Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Herculano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alexandre Herculano. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Eurico o Presbítero. Alexandre Herculano. «Foi então que o célebre Roderico se apossou da coroa. Os filhos do seu predecessor Vitiza, os jovens Sisebuto e Ebas, disputaram-lha largo tempo; mas, segundo parece dos escassos monumentos…»

jdact e cortesia de wikipedia

Os Visigodos

«A raça dos Visigodos conquistadora das terras de Hispânia subjugara toda a Península havia mais de um século. Nenhuma das tribos germânicas que, dividindo entre si as províncias do império dos césares, tinham tentado vestir sua bárbara nudez com os trajos despedaçados, mas esplêndidos, da civilização romana soubera como os Godos juntar esses fragmentos de púrpura e ouro para se compor a exemplo de povo civilizado. Leovigildo expulsara da Hispânia quase que os derradeiros soldados dos imperadores gregos, reprimira a audácia dos Francos, que nas suas correrias assolavam as províncias visigóticas de além dos Pirenéus, acabara com a espécie de monarquia que os Suevos tinham instituído na Galécia e expirara em Toletum, depois de ter estabelecido leis políticas e civis e a paz e ordem públicas nos seus vastos domínios, que se estendiam de mar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da Vascónia, abrangiam grande porção da antiga Gália Narbonense.

Desde essa época, a distinção das duas raças, a conquistadora ou goda e a romana ou conquistada, quase desaparecera, e os homens do Norte tinham-se confundido juridicamente com os do Meio-Dia numa só nação, para cuja grandeza contribuíra aquela com as virtudes ásperas da Germânia, esta com as tradições da cultura e polícia romanas. As leis dos césares, pelas quais se regiam os vencidos, misturaram-se com as singelas e rudes instituições visigóticas, e já um código único, escrito na língua latina, regulava os direitos e deveres comuns quando o arianismo, que os Godos tinham abraçado o Evangelho, se declarou vencido pelo catolicismo, a que pertencia a raça romana. Esta conversão dos vencedores à crença dos subjugados foi o complemento da fusão social dos dois povos. A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral. A monarquia visigótica procurou imitar o luxo do império que morrera e que ela substituíra. Toletum quis ser a imagem de Roma ou de Constantinopla. Esta causa principal, ajudada por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução política por via da dissolução moral. Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema, tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais iluminado da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.

Foi então que o célebre Roderico se apossou da coroa. Os filhos do seu predecessor Vitiza, os jovens Sisebuto e Ebas, disputaram-lha largo tempo; mas, segundo parece dos escassos monumentos históricos dessa escura época, cederam por fim, não à usurpação, porque o trono gótico não era legalmente hereditário, mas à fortuna e ousadia do ambicioso soldado, que os deixou viver em paz na própria corte e os revestiu de dignidades militares. Daí, se dermos crédito a antigos historiadores, lhe veio a última ruína na batalha do rio Chrysus ou Guadalete, em que o império gótico foi aniquilado. No meio, porém, da decadência dos Godos, algumas almas conservaram ainda a têmpera robusta dos antigos homens da Germânia. Da civilização romana elas não tinham aceitado senão a cultura intelectual e as sublimes teorias morais do cristianismo. As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para os Godos logo que, assentando o seu domínio nas terras de Hispânia, possuíram de pais a filhos o campo agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso e da saudade. Nestes corações, onde reinavam afectos ao mesmo tempo ardentes e profundos, porque neles a índole meridional se misturava com o carácter tenaz dos povos do Norte, a moral evangélica revestia esses afectos de uma poesia divina, e a civilização ornava-os de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia. Mas no fim do século sétimo eram já bem raros aqueles em quem as tradições da cultura romana não tinham subjugado os instintos generosos da barbaria germânica e a quem o cristianismo fazia ainda escutar o seu verbo íntimo, esquecido no meio do luxo profano do clero e da pompa insensata do culto exterior. Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos Godos em alimento das dissensões intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em lugar dela o hábito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras dos seus avós. As leis de Vamba e as expressões de Ervígio no duodécimo concílio de Toletum revelam quão fundo ia nesta parte o cancro da degeneração moral das terras de Hispânia. No meio de tantos e tão cruéis vexames e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos eles para os afeminados descendentes dos soldados de Teodorico, de Torismundo, de Teudes e de Leovigildo era o vestir as armas em defensa daquela mesma pátria que os heróis visigodos tinham conquistado para a legarem aos seus filhos, e a maioria do povo preferia a infâmia que a lei impunha aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos combates e à vida fadigosa da guerra». In Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero, 1844, Bertrand Editora, 2011, ISBN 978-972-252-299-1

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Alexandre Herculano, História, Visigodos, Século VIII, Literatura,

sábado, 6 de maio de 2017

O bispo Negro (1130). Alexandre Herculano. «Toda a narrativa das circunstâncias que se deram no facto, aliás verdadeiro, da prisão de dona Teresa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os dois fidalgos esporearam com mais força os ginetes, e breve alcançaram o infante. Senhor, senhor; aonde ides sem vossos leais cavaleiros, tão cedo e açodadamente? Vou pedir ao legado do papa que se amerceie de mim... A estas palavras, os cavaleiros transpunham uma assomada que encobria o caminho: pela encosta abaixo ia o cardeal com os dois mancebos das opas e cabelos tonsurados. Oh!...,  disse o príncipe. Esta única interjeição lhe fugiu da boca; mas que discurso houvera aí que a igualasse? Era o rugido de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a preia descuidada. Memento mei, Domine, secundum magnam misericordiam tuam!, rezou o cardeal em voz baixa e trémula, quando, ouvindo o tropear dos cavalos, voltou os olhos e conheceu Afonso Henriques.
Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por ele, travou-lhe do cabeção do vestido e, de relance, ergueu o monante: felizmente os dois cavaleiros arrancaram as espadas e cruzaram-nas debaixo do golpe, que já descia sobre a cabeça do legado. Os três ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o crânio do pobre clérico teria ido fazer mais de quadro redemoinhos nos ares. Senhor, que vos perdeis e nos perdeis, ferindo o ungido de Deus, gritaram os dois fidalgos, com vozes aflitas.
Príncipe, disse o velho, chorando, não me faças mal; que estou à tua mercê! Os dois mancebos também choravam. Afonso Henriques deixou descair o montante, e ficou em silêncio alguns momentos. Estás à minha mercê?, disse ele por fim. Pois bem! Viverás, se desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excomunhão lançada sobre Coimbra, e jura-me, em nome do apostólico, que nunca mais em meus dias será posto interdito nesta terra portuguesa, conquistada aos Mouros por preço de tanto sangue. Em reféns deste pacto ficarão teus sobrinhos. Se, no fim de quatro meses, de Roma não vierem letras de bênção, tem tu por certo que as cabeças lhes voarão de cima dos ombros. Apraz-te este contrato?
Sim, sim!, respondeu o legado com voz sumida. Juras? Juro. Mancebos, acompanhai-me. Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado, que, com muitas lágrimas, se despediu deles, e sòzinho seguiu o caminho da terra de Santa Maria. Daí a quatro meses,don Çoleima dizia missa pontifical na capela-mor da Sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam alegremente. Tinham chegado letras de bênção de Roma; e os sobrinhos do cardeal, montados em boas mulas, iam cantando devotamente pelo caminho da Vimieira o salmo que começa: In exitu Israel de AEgypto. Conta-se, todavia, que o papa levara a mal, no princípio, o pacto feito pelo legado; mas que, por fim, tivera dó do pobre velho, que muitas vezes lhe dizia: se tu, santo padre, viras sobre ti um cavaleiro tão bravo ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça, e seu cavalo, tão feroz, arranhar a terra, que já te fazia a cova para ter enterrar, não somente deras as letras, mas também o papado e a cadeira apostolical.

Nota: A lenda precedente é tirada das crónicas de Acenheiro, rol de mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria procedido mais judiciosamente em deixá-las no pó das bibliotecas, onde haviam jazido em paz por quase três séculos. A mesma lenda tinha sido inserida pouco anteriormente na crónica de Afonso Henriques por Duarte Galvão, formando a substância de quatro capítulos, que foram suprimidos na edição deste autor, e que mereceram da parte do académico Francisco S. Luís uma grave refutação. Toda a narrativa das circunstâncias que se deram no facto, aliás verdadeiro, da prisão de dona Teresa, das tentativas oposicionistas do bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro, da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a história daquela época. A tradição é falsa a todas as luzes; mas também é certo que ela se originou de alguma acto de violência praticado nesse reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo e, posto que estrangeiro, bem informado geralmente acerca dos sucessos do nosso país, o inglês Rogério Hoveden, narra um facto, acontecido em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo negro, mostra a origem da fábula. A narrativa do cronista está indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a própria confusão de datas e de indivíduos que aparece no texto de Hoveden mostra que o sucesso era anterior e andava já alterado na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fora de Portugal desde o século duodécimo por um escritor que Ruy Pina e Acenheiro não leram (porque foi publicado no século décimo sétimo) prova que ela remonta entre nós, por maioria de razão, também ao século duodécimo, embora alterada, como já a vemos no cronista inglês. Eis a notável passagem a que aludimos, e que se lê a página 640 da edição de Hoveden, por Savile: No mesmo ano (1187) o cardeal Jacinto, então legado em toda a Espanha, depôs muitos prelados (abbates), ou por culpas deles ou por ímpeto próprio, e como quisesse depor o bispo de Coimbra, o rei Afonso (Henrique) não consentiu que ele fosse deposto e mandou ao dito cardeal que saísse da sua terra, quando não cortar-lhe-ia um pé». In Alexandre Herculano. O Bispo Negro (1130) e Arras por Foro de Espanha, 1851, Livraria Bertrand, Editorial Verbo, Biblioteca Básica Verbo, 1971.

Cortesia de Lbertrand/Everbo/JDACT

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O bispo Negro (1130). Alexandre Herculano. «O príncipe foi um dos que despertaram mais cedo. Os sinos harmoniosos da Sé costumavam acordá-lo tocando as ave-marias…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra havia grande sarau. Donas e donzelas, assentadas ao redor do aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em tom monótono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os arremedilhos satíricos dos truões e farsistas. Os cavaleiros, em pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos, ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um dos lados, porém, entre um labirinto de colunas, que dava saída para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam entretidas em negócio mais grave do que os prazeres de noite de folguedo o permitiam. Eram estas personagens Afonso Henriques, Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas e Gonçalo de Sousa, o Bom. Os gestos dos quatro cavaleiros davam mostras de que eles estavam vivamente agitados.
É o que afirma, senhor, o mensageiro, dizia Gonçalo Sousa, que me enviou o abade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu uma noite para não entrar em Braga. Dizem que o papa o envia a vós, porque vos supõe herege. Em todas as partes por onde o legado passou, em França e em Espanha, vinham a lhe beijar a mão reis, príncipes e senhores: a eleição de Dom Çoleima não pode, por certo, ir avante... Irá, irá, respondeu o príncipe em voz tão alta que as palavras reboaram pelas abóbadas do vasto aposento. Que o legado tenha tento em si! Não sei eu se haveria aí cardeal ou apostólico que me estendesse a mão para eu lha beijar, que pelo cotovelo lha não cortasse fora a minha boa espada. Que me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas, não as farei eu!
Isto foi o que se ouviu daquela conversação: os três cavaleiros falaram com o príncipe ainda por muito tempo; mas em voz tão baixa, que ninguém percebeu mais nada. Dois dias depois, o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom do cardeal tremia em cima da sua nédia mula, como se maleitas o houvessem tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas por muitos, e alguém as havia repetido ao legado. Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de ânimo, encaminhou-se direto ao alcáter real. O príncipe saiu a recebê-lo acompanhado de senhores e cavaleiros. Com modos corteses, guiou-o à sala do seu conselho, e aí se passou o que ora ouvireis contar. O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante dele o legado, em um assento raso, posto em cima de um estrado mais elevado: os senhores e cavaleiros cercavam o filho do conde Henrique.
Dom cardeal, começou o príncipe, que viestes vós fazer a minha terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor papa para estas hostes que faço e com que guerreio, noite e dia, os infiéis da fronteira. Se isto trazeis, aceitar-vos-ei: depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem. No ânimo do legado a cólera sobrepujou o temor, quando ouviu as palavras do príncipe, que eram de amargo escárnio. Não a trazer-vos riquezas - atalhou ele, mas a ensinar-vos a fé vim eu; que dela parece vos esquecestes, tratando violentamente o bispo Bernardo e pondo em seu lugar um bispo sagrado com vossas manoplas, vitoriado só por vós com palavras blasfemas e malditas...
Calai-vos, dom cardeal, gritou Afonso Henriques, que mentis pela gorja! Ensinar-me a fé? Tão bem em Portugal como em Roma sabemos que Cristo nasceu da Virgem; tão certo, como vós outros romãos, cremos na Santa Trindade. Se a outra cousa vindes, amanhã vos ouvirei: hoje ir-vos podeis a vossa pousada. E ergueu-se: os olhos chamejavam-lhe de furror. Toda a ousadia do legado desapareceu como fumo; e, sem atinar com resposta, saiu do alcácer. O galo tinha cantado três vezes: pelo arrebol da manhã, o cardeal partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda repousadamente. O príncipe foi um dos que despertaram mais cedo. Os sinos harmoniosos da Sé costumavam acordá-lo tocando as ave-marias: mas naquele dia ficaram mudos; e, quando ele se ergueu, havia mais de uma hora que o Sol subia para o alto dos céus da banda do Oriente.
Misericórdia!, misericórdia!, gritavam devotamente homens e mulheres à porta do alcácer, com alarido infernal. O príncipe ouviu aquele ruído. Que vozes são estas que soam?, perguntou ele a um pajem. O pajem respondeu-lhe chorando: senhor, o cardeal excomungou esta noite a cidade e partiu: as igrejas estão fechadas; os sinos já não há quem os toque; os clérigos fecham-se em suas pousadas. A maldição do santo padre de Roma caiu sobre nossas cabeças. Outras voz soou à porta do alcácer: misericórdia!, misericórdia! Que enfreiem e selem o meu cavalo de batalha. Pajem, que enfreiem e selem o meu melhor corredor. Isto dizia o príncipe encaminhando-se para a sala de armas. Aí envergou à pressa um saio de malha e pegou em um montante que dois portugueses dos de hoje apenas valeriam a alevantar do chão. O pajem tinha saído, e dali a pouco o melhor cavalo de batalha que havia em Coimbra tropeava e rinchava à porta do alcácer.
Um clérigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de Coimbra seguia o caminho da Vimieira e, de instante a instante, espicaçava os ilhais da cavalgadura com seus acicates de prata. Em outras duas mulas iam ao lado dele dois mancebos com caras e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam as gramaticais. Eram o cardeal, que se ia a Roma, e dois sobrinhos seus, que o haviam acompanhado. Entretanto o príncipe partida de Coimbra sozinho. Quando pela manhã Gonçalo Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o carácter violento de Afonso Henriques, os dois cavaleiros seguiram-lhe a pista à rédea solta, e iam já muito longe quando viram o pó que ele alevantava, correndo ao longo da estrada, e o cintilar do sol, batendo-lhe de chapa na cervilheira, semelhante ao dorso de um crocodilho». In Alexandre Herculano. O Bispo Negro (1130) e Arras por Foro de Espanha, 1851, Livraria Bertrand, Editorial Verbo, Biblioteca Básica Verbo, 1971.

Cortesia de Lbertrand/Everbo/JDACT

O bispo Negro (1130). Alexandre Herculano. «Como hás nome?, perguntou-lhe o príncipe. Senhor, hei nome Çoleima. És bom clérigo?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Dom Bernardo! Dom Bernardo!, disse o príncipe, sufocado de cólera, lembrai-vos de que afronta que se me fizesse nunca ficou sem paga! Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe? Não! Mil vezes não! Guardai-vos! E o bispo saiu, sem dizer mais palavras. Afonso Henriques ficou pensativo por algum tempo; depois, falou em voz baixa com Lourenço Viegas, o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua câmara. Daí a pouco o alcácer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no mais profundo silêncio.
Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço Viegas passeava com o príncipe na sala de armas do paço mourisco. Se eu próprio o vi, montado na sua nédia mula, ir lá muito ao longe, caminho da terra de Santa Maria. Na porta da Sé estava pregado um pergaminho com larga escritura, que, segundo me afirmou um clérigo velho que aí chegara quando eu olhava para aquela carta, era o que eles chamam o interdito... Isto dizia o Espadeiro, olhando para todos os lados, como quem receava que alguém o ouvisse. Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me excomunga, porque assim o quis o papa: dar-lhe-ei outro que me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo à Sé. Bispo Bernardo, quando te arrependeres da tua ousadia já será tarde.
Dali a pouco as portas da Sé estavam abertas, porque o sol era nado, e o príncipe, acompanhado de Lourenço Viegas e de dois pajens, atravessava a igreja e dirigia-se à crasta, onde, ao som de campa tangida, tinha mandado ajuntar o cabido, com pena de morte para o que aí faltasse. Solene era o espectáculo que apresentava a crasta da Sé de Coimbra. O sol dava, com todo o brilho de manhã puríssimo, por entre os pilares que sustinham as abóbadas dos cobertos que cercavam o pátio interior. Ao longo desses cobertos caminhavam os cónegos com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bago suave do vento matutino. No topo da crasta estava o príncipe em pé, encostado ao punho da espada, e, um pouco atrás dele, Lourenço Viegas e os dois pajens.
Os cónegos iam chegando e formavam um semicírculo a pouco distância de el-rei, em cuja cervilheira de malha de ferro ferviam buliçosos os raios do sol. Toda a clerezia da Sé estava ali apinhada, e o príncipe, sem dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia envolto em fundo pensar. O silêncio era completo.     Por fim Afonso Henriques ergue o rosto carrancudo e ameaçador e disse: cónegos da Sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de Portugal? Ninguém respondeu palavra. Se não sabeis, dir-vo-lo-ei eu, prosseguiu o príncipe: vem assistir à eleição do bispo de Coimbra. Senhor, bispo havemos. Não cabe aí nova eleição, disse o mais e velho e autorizado dos cónegos que estavam presentes e que era o adaião. Ámen, responderam os outros. Esse que vós dizeis, bradou o infante cheio de cólera, esse jamais o será. Tirar-me quis ele o nome de filho de Deus; eu lhe tirarei o nome do seu vigário. Juro que nunca em meus dias porá dom Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal ensinará um rebelde a fé das santas escrituras! Elegei outro: eu aprovarei vossa escolha.
Senhor, bispo havemos. Não cabe aí nova eleição, repetiu o adaião. Ámen, responderam os mais. O furor de Afonso Henriques subiu de ponto com esta resistência. Pois bem! disse ele, com a voz presa na garganta, depois de olhar terrível que lançou pela assembléia, e de alguns momentos de silêncio. Pois bem! Saí daqui, gente orgulhosa e má! Saí, vos digo eu! Alguém por vós elegerá um bispo... Os cónegos, fazendo profundas reverências, encaminharam-se para as suas celas, ao longo das arcarias da crasta. Entre os que ali se achavam, um negro, vestido de hábitos clericais, tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquela cena; os seus cabelos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão da tez. Quando o príncipe falava, ele sorria-se e meneava a cabeça, como quem aprovava o dito. Os cónegos começavam a retirar-se, e o negro ia após eles. Afonso Henriques fez-lhe um sinal com a mão. O negro voltou para trás.
Como hás nome?, perguntou-lhe o príncipe. Senhor, hei nome Çoleima. És bom clérigo? Na companhia não há dois que sejam melhores. Bispo serás, Dom Çoleima. Vai tomar teus guisamentos, que hoje me cantarás missa. O clérigo recuou: naquela face tisnada viu-se uma contracção de susto. Missa não vos cantarei eu, senhor, respondeu o negro com voz trémula, que para tal auto não tenho as ordens requeridas. Dom Çoleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás os degraus do altar-mor da Sé de Coimbra, ou a cabeça te descerá de cima dos ombros e rolará pelas lájeas deste pavimento.
O clérigo curvou a fronte. Kirie-eleyson... Kirie-eleyson... Kirie-eleysom!, garganteava daí a pouco Dom Çoleima, revestido dos hábitos episcopais, junto ao altar da capela-mor. O infante Afonso Henriques, o Espadeiro e os dois pajens, de joelhos, ouviam missa com profunda devoção». In Alexandre Herculano. O Bispo Negro (1130) e Arras por Foro de Espanha, 1851, Livraria Bertrand, Editorial Verbo, Biblioteca Básica Verbo, 1971.

Cortesia de Lbertrand/Everbo/JDACT

O Bispo Negro (1130). Alexandre Herculano. «Desçamos à sala de armas e vejamos o que ele quer. E desceram»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Houve tempo em que a velha catedral conimbricense, hoje abandonada de seus bispos, era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as margens areentas do Mondego. Então, o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavíssima, mais rica de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador dos segredos de tantas almas, que crêem existir nele, e só nele, uma inteligência que as perceba. Então aquelas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos de homens, desde que os seus edificadores as tinham colocado sobre as alturas; e, todavia, já então ninguém sabia se esses edificadores eram da nobre raça goda, se da dos nobres conquistadores árabes. Mas, quer filha dos valentes do Norte, quer dos pugnacíssimos sarracenos, ela era formosa, na sua singela grandeza, entre as outras sés das Espanhas. Aí sucedeu o que ora ouvireis contar.
Aproximava-se o meado do duodécimo século. O príncipe de Portugal Afonso Henriques, depois de uma revolução feliz, tinha arrancado o poder das mãos de sua mãe. Se a história se contenta com o triste espectáculo de um filho condenado ao exílio aquela que o gerou, a tradição carrega as tintas do quadro, pintando-nos a desditosa viúva do conde Henrique a arrastar grilhões no fundo de um calabouço. A história conta-nos o facto; a tradição verosímil; e o verosímil é o que importa ao que busca as lendas da pátria.
Em uma das torres do velho alcácer de Coimbra, assentado entre duas ameias, a horas em que o sol fugia do horizonte, o príncipe conversava com Lourenço Viegas, o Espadeiro, e com ele dispunha meios e apurava traças para guerrear a mourisma. E lançou casualmente os olhos para o caminho que guiava ao alcácer e viu o bispo Bernardo, que, montado em sua nédia mula, cavalgava apressado pela encosta acima. Vedes vós, disse ele ao Espadeiro, o nosso leal Bernardo, que para cá se encaminha? Negócio grave, por certo, o faz sair a tais desoras da crasta da sua sé. Desçamos à sala de armas e vejamos o que ele quer. E desceram.
Grandes lampadários ardiam já na sala de armas do alcácer de Coimbra, pendurados de cadeiras de ferro chumbadas nos fechos dos arcos de volta de ferradura que sustentavam os tectos de grossa cantaria. Pelos feixes de colunas delgadas, entre si separadas, mas ligadas sob os fustes por base comum, pendiam corpos de armas, que reverberavam a luz das lâmpadas e pareciam cavaleiros armados, que em silêncio guardavam aquele amplo aposento. Alguns homens de mesnada faziam retumbar as abóbadas, passeando de um para outro lado.
Uma portinha, que ficava em um ângulo da quadra, abriu-se, e dela saíram o príncipe e Lourenço Viegas, que desciam da torre. Quase ao mesmo tempo assomou no grande portal de entre o vulto venerável e solene do bispo Bernardo. Guardai-vos Deus, dom bispo! Que mui urgente negócio vos traz aqui esta noute?, disse o príncipe ao bispo Bernardo. Más novas,. senhor. Trazem-me aqui a mim letras do papa, que ora recebi. E que quer de vós o papa? Que de sua parte vos ordene solteis vossa mãe... Nem pelo papa, nem por ninguém o farei.
E manda-me que vos declare excomungado, se não quiserdes cumprir seu mandado. E vós que intentais fazer? Obedecer ao sucessor de São Pedro. Quê? don Bernardo amaldiçoaria aquele a quem deve o bago pontifical; aquele que o alevantou do nada? Vós, bispo de Coimbra, excomungaríeis o vosso príncipe, porque ele não quer pôr a risco a liberdade desta terra remida das opressões do senhor de Trava e do jugo do rei de Leão; desta terra que é só minha e dos cavaleiros portugueses? Tudo vos devo, senhor, atalhou o bispo, salvo a minha alma, que pertence a Deus, a minha fé, que devo a Cristo, e a minha obediência, que guardarei ao papa». In Alexandre Herculano. O Bispo Negro (1130) e Arras por Foro de Espanha, 1851, Livraria Bertrand, Editorial Verbo, Biblioteca Básica Verbo, 1971.

Cortesia de Lbertrand/Everbo/JDACT

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A Arrábida Alexandre Herculano. «Oh, como surge majestosa e bela, com viço da criação, a natureza no solitário vale! E o leve insecto e a relva e os matos e a fragrância pura das boninas da encosta estão contando»

Cortesia de wikpedia e jdact

«Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
o poeta fugir, cingir-se ao ermo,
qual ao freixo robusto a frágil hera,
e a romagem do túmulo cumprindo,
só conhecer, ao despertar na morte,
essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
que íntima voz contínuo nos promete
no trânsito chamado o viver do homem.

Suspira o vento no álamo frondoso;
as aves soltam matutino canto;
late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
dos alcantis na base carcomida:
eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
insondado oceano, e o céu cerúleo
se abraçam no horizonte. Imensa imagem
da eternidade e do infinito, salve!

Oh, como surge majestosa e bela,
com viço da criação, a natureza
no solitário vale! E o leve insecto
e a relva e os matos e a fragrância pura
das boninas da encosta estão contando
mil saudades de Deus, que os há lançado,
com mão profusa, no regaço ameno
da solidão, onde se esconde o justo.

E lá campeiam no alto das montanhas
os escalvados píncaros, severos,
quais guardadores de um lugar que é santo;
atalaias que ao longe o mundo observam,
cerrando até o mar o último abrigo
da crença viva, da oração piedosa,
que se ergue a Deus de lábios inocentes.

Sobre esta cena o sol verte em torrentes
da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
pelos rosmaninhais, e inclina os topos
do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
desses tronos de fragas sobrepostas,
que alpestres matas de medronhos vestem;
o rocio da noite à branca rosa
no seio derramou frescor suave,
e inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

Negro, estéril rochedo, que contrastas,
na mudez tua, o plácido sussurro
das árvores do vale, que vicejam
ricas d’encantos, coa estação propícia;
suavíssimo aroma, que, manando
das variegadas flores, derramadas
na sinuosa encosta da montanha,
do altar da solidão subindo aos ores,
és digno incenso ao Criador erguido;
livres aves, filhas da espessura,
que só teceis da natureza as hinos,
o que crê, o cantor, que foi lançado,
estranho no mundo, no bulício dele,
vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
dus homens esquecer paixões e opróbio,
e ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
o Sol, e uma só vez puro saudar-lha.

Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
e se desprende de mortais memórias
na solidão solene, onde, incessante,
em cada pedra, em cada flor se escuta
do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
a dextra sua em multiforme quadro.

Escalvado penedo, que repousas
lá no cimo do monte, ameaçando
ruína ao roble secular da encosta,
que sonolento move a coma estiva
ante a aragem do mar, foste formoso;
já te cobriram cespedes virentes;
mas o tempo voou, e nele envolta
a formosura tua. Despedidos
das negras nuvens o chuveiro espesso
e o granizo, que o solo fustigando
tritura a tenra lanceolada relva,
durante largos séculos, no Inverno,
dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
e deixa, em vez de um serafim m Terra,
queimada flor que devorou o raio.
[…]

In Alexandre Herculano, A Harpa do Crente, A Arrábida, 1830, Livros de Bolso Europa-América 257.

Cortesia PEAmérica/JDACT

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Morte do Lidador. Resumo. Alexandre Herculano. «A um sinal do Lidador, a cavalgada parou; era necessário repousar, que o sol ia no zénite e abrasava a terra; descavalgaram todos à sombra de um azinhal e, sem desenfrear os cavalos…»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«(…) No dia em que Gonçalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Beja, cumpria os noventa e cinco anos, ninguém saíra, pelo arrebol da manhã, a correr o campo; e, todavia, nunca tão de perto chegara Almoleimar; porque uma frecha fora pregada a mão num grosso sovereiro que sombreava uma fonte a pouco mais de tiro de funda dos muros do castelo. Era que nesse dia deviam ir mais longe os cavaleiros cristãos: Lidador pedira aos pajens o seu lorigão de malha de ferro e a sua boa toledana. Trinta fidalgos, flor da cavalaria, corriam à rédea solta pelas campinas de Beja; trinta, não mais, eram eles; mas orçavam por trezentos os homens d’armas, escudeiros e pajens que os acompanhavam. Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador, cujas barbas brancas lhe ondeavam, como flocos de neve, sobre o peitoral da cota d’armas, e o terrível Lourenço Viegas, a quem, pelos espantosos golpes da sua espada, chamavam o Espadeiro. Eram formoso espectáculo o esvoaçar dos balsões e signas, fora de suas fundas e soltos ao vento, o cintilar das cervilheiras, as cores variegadas das cotas, e as ondas de pó que se alevantavam debaixo dos pés dos ginetes, como se alevanta o bulcão de Deus, varrendo a face de campina ressequida, em tarde ardente de verão.
Ao largo, muito ao largo, dos muros de Beja cai a atrevida cavalgada em demanda dos mouros; e no horizonte não se vêm senão os topos pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto quanto os cavaleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um albornoz branco alvejam ao longe sobre um cavalo murzelo. Os corredores cristãos volteiam na frente da linha dos cavaleiros, correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos e transpõem-nos em breve; entram pelos canaviais dos ribeiros; aparecem, somem-se, tornam a sair ao claro; mas, no meio de tal lidar, apenas se ouvem o trote compassado dos ginetes e o grito monótono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira. A terra que pisam é já dos mouros; é já além da frontaria. Se olhos de cavaleiros portugueses soubessem olhar para trás, indo em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo enxergariam Beja. Bastos pinhais começavam já a cobrir mais crespo território, cujos outeirinhos, aqui e ali, se alteavam suaves, como seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos cavaleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas d’ouro que se defendiam. A um sinal do Lidador, a cavalgada parou; era necessário repousar, que o sol ia no zénite e abrasava a terra; descavalgaram todos à sombra de um azinhal e, sem desenfrear os cavalos, deixaram-nos pastar alguma relva que crescia nas bordas de um arroio vizinho.
Tinha passado meia hora, por mandado do velho fronteiro de Beja um almogávar montou a cavalo e aproximou-se à rédea solta de uma selva extensa que corria à mão direita: pouco, porém, correu; uma flecha desferida dos bosques sibilou no ar: o almogávar gritou por Jesus: a flecha tinha-se embebido ao lado: o cavalo parou de repente, e ele, erguendo os braços ao ar, com as mãos abertas, caiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu desenfreado através das veigas e desapareceu na selva. O almogávar dormia o último sono dos valentes em terra de inimigos, e os cavaleiros da frontaria de Beja viram o seu transe do repousar eterno. - A cavalo! A cavalo!, bradou a uma voz toda a lustrosa companhia do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura de malha dos ginetes, soou uníssono, quando todos os cavaleiros cavalgaram de um pulo; e os ginetes rincharam de prazer, como aspirando os combates. Grita medonha troou ao mesmo tempo, além do pinhal da direita. - Alá! Almoleimar!, era o que dizia a grita». In Alexandre Herculano, A morte do Lidador, Resumo, Antologia da Literatura Mundial, Logos, 1959.

Cortesia de Logos/JDACT

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Os Livros de Linhagens. Alfarrábio da Universidade do Minho. «Este dom Egas Gomez siia casado com dona Gontinha Gonsaluez filha deste dom Gomçalo Meemdez o lidador. A dom Gomçallo Meen dez se mudaua cada vez mais a cara do rrostro e emtemdeo sua fraqueza dom Affomso Ermigic de Bayam...»

Cortesia de susanasantosgoncalves

Quarto Livro de Linhagens ou Nobiliario do conde Pedro de Barcelos
O Lidador. De dom Gomçallo Meendez da Maya o lidador e das batalhas que ouue
«(…) E os christãaos himdosse muy ledos pella vitoria que ouuerom, como quer que delles muytos, despereçessem, oolharom per huum gram campo e virom viir mill de cauallo quamto mais podiam: este era Alboaçem rrey de Tanger que passara aaquem mar por cobrar o castello de Mertola que lhe tiinha forçado huum seu tyo, o quall castello fora de huum seu avoo deste Alboaçem. Este Alboaçem quisera seer na lide primeyra d'Almoleymar e nom pode porque Almol se coytou rompemdo a alua. E disserom a dom Gomçallo Meemdez em como aquellas companhas viinham, e elle chamou todollos seus fidallgos e fez com elles sua falla, que sabiam em como fora vontade de Deus de leixar com elles dom Affomso Amrriquez por guarda daquella frontaria, nom pello elle mereçer mais porque foi sua vomtade, e que como quer que cada huum delles esto mais mereçesse que lhes pedia por mesura que pois os mouros viinham tam açerca e em esto nom podia aver comsselho alomgado que lhes prouguesse del dizer em esto aquello que lhe pareçesse. E elles todos louuaromno como aquell que era muito amado delles, e disselhes «senhores peçouos huum dom que me outorguedes o que vos quero pedir:» e elles louuaromno dizemdo que nom podia seer cousa que elle demandasse que lhes elles nom outorgassem, ca bem çertos eram que nom demandaria senom todo aguisado e sua honrra delles. E porque elle estaua mall chagado e emtemdia em ssy que a lide nom poderia sofrer por as gramdes chagas que tiinha no corpo que lhe dera Almoleymar de que perdia muito sangue de que emfraqueçiam as pernas e os membros, temendosse do caualgar com a fraqueza, o que elle emcubria muy bem a todos, pediolhes que se elle despereçesse naquela lide que ficasse dom Egas Gomez de Sousa em seu logar que era de boa linhagem e de gramdes bomdades. E elles rrespomderom que Deus o guardaria de todo cajam e de todo periigo, e sse tall cousa acomteçesse que elles fariam como lhe elle mamdaua. Este dom Egas Gomez siia casado com dona Gontinha Gonsaluez filha deste dom Gomçalo Meemdez o lidador. A dom Gomçallo Meen dez se mudaua cada vez mais a cara do rrostro e emtemdeo sua fraqueza dom Affomso Ermigic de Bayam e disselhe que sse desarmasse e que sse assentasse no campo, ca elles todos morreriam ant'ell ou vemçeriam, e elle disse que Deus nom quisesse que el escomdesse sua força emquanto lhe podesse durar amtre taaes amigos. E neesto os mouros viinham a gram pressa como aquelles que tiinham que os christãaos achariam cansados e chagados da primeira lide que ouuerom: e neesto disse dom Gomçallo Meemdez, «senhores, estes mouros veem com gram loucura, vaamollos rreçeber.» Alli desarramcarom todos comtra elles e en as primeiras feridas cayo dom Gomçallo Meemdez do cauallo como aquell que estaua ja sem força. E os fidallgos que eram muito seus amigos e estremados em bomdades quamdo viron seu caudell, desejamdo sa vida sobre todallas cousas, faziam cada uez melhor creçendolhes as forças como aquelles que eram mazellados da perda de tall amigo que tiinham que ja o nom podiam vimgar se ali o nom vimgauam. E por esta gram força açemdiasse cada uez mais e mais como aquelles que eram de gram coraçom. E de todas partes do mundo em aquell tempo escrareçiam a sas boomdades das cauallarias que faziam. Alli se espedaçauam capellinas e baçinetes e talhauam escudos e esmalhauam fortes lorigas, e feriromsse de tam dura força de tamanhos golpes que os christãaos da Espanha e os mouros que desto ouuirom fallar dos talhos das espadas que naquel logar forom feitos diserom que taaes golpes nom podiam seer dados por homeens. E esto nom foy marauilha por assy teerem, ca hi ouue golpes que derom per çima dos ombros que femderom meetade dos corpos e as sellas em que hiam e gram parte dos cauallos, e outros talhauam per meyo que as meetades se partiam cada huuma a ssa parte: e disserom que Santiago os fizera com sa mãao, pero a verdade foy esta, elles forom dados por os muy boos fidallgos com ajuda de Samtiago, e os mouros viromsse mal treitos nom o poderom sofrer e forom uençidos. E os christãaos pereçerom melhor da quarta parte: e forom a dom Gomçallo Meemdez e acharomno morto, e a tristeza e o doo dos fidallgos foy muy grande, e leuaromno muito homrradamente. El era d'idade de nouenta e çimquo annos, e alli lhe poserom nome o boo velho lidador como quer que o ja ante chamassem avia gram tempo lidador. E oolharom por as chagas que tiinha e ouuerom por gram marauilha de lhe tanto poder durar a força, ca ellas eram grandes e estauam em logares mortaaes». In Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores.

In Livros de Linhagens, Projecto Vercial, Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores, Alfarrábio da Universidade do Minho, 1996-2013, Wikipédia.

Cortesia de P.Vercial/JDACT

domingo, 11 de maio de 2014

Os Livros de Linhagens. Alfarrábio da Universidade do Minho. «… fosse que cauallgasse em o cauallo e que posesse seu padre ante ssy e que ante noite seria em sa terra com seu padre: e assy foy. E depois a cabo de tempo morreo dom Diego Lopez e ficou a terra a seu filho dom Enheguez Guerra»

Cortesia de susanasantosgoncalves

Quarto Livro de Linhagens ou Nobiliario do conde Pedro de Barcelos
A Dama Pé-de-Cabra
«(…) Depois a cabo de tempo foy este dom Diego Lopez a fazer mall aos mouros, e premderomno e leuaromno pera Tolledo preso. E a seu filho Enheguez Guerra pesaua muito de ssa prisom, e veo fallar com os da terra per que maneyra o poderiam auer fora da prisom. E elles disserom que nom sabiam maneyra por que o podessem aver, saluamdo sse fosse aas montanhas e achasse sa madre, e que ella lhe daria como o tirasse. E ell foy alaa soo em çima de seu cauallo, e achoua em çima de huuma pena: e ella lhe disse «filho Enheguez Guerra, vem a mym ca bem sey eu ao que ueens:» e ell foy pera ella e ella lhe disse «veens a preguntar como tiraras teu padre da prisom.» Emtom chamou huum cauallo que amdaua solto pello momte que avia nome Pardallo e chamouo per seu nome: e ella meteo huum freo ao cauallo que tiinha, e disselhe que nom fezesse força pollo dessellar nem pollo desemfrear nem por lhe dar de comer nem de beuer nem de ferrar: e disselhe que este cauallo lhe duraria em toda sa vida, e que nunca emtraria em lide que nom vemçesse delle. E disselhe que caualgasse em elle e que o poria em Tolledo ante a porta hu jazia seu padre logo em esse dia, e que ante a porta hu o caualo o posesse que alli deçesse e que acharia seu padre estar em huum curral, e que o filhasse pella maão e fezesse que queria fallar com elle, que o fosse tirando comtra a porta hu estaua ho cauallo, e que desque alli fosse que cauallgasse em o cauallo e que posesse seu padre ante ssy e que ante noite seria em sa terra com seu padre: e assy foy. E depois a cabo de tempo morreo dom Diego Lopez e ficou a terra a seu filho dom Enheguez Guerra». In Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores.

O Lidador. De dom Gomçallo Meendez da Maya o lidador e das batalhas que ouue
Este dom Gomçallo Meemdez irmãao de dom Soeiro Meemdez o boo como se mostra em este parrafo IIIº suso dito foy adeamtado por elrrey dom Affonsso Amriquez en a fronteyra, e vemçeo muitas lides de que aqui nom fallamos. E huum dia himdo a correr apar de Beja ouue duas lides, huuma com Almoliamar e a outra com Alboaçem rrey de Tanger. E Almoliamar chamousse vemçedor das lides porque era auemturado em ellas, e avia tall força que em todo homem que posesse a lamça nom lhe valia armadura que sse lhe nom quebrasse que lha nom metesse pelo corpo. E ouuerom aquelle dia sua lide muito aficada e acharomsse ambos no campo e deromsse das lamças e forom a terra: e alli faziam huuns e os outros de todas partes muyto pera liurar aquelle com que veera. E estamdo assy a lide muito aficada chegou dom Egas Gomez de Sousa filho de dom Gomez Echigit, e dom Gomez Meemdez Gedeam, e os filhos de dom Egas Moniz de rriba de Doiro e liurarom dom Gomçallo Meemdez e pozeromno em huum cauallo; e ali foy mais aficada a lide assy que os mouros nom no poderom sofrer e foram vemçidos e morto dom Amoleimar, e dom Gomçallo Meemdez chagado de chagas mortaaes». In Livros de Linhagens, Projecto Vercial, Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores, Alfarrábio da Universidade do Minho, 1996-2013, Wikipédia.

Cortesia de P.Vercial/JDACT

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Os Livros de Linhagens. Alfarrábio da Universidade do Minho. «A primeira, pera se cumprir e guardar este precepto de que primeiro falamos. A segunda, e por saberem estes fidalgos de quais descenderam de padre a filho e das linhas travessas. A terceira, por serem de um coraçom de haverem de seus enmigos que som em estruimento…»

Cortesia de susanasantosgoncalves

Quarto Livro de Linhagens ou Nobiliario do conde Pedro de Barcelos
Prologo
«(…) E o que me a esto moveu forom sete cousas: A primeira, pera se cumprir e guardar este precepto de que primeiro falamos. A segunda, e por saberem estes fidalgos de quais descenderam de padre a filho e das linhas travessas. A terceira, por serem de um coraçom de haverem de seus enmigos que som em estruimento da fe de Jesu Cristo, ca, pois eles vem de um linhagem e sejam no quarto ou no quinto grau ou dali acima, nom devem poer deferença antre si. E mais que som chegados como primos e terceiros, ca mais nobre cousa e, e mais santa, amar o homem a seu parente alongado per divido, se bom e, que amar ao mais chegado, se faleçudo e. E os homens que nom som de bom conhecer nom fazem conta do linhagem que hajam, senão de irmãos e primos coirmãos e segundos e terceiros; e dos quartos acima nom fazem conta. Estes tais erram a Deus e a si, ca o que tem parente no quinto ou sexto grau, ou dali acima, se e de grão poder, deve-o servir porque vem de seu sangue; e se e seu igual, deveo de ajudar; e se e mais pequeno que si, deve-lhe fazer bem e todos devem ser de um coraçom. A quarta, por saberem os nomes daqueles donde vem e algumas bondadades que em eles houve. A quinta, por os reis haverem de conhecer aos vivos com mercees por os merecimentos e trabalhos e grandes lazeiras que receberom os seus avos em se ganhar esta terra de Espanha per eles. A sexta, pera saberem como podem casar sem pecado, segundo os sacramentos da Santa Igreja. A setima, pera saberem de quais moesteiros som naturais e benfeitores. E por esta materia ser mais crara e os nobres fidalgos saberem por grã parte dos linhagens dos reis e emperadores e dos feitos em breve que forom e passarom nas outras terras do começo do mundo, u os seus avos forom a demandar suas aventuiras por que eles ganharom nome e os que dele decenderom, por algumas nobrezas que ali fezerom, falaremos primeiro do linhagem dos homens e dos reis de Jerusalem, des Adão ataa nacença de Jesu Cristo; e das conquistas que fezerom os reis de Síria e el-rei Farão e Nabucodonosor em Jerusalem. Des i falaremos dos reis da Troia e dos reis de Roma e emperadores, e dos reis da Gram-Bretanha, que ora se chama Inglaterra. Des i dos reis gentis que houve em Persia, e reis e emperadores que houve no Egipto e em Roma, e da destruiçom de jerusalem e como d'i levou Vaspasiano pera Roma os novecentos mil judeus; e dos Godos como entrarom a Espanha e o tempo que em ela viverom, e como ao depois foi perduda per rei Rodrigo, e como foi cobrada per el-rei Palaio, o Montesinho, e per el-rei Dom Afonso o Catolico e per outros reis que apos eles vierom; e como, per soberba de el-rei Dom Ordonho de Leão, os Castelãos fezerom juízes que mantiveram a terra em dereito. E de como destes juízes decenderom os reis de Castela, de uma parte, e da outra, os reis de Navarra. Des i falaremos dos reis de Navarra e dos de Aragom e dos de França e donde decenderom os reis de Portugal.

A Dama Pé-de-Cabra
Este dom Diego Lopez era muy boo monteyro, e estando huum dia em sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco ouuyo cantar muyta alta voz huuma molher em çima de huuma pena: e el foy pera la e vioa seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorousse logo della muy fortemente e preguntoulhe quem era: e ella lhe disse que era huuma molher de muito alto linhagem, e ell lhe disse que pois era molher d'alto linhagem que casaria com ella se ella quisesse, ca elle era senhor naquella terra toda: e ella lhe disse que o faria se lhe prometesse que numca sse santificasse, e elle lho outorgou, e ella foisse logo com elle. E esta dona era muy fermosa e muy bem feita em todo seu corpo saluamdo que auia huum pee forcado como pee de cabra. E viuerom gram tempo e ouueram dous filhos, e huum ouue nome Enheguez Guerra, e a outra foy molher e ouue nome dona. E quando comiam de suum dom Diego Lopez e sa molher assemtaua ell apar de ssy o filho, e ella assemtaua apar de ssy a filha da outra parte. E huum dia foy elle a seu monte e matou huum porco muy gramde e trouxeo pera sa casa, e poseo ante ssy hu sia comemdo com ssa molher e seus filhos: e lamçarom huum osso da mesa e veerom a pellejar huum alaão e huuma podemga sobrelle em tall maneyra que a podenga trauou ao alaão em a garganta e matouo. E dom Diego Lopes quamdo esto uyo teueo por millagre e synousse e disse «samta Maria vall, quem vio numca tall cousa!» E ssa molher quamdo o vyo assy sinar lamçou maão na filha e no filho, e dom Diego Lopez trauou do filho e nom lho quis leixar filhar: e ella rrecudio com a filha por huuma freesta do paaço e foysse pera as montanhas em guisa que a nom virom mais nem a filha». In Livros de Linhagens, Projecto Vercial, Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores, Alfarrábio da Universidade do Minho, 1996-2013, Wikipédia.

Cortesia de P.Vercial/JDACT

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os Livros de Linhagens. Alfarrábio da Universidade do Minho. «Pedro, conde de Barcelos, era filho natural do rei Dinis I e bisneto de Afonso X. Os Livros de Linhagens foram publicados no século XIX por Alexandre Herculano nos Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores»

Cortesia de susanasantosgoncalves

Terceiro Livro de linhagens
Batalha do Salado
«(…) Ydeuos aaz do cural que eu mandei que uos guardasem e per la chegaredes a aliazira em saluo e partiredes uosa morte, que esta muyto acerca, ca podera seer que desmanharam os caualeiros que em ela estam e nom uos atenderam.» Dise el Rei almafacem «dime que caualeiros teens em ela.» Respondeulhi alcarac. «Senhor eles forom XIIII mil em começo e mandey eu os V mil em refrescamento das lides quando ui que todalas algazunas eram ia a lidar e tardauam que nom uenciam e asi ficarom IX mil.» Dise el Rei, «Dime alcarac eses IX mil que dizes que ficarom soom bons caualeiros?» «si senhor, dise alcarac, ca eles todos som alarabes.» Dise el Rei «Alcarac sabe que as costulaçoões do ceo se mudam muy toste segundo o corimento do ceo das pranetas, e as boõas uentuiras e as maas destas costulações nacem pelo poderio que lhis deos ordinhou. E se ora ouuemos maa costalaçom auelaemos boõa. Estes cristaãos ueem desacaudelhados e teem que ia nom podemos tornar a eles, segueme alearac e nom me desempares e tornemos aa lide.» En esto entrou antre estes IX mil caualeiros e tornou o rostro contra hu uiinham os cristaãos, e dise a grandes uozes, «Senhores nenbreuos que eu so o uoso Rei almafacen auenturado e uencedor de todalas lides que fiz, sabedes que eu uenci e soioguey os Reis de soioromeça e de tremecem, e as grandes gentes «dos alaraues» e pasei as montanhas e corí todalas areas e a gram terra de puscoa e de almadia, sabedes que a espanha foy de uosos auoos, estes cristaãos peros que uola teem forçada nom parecerom oie em canpo XIII mil caualeiros, e muytos deles som mortos e som fora de força por o gram trabalho que oie ouuerom, nom percades as famas de bondades de caualeria que sempre ouuestes e os filhos e as filhas e as molheres fremosas, e as grandes requezas que aqui trouuestes.» E dise muyto alta uoz «mafomede mafomede, nom desampares os teus.» Deu das esporas ao caualo muy rigamente contra os cristaãos que yam por seu encalço e dise «marim marim que eu so o Rei almofacem uencedor de todo o que cometi.» E indo a todo seu poder pera ferir da espada, dom alcarac o turco e o Infante bazayne seu filho del Rey encalçaronno e filharonno pela redea do caualo diseromlhi «senhor nom he oie o dia uoso, auedeuos por preso, ca nom queremos que aqui moirades, porque se os cristaãos em uos topam asi todos ueem em tropel nom auedes defensom.» Alcarac entregou el Rei aaquel Infante seu filho e a XX caualeiros e mandou que se fosem indo com el em meyo da az do coral. Alcarac ficou na çaga com dous mil caualeiros os milhores que achou na az do coral e colhia asi todolos mouros que uiinham desbaratados e enuiauaos adeante a az do coral e yase muyto a paso com grande aroído datauaques e danafiis, e os cristaãos que yam per o encalço que em el topauam afastauaos de si fazendo sas esporoadas contra eles muy fremosamente, asi que todos aqueles que em el topauam nom guanharom com el prez. Asi foy defendendo sua çaga que todos os que se colherom a az do coral forom en salvo». In Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores.

Quarto Livro de Linhagens ou Nobiliario do conde Pedro de Barcelos
Prologo
«Da linhagem dos homens como vem de padre a filho, des o começo do mundo, e do que cada um viveu e de que vida foi. E começa em Adão, o primeiro homem que Deus fez, quando formou o ceu e a terra.
Em nome de Deus que e fonte e padre de amor, e porque este amor nom sofre nenhuma cousa de mal, porem em servi-lo de coraçom e carreira real, e nenhum melhor serviço nom pode o homem fazer que ama-lo de todo seu sen e seu proximo como si mesmo, porque este precepto e o que Deus deu a Moises na Vedra Lei. Porem eu, conde Dom Pedro, filho do mui nobre rei Dom Dinis, o houve de catar por grão trabalho, por muitas terras, escrituras que falavam dos linhagens. E vendo as escrituras com grande estudo e em como falavam de outros grandes feitos, compuge este livro por ganhar o seu amor e por meter amor e amizade antre os nobres fidalgos da Espanha. E como quer que antre eles deve haver amizade, segundo seu ordenamento antigo, em dando-se fe pera se nom fazerem mal uns aos outros, a menos de tornarem a este amor e amizade per desfazem-se. Esto diz Aristotiles que, se os homens houvessem antre si amizade verdadeira, nom haveriam mester reis nem justiças, ca amizade os faria viver seguramente em o serviço de Deus. E a todolos homens, ricos e pobres, cumpre amizade. E os que som meninos hão mester quem os crie e ensine; e, se som mancebos, hão mester quem os conselhe pera fazer sas cousas seguramente; e, se forem velhos, hão mester que lhes acorram aos seus desfalicimentos. E os amigos verdadeiros devem-se guardar em sas palavras de dizer cousa per que seus amigos nom venham a fama ou a mal, ca per i se desataria a amizade. E nom se devem mover a crer de ligeiro as cousas que lhes deles digam de mal, e devem-se guardar segredos e nom devem retraer as obras que se fezerom. E porque nenhuma amizade nom pode ser tão pura, segundo natura come daqueles que descendem de um sangue, porque estes movem-se mais de ligeiro as cousas por onde se mantem, houve de declarar este livro per títulos e per alegações, que cada um fidalgo de ligeiro esto pudesse saber e esta amizade fosse descoberta e nom se perdesse antre aqueles que a deviam haver». In Livros de Linhagens, Projecto Vercial, Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores, Alfarrábio da Universidade do Minho, 1996-2013, Wikipédia.

Cortesia de P.Vercial/JDACT

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Os Livros de Linhagens. Alfarrábio da Universidade do Minho. «Dos restantes chegaram até nós apenas fragmentos (Segundo de Linhagens, ou Segundo Livro Velho, e Terceiro Livro de Linhagens, ou Nobiliário da Ajuda). O Livro do Conde Pedro de Barcelos é o mais desenvolvido dos quatro…»

Cortesia de susanasantosgoncalves

«Os Livros de Linhagens, a que no século XVI se deu também o nome de Nobiliários, são quatro obras escritas durante a Idade Média onde se descreve a genealogia das principais famílias nobres no reino. O primeiro, também chamado Livro Velho e o quarto, conhecido como Nobiliário do Conde Pedro de Barcelos, estão completos. Dos restantes chegaram até nós apenas fragmentos (Segundo de Linhagens, ou Segundo Livro Velho, e Terceiro Livro de Linhagens, ou Nobiliário da Ajuda). O Livro do Conde Pedro de Barcelos é o mais desenvolvido dos quatro, tendo o autor pretendido apresentar um resumo da história universal. Pedro, conde de Barcelos, era filho natural do rei Dinis I e bisneto de Afonso X. Os Livros de Linhagens foram publicados no século XIX por Alexandre Herculano nos Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores». In Projecto Vercial

Segundo livro de linhagens
Lenda de Gaia
«(…) E el lhe respondeu – «ca o teu amor» –: e ella lhe dice que vinha a morrer, e elle lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice a donzela que o metese na camara, e que lhe não dese que comese nem que bebece; e a donzela pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou Abencadão e derãolhe que jantace, e depois de jantar foise para a rainha; e desque fizerão seu plazer, disse a rainha – «se tu aqui tivesses rei Ramiro, que lhe farias?» – O mouro então respondeu – «o que el a mi faria: matalo.» – Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse – «es tu rey Ramiro?» – e elle respondeu – «eu sou» – e o mouro lhe perguntou – «a que vieste aqui?» – elrey Ramiro lhe disse entom – «vim ver minha molher que me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de ti:» – e o mouro lhe disse – «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me tiveces em Mier que morte me darias?» – Elrey Ramiro era muito faminto e respondeolhe assim – «eu te daria um capão assado e huma regueifa, e fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa chea de vinho que bebesses: em cima abrira partas do meu curral, e faria chamar todas as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão, e fariate tanger o corno, ate que te hi sahice o folego.» – Então respondeo Abencadão – «essa morte te quero eu dar.» – E fez abrir os currais, e fezeo sobir em hum padrão que hi entom estava; e começou rey Ramiro enton em seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e meterão-se pela porta do castello, e el deceuse do padrom adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha, e descabeçando ata o menor mouro que havia em toda Gaya, andarão todos a espada, e nom ficou em essa villa de Gaya pedra sobre pedra que tudo não fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramyro deitouce a dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e diselhe, porque chorava, e ella diselhe – «choro por o mui bom mouro que mataste» – e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra que sa madre dissera, e disse ao padre – «padre não levemos comnosco mais o demo.» – Entom rey Ramiro filhou uma mo que trazia na nave, e ligoulha na garganta, e anchorouha no mar, e des aquella hora chamarão hi Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que lhe punha este nome porque seria padre e senhor de muito boa fidalguia; e morreo rey D. Ramiro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in pace». In Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores.

Terceiro Livro de linhagens
Batalha do Salado
Os castellaãos ouueram sa contenda grande com os mouros em pasar a ribeira do salado que era em riba do mar. Esto durou gram dia antre eles porque as azes dos mouros se refrescauam e hy moreo grandes gentes. Mais porque os castellaãos eram boõs caualeiros ouueromnos de forçar e pasarom a ribeira. Ali foi a lide tam grande antre eles que todo home que os uise caualeiros castelaãos bem poderia dizer que melhores caualeiros nom auia no mundo. Os mouros se refrescauam mais e mais, e porque uimham folgados feriamnos de toda força. E estando em esta presa os mouros uirom em como os da sa ley eram uençudos por os portugueeses, e em como os ja seguiam dultarom que se mais durasem na lide que os portugueeses lhi dariam nas costas, e começarom de fugir, pero esto nom lhis ualeo muyto, ca os portugueeses lhis sairom adeante. Ali foy a morte deles grande porque os castellaãos os leuauam em encalço e hyam ferindo e deribando em eles. El Rei almofacem quando uyo os seus sayr do campo dise muyto alta uoz os olhos contra o ceo, «Ay deos poderoso, ay deos uencedor, porque desemparasti este uelho coytado de presa de mezquiidade, coberto de mingua de uergonha sobre todolos Reis do mundo? Ay uelho, oie perdiste o teu nome que auyas em toda eyropa em toda africa e em asia.» Lançaua as maãos da barua que tiinha muy longa e caã e mesauaa toda e daua grandes feridas em seu rostro. En aquel tempo chegou alcarac a el e diselhi, «Senhor esto nom uos compre porque quando a senha e a yra de deos uem hu lhe praz todolos conselhos e saberes nom ualem rem». In Livros de Linhagens, Projecto Vercial, Portugaliae Monumenta Historica, volume dedicado aos Scriptores, Alfarrábio da Universidade do Minho, 1996-2013, Wikipédia.

Cortesia de P.Vercial/JDACT