ou negra, fria como o terror. - Acredite que não sabem. São simples revoltados. Homens amargos que procuram uma fuga na revolta. Não são capazes de integração positiva na sociedade onde vivem. Querem destruir. Encontram uma saída na marginalidade do comunismo». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

Os Passos em Volta. Leituras. Herberto Helder. «Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: “sou livre”. Não se ‘podia arriscar a liberdade’. E a pergunta: que ‘liberdade?’»

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Polícia
«(…) Nessa manhã de dezembro em que chovia (eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, longa), M. Maurice começou a duvidar da sua influência e da influência do partido comunista. Disse-me que já nada poderia fazer por mim. Seria melhor eu partir para a Alemanha ou a França, ou arranjar então lugar num barco que saísse de Antuérpia. Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino, algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última. Em cada instante a terra ainda consegue ser completa: é a única, e isso mesmo a renova.
Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu, simples, tenebrosa, entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali
sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos. Annemarie era francesa, de Lyon. Abandonara um filho de dois anos. O marido combatia na Argélia, talvez estivesse morto. Ela dizia que o amava, e porque não? O amor e o desespero e a desordem, isso é a nossa parte do jogo. Annemarie não queria regressar à França. Mas vivia na Bélgica sem documentos. Fora já posta na fronteira duas vezes: voltara, voltaria sempre. Que pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor.
M. Maurice perdera a última esperança de me salvar. O partido comunista, a viagem de ida e volta em comboio até Clabeck, a chuva, uma impossível salvação, que salvação? Embrulhavam-se dentro de mim, e eu sentia-me embriagado, feliz, irresponsável: sentia-me como se estivesse perto de morrer. Agora uma mulher bebia cerveja na minha solidão, falava do filho que abandonara, do marido que estava na guerra. Pronunciava as palavras devagar, arrancava-as inexoravelmente a esse sempre vivo e sempre secreto vocabulário do medo e do empenhamento. Dizia sorrindo que estava perdida. Gostava da cerveja belga, achava Bruxelas insuportável. Sim, queria morrer. Queria morrer anonimamente, no fim do deserto. Eu percebia.
Os chuis farejavam à volta da Gare du Nord, farejavam-nos a todos: putas, chulos, vadios, indocumentados, ilegais. Sabiam que ela voltara: seria presa? Já o fora algumas vezes: não era o pior. Seria mesmo a única forma agora possível de pensar nas coisas, de avaliar o mundo. Mas aí acabava o jogo. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade. E perguntar: que liberdade? Eu também seria preso, repatriado: andaria depois por Lisboa a dormir em quartos de amigos, em camaratas públicas. À caça de um almoço, uma sopa, um copo de leite. Todos os lugares são no estrangeiro. E eu passaria junto ao rio, olhando a crespa e lívida massa das águas, a outra margem com o fumo vermelho das refinarias a sufocar a branca luz a prumo. E imaginava já a prisão em Bruxelas. Era preciso enganar a polícia. Rebentar de fome, sim, estrangeiramente, mas não perder nunca a liberdade. E a pergunta: que liberdade?» In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 21 de abril de 2013

Os Passos em Volta. Leituras. Herberto Helder. «Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei…»

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Teoria das Cores
«Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor, sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Polícia
Le petit monsieur Leclair falhou mais uma vez. Nesse dia, Dezembro, chovia, eu fora à sede do partido comunista, recomendado pelo pequeno senhor Maurice Leclair, e recebera uma carta para as forjas de Clabeck. Em Bruxelas o meu trabalho era muito irregular. Só acidentalmente é que dispunha de algum dinheiro .Fazia um pouco de tudo: cortava legumes na Sobela, enfardava aparas de papel na Nouvelle Maison Vermeiren ou ajudava Chez Lemaire, uma friture. Não tinha os documentos em ordem. Não havia quem me desse trabalho certo e suficientemente prolongado. Maurice pretendia meter-me em Clabeck, nas forjas, trabalho violento, e que por aí fosse solicitada ao ministério a carta de trabalho. Contava com a influência de alguém do partido comunista. Eu divertia-me sobretudo quando pensava que M. Maurice era antigo colaboracionista e não gozava de direitos civis e políticos.
A Bélgica era um país confuso, cómico. Por exemplo: o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava e cerveja forte, pertencera à resistência. Eu desejava trabalho, apenas isso. Também um pouco de calor. Pensava em raparigas com quem pudesse dormir ou ir, nas noites de sábado, aos bares da Chaussée d'Anvers. Eu tinha um quarto triste, sem aquecimento. Uma das janelas caía sobre a igreja e o cemitério burguês de Laeken. A outra dava para umas luzes distantes. Sob uma ponte próxima passavam comboios de mercadorias. Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e inocente. Também me sentia entusiasmado com a solidão. Encontrava-me fora dos quadros, vagueava pela cidade. Era já perigosamente conhecido Au Nord, perto da estação, onde as putas e os chuis eram mais que as mães. De vez em quando perdia por ali uma tarde inteira, arranjava dinheiro para duas cervejas, um pacote de batatas». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

quarta-feira, 13 de março de 2013

Maria Alzira Seixo. Os Poemas da Minha Vida. «Erotismo indirecto, mas por diversas vias tão envolvente. Natureza, símbolos, instintos, elementos, tópicos diversos dos modos de amar, desde a contemplação e a pureza»



Cortesia de wikipedia e jdact

Poema de Amor
A noite é cheia de vales e baías.
E do meu peito aberto um rio largo de sangue…
Águas densas, de correntes lentas,
serpentes mortas a arrastarem-se.
Águas?
Água negras, pastosas, alcatrão rolante.
Mas águas-puras, verde-claras, atraindo
a margem donde os crocodilos fogem mastigando.
Águas em transparência lucilantes, para cima,
e as estrelas do mar, um polvo e um Mefistófeles
ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus
que se descobrem.
Plantas brancas e extáticas…
Lágrimas… Nuvens… E a cabeça, o perfil,
os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta
antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova,
e não conhece os filhos!

O fogo envolve essa mulher amada
e é um guindaste erguendo-a e atirando-a,
enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas
naturalmente à espera…

Poema de Edmundo Bettencourt, Funchal (1889-1973)

In Maria Alzira Seixo. Os Poemas da Minha Vida. Público, 2005, ISBN 972-8892-78-0.

Cortesia de Público/JDACT

domingo, 30 de outubro de 2011

Leituras. Parte XXX. Herberto Helder. Os Passos em Volta. «Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta»

por Frederico Penteado
Cortesia de wikipedia

Estilo
«Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?...a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam.
Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
Uma vez fui a um médico.
- Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
- Tem loucos na família? - perguntou o médico. - Alcoólicos, sifilíticos?
- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?

O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei histórias tenebrosas acerca da vida, De que me servem barbitúricos?

Cortesia deviveraciencia.wordpress

A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. “Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas”.Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música, Sebastião Bach. Conhece o “Concerto Brandzburguês n.º 5? Conhece com certeza esaa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples:
  • quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura... Começo a fazer o meu estilo.
Admirável exercício, este. Às vezes uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais, curioso... Pego numa palavra fundamental:
  • Amor,
  • Doença,
  • Medo,
  •  Morte,
  • Metamorfose.
Digo-a baixo vinte vezes. Já, nada significa.. É um modo de alcançar o estilo. Veja agora esta artimanha:

“As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
(...)
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente".

Trata-se do excerto de uma poesia. Gosta de poesia? Sabe o que é poesia? Tem medo da poesia? Têm o demoníaco júbilo da poesia?

Cortesia de paletaspinceladas

Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o estilo.
Está a ouvir como essas enormes crianças gritam e gritam, entrando na eternidade? Note: somos o Poema onde elas se distanciam. Como? Loucamente. Quem suportaria esses gritos magníficos? Mas o poeta faz o estilo.
Perdão, seja um pouco mais honesto. Seja ao menos mais inteligente. Vê-se bem que não estou louco. Eu, não. As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes falta um estilo.
Sabe de que lhe estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela? Bem, o senhor não é estúpido, mas também não é muito inteligente. Conheço. Conheço o género.
Talvez eu já tivesse sido assim. Pratica as artes com parcimónia: não a poesia, mas as poesias. Cultiva-se, evidentemente. Se calhar está demasiado na posse de um estilo. Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade?
Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu». In Herberto Helder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 2009, ISBN 978-972-37-0119-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

TEMÁTICA, o FADO: Edmundo Bettencourt. «Um cantor e poeta notavelmente conhecido por interpretar Fado de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical»

(1889-1973)
Funchal
Cortesia de universidadedecoimbra 










Entro na Igreja majestosa e calma,
Erro na sombra sob as arcarias
Anda no ar silêncio, e a minha alma
Toma a frieza das colunas frias
Numa capela triste aonde espalma,
Doirado ilustre, chamas fugidias,
Tocam-me o peito as setas duma palma
A evocar-me de Cristo em agonias
Começa o som do órgão, morno, errante,
E o aroma do incenso penetrante
Como as garras aduncas do tormento
E o já desejo acre de esquecer,
De o longe e o mundo eu só escutar e ver,
No coração me nasce brando e lento.